Por trás de Frozen
4 Capítulo 3 - É o dia da coroação!
Notas iniciais
POV LUDVIG
– Querido. – chama minha esposa, ansiosa. – Você está acordado?
Reviro-me na cama e olho para o teto de madeira, pensando se tinha cumprido todas as minhas tarefas corretamente e repassando todos os passos do dia de hoje.
Observei a decoração, a lista de convidados e como chegariam, a comida, a vestimenta dos empregados, os vestidos da Princesa Anna e da Rainha Elsa, a igreja onde Elsa será coroada, a coroa e o cajado, os músicos para o baile...
Hoje, devo organizar os pratos, conferir com cada empregado se sabe o que foi instruído a fazer, verificar as saídas de emergência, consertar algum problema que eventualmente apareça...
– Querido? – pergunta ela novamente, e balanço a cabeça para tentar ficar menos distraído.
– Estou, querida. – respondo. O dia mal começou e já me sinto cansado. Até minha voz está cansada. Talvez um doce me faria bem. Um bolo...
Espere, um bolo?!
– POR DEUS! – grito, já me xingando por ser tão burro a ponto de ter esquecido de encomendar o bolo.
– O que houve, Ludvig?! – pergunta minha esposa, preocupada, os cabelos louros e fartos bagunçados. – O que aconteceu?
– Esqueci de encomendar o bolo, Tyra! Ai, que idiota! – me levanto da cama, já colocando meu uniforme verde para ir à padaria o mais rápido o possível.
De repente, Tyra começa a rir. Eu a encaro, nervoso.
– Isso não é uma situação adequada para risos, Tyra. – mas ela continua rindo e eu não consigo fechar os botões da minha camisa. – Tyra, por favor, pare de rir e me ajude a fechar isso aqui porque...
– Você já foi à padaria, querido. – ela me interrompe, sorrindo. — Eu mesma fui com você para comprar batatas para o jantar.
Paro de abotoar os botões da camisa para dizer:
– Oh.
Sento-me abruptamente na cama, aliviado. Minha esposa olha para mim compreensivamente, os olhos castanho-esverdeados carinhosos.
– Imagino que não tenha dormido, Ludvig. – a voz dela é suave, tentando me acalmar.
– Não, não consegui. Estou muito preocupado com o dia de hoje.
Tyra senta na cama ao meu lado, pega minha mão e a aperta com força. A sensação é reconfortante, e me lembro de um dos motivos pelos quais eu me casei com ela: na pior das tempestades, ela sempre tem a capacidade de acalmar cada um dos presentes, até todos acreditarem que tudo dará certo. Por um instante, fico mais calmo e o ritmo do meu coração desacelera.
– Vai dar tudo certo, Ludvig. – ela diz, a voz risonha e ainda ansiosa. — Você é o melhor mordomo que um castelo poderia ter, além de ser muito fiel ao Rei. A coroação será maravilhosa.
– Não é só com isso que estou preocupado, Tyra. Os portões serão abertos e não sei como as meninas irão reagir. Cuidei delas desde que nasceram, e praticamente desde essa época não sabem o que é ter contato com o mundo além do castelo. – finalmente, me levanto da cama e olho para minha esposa. – Estou muito receoso, querida. Seria muito mais fácil se você ainda trabalhasse no castelo e estivesse lá comigo.
Ela se senta na beirada da cama e coloca as duas mãos no meu rosto. Suas mãos são quentes, pálidas e finas, e fecho os olhos pelo conforto que me trazem.
– O Rei conversou comigo de maneira muito clara antes de me demitir, Lud. Ele precisava diminuir o número de empregados no castelo para cortar custos, era uma época difícil. As vendas de peixes haviam caído, entre outras coisas, você sabe disso. – estou prestes a interromper quando ela coloca um dedo em meus lábios. — Sim, também sei que foi mais difícil para sustentar nossa casa e nossos filhos, mas o Rei sempre foi justo e confiou em você. Você deve continuar retribuindo da melhor forma possível, como sempre fez.
Sorrio ante seus olhos brilhantes e confiáveis. Eu posso fazer isso. De onde quer que o Rei e a Rainha de Arendelle estejam me vendo, sabem que podem contar comigo.
– Obrigado, querida. – beijo-a brevemente na bochecha sempre corada. – Acorde as crianças, vou até o castelo para ver os detalhes finais desta manhã. Depois, volto para buscar vocês.
– Acho que os pequenos já acordaram com seu grito. – ela se levanta. — Vou vê-los.
Ela aperta mais uma vez minhas mãos e se retira do quarto.
Termino de me trocar e, quando estou saindo de casa, ouço meus filhos darem gritos de ansiedade por se lembrarem de que a coroação é hoje. Todos estão ansiosos para a continuação da família de Arendelle no trono e, claro, para conhecer – pelo menos, saber como estão atualmente — a Princesa e a futura Rainha.
Espero um segundo, apenas para ouvir Daven reclamar sobre o casaco que deverá usar.
3, 2, 1...
– Ah, mãe, aquele casaco não!
Sorrio. Ah, Daven.
Saio de casa com o coração batendo a toda força, cheio de expectativa e, também, apreensão. Felizmente, é rápido chegar até o castelo porque minha casa se localiza ao lado dele – uma forma de, sob qualquer situação de perigo, eu ser chamado e me dirigir para lá imediatamente.
Há alguns anos, todos os empregados costumavam dormir no castelo, inclusive Tyra, eu e minha filha Sigrid, a única dos meus filhos que havia nascido. Depois de uma madrugada em que o Rei e a Rainha saíram desesperadamente cavalgando com as meninas e voltaram ainda mais aflitos do que saíram, mais da metade dos empregados foi demitida e todas as portas e janelas do castelo foram fechadas. A senhorita Elsa também nunca mais saiu de seu quarto, apenas em situações raras, como para se despedir de seus pais antes de embarcarem em sua... última viagem.
Meu coração se aperta com a perda do respeitável Rei de Arendelle e de sua amável Rainha. Balanço a cabeça, tentando afastar esse pensamento, pois tenho coisas mais importantes para me concentrar agora, como diria o Rei Agdar.
Mas, pensando particularmente naquela madrugada, não entendo o que aconteceu. Entretanto, minha lealdade ao Rei e Arendelle é maior do que minha curiosidade.
Mas admito que uma pequena explicaçãozinha não faria mal...
– Bom dia, Ludvig! – cumprimenta Kirk, um guarda do castelo. Aceno para ele com a cabeça. – Mas que festa teremos hoje, hein?! Todos estão animados e ansiosos com a coroação! Tenho certeza de que a Princesa Elsa será uma ótima Rainha.
Penso em todas as vezes em que Elsa fechou a porta abruptamente na cara de empregados, deixou de responder a inúmeros chamados e fico ainda mais preocupado com uma das minhas meninas. Sei que ela é boa, a conheço desde que nasceu, e o infortúnio quis que algo acontecesse a ponto de modificá-la tão radicalmente.
– Também tenho certeza, Kirk. – afirmo com veemência.
– Olhe só para essa decoração! Nunca vi Arendelle tão bonita.
Observo toda a aldeia decorada com laços coloridos, a bandeira verde, azul e dourada de Arendelle resplandecendo em cada canto da vila. Sorrio. Realmente, Arendelle nunca esteve tão bonita.
– Gostaria de ver mais, Kirk, mas devo chegar ao castelo e acordar as princesas.
– É claro! – ele abre as pesadas portas de madeira escura para mim. – Um ótimo dia, Ludvig!
Aceno, esperando que o otimismo de Kirk me contagie.
Entro correndo no castelo, me atendo vagamente à comida arrumada e aos decorativos – tudo certo, até onde pude perceber — e me dirijo ao quarto da senhorita Elsa. Por mais estranho que possa ser, sempre que me aproximo desse quarto sinto um frio gelado e terrível penetrando minhas veias, além da corrente fria que passa por baixo da porta.
Eu admito que já me inclinei para observar debaixo da porta a fim de ver se conseguia captar alguma coisa diferente no quarto de Elsa, mas senti tanto frio que me levantei rapidamente.
O pensamento me faz tremer, mas pisco forte para organizar meus pensamentos e bato levemente na porta, ansioso pela reação de Elsa.
Como esperado, ela não responde.
– Princesa Elsa? – tento.
– Sim? – ela responde, e posso perceber que sua voz está mais firme que o comum. Esse pequeno gesto me traz um pouco de esperança.
– A coroação começará em breve, Alteza, e venho comunicar-lhe de que deve se preparar.
Ela fica um momento em silêncio, e posso perceber a tensão que está sentindo.
– Será uma ótima Rainha, Alteza, eu lhe garanto. Seus pais ficarão orgulhosos de você.
– Confio em suas palavras, Ludvig. – ela joga as palavras, como se tentasse fazer com que eu não continuasse a incentivá-la. — Obrigada por me avisar. Assim que estiver pronta, me dirigirei até a Sala do Rei para verificar se a coroa e o cajado estão em posição, como fui informada. Pode se retirar.
A voz de Elsa é fria como gelo, robótica, tão diferente da de sua irmã que me faz perguntar novamente se são realmente parentes.
Alguns serviçais não gostam muito de Elsa, mas sempre fui fiel à minha menina pois sei que, debaixo de todo orgulho e frieza, é sempre educada, refinada e, principalmente, assustada.
– Como quiser, Alteza.
Retiro-me apressadamente, pedindo aos deuses que deem forças a minha menina, até que chego na porta do quarto de Anna, no fim do corredor. Até a porta de uma é diferente da outra; é branca como a de Elsa, mas com detalhes de flores amarelas e vibrantes, enquanto a da futura Rainha é decorada com cristais de gelo.
Bato levemente e espero um segundo até dizer:
– Princesa Anna?
Ela parece dizer alguma coisa, mas é tão baixo que mal ouço. Decido falar um pouco mais alto.
– Princesa Anna!
– Oi, oi... – a voz de Anna é alegre (apesar de, neste momento, estar contaminada pelo sono), e nunca deixou de ser assim, mesmo com toda a solidão que enfrenta. Tenho muito orgulho da minha menina.
– Desculpe acordá-la, Alteza. – Anna parece ser mais sensível que Elsa, mas sei que não é. Entretanto, quanto a seu sono, a Princesa Anna costuma ser mais... rigorosa.
– Não, não, não me acordou... – ouço-a bocejar. – Eu estou acordada há horas... – espero por um momento, pois sei que ela ainda está com o rosto entre as mãos tentando decidir se está em um sonho ou se acordou mesmo. Em poucos segundos, ela soltará uma exclamação assustada que começará a acordá-la definitivamente.
– 5, 4, 3, 2, 1... – conto baixinho.
– Hã, quem tá aí?!
É nesse momento que sei que seu cérebro sonhador começou a entender que se encontra na realidade.
– Ainda sou eu, Alteza. Os portões se abrirão em breve, deve se preparar.
– É claro... – mais alguns segundos de voz sonolenta. – Me preparar pra quê?
Agora, sei que ela já acordou, mas precisa de um incentivo para levantar da cama e ter mais um dia solitário. Normalmente, as tarefas de Anna são canto, piano, costura, ou chamar Elsa para brincar na neve (nunca entendi mas, como disse, não é minha função ser curioso). Mas a tarefa de hoje, com certeza, irá fazê-la acordar tão rápido como nunca antes.
– Para a coroação de sua irmã, Alteza.
Os últimos neurônios estão sendo ligados.
– Para a coroação... da minha irmã?
Então sei que ela olha para o vestido feito especialmente para o dia de hoje, cujo manequim deixei bem em frente a sua cama para que animasse seu dia.
Então sorrio. Trabalho feito.
– AH! A COROAÇÃO É HOJE!
Definitivamente acordada.
– É O DIA DA COROAÇÃO!
Ouço Anna se levantar da cama com estardalhaço e começar a, rapidamente, se trocar. Ah, Anna, sempre resplandecente.
Feliz com a alegria de uma das minhas meninas, dirijo-me até outros setores do castelo para verificar se está tudo certo. Enquanto verifico, ouço Anna cantando pelos corredores, e imagino-a dançando e falando com os quadros – seus companheiros de vida – sobre a coroação.
“Vai ter gente de verdade – eu vou até estranhar. Mas como eu estou pronta pra mudar!”
Vejo-a observando, maravilhada, as janelas abertas e acompanhando os mastros dos navios que estão chegando em Arendelle.
“Por uma vez na eternidade, essas luzes vão brilhar!”
Vejo-a flertando com aquela estátua de cavaleiro, pretendendo que é seu príncipe.
“Depois os risos e conversas, bem do jeito que sonhei. Nada como a vida que eu levei!”
E, finalmente, consigo vê-la acompanhar passo a passo dos guardas até os portões serem abertos e sentir a liberdade como um choque na alma, um choque de alegria tão intenso que animaria até os dias próximos ao fim do mundo.
“Por uma vez na eternidade, vou estender a minha mão!”.
A alegria dela é tão contagiante que eu me vejo realizando minhas tarefas mais feliz e até tendo a certeza de que, a partir de hoje, Arendelle nunca mais será a mesma.
Vou até o último cômodo que devo fiscalizar: A Sala do Rei. Elsa, provavelmente, já deve se encontrar na sala, preparando-se para a coroação. Bato levemente na porta.
– Entre. – como sempre, a voz estática, mas com um leve tremor. Claramente, não deve ser fácil se tornar a soberana de um país, sobretudo sendo tão jovem e sozinha.
Abro a porta e vejo Elsa de costas para mim, observando Arendelle pela janela. A luz forte do sol bate contra sua silhueta, que parece brilhar. Ela parece irradiar poder.
– Se me permite dizer, Alteza, está muito parecida com uma Rainha, assim como deve ser.
– Obrigada. – ela diz simplesmente.
Elsa não se move um centímetro, como se estivesse preocupada com seus movimentos. Vejo seu reflexo na janela, e seus olhos estão inquietos enquanto deslumbram toda a extensão de seu futuro reinado.
Um reinado tão grande para alguém que se acostumou a ter seu mundo concentrado em um quarto.
– Está tudo certo, Alteza? – pergunto, esperando que ela compreenda que não me refiro somente ao fato de a coroa e o cajado se encontrarem no lugar correto.
Ela demora um pouco para responder. Tenho vontade de ir até ela, olhar firmemente em seus olhos e transmitir toda a confiança que possuo na boa menina que sei que ela é.
– Sim, Ludvig. Agradeço novamente. Daqui a algum momento me dirigirei à capela, assim como me instruiu.
A Princesa Elsa sempre teve a necessidade de saber cada um de seus movimentos, como se tivesse medo deles. Ela deve estar pensando: Sala do Rei, igreja, festa, dormir. Sala do Rei, igreja, festa, dormir, imaginando cada situação e o que deverá fazer em cada uma delas.
– Saiba que pode recorrer ao meu auxílio sempre que precisar, Alteza. É para isso que estou aqui.
Repentinamente, ela se vira e olha para mim e, por um instante, temo ter visto medo em seus olhos, rapidamente substituídos por um olhar impassível. Ela segura as mãos com força.
– Está dispensado, Ludvig.
Olho-a por apenas mais um instante, pela última vez antes de se tornar Rainha de Arendelle.
Ela torna a se virar e observar o reino.
Fecho a porta e me dirijo, rapidamente, até minha casa, para buscar minha família para a coroação, que acontecerá dentro de instantes.
“Não podem vir. Não podem ver. Sempre a boa menina deve ser”.
Pobre Elsa. Pobre menina, a calculista de movimentos.
“Um gesto em falso e todos saberão”.
Felizmente, todos os meus três filhos e esposa já estão prontos e os encontro no meio do caminho.
Tyra está tentando abotoar o casaco de Daven, meu filho do meio, que se recusa a colocá-lo.
– Daven, eu sei que disse que a coroação não é sua culpa, mas deve-se portar como um cavalheiro hoje, e isso inclui o uso do casaco.
– Daven, vai logo. — diz Sigrid, minha filha mais velha. Ela está segurando Jorgen, o bebê da família, para sua mãe consiga adestrar Daven. – Se continuar assim, não vamos conseguir um bom lugar para ver a coroação da Princesa Elsa!
Meu filho bufa e, finalmente, deixa que a mãe coloque seu casaco.
Tyra pega o bebê das mãos de Sigrid, que rapidamente corre até junto de seu irmão do meio para acompanhá-lo na passagem dos portões que dividem o terreno do castelo da aldeia. Desviamos de um vendedor de gelo com sua rena, que está empacada por se recusar a andar sem comer uma cenoura, e passamos pelos portões.
– Por Deus, esse menino vai dar trabalho. – diz Tyra, ajeitando Jorgen nos braços.
– Sim, vai. – concordo, sem mais o que dizer.
Estou fascinado com o tanto de pessoas diferentes e entusiasmadas que vieram para a coroação. É tão contagiante, um sentimento tão estranho e bom de um recomeço que não consigo parar de sorrir, apesar de me lembrar da angústia nos olhos de Elsa. Sorrio porque tenho confiança nela, assim como todo o reino, e isso com certeza a ajudará a ser uma ótima Rainha, mesmo que, ainda, não saiba disso.
Minha esposa percebe isso e também sorri.
– Você também está sentindo a mudança, Ludvig? – pergunta, feliz.
– Sim. E estou ansioso por ela. – olho em meu relógio, ansioso, o coração na boca. – Veja, querida, de acordo com minhas instruções, os portões devem se abrir em poucos minutos.
“Diga aos guardas para abrir... o portão!”
“O portão!”
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