Por trás das câmeras

8 Álcool e profissionalismo não andam juntos


Por volta das 3h da manhã, caminho para casa com um enorme sorriso nos lábios, pensando o quão maravilhosa a noite foi. Os meninos disseram que eu tinha um pedido de aniversário e eu os fiz cantar e dançar Britney Spears. Hilário. Só de pensar, solto uma risada.

“Por favor, me diga que não é um espírito lhe contando uma piada.” Escuto uma voz atrás de mim e pulo de susto. Quando o faço, uma risada ecoa pela rua vazia. “Meu Deus, isso foi sensacional!” Viro-me com uma expressão irritada e mostro minha língua. Meio infantil, mas é a primeira coisa que me vem à cabeça (não preciso ser ultra madura quando estou bêbada, né).

“Você quase se ferrou bastante nessa. Eu já estava pronta para usar a minha habilidade de causar dor e miséria.” Falo para Jooheon, que sorri abertamente, nenhum pouco envergonhado por quase ter me matado do coração.

“Sim, sim. Tenho certeza que logo você ativaria o modo selvagem.” Ele continua andando e passa na minha frente. Sem cabeça para argumentar, apenas continuo o meu caminho, ao seu lado.

“O que diabos você está fazendo aqui?” Depois de alguns segundos de silêncio, minha curiosidade me vence e eu acabo perguntando. Ele dá de ombros.

“Eu estou indo buscar o meu presente.”

“Como você sabe que eu fiz um? Eu não falei pra ninguém!” Meu tom é de completa indignação. O moreno me olha com as sobrancelhas erguidas e um sorriso no canto dos lábios. Aos poucos, este vai se abrindo, bem na minha frente. Quase suspiro com a cena.

“Eu não sabia, estava brincando. Mas você acabou de admitir.” Levo minha mão até minha boca, surpresa ao constatar que eu de fato o fiz. Xingo baixinho, em português.

“Então essa é a sua língua nativa?” Assinto, um pouco tímida. “De onde você é? Já te ouvi falar sobre várias coisas da sua vida na Coréia, mas só.” Ele parece realmente interessado, o que me dá uma vantagem, pois agora posso me vingar pelo susto.

“Não digo!” Vejo sua expressão indignada e solto um riso merecido às custas da minha vingança infantil.

“Aaah, qual é! Você realmente vai me deixar curioso?! É o meu aniversário.” Ele protesta e eu continuo com a minha expressão de satisfação implicante. Jooheon acelera o passo na minha frente e tenta a sua última arma, o aegyo. Solto uma risada alta e, no auge da falta de raciocínio consequente da ingestão de álcool, aperto sua bochecha (admito que não me arrependo, inclusive obrigada, cerveja).

“Fofo, mas ainda não digo. E hoje é o meu aniversário.” Claramente sem reação, ele só me observa, completamente estático e com a boca um pouco aberta. Eu desvio, o tirando da minha frente, e continuo meu caminho, o que ele só faz depois de alguns segundos.

Infelizmente, não demoramos muito para chegar à minha casa, mas dessa vez o convido para entrar, com o intuito de pegar o presente que agora ele já sabe da existência. Jooheon não pensa duas vezes na hora de aceitar. Assim que entramos na sala, ele passa os olhos por tudo, absorvendo cada mínimo detalhe (agradeço aos céus por hoje eu ter lembrado de fazer a limpeza).

“Interessante.” E eu sei que é. Eu me esforcei para fazer o meu cantinho, o meu refúgio em um país estrangeiro, para onde eu fugiria se tudo no meu dia desse errado (o que aconteceu várias vezes, a vida na Coréia não é sempre um sonho). Tenho uma parede inteira que é uma estante, com metade dela cheia de livros e a outra de DVDs. A outra tem um pôster de Bioshock, meu jogo preferido, e outro de Stranger Things, meu seriado preferido. Atrás da televisão, tem um pôster lindíssimo de Oldboy, meu filme preferido, e várias fotos minhas com amigos, família e em lugares que eu gostei de visitar. Meu quarto é uma repetição mais pessoal, mas é a sala que é meu orgulho.

Pego a caixa em cima da mesa e entrego para o moreno, quando ele finalmente pára de olhar em volta e vem ao meu encontro. Sem dizer nada, Jooheon a abre e olha confuso para os objetos organizados em uma superfície acolchoada, que consistem em um crucifixo, um frasco de água benta, um pote grande de sal e uma cruz de ferro. Ele me olha, com a dúvida estampada nos seus olhos. Fico nervosa.

“É besta, por isso eu não queria dar.” Admito meio desanimada. “É um kit de proteção contra fantasmas. Pelo que eu lembro de Supernatural, sal e ferro funcionam bem, mas o resto eu só assumi que dê certo.” Depois de alguns segundos de silêncio tenso, ele solta uma risada super alta e eu me surpreendo.

“Obrigada, Lisa. Eu adorei.” O seu sorriso é doce e super fofo. A única coisa que eu consigo pensar é em apertar essas bochechas com covinhas de novo, mas consigo me controlar antes de repetir essa besteira.

“Bem, agora que peguei o melhor presente do mundo, eu vou embora. Está tarde e amanhã tem mais ensaio.” Eu já estava pronta para um aceninho de despedida, mas, em vez disso, Jooheon me abraça. Não é muito profissional da minha parte, mas eu retribuo e o aperto contra o meu corpo, sem querer soltá-lo. Eventualmente, tenho que fazê-lo, e percebo que na real eu demorei menos do que eu imaginei. “É assim que o pessoal faz no seu país misterioso, certo?” Eu só consigo assentir, já que o sorriso não me permite abrir a boca para falar (e eu não confio no que poderia sair dela agora).

Eu o conduzo até o portão e abro para ele. Fico parada observando-o ir embora e pensando no abraço. Minha cabeça está uma confusão, meu estômago está todo embrulhado e meu coração parece querer sair do meu corpo (profissionalismo, Lisa! Lembre do seu profissionalismo). Só quando ele está prestes a virar na esquina percebo o quanto esse momento foi maravilhoso e, por ter sido ele que o proporcionou, não merece a minha vingança besta. Corro um pouquinho mais para a frente.

“Eu sou do Brasil!” Grito. Ele se vira, sorrindo.

“E eu sou da Coréia do Sul!” Ele grita de volta, em um tom divertido. Eu me viro e volto correndo para casa, rindo igual uma garota do colegial. Nesse momento, não consigo ser muito profissional.