Por trás das câmeras
9 Talvez.
Notas iniciais
Dois dias sem vê-lo pessoalmente, mas não consegui tirar a imagem de um certo sorriso com covinhas da minha cabeça (o que parece ser bom, mas não é. É preocupante). Eu me esforcei, mergulhei de cabeça no projeto e em livros que eu estava enrolando para ler, mas simplesmente não consegui. Sei que não posso me apaixonar e, por isso, tenho lutado contra esses sentimentos, mas a sensação boa que preenche meu corpo quando lembro como é estar nos braços de Jooheon é avassaladora e incontrolável .
Esses dois dias passaram rápido demais. Preciso de mais tempo para respirar, me concentrar e voltar aos trilhos. Quem sabe até conhecer outra pessoa, ter um relacionamento (o que eu tentei, mas, como foi um encontro às escuras urgente, já dá para imaginar o nível, né). A manhã foi praticamente insuportável. Tentei me concentrar no meu trabalho, ser o mais profissional possível, mas diversas vezes notei que estava observando demais o Jooheon, ou que ele também me olhava com um enorme sorriso nos lábios, o que só ajuda os meus mais confusos sentimentos a empurrar o chão para longe dos meus pés. Na hora do almoço, eu só queria um tempo, fugir dessa situação sufocante por pelo menos alguns segundos, então peguei o meu frango frito e fui comer no canto do set de filmagem.
No meio da refeição, vejo uma pessoa se aproximar, e eu deveria me importar, ficar chateada por ter minha solidão interrompida, mas o sorriso dele não dá espaço para isso. Quando percebo, estou sorrindo de volta e afastando, dando espaço para ele sentar. Como negar algo a Changkyun?
“É um costume cultural se isolar para comer?” Sua voz soa grave e suave, como sempre.
“Com certeza. As pessoas do meu país odeiam contato social. No trabalho, só trocamos ordens através de bilhetes e, na rua, nos protegemos com plástico bolha, para não existir a possibilidade de pele com pele, quando alguém é obrigado a nos tocar.” Faço uma careta. “Amizade, namoro, família, quem precisa disso quando se tem o prazer de sentir os braços frios da solidão?” Termino com um sorriso divertido nos lábios. O mais novo ri.
“Imagino que tenha sido difícil se adaptar à Coréia, já que aqui nós claramente adoramos contato com pessoas desconhecidas. Já notou como as pessoas vão se abraçando conforme entram no metrô? É uma cena emocionante.” Ele responde no mesmo tom sarcástico e é a minha vez de rir.
“Eu estou me esforçando, obrigada pelo reconhecimento.” Nós sorrimos um para o outro. Acho que é o que mais fazemos quando estamos juntos.
“De onde você é, afinal? Acho que ainda não te fiz essa pergunta.”
O encaro por alguns segundos, considerando se o que eu ouvi foi real ou não. Pensei que esse seria o tipo de informação que Jooheon espalharia para os outros. E, conforme essa constatação passa pelos meus pensamentos, noto ser a primeira vez que tal nome surge na minha cabeça no período de 1 a 2 minutos, o que, considerando os últimos dois dias, é muito. Mostro o meu maior sorriso para I.M, que parece meio perdido, sem entender minha reação. Não me importo.
“Brasil. Eu sou do Brasil.”
E essa é a última vez que penso no dono das covinhas divinas por um tempo considerável, pois Changkyun me envolve em uma conversa empolgante sobre tudo que temos em comum, o que não é pouco. Meu riso é alto, solto e necessário. Talvez, se eu me encher das coisas certas, como amizades e momentos divertidos, em vez de trabalhos e livros (não que livro seja algo errado, só não foi suficiente), eu consiga não me apaixonar. Talvez.
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