Por trás da mascara
2 A descida
Jane dormiu um sono profundo e perturbador. Acordou cedo, vestiu um suéter e calça jeans. Deixou seu quarto desorganizado e foi ate a cozinha onde bebeu café. Nunca tinha lidado com algo tão difícil desde a morte de sua mãe. A morte era algo difícil de lidar. Terminou seu café e se arrastou para a saída.
La fora tudo era gelo, nevava há três dias e as poucas pessoas que saiam de suas casas voltavam logo. Fechou a porta de seu apartamento, colocara jaqueta e botas, desceu as escadas e começou a andar pelas ruas. Crianças se encontravam ao redor de suas residências, brincando com bolas de neves, Jane apenas observava tudo atentamente, sem demonstrar grande interesse, enquanto deslizava pelo chão das ruas. Tentava colocar sua cabeça em ordem, mas chegou à conclusão de que não conseguiria, deu meia volta, atravessou a rua e entrou nos bosques, onde havia um caminho mais longo e mais interessante. Deu uma volta pela fonte de água, e seguiu reto. Se o seu pai a visseela seguindo por esse caminho com certeza a advertiria, ele sempre fora muito preocupado principalmente depois da morte de sua mãe.
Quando não havia neve a trilha tinha muitas pedras — ela adorava pedras, achava-as reconfortantes. Havia muitas árvores, as pessoas não entravam no bosque apenas costumavam caminhar ao redor. Ela levara Charlie ali tantas vezes, que perdera a conta. Ele não gostava muito, mas sempre a acompanhava, isso a deixava feliz.
Jane pulou um tronco, desviou de alguns galhos e continuou seu percurso. Chegou à parte em que ela mais gostava a descida parecia apenas uma ladeira, devido a neve que escondia as pedra, — mas ela sabia que se não tomasse cuidado iria escorregar facilmente. Seguiu adiante, segurando uma mão na outra para que esquentasse. Seus passos eram curtos e em ziguezague, enquanto descia, podia sentir pontas de pedra em seus pés, a primeira vez que fizera essa caminha havia caído e quebrado o braço. Ela riu de como seu pai ficou histérico com o incidente. Recuperou-se rapidamente, com visitas reconfortantes de Charles e chocolate quente. Nessa época ainda não namoravam, e o simples ato de ficarem perto era incrível. Pensar nele, lhe causava dor e marejava os olhos. Quando terminou a descida, estava arfando pela e as lagrimas lhe escorriam com uma facilidade inesperada. Sentou-se ainda arfando em uma enorme pedra, apesar de estar congelada, porem nem se deu conta apenas chorou. Continuou assim por mais ou menos quinze minutos, limpou as lágrimas e depois de alguns minutos se recompôs. A próxima parte do caminha era um pequeno lago congelado, a neve ainda não estava derretendo, deslizou por ele rapidamente — lagos congelado lhe dava enjôo. Depois de um pequeno caminho após o lago chegou a rua de sua casa. Parou enfrente do pequeno prédio com tijolos vermelhos e companhia dourada, ali havia os quatro degraus que ela subiu, abriu a porta e entrou.
O porteiro se dirigiu a ela, tentou disfarçar e continuar andando, não gostava da solidariedade das pessoas, eles a olhavam como se ela fosse uma coitadinha. Não adiantou, ele se pôs a sua frente.
–Sinto muito pela sua perda, miss Waterway.
– Obrigado, Sr. Thompson- murmurou ela com o olhar baixo.
Ele a olhou com a face enrugada e olhos de compaixão, seu bigode com as pontas para baixo, subiam e desciam conforme seus lábios se movimentavam — Se precisar de alguma coisa é só falar eu e a Sra. Thompson estamos a seu dispor sim?
Afastou-se do porteiro- Obrigado Sr. Thompson. Alguma correspondência?
–Sim- pegou um maço de cartas e entregou-as
– Obrigado — se dirigiu para o elevador.
Entrando no elevador e apertando o numero quatro ainda pode ouvir o eco da voz do porteiro — A Sra. Thompson pode fazer comida e levar para você!
Odiava a atenção que todos lhe davam, nem sabia como haviam descoberto, afinal aconteceu ontem!
Rapidamente entrou no seu apartamento, jogou as cartas e o jornal que vinha com elas e sentou-se na sua poltrona favorita. Pertencera a sua mãe, tinha uma cor majenta e para ela era linda. Sua mãe sempre fora forte saberia o que fazer diferente dela que pouco demonstrava de seus sentimentos para aqueles que estavam perto.
Agora que Charlie morrera, ela estava desestabilizada. Perguntara-se como aquilo acontecera? Ele estava tão bem de repente…
Colocou seus pés já sem as botas na poltrona, e assim ficou ali encolhida, úmida e cansada. Cochilou e acordou sem saber quanto tempo dormiu se sobressaltou com uma ligação sendo direcionada para a secretária eletrônica.
– Filha? Aqui é seu pai, olhe o jornal e me ligue.
Não pensou instintivamente estendeu a mão e pegou o jornal. Folheou e la viu a foto de Charlie, embaixo uma pequena coluna. Da qual dizia em certa parte:
"Jovem Charles Ridgewood, após receber promoção da Grande Companhia de Ciência da Natureza (GCCN), morre de ataque fulminante em um restaurante no centro. Estava acompanhado de amigos, na hora da tragédia e o motivo da morte ainda é desconhecido."
Ficou desconcertada, havia mais algumas informações, mas não conseguiu ler, sentiu seu estomago se contrair. É impressionante como esses jornalistas vão atrás de carnificina. Decerto alguém o teria avisado estranho ter sido tão rápido. Não sabia que Charles era conhecido a ponto de não esperar sequer um pronuncia formal. Ele sempre seria para ela apenas o Charlie que sempre estava a seu lado, sem reconhecimento promiscuo.
Foi para sua cama e dormiu o resto da tarde. Acordou meio zonza, seguiu diretamente para o banheiro e tomou um banho quente e reconfortante. Colocou calça larga de moletom, camiseta e meias.
Na cozinha fez chocolate quente, pegou uma xícara e resolveu ligar para o pai. Havia quinze ligações suas. Discou o numero e esperou.
–Pai? — murmurou com a voz entrecortada.
– Oh, Srta. Waterway — disse uma voz de mulher cansada.
– Sra. Morgan, posso falar com meu pai?
– Ora, não sabe? Quando viu a noticia de Charlie ele te ligou, quando o vi ele estava branco como cera, querida. Disse que iria te ver, estava realmente preocupado.
–Oh não, eu não sabia. — sentiu-se culpada, deveria te-lo atendido agora ele dirigiria seis horas só para saber como ela estava — à que horas ele saiu?
– Faz mais de quatro horas querida. — fez-se uma pausa — Quero que saiba que estou aqui, caso precise de alguma coisa.
Dessa vez ela não se ofendeu Leonor Morgan, esteve presente boa parte de sua vida. Além do mais, ela cuida do seu pai e daquela enorme casa, mesmo quando Jane não estava mais lá. — Obrigada Leonor. Vou esperar, pelo papai. Até mais.
– Espero que você tenha parado com o mal habito de andar sem sandálias em casa. Se agasalhe bem, sim? Até logo, Jane. — Desligou.
Apressou-se em tirar roupas dos sofás e terminar de ver as mensagens da secretária. Havia cinco mensagens da Mirian perguntando como estava e que estava chocada com os acontecimentos da noite passada, seis de Anne com a mensagem de ligar pra ela o mais rápido possível. Oliver também mandara uma bem extensa. Uma em que Mark falava para não haver preocupações, o laudo da autopsia saíria amanhã e a polícia provavelmente iriam querer lhe falar, com os resultados em mãos. Havia o de alguns outros amigos, que ela nem mais tinha relações.
O último era da polícia. — Olá Srta. Waterway gostaríamos de ter uma conversa sobre os acontecimentos de ontem — a voz era gentil, para um policial. — Retorne o mais rápido possível.
Não ficou muito surpresa, Mark era amigo de um policial, ela ficara tão abalada que ele havia pedido a seu amigo para deixá-la ir.
Sabia que alguém da polícia ligaria. Ela mesma queria saber imediatamente o que acontecera com Charlie.
Pegou as roupas e seguiu até a cozinha onde havia uma porta que a levava para a área de serviço. O apartamento em si não era grande. Havia dois quartos, — o maior dela e o menor de hospedes — a sala era junta da cozinha separada por um balcão. Os dois banheiros estavam um em seu quarto e o outro do lado do quarto de hospedes. Gostara dele e comprara muito barato, após uma mulher ter que vendê-lo rapidamente. Ali se tornara o lugar mais aconchegante, onde podia se afastar da vida social.
Abriu a porta da geladeira e descobriu que não havia muita comida, lembrou-se de não ter comido nada desde a noite anterior. O relógio marcava cinco horas e vinte e cinco minutos. Seu pai demoraria 30 á 40 minutos para chegar ali. Decidiu ir até o mercado.
Colocou a jaqueta e calçou as botas. Saiu pelo elevador de serviço, queria evitar ser vista, logo estava virando a esquina. A luz das ruas era composta por fachos de sol que estava se pondo. Virou em um beco e seguiu em diante até o final, onde já podia vislumbrar o mercado. Alguns passos e ja estavam comprando leite, torradas, queijo e maçãs. Dez minutos depois, colocou seu saco de compras na mesa e sentou-se em sua poltrona discando o número do inspetor.
– Escritório de investigação em que posso ajudar? — falou uma ágil voz.
– Sou Jane Waterway, gostaria de falar com o inspetor Firywood. — sua voz saiu fraca e sem ênfase, muito diferente da impressão da qual queria passar.
–Vou passar a ligação, só um momento.
Alguns segundos depois, um chiado, uma voz calma lhe falou: Srta Waterway? Pedi para alguns dos meus homens te ligarem, creio que seja esse o motivo de sua ligação.
– Sim, o que deseja? — murmurou
– Gostaria de lhe falar sobre Charles Ridgewood. Pode vir até aqui Srta?
Suspirou, relaxou os ombros e respondeu — Sim, a que horas?
– Pela tarde. Aguardo a senhorita, vou passar para minha secretária, ela irá lhe passar o endereço.
Anotou o endereço e desligou.
Estava sentada olhando fixamente algo que sequer sabia o que era, distraiu-se, demorando muito para que percebesse sua campainha sendo tocada desesperadamente. Franziu o cenho e se lembrou de seu pai. Correu até a porta, lá estava ele com seu ar paternal, havia um cavanhaque do qual ela sempre achara engraçado com fios já grisalhos, seus olhos é de um verde faiscante. Ele era alto e forte, ninguém diria que era pai dela — uma mulher adulta. Enlaçou-o em um abraço muito apertado, ficou feliz com seu calor e lembrou-se de sua infância.
– Entre pai — ele entrou jogou uma bolsa e uma sacola no sofá.
– Como vai filha? — ela afundou no sofá, sentiu sua garganta embargada.
– B-e-m — Sua voz falhou e ela chorou. Seu pai sentou-se ao seu lado, pegou a sua mão e esperou até que ela parasse de chorar.
Quando ela por fim se recompôs, ele se levantou, pegou a sacola, falando. — Esta com fome?
Ela apenas o olhou e vinte minutos depois estava sentada à mesa com um prato de macarronada a sua frente, torradas e vinho.
Comeram em silencio, seu pai sempre cozinhava bem e rápido. A fome fê-la comer alvoroçadamente, ficando rapidamente satisfeita.
Bebeu vinho, e na metade da segunda taça achou melhor parar e ir para cama. Deu um beijo na testa do pai — Boa noite- sussurrou
– Boa noite, Jane.
Levantou-se, e andou lentamente. Porém antes de dar poucos passos a campainha tocou. Ficou imóvel pensando se deveria abrir. Na indecisão resolveu olhar pelo olho mágico. Lá estava ela a rechonchuda senhora Thompson, havia algo em suas mãos coberto por um pano branco de rendas. Jane abriu a porta.
–Olá Sra. Thompson. — sua voz era cansada.
–Olá Srta Waterway — disse a enérgica mulher — O Sr Thompson me disse que seria bom trazer algo para senhorita. Deve estar sofrendo muito, coitadinha. — e afagou-lhe os cabelos.
–Obrigado Sra. Thompson, a senhora é muito amável — disse pegando o recipiente que ela lhe estendia.
– Mas não foi nada querida, tive uma sobrinha que passou pelo mesmo, na verdade ele morreu na guerra e ela sofreu muito.
Antes que ela retornasse a falar, vendo que seu pai já se aproximando disse. — Eu imagino. Vou dormir, obrigada mais uma vez tenha uma boa noite!
– Boa noite.
Fechou a porta com a tigela nas mão, tirou o pano. Era marzipã. Deu a tigela ao pai e seguiu para sua cama.
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