Já era manha. Pensara consigo que dormira a anos e fazia apenas dois dias. Apesar de dormir muito não parecia descansada, se arrastou para o banheiro o pode ver seu reflexo no espelho. Estava mais magra, tinha olheiras profundas, e os olhos levemente desfocados.

Tomou banho, e optou por uma saia risca giz de coz alto, vestiu blusa branca, cardigã, meia calça grossa e sapatos fechados de salto. Depois de um pouco de maquiagem ninguém diria que ela havia chorado ate se formarem bolsas em seus olhos.

Foi para sala e seu pai já estava de pé.

– Bom dia pai- sua voz tinha um tom grave.

–Bom dia, querida. Tem café na cafeteira

–Obrigada — Foi até a cozinha.

–Por que está tão arrumada?

– Vou até a casa da mãe de Charlie e depois, vou ver um inspetor. Como a causa da morte foi inesperada e ninguém sabe o que aconteceu, acho que terá um inquérito ou algo assim.

– Quando será o enterro? — disse isso como se fosse muito normal enterrar aqueles que amamos.

– Eu não sei — sussurrou -Talvez quando a polícia liberar o corpo.

Sabia que seu pai a observava atentamente, esperava alguma reação transparecer.

Havia um jornal em cima da mesa, trazia uma reportagem nova sobre a morte de Charlie em que dizia que seu trabalho e a polícia ainda não haviam se pronunciado, muito menos a família. Creio que a morte dele deve ter trazido alvoroço devido o restaurante ser de nível executivo.

Olhou para o relógio marcava dez horas, estava muito cedo para sair, mas queria passar na casa de Mark, lá com certeza encontraria Marianne.

Pegou algumas coisas, deu um beijo na testa de seu pai e desapareceu, porta a fora. A neve já derretia levemente. Ela caminhou pela rua, seguindo o norte. Mark não morava longe, demoraria dez minutos para chegar até lá — havia se mudado a pouco e Charlie o ajudara na mudança. Enquanto seguia deixou seus pensamentos voarem pelas lembranças. Sem perceber já havia chegado aonde queria, era uma construção antiga, com pequenas varandas e suas paredes eram de um azul céu.

Parou a frente interfonou para o porteiro e esperou. Entrou e se dirigiu as escadas. Era no segundo andar, mas pensou que fosse ao sétimo devido à enorme quantidade de degraus. Parou a porta de seu amigo e tocou a campainha.

Mark apareceu, virou-se um pouco para Jane passasse.

– Ola Jane estávamos preocupados com você, desde que saiu nos jornais.

Ela sentou-se em um sofá de couro, baixou a cabeça e murmurou — Obrigado. Cadê Marianne?

– Estou aqui- ela apareceu vinda da cozinha — Como está?

– Até onde posso estar bem. — virou-se pra Mark — O que a policia falou? Já sabe como Charlie morreu?

– Vão comunicar hoje para a família.

Ela assentiu — O que vão fazer?

– Ir a polícia, ambos fomos chamados — disse Marianne

– Eu não entendo, não entendo que houve. — colocou as mãos sobre a face. Cada um se sentou ao seu lado, e Marianne lhe passou a mão nas costas.

– Logo vão descobrir.

Pensando nisso ela saiu da casa de Mark pouco tempo depois, indo em direção a casa da mãe de Charlie.

Teve que pegar um metrô, e Caminhar um pouco até chegar a uma rua pacata com residências formidavelmente conservadoras. A casa em questão tinha um belo jardim, e um pequeno caminho com tiras de madeira até a entrada, Jane percorreu lentamente. Tocou uma sineta e uma senhora de tez pálida, corpo alongado e cabelos louros dourados lhe atendeu. Jane a abraçou e quando essa se soltou uma enxurrada de lágrimas vertiam-lhe pela face, lentamente esta saiu de sua frente abrindo caminho para sua visita entrasse.

A casa era reconfortante, lembrava-se de sua avó que morava no extremo sul. A mulher lhe indicou um belo sofá, de um material muito confortável. As duas se sentarem em mesma posição, os joelhos se encostavam levemente.

– Ele andava estranho ultimamente. — Disse Sra. Ridgewood cabisbaixa

Jane fixou os olhos na senhora — O que entende por estranho?

– Eu não sei talvez seja só coisa minha. — ela desviou o olhar pigarreando levemente — Minha querida, algo o preocupava muito.

A vida daqueles que trabalhavam em sobrecarga realmente não era tão fácil e Charlie sempre se desligava de tudo.

Ela simplesmente balançou a cabeça em forma afirmativa, esperando a próxima reação da anfitriã o que de fato não demorou muito.

– Vão liberar o corpo amanha pela manha. Vou cremá-lo.

– Não prefere uma simples cerimônia e enterro? — Jane parecia surpresa.

– Não gosto de cerimônias funestas. — disse simplesmente. – Isso só me faria sentir pior.

E mais uma vez Jane balançou a cabeça, só que afirmativamente. Queria ir até o quarto de Charlie por isso fora ali. A comunicação com uma mulher que conhecia há anos estava difícil, ambas estavam sofrendo mais não havia compreensão mutua.

– Como soube? Digo da morte…?- Ela encarou a mulher a sua frente.

– Um policial veio até aqui. — ela hesitou levemente — Depois me questionou sobre a vida de Charlie.

Alguns instantes se passaram que sem ambas nada falassem. Jane por sua vez quebrou o silêncio. — Posso ver o quarto dele?

A senhora a olhou como ponderando a resposta, sem demorar falou — É claro que sim!

As duas se levantaram e caminharam até o sopé da escada.

– Vire a esquerda ao final é o ultimo quarto do corredor.

Assentiu e se pôs a subir as escadas. Logo já estava em um quarto aparentemente normal, mas que guardava a vida pessoal de Charlie. Sentiu o mundo girar e foi até a cama onde se sentou respirando profundamente. Estava rodeada de coisas dele e não sabia o que fazer. Foi até uma escrivaninha de mogno e bisbilhotou, não havia nada de interessante ali.

Charlie adorava livros o seu preferido O mistério da rua morgue de Edgar Allan Poe, ela pegou o livro e o cheirou. — gostava do cheirinho de livros novos, estranhamente aquele livro antigo ainda o possuía. Folheou-os levemente, um pedaço de papel caiu as seus pés — Charlie marcava seu livros com qualquer coisa que tivesse a mão. Quando se abaixou e pegou o tal papel- que na verdade era pequena foto de uma garota — muito loira, com covinhas que levava a um imenso sorriso cristalino, verso os dizeres:

''PARADA 256''

Ficou curiosa com a foto, colocou-a na bolsa da saia. Ficou pensando quem seria aquela garota? Deveria ter 18 anos no Maximo. O que estaria Charlie fazendo com aquela foto? Ele não a trairia. Vasculhou o quarto e não encontrou nada que refutasse a idéia de traição. Não, tinha certeza quase que em sonho que aquilo poderia estar ligado a morte de Charlie — e se fosse isso o descobriria. Caminhou de um lugar a outro e não encontrou nada relevante.

Logo depois estava descendo os degraus, e se despedindo da Sra. Ridgewood.

Uma vez fora, andou até encontrar um taxi que a levou até o endereço que a secretaria lhe havia passado.

O prédio era cinza, com portas de vidro escuro, ela passou por ele e se dirigiu a uma recepção. -Gostaria de falar com o inspetor Firywood.

– Da parte de quem? — disse uma jovens de cabelos vermelhos, que nao lhe prestou muita atenção.

– Jane Waterway.

– Siga o corredor na primeira porta vire a direita e espere em uma saleta, já irão te chamar.

Ela seguiu o caminho levemente sombrio à sua frente. Dirigiu-se ao lado direito e sentou-se perto de uma planta com folhas amareladas, do lado esquerdo. No direito uma jovem estava sentada, seus pés estavam em meia ponta e cabelos negros ondulando por sua face, outra estava ao seu lado era muito parecida só que com a tez muito mais pálida. O que lhe deixou incomodada foi o homem que usava uma regata branca, ficou meio perturbada, pois esta estava apertada e ele era muito rechonchudo e careca.

Quando estava nervosa tinha habito de tamborilar os dedos na perna e era o que fazia agora para passar o tempo. Já estava pensando que ninguém mais viria quando um policial ou coisa que o valha a guiou para o segundo andar em uma sala razoavelmente grande, e a única que devia ter luz em quantidade suficiente para iluminar tudo — isso se devia a enorme janela que tomava quase toda a parede estava aberta. A cadeira que estava de costas para ela se virou rapidamente em sua direção, um homem de aparência estranha com sobrancelhas grossas e o formato do rosto semelhante a um Buldogue.

Quis rir, mas quando deu por si o homem que estava ao seu lado saiu e fechou a porta.

O inspetor lhe indicou a cadeira e ela sentou-se.

–Muito bem Srta. Waterway mandei lhe chamar aqui para falar sobre a morte de Charlie. Sou o inspetor Firywood. Primeiro gostaria de apresentar minha minhas condolências sobre sua perda.

Ela assentiu e ele prosseguiu. — A morte de Charlie será investigada e averiguada. Conversei com Srta Miriam e ela comentou a respeito de seu relacionamento com o falecido. A senhorita confirma?

– Sim, Charlie e eu pretendíamos nos casar.

O inspetor olhou ao lado e assim ela percebeu um homem de, sobretudo marrom que anotava todas as palavras decorrentes a reunião em um pequeno bloco, pareceu alheio, mas ela sabia que ele prestava verdadeira atenção a suas palavras.

– Quanto ao laudo do medico legista — pegou uma pasta e folhearam algumas folhas — Ele foi envenenado.

Ele virou a pasta para que ela pudesse ler. Não pode conter a estupefação que lhe causou ao ver o laudo.

– Ele não… não… O que? Morfina? — disse ela pasma demais para fazer uma frase coesa.

– Sim, foi encontrado veneno mais especificamente Morfina. Vou ser franco com a senhorita — disse calmamente — Pode ter sido colocado deliberadamente, ou por própria conta do falecido, claro quando se trata de morfina…

– Está querendo dizer que ele se suicidou?

– É uma hipótese. — piscou os olhos rapidamente.

–Não, ele não se suicidaria — conseguiu controlar suas palavras mais ainda tremia — Nunca faria isso, ele estava feliz! Gostava de viver, por que acha isso?

– Se acalma Srta Waterway, vamos investigar os fatos e haverá o inquérito. Até lá apenas responda as minhas perguntas. O que fez durante o dia?

Ela se pôs a lembrar — Eu… eu fiz algumas compras pela manhã no centro. Arrumei a casa, me aprontei para encontrar com Charlie pelas seis da tarde, demos algumas voltas em seguida nos encontramos no restaurante com nossos amigos.

– Sr Ridgewood estava passando por alguma dificuldade? Algo que aconteceu com ele?

Ela balançou a cabeça em negativa para aquele estranho inspetor inexpressivo.

– Tiveram alguma briga?

Não entendeu por que aquela insistência que havia algo de estranho em Charlie. Será que ele estava estranho assim como a Sra. Ridgewood falara? Será que só ela não vira por motivos egoístas? Eliminou todas as hipóteses, Charlie não estava infeliz tinha certeza.

– Não. — afirmou secamente.

– Conhece o trabalho dele?

– Não muito.

– Qual era a pessoa mais próxima a ele?

– Mark McCloud

– Ele e a mãe se entendiam?

– A meu ver, sim.

– E o pai?

– Nunca soube acho que morreu quando ele era mais jovem, creio que deveria perguntar a Sra. Ridgewood.

– A Senhorita tem boas relações com a mãe de Charlie?

Que perguntas absurdas pensou consigo — Sim.

– Muito bem creio que não há mais nada que convém lhe perguntar no momento. Qualquer coisa entramos em contato.

Ela levantou e ele também, apertaram-se as mãos e ela se foi.

Perambulou pelas ruas como se não tivesse paradeiro certo. Estava tentando assimilar os seus pensamentos e jamais conseguiria entender como o veneno fora encontrado em Charlie. Partindo do ponto que ele jamais faria isso, só lhe sobrara à teoria de que fora assassinado e até mesmo essa hipótese lhe soara ridícula. No inquérito com certeza lhe dariam uma resposta, mas jamais acreditaria que Charlie se suicidaria. A mera menção da palavra lhe deu calafrios na espinha, tremia levemente e sentiu seu olhar perdido na multidão que se formou assim que o gelo começara a derreter.

Desceu um pequeno lance de escadas lateral que a levaria para dentro do metrô. Havia algumas pessoas a espera. Ela comprou um bilhete, e entrou por pouco em um vagão que estava quase saindo.