Por Quê Sempre Eu?!
1 Primeiro dia de aula
Notas iniciais
Acordei com o sol forte no rosto. Virei preguiçosamente meu corpo, e olhei para o despertador. 07:30 horas.
- AAH! –gritei me levantando apressadamente ao constatar que estava atrasada para meu primeiro dia de aula em uma escola mortal.
Me chamo Melanie Smith, e infelizmente ou felizmente, sou filha de Zeus. Não, não sou uma deusa, muito menos imortal, sou semideusa. Filha do “todo poderoso” e uma mera mortal chamada Helen. Nunca entendi como se conheceram, já que minha mãe se recusa a falar sobre isso e só vi meu pai duas vezes na minha vida inteira e não nos damos lá muito bem... Digamos que herdei o gênio difícil dele.
Atualmente estou no Brasil, mais especificamente no Paraná em uma cidade não muito conhecida chamada Londrina. Pra que estou aqui? Em uma missão para recrutar três poderosos semideuses para o Acampamento Meio-Sangue, um dos únicos lugares indicados para pessoas como nós. Normalmente este trabalho é designado para sátiros (seres mitológicos meio bode, meio humano) mas como o acampamento é nos Estados Unidos, seria arriscado mandá-los para cá, e daí você já pode imaginar pra quem sobrou esta tarefa: Isso mesmo, para a azarada aqui. Como sou americana Atena teve que me abençoar para entender essa língua estranha chamada português, but... Estou conseguindo.
Outra coisa que tenha estranhado bastante aqui é a comida. Estou hospedada em um hotel no centro da cidade e, no primeiro dia ao acordar e ir ao restaurante tomar café da manhã quase tive um ataque.
- Com licença, moça... Onde estão as panquecas? E será que tem Bacon? –questionei.
- Oi? –respondeu sem desviar a atenção de uma revista de fofocas.
- Panquecas... Bacon... –falei como se ela fosse uma criança, já meio sem paciência.
- Querida, não comemos panquecas nem bacon pela manhã. Você por acaso é estrangeira? –respondeu com ligeira irritação na voz. Quase respondi que era, mas fazia parte do meu disfarce fingir ser do Brasil, então apenas fiquei calada espero ela terminar sua queixa. – Você terá que se contentar com um pãozinho francês e café preto. –terminou arrogante. Tive que me segurar para não deixar cair uma descarga elétrica nela. E agora vos pergunto: Se estamos no Brasil, porque o pão é francês?!
Mas, fazer o quê? Tenho que me acostumar com esta cultura louca.
- Melanie! –ouvi meu nome ser chamado na porta de meu quarto.
- Já vou! –respondi terminando de me vestir.
- Até que enfim! Achei que fosse morrer ai dentro! –reclamou Luiza quando abri a porta. Luiza é outra semideusa, só que filha de Afrodite. Antes de ser encarregado para eu vir para cá ela veio, mas pediu reforços.
- Dormi de mais... –respondi dando de ombros e tentando ignorar quão ridícula eu parecia ao lado dela. Como toda filha de Afrodite, Luiza é linda: Possui olhos verdes esmeralda, cabelo castanho claro, quase loiro, e um corpo de dar inveja. Para ir a escola ela estava toda arrumada e eu nem pentear o cabelo penteei por conta do meu atraso. Sou baixinha, tenho cabelo castanho escuro longo e ondulado e olhos castanhos, quase pretos e uso óculos. Além de que Luiza é simpática, e eu não costumo deixar as pessoas se apegarem a mim. Sabe como é, prefiro evitar contato para depois não me sentir culpada por deixar alguém triste ou sozinho, sei como é o sentimento e não o suporto.
- Vamos do que para a escola? –perguntei quando passamos pelo restaurante do hotel e me lamentei por não ter tempo de comer.
- A pé, horas. –respondeu como se fosse obvio. Segurei para não responde-la de uma forma mal-criada, sua voz fina já estava começando a me irritar.
- Diga por você. –disse por fim, e lancei vôo tomando cuidado para não ser vista pelos mortais. Por mais que a nevoa me encobrisse, ver uma coruja gigante pela manhã deve ser assustador.
- Não acredito! E você vai me deixar ir sozinha pelas ruas nessa manhã sombria?! –gritou Luiza fazendo drama, mas não a dei ouvidos. Voar é uma das sensações que mais gosto, me sinto livre, solta. E não fico pensando em problemas idiotas da minha vida de azarada.
Como fui voando cheguei alguns minutos mais cedo que Luiza, ou seja, não precisei assinar uma ocorrência por atraso.
- Você deve ser a prima de Luiza, não? –cumprimentou-me uma mulher alta, já de idade, e que vestia uma saia e uma blusa verdes, combinando com o sapato também verde. Bizarro, os sátiros iam adorar o estilo dela.
-Yes... –falei sem pensar e me corrigi. – Sim, Luiza ainda não chegou porque se atrasou. –sorri de mal gosto enquanto ela fazia uma cara confusa. Provavelmente achou que estava tirando uma com sua cara ao responder em inglês.
- Sempre atrasada... –comentou balançando a cabeça. – Sou Vânia, a inspetora do colégio. Bem, imagino que ela queira te mostrar a escola e lhe apresentar aos colegas, mas como você é um ano mais velha, acho melhor eu mesma te levar até a sala. Vamos? –perguntou e a segui. Tudo que havia especulado era mentira, Luiza havia deixado bem claro para mim que não me queria no pé dela e que era para eu me virar sozinha e encontrar os lugares perguntando para qualquer pessoa, pois se alguém me visse junto a ela acabaria com a sua “popularidade”. Fresca. Ao passo que andávamos percebi que a escola era imensa. Suas cores principais eram azul, vermelho e branco, e seu símbolo era uma rosa vermelha. Eram tantas salas que imaginei que também havia crianças que estudavam pela manhã, e reparei que o refeitório era junto ao pátio, ao ar livre.
- Vi no seu histórico escolar que era uma ótima aluna... –comentou e mais uma vez errou ao falar isto. Tivemos que fazer uma ficha escolar falsa para vir para cá, já que eu nunca frequentei nenhuma escola a não ser a do acampamento. Fui criada e educada lá pois minha mãe é uma drogada e nunca parava em casa e meu pai se fez piedoso e me levou para o lugar que chamo de “lar”.
- Faço meu melhor. –respondi com um sorriso sínico, mas se Vânia percebeu que eu estava mentindo, não deixou transparecer. Paramos em frente a uma sala com a porta entreaberta, onde um professor mal vestido de óculos já dava aula.
- Ah, olá Vânia. –o professor cumprimentou parando a aula e Vânia entrou na sala me empurrando junto a si.
- Bom dia alunos. –Vânia cumprimentou e recebeu vários “bom dia” de volta, enquanto eu apenas estava com a cabeça abaixada tentando evitar contato com quem quer que fosse. Nunca tinha tido de uma sala numerosa, não saberia como agir, além de que teria que ter muito mais controle sobre mim para não demonstrar que não era humana.
- Está é Melanie Smith, nova aluna, que acabou se atrasando logo no primeiro dia de aula... –Vânia falou e quis socá-la por me fazer passar vergonha. Todos riram dessa piadinha sem graça dela. Idiota. – Pode continuar a aula professor. –Vânia disse por fim e saiu da sala. Fiquei lá parada estática ainda olhando para o chão sem saber o que fazer.
- Pode se sentar ali naquela carteira em frente ao senhor Cortez. –falou o professor chamando minha atenção. Olhei para o local que ele apontava e fui andando até lá como se estivesse com a perna enferrujada. Nunca senti tanta vergonha em toda a minha vida.
Quando cheguei à carteira, percebi que o tal de Cortez (que por sinal tem um porte atlético de dar inveja, e cabelo castanho perfeitamente arrumado que dava contraste aos olhos castanho claro) se virou para o amigo da carteira de trás e comentou algo que o fez rir. Sentei na carteira e arrumei minha bolsa ao meu lado, mas antes de me virar para frente e começar a prestar atenção, esperei para que Cortez olhasse para frente e lhe lancei um sorriso maldoso, de poucos amigos, que indicava para não se meter comigo. Em resposta ele levantou uma das sobrancelhas e soltou um risinho nervoso. Logo depois o professor se apresentou como George e começou a dar aula de geografia. Quase ri da cara dele quando ele falou que dava esta matéria. George e geografia? Estranho.
Ao bater do sinal George saiu da sala e entro uma mulher de em média quarenta anos, mal encarada, que ignorou o fato de que eu era aluna nova e não se apresentou, apenas começou a dar aula de inglês. Tai uma matéria que vou me dar bem, a única, acho.
- Ei, novata, onde estudava antes? –perguntou Cortez quando a professora explicava uma matéria sobre o verbo to be. É, ele não entendeu meu recado de não se meta comigo.
- Am... –por um momento fiquei sem saber o que responder, afinal eu não havia decorado a minha ficha. – Em São Bernardo, um colégio de... Outra cidade. –respondi sem olhá-lo, não queria criar alguma afinidade com ninguém sem ser os semideuses que preciso levar para o acampamento.
- Ah... Me chamo Henri, prazer. –disse próximo ao meu ouvido, me assustando.
- Ta... –respondi sem lhe dar atenção, e percebi que ele revirou os olhos com a minha falta de educação.
Logo depois se seguiu com outra aula de inglês, e a palavra para isso é: Tédio.
TRIIIIIM –o sinal tocou novamente e percebi que deveria sair da sala, já que todos se dirigiam a saída.
- Ai está você! –ouvi uma voz afinada guinchar quando sai da sala. – Porque não me esperou?! Achei que eu fosse lhe mostrar a escola! –exclamou irritada e percebi que era Luiza.
- Desculpa. –foi o que respondi para não ficar falando muito. Pra que me explicar? Ela não iria ouvir mesmo.
- Você é irritante, sabia?! –ela falou de braços cruzados e eu apenas sorri mordendo a língua para não falar que mais irritante que eu, só ela mesmo.
- Novata, quem sentar com a gente no refeitório? –ouvi novamente aquela voz próxima ao meu ouvido, me assustando novamente. – Ah, oi Luiza, como vai? –perguntou sorrindo para Luiza.
- Vocês são amigos? –ela perguntou com cara de espanto.
- Não. –respondi, mas ele me cortou.
- Sim. Ela só é meio marrentinha. — comentou e deu um pequeno soco em meu braço, fazendo com que eu me irritasse e sem querer disparei uma pequena descarga elétrica na mão que havia me dado o “soquinho”.
- Ai! –reclamou, mas não percebeu que havia vindo de mim o choque. – Enfim, quer sentar com a gente também Luiza? –perguntou e o rosto de Luiza se iluminou.
- Claro. Mas a Melanie também vai se sentar lá...? –ela perguntou com nojo na voz e revirei os olhos.
- Não.
- Sim... Temos que parar de discordar novata! –Henri disse rindo. – Porque? Vocês não se batem?
- Não muito... Sabe ela é minha prima... –Luiza comentou com a voz enjoada.
– Não sou obrigada a ficar ouvindo isso... –falei baixo para mim mesma e sai de perto deles.
- A onde você vai? Melanie? –Luiza perguntou fazendo pouco caso, e não a respondi.
- Ela é meio estranha, né? –ouvi Henri perguntar para Luiza.
- Estranha é pouco... –ela replicou e andei mais rápido, a fim de encontrar um lugar ao ar livre para respirar e me concentrar para canalizar o poder dos semideuses que estão aqui para essa missão acabar logo.
- Olha por onde anda! –um garoto exclamou irritado quando por acaso trombei com ele.
- Olha você. –devolvi e o encarei. Quem ele era pra ser grosso dessa maneira? Tudo bem que ele era lindo... Cabelo loiro e olhos verdes, mas isso não o fazia maior que ninguém.
- Desculpe, é que você é tão invisível que não consegui enxergá-la. –respondeu dando as costas para mim.
- E você é tão arrogante que não consegue se sobrepor a essa camada de arrogância para aparecer. E só pra sua informação, sou nova na escola, não tinha como você me conhecer. –falei e me virei sem dar chances para que ele rebatesse. Garoto idiota.
Quando cheguei a um espaço com bancos senti uma coisa ruim, e uma imagem de minha mãe morrendo veio a minha mente.
“Estava uma noive escura e sombria, e ela andava cantando alguma música, com uma garrafa na mão visivelmente bêbada. Segundos depois um carro preto parou a sua frente e de lá desceram dois homens segurando uma arma.
- Onde está o dinheiro? –um deles perguntou.
– Dinheiro? Onde tem dinheiro? –minha mãe respondeu alucinada.
- Anda Vadia, cadê o dinheiro que você está nos devendo? –o outro perguntou, fazendo os olhos de minha mãe se arregalarem, e logo depois ela saiu correndo, e um dos homens atirou em suas costas e ela caiu desacordada no chão”
Abri os olhos assustada e de vislumbre vi o garoto que havia esbarrado me observando na porta que dava ao pátio. Assim que ele percebeu que o vi saiu correndo, e então pude deixar algumas lágrimas caírem.
O que foi isso? Minha mãe está morta? Porque eu tive esse tipo de visão? Eu sou lá o oráculo por acaso? AH! EU NÃO VOU CHORAR! Até porque isso pode ter sido apenas uma visão irreal, que eu mesma criei... E... Ah, droga, por quê sempre eu?! –pensava em desespero, mas sei que se vi isso é porque ela está morta. Eu sou uma semideusa, visões não aparecem do nada. Droga...
Notas finais
PS: Vou fazer com o mesmo sistema de resposta de review igual das outras fic, com os personagens...
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