Por Onde Andou Eichler?
17 Um portal no meio do caminho
Durante o café da manhã, Írios percebeu que Pólen estava calada e com o astral mais baixo do que o convencional. Ficou de olho nela para ver se fisgava algum motivo, mas nada de relevante aconteceu. Talvez só estivesse abatida mesmo. E o garoto sabia que nem sempre era preciso motivo para ficar assim. Ou, na verdade, a conversa com Valen poderia ter lhe afetado mais do que imaginou.
Breno não se voluntariou para preparar o café da manhã como das outras vezes, mas ofereceu alguns mangostins que tinha colhido na floresta das Copas. Estavam bem doces e só umas duas unidades da fruta já eram o suficiente para saciar e dar bastante energia — caíram bem para que o grupo pudesse voltar à caminhada o quanto antes.
Pólen e Breno foram na frente e Chiano acompanhou o passo mais lento de Írios, que agradeceu pela companhia. Os dois conversavam sobre maneiras diferentes de se escrever incisos de runas. Chiano usou a sua maneira e a de Eichler como exemplo. E que estava tentando ensinar à Amélie, mas ela era cabeça dura demais com essa modalidade.
— Eu queria ser um gênio da feitiçaria igual vocês dois — o garoto estrangeiro confessou depois da explicação complexa do rapaz loiro.
— Que isso, cê têm muito que aprender ainda. Não é como se não pudesse melhorar nunca, tá ligado?
— Eu sei. Mas parece que vocês já saíram na frente. Quantos anos vou ter que estudar pra chegar no nível de escrita de runas que você tem e que o Eichler tinha, por exemplo?
— Calma, jovem. Sem derrota. Você fala como se a vida fosse acabar na semana que vem. Têm tempo ainda — tinha aquela resposta na ponta da língua, pois era bem o tipo de argumento que precisava usar com Amélie.
Írios bateu na parede de uma forma que estava até que acostumado lá no Outro Lado. Diversas pessoas ao seu redor o acusavam de ser derrotado e desanimado. E ele resistia muito em aceitar porque, na sua visão, ele era dotado de muito infortúnio.
— Tá bem, tá bem — naquele momento ele preferiu aceitar do que continuar explicando sobre como as coisas eram difíceis para ele. Chiano notou a sua cabeça baixa e decidiu animá-lo e retirou um bottom cinza do bolso, sem desenho algum estampado:
— Aqui, toma.
— Que é isso?
— Esse é um dos meus melhores bottoms até hoje. Consegui fazer só dois. Um deles vai ficar contigo.
— O que ele faz? — pediu curioso e analisando com cautela o pequeno objeto.
— Vai ter que descobrir. Quando sentir que deve usar, só aperta e taca em alguma coisa que a magia vai acontecer.
— Mas se é tão raro assim, vou querer guardar pra sempre — Írios confessou, rindo.
— Ayê — Chiano protestou -, pois saiba que sou contra guardar coisas eternamente esperando pela hora certa. A hora certa é uma hora qualquer. Além disso, eu faço os bottoms com magia frágil para decaírem logo, mesmo. Tenho medo de perder alguns por aí e causar acidentes ou ativar sem querer no bolso. Já até aconteceu. Esqueci no bolso de trás um bottom com uma runa de choque e eletrocutei a banda direita da minha bunda quando fui sentar no bondinho. Inclusive, toma aqui mais uns bottons.
— Tá certo então.
— Mas se eu puder te dar uma dica, carinha, não sairia por aí atirando e usando bottons e magia adoidado. Sabe, a não ser que queria morrer. Um bom feiticeiro usa a cabeça antes da magia. Demorei muito pra aprender isso, mas, quando aprendi, foi bom demais.
Antes que pudesse fazer mais perguntas sobre como os bottons eram feitos e como funcionavam, Chiano já estava tagarelando sobre outro assunto. Reclamava sobre como estava sentindo falta de soltar pipa com os amigos da sua rua. Começou a explicar para Írios como ele fazia para ganhar os rachões que tinham no campinho.
— Se um dia eu fizesse um catreco, ayê, meu primo ia me comer no pau — o garoto loiro contou.
— Catreco?
— É uma pipa zoada. Sabe, amaviar as pipas me ajudou muito a aprender sobre maracutaias. Talvez seja isso que precise, carinha. Pegar algum rolê que cê curte e tentar juntar uma coisa da outra.
Írios ficou reflexivo pensando no que poderia ser. No Outro Lado passava muito tempo trancado em seu quarto e nem tinha tantos hobbies assim. No máximo gostava de ler, mas não sabia de nada do mundo dos feiticeiros que fosse diferente sobre leitura igual era na sua antiga casa. Também gostava de andar de bicicleta e ficar na natureza. Talvez, se tivesse crescido no mundo correto, seria um escoteiro igual à Breno. Na verdade, poderia ser escoteiro no Outro Lado também, pensando bem. Mas, como sempre, ele não foi atrás.
— Eu comecei a usar pena de falcão na minha linha e fiquei imbatível, cortava geral — explicava Chiano com muito orgulho dos seus segredos de amaviação de pipas.
— Passar penas na linha encanta as pipas? — Írios pediu curioso.
De repente, o cenário foi invadido por diversas peças de armaduras espalhadas pelo gramado. Eram de vários estilos, tamanhos e idades — algumas até bem enferrujadas e carcomidas. Pólen e Breno, que estavam na frente, não pareciam ligar para aquele ferro velho todo, então Írios também fingiu normalidade e continuou caminhando e desviando das peças. Só ficaria incomodado se junto das armaduras tivessem ossos e corpos de seus guerreiros caídos, mas não era o caso.
— Uhum. A linha temperamos com penas. Cada uma vai ter um efeito, né. Gaviões são rápidos, então a pipa domina melhor o vento, já beija-flores são ágeis, daí a pipa debica melhor, ou tipo a de harpia, que faz a pipa dar boas braçadas. E por aí vai. Por isso os bons pipeiros caçam algumas aves pra pegar penas. Mas depois têm que soltar elas de volta, senão elas amaldiçoam a pipa e ela fica avoada. Penas caídas no chão não funcionam.
Írios ouvia com atenção, mesmo que não tivesse vontade alguma de soltar pipa um dia. Ia fazer mais perguntas para Chiano, mas notou que Pólen e Breno haviam parado de caminhar. Um murmurinho surgiu lá na frente e os dois garotos decidiram apertar o passo para alcançar os demais.
— Fiquem longe da Madre Árvore, humanos profanos! — a bicho-preguiça bradou os braços para cima para parecer maior e mais intimidadora. — Não vão arranjar confusão logo no meu turno de vigia!
— Isso não é uma árvore, amiga — Chiano debochou tentando corrigi-la -, é um cogumelo gigante.
— Não sabes o que fala! Animal irracional! Não posso esperar muito de vocês feiticeiros, mesmo — a preguiça ficou irritada e fez sinal de banana para Chiano, que não conseguiu segurar a risada.
A preguiça era alta, do tamanho dos adolescentes. Eles estavam aos pés de uma escada feita das pedras escuras do terreno que alçava para cima. O animal tinha pêlos grossos e acinzentados, vestia uma espécie de armadura com aspecto do Império Romano que nitidamente não fora feita sob medida para ela. Segurava ainda uma espada enferrujada e desgastada de maneira desajeitada, como se não tivesse forças o suficiente para mantê-la empunhada, então a deixava arrastar com a ponta no gramado verde.
— A gente só quer ver o que têm ali do outro lado, não queremos confusão — Pólen tentou uma linha mais conciliadora, mas a preguiça não caiu na lábia e começou a grunhir para o grupo:
— Mais um passo e serei obrigada a tomar medidas desastrosas! Maléficas! Já disse para não me importunar logo minutos antes do meu turno de vigia acabar!
A voz da preguiça soava calma e lenta, com longas pausas entre as palavras. Mas o tom era forte e imperativo.
— E me fala — Chiano improvisou -, você trabalha aqui pra… proteger a tal… Madre Árvore?
— Sim! Eu e meus parceiros somos encarregados de protegê-la e garantir que ela continue alimentando a floresta toda!
Os jovens olharam ao redor, mas não encontraram outros companheiros da preguiça. A Madre Árvore era o único grande objeto que se via por ali além de poucas pedras altas. A escada possuía apenas dez degraus e o restante era uma vastidão verde.
E, como Chiano havia dito, aquilo era uma árvore coisa alguma. Era um cogumelo gigante do tamanho de uma casa de dois andares, com corpo pálido, largo e curvado para à esquerda de onde a preguiça estava. O chapéu vermelho do cogumelo era fino, mas com abas largas que faziam uma ampla sombra abaixo dele.
— Mas não tem floresta nenhuma aqui. — Breno protestou e tentou ser comedido para não ofender o ser a ponto dele parar de contribuir com informações. — A árvore mais próxima deve tá a quilômetros daqui, na real.
No escotismo, uma das primeiras lições a ser aprendida era sobre a fauna e a flora daquele mundo: sempre reservavam mistérios além do que se sabia. Por isso, explorar exigia cautela e análise. As coisas funcionavam do seu próprio jeito e não raro fugiam das regras.
O instrutor de Breno no grupo de escoteiros de Àttinos contava uma história de uma girafa que encontrou enquanto desbravava com sua equipe uma região de picos nevados. Todos se perguntaram o que aquele animal estava fazendo em um bioma tão distinto do que costumava viver. E a resposta foi simples: a girafa era calorenta, então preferiu migrar para as montanhas, mesmo que vivesse sozinha o resto da vida.
Outro causo que sempre recordava era de uma árvore tão velha, mas tão velha, que cansou-se do lugar onde crescera e simplesmente saiu andando para fincar suas raízes novamente, desta vez a cem metros do local anterior. A magia funcionava de jeitos peculiares.
Não era difícil encontrar por aí, principalmente longe das cidades — onde as zonas de magia eram mais densas -, animais e seres que eram persuadidos pelos espíritos das florestas para seu bel prazer. Como aquele bicho-preguiça que insistiu em servir sua vida para defender um cogumelo gigante. Pelo que Breno entendia, aquele animal poderia estar ali há centenas de anos.
— Não sabe os poderes que a Madre Árvore possui — a preguiça explicou com paixão. — Suas raízes se espalham para florestas além daqui. Florestas depois de florestas! Conecta todas as árvores do condado. A Madre Árvore sabe de tudo, de tudo sabe. Possui poder além dos limites territoriais. E vai além! Ela se conecta com as árvores e conecta as árvores às outras árvores! Tamanha é sua dimensão! Além de falar com todas as árvores, permite que elas falem entre si! Gloriosa Madre!
— Ok… — Chiano pigarreou.
— Na real todo fungo faz isso — Pólen sussurrou no pé do ouvido de Írios. Estava achando graça do delírio da preguiça -, eles conectam quase tudo embaixo da terra.
— Dona preguiça, a gente só precisa contornar a sua Madre Árvore pra chegar do outro lado, por favor — Breno suplicou com o tom de voz mais caridoso que conseguia projetar. Mas o animal não recebeu bem a informação.
— Chega! Não darão meia volta, então serei obrigada a agir! — a preguiça levantou sua espada com muita dificuldade e lentidão e a bateu no chão. O grupo não levou muito a sério sua ameaça, então não reagiu de imediato. Por isso foram surpreendidos quando raízes avermelhadas brotaram da terra ao seu redor e os agarraram pelos pés.
A não ser por Írios, que se livrou. Talvez por sorte, ou por instinto arredio de alguém que não conhecia bem aquele mundo e estava ficando cada vez mais arisco com ele. O fato foi que o garoto foi o único a hesitar, dar um passo para trás e levantar os pés no momento exato para se livrar do encantamento da guerreira preguiça.
Pólen perdeu o equilíbrio e tombou para o lado, caindo de costas no chão. Breno lutava muito para se manter de pé. Já Chiano se preocupou mais em alcançar uma pequena faca de prata na parte de trás de sua calça. Segurou-a pela lâmina, fechou um dos olhos para conseguir mirar bem e arremessou a pequena arma na direção da preguiça. Precisou manipular um pouco o vento com a varinha na outra mão para fazer com que a faca girasse mais rápido e fizesse uma curva no ar para ser certeira no alvo: a mão da preguiça que segurava a espada velha.
A faca atravessou a lâmina da espada, partindo-a em duas. Rapidamente as raízes que dominavam o grupo cederam e retornaram para baixo da terra. Enquanto isso, Írios puxou um dos bottons de seu bolso, mas desistiu de usá-lo.
A preguiça soltou um urro de raiva totalmente desproporcional com sua voz. Parecia um demônio gritando de dor. Ela então se remexeu de maneira mais rápida que o usual, bradando em seu punho a espada quebrada no ar. Um clarão amarelado surgiu e fez com que os três jovens da frente ficassem paralisados em suas últimas posições. Írios, que não olhou diretamente para a luz, saiu ileso. Com receio, se embrenhou de volta para a trilha e se escondeu atrás de algumas pedras.
— Insolentes! — ouviu a preguiça comemorar no fundo. — Dormirão por eras até aprenderem a respeitar nossa Madre!
O garoto, nervoso e ansioso por causa do aparente fim da linha, tentou pensar rápido numa solução. Queria partir para cima do animal, talvez até usando vários dos bottons que Chiano havia lhe dado, mas lembrou-se do amigo recomendando que não agisse dessa forma. Respira, pensou. Usa a cabeça. Fechou os olhos para tentar se concentrar. Quando abriu novamente, encarou ao lado de seu pé direito um elmo de uma das armaduras enferrujadas. Era isso.
Vestiu o elmo e fechou sua face para esconder o rosto. Depois, alcançou outras partes aleatórias de armaduras e calçou-as com cuidado para não fazer muito barulho. Agora precisava encenar bem e ser muito cauteloso com cada frase que escolhesse dizer para não ser desmascarado. O problema era que o rapaz nunca foi muito bom nesse tipo de coisa. A timidez o atrapalhava a performar outras personalidades que não a sua — até mesmo a mentira.
Por fim, puxou uma espada velha e acobreada para acompanhá-lo. Segurou-a firme no seu punho para testar se sua magia conseguia fluir bem por ela, mas a arma não respondeu tão bem. Era sua única opção, pois, se usasse sua adaga perfeitamente afiada e cuidada, poderia levantar suspeitas. Deixou sua mochila atrás da pedra e voltou para a trilha, caminhando com aparente segurança e normalidade até o pé da escada. Pelo menos a armadura improvisada escondia o garoto tremendo de medo e vergonha abaixo dela.
— Finalmente — a preguiça bravejou quando viu o cavaleiro surgir -, que turno cansativo! Já não era em tempo.
— Sim! — Írios disse meio embolado porque queria deixar a voz mais grave e diferente da sua natural, por mais que a preguiça não tivesse a escutado antes. — Já pode ir que eu tomo conta da Madre Árvore!
A preguiça começou a descer lentamente os degraus enquanto Írios passava pelos seus amigos paralisados em posições engraçadas. Queria ter um celular para tirar foto deles e guardar aquele momento de lembrança. O garoto chegou até o topo da escadaria e ficou de pé ao lado da base do cogumelo.
— Achei que eu passaria o turno para o Larry Lesma — a preguiça comentou reflexiva ainda em seu segundo degrau. — Mas imagino que aquele bocó de mola tenha se atrasado.
— É — Írios improvisou o melhor que pode, mas ainda assim era meio ruim -, fui enviado pra cobrir ele.
Após a fala do rapaz, a preguiça parou seu trajeto repentinamente. Seu pé direito ficou até parado no ar. Ela virou-se, lentamente, de volta para a Madre Árvore. Írios se tremeu inteiro e sentiu um frio subir do topo do seu bumbum até a nuca.
— Enviado por quem? — a preguiça pediu desconfiada.
— Por.. — Írios contou lentamente para ter tempo de raciocinar. No fim, só conseguiu pensar em uma resposta: — Pela Madre Árvore.
— Ah, sim, claro — ela se deu por satisfeita e voltou a descer o degrau.
Ansioso e aflito, o garoto assistiu-a descer mais um único degrau, o que demorou um tempo considerável.
— Vai deixar eles aí? — perguntou à ela. Ainda precisava descobrir como livrá-los de seu encantamento.
— Vou.
— Não vão morrer se ficarem assim? — o nervosismo embargou a sua voz.
— Vão.
— Então não é melhor… soltá-los?
— Não. Podem servir de adubo para a Madre Árvore.
— Ah, sim. Ok. Mas, digamos, se fosse soltá-los, como faria?
— Estão entrelaçados a mim.
— Entendi.
Então o garoto sacou o que deveria ser feito e agiu imediatamente. Alcançou com passos afobados a preguiça ainda no topo da escadaria e a empurrou-a para baixo. Ela rolou até chegar ao gramado, grunhindo de dor e irritação. Quando bateu a cabeça no último degrau, os três jovens, que estavam a poucos metros de onde ela caiu, se libertaram da paralisia e respiraram profundamente, ainda meio confusos.
Írios ficou com pena da preguiça, mas tinha ainda receio de que ela pudesse reagir. Desceu uns degraus e alcançou sua espada quebrada para jogá-la longe. Já Breno não teve tanta misericórdia. Assim que pareceu estar mais presente, sacou sua adaga e cortou a garganta do animal falante sob protestos de Chiano e Pólen. Írios esperou ver sangue, mas o corpo da preguiça virou um pó dourado assim que foi golpeado com a lâmina, evaporando no ar e comprovando se tratar de um espírito perdido. Deixou apenas a armadura para trás.
— Cês tão bem? — Írios pediu preocupado. Tirou o elmo, jogou-o no chão e foi ajudar Pólen a se levantar.
— Sim — ela resmungou. — Só com um gosto forte e esquisito de hortelã na boca.
— Eu também — Chiano também protestou, irritado. Se alongou porque sentiu dores nas juntas. — Odeio hortelã. Bicho-preguiça desgraçado.
— Cogumelo idiota — Breno também grunhiu e cuspiu no chão pra tentar se livrar do sabor forte na boca. Depois chutou de leve as peças da armadura que a preguiça usava. — Vontade é de cortar esse cogumelo chato.
— Deixa ele aí — Pólen pediu. — Capaz de ferrar com o ecossistema aqui em volta se a gente mexer com ele.
— Bora, o próximo passo tá aqui perto — o garoto de cabelos pretos acelerou o grupo de forma impaciente, subindo as escadas para atravessar o pequeno vale.
Breno engoliu em seco e afirmou: — O mapa aponta exatamente aqui.
A cratera destoava de todo o cenário ao redor porque parecia ser feita de terra vermelha cavucada, e não por algum fenômeno da natureza local. Ficava na parte mais baixa de um planície e era a única intervenção no ambiente por pelo menos uns cinco quilômetros dali.
Chiano foi o primeiro a se aventurar. Desceu com dificuldade a borda íngreme da cratera e foi até o centro, onde o solo ficava nivelado novamente. Seus passos levantaram poeira escarlate e Breno enfiou-se na nuvem que ela formou para alcançar o rapaz loiro.
— Que droga é essa? — Breno pediu quando se colocou ao lado de Chiano, que desenhou uma feição confusa e tocava numa espécie de raiz retorcida que brotava do centro da cratera e alçava o ar a uns cinco metros na altura e, no topo, encontrava e se entrelaçava em outra raiz que brotava a três passos da outra. As duas, juntas, formavam quase um arco, mas com a extremidade de cima mais pontiaguda.
— Eu acho que é um portal vazio. Desligado, não sei.
— Portal? — Breno resmungou, resistente.
Foi a vez de Írios e Pólen entrarem na cratera. Deram as mãos para equilibrar um ao outro e saíram do gramado verde para a terra vermelha. Quando se aproximou mais dos outros dois garotos, Írios começou a analisar atentamente as raízes. Notou que na base de onde elas brotavam havia aglomerados de pedras cintilantes sem cor definida: dependendo do ângulo que se olhava para elas, os tons mudavam entre verde, laranja e roxo nas faces lisas como as jóias de diamante. Diversas daquelas pedras estavam fincadas no solo, já outras praticamente se fundiam com a base das raízes.
— Pedras de salto — Írios comentou e apontou para que todos olhassem para elas.
— Caramba — Pólen resmungou, chocada. — É impossível esse portal funcionar, né? Tipo, não é assim que se faz um portal.
— Eu sinceramente não sei — Chiano comentou. Tentava buscar alguma lógica naquela maracutaia toda, mas as tecnologias de salto e transporte eram tão complexas que ele nunca nem mesmo se deu o trabalho de estudá-las. Pelo menos sabia que não era essa a forma que a indústria utilizava dessa magia.
— Certeza que o passo não tá em cima do cogumelão? — a garota pediu para Breno. Ela parecia temer algo.
— Certeza. Ele aponta pro lugar desse portal aí — Breno afirmou e Pólen não ficou muito satisfeita com a resposta.
— Tá, pouco importa se o portal funciona ou não. E muito provavelmente não funciona — Chiano ficou de costas para o arco para poder encarar todos os outros três e fazer a pergunta que estava perturbando sua mente. — O que importa é: se esse portal é um dos passos do Eichler, qual era a intenção dele com isso?
Ninguém respondeu de imediato. Não porque não sabiam a resposta, mas porque estavam reunindo coragem para assumi-la em voz alta. Às vezes, algumas verdades parecem vir à tona no mundo real apenas quando são verbalizadas. E foi Pólen quem teve a audácia:
— Talvez ele tivesse tentando ir embora.
Mais um silêncio se plantou. Írios teve uma súbita vontade de olhar para Breno e assistir qual seria sua reação, mas abaixou o rosto para o outro lado para não ser invasivo. E o fato era que Breno realmente não gostou do que ouviu. Amarrou o rosto, deu um passo na direção oposta do portal para afastar-se dele e manteve-se em silêncio.
— É o mais lógico — Chiano decidiu apoiar a tese de Pólen. — Pessoas atravessam portais para ir pra outro lugar. É somar dois com dois.
Breno sentiu vontade de vomitar, mas segurou a agitação do estômago. Tentou regular a respiração para se acalmar, em vão. Seu corpo esquentou e ferveu com a raiva que brotava dentro de si. Subitamente, levou a mão direita para a bainha da adaga que, com um simples toque do garoto, já se expandiu em forma de espada.
O garoto de cabelos pretos fez um giro rápido com o corpo para golpear uma das raízes que formava o arco. Quando os demais notaram a movimentação do garoto, já era tarde. A raiz estava cortada ao meio e começando a ser consumida pelas chamas que incendiavam por toda a lâmina da espada de Breno. O portal vacilou e tombou para trás.
Nenhum dos outros três protestou contra a ação do garoto, que continuou de costas para eles. Soltou a espada em chamas no chão, andou para a borda da cratera, subiu ao gramado e se afastou do local.
— Deixa ele — Pólen comentou. Ela também estava mais abatida, com ombros murchos e voz rouca.
Era esquisito verem os dois amigos de Eichler desapontados com ele e se sentindo surpresos com a suposta descoberta, como se Eichler tivesse camadas que ele não deixava nem os próprios amigos acessarem. Para Írios, não apenas a grande e decisiva pergunta pairava sobre sua mente — o que o garoto fez nessa viagem misteriosa -, mas também uma nova questão: quem realmente era Eichler?
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