Por Onde Andou Eichler?
18 O refúgio de Hugo
20 de Agosto de 2012
Querido Bernardo,
[...]
Também teve um momento em que o Chiano me perguntou por que eu era tão tímido e acuado daquele jeito. Ele me descreveu como um pinscher com frio que fica tremendo o tempo inteiro, como se tivesse sofrendo pra guardar algo dentro de mim que lutava muito pra se libertar.
Nós conversamos sobre isso e ele foi muito legal, principalmente porque trouxe umas perspectivas de fora que eu achei bem interessante.
Inclusive, nos primeiros dias, achava que o Chiano era só um cara que levava nada a sério, que zomba e brinca com tudo. Bem, ele é assim, mas também têm um outro lado que parece que ele liga do nada. E, sinceramente, acho que ele prefere o lado mais bobalhão.
Bom, no geral, acho que minha timidez vem muito de um medo extremo de como as pessoas vão me ver. Eu já sentia isso praticamente desde sempre. Como se tivesse um enorme segredo dentro de mim: o verdadeiro eu. Que eu tenho que controlar pra não explodir e estragar tudo ao meu redor. É mais fácil ser o cara que não chama atenção.
E, claro, eu era um feiticeiro vivendo no meio dos humanos. Tinha que me controlar, mesmo. Tinha uma questão judicial aí.
Mas, aqui, em Àttinos, esse receio veio em relação às potenciais novas pessoas que eu poderia conhecer. Que elas me vissem como insuficiente para me tornar um novo amigo ou entrar no círculo social delas. É muito sofrimento por antecedência, né? Mas é assim que a minha cabeça funciona.
Depois, esse receio virou um medo absurdo da Pólen e o Breno descobrirem que eu, na verdade, sou uma fraude. Alguém que na real não merecia estar por perto, que não agrega em nada, que só tá oferecendo uma utilidade momentânea e que depois que ela passar, posso ser descartado, como lixo que sou.
E têm muita auto tortura envolvida também, né? Meu jeitinho.
Foi aí que o Chiano chegou com um ponto: a gente cria muitos motivos na cabeça pra imaginar os porquês das pessoas não gostarem da gente, sendo que quando a gente gosta de alguém, isso só acontece.
Nem sempre é algo consciente, lógico ou profundamente racionalizado. Ninguém vai fazer uma lista de pontos positivos e negativos sobre ser meu amigo ou não depois da nossa primeira conversa.
Basicamente, o Chiano queria dizer que eu tava gastando neurônios à toa, que eu deveria só deixar rolar e ser mais espontâneo. Se eu oferecesse algo legal, as pessoas iriam reconhecer e acolher. E ele tava certo. Mas o meu problema poderia tá justamente em não conseguir ser espontâneo.
Não consigo demonstrar tudo de mim — ou acho que não consigo -, se na real eu sou esse pinscher que fica tremendo. É um ciclo vicioso.
Tenho medo de não ser aceito e medo de ser julgado, mas ao mesmo tempo não consigo expressar o que de fato têm de bom em mim para que, no fim, me julguem bem… Como alguém que merece ser e ter um bom amigo.
Depois de muita papo e sem muitas conclusões ou planos de ação pra seguir, eu e Chiano concordamos em um ponto: é muito sofrido viver assim. Será que algum dia eu vou conseguir de fato ser quem eu sou?
Nem mesmo aí no Outro Lado acho que eu conseguia. Olhando pra trás, sempre me vi usando uma capa pra esconder tudo o que acho que as pessoas vão ler como ruim. Mas será que eu sou uma pessoa tão má assim?
Muitas questões.
Depois de trocar essa ideia com Chiano, muita coisa clareou na minha cabeça. Pra já no dia seguinte tudo cair por água. O fato é que eu realmente não esperava que o Breno fosse fazer aquilo comigo.
E se eu queria? Talvez, lá no fundo, sim. Mas eu tava ocupado demais sendo um mini cachorro com crise de tremedeira pra deixar essa vontade vir à superfície e lidar com ela como qualquer pessoa normal lida: tomando uma atitude sobre.
E o depois de tudo aquilo, bem, foi complexo. Não soube muito ao certo o que pensar. Sei que ele tava sofrendo muito naquele dia e, se já era confuso pra mim, pra ele acho que tava sendo mil vezes pior. Teve um momento em que ele resmungou com bastante raiva algo sobre estar com muita raiva de Eichler. Pois é.
Então a pergunta que ficou foi: se tratou de uma ação explosiva e impensada? Ou um impulso que veio do subconsciente?
Só não posso negar que me senti bem, vou confessar. O que tenho certeza que senti foi vergonha. Como eu deveria reagir depois daquilo? Qual era o processo? O roteiro, a convenção social? Eu sei lá. Por isso eu simplesmente congelei por um momento. Pinscher com tremedeira.
Mas eu disse: por um momento.
Eu tinha a vida de Breno nas minhas mãos. E precisava me concentrar em mantê-lo vivo.
A verdade é que o Breno passou o dia antes daquele com um olhar confuso. Seus olhos pareciam um poço. No rosto dele tava estampado que na cabeça só serpenteava dúvidas e questões que ele nitidamente não tava gostando de remoer, mas que não seriam fáceis de se livrar.
E depois de horas e horas perdidos naquela floresta de vidro, a gente finalmente brigou. E aconteceu de novo, Bernardo.
Aconteceu de novo.
[...]
—
— Acha mesmo que o Eichler tava querendo fugir daqui? — Írios perguntou para Pólen de forma acuada porque sentiu medo de cutucar feridas na garota. Ela parecia estar ainda processando as informações recentes e tava com uma cara de quem mastigou algo amargo, mas não se exaltou ao responder:
— Não sei. Pode ser que sim. Sei lá. Ele nunca falou algo sobre, mas vai saber… Acho que não posso mais falar coisas por ele com tantas certezas.
— Se ele queria ir embora, por que não entrou nas Copas, e, pronto, boa? — Chiano aproveitou o espaço de discussão e puxou a questão.
— Se ele não atravessou o portal das Copas ou não entrou na Sociedade, é porque não quis, e ponto — Pólen afirmou tentando tirar pelo menos uma das várias perguntas que tavam na sua lista mental de perguntas.
Ao mesmo tempo que ela queria encontrar as respostas, se desviava de algumas possibilidades dolorosas. Era isso que Írios lia.
— Mas não quer dizer que ele não tinha nada a ver com aquele portal, também — Írios refletiu. — Quer dizer, se é tão difícil assim criar um portal… se temos dois portais na margem da periferia, a possibilidade deles terem sido feitos pelo mesmo feiticeiro é bem grande, né?
— Tá certo, carinha — Chiano concordou, e depois levantou novamente para Pólen confirmar, como se ela fosse a entendida-mor dos assuntos que envolviam Eichler: — Então pode ter sido o Eichler quem criou o tal portal das Copas?
— Vai saber… — Ela ainda soou confusa. — Mas se foi ele, só pode ter sido antes. Se a gente pensar nos passos do mapa e no roteiro dos últimos dias dele, ele foi na Gruta das Iaras antes de ir nas Copas. E quando chegou lá, o portal das Copas já existia há muito tempo. A Sociedade das Copas existe desde as férias passadas… Se ele pegou as pedras na gruta naquele dia, foi provavelmente pra montar esse portal aqui. Se ele fez o portal das Copas, foi antes, muito tempo antes. E não usou.
— E como a Sociedade se formou ao redor do portal que ele criou há meses, ele não conseguiu usar… Então teve que criar outro. Esse aqui. Será? — o garoto estrangeiro se questionou. — Pra ninguém flagrar ele.
— Mas não faz sentido… Uma pessoa sozinha não consegue montar um portal. O Salto é uma tecnologia industrial… Não é assim que se faz… — Chiano ainda se preocupava muito com as questões práticas da coisa.
— Se não foi ele, quem poderia ter sido? — Pólen levantou levemente a voz. Questionarem sobre as capacidades do amigo foi o que chamou sua atenção.
Chiano Respirou fundo. Assumiu com vulnerabilidade. Meses antes, jamais diria aquele tipo de coisa em voz alta:
— Se esse maluco conseguiu criar portais… Uau. Ele era um feiticeiro muito acima da média mesmo.
— Ou até um feiticeiro com Individualidade — Írios sugeriu. — Isso existe, né?
— Existe. É raro pra caramba, mas não é impossível. Criar portais é uma tecnologia muito recente. Se fosse uma individualidade, outros lendários ou heróis teriam feito antes — Pólen também ficou encabulada com a possibilidade. — Mas o que mais me deixa fula da vida é entender o porquê dele querer ir embora, sabe?
Chiano tava com uma cara confusa e típica de quem queimava muitos neurônios num pensamento complexo. Depois, foi impulsivo e falou em voz alta algo que se arrependeu de ter trazido pra roda segundos depois. Aquele tipo de suspeita ele deveria guardar somente para si, sabia disso:
— Ok, então o Eichler fez com que a Amélie sumisse da cidade? Se ele domina portais e ela sumiu, logo…
Írios agradeceu por Breno não estar por perto para ouvir aquela fala e sentiu certa vergonha pelo rapaz loiro. Pólen também não gostou do que ouviu e anunciou:
— Tá, essa discussão toda é inútil. O próximo passo fica ridiculamente perto daqui. É melhor a gente ir pra lá e analisar antes de tirar mais conclusões tortas.
Até porque, se Amélie tivesse sumido por um portal, a guarda da cidade teria encontrado resquícios dessa maracutaia na floresta de araucárias.
— Tô contigo — Chiano somou numa tentativa de corrigir seu posicionamento torto, mas não foi o suficiente para a garota abaixar a guarda.
— Você não vai provar que o Eichler era uma má pessoa, Chiano — Pólen comentou com serenidade quando passou por Chiano.
—
De fato, o próximo passo de Eichler não era tão distante do portal vazio. Mas o ritmo do grupo era moroso demais para fazer o trajeto rapidamente.
Deixaram para trás o pampa de grama verde-cintilante e terra e pedras vermelhas para retornarem à uma mata fechada, desta vez com cara de mata atlântica — assim como Írios estava acostumado lá no mundo dos humanos.
A ordem do grupo também se inverteu: Chiano e Írios ficaram no meio, caminhando juntos e conversando sobre bobagens. A retaguarda ficou com Breno, que caminhava lento e de cabeça baixa, se afastando cada vez mais para evitar ouvir a conversa dos dois garotos da frente. Queria ficar sozinho com seus próprios pensamentos.
Pólen foi sozinha na frente, desbravando a trilha de mata fechada e cortando as ramas de plantas que tentavam tomar conta do caminho. Desta vez, desistiu de cantarolar para que os galhos e folhas abrissem espaço: parecia descontar a raiva nelas com a lâmina de sua adaga alheada num facão.
A garota parou para descansar numa árvore caída e ficou olhando os garotos se aproximando.
— É aqui — ela proclamou quando Írios e Chiano chegaram na borda da clareira. Pólen desceu e indicou o caminho para eles. — Sem surpresas nesse passo.
— Já tinha vindo aqui? — Chiano pediu, curioso.
— Não. Não sabia onde era. Só sabia que existia — ela murmurou. — Desde as Copas, não conheço nada. A trilha que a gente costumava fazer até a praia era outra e muito mais curta. Aqui é…
— O esconderijo do irmão do Eichler — foi a vez de Breno responder, juntando-se aos demais. Írios ficou feliz em ver que sua cara já não estava mais tão cinzenta quanto antes.
— O cara vinha se esconder nessa lonjura? — Chiano achou graça, mas sem debochar (gostava desses traços excêntricos nas pessoas). — Coragem.
— Na real acho que é uma espécie de laboratório — Pólen corrigiu aproximando-se do centro da clareira, onde havia um poço de pedra escura quase todo tomado pela vegetação. Deu mais alguns passos adiante e chegou na parte baixa de uma escadaria feita com as mesmas pedras do poço. Mas os dez lances de degraus não davam para lugar algum: apenas uma solitária parede.
— Hugo é biólogo — a garota continuou já no topo da escada. Passou a ponta dos dedos sobre os grandes tijolos que formavam a parede. — Ele vinha aqui observar a natureza e fazer a tese dele.
— Entendi — Chiano aceitou, sem questionar. Ele também adoraria ter um laboratório mágico no meio de uma floresta a quilômetros da cidade para poder construir suas maracutaias. O mais próximo que tinha disso era o celeiro velho da fazenda do tio.
— E como entramos lá? — Írios pediu. — É por essa parede?
— É. Mas essa porta tá selada. As runas só vão se ativar no anoitecer ou amanhecer — Breno respondeu ao fundo.
— Então vamos ter que esperar? — Chiano pareceu insatisfeito. Estava ansioso para conhecer o tal laboratório do tal rapaz.
Breno não respondeu, apenas soltou sua mochila para cair aos chãos e desabou o corpo sobre ela para tirar um cochilo.
— Então esse é o tal do cervo? — Chiano perguntou sentando-se ao lado de Breno sobre o gramado. Encostou na mesma árvore que o garoto carrancudo estava se apoiando para desenhar.
— É sim — respondeu sem tirar os olhos da mão frenética sobre os traços cinzas da galhada do animal.
— Tá bem bonito — Chiano elogiou. — Lembro daquela exposição dos desenhos técnicos dos escoteiros que você participou. Tinham uns desenhos bem bonitos.
— Obrigado — Breno virou a página e voltou a finalizar outro desenho. Este era do portal vazio que haviam encontrado horas antes. Chiano preferiu não falar sobre ele para não fazer o garoto se exaltar novamente. Então, desajeitado, chegou ao assunto que queria:
— Se eu descrever pra você uma… criatura que vi no meio da floresta esses dias, cê conseguiria desenhar?
— Acho que sim — Breno não entendeu bem o motivo da proposta, mas ficou levemente instigado.
— Ok… — Chiano respirou fundo. Breno nunca tinha visto o garoto se portar daquela forma. Exalando um pouco de ansiedade e com o ar ao seu redor inseguro e inquieto.
Uma nova página no caderno, punhos a pontos e lápis afiado. O rapaz loiro descreveu com o máximo de detalhes que conseguia lembrar. Suas características eram contadas entre adjetivos físicos e sentimentais. Quando terminou, Breno analisou bem o desenho e se questionou achando até um pouco de graça:
— Não parece um animal… Parece uma logo de banda de death metal.
— Eu sei, eu sei. Tem um formato esquisito. Mas é que ele mudava de forma quase o tempo todo. Parecia que se ele ficasse numa forma só, ia parar de flutuar ou conseguir se mexer. Só esses espinhos e hastes longas e pretas se mantinham.
— Parece ser… esqueci a palavra. Caramba. Pera. Mais um segundo…
— Etéreo.
— Isso. Eu sinceramente nunca vi um ser desses… Deve ter sido uma ilusão, Chiano. Algumas florestas fazem isso com a gente — Breno quis tirar da cabeça do garoto aquela aparente fissura do ser misterioso. Estava começando a achar o comportamento dele hiper focado demais no assunto.
— Não era ilusão, não. Sei disso. Eu vi. Senti — resistiu com convicção.
— Oxe, oxe. Sentiu como?
— Não sei dizer. Mas quando olhava pra ele, ayê, apesar da forma ser esquisita e dar até um medo de frio na espinha, era como se eu tivesse vendo… gente. Quase como se fosse humano. E parecia sussurrar algo pra mim, mesmo de longe — os olhos de Chiano brilharam ao narrar.
— Ayê, acho que era um espectro, Chiano — Breno resmungou preocupado. Fechou o caderno para que o outro garoto parasse de encarar o ser. — E ele te sussurrava o que?
— Era nada. Era outra coisa. E eu juro que podia ouvir a voz de Amélie lá no fundo, bem no fundo. Parecia ter alma, sabe? Alma de gente, não de animal. Algo doce e diferente. Igual a Amélie.
Breno engoliu em seco e ficou em silêncio por um tempo para pensar um pouco melhor antes de entrar no assunto:
— Cê tá misturando as coisas, cara. Sei que sente falta da Amélie. Eu sei como você se sente, de verdade. Mas pare de ficar procurando ela nas coisas. Não faz bem isso, eu sei bem.
Chiano balançou a cabeça numa tentativa de resgatar a si mesmo de volta para a realidade.
— É, cê tem razão. Deixa pra lá. Valeu pelo desenho.
— Imagina.
— Posso ficar com ele?
— Pode — Breno arrancou a página e deu ao garoto, que a dobrou e enfiou no bolso da calça.
O garoto voltou para a página do portal. Quando o olhou, foi como se tivesse revivido todo aquele sentimento violento que experimentou na frente do local. O mesmo sabor ruim, o mesmo soco de decepção. Respirou fundo na tentativa de se acalmar, mas de pouco adiantou. Minutos depois, foi Pólen quem se aproximou e sentou-se ao seu lado. Entregou-lhe um espetinho com carne e milho assados e comeram em silêncio, sem nem ao menos se encararem.
— Tá se sentindo melhor? — a garota perguntou depois de um tempo após terminarem de comer.
— Não — a resposta seca que deu não era nada diferente do que ela esperava.
— Sei que é uma merda — ela tentou uma abordagem mais macia -, mas a gente devia ter vindo pra essa viagem e refazer os passos com a consciência de que, talvez, existisse a possibilidade de nem achar resposta nenhuma, ou de encontrar coisas que a gente pode não gostar… ou até conseguir achar algo, mas incompleto. Coisas que deixariam a gente ressabiado, com mais dúvidas do que certezas.
— É isso que o Eichler é agora — ele resmungou com uma voz turva e rouca. — Um monte de dúvidas que me deixam ressabiado.
Pólen pensou e perguntou algo que, ao mesmo tempo, servia para ele e para ela:
— E você tem medo das respostas?
Breno não respondeu. Apenas virou o rosto chateado e irritado para Pólen. Aquelas sobrancelhas abaixadas em direção ao nariz torcido e abaixo da testa ranzinza deixavam a vista da garota até machucada.
Breno tinha sim medo das respostas. Mas, mais do que isso, sofria pelo fato de elas terem que ser descobertas ao invés de contadas pelo seu melhor amigo, a pessoa que mais confiava e se abria naquele mundo. Da maneira que tinha que ser. Da maneira que ele sempre era com Eichler, aberto e límpido. Por que só agora percebeu que não recebia isso de volta? Notar que não haviam uma relação mútua doía demais.
— Ele não queria ir embora daqui — foi a resposta do garoto para Pólen. Resposta não só para a hipótese dela, mas uma resposta à sua própria mente confusa que tentava colocar um curativo sobre aquela confusão mental. Se convencer de que Eichler não estava escondendo mais do que ele tinha imaginado era a única forma de se sentir menos traído.
O garoto se levantou num supetão. Deixou cair do colo até o chão o caderno e o estojo e caminhou com passos pesados para dentro da mata, sem nem saber para onde queria ir. Pólen continuou no mesmo lugar, decepcionada consigo mesma.
De longe e ajudando Chiano a manter, com dificuldade, a fogueira acesa, Írios assistia os dois amigos conversarem. Ao notar que Pólen permaneceu na árvore, pensou em arranjar uma brecha para sair da clareira atrás de Breno sem que ninguém o visse. Mas Chiano não fechava a matraca:
— Ayê, diacho de fogareiro.
— Por que cês não usam magia pra acender? — Írios perguntou enquanto abanava as fracas brasas.
— Oxe — Chiano protestou -, não se trapaceia o cotidiano assim. Até porque além de invocar a chama, têm que manter ela acesa com cantiga. Trabalhoso demais. Detesto cantalíngua.
— Entendi — a boca de Írios se manifestou enquanto os olhos espiavam a entrada da mata, em busca de Breno.
— Mas me conta: como é ser um feiticeiro no meio dos humanos? — o garoto loiro sentou-se ao lado da fogueira para colocar a lenha com mais cautela e continuou o assunto.
— Ah, uma merda né.
— Bela descrição.
— Mas é sério. Lá eu não podia usar os meus poderes — o estrangeiro resmungou.
— Poderes?
— É, pros humanos, o que a gente tem são poderes.
— Tipo o Homem-Aranha?
— É — Írios riu da comparação. — Mas sem a parte das teias.
— Pensando bem, acho que consigo fazer as teias e ser o Homem-Aranha.
— E vai balançar em árvores só, né? Aqui não tem prédios igual o Outro Lado.
— Faz sentido. Mas agora entendi seu ponto. A gente tem árvores e poderes e eles têm prédios. Deve ser bem bacana lá, mesmo — Chiano ironizou. — E como que te ensinavam magia?
— As escolas públicas têm aulas de magia pros feiticeiros que vivem lá, mas são escondidas e bem ruins. Só pra dizer que tem, mesmo, sabe? — a voz de Írios ficou mais ressentida por causa das lembranças.
— Escondidas? — o rapaz surpreendeu-se.
— É. Ninguém pode saber quem é feiticeiro. Os humanos não gostam, então tem que ser escondido. Se eu contasse pra alguém que eu sou feiticeiro, daria ruim pra minha família.
— Seus pais são feiticeiros?
— Não, só os meus tios.
— Então só sua família sabe sobre você? — Chiano estranhava essa história de ter que esconder quem você mesmo era.
— Uns poucos amigos sabiam sobre mim, mas só porque tinham feiticeiros na família também. Igual meu amigo Bernardo, porque a irmã dele era feiticeira e tinha aula comigo. Na real, a maioria dos humanos não sabe que a gente existe.
— Que pira esquisita. Que bom que cê veio pra cá.
— Pois é. Por isso não dava pra sair por aí usando magia e tal. É um segredo pra se manter bem guardado.
— Mas se descobrem, o que rola?
— Dependendo do caso, o governo força a família a mudar de cidade pra esconder. Ou até banem o feiticeiro pra sempre pra esse Lado. Daí o feiticeiro menor de idade perde o contato com a família humana.
A resposta de Chiano foi interrompida por um barulho de passos pesados. Os dois garotos ao redor da tentativa de fogueira encontraram com seus olhares Breno parado no topo das escadas, de frente para o muro de tijolos. Ele sacou um pequeno objeto do bolso e o levou até seu olho direito. Em seguida, os tijolos despencaram ao chão como se todo o cimento que lhes unia tivesse desaparecido.
— Pipoca, morcego e pimenta — Breno disse em cantalíngua para que os tijolos voltassem a se empilhar uns sobre os outros. Mas, desta vez, em forma de um arco vazio, abrindo visão para um corredor úmido de pedra e iluminado por pequenos vagalumes que voavam em círculo por toda a extensão do teto.
O garoto atravessou o arco e caminhou pelo corredor sem olhar para trás. Pólen se levantou num supetão e foi atrás, seguida de Chiano e Breno. Em poucos passos, estavam dentro de uma espécie de masmorra ampla e de formato circular. As paredes eram feitas com os mesmos tijolos lá de fora, mas o teto, bem alto, era revestido por lâminas largas de vidro sustentadas por galhos de árvores e raízes de plantas que brotavam das paredes.
No centro do local havia uma estufa de ferro e vidro em formato de uma pequena casa. Dentro dela, diversas espécies de plantas, flores e frutos disputavam o pequeno espaço que havia para se expandirem. No fundo da masmorra, uma ampla mesa de madeira em formato de meia lua se estendia pela parede de tijolos: era uma mesa de estudos, repleta de papéis, anotações, livros e itens de química. Abaixo delas havia uma pequena porta de madeira, mas apenas Pólen havia a notado.
— Ayê, tem mais coisa aqui do que no quarto do Hugo — Pólen comentou maravilhada ao olhar ao redor.
— Ele manteve esse lugar por anos — Breno comentou colocando a mão sobre a estufa. Dentro dela havia também pequenos seres vivos, como hamsters com asas, lagartas e muitos louva-deus grandes, no tamanho de uma bola de futebol. — Acho que era do pai deles antes do Hugo começar a usar.
Írios não sabia onde prestar mais atenção. Tudo naquele local era fantástico e cada canto exigia um olhar cuidadoso para encontrar e descobrir algo incrível. Mas a atenção de todos se voltou para Pólen, que mexia nas folhas que estavam no centro da mesa de madeira.
— Acho que o Hugo tava estudando alguma coisa.
Chiano se juntou à garota e os dois começaram a pegar folhas que estavam na superfície daquela pilha bagunçada. Ele cerrou as sobrancelhas e perguntou:
— O Hugo é médico?
— Não. É biólogo — Pólen respondeu estranhando a pergunta, mas bateu os olhos no papel que o garoto segurava e entendeu o porquê dela. — Parece que ele tava estudando botica.
— Cê conhece essas fórmulas? — Chiano questionou.
— Algumas. Só que elas não fazem sentido juntas, não. Mas, assim, inegavelmente ele tava tentando chegar numa medicação. Ou um tratamento.
Breno ia se aproximando cada vez mais cautelosamente dos dois. Ficou ao lado de Pólen, observou aquela papelada toda sem saber no que exatamente ler ou focar a atenção, até que seus olhos caíram sobre uma pasta com uma insígnia que lhe era familiar: o brasão do hospital de Àttinos. Alcançou-o e, com as mãos trêmulas, puxou os papéis de dentro. O primeiro já anunciava que eram resultados de exames de Eichler.
Bastou ler a primeira folha para um embrulho surgir na boca do estômago. As mãos ficaram frias e fracas, até que não tivessem forças nem mesmo para segurar uma dúzia de folhas finas. Deixou-as cair no chão e correu para fora das masmorras.
De longe, Írios ficou sem entender. Viu o garoto cortar o seu caminho para sair do local, então foi até perto de Chiano e Pólen, que recolhia o que ele havia derrubado no chão.
— Meus Deuses — a voz de Pólen rasgou o ambiente tenso. Ela levou a mão à boca e seus olhos encheram de água. Começou a folhear freneticamente os exames, depois puxou as anotações de Hugo para colocar lado a lado. Logo entendeu. Então devolveu os papéis para a mesa e encontrou os olhares curiosos e assustados de Chiano e Írios, sedentos por respostas.
— O Eichler… — ela tentou dizer com a voz arranhada e vacilante. — Tava morrendo.
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