Por Onde Andou Eichler?

8 Púrpura, turquesa e narciso


25 de Junho de 2012

Querido Bernardo,

[...]

Quando meus tios estão em casa, eu me esforço para sorrir e interagir mais com eles. Pra que eles sintam que tá tudo bem comigo e não soar aquela visita mórbida. Mas hoje eu falhei e minha tia percebeu logo no café da manhã.

Então ela voltou do trabalho para almoçar em casa e me puxou para uma conversa meio séria na mesa. Ela foi delicada e gentil, não tenho muito do que reclamar. Mas, como falei, não queria ser esse tipo de visita. Naquela situação não teve jeito, tive que ser mais sincero e tentei descrever como me sentia.

Ela até chegou a ficar preocupada, mas apontou logo uma solução. Pediu que eu subisse pra me arrumar enquanto ela lavava a louça porque me levaria para algum lugar.

Confesso que quando entendi que a gente teria que sair de casa, dei uma resistida internamente. Mas ela jurou que era perto dali, somente algumas quadras e chegaríamos.

Caminhamos em silêncio até chegar numa casa com um quintal e planta bem parecida com a dos meus tios, mas com muito mais vegetação e cheiro de café passado na hora misturado com outras ervas fortes, chá, sei lá.

Uma senhora corcunda e bem velhinha recebeu a gente. Ela ficou muito feliz quando viu minha tia. E então me encarou meio feio. Depois ela se desculpou — não queria ter sido grosseira. Disse que foi porque eu estava com o quebranto estampado na cara.

Só aí entendi o que tínhamos ido fazer lá. E o que era essa senhora: uma benzedeira.

Não sei se sabe, mas os feiticeiros são muito mais ligados à medicina alternativa e natural. Antes de ir para um hospital, visitamos benzedeiras e curandeiros. Pra gente funciona muito bem. Esses feiticeiros são especializados em como equilibrar nossa aura com a natureza — se essa ligação não está em dia, adoecemos. E era o meu caso.

Quebranto é uma certa vulnerabilidade. Um estado mais cabisbaixo dos sentimentos que deixa nosso corpo aberto à muita praga ruim que está ao nosso redor. Tipo como uma imunidade fraca. Se tivesse algum bruxo me fazendo uma maracutaia, teria muito mais chances de eu ser atingido nesse estado. Ou se eu fosse um duelista, dificilmente conseguiria me defender de um ataque ou feitiço sem me machucar.

O problema é que quando o quebranto fica muito tempo com a gente, ficamos deprimidos. E no final das contas era assim que eu estava ficando. A benzedeira descreveu o quebranto como um tumor que se alimenta do nosso corpo e humor até sobrar pouca coisa.

A benzedeira tratou de mim. Primeiro me deu um chá — horrível, por sinal — e preparou o terreiro no fundo da casa para o ritual. Pediu para eu ficar descalço, me vendou e mandou caminhar sobre a terra.

Disse que estava quebrando o meu medo e limpando meu caminho passado. Porque eu precisava me deixar seguir em frente na cidade nova — e eu nem tinha falado com ela sobre isso, pra você ver! Ela disse algo sobre meu quebranto e meus sentimentos estarem me limitando demais, não deixando eu sair de casa, conhecer gente nova… Cirúrgica essa velha.

Enfim, ela ia riscando o chão com seu cajado as pegadas que eu deixava para trás na terra. E só parei quando ela pediu para eu ficar completamente imóvel.

Alguns segundos se passaram e eu continuei lá. Como eu não via nada, minha tia contou o que aconteceu naquele momento da benza: a senhora procurava meu quebranto pelas árvores. Ele estaria escondido perto de alguma raíz. Agora pequeno e frágil. Ela caminharia até ele e ofereceria misericórdia para que fosse embora e se tornasse bom — e isso dependeria totalmente dele. Talvez se agarraria em outro feiticeiro para deixá-lo doente, igual fez comigo. Eles são bem oportunistas.

Falar com espíritos é um dom que pouquíssimos tem. Sei que nem todos são ruins, mas eu particularmente teria muito medo se visse ou lidasse com algum diretamente.

Mas o fato é que eu comecei a me sentir bem melhor depois daquilo. Já fazem algumas horas e a sensação pesada está saindo de mim aos poucos. Espero que acorde melhor amanhã. A benzedeira indicou que eu ficasse ouvindo alguns mantras de cura, então botei na vitrola do meu quarto e deixei tocando baixinho enquanto fico deitado na cama pensando na vida. É calmo e suave.

Fiquei pensando muito no que ela disse, sobre estar travado para sair de casa. E é um fato. Apesar de estar melhorando agora, eu ainda sinto isso muito forte. Mas é um sentimento que eu conhecia e já refleti muito sobre.

Quando meu pai foi transferido pra outra cidade e nos mudamos, foi muito esquisito. Acho que principalmente porque eu estava na idade de entender o que era de fato uma amizade e, daí, do nada, precisei deixar vocês para trás e fui forçado a recomeçar do zero longe dali,

Na cidade nova foi tudo muito esquisito. Eu era o novato, o corpo estranho, e a galera toda, mesmo da minha sala, já tinha seus amigos desde a infância, seus grupinhos, suas histórias. Foi muito difícil “penetrar” naquela bolha social, eu era sempre rejeitado hora ou outra. Eles não precisavam de mim, de mais um. Já se tinham e bastava.

Quando vejo outras pessoas da minha idade aqui em Àttinos, penso exatamente na mesma coisa, sinto a mesma coisa.

Eles precisam de mim?

Até quando voltei a morar aí, a sensação foi parecida. Passei dois anos longe e vocês se acostumaram a viver sem mim durante esse tempo, enquanto eu passei boa parte do tempo sentindo falta de vocês, da minha vida antiga. Por isso me senti tão frustrado quando retornei. Achei que seria recebido de braços abertos, mas tive que reconquistar todo mundo, tipo, “Ei, sou eu! Você gostava de mim antes, lembra? Sou o mesmo de antes”, mas vocês tavam diferentes. Eu também, mas era difícil de ver.

Tanto lá, aí, aqui, fiquei e fico apenas esperando a oportunidade. Não gosto de ser enxerido no meio de gente. Mas, se tivesse a oportunidade, ia valorizar. Ia, sei lá, ser legal, uma companhia legal.

Agora é só esperar, acho. Talvez quando as aulas começarem, terei mais oportunidades.

Espero que esteja com saúde.

Com carinho,

Írios.

Quando Breno chamava Pólen pela janela de seu quarto, já sabia que coisa boa não era. Normalmente quando o garoto ia até sua casa sem combinar, era porque estava mais ansioso que o comum.

Ele pediu para que ela se trocasse rápido e o encontrasse na praça que tinha na frente da casa dela.

Ela saiu de casa carregando duas xícaras de café para eles tomarem. Breno estava esperando sentado no balanço do parquinho com uma folha grande em mãos. Ela sentou no balanço ao lado. O dia estava agradável, com poucas nuvens e um frio tranquilo.

Ainda antes de terminarem o café, Breno já abriu aquela folha amarelada para mostrar. Pólen reconheceu o mapa de Àttinos e da periferia de cara, mas demorou para entender que era o mesmo mapa do quarto de Eichler. Breno explicou sobre os novos rabiscos que o garoto havia feito antes de falecer.

— Mas pode ser qualquer coisa isso — Pólen ficou na defensiva. — Ele só quis… mudar o mapa.

— Mas não é! — Breno gesticulou alto com as mãos para transmitir para a amiga a importância da descoberta que ele havia feito. — Eu lembro de ver o mapa com os lugares de sempre semanas atrás. Só depois que ele fez um trajeto novo, e daí ficou aqueles dias todos fora. Ele tava aqui, tava andando aqui.

— Será que ele não tava viajando com o irmão? — a garota quis expandir a mente e pensar em outras possibilidades mais reais para aquela mudança, afinal, podia ser algo com bem menos importância do que Breno estava colocando sobre.

— Não, o Hugo não tava em Àttinos nesses dias — ele defendeu, irritado. — Eu tô falando, esse mapa tem os últimos passos da vida do Eichler.

— E se for, o que tem? Eichler era um explorador nato igual ao irmão. Talvez só estivesse tentando mudar os ares dos seus lugares favoritos da cidade, simples.

— E acho que você não viu uma coisa importante — Breno partiu para o seu próximo ponto da explicação: — Tá vendo a primeira parada? E a última também.

— A última é a ilha, onde a gente quer jogar as cinzas — Pólen refletiu. Mas, naturalmente, aquele era um dos lugares favoritos de Eichler, mesmo. Também estava no mapa anterior.

— E a primeira é na floresta de araucárias — Breno acrescentou, empolgado. Parecia que só ele estava vendo o óbvio que o mapa mostrava -, onde a gente fez a fogueira e a Amélie desapareceu.

— Que têm? A gente vivia lá pra acampar — Pólen ainda não conseguia acompanhar o raciocínio.

— Não sei, isso tá soando meio estranho pra mim — o garoto de cabelos raspados insistiu chacoalhando o mapa em suas mãos. — Estava tudo “bem” — fez aspas com os dedos para dizer a última palavra -, e daí a Amélie some naquela explosão perto da gente. Têm alguma coisa querendo ser dita aqui.

— Mas o que é? — Pólen começou a se irritar, tanto com a insistência de Breno, quanto com a sua possível burrice de não conseguir acompanhá-lo.

— Olhe de novo — ele abriu o mapa sobre o gramado abaixo deles e foi acompanhando os passos desde o primeiro com a ponta do dedo indicador. — Aqui, a floresta de araucárias. Explosão, Amélie desaparece, Írios aparece. Depois, têm um tracejado vermelho ligando todos os pontos. O mapa anterior não tinha um tracejado assim, ou seja, esse mapa indica um caminho, com passo, um, dois, três… E assim por diante.

— Nisso você tem um ponto — Pólen concluiu e deu o braço a torcer. Agora estava tentando se esforçar mais para entrar na onda de Breno.

— Quer ver algo que comprova isso? — Breno explicou empolgado, falando alto e insistentemente. Arrastou o dedo sobre o tracejado até alcançar os demais pontos. — A fazenda da família do Julian fica no caminho entre o primeiro e o segundo passo, olha só. O tracejado, inclusive, passa colado na entrada da fazenda. Lembra que o Julian disse que o Eichler passou um dia lá na fazenda para descansar? E que depois seguiu para o caminho da periferia, pra fora da cidade, ao invés de voltar pra Àttinos. E olha só pra onde vai o próximo passo: borda da periferia. Perto do acampamento das Copas, onde a Valen também viu ele dias depois. Isso aqui é uma jornada. Eichler foi até a ilha e voltou, por isso tava sumido nas últimas semanas antes de… morrer.

— É, você tem razão — Pólen finalmente entendeu. E o que mais apertava seu peito era: — Ele nem contou isso pra gente. Escondeu.

— Pois é — Breno concordou cabisbaixo. — O que será que ele fez? Pra onde ia? O que queria?

— E por que a Amélie sumiu no primeiro passo? — Pólen acrescentou mais uma pergunta.

— Não sei, mas acho que a gente pode descobrir de alguma forma. Na verdade, só uma forma — Breno conclui, decidido, enquanto fechava a folha para guardar em sua bolsa. — Eu acho que a gente deveria seguir os passos desse mapa pra nossa viagem até a praia pra jogar as cinzas. Já vamos pra lá mesmo, só vamos mudar um pouco o percurso. Aí a gente olha o que têm em cada um desses passos de perto.

Ayê, no que isso vai ajudar? — Pólen voltou a questionar, com resistência. Estava chateada por Eichler ter escondido aquilo deles, talvez seu interior não quisesse revirar aquele assunto para não levantar ainda mais poeira.

— Eu não sei. Pode nem dar em nada, mas eu quero fazer isso. Acho que refazer os passos dele… pode me ajudar a entender. Me despedir dele, não sei.

Pólen se compadeceu com a sensação e ainda acrescentou, já convencida:

— Parece até que o Eichler deixou um mapa com uma última aventura pra gente fazer…

— Também tô sentindo isso — Breno foi invadido por um ânimo repentino. — É isso. Só bora.

— Isso!

— Ok. Mas se vamos visitar esse primeiro passo — Pólen pediu levantando-se do balanço -, onde a Amélie sumiu, vamos fazer isso com o Írios, daí já falamos sobre o que ele quer falar desse assunto.

Breno imediatamente desfez a cara de animado. Percebendo a reação do amigo, Pólen reforçou:

— Eu devo isso pra ele.

— Tá bom — ele aceitou, derrotado, já aceitando que não poderia fazer muita coisa pra ela mudar de ideia. — Vamos arrumar nossas malas pra partir. Depois do primeiro passo, a gente já sai para a viagem, ok?

— Ok — ela confirmou, reflexiva, e pediu: — Chegando em casa, ligue pro Julian e pra Valen avisando da viagem.

— Já falei sobre isso com eles. Eles não querem, lembra? Na fogueira disseram.

— Eu sei, mas o mapa mudou um pouco as coisas agora. Vai que…

— Você não perde as esperanças, né?

— Não costumo desistir das pessoas. E a gente precisa de quatro pessoas pra quebrar o selo da praia.

— É verdade, têm isso ainda. Ok. Vou tentar. Mas e se eles não quiserem?

— A gente improvisa. A Valen eu duvido muito que tope de primeira, então a gente podia passar lá nas Copas pra conversar com ela cara a cara. Mas é isso, a gente dá um jeito.

— Tá bom. Te vejo daqui a vinte minutos.

30 de Junho de 2012.

Querido Bernardo,

[...]

Ufa, aconteceu muita coisa nos últimos dias mesmo. Espero que tire um tempo bom para poder ler essa carta toda de uma vez pra não perder nenhum ponto importante…

Mas, enfim, já te narrei sobre a explosão na floresta de araucárias gigantes, da armadilha de líquen com o Breno, da maracutaia da Pólen, acho que agora só falta o final da conversa que eu tive com ela.

Bem, eu cheguei a questioná-la sobre o porquê do roubo das cinzas e de substituir pela urna falsa e, vou confessar, achei o motivo até que bonito.

Eu não entendo nada dessas religiões dos feiticeiros. Nem dos humanos eu era muito chegado, mas o que a Pólen me contou é que o Eichler também não era muito religioso, mas tinha suas crenças. O ponto é que ele sempre dizia querer ter suas cinzas jogadas em algum lugar importante para ele. A lista que Pólen e Breno tinham era grande, mas ela disse que provavelmente seria numa ilha depois da Praia dos Gigantes, bem depois do fim do distrito de Àttinos. Era um lugar que ele gostava muito de passar as férias, principalmente com o irmão, um cientista expedicionário.

Mas daí vem o problema: muito recentemente, a família do Eichler se converteu em uma religião que esqueci o nome. E um dos preceitos dela é sobre o velamento dos entes queridos, que é bem parecido como fazemos aí no Outro Lado, inclusive. Por isso, as cinzas do Eichler ficaram na casa dele, no quarto. E lá deveriam permanecer. Agora, é a réplica que está lá.

As cinzas de verdade estão com a Pólen e ela e o Breno planejam viajar nesses últimos dias de férias para jogá-las lá na tal ilha. Achei legal da parte deles, realizar um dos últimos pedidos do amigo. É justo com a memória dele.

Ele deveria ser muito querido mesmo, pra terem esse esforço todo. Quero ver se eles vão mesmo partir nessa viagem. Não vou mentir, eu gostaria de ir, mas acho que é um rolê íntimo demais. Depois vou sondar mais a Pólen sobre isso.

Ela prometeu me encontrar amanhã para conversarmos sobre Amélie. Estou empolgado. Eu consegui aproveitar bem o dia com ela e com o Breno. Sei que posso ter sido pedante e grudento um pouco, mas eu tive a oportunidade de ficar por perto deles, de finalmente viver um dia como um feiticeiro comum… e eu aproveitei, é isso. Temos que ser cara de pau às vezes.

O Breno não parece ser muito chegado em mim, eu entendo. Ele me olha de um jeito… esquisito, não sei. Mas a Pólen é bem receptiva, apesar de meio maluca e avoada. Como eu falei, eles tão passando por um momento merda e os outros amigos mais próximos deles parecem ter pulado do barco depois que o tal de Eichler morreu. E a Pólen parece bem chateada com isso, talvez seja o motivo dela ter me tratado bem.

Inclusive, consegui descobrir um pouco mais sobre a morte desse Eichler. Foi pesado, mesmo, bem triste. Perguntei pros meus tios quando cheguei em casa à noite e eles me contaram com mais detalhes. Foi uma parada que mexeu bastante com a cidade. Esse menino e a família dele eram bem conhecidos por aqui, por isso o baque. Mas o moleque simplesmente caiu de uma das maiores árvores da cidade. Subiu até lá em cima pra ter uma boa vista de Àttinos e puft, se espatifou no chão.

Como minha vó dizia, pra morrer basta tá vivo.

E eu tô vivo. No lugar que eu sempre quis estar. Então vou aproveitar cada segundo, é isso.

Acho que temos um novo Írios aqui. Tô empolgado.

Inclusive, obrigado por me ouvir. Ou melhor: ler. Está sendo muito importante!

Até breve espero voltar para te contar mais aventuras de um típico jovem feiticeiro!

Com carinho,

Írios.

Írios estava ajudando a tia no jardim da frente de casa quando Pólen e Breno passaram de bicicleta. Já de longe o garoto ouviu duas vozes conversando e reconheceu-os. Arrepiou-se inteiro: será que os dois estavam indo até ali por conta dele? Depois, viu suas cabeças sob o muro baixo da casa coberto com uma planta rasteira.

— Fala Liquírios— Pólen já chegou com a brincadeira de misturar seu nome com líquen. Ela encostou o guidão da sua bike no muro e esticou o pescoço para cima para poder ver melhor dentro do terreno. Quando notou que o garoto estava acompanhado de sua tia, engoliu em seco e já mudou a postura para uma menos à vontade. — Tudo bem?

— Oi — Írios respondeu meio tímido por causa da vergonha da brincadeira na frente da tia, mas tentou fingir costume para ela não estranhar.

Percebendo que os outros dois estavam se esforçando para retomar o clima, Breno também disse olá.

— Oi Dona Kallihan — Pólen cumprimentou a tia com o máximo de simpatia que conseguia reunir.

— Oi, Pólen — a tia soltou os materiais de jardinagem sobre o chão e melhorou a postura para conseguir ver a garota. — Seus pais estão bem?

— Estão sim, obrigada.

— Manda um abraço pra eles por mim.

— Pode deixar — depois, voltou sua atenção para o garoto todo sujo de terra vermelha: — Írios, vamos dar uma volta de bike?

O garoto respondeu que sim com a cabeça e esboçou um sorriso enérgico que contagiou até sua tia.

— Vá lá se limpar e pegar suas coisas — a mulher pediu a ele. Não sabia que o sobrinho tinha conhecido novos amigos, mas ficou contente por isso. — Eu termino aqui sozinha.

Ele obedeceu e voltou correndo de dentro da casa poucos minutos depois. Tirou a bike enferrujada do canto do quintal da frente e passou pelo portãozinho de ferro dando tchau para a tia.

— Se divirtam! — ela desejou para os três enquanto pedalavam rua abaixo.

Pedalaram em silêncio pelo caminho que Írios estava acostumado a fazer todos os dias, onde viu os dois amigos pela primeira vez dias atrás. Foram até a campina no final do bairro, desceram o barranco e deixaram as bicicletas ao lado de um arbusto antes de entrarem na mata mais baixa da floresta de araucárias gigantes.

— Vamos com calma a partir daqui — Pólen pediu aos dois garotos enquanto entravam na trilha da floresta.

O grupo de buscas por Amélie ainda não tinha acabado. As ondas de procura estavam mais distantes, chegando quase ao final da floresta pelo norte, então haveriam poucas pessoas escaneando aquela região. Mas como era a mais próxima de onde achavam que a garota havia desaparecido, ainda poderia ter alguém vasculhando por ali. E os três precisavam evitá-las ao máximo. Tinham acordado que não seria bom que descobrissem que eles estiveram tão próximos do momento do sumiço que puderam presenciar a tal explosão.

Alguns minutos depois, precisaram sair da trilha e caminharam pela mata porque um grupo de dois policiais e dois civis estavam olhando as proximidades. Fizeram os movimentos mais silenciosos possíveis e andavam abaixados para conseguirem se esconder sob os arbustos até alcançarem os restos da fogueira que estavam dias antes.

— Foi naquela direção — Breno apontou para uma trilha menor que seguia à leste, referindo-se ao pouco que viu da explosão. Os três então partiram naquele sentido enquanto Breno sacou o mapa para analisá-lo melhor. — Foi aqui.

— É, não têm nada de especial, mesmo — Pólen refletiu olhando ao redor com cuidado e atenção. Era apenas uma parte comum da trilha. Breno também começou a vasculhar, em vão.

Írios espiou o mapa por de trás de Breno com muita curiosidade, mas preferiu se afastar para não pagar de enxerido. Pólen notou seu movimento e decidiu explicar rapidamente sobre: o mapa do quarto de Eichler e as dúvidas sobre o primeiro passo ser tão próximo de onde veio a explosão.

Breno não foi a favor dela contar para o garoto sobre tudo isso, mas não teve jeito. Teve apenas que ficar ouvindo emburrado a história, até que um clique veio de perto e alguns passos surgiram de repente. Os três ficaram em alerta e Breno rapidamente escondeu o mapa dentro da bolsa. Pela trilha, viram dois rapazes que estavam longe demais para que eles pudessem sair correndo sem ser notados, e perto de menos para que conseguissem se esconder a tempo.

— Pólen — o rapaz alto disse assim que todos ficaram no campo de visão um dos outros. Ele estava ofegante e deu um pequeno pique até chegar perto do grupo dos três mais novos -, viu o Chiano por aqui?

— Não vi, não — ela respondeu de imediato e ficou aliviada que eles não eram o foco do rapaz.

— Saco — ele protestou junto do seu acompanhante. — Se virem ele por aí, me deem um toque, por favor.

O garoto alto pediu enquanto esticou a mão para Pólen. No centro da palma repousava seu búzio. Pólen então retirou o seu próprio búzio do ouvido esquerdo e deu um leve toque no do rapaz, conectando as duas peças para que pudessem trocar mensagens futuramente.

— Pode deixar — ela respondeu para que ele fosse embora o quanto antes.

— Obrigado por estarem dando uma força nas buscas… — o rapaz comentou para os três adolescentes e voltou a correr pela trilha junto do outro.

— Quem era? — Írios perguntou enquanto via os dois sumirem mata adentro.

— Era o irmão da Amélie. Ele tá buscando ela sem parar desde o primeiro dia — Pólen respondeu com um pouco de pesar.

— Na verdade, ele tá procurando é o Chiano — Breno corrigiu.

— Quem é esse? — Írios pediu novamente.

— É o namorado da Amélie. Tem uma galera que acha que ele quem sumiu com ela — a garota respondeu.

Em seguida, novos barulhos surgiram, desta vez do alto, sobre suas cabeças. Eram sons de galhos e folhas. Todos olharam para cima e encontraram uma massa escura caindo aos pés da árvore mais próxima.

— Mas eu não fiz nada, juro — o menino que saltou da jovem araucária se defendeu enquanto recobrava a postura. Era um rapaz um pouco mais alto que Pólen, branco como a neve, com os contornos do nariz e olhos avermelhados, um sorriso largo e cabelos lisos e loiros bagunçados. Vestia uma capa de corta-vento preta bem maior que seu corpo magricela, que dava até a sensação de ele ser mais corpulento do que realmente era.

— Não espero muita coisa boa de você, Chiano — Pólen o fitou com um olhar rancoroso -, mas sei que não faria uma coisa dessas.

Já Breno torceu o nariz, pouco convencido do garoto, afastou-se dele e foi para perto de Írios. Írios, por sua vez, gostou de ter na roda outra pessoa que Breno desprezasse mais que ele a ponto de até aceitar dividir um pouco de espaço pessoal.

— Até porque — o moço loiro ajeitou sua jaqueta e retirou algumas folhas dos ombros -, pelo jeito, também tavam por aqui na hora da explosão, né? E sabem que num fiz nada.

Os três ficaram em silêncio para não se comprometer. O menino riu da cara deles por causa da tentativa de sair pela tangente e continuou:

Ayê, relaxem. Eu ouvi a conversa de vocês — assumiu uma postura de bonachão, de quem tava por cima. — Que viram mesmo a explosão e da história desse mapa aí. Inclusive, deixa eu dar uma olhadinha nele? Agora me interessou.

Chiano foi se aproximando de Breno já com a mão estirada para receber o mapa, mas o garoto de cabelo curto fez que não com a cabeça e recuou ainda mais. Chiano entendeu o recado e desistiu da ação.

— Então também tava aqui? — Breno pediu, ainda confuso.

— Tava — ele explicou abaixando mais o tom depois de perceber a postura totalmente defensiva dos três -, eu tava indo até a casa da Amélie pra chamar ela pra descer. Eu passei por vocês na fogueira, mas não mexi com ninguém pra não acabar com o clima, né. Foi quando ouvi a voz dela me chamando, aqui dentro da floresta já. Fui seguindo pra pegar ela de surpresa e PUM! Uma luz tão forte veio que fiquei cego e ela não me respondeu mais de volta. Fiquei caído no chão sem enxergar nada por um tempo, daí ouvi uns passos e vi a Pólen saindo correndo. Tentei ir atrás dela, mas me perdi na trilha.

— Acha que a gente vai cair nessa lorota? — Breno provocou. Não acreditava de verdade que Chiano pudesse fazer algum mal à namorada, mas era um costume seu não levar muito a sério o que aquele cara dizia.

— Olha, na moral. Eu só quero descobrir o que aconteceu com a Amélie — a partir dessa fala, seus ombros caíram e a cara desfez dos últimos resquícios de malandragem características do garoto. Se segurou para não chorar enquanto continuava falando. Odiava ser vulnerável, mas precisava naquele momento. — Eu quase apanhei na rua hoje porque acham que eu mesmo fiz algo pra menina que mais amo nesse mundo e tou fugido até agora. Nem sei se posso voltar pra casa, tô com medo de estarem me esperando lá pra me linchar ou até me prender. Até meu pai já foi linchado no trabalho ontem… Achar a Amélie ou saber alguma coisinha sequer sobre ela é tudo que eu preciso, por favor.

— A gente te conta se souber de alguma coisa — Pólen entrou no tom de voz que Breno estava acostumado a ver a garota ter no dia a dia: arisco, decidido e imponente. No fundo, ela estava compadecida sim com o lado de Chiano, mas aquilo tudo era um jogo de interesses em que ela precisava privilegiar o dela e o de Eichler.

Ela se preparou para dar meia volta para sair dali, mas Chiano correu até ela e a segurou pelo ombro:

— Por favor, só me confirma uma coisa.

Pólen bufou e Írios refletiu que, se fosse pedido para ele, diria qualquer coisa. Ficou mexido com o relato do menino loiro.

— Só uma — Pólen cedeu, mas ainda não dando o braço a torcer totalmente.

— Eu tava perto demais da explosão pra ver algo, pra mim foi tudo branco. Vocês viram alguma coisa?

— Por que quer saber? — Breno pediu instigado.

— Oxe, oxe. Porque a cor de uma explosão pode indicar o que ela foi, ayê— Chiano comentou como se fosse algo óbvio.

— Ah, você tem razão — Breno cedeu, mas sem ficar com o orgulho ferido. Apesar de não ser o aluno mais inteligente da sala, Chiano era um mestre em maracutaias e entendia mais de magia quase tanto quanto Eichler, não era à toa que possuíam uma rixa desde o maternal. — Bem, acho que era colorida.

— Púrpura, turquesa e narciso — Írios finalmente falou algo depois de toda a longa conversa. Chiano encarou-o pela primeira vez, quase como se só tivesse o notando ali agora. Era que o rapaz tinha um jeito tão miúdo de ser, meio apagado ao olhar de Chiano.

Todos ficaram surpresos com a descrição específica das cores, mas não questionaram.

— Essas são cores de magia — Chiano concluiu reflexivo. Era a informação que precisava. — Mas essa mistura, esses tons… Não dizem muita coisa, mesmo. Se pelo menos fosse apenas uma só…

No fundo, os três ficaram meio decepcionados. Nos últimos segundos, surgiu neles uma fagulha de esperança de terem alguma resposta. Mas Chiano ainda insistia, se agarraria em qualquer possibilidade que encontrasse:

— E o mapa do Eichler aponta exatamente o lugar onde ela sumiu?

Pólen confirmou com a cabeça. Ela olhou para Breno, preocupada.

— Acha mesmo que…

— Então pode ser que o Eichler seja o responsável pela Amélie desaparecer? — Chiano jogou a pergunta que ninguém queria fazer ou ouvir.

— Não — a irritação de Breno chegou no estopim. Não podia ouvir aquele tipo de acusação ao amigo falecido. — Ele não faria uma coisa dessas.

— Mas pode ter sido algo sem querer — Chiano insistiu -, uma maracutaia que deu errado, talvez? Alguma runa escondida, um feitiço que não decaiu…

Antes que Chiano terminasse a frase, Breno avançou sobre ele. Sem que ninguém percebesse, tinha retirado sua adaga da bainha do cinto e colocou-a sobre o pescoço do menino loiro, que o encarava assustado e surpreso com seu movimento ágil.

Breno apertou a lâmina contra a pele de Chiano para intimidá-lo.

— O Eichler não fez nada!