Por Onde Andou Eichler?
9 A gruta das iaras
Chiano ficou atento, receoso e imóvel para não agitar nenhuma reação de Breno que pudesse fazê-lo ficar mais violento e por fim o machucar. Írios e Pólen fizeram o mesmo e se mantiveram quietos e sem se mover.
Ódio respingava dos olhos pretos de Breno e sua adaga começou a alhear ainda colada em Chiano. Por pouco, a lâmina se expandindo não cortou com o fio a pele lívida do rapaz.
— Não precisa disso, mano — Chiano comentou baixo para que Breno o soltasse, mas o garoto parecia estar num transe. Sua espada então começou a esquentar aos poucos. Logo arderia em chamas e queimaria Chiano.
— Breno, larga ele — Pólen finalmente pediu, também com calma para não irritá-lo ainda mais.
Chiano aproveitou o pequeno momento que a atenção que Pólen pediu de Breno distraísse de leve o rapaz. Buscou a forma mais segura de se afastar sem que machucasse a si e também a Breno:
Primeiro, respirou fundo e segurou bem o ar dentro dos pulmões. Com as costas das mãos, tocou um botton azulado com um desenho de redemoinho que estava preso sobre a borda inferior de sua camiseta.
Írios estava em uma posição que lhe permitia ver o pequeno gesto de Chiano, mas não entendeu de imediato que um simples toque num simples enfeite de roupa poderia desencadear um feitiço.
Isso porque aquilo era uma artimanha que Chiano tinha criado poucos dias antes: dentro do bottom havia um minúsculo inciso de runas e um pouco de sangue posto numa cápsula de remédio. As runas seriam ativadas com um toque de sua própria pele e com uma pressão o suficiente para estourar a cápsula e deixar o sangue embebedar o inciso.
Cada bottom tinha runas diferentes e com efeitos diferentes que o garoto ainda nem tinha testado todos até então. Aquele, inclusive, o bottom de vento, era um deles. Não sabia se funcionaria, mas valia o risco, pois esse era apenas um dos benefícios de seus bottons encantados: feitiços portáteis, discretos e fáceis de usar.
E deu certo. Todo o vento ao seu redor agora eram de seu domínio. O ar que estava dentro de seus pulmões se transportaram para cada superfície de seu corpo e expandiu-se com força, velocidade e pressão o suficiente para os dois garotos se descolarem num instante.
Chiano e Breno foram arremessados no sentido contrário de seus toques em mais ou menos dois metros. O vento os jogou contra o chão e caíram de costas. Breno, surpreso, assistiu ainda deitado Chiano levantar-se rapidamente, correr para fora da trilha e fugir para o meio da mata.
— Se esse mapa tem alguma resposta sobre Amélie — Chiano parou a corrida e olhou para trás para gritar antes de continuar -, eu mereço saber!
Pólen rapidamente se pôs a ajudar Breno a se levantar junto a Írios, mas ele recusou o apoio, afastou-se para pegar a adaga caída sobre a terra e ficou lá parado por um tempo. Os outros dois esperavam alguma outra reação dele, mas nada veio. Perceberam que, depois do acesso fulminante de ódio que o garoto teve, já estava mais calmo e até um pouco envergonhado de sua efusividade. Pólen o observou com cautela e comentou, cabisbaixa, assim que achou pertinente:
— Ele tem razão, Breno. Se o Eichler tem alguma coisa a ver com isso… a gente precisa descobrir.
— A gente precisa investigar, sim — Breno comentou ainda carrancudo e sem olhar para os dois -, mas pra provar que ele não têm nada a ver com isso.
—
Írios arrumou sua mala com a maior cautela e atenção possível. Qualquer coisa que faltasse poderia pôr sua vida em risco ou colocá-lo em uma situação desconfortável. Estava até ficando com medo do que poderia encontrar fora da cidade. Se Àttinos já era encantadora — e assustadora — para ele, ficava imaginando como seria a periferia e além dela.
Quando chegou em casa, correu para se enfiar no quartinho de tranqueira dos tios atrás da barraca instantânea que já ouvira o tio dizer que tinha. Depois de procurar tanto no cômodo escuro, encontrou-a enfiada no fundo de uma caixa de papelão. O garoto estava todo sujo e empoeirado, mas retornou para o quarto e continuou a ajeitar suas coisas.
Pegou a mochila de costas que comprou para usar nas aulas porque tinha bastante divisórias e era confortável de carregar. Nos lados colocou uma garrafa térmica grande para a água, e na outra o pacote da barraca instantânea. No bolso da frente colocou itens de higiene e algumas cápsulas de comida de acampamento que encontrou na despensa. De arma poderia levar somente a adaga e a varinha, então as ajeitou no coldre do seu cinto mesmo. Havia comprado aquele coldre especial para as aulas de treinamento e nunca havia usado.
Juntou dois frascos de água benzida para machucados leves e alguns pacotes com emplastros que roubou da caixa de primeiros socorros no banheiro dos tios. E, claro, não podia esquecer seu pato de borracha.
Dentro da mochila ainda colocou outros itens que achou importante levar, por precaução, já que havia sobrado certo espaço. Conseguiu enfiar até um tênis reserva caso o seu se desgastasse demais — sabia que havia gramas e espinhos ácidos na periferia, mas estava torcendo para não passarem por eles.
Parou e ficou admirando contente todos os itens que tinha reunido para a viagem. Vestia um coldre com suas armas, carregava curas, colocou um ramo de arruda sobre a orelha para afastar maus caminhos… Sorriu porque sentiu-se um feiticeiro de verdade, indo para uma aventura de um feiticeiro de verdade.
Ainda na floresta das araucárias gigantes naquele mesmo dia mais cedo, Írios decidiu ousar. Sabia que Breno ia torcer muito o nariz pro que viria a falar e ele entenderia a reação controversa do rapaz porque já tinha sacado a dele. Que ele de fato não ia com a sua cara, que era meio apegado à Pólen e às coisas que tinham a ver com o Eichler. Principalmente aquele movimento todo de seguir os passos do mapa e espalhar as cinzas do amigo na tal da ilha distante.
Mas um misto de emoções e razões fez com que o garoto estrangeiro abrisse a boca para propor de uma vez logo depois que Chiano saiu correndo pela floresta:
— Eu vou com vocês. Seguir o mapa, ir nos passos. Vou com vocês.
Como esperado, Breno protestou. Primeiro em forma de um olhar desconfiado que depois virou um rosto amargurado e bravo, até que reivindicou verbalmente que aquilo não fazia o menor sentido. Antes que ele terminasse seu raciocínio, Írios reforçou:
— Sei que é um rolê íntimo de vocês, eu entendo. Não quero me meter nisso, mas eu vou com vocês. Só para garantir que o Eichler não tem nada a ver com o sumiço da Amélie. Quando tivermos uma informação clara sobre isso, eu retorno pra contar pro Chiano. Só isso.
Primeiro, os dois amigos ficaram em silêncio e depois se entreolharam com muita dúvida. Pólen parecia mais razoável, já Breno ainda não arredara o pé da sua amargura com a proposta.
— Voltar sozinho? — o garoto de olhos pretos desdenhou. — Você vai morrer assim que sair de perto da gente.
— Não precisa me subestimar, eu sei me virar — Írios tentou se defender e passar confiança, mas nem ele mesmo acreditava na afirmação. Só queria ser convincente para poder ir junto.
— Você sabe o que têm pra lá da periferia, fora de uma cidade? — Breno continuou a subjugá-lo, colocando para fora nessas palavras a insatisfação com o garoto metendo o bedelho em seu rolê. — Lá fora é brutal, é a magia simplesmente no seu estado mais puro e selvagem. Quanto mais longe da cidade, pior fica. Aqui é um conto de fadas perto do que têm na periferia e fora dela.
— Breno, para, já deu — Pólen finalmente se manifestou. Estava calma e serena, o que não agradou muito ao amigo. — Vamos conversar um minutinho.
A garota puxou Breno para longe de Írios e os dois começaram a conversar. O garoto que ficou sozinho não conseguia ouvir um pio de onde estava, mas sua curiosidade o roía por dentro para saber o que tanto futricavam. Tudo que pôde fazer foi esperar e torcer para entrarem em um acordo positivo pra ele.
— Tá bom, você vai. Mas só até a gente achar algo para Chiano — Pólen acordou, séria, após voltarem até a clareira. — Ele era um mala com o Eichler, mas não é justo ele ficar aqui sofrendo pela Amélie.
Írios fervilhava de alegria por dentro, mas tentou se conter. Já Breno ainda estava de cara emburrada, apesar de aparentemente eles terem chegado num acordo mútuo sobre o assunto.
— Só até a pista do Chiano, ok? E se não acharmos nada até a praia, você volta mesmo assim — Breno foi incisivo. Ele realmente não parecia querer a companhia de ninguém além da Malta na ilha para jogar as cinzas.
—
01 de Julho de 2012.
Queridos tios,
Mil desculpas por avisar assim, mas é que o convite foi muito em cima da hora e eu não quis desperdiçar a oportunidade.
Vou sair acampar com uns amigos que conheci nos últimos dias. Eles querem aproveitar o fim das férias e achei uma ótima oportunidade de conhecer melhor a cidade, assim como o tio sugeriu.
Já juntei tudo que preciso pra ficar tranquilo no acampamento, e o pessoal também é bem legal, estou feliz por ter conhecido eles, de verdade.
Acho que voltamos em uns dois ou três dias. Não sei se o búzio vai funcionar nessa distância, mas fiquem tranquilos, logo menos estou por aqui.
E, tia, espero me divertir!
Até logo!
Com carinho,
Írios.
—
O vento da liberdade era realmente muito diferente. Fresco, refrescante, úmido e caloroso. Uma energia boa e forte invadia os corpos dos três adolescentes a ponto de até mesmo Breno estar menos carrancudo. Tinha um sorriso genuíno no rosto.
Já a Pólen estava elétrica. Era engraçado como ela realmente não conseguia parar muito tempo quieta. Pedalando, ela intercalava entre o assento e ficar de pé sobre os pedais. A garota era tão agitada que suas tranças finas balançavam o tempo todo, mesmo com ela parada e sem andar, porque estava sempre gesticulando com as mãos, mexendo com os pés ou movendo o tronco de um lado para o outro.
Pólen olhou por cima do ombro para admirar uma de suas vistas favoritas: a cidade se afastando atrás dela enquanto ela tá em alta velocidade.
Os três já estavam pedalando há uma hora em silêncio. Antes de partirem, Írios ouviu Pólen conversando com Breno enquanto arrumavam a correia da bike do garoto. Ela disse algo sobre eles terem em mente durante a viagem que o motivo daquilo tudo era o Eichler. Que as férias estavam acabando e que eles precisavam se divertir, pois era isso que Eichler gostaria: de vê-los aproveitando e sorrindo.
Pólen carregava a tiracolo a urna com as cinzas. Havia feito nela uma maracutaia para ficar num tamanho menor para facilitar a viagem. Quando chegassem na ilha, reverteria a magia para voltar ao normal.
Breno ficou encarregado pelo mapa. Disse que foi até a casa de Eichler avisar a mãe do garoto que ele ficaria com o mapa e ela aceitou sem protesto. Não queriam deixar ela contrariada com o sumiço do objeto da parede a ponto de começar a investigar o restante do quarto e descobrir que a urna de lá era falsa. Só por precaução.
Naquela estrada havia pouca coisa. Um ou outro restaurante de beira de estrada e pouquíssimas pessoas circulando. Era a entrada da periferia, onde havia mais fazendas com plantações, criações de animais, ranchos e estâncias. Todo o trajeto da estrada era pincelado por entradas de pequenas vias de terra com muitas placas que sinalizavam esses locais.
Eles iriam direto para o segundo local do mapa, que não era muito distante. Os dois nativos pareciam saber onde era e já ter visitado lá alguns anos antes, mas Írios não sabia do que se tratava.
Finalmente entraram em uma daquelas estradinhas de terra. Era bem íngreme e Írios ficou cansado nas primeiras pedaladas, mas os outros dois continuavam pedalando super de boa, então acabaram tomando certa distância. O caminho melhorou quando chegaram em uma espécie de mirante natural. Pólen e Breno já tinham jogado suas bikes sobre o gramado e corrido para a beirada ver o resto do nascer do sol sobre a cidade de Àttinos.
Írios ficou boquiaberto quando se juntou à eles. Dali dava para ver praticamente toda a cidade. Daquela altura e distância, ela parecia apenas pequenos bloquinhos de casas ligadas por pequenas estradinhas amarelas entre tufos de matas, florestas e bosques. Um rio de um azul cintilante cortava a cidade ao meio. Dava para notar que Àttinos ficava basicamente num local plano, no centro de uma grande cratera e rodeada por montes e picos esverdeados. Aquele onde estavam, inclusive, era um deles.
— Que vista incrível — o novato não pôde deixar de expressar.
Depois de um tempo se espreguiçando na aurora, os três seguiram caminho. Esconderam as bikes num arbusto no canto do mirante e entraram numa trilha pequena, quase apagada pela mata que crescia.
Desta vez, precisaram descer num barranco longo e lamoso. Aquela mata era úmida e o chão tinha aspecto de lama grudenta e escorregadia. O cheiro de chuva aumentava e se misturava com o de madeira molhada.
— É ali — Pólen sinalizou logo a frente. Breno vivia pedindo para ser o primeiro da fila das expedições porque ele tecnicamente entendia melhor sobre a mata, mas Pólen era ansiosa demais para ficar atrás de alguém, então sempre disparava e tomava a liderança. Isso era até bom, pois a garota cantarolava para as folhagens e ramos de plantas abrirem passagem no decorrer das trilhas — não gostava de abrir caminho cortando-as com lâminas.
A trilha fechada se expandiu para uma pequena clareira. No meio dela havia duas construções abandonadas — um casebre de tijolo à vista e um galpão de ferro todo enferrujado e retorcido. A natureza tomava conta deles e até parte do telhado do casebre já estava desmoronando por causa do braço de uma árvore que queria crescer ao lado dele.
No lado direito, um som longo ecoava de dentro de uma caverna alta e larga. Trilhos de trem saíam de dentro dela e chegavam até o barracão.
— Aqui era uma mineradora de pedra saltitante — Pólen comentou enquanto Írios explorava o local. Depois explicou que a Malta costumava ir até ali para fazer piqueniques antes de continuarem na trilha, que chegaria num lago atrás de uma pedreira dois quilômetros adiante.
— Pedras saltitantes são pedras para… — Írios começou a formular a dúvida, mas Breno o cortou antes com a resposta:
— Para salto.
— Não sabia que eram pedras que faziam os saltos funcionarem — o estrangeiro comentou, lembrando-se do último salto que pegou para chegar do Outro Lado até Àttinos.
— Faziam — Pólen respondeu. — Depois descobriram outros jeitos melhores e a maioria das minas fecharam.
— Então as pedras lá de dentro podem… teletransportar a gente? — Írios perguntou apontando para a caverna.
— Não, elas eram só um dos ingredientes — a garota continuou a explicar. — Elas eram usadas pra cortar o espaço e aumentar a densidade da magia pra aí sim criar um teletransporte.
— Entendi… — ele refletiu indo até perto da caverna. Breno ia dizer para ele não se aproximar demais, mas já era tarde. Um estampido agudo que lembrava um trompete soou lá de dentro e os três tiveram que tapar os ouvidos para suportarem. Írios, mais mal acostumado com aquele som, sentiu até tontura e ânsia de vômito.
— Quem vem lá?! — uma vozinha quase tão aguda quando a corneta soou de dentro da caverna, ecoando pelas suas paredes escuras e úmidas. Ela repetiu a frase mais umas três vezes e a cada uma parecia ficar mais próxima, mas írios não entendia como. Até que olhou para baixo e assustou-se com o pequeno ser que o observava com expectativa. Tinha no máximo uns 25 centímetros de altura.
O cabelo cor de fogo era tão comprido que parecia ser um véu de noiva — liso e tão sedoso que dava vontade de usar como cobertor em dias frios. Apesar desse aspecto, algumas folhas e pequenos galhos estavam enroscados naquele mar de fios cintilantes, provavelmente pelo fato das madeixas se arrastarem pelo chão.
A pele do pequeno ser era morena, realçando os olhos alaranjados. Os seios eram firmes e grandes, assim como as unhas triangulares nas mãozinhas — lindamente tingidas de verde-musgo. O serzinho usava uma espécie de macacão maçã-verde que delineava bem as curvas do corpo enxuto. Abriu um sorriso com sua boca fina e larga, piscando os olhos com cílios enormes — muito enormes. O rosto tinha uma tentativa de maquiagem que parecia usar terra e tintura de pétalas como improviso. Ela soltou um suspiro.
— Edite? — Breno perguntou meio confuso. Após dizer esse nome, o trompete agudo parou de soar e eles puderam relaxar as mãos dos ouvidos.
O olhar de Írios subiu e revelou outras diversas criaturinhas como Edite enfileiradas atrás dela, todas fêmeas, vindas da cavidade da gruta. Vestiam roupinhas diferentes. Umas eram mais magras, ou ainda mais gordinhas, ou mais altas — algumas usavam até bijuterias claramente de gente devido ao tamanho. Inclusive, exageravam dessas peças nos looks. Pareciam com as madames amigas da mãe de Írios que passavam a tarde em clubes com seus cachorros shitzu para fazer competições não anunciadas de quem conseguia usar mais esmeraldas no corpo.
A constante entre elas era a pele morena e cabelos enormes e soltos se arrastando pelo chão. As que pareciam ser mais idosas tinham os cabelos menos lisos e mais acinzentados.
— Breno! — Edite suspirou. Olhava para o garoto como um cachorro admirava uma máquina de assar frango, mas com amor.
— Breno... — várias das demais repetiram após Edite. Algumas mais frenéticas, outras com ainda mais suspiros apaixonados. As caladas reviravam os olhos.
— Gente... Me desculpa — Breno disse com pesar na voz enquanto sentava no chão de pernas cruzadas -, mas já falamos sobre nós. Não posso me relacionar com todas vocês. Não posso me relacionar com nenhuma iara, na verdade.
A primeira vez que Breno teve contato com as iaras foi há mais ou menos dois anos. Elas eram pequenos seres que protegiam as plantas rasteiras do bosque, dormiam em arbustos e se multiplicavam usando pólen, raízes e boa vontade. Viviam em colônias e normalmente se concentravam em entradas de grutas, minas e cavernas, que usavam como moradia.
Elas eram frenéticas, agitadas e se apaixonavam com frequência por garotos feiticeiros, principalmente ruivos e morenos. Quando cismavam com algum, faziam de tudo para que ele se mudasse para a colônia delas. Às vezes, iam até a cidade para sequestrar um rapaz só para elas, ou sequestravam algum que passasse por perto de sua área.
Breno foi um deles. Estava num acampamento com os escoteiros, dormindo tranquilamente na sua barraca e, quando acordou, notou que estava sendo preparado com maquiagem e bijuterias pelo corpo todo para um ritual de casamento com uma árvore que representava toda a colônia.
Um acordo havia sido fechado com elas: Breno e seus amigos escoteiros reforçariam a segurança daquela mata para que nenhuma outra criatura tentasse invadir ou machucar o local. E também levariam bijuterias novas sempre que passassem por lá. Em troca, elas parariam com essa neura por humanos e deixariam eles passarem por aquela região tranquilamente para acessarem o lago da pedreira.
Muitas vezes, os problemas que surgiam com os seres e espíritos das matas podiam ser resolvidos com a boa e velha diplomacia.
Pólen rapidamente começou a mexer na sua mochila e entregou para uma das iaras lá do fundo um pacotinho. Ela e mais outras seis ficaram todas alvoroçadas ao verem o saquinho cheio de anéis e colares, então se afastaram para olhar peça a peça. Já outra parte do grupo se aglomerou ao redor de Breno.
— Saudades de Breno! — Edite soltou um risinho. — Meninas e eu ficamos com saudades!
— Com saudades — algumas repetiram parte da frase da porta-voz em uníssono. Formavam um coro até que fofo.
— Eu também fiquei, meninas — Breno agachou ainda mais para perto delas para ter um campo de visão mais próximo. Írios notou que ele mudava muito o tom para falar com as iaras. Era uma voz mais amena, doce. Conseguiu ver uma faceta menos carrancuda e mais empática do rapaz. Ele continuou a falar: — Mas já falamos sobre o alarme, né? A gente tinha combinado que não fariam mais isso, lembram? Faz mal para os nossos ouvidos.
— Desculpa — uma delas, desta vez lá de trás, disse primeiro com um tom de cachorro chorão.
— É que não reconhecemos o outro moço bonito! — a iara idosa ao lado de Edite completou toda envergonhada enquanto olhava para Írios. Breno também se virou para trás para olhar o garoto e eles acharam graça da fala.
— É! do moço bonito! — mais um coro surgiu entre elas.
— Tá tudo bem, meninas. Mas, enfim, viemos fazer uma visita.
Pólen ficou afastada o tempo todo, encostada no casebre caindo aos pedaços. As iaras não curtiam muito as feiticeiras mulheres.
Quando Breno terminou de falar, todas entraram em uma excitação e comemoraram com pulinhos. Algumas se abraçavam de alegria, riam e pulavam girando no próprio eixo. Foi uma dança de cabelos sedosos ao vento.
— E viemos visitar vocês pra saber de uma coisa — Breno continuou. Desta vez, tentou manter a voz no tom simpático, mas nitidamente estava falando mais sério.
— Estão bravos com nós? — Edite perguntou mudando para uma feição preocupada e desapontada que foi repetida por todas atrás.
— Estão bravos? — veio mais um coro com vozes finas e doloridas.
— Não, não — ele tentou tranquilizá-las. — Só queremos saber se o Eichler passou por aqui nesses dias.
— Passou sim! — A iara idosa respondeu empolgada. — Eichler veio e trouxe muita jóia pra gente!
— Muita biju! — soaram.
— Ele veio sozinho — Edite comentou — e pediu pras iaras se podia pegar pedras saltitantes na gruta. Nós ajudamos ele e ele levou algumas embora!
Breno olhou para trás em busca de Pólen, que esboçava muita dúvida.
— Foi só isso? Ele não disse mais nada? — Breno tentou extrair mais alguma informação.
— Foi só! — as iaras disseram todas juntas.
— Meninas… — Breno insistiu. — Sei que amam mais o Eichler do que eu, mas vocês não mentiriam para mim, não é?
— Não! Nunquinha! Jamais. Nunca mesmo! — elas se dividiram entre as falas de negações.
Breno acreditou nelas e voltou a ficar de pé.
— Inclusive — Edite perguntou extasiada -, onde está o Eichler? Ele não veio?
Írios conseguiu notar que Breno quase engasgou ao ouvir a pergunta. Seu corpo ficou rígido e o rosto simpático se desfez em seriedade.
— Ele ficou em casa — o garoto mentiu, ríspido. Percebeu que ainda não estava preparado para verbalizar sobre a morte do amigo, principalmente numa situação em que deveria dar a notícia para alguém. Em resposta, as iaras resmungaram em decepção.
Breno sugeriu que elas todas fossem ver as jóias que Pólen havia trazido e se juntaram ao redor da sacola, experimentando e passando as peças umas para as outras. Enquanto isso, os dois garotos voltaram para perto das construções e se reuniram com Pólen.
— O que ele ia querer com uma pedra saltitante? É inútil… — Breno questionou inquieto e nitidamente frustrado.
— Eu não sei… — Pólen também lamentou.
Írios saberia muito menos do que se tratava, então nem se manifestou num primeiro momento, até que sugeriu depois de certo silêncio:
— Será que ele não queria fazer o próprio portal de salto?
— Não é assim que isso funciona — Breno respondeu com rigidez à sugestão boba de Írios. Depois, respirou e tentou continuar a falar com mais calma e paciência: — Criar um salto não é uma maracutaia, é um processo… industrial, sei lá. Impossível fazer, ainda mais sozinho.
— Mas o Eichler pode ter vindo atrás das pedras pra uma maracutaia — Pólen refletiu, mas pouco convencida de si mesma -, só não sabemos qual. Ayê, nunca ouvi falar de nenhuma outra coisa pra se usar uma pedra saltitante.
— Chiano poderia saber… — Breno resmungou para si mesmo.
— Talvez o próximo ponto do mapa indique alguma coisa que faça sentido pras pedras… — Írios tentou ser otimista e levantar a moral do grupo. Não tinham muito o que fazer naquele momento, então sentaram-se e ficaram assistindo as pequenas criaturas se divertirem com os objetos brilhantes.
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