Por Onde Andou Eichler?

1 Os passos lá no fundo


Amélie já estava exausta de estudar aquelas runas todas. Até que conseguia entender bem as escrituras básicas, mas, quando elas se combinavam e formavam outras maiores, ficava muito confuso. Tipo, ok, se você somasse uma runa de expulsão com uma runa de calor, teria um bafo quente, a ideia era simples. Mas por que na folha tinha que ser tão complexo?

Os riscos das inscrições das runas se misturavam, trocavam de lugar e giravam ao invés de só serem somados normalmente. Não seria mais simples colocar um na frente do outro para combinar as ações de feitiços ao invés de bagunçar todos os desenhos básicos? Assim como uma dúzia: junto do número um e o número dois se escreve doze. Um e dois, um depois do outro. Mas seguindo a regra das runas, o número doze seria, sei lá, um catorze vírgula três.

Amassou mais um papiro de pau-brasil e jogou na lata de lixo abaixo de sua escrivaninha. Detestava errar no papel porque sabia que eles eram caros, mas fazer o quê se aquela matéria era tão difícil?

E outra: quando que na vida precisaria de feitiços escritos? Primeiro que as Guerras Rúnicas já tinham acabado há alguns séculos. Além disso, a garota não pretendia trabalhar em fábricas, usinas ou com mecanizações. Não precisaria saber escrever linhas e mais linhas de feitiços para encantar esteiras de produção ou processos quaisquer como seu pai.

A única vantagem que via em dominar runas era para enfeitar o quarto com magia. Tinha visto no da Jessé um teto lindo que simulava parte de uma galáxia com pontinhos brilhantes que pairavam no ar. Tudo encantado com uma sequência de runas que ela colou na parede.

Se Amélie tivesse prestado mais atenção nas aulas de runas durante o semestre, não precisaria estar escrevendo papiros de feitiços para entregar de recuperação. Duas semanas de férias perdidas tendo que ficar quatro horas de segunda à sexta na Academia. E aquele era só o segundo dia. A garota achou que conciliar os estudos com o seu primeiro namoro seria mais fácil.

Namoro entre várias aspas. Isso porque ela não entendia exatamente o que tinha com Chiano. Só sabia que queria passar todo o tempo possível com aquele garoto. Foi por causa dele que ela matou aula pela primeira vez na vida. E foi bem emocionante pra ela. Para ele, mais uma terça-feira.

Amélie confessava que, mesmo sendo aquela garota toda certinha, tinha adorado a experiência de fugir dos campus da Academia pelos fundos e ficar deitada na grama à beira do lago com ele durante a tarde toda. Levava sempre duas garrafas de garapa gelada na mochila e tomavam enquanto conversavam e trocavam uns beijinhos.

Não era sempre que um cara bonito e com vibe de caminho errado dava bola para uma garota como ela. Amélie queria aproveitar ao máximo, até mesmo se significasse deixar a Academia um pouquinho de lado.

Os sóis já estavam quase sumindo no horizonte, mas, ali, do segundo andar, onde ficava o quarto de Amélie, seus raios já não eram vistos há muito tempo. A alguns passos da sua janela se erguiam árvores grandes e com copas densas que deixavam a casa escura já no final da tarde. Era uma floresta grande que tinha entre seu bairro e o mais próximo.

— Amélie? — Sua mãe bateu na porta e entrou no quarto. — Não vai querer jantar, mesmo?

— Não — respondeu meio ríspida, sem tirar os olhos dos livros. — Mais tarde eu esquento minha comida.

A mãe ia dar alguns passos para trás e fechar a porta do quarto, mas hesitou. Pensou em falar sobre a discussão que tiveram mais cedo. Não sabia ao certo como proceder naquela situação. Se tentava outra abordagem — talvez uma menos explosiva e mais compreensiva — ou até mesmo, pela primeira vez, pedir desculpas por ter gritado tão alto com a filha. Só que ela concluiu que aquele não era o momento. Elas podiam se resolver em outra hora. Então se retirou.

Amélie bufou também pensando no desentendimento, mas sua atenção foi instantaneamente atraída por um som leve e oco vindo da janela ao seu lado.

Até questionou se não estava ouvindo coisas. Num primeiro momento, ficou assustada, mas depois assumiu a curiosidade a ponto de se levantar da escrivaninha e olhar para a janela até se dar conta do que podia se tratar.

Chiano. Costumava jogar lasquinhas de árvores ou pedras em sua janela para chamá-la para descer. Ele era assim: só gostava que eles se vissem em momentos difíceis e arriscados. Fazer ela fugir de casa para dar uns beijos no fundo do quintal era um de seus favoritos.

Um dia desses flagrou o garoto escondido perto de uns arbustos lá do fundo. Amélie ficou de canto no vidro da janela para que ela pudesse vê-lo sem que ele a notasse. Chiano buscou no canteiro abaixo de uma romãzeira algumas pedrinhas e chacoalhou-as na mão. De um dos bolsos da calça cargo pegou um frasco de vidro e dele retirou o pó prateado que Amélie logo reconheceu como pó flutuante que ele mesmo fazia em casa — adorava brincar com aquela maracutaia.

Chiano fazia os estojos dos colegas flutuarem durante a aula, ou as cadeiras se levantaram quando alguém sentasse — usando runas para ajudar, tava aí mais uma utilidade.

Ele salpicou bem o pó nas pedras para ativar seu efeito e tacou contra a casa. As pedras faziam o percurso perfeito até onde ele desejava, como se tivesse uma exímia pontaria. Depois, perdiam-se no céu acima, flutuando para o além e sabe-se lá até em qual altura. Talvez o infinito.

Era um truque bobo, mas útil. O garoto ia até a fazenda do tio, no final da pinguela, para buscar algumas penas de galinhas-frouxas, uma espécie exótica cujas plumas eram mágicas: faziam as aves terem gravidade invertida. Por isso o galinheiro daquela espécie tinha que ser de ponta cabeça, pois as galinhas ciscavam o teto, não o chão. Para criá-las, seu tio encantava a ração e a água para também ficarem invertidos e no sentido contrário do chão. Quando se entrava no galinheiro, tinha que segurar firme, pois seu mundo simplesmente giraria em cento e oitenta graus. Também tinha que criar áreas com grama no teto para que elas ciscassem. Elas eram boas em pegar mosquinhas no ar dando pulinhos desengonçados e engraçados.

Com as penas em mão, Chiano as desidratava e processava num pilão até obter um pó. Depois, era só deixá-lo tomar banho de lua por uma semana para ficar pronto.

Desconfiada da artimanha, Amélie olhou atentamente para o gramado do térreo. Estava escuro e a luz do quintal não estava acesa. Procurou pelo garoto, mas não via nada. Apenas a mesa de madeira e o balanço pendurado no pé de acerola — que por sinal estava se mexendo de leve.

Abriu o vidro da janela para olhar melhor e percebeu que não havia vento algum. Nem mesmo as folhas da mata se mexiam. Apenas o balanço. Chiano devia ter jogado a pedra para chamar sua atenção e corrido para a floresta esperar por ela.

E a garota não pensou duas vezes. Correu para frente do espelho ver se seus cabelos castanhos e cacheados estavam apresentáveis, colocou uma jaqueta bonita e passou um pouco de perfume — mas bem pouco para não dar na cara que ela estava se esforçando para ficar tão bonita e cheirosa assim. Apostava que era isso que tinha deixado Chiano atraído nela.

Pegou uma pequena bolsa a tiracolo com seus itens de sempre — sua adaga de prata, uma varinha, um frasco de água benzida e um pato de borracha. O essencial.

Seu quarto ficava num lugar bem alto. Mas não era um problema quando se tinha chicletes e pó quedante, o anti pó flutuante. Quando Chiano usou seu pó pela primeira vez, fez com que o seu tênis favorito flutuasse até desaparecer (boatos que, um dia, no quintal da Senhora Carmelinda, um all-star vermelho caiu do céu sobre a cabeça dela, que ficou sem entender nada). Então o garoto já se prontificou a fazer um efeito antagonista. Criou uma mistura com os produtos de alquimia que o tio usava para tratar o galinheiro e assim nasceu o pó quedante, que atraía os objetos ao chão, mas com gravidade ainda alterada, mais leve.

O único problema era que, ao contrário do pó flutuante (que precisava ser espalhado pela superfície do que se pretendia fazer flutuar), o pó quedante necessitava ser ingerido. E tinha um gosto terminantemente horroroso. Chiano descrevia como vômito de alguém que comeu estrume de vaca. Então Amélie salpicou o pó escuro sobre um chiclete de morango e começou a mascar. Já estava sentindo seus pés mais leves. Tinha que ir logo antes que o efeito acabasse.

Em objetos os pós eram fortes, mas em pessoas eram bem fracos. Só feitiços e encantamentos muito bem elaborados funcionavam de um feiticeiro para o outro. Por isso o flutuante mal lhe dava um voo de três centímetros do chão, mas era divertido.

Sem querer perder tempo — e nem virar geleca no chão -, a garota simplesmente pulou pela janela do segundo andar.

Pousou com os dois pés no gramado com a maior tranquilidade.

Se aquele garoto tivesse um desses, talvez não teria morrido, Amélie pensou sobre a tragédia da semana passada. O único problema era que ingerir o pó tinha um efeito colateral chato: sua cabeça ficaria tão pesada dali algumas horas que teria que ficar deitada para não perder o equilíbrio e dar de cara no chão.

Sim, gosto de merda e cabeça de bola de boliche. Não havia um encantamento sequer que não tivesse contrapartidas ridículas, e na maioria eram dolorosas. Mas tudo bem. Iria deitar no colo de Chiano e esperar o efeito passar enquanto recebia um cafuné. Com sorte, eles sentariam ao redor de uma fogueira improvisada e assariam pães de chocolate, como Chiano preparou da última vez.

Amélie tratou de atravessar o quintal rápido para não ser vista. A janela da cozinha dava para aquela parte da casa, então não podia arriscar.

Passou pelo balanço e depois de poucos passos já estava no fim da propriedade dos pais. Espiou entre os troncos das árvores, mas pouco conseguia ver. Nenhum sinal de Chiano. O pequeno portãozinho de ferro estava aberto.

Entrou na floresta e procurou por ele.

— Chiano! Cê tá aí? — perguntava sussurrando entre as árvores para tentar encontrá-lo, mas não teve resposta das primeiras vezes.

Buscou na pequena bolsa a adaga de prata. Não era grande e não afiava sua lâmina há algumas semanas, mas conseguiria invocar alguns feitiços pequenos caso precisasse adentrar na mata seguindo para fora da trilha principal. Seu cabo estava coberto com purpurina roxa. Foi uma péssima ideia de personalização porque ela pinicava a palma da mão quando empunhada. Sorte que nunca tinha precisado dela para lutar.

As trilhas das florestas de toda a cidade eram iluminadas por pequenos postes na altura do joelho, a uns vinte passos uns dos outros. Mas suas luzes eram bem fracas e não conseguiam nada além de indicar o caminho da trilha principal. A luminescência vinha de um pote de vidro sobre os postes. Dentro deles havia pequenos anéis de ouro que ficavam flutuando no centro do objeto e emitindo uma leve cor mostarda.

Para conseguir ver melhor e procurar por Chiano, Amélie sacudiu a adaga em sua mão e a lâmina começou a emitir uma luz branca que clareava pelo menos uns quatro metros ao seu redor. Ela soltou seu cabo e deu um leve impulso com a arma para cima. A adaga começou a flutuar sobre sua cabeça e a perseguia para onde fosse. Para mantê-la por perto, cantarolava em sua mente um ritmo leve e sedoso de encantamento.

A garota seguiu a trilha mais para o fundo. Naquele momento já estava sentindo um misto de medo e adrenalina. Amélie sempre teve receio de lugares muito escuros. Aquela floresta era grande e bem calma. A vizinhança era silenciosa e poucas pessoas estariam por ali naquele horário.

Até que ela ouviu passos sobre as folhas e gravetos secos.

— Seu bobo — Amélie brigou com Chiano, desta vez mais alto e tentando afastar da cabeça pensamentos medrosos e receosos. — Já pode sair daí. Eu tô te vendo.

Ela falava em direção de uma mangueira velha. Conseguia ver parte do braço do garoto através do tronco dela — ele provavelmente achava que estava bem escondido, só que vacilou e deixou escapar aquela parte do corpo.

Chiano não se moveu. Ela estranhou, porém entendeu que ele queria que ela fosse até ele. Então saltou sobre uma gigantesca raiz que se projetava para além do solo e saiu da trilha para alcançá-lo.

Já bem perto, levantou o braço para a sua mão cutucar o cotovelo do garoto. No momento que o tocou, ele se agitou e partiu em disparada para a copa da alta árvore. Amélie não conseguiu vê-lo subir porque a luz da adaga não alcançava nem um quinto da altura da mangueira.

— Chiano, desce daí — ela repreendeu, preocupada. — Quer acabar que nem o Eichler, hein?

Não obteve resposta. Tentou forçar a vista para ver se ele estava sentado no galho mais próximo do solo, mas a penumbra era muito forte.

— Chiano? — perguntou uma última vez antes da penumbra avançar sobre ela.

Uma forte luz púrpura, turquesa e narciso emanou da copa da árvore. Amélie se viu consumida por aquela luminosidade toda e sentiu-se tonta na hora. Quis gritar, mas sua garganta foi sufocada por algo denso e frio. Um vento pesado emanou da mesma direção das luzes e ela sentiu o corpo perder todo seu peso até deixar de existir naquela realidade.

A adaga, sem o cantarolar da garota, caiu no chão sobre onde Amélie estava há meio segundo atrás, apagada.