Por Onde Andou Eichler?
2 Com carinho, Írios
23 de Junho de 2012.
Querido Bernardo,
Espero que esteja bem.
Sei que vai achar inusitado receber uma carta em pleno ano de 2012, mas é que aqui não tem internet — sinceramente, ainda não decidi se isso é uma bênção, ou um pesadelo.
Enfim, essa foi a maneira que consegui de te manter atualizado sobre minha nova vida. Acho que pra você me responder vai ser um pouco complicado, mas não se preocupe. Vou continuar te escrevendo mesmo que não me dê retorno. Vou confiar que está lendo tudo, hein!
Não sei bem por onde começar, também. Quero te contar sobre como é uma cidade de feiticeiros, como estou me sentindo, como são as pessoas, meus tios, enfim.
Acho que vou por partes. Já que pretendo te escrever a cada semana, mais ou menos, vou tentar focar no mais importante que rolou nos últimos dias. Deve ficar mais real ao que tô experimentando aqui.
E, como a gente aprendeu naquela aula de roteiro do ano passado, vou lançar tópicos que quero trazer nas próximas semanas, só pra você ter aquele gostinho de que vem mais coisa por aí. Vou precisar te contar sobre meu des-talento em fazer novos amigos — mesmo que disso já saiba -, os bondes voadores, as florestas lindas e como é legal ver a magia sendo usada no dia a dia de verdade.
Eu cheguei bem em Àttinos e estou adorando a cidade! Já tinha visitado meus tios aqui antes, mas há muito tempo e mal lembrava. E tudo aqui é muito lindo, sério. Só estou um pouco angustiado porque tenho sentido dificuldade de sair de casa e aproveitar melhor o que têm por aqui.
Acho que na minha cabeça, com as minhas expectativas e tal, seria mais fácil e mais rápido. Fazer amigos, me divertir, me soltar, aproveitar o fim das férias...
Mas, ok, vamos do começo: experiências únicas de um feiticeiro.
É bem difícil descrever a sensação de usar um salto — não é o sapato, só para deixar claro! É aquela feitiçaria que te contei uma vez, que nós usamos como transporte.
Só que esse é bem diferente. Muito pesado, já que conecta o mundo dos humanos com o dos feiticeiros. E pra você já ir se familiarizando: chamamos aí de "Outro Lado" e aqui de simplesmente... aqui.
Sobre o salto, é como, literalmente, saltar para um precipício. Metaforicamente falando, é claro. Pois a sensação é quase a mesma. Sentir o nada, mas com a certeza de que chegará em um lugar.
Para falar a verdade, se eu pudesse descrever como realmente estou me sentindo aqui em Àttinos, seria o inverso: saltando, sim, para o desconhecido, mas parece que o precipício era o ponto de partida. E finalmente estou me afastando dele.
(Não quero ficar preso a falar do passado, já que não é a intenção de te escrever. Eu sei que pode soar confuso para você. Mas você esteve comigo quando tudo aconteceu, então é inevitável eu mencionar de vez em quando.)
Enfim, quando se toca o salto, o mundo simplesmente some. O chão se vai, mas o corpo não paira voando por aí. O ar também desaparece, mas também não faz falta. A visão não para, mas parece que o cérebro não entende o que vê. Dá para ouvir algo, quase como um vidro se rachando bem lá no fundo. E na pele vêm um abraço. E daí, do nada, você está em outro lugar, outro mundo. Literalmente.
Confesso que um enjoo desgraçado veio depois, mas passou logo.
O salto me entregou na Estação Central de Àttinos. Um lugar bem legal, com um vai e vem desgraçado de gente e macacos voadores para todo o lado. Quase que perco minhas malas.
A primeira coisa diferente que senti aqui foi o ar. Cara, é tão puro que parece até deixar a gente meio zonzo.
A segunda foi alívio. Como é bom estar em um lugar onde praticamente ninguém me conhece e não sabe minha história. Até um pouco libertador. Mas também vou confessar que imaginava essa sensação um pouco mais, hm, completa. Ela existe, claro, mas ainda têm algo que impede ela de ser 100%, sabe? Acho que o problema sou eu, na verdade.
Parece que ainda tenho um receio dentro de mim. O mesmo receio que disse sentir quando mudei de escola, lembra? Achava que os problemas iam diminuir pela metade, só que, apesar de terem vindo dias, sim, mais tranquilos, tudo era ainda muito recente pra eu poder relaxar de verdade. Não conhecia as pessoas, não sabia das intenções delas e era muito difícil se deixar levar.
Aqui tá sendo o mesmo. Logo que saí da Estação, fui encontrar meu tio. No caminho de casa, passamos por uma venda e na frente tinha uma praça. Uma galera da nossa idade tava sentada perto de uma pista de skate e, quando bati o olho neles, veio aquele ímpeto de querer me esconder, correr pra casa ou sair da vista delas. Muito instintivo, cara.
Acho que um adolescente normal iria até eles puxar um papo e conhecê-los. E eu queria muito ser normal.
Já imaginei você dizendo "Mas você não é normal cara, você é um feiticeiro e faz as coisas pegarem fogo quando espirra!", haha.
Enfim, chegar em um lugar novo é bem esquisito. Mas têm muito potencial para eu me sentir livre, finalmente. Viver como se nada daquilo tivesse acontecido. Só de ter essa oportunidade, já fico mais tranquilo.
Naquele momento, lá perto da praça e perto daquela galera, fiz um exercício mental para ficar mais de boa e funcionou. Só fiquei pensando: Essas pessoas não te conhecem, não sabem sua história. E daí passou, por hora. Fica tudo bem por um tempo curto, mas já é melhor do que viver acuado 24/7.
Queria falar sobre os meus tios, mas, antes, preciso te contar sobre Àttinos. Não é tão diferente de outras cidades que vemos aí pelo Brasil, mas vou te descrever bem, já que sei que gosta disso.
O centro tem alguns prédios mais altos — tipo, com uns seis andares, no máximo. Só que não têm aquela vibe meio tecnológica, com fachadas espelhadas e arquitetura mirabolante. São simples e bonitos. Todos com fachadas para as ruas — que, na verdade, são grandes calçadas de paralelepípedos ou asfalto cinza, já que aqui não têm carros. A galera anda muito a pé, de bike e usa uns bondezinhos que flutuam sozinhos por aí. É só subir e pronto, uma hora chega onde você quer.
Esses prédios do centro também são bem coloridos, lembram aqueles do Pelourinho. Minha tia disse que eles realmente têm uma estética parecida, da mesma época em que os holandeses tomaram o Nordeste. Fachadas largas com portas e janelas altas, todas viradas para a rua. Ah, e tudo também é MUITO arborizado. Tudo de bom para um feiticeiro. Na venda que entrei com meu tio, por exemplo, tinha um pé de carambolas enorme bem no meio do estabelecimento. A diferença era que as carambolas davam risadas.
O centro é nitidamente mais antigo que todo o resto da cidade porque Àttinos, apesar de velha, se desenvolveu há poucos anos.
E mesmo aqui não sendo tão grande, sempre tem muita gente nas ruas, andando pra todo lado. A cada umas cinco quadras há uma praça bem espaçosa com coisas diferentes. E parece que a população realmente aproveita aqui. Tão sempre por aí conversando — ou melhor, como falam, proseando -, jogando nos bancos das praças, as crianças brincando nos parques. Também têm muitas feiras nas ruas que vendem tecidos, comidas, verduras e cacarecos. Skate é realmente uma parada entre os adolescentes daqui.
Mas o subúrbio já é diferente, bem mais calmo. Tem muita árvore também, mas, cara, as casas são enormes! E os quintais mais ainda! São espaçosas, esparramadas e quase todas feitas de vidro. Nunca mais quero morar num apartamento na vida! Minha tia disse que as casas seguem uma linha mais modernista. Pesquisa sobre a casa da Lina Bo Bardi aí, que você vai entender! Ela disse também que é para a natureza fazer mais parte das casas. Isso é bom para nós feiticeiros porque ficamos alinhados com nossos poderes.
Outras casas mais simples lembram muito a casa da sua avó. Muro baixo, parede de cobogós, cheias de samambaias e outras plantinhas penduradas com uma cadeira de área no cantinho da entrada. Lembrei da Dona Nésia na hora! Vou sentir saudade do bolo de milho dela.
Enfim, voltando para a cidade. Quanto mais longe do centro se vai, mais distante ficam as casas uma das outras. Até parecerem todas chácaras. E o legal também é que tem muita coisa fora da cidade. Cachoeiras, pedreiras, trilhas e tudo mais. Isso ainda não vi, mas meu tio fala muito sobre.
Tem muitas florestas também. Elas ficam entre uns bairros e dividem eles. O engraçado é que cada floresta é muito diferente uma da outra. É tipo sair da Amazônia e chegar nos pampas só de dobrar a esquina — só que tudo um pouco mais mágico, claro.
Estou empolgado para o que posso viver aqui. Acho que finalmente vou conseguir ter alguns dias mais tranquilos, sem precisar passar tanto medo e nervoso. Depois de tanta merda, a gente percebe que o que é bom mesmo é ficar de boa.
Mesmo com alguns incômodos e inquietações, afirmo:
A vida pode ser ok às vezes.
Todo dia eu acordo cedo e tento me convencer a sair por aí, dar uma volta, ver gente... Mas anda meio difícil. Tomara que eu consiga me desamarrar logo.
Espero que esteja vivendo dias legais nas suas férias.
Com carinho,
Írios.
—
Írios sabia que os feiticeiros tinham uma ligação especial com a natureza e as coisas ao redor. Eles costumavam a chamar de elo e vinha dos espíritos — com quem tinham que manter uma boa relação. Só isso garantia que eles pudessem usar seus poderes e ter uma saúde boa. Essa relação, o elo, variava muito, e isso era normal. Mas também tinha um pico. Um êxtase que só podia ser alcançado num estado muito sincero de tranquilidade.
O garoto de catorze anos não imaginou que experimentaria ela pela primeira vez na vida enquanto adubava uma horta na companhia de um coala.
Claro que era mais difícil manter um elo equilibrado no Outro Lado porque a magia era mais tênue lá, mas não era impossível. E Írios nunca tinha chegado nem perto de atingir seu ápice porque a adolescência estava sendo um período meio conturbado. Quando sentiu, viu que não era nada grandioso e espetacular. Era simples. E Írios percebeu que essa era a beleza daquilo.
Ele estava ajudando a tia no quintal há mais ou menos meia hora. Ela se preparava toda para a atividade — usava luvas, uma roupa específica, botas e chapéu com abas largas. Era nitidamente um momento que ela gostava muito. Convidava a coala que morava num pé de jambolão no fundo do quintal para ajudá-la.
A tia de Írios chamava o animal de coala, mas o garoto não sabia bem do que se tratava aquele bicho. Suas orelhas e o nariz até lembravam a de um coala, mas entendia o suficiente de coalas do Outro Lado para supor que aquele em específico era qualquer coisa, menos um coala.
Mas, bem, aquele não era o mundo dos humanos. E as coisas funcionavam do seu próprio jeito. Enfim, o fato era que aquela coala tinha uma bolsa na barriga parecida com a dos cangurus (Viu? Funcionam do próprio jeito) e sua tia a usava para guardar suas ferramentas. Isso porque a bolsa simplesmente não tinha fundo. Nem transparecia que tinha tanta coisa lá dentro. A coala pegava e tirava os objetos de lá e sua pele não inflava, nem nada. Apenas sumia ou aparecia.
Funcionava do próprio jeito.
— Me passe a enxada? — a tia pedia e a pequena coala do tamanho de uma caixa de sapato tirava um objeto cinco vezes do seu tamanho de dentro da sua barriga. Em troca, a coala recebia folhas de almeirão para comer. Era uma companhia agradável e simpática. O acordo entre a tia e a coala demorou para surgir, mas era bem útil. Antes, a coala e sua família roubavam os almeirões da horta.
Outros seres que ajudavam na jardinagem eram os vertículos. Eram insetos parecidos com bicho-pau, mas com antenas grandes e achatadas que os davam a capacidade de girar feito um pirocóptero que vinha nos pirulitos. A tia pegava os vertículos, os banhavam no pó nutritivo para as plantas e lançava os insetos pelo quintal para espalharem a mistura por tudo.
Írios estava gostando daquela coisa de jardinagem. Sabia que, como feiticeiro, era uma habilidade importante para ter. Os conhecimentos seriam úteis. Se estivesse perdido numa floresta, qual folha poderia comer para obter visão e audição aguçadas? Não sabia, por isso prestava atenção em tudo o que a tia ensinava sobre botânica.
A companhia da tia era amena. Uma mulher calma e centrada. Eles passaram boa parte daquela atividade em completo silêncio. E isso não incomodou Írios, como costumava acontecer. Ele até curtia ficar em silêncio, mas era uma atividade que fazia sozinho. Fazer silêncio com outra pessoa era legal, também. Ele olhou para a mulher e agradeceu mentalmente por estar tendo aquele momento.
Tinha retirado uma folha de almeirão que já estava meio amarelada quando bateu. Uma energia estremeceu por todo o seu corpo e levou para longe certos receios que vinha sentindo nos últimos dias. Ele se sentiu leve e tranquilo. Como se nem tivesse nenhum problema para se preocupar, como se eles simplesmente não existissem. Quando se deu conta, estava de olhos fechados, só aproveitando o vento frio, o calor do sol e o som das plantas balançando.
— Eu vou andar de bicicleta — ele comentou de repente para sua tia, que estava na outra ponta da horta colhendo algumas pimentas. Ela não entendeu bem a necessidade da troca de atividade repentina do sobrinho, mas não o questionou.
— Tá bem, então. Divirta-se — ela comentou voltando a atenção para o pé de pimenta. Írios achava bacana essa mania dela. "Divirta-se" era a expressão que normalmente usava para terminar as frases quando se dirigia ao sobrinho em assuntos sobre a vida dele.
— Vou dormir.
— Divirta-se!
— Deixa que eu lavo a louça hoje.
— Divirta-se!
— Preciso limpar meu tênis.
— Divirta-se!
Írios correu para a casinha dos fundos pegar a bike antiga do seu tio. Procurou a bomba no meio da bagunça, encheu os pneus, limpou o pó dela e já montou para regular o banco. Estava tudo pronto, só faltava subir para o quarto e colocar uma roupa mais confortável. Também encheu uma mochila com garrafa de água e algumas frutas — já que tinha esquecido do café da manhã naquele dia.
Olhou para sua varinha quebrada na cabeceira da cama, então pegou uma faca de arremesso velha que encontrou na gaveta da cômoda dias antes. Um feiticeiro nunca saía sem uma arma, mesmo que enferrujada e sem fio. Já quebrada ao meio... melhor não.
Ele atravessou o portão do quintal carregando a bicicleta do seu lado. Instintivamente veio aquele receio de pedalar em direção à cidade. Aquele nó na garganta da timidez apareceu, mas não encarou ele como um impeditivo. Só virou o guidão no sentido contrário, montou na bike e pedalou pela estrada.
No começo foi um pouco difícil porque ele estava bem sedentário. Suas coxas e batatas da perna começaram a arder pelo esforço. Até pensou em voltar, mas decidiu insistir porque sabia que essa dor ia passar logo. E passou.
Foi bem tranquilo. Sentiu falta do seu celular porque botaria uma música no fone e aí sim ficaria perfeito, mas decidiu ir cantarolando as músicas que gostava mesmo.
Pedalou pela estrada por uns quinze minutos, só seguindo seu caminho. As ruas do bairro eram todas curvas, então foi um percurso divertido. Mas só as ruas principais tinham asfalto. Todas as vias que saíam delas eram de terra ou paralelepípedo. E seu tio já tinha falado que por ali tinha uma campina que servia como um mirante natural que tinha uma vista legal para a floresta no limite da cidade. Quando viu a plaquinha com o escrito "mirante maneiro", fez a curva e entrou na estrada de terra.
Abaixo daquela placa havia outra. "Vende-se balas de coco geladas". E só isso. Sem um endereço, um nome, nada. Ela estava dizendo que alguém por ali vendia balas de coco geladas, mas boa sorte para descobrir quem e onde estava vendendo balas de coco geladas.
O cenário mudou um pouco. Deixou de ter várias casas e chácaras e virou basicamente uma mata média. Não sabia se já tinha notado antes, mas a grama de Àttinos era diferente. Era alta, com folhas finas e num tom de verde quase cintilante. Como estava ventando, elas dançavam em uníssono e delicadeza. Como se tivesse uma mão gigante e invisível passando a palma por ela. Igual se faz com tapetes fofos e felpudos nas lojas de decoração.
Foi meio instintivo largar a bike na beirada da estrada e se enfiar no meio da grama. A altura dela ia até sua cintura. Írios abriu os braços pra poder sentir com suas próprias mãos as pontas finas e peludinhas das gramas. Se sentiu tão leve que parecia estar flutuando — até olhou para baixo para se certificar de que não tava com os pés longe do solo e voando à esmo por aí.
A vida pode ser ok às vezes, pensou.
Mas aquele foi só o primeiro dia em que se sentiu assim.
Írios estava instalado na casa dos tios há quatro dias. Era tudo muito novo e admirável, só que o garoto ainda revivia algumas velhas sensações incômodas.
Não era por causa das companhias. Seus tios estavam sendo muito queridos com ele. Deixaram o garoto bem confortável e à vontade. Tinha um quarto só dele e era bem espaçoso.
Seus tios trabalhavam quase o dia todo. A primeira tarde que ficou sozinho foi bem esquisita. Não conhecia nada ali ainda, então a impressão era de que não tava sozinho apenas em casa, mas em todo o redor. Era uma daquelas sensações bem irracionais, que você sabe que não é verdade, mas o pensamento não deixa de alimentar.
Descia para o térreo e sentia um grande vazio. Aquele andar não tinha paredes internas para dividir os cômodos, então era meio que tudo uma coisa só. Onde você olhasse, encontraria tudo, até mesmo o exterior. Isso porque todas as paredes daquele grande ambiente eram de vidro. Alguns móveis e divisórias até criavam certas delimitações, como a grande estante de livros da biblioteca, o balcão da cozinha, a fonte de água que escorria dum pilar de concreto, a escada larga e vermelha que levava para os quartos e tal. Mas, para onde olhava, Írios via sua solidão.
Quando seus tios chegavam era bem bom. Eles corriam fazer a janta — sempre cozinhavam juntos e Írios achava muito fofo. Colocavam um bom disco na vitrola e entre um cozido e outro, se tiravam para dançar na frente do fogão. Depois, todos comiam na sala de jantar e conversavam à beça. O garoto ficava só assistindo na maioria das vezes. Ambos eram funcionários da prefeitura, então tinham muita fofoca para colocar em dia.
O casal também era muito interessado em como a vida do sobrinho era no Outro Lado. Eles não iam para lá desde o casamento da prima Hebe. É claro que Írios não entrou em detalhes sobre o último ano. Eles sabiam que algo afugentou o jovem pra Àttinos, mas Írios imaginou que seus pais pediram para não entrarem no assunto. E ele achava bom assim.
Depois das refeições, Írios ajudava a limpar a cozinha. Na verdade, tentava ajudar em casa o máximo que podia para retribuir de alguma maneira a hospedagem. Era bem difícil cuidar de uma casa tão grande sem eletrodomésticos como tava acostumado, mas os feiticeiros tinham seus truques também.
As noites normalmente terminavam com mais músicas. Não tinha TV na casa, mas parecia não fazer falta. O tio fumava um charuto bem fedido na poltrona vermelha da varanda enquanto a tia tricotava. Às vezes jogavam cartas e ouviam as historietas da rádio local. Tinha um programa feito por estudantes da Academia que era bem engraçado. Mal produzido e meio largado, mas talvez fosse justamente por isso que era legal. Ouvir os jovens falarem e rirem no rádio deixava Írios ansioso e imaginando como seriam as pessoas da sua nova escola.
Fazia a mínima ideia de como eram os adolescentes de Àttinos. Mal conseguia conceber como era crescer desde sempre em uma cidade de feiticeiros.
Quando batia o sono, os três se recolhiam. Írios não vinha tendo mais problemas para dormir e não ficava mais indisposto durante o dia. Não sabia explicar, mas estar naquele mundo era um pouco mais energizante para ele.
A noite era silenciosa, sem carros, motos, buzinas e gritos. Era a única hora do dia em que sua mente pensava em absolutamente nada.
Um passatempo do garoto era a leitura. Os tios saíam logo cedo, daí Írios aproveitava o dia para ler, basicamente. A biblioteca deles era enorme e com muito mais títulos de feiticeiros. Foi interessante explorar essas ficções. O último que leu era sobre dois vilarejos com dinastias rivais, mas seus príncipes se apaixonaram e precisaram criar um artefato mágico para conseguirem fugir de seus castelos e se encontrarem todas as noites sem que os guardas os vissem. A autora era Aluanda Perrony. Iria buscar mais livros dela depois porque tinha curtido a maneira de escrever.
Dava para ler um livro inteiro por dia, tranquilamente. Era bom para distrair das sensações estranhas que sentia quando ficava só. E foi bizarro revisitar essa coisa de solidão. Achou que a mudança a apagaria instantaneamente. Mas parecia que tava, sei lá, grudada na cabeça dele. Não importava a idade, lugar, ano... Sempre estaria por lá.
Achava que no fim esse era seu fardo mesmo. Fugir e não conseguir se restabelecer direito em lugar algum.
Ficar tanto tempo sozinho com seus próprios pensamentos tinha o deixado mais medroso. Em alguns dias, seu tio insistia para que ele saísse um pouco com ele. Nos primeiros dias, até o acompanhou na feira, mas depois perdeu a vontade.
— Vai criar raízes nesse sofá — ele reclamava todo dia tentando dar um voto de incentivo, mas com uma leve crítica no fundo. Sabia que o sobrinho tinha em mãos a chance de sair e se divertir por aí livremente. Era isso o que um típico jovem Attiniano fazia nas férias.
Quando Írios pensava em sair sozinho, sentia um aperto no peito. Ainda tinha a sensação de que não pertencia a esse lugar, a essa cidade, a esse mundo. Então, logicamente, não tinha direito de usufruir dele. Só de se imaginar caminhando por aí, batia aquele medo de ser julgado. Será que os feiticeiros já tinham descoberto uma maracutaia para ficar invisível? Írios adoraria explorar a cidade sem ser visto por ninguém.
Já havia ensaiado uma mísera volta no quarteirão várias vezes. Ia ao jardim, passava pelo caminho de pedras e ficava parado no portão de ferro por uns minutos. Mas não conseguia sair. Era bem desconfortável. Parecia até que tinha um escudo na casa que não o deixava criar coragem pra desbravar Àttinos.
Sua tia estava o ensinando a cuidar das plantas do jardim — e que jardim! Era uma atividade bem relaxante que ajudava com sua ansiedade. As espécies de plantas de lá eram bem diferentes das dos humanos. As folhagens tinham cores mais diversas e as flores e árvores eram maiores. Descobrir sobre cada uma delas era bacana. O maior desafio era memorizar as especificidades de cada uma (e isso era muito importante).
Tinha uma planta com folhas grandes e largas que saíam direto da terra e produziam uma espécie de lodo alaranjado que não podia ser tocado sem luvas de maneira alguma, isso porque causava uma alergia danada. Já outra planta produzia uma espécie de vagem que, quando arrancada do pé, criava pézinhos e saía correndo loucamente pelo jardim. Foi aí que Írios se tocou que era uma planta e um animal ao mesmo tempo.
Mexendo no jardim, dias depois, foi que sentiu o ímpeto do elo pela primeira vez. Não sem antes ser levado pela sua tia na benzedeira da família. A senhora corcunda ficou assustada quando olhou para o garoto. Disse que ele estava com um quebrante tão forte que quase estava virando um encosto. Então logo tratou de fazer os rituais para livrá-lo daquele mal.
Írios já saiu da humilde casa da benzedeira se sentindo muito melhor. Não sabia raciocinar direito o que de fato tinha mudado no seu corpo e pensamentos durante aquele tempo que estava sendo tratado, mas suas angústias e dores estavam parecendo tão... pequenas e fáceis de lidar.
Depois daquele dia, pegou gosto por essa coisa de andar de bicicleta.
Fazia o mesmo caminho porque era uma cara bem repetitivo e rotineiro. Mas também tentava se arriscar um pouco. Ou ia mais longe do que o dia anterior, ou decidia explorar uma via diferente dum cruzamento.
Preferia ir bem cedo porque o clima era mais agradável e os sóis, mesmo bem claros, eram menos fortes. E as vias menos movimentadas, também. Então achava que era um dos únicos jovens que, em plenas férias, acordava tão cedo para explorar os arredores da cidade.
Só que estava enganado.
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30 de Junho de 2012.
Querido Bernardo,
Preciso te contar sobre como eu me meti num ritual de magia depois de ouvir uma conversa escondido numa floresta de árvores gigantes e presenciar uma, sei lá, explosão radioativa (?). É, viver numa cidade de feiticeiros realmente é um pouco mais emocionante que o Outro Lado.
Acho que esse pessoal que tava lá é meu amigo agora, não sei. No começo foi tenso, mas depois divertido. E vou confessar que eu achei um deles bem bonitinho — não acredito que falei algo do tipo em "voz alta".
Mas ele não pareceu gostar muito de mim, só que eu entendo. Eles tão passando por coisas difíceis. Um dos amigos dele morreu na semana passada.
Calma. Vou por partes. Já eu chego nesse rolê aí. É muita coisa! Prefiro contar seguindo a ordem cronológica...
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