Por Onde Andou Eichler?

16 O dia que choveu suco


Írios sentia as pernas inteiras arderem por causa do esforço. Essa dor nem tinha a ver com o machucado do pé, que já estava totalmente sarado, graças aos esforços de Pólen, mas sim por causa das andanças dos últimos dias.

Sua rotina no Outro Lado era bem parada. Ele até ia e voltava da escola sozinho e a pé, mas aqueles dez minutos diários de caminhada não foram o suficiente para ter um condicionamento físico que pudesse chamar de bom. Ao contrário dos feiticeiros — acostumados com uma rotina mais agitada e até treinamentos mais pesados -, Írios era praticamente um sedentário.

E isso gritava por meio de dores nas batatas das pernas, coxas, cintura e até nas costas. Tomou um pouco de água benta para ver se teria algum alívio, mas pouco aconteceu. A cada passo que dava, essas partes do seu corpo alertavam para que ele parasse imediatamente e se desmontasse aos chãos para descansar.

Ainda assim, caminhar por aquelas trilhas de terra instável, íngremes e cheias de obstáculos como raízes e pedras era melhor que andar de bike. Apesar de mais rápidas, o esforço para pedalar parecia ser maior, já que a periferia de Àttinos era repleta de ladeiras.

Os quatro caminharam em silêncio depois de Pólen contar para Breno sobre a conversa que teve com Valen. Breno se incomodou com o fato de Eichler ter tido contato com Valen — e até mesmo com Julian — nos seus últimos dias de vida, ao contrário dele. O garoto pediu mais detalhes sobre o cervo, então Pólen o descreveu com a ajuda de Chiano, que também conhecia a criatura. Os três voltaram a discutir sobre o significado de Eichler estar carregando o animal, mas não chegaram em nenhuma conclusão plausível além do simples fato do garoto gostar de animais e estar ajudando o cervo a atravessar a floresta, ou algo assim.

Destinado a não incomodar o grupo com suas dores, Írios continuou resistindo e mentalizando qualquer coisa que não fossem os incômodos pelo corpo. E isso exigia certo ritmo no caminhar, apesar de ficar mais lento. Foi quando os três, a alguns metros na frente, pararam o trajeto repentinamente.

— Que fofura — Breno comentou, encantado com afeto o obstáculo que surgiu atravessando a trilha: duas fileiras longas e paralelas de pequenos cogumelos de corpinhos largos e chapéus espaçosos.

Eles eram brancos, mas emitiam uma leve luminescência azulada ao redor, e caminhavam com passos desengonçados por causa do peso da parte de cima dos seus pequenos pézinhos.

— Tão migrando — Pólen acrescentou, também olhando admirada para as criaturas.

Írios alcançou o grupo e se enfiou no meio deles para conseguir ver o que lhes chamava a atenção.

— Será que posso roubar um? — Chiano pediu já com malícia na voz.

— Não sei se são agressivos — Breno aconselhou que não fizesse. Não conseguia reconhecer exatamente de qual espécie eram aqueles cogumelos andantes, mas sabia que havia algumas não muito simpáticas à intervenções de outros seres.

— Também num tenho certeza — o garoto loiro continuou. — Mas sei que podem ter hastes que posso usar em um emplastro.

— Pra fazer o quê? — o estrangeiro pediu, curioso. Estava começando a ficar fascinado com a inventividade de Chiano.

— Dá pra fazer uma maracutaia que destaca os rastros numa trilha — Chiano disse empolgado, encarando Breno e Pólen diretamente na esperança de pilharem sua ideia. — Ou amaviar objetos para virarem focos de luz.

— Melhor não arriscar e não mexer com os cogumelos — Pólen repreendeu, ficando séria e de imediato saltando sobre os seres para continuar o trajeto. — Já temos o mapa, não precisamos nos meter em mais furada pra seguir os passos.

Chiano torceu o nariz. Ele não pensava só em Eichler. Carregava na sua bolsa uma pulseira de Amélie que ela havia esquecido em sua casa. Se o emplastro desse certo, poderia usá-la para tentar achar algum rastro da namorada, caso houvesse algum resquício dela por aquela região próxima.

Pólen olhou para trás e viu que Chiano era o único que não a havia seguido. Ele estava cabisbaixo, ainda encarando os cogumelos.

— Sinta-se à vontade pra fazer — ela insinuou com malícia. — Mas saiba que vamos seguir caminhos diferentes, daí.

Chiano a encarou levemente ofendido com a provocação e fitou os olhos, mas decidiu continuar no mesmo trajeto que eles. Depois de mais alguns minutos de caminhada, todos concordaram que o cansaço estava demais e que precisavam parar. Escolheram os arredores de uma antiga e alta torre feita de pedras brancas e acinzentadas que estava com a ponta totalmente demolida. Írios ficou se perguntando por que aquela estrutura estava no meio da floresta, longe de qualquer construção do tipo, mas decidiu ficar na sua ao invés de levantar a questão para o grupo.

— Obrigado pela comida — Chiano comentou sentado sobre uma grande rocha vermelha -, mas eu não aguento mais comer frutas.

— Arrependido já? — Pólen desdenhou. — Descobriu que não têm comida da mamãe na periferia?

Írios achou estranho o amargor na voz de Pólen. Não era tão pungente, mas nitidamente mais presente do que nos dias anteriores.

— Tô não — o garoto loiro afastou o marasmo -, foi só uma… constatação.

Já Breno permaneceu quieto o tempo todo. Depois de comer, ficou sentado sobre o gramado úmido e encostado na base da torre porque era uma das únicas áreas do local onde alguns poucos raios dos sóis conseguiam penetrar pelas copas das árvores altas.

O rapaz de cabelos pretos estava rabiscando no caderno há um tempo e Írios ficou admirando-o de longe, perguntando-se o tempo todo se deveria ir até ele para conversarem. Assumiu que estava mais curioso do que deveria sobre o que Breno desenhava, mas, da última vez que tentou essa abordagem, apesar de ter dado certo no começo, o final acabou não muito bem — inclusive, com a morte da pobre fada Alane.

Írios buscou na sua bolsa algumas pílulas de remédios e vitaminas que deveria tomar e esperou uns minutos para ir até Breno mais uma vez. Sentou-se ao seu lado, em busca de um pouco dos raios dos sóis e conseguiu ser banhado pela luz amarelada em parte do rosto.

— Já tava com falta de um pouco de sol — Írios comentou à Breno logo após sentar-se. Breno não reagiu, apenas murmurou algo em concordância e continuou focado no desenho, que Írios rapidamente já se pôs a bisbilhotar e comentou sem medo de ser intrusivo desta vez: — Esse é o tal cervo que a Valen comentou?

O desenho era do busto do cervo virado para a frente do papel. As galhadas eram altas, largas e se ramificavam mais do que Írios estava acostumado a ver nos animais parecidos com aquele no Outro Lado. E outra grande diferença eram os fios de teias que se embalavam por praticamente cada parte da galhada. No canto, uma aranha de pernas finas e esparsas cintilava por causa do efeito de luz e sombra que Breno usou para contorná-la.

— É sim — Breno comentou, concentrado.

— Já viu esse animal de perto? O desenho tá bem real.

— Vi só em livros — respondeu enquanto finalizava algumas hachuras. — É um animal muito raro. Não deve ser fácil de encontrar.

— Mas como o Eichler era um cara incrível e acima da média — sem perceber, Írios já estava falando a primeira coisa que veio à sua cabeça -, ele não apenas encontrou o cervo raro, como domesticou e levou para passear…

As palavras de Írios não soaram com desdém, então Breno não pareceu incomodado com elas. Írios imaginou que os momentos em que ilustrava realmente faziam bem para o garoto — ao ponto de deixá-lo mais calmo e com a guarda baixa em relação ao Írios. O garoto fechou o caderno de desenho, guardou o lápis acima da orelha esquerda e encostou a cabeça na parede da torre para também tomar sol no rosto. Fechou os olhos e respirou fundo.

— Eichler era um cara raro e difícil de encontrar, mesmo — foi a resposta de Breno depois de um tempo. Encarou Írios, que devolveu o olhar, e notou como seus olhos castanhos ficavam cor de caramelo com um misto de verde no reflexo dos sóis. Muito próximo da cor natural dos olhos de Eichler.

Breno quis manter seu olhar no olhar do Írios, focando apenas nele. Foi difícil não resistir à tentação de criar a ilusão de que estava de frente à Eichler. Esquecer tudo ao redor e observar apenas o olhar caramelado. Podia fingir que Eichler estava ali, se despedindo dele assim como fez com Valen e Julian. Mas a realidade bateu à porta quando Írios começou a fazer perguntas irritantes sobre o cervo — e Breno nem tinha as respostas -, então decidiu levantar-se e puxar o retorno do grupo para a trilha.

O único lugar destacável do caminho até o próximo passo foi uma ponte invertida. Írios não conhecia aquele conceito, mas achou bonito. Só não gostou da parte de precisar ficar descalço sobre o concreto e pedras úmidas para conseguir atravessá-la.

Tinham chegado na margem de um rio muito largo, mas de águas calmas e enlameadas. A poucos metros da saída da trilha conseguiram alcançar a tal ponte que nada mais era do que um caminho reto que ligava uma margem à outra, como um muro vindo das profundezas do rio. Era plana e ficava abaixo da água, mas próxima a superfície. A água subia apenas poucos dedos sobre ela para conseguir continuar o seu percurso.

Pólen explicou que ela foi construída — além de ser usada como ponte — para dividir aquele trecho do rio entre duas linhagens de sereias de água doce que guerreavam pelo território há séculos.

Do outro lado do rio o cenário mudou completamente. O clima úmido deu lugar à paisagem seca, as árvores cobertas de lodo sumiram e a vegetação se restringia a um largo campo a perder de vista coberto por um gramado verde bem vibrante, mas pouco capaz de gerar plantas altas — as maiores eram arbustos esparsos e raros.

O solo avermelhado e vacilante ficou escuro, quase preto, e bem rígido. Diversas rochas e pedras — também pretas como carvão — brotavam pontiagudas do solo. Foi difícil encontrar uma área com poucas pedras para montar o acampamento com as barracas próximas umas das outras e ao redor da fogueira.

Na primeira noite após o lobo-besouro ser preso na sua lata, a espinha de Írios tremeu quando viu Pólen e Breno montarem suas barracas. O garoto já estava se preparando psicologicamente para dormir a céu aberto.

— Eu e o Breno vamos dormir na minha barraca — Pólen anunciou para o estrangeiro. — Você e Chiano ficam juntos na de Breno.

— Eu gosto de dormir abraçadinho — Chiano chegou perto de Írios e comentou com uma risadinha. Írios achou se tratar de uma piada, mas, pelo tom que misturava cinismo com seriedade do garoto loiro, ficou em dúvida e receoso.

Até então, Írios nunca tinha dividido uma cama com ninguém e ficou preocupado com a qualidade do seu sono. Apesar de que estava tão cansado que talvez nem precisasse da semente de araucária para capotar. Mas foi mais tranquilo do que imaginava — o único ponto negativo era que Chiano roncava e resmungava enquanto dormia.

Breno preparou na fogueira espigas de milho e batata-doce direto na brasa. Pólen compartilhou algumas tiras de carne seca para acompanhar e Írios dividiu algumas fatias de bolo seco que encontrou no fundo da mochila. Comeram em silêncio — até Pólen estava mais retraída que de costume.

No horizonte, Írios avistou uma coluna fina de fumaça se levantando do solo e alcançando o céu lilás.

— Olha, tem mais gente acampando por aqui — comentou contente. Sentiu certa satisfação em perceber que não estavam sozinhos naquela região, principalmente por ser um lugar amplo e sem vida (que dava ainda mais a impressão de ser deserto e vazio). — A gente vai até lá?

— Nem ferrando — Breno repreendeu o garoto e fez questão de puxá-lo de volta da margem do acampamento para perto da fogueira novamente.

— Pode ser o Macavenco — Chiano comentou com normalidade.

Maca quem? — o estrangeiro ficou confuso.

— É um tipo de espírito que vaga por aí — o rapaz loiro respondeu enquanto dizimava uma espiga. — Ele carrega uma chama velha no bolso e usa ela pra fazer fogueiras. Fica vidrado no fogo até ele apagar. Se a gente chegar perto, ele vai querer defender a fogueira dele. E não é legal entrar em briga com resquícios de espíritos.

— Nunca siga fumaça ou fogo numa floresta — Pólen finalizou o assunto.

Depois do banho, Írios foi direto para dentro da barraca. Chiano veio logo depois. Até mesmo Pólen e Breno se recolheram mais cedo — desta vez, não ficaram ao redor da fogueira enquanto conversavam até tarde da noite. Pelo jeito, o tal cervo misterioso e as perguntas sem respostas que ele levantou realmente tinha mexido com eles.

Com a intenção de não atrapalhar seu colega de barraca, Írios se espremeu o máximo que podia no canto do colchão. Já Chiano deitou-se bem à vontade e parecendo não se incomodar. Os dois ficaram em silêncio por um tempo — Írios deitado de lado e Chiano de barriga para cima, ambos pensativos.

Írios remoía em sua mente a última conversa com Breno. Sobre Eichler de fato ser um cara incrível e raro de se encontrar. Será que Írios teve azar de não ter chego em Àttinos a tempo de conhecê-lo? E ainda mais por chegar depois de sua partida, no momento em que todos viviam o vácuo da sua morte. Não sabia o que era pior.

— Você conhecia bem o Eichler? — Írios virou-se de barriga para cima e perguntou ao garoto loiro. Chiano achou que Írios já estivesse dormindo, então assustou-se de leve com seu movimento brusco. Respirou fundo, pensou bem e respondeu:

— A gente não era amigo. Longe disso, na real. Mas acho que eu conhecia o Eichler de uma forma… bem, não sei… acho que de outra perspectiva.

— Como assim? — Írios achou que o garoto estava soando confuso demais. Teve dificuldade de puxar as palavras corretas para a falar, pausava demais e deixava as frases vagas.

— Acho que eu conhecia um Eichler diferente do que a Pólen e o Breno conheciam — respondeu depois de formular melhor as ideias na cabeça.

Írios corrigiu sua postura. Os dois continuaram conversando de barriga para cima, sem trocarem olhares.

— Mas é normal isso, não? — O estrangeiro pediu. — Pólen e Breno eram os melhores amigos dele.

— Eu sei, têm isso. Mas quero dizer de uma maneira diferente. Tipo, eu e o Eichler nunca nos demos muito bem, sabe? Então a gente não era um cara legal um pro outro na maior parte do tempo. Nunca vi aquele cara bacana, simpático e tal que todo mundo comenta.

— Entendi — Írios se deu por satisfeito e de fato compreendeu bem as perspectivas de Chiano. Mas o garoto desatinou a falar, como se precisasse se explicar, pois parecia até uma heresia insinuar que Eichler pudesse ter nuances e faces diferentes para outras pessoas:

— Não que eu fosse um santo, eu sei. Também provocava demais ele. Principalmente porque eu tinha certa inveja dele, sei lá. Engraçado como são as coisas. A gente tinha essa rixa de muitos anos, e eu tive inveja por ele. E daí quando ele simplesmente se foi, esses sentimentos pareciam tão bobos e inúteis… Tipo, por quê eu sentia isso?

— Tinha inveja do quê, exatamente? — a curiosidade de Írios voltou a falar alto.

— Ah, de como ele era tão bonzinho, tão certinho… Referência pra tudo. É coisa antiga nossa… Minha mãe era bem amiga da mãe do Eichler. Elas trabalharam juntas uma época na secretaria de educação. O Eichler ficava por lá alguns dias antes do expediente acabar para irem embora juntos, ele e a mãe dele. Por isso até minha mãe era encantada por ele. E eu era uma peste naquela época. Nossa. Tinha mil diabos no corpo, irritava todo mundo, botava fogo nas coisas, infernizava a vida do meu vizinho com umas maracutaias que davam errado, atazanar o povo da rua… E quando minha mãe vinha me dar uma bronca, seja pro que fosse, ela sempre falava: “Você devia ser bonzinho igual o Eichler! Era um filho daquele que eu merecia ter!”. Aquele tipo de coisa que na época a gente até deixa passar, apesar de ficar irritado. E depois percebe o tanto que fica lá no fundo das nossas ideias sem perceber.

— Minha mãe também fazia umas dessas comigo — Írios refletiu tentando trazer algum tipo de conforto para o rapaz, pois percebeu que a voz canastrona de Chiano tinha dado lugar à um tom suave e vulnerável. — Minha tia me dizia que era porque os pais têm dificuldade de aceitar que não têm controle sobre o que e como vamos ser conforme a gente cresce.

— Parece bem isso mesmo.

— E por que vocês não se davam bem? Tipo, aconteceu alguma coisa pra serem assim?

Chiano ficou um tempo em silêncio enquanto refletia. Depois voltou a responder:

— Acho que nossos santos nunca bateram mesmo. O Eichler era bem fácil de fazer amigos desde pequeno. Desenrolado, sei lá. Depois quando crescemos ele foi virando um carinha mais simpático. Eu era o contrário: mala, azedo, ficava zombando todo mundo. Eu tinha o talento de descobrir rápido a maior fraqueza ou insegurança da galera e usava isso pra atingir eles. Eu podia zoar geral, mas quando fazia isso com o Eichler, saía gente até do ralo pra defender ele, como se fosse uma heresia mexer com o Eichler. Daí eu fui pegando certa raiva, mesmo. E na escola, ao contrário dele, eu nunca fui um aluno muito bom, mas desde sempre me destaquei nas matérias práticas de Amaviação. E eu tinha um orgulho de mim, sabe? Porque real eu curtia muito, curto até hoje. Mas o Eichler também era bom. E ele já era bom em outras milhões de coisas. Por que tinha que ser bom nisso também, e até mais que eu? Acho que em certo período eu queria ser reconhecido como o maior maracuteiro da cidade, mas tinha o Eichler como páreo.

— Você realmente parece ser bom nisso — Írios elogiou querendo levantar o astral do rapaz.

— Sou mesmo — Chiano até riu por causa da sua falsa modéstia. — Enfim, lá na escola, quando se vira Secundarista, tem uma espécie de prenda que os veteranos têm que pregar nos calouros. Normalmente uma galera se junta pra planejar algo pro primeiro dia de aula, mas eu sempre sonhei em fazer isso sozinho. Pra mostrar pra escola inteira que eu conseguiria fazer uma puta de uma maracutaia massa e engraçada. Então comecei a me planejar meses antes e pensei em tudo. Eu tinha planejado fazer chover dentro de todas as salas da escola, do pátio, corredores… tudo! E ia dar um trabalho da zorra, né, imagina? Não dá pra simplesmente invocar água pra fazer chover, ela teria que vir de algum lugar. Até pensei em fazer em forma de ilusionismo, mas daí seria sem graça porque eu queria que geral ficasse encharcado. Estudei durante muito tempo pra conseguir montar a maracutaia e toda vez que eu saía da aula pra ir ao banheiro, eu, aos poucos, montava a maracutaia pelo colégio. Tava chegando o grande dia de ativar a maracutaia: o primeiro dia de aula do ano. Só não sabia que durante as férias todas, o Eichler tava entrando escondido na escola pra montar a prenda dele! No primeiro dia de aula, eu subi no telhado da escola pra ativar a minha maracutaia e adivinha quem também tava lá.

— O Eichler — Írios respondeu a pergunta retórica de Chiano.

— É, o Eichler. Quando me viu, ele ficou todo irritado. Dizendo que a prenda daquele ano era dele. Eu peitei ele e a gente acabou brigando. Foi o primeiro soco que eu dei em alguém na vida. E o canalha chutou minhas bolas. Daí chegou o Julian pra ajudar ele e os dois covardes vieram pra cima de mim juntos. Durante a briga, a gente quase caiu do telhado, mas deu que nós dois ativamos as nossas maracutaias ao mesmo tempo sem querer. E daí pronto, desgraça total. As duas aconteceram juntas e se potencializaram.

— E qual era a maracutaia dele?

— Ele tinha montado uma maracutaia pra escola ficar cheirando a morango. Isso ia atrair os saguis do mangue que ficam numa floresta nos campos dos fundos do colégio. Eles já tinham invadido a escola uma vez e foi bem engraçado. Mas as duas maracutaias combinadas resultaram numa prenda mais doida ainda: minha chuva virou suco de morango!

— É sério isso? — Írios achou graça e deu risada.

— Pois é. Foi um caos. Choveu muito mais do que eu imaginava, então as escadas viraram cachoeiras de suco de morango e o pátio uma piscina de suco de morango… A galera correndo, escorregando, malucos por terem molhado suas roupas, seus cadernos e tal. Pra fechar, os saguis vieram todos doidos pra caramba por causa do suco e ficaram infernizando a vida de todo mundo que ainda tava tentando fugir da escola… No fim, foi engraçado. Eu e Eichler ficamos satisfeitos com a bagunça que a gente fez. Mas tomamos uma suspensão feia e na sala da diretora e o Eichler ficou me acusando de ter causado a zorra toda. Disse que a prenda dele era algo inocente e tranquilo… Eu fiquei muito puto, mas fiquei calado. E sei que no fundo só não fui expulso porque daí a diretora ia ter que expulsar o Eichler também, e tava na cara que nem ela e nem o corpo docente iam querer aquilo.

— Que sacanagem.

— É, carinha, o mundo é injusto. Tudo porque o Eichler era o tal cara mais perfeito e legal de Àttinos. E sabe a real? Eu também queria ser igual a como achavam que o Eichler era, sério — Chiano bravejou com coragem. Írios se identificou com a fala. Talvez, ser como o Eichler pudesse deixar as coisas mais fáceis. Mais fácil de agradar aos outros, mais fácil para fazer amigos… — Queria ser mais calmo, concentrado, quem sabe até ser um bom aluno, ficar quieto na sala de aula, respeitar meus pais, não precisar ficar enchendo o saco de todo mundo pra ganhar atenção… Esse era um dos motivos de eu ter tanta birra assim dele, ayê. E o outro era porque tinha uma época em que eu achava ele uma farsa.

— Uma farsa? — Írios pediu.

— É. Eu sabia que no fundo o Eichler era mais parecido comigo do que com o que pintavam sobre ele. No dia da prenda ficou bem claro isso. Nas costas da galera ele também fazia umas atrocidades com magia, mas tomava cuidado pra não descobrirem e muito menos pra não machucar ninguém. Tá aí a maior diferença entre a gente: eu não ligava pra isso. Sou um cacarequento assumido e não tenho vergonha disso.

— Mas será que isso não era só uma impressão sua? — Quem diria, até mesmo Írios, que nem chegou a conhecer o dito cujo, estava resistente em aceitar que Eichler podia não ser exatamente isso tudo que diziam dele.

— Não, não. Eu vi tudo. Acho que fui o único da cidade toda. Tanto que quando o Eichler percebeu que eu sabia, ele começou, sei lá, a ser mais malicioso comigo. Antes era uma disputa mais boba, meio inocente, que rolava entre nós dois. Acho que eu botava mais peso nela do que ele. Mas depois que eu vi o que vi sobre ele, a coisa ficou mais séria. E nos olhos dos outros, eu que era o culpado por termos uma rixa.

— E você viu o quê? — Írios não tinha esperanças de Chiano abrir o jogo e dizer, mas decidiu perguntar mesmo assim.

— Não sei se esses amigos do Eichler sabem, mas o Eichler tinha uma mania bem secreta. Eu descobri porque durante as férias minha mãe me botava pra trabalhar na loja de materiais da minha prima pra evitar que eu ficasse zoneando demais pela cidade. E sabe quem ia muito lá? Eichler. Olhava tudo na loja, mas comprava só uma coisinha ou outra. Daí um dia eu fiquei bem de olho e percebi que ele roubou um cristal de ovo. É um item bem perigoso, usado pra maracutaias pesadas mesmo. O danado deixou uma réplica no lugar. Eu vendi pra uma senhora ricaça e ela ficou fula da vida porque chegou em casa e percebeu que era uma ilusão. E, claro, botaram a culpa em mim.

— Mas ele roubava por que? Pelo que ouvi a Pólen falando, a família dele é bem de vida.

— Foi isso que me chamou atenção. Naquele primeiro dia eu nem falei nada, mas fiquei de olho. E ele pelo menos uma vez por semana aparecia lá na loja e mocava mais uma parada. Daí eu fiquei encucado e tirei um dia pra seguir ele de longe pelo centro. E adivinha: ele roubava de várias lojas. Sempre eram itens pra fazer emplastro e muvuca. E daí entendi porque ele roubava se na verdade dinheiro não faltava: a compra de itens mágicos são registradas nas lojas pra secretaria de segurança da cidade saber quem anda fazendo o que com as magias em casa… Se eu for numa loja e comprar um monte de passata de morcego, a polícia já vai ficar na minha cola, tá ligado? Vai dar na cara que eu vou fazer veneno. Era isso: Eichler roubava pra poder fazer suas bruxarias.

— Eichler fazia bruxaria? — Írios perguntou com medo. Até o ambiente pesou depois daquela informação.

— Não, não. Na verdade, não sei, não posso afirmar. Só exagerei na história pra você sentir o drama. Enfim. Teve uma vez que fui num rolê lá no Bosque Calado. Eichler e os amigos dele quase num colavam nesse tipo de rolê, mas nesse dia foram. Eu tava muito maluco das ideias e não resisti: teve uma hora que puxei o Eichler pra um canto e contei pra ele que sabia que ele era um ladrãozinho de bosta, que ele era uma farsa. Ele ficou na defensiva, tentando desbaratinar, mas daí eu disse que sabia dos roubos e das maracutaias pesadas dele. Ele ficou branco e começou a gaguejar. Depois ficou muito puto. Foi a primeira vez que vi ele bravo, com raiva. Pra mim, aquela era a verdadeira cara dele. E só eu tinha visto até então. Ele conseguiu sair de perto de mim e no outro dia cedo me procurou na rua de casa pra conversar. Pediu que eu não espalhasse por aí. E, na real, por mim tava de boa. Eu não ia ganhar muita coisa dedurando ele pra geral. Só queria mostrar pra ele que a mim ele não enganava, sabe? Se fosse eu no lugar dele, não ia querer ninguém xeretando meus corres.

— Então vocês nunca mais tocaram no assunto?

— Por muito tempo. A gente se trombava por aí, mas nem trocava ideia. Só uma vez aconteceu da gente sentar e conversar. Foi no hospital. A gente tava esperando consulta no mesmo dia, mas tava demorando muito. Daí ele me chamou pra dar uma volta no pátio do hospital. Ele explanou que tava tentando criar um jeito de fazer o skate dele virar o chaveiro pra ele conseguir carregar por aí, mas não conseguia porque têm um tipo de metal no skate que não amaviava encolhimento de jeito algum. Ele me contou tudo que tentou e achei bem massa o jeito como ele pensava magia. Ele estudava muito as coisas do mundo e tentava fazer magia reversa pra entender como elas funcionam pra ele tentar achar alguma lógica que funcionasse pra ele.

— Bom, pelo menos ele teve humildade de pedir ajuda.

— Isso sim. Mas não deixava de ser estranho tudo isso. A sós, ele me tratava normal. Na frente dos outros, ignorava total. Acho que eu era real o único cara da cidade toda que ele não tratava bem. E a galera percebia, por isso nossa rixa parecia muito maior na visão dos outros. Foi mal, tô falando demais.

— Que nada. Eu gosto de ouvir.

Chiano riu do jeito engraçado e ingênuo de Írios.

— Tá bem, então. Ser ouvido é bom também — ao confessar a frase, o garoto loiro abriu uma porta de reflexão sobre algo que ficava até então bem no fundo de sua mente: que ele tinha poucos momentos em que as pessoas ao seu redor de fato parassem para ouvir o que ele de fato tinha para dizer, para ouvir sobre si mesmo e sobre suas opiniões do mundo. Quando ele tinha a atenção das pessoas, normalmente, era para fazê-las rirem ao falar algumas besteiras, ou para que elas pedissem ajuda com alguma maracutaia.

— Poder falar é bom mesmo.

— É. Eu experimentava bem pouco disso. Meus amigos, bem, eles são muito fuleiros e acham essas coisas de sentimentos e ideias perda de tempo. Eles preferem explodir coisas, montar chuncho pra pregar peça nos outros, se divertirem, sei lá. Acho que experimentei isso mesmo pela primeira vez foi com a Amélie.

— Ela deve fazer bastante falta, ne?

— Porra, pra caramba. Acho que ela foi uma das únicas pessoas que me viam como gente, e não como um moleque. Ela me fazia um bem danado.

— Você é mais legal do que deve imaginar, Chiano.

— Eu sei, carinha — Chiano riu do seu próprio convencimento. — Mas o rolê é como os outros te tratam. Isso sim faz diferença.

— Faz mesmo.

— E a Amélie… Eu não vou me perdoar se aconteceu algo… grave com ela. Mas ainda tenho fé que ela tá bem. Só precisa de ajuda, ser encontrada… Estou orando pros Deuses todas as noites. Espero que eles me ouçam porque eu não dava moral pra eles há um bom tempo.

— Eles vão ouvir. E a gente tá tentando — Írios sentiu vergonha por um momento. Para ele, aquela viagem era quase totalmente sinônimo da jornada de Pólen e Breno para jogarem as cinzas de Eichler e tentarem descobrir mais um pouco sobre os últimos dias dele. E acabava se esquecendo que Chiano também tinha seus motivos e era a vida da sua namorada que estava em jogo. Era um tiro no escuro, claro, apostar que estar junto deles era o caminho correto a seguir para descobrir qualquer coisa sobre o paradeiro da Amélie, mas Chiano estava insistindo. E estava sofrendo bastante, apesar de não demonstrar tanto. Írios percebeu mais ainda que o perfil do garoto era o de não apenas sofrer calado, mas disfarçar as tristezas e preocupações com piadas e conversas descontraídas.

— E vou ser sincero contigo — Chiano voltou a falar e trouxe Írios de volta à realidade. — Não quero chatear a Pólen e nem o Breno com isso, principalmente porque agora vi que eles são legais e tão passando por essa merda toda muito recente. Mas tenho pra mim que o Eichler tá direta ou indiretamente ligado no sumiço da Amélie. Eu ainda não tou conseguindo ver muita lógica numas coisas ainda, mas uma hora minha cabeça vai lá e , ligar os pontinhos. Eichler não vai me enganar, não, nem mesmo depois de virar uma montoeira de cinzas.