Por Onde Andou Eichler?
12 Como enlatar um lobo
Quando Írios acordava no meio da noite, sempre tinha muita dificuldade de pegar no sono novamente. Virava de um lado para o outro na cama, contava carneiros, criava histórias na cabeça, mas nada do sono voltar para adormecer. Quando despertava, parecia que o sono saía correndo para longe de seu corpo.
Depois de muito tentar voltar a dormir, começou a ficar inquieto dentro da barraca. Não conseguia saber que horas eram, mas, pelo silêncio lá de fora, imaginou que Pólen e Breno já tivessem ido se deitar, talvez até há muito tempo. Decidiu sair para tirar água do joelho no canto da clareira e passou ao lado das cinzas ainda flamejantes da fogueira de Breno.
Não sabia invocar escudos, mas amaviar a adaga para servir como luminária conseguia. Chacoalhou a arma e jogou-a para cima para que ficasse flutuando sobre sua cabeça e cantarolou a cantiga para mantê-la no ar — mas ainda próxima, para iluminar bem onde ele pisava.
A adaga era a única fonte de luz do local até que o garoto notou, do outro lado da clareira, dois pontinhos luminosos entre os troncos das árvores. Cerrou os olhos para tentar enxergar melhor, pois achou se tratar de vagalumes. Nunca os tinha visto presencialmente e achava uma graça aqueles bichinhos.
Mas os pontinhos se moviam muito uniformemente, como se estivessem alinhados. Também ficaram levemente maiores, indicando que estavam se aproximando. Ok, agora aquilo já estava ficando suspeito. Ouviu sons de folhas e galhos se movendo vindos da direção daquelas luminescências.
— Pólen? — Írios parou de cantarolar a cantiga da adaga verbalmente e passou a recitá-la em seu pensamento para poder chamar em voz alta pelo nome da garota. Queria tirar a dúvida se não era ela que também estava acordada e por ali. Mas o receio já começava a tomar conta de seu corpo, então a voz saiu tímida e rasgada da boca.
Os pontos aumentaram ainda mais e revelaram-se ser olhos cintilantes. Agora estavam próximos o suficiente para pegar o final do alcance da luz da adaga do garoto, no limite entre sombra e penumbra. Írios recitou em sua mente um trecho da cantiga para a adaga se mover para a direção daquele objeto estranho que se movimentava, até que ela ficasse também mais baixa e próxima do chão.
Primeiro, conseguiu ver o enorme focinho da criatura com duas presas compridas e finas estendendo-se abaixo dele. Depois vieram as patas dianteiras com garras protuberantes e avermelhadas. Aos poucos, a cabeça do lobo também se revelou, seguida do corpo coberto por uma carapaça grossa e furta-cor que lembrava a de um besouro.
O animal abriu a boca para soltar um rosnado intimidador e as presas que lembravam o formato de dentes de cobra se revelaram ainda mais. Írios ficou congelado enquanto a criatura se aproximava lentamente e com passos pesados. Ela era praticamente do tamanho de um sofá de dois lugares e seus olhos brilhantes não esboçavam nada além de raiva.
Pela postura que preparou, o garoto percebeu que em poucos segundos o lobo-besouro avançaria com tudo sobre ele. Foi a deixa para tentar destravar seu próprio corpo e tentar reagir para pelo menos sair do seu alcance. Quando a criatura saltou, Írios já jogou-se sobre o gramado ao lado e conseguiu desviar de seu trajeto. Mas foi por pouco. Sentiu na pele o vento que o movimento do lobo cortou no ar.
Írios rolou sobre o gramado perto de sua barraca e ficou observando a direção para onde o animal tinha saltado. Tudo isso sem parar de recitar a cantiga em sua mente para que a adaga continuasse acesa e flutuando para iluminar o local.
Percebeu que o salto da criatura fora baixo, mas, com aquela velocidade toda, acabou perdendo controle do próprio peso do corpo e capotou sobre o fino riacho até alcançar as árvores para além da outra margem, saindo da bolha de iluminação da adaga. Deu para ouvir o som das suas garras nas pedras e o corpo batendo em algumas árvores.
O garoto aproveitou a deixa para afastar-se e ir até a borda contrária da clareira, deixando sua barraca entre ele e o ser. Pensou em correr até as barracas de Pólen e Breno para acordá-los, pedir ajuda ou avisar para fugirem dali, mas ficou com receio de também torná-los alvos do lobo-besouro. Seria mais uma vez num mesmo dia que colocaria a viagem e as vidas dos dois em risco por causa de suas inexperiências e trapalhadas. Concluiu que o justo seria atrair o monstro para o mais longe possível do acampamento.
O lobo-besouro andou calmamente sobre o fino riacho com o corpo aprumado e esguio, clássico de um predador que se espreita até sua presa. Mas, desta vez, seus olhos cintilantes estavam apontados para outro local: a adaga de Írios, que flutuava perto da fogueira. Será que ele estava sendo atraído, na verdade, pela luz?
Se corresse, Írios facilmente seria alcançado pela criatura no meio da mata, apesar de ter vantagem com seu corpo menor do que o dela para se enfiar e desviar-se entre as copas de árvores. Mas sem garantias que teria sucesso. A única coisa com que poderia contar era com o jeito desastrado da fera corpulenta.
Quando o garoto terminou de planejar seu arriscado plano, o lobo-besouro já estava sobre a margem mais próxima da clareira, exatamente onde Írios tinha ido urinar. O feiticeiro focou seu olhar na adaga flutuante e parou de cantarolar no exato momento em que apontou sua mão direita para ela e tentou conjurá-la para retornar ao seu punho. Nunca antes havia conseguido fazer sua arma vir até ele, mas não era exatamente disso que precisava.
Ao invés de mentalizar a arma retornando diretamente para a mão, recitou o verso da cantiga para mudar sua posição ao mesmo tempo que tentava puxá-la para trás e para baixo. A adaga, então, girou e girou no ar com força e velocidade até cair fincada sobre o gramado atrás da barraca de Írios. Durante todo o trajeto, o lobo-besouro não tirava os olhos brilhantes da luz da arma. Írios cerrou os punhos e se esforçou para que a adaga aumentasse ao máximo seu brilho e, no exato momento em que ela caiu no chão, a criatura também correu e avançou sobre ela.
Enquanto isso, Írios sacou sua varinha do coldre e, num movimento rápido de cima para baixo, focou no lobo para influenciar seu trajeto para a direção da sua barraca — para fazê-lo se chocar com ela ao invés de saltar sobre ela. Sentiu o enorme peso no braço que segurava a varinha assim que conseguiu conectá-la com o animal. Por pouco, não quebrou o pulso e o ombro.
No salto baixo, o lobo-besouro caiu com o focinho direto dentro da barraca de Írios, vestindo-a sobre toda a sua cabeça e arrastando-a sobre o gramado. Capotou duas vezes, caindo para além da adaga e perto dos pés de Írios, atordoado por causa da visão tampada pelo tecido.
Quem diria que a magia funcionaria melhor no desespero? Írios girou a varinha, resistindo a dor e tremedeira que a telecinese sobre o lobo lhe causou, mas num movimento assim como Pólen havia o ensinado horas antes. Um som agudo soou e a barraca começou a chacoalhar sobre o lobo-besouro. Em poucos segundos, ela recolheu-se sobre si mesma, levando o corpo do animal junto consigo e engolindo-o por completo enquanto diminuía de tamanho até ser envelopada por completo por uma lata de alumínio que surgiu no ar.
A lata caiu sobre o gramado e tocou os pés do garoto, que, com receio do lobo conseguir se livrar do objeto amaviado e voltar à clareira, deu dois passos desastrados para trás e acabou caindo de bunda no chão. Mas a lata continuou lá, parada.
Agora Írios tinha um lobo-besouro enlatado.
—
— E você deu um jeito nele sozinho? — Pólen perguntou à Írios um pouco incrédula com a história que tinha acabado de ouvir. O garoto, em resposta, fez que sim com a cabeça e desdenhou um semblante orgulhoso e confiante de si mesmo enquanto chacoalhava a lata na mão direita para os outros dois feiticeiros verem. — Ayê, não esperava essa de ti, mano.
Estavam os três ao redor da fogueira do acampamento que haviam montado na noite anterior. A aurora ainda vinha tímida e aos poucos ajudava as brasas vermelhas a iluminarem a clareira. Breno se ajeitava mais próximo do fogo porque cozinhava o café da manhã para todos. Cismou que tinha acordado com vontade de comer bruacas com mel. Aproveitou que tinha todos os ingredientes na bolsa e preparou a massa fina.
Írios ficou encantado com o kit de cozinha de escoteiro que ele carregava. Era uma pequena pochete cheia de divisórias que ajeitavam diversos itens de cozinha em miniatura — vasilhames, tábuas, talheres, panelas, frigideiras e muito mais. Os mini itens eram jogados direto no fogo e, num estalar de faíscas das brasas, flutuavam no ar sobre a fumaça e podiam ser pegos já em seu tamanho original.
Breno até tinha uma grelha com suporte para colocar as frigideiras sobre o fogo, mas preferia amaviá-las para flutuar sobre o calor. Com a varinha, ia ajustando a altura das frigideiras para pilotar o cozimento — achava assim mais prático. Estava fazendo as bruacas uma por uma. Quando botava a massa no ferro fundido da frigideira preta, o som que o óleo estalava dava água na boca de Pólen e Írios. Um cheiro doce invadia o local a cada pequena panquequinha que ficava pronta e o garoto colocava sobre a pilha de bruacas no prato ao lado.
— Pois é, mas deveria saber que lobos-besouros são atraídos por luzes artificiais… — Breno ia comentando a leve crítica enquanto Pólen o repreendeu com o olhar e decidiu mudar o tom da fala de última hora para não deixar a bola cair: — Mas mandou bem, Liquírios.
— Agora o único problema é que não tenho onde dormir — Írios riu da própria desgraça junto com os demais, mas com um fundo de preocupação. Breno retirou a última bruaca da frigideira e Pólen dividiu a pilha entre os pratos dos três enquanto Írios estava terminando de passar o café no coador de pano direto na xícara de cada um deles. — Se eu abrir a lata, o monstro sai junto com a barraca, né?
— Capaz de que sim — o outro garoto confirmou. — Melhor deixar ele fechadinho aí. Esses monstros são perigosos, deu um azar danado de topar com um assim.
— Eu, de verdade, achei que a varinha não ia funcionar — o novato continuou o relato tentando colocar o peso dramático necessário no que contava. — Iluminar com a adaga e fazer flutuar é uma das coisas que sei fazer, mas usar a varinha já é demais pra mim. Cê viu ontem, né, Pólen?
Falar sobre ser feiticeiro era bom e aquecia o peito do garoto.
— Ôh se vi o seu talento natural, sim — ela concordou ironicamente antes de abocanhar de uma vez quase metade das bruacas que tinha no seu prato.
Írios deu sua primeira garfada na bruaca e se derreteu de prazer, aquilo era tão simples, mas tão saboroso. O mel que Breno colocou por cima deixou tudo ainda mais maravilhoso. Adorava a mistura de um café forte e fresco com algo doce de comer.
— A gente fica maluco querendo aprender a fazer um corte de fogo com uma espada — o garoto de cabelos raspados apontou -, ou um tiro de gelo com a adaga e esquecemos total de aprender a usar a varinha.
— Dizem que no norte não se usa varinha — Pólen comentou. — Não sei como eles amaviam as coisas.
— Mas eu tava pensando aqui… — Breno deu-se conta de um fato que até então tinha lhe passado batido: — Eu não tenho certeza se existem lobos-besouros aqui nessa floresta. Nem em nenhuma outra aqui por perto…
— Bom, se ele tava aqui, é porque ele tava por aqui — a garota comentou finalizando suas bruacas.
— É…
Os três recolheram todos os itens do acampamento para prosseguirem na jornada. Pólen e Írios limparam no riacho tudo o que Breno usou para cozinhar antes que ele os fizesse voltar a ser de miniatura. Com tudo arrumado e mochilas nas costas, prepararam-se para partir.
Olharam no mapa uma última vez para revisarem o trajeto. O próximo ponto não era distante dali, mas o caminho tinha bastante obstáculos. Írios não conseguiu entender qual era o destino nem pelos desenhos na folha, nem pela conversa dos outros dois, mas fisgou que provavelmente encontrariam a tal de Valen nas próximas horas.
— Pensando bem, acho melhor a gente se prevenir — Breno comentou após fechar o mapa — já que um lobo-besouro achou a gente ontem. Capaz de outro monstro aparecer por aí.
O garoto puxou da mochila um pingente de metal com um pequeno pássaro de porcelana. Ele tinha um bico longo, penas azuladas e estava com as asas abertas. Breno vestiu o cordão metálico e soltou um assobio longo e agudo.
— O que é isso? — o estrangeiro questionou. Após o assobio, o pingente estremeceu e o pássaro de porcelana tornou-se real. Ele era do tamanho de um dedo mindinho e rapidamente escapuliu pelo ar, batendo as asas freneticamente até sumir entre as copas das árvores.
— Um pássaro de vigia — Breno respondeu olhando para cima. — Ele vai cantar e avisar a gente se alguma criatura tiver por perto. Ele consegue até afastar espíritos maus de vez em quando. As florestas têm muito disso.
Pólen explicou que o pássaro ficaria voando ao redor deles o tempo todo, desde que um deles usasse o pingente. Explicou também que não era um pássaro de verdade, só uma maracutaia de amuleto. O pássaro era apenas uma ilusão.
Interrompendo a explicação da garota, um som orgânico e repentino emergiu das costas dos três adolescentes. Vinha da beira da clareira, entre as copas das árvores. Depois soou uma tosse abafada, úmida, como se alguém estivesse engasgado e tentando recuperar o fôlego com dificuldade.
— O pássaro já tá fazendo efeito? — Írios perguntou com receio.
Eles olharam na direção em que os ouvidos apontaram e viram algumas folhas de arbustos se moverem. Írios imediatamente imaginou ser mais um lobo-besouro os atacando, talvez até buscando vingança pelo outro que estaria desaparecido. Pelo menos teriam mais duas barracas para tentar o truque da lata novamente.
Pólen e Breno logo ficaram de pé, com postura defensiva, preparados para lidar com qualquer intempérie. O garoto sacou a adaga do bolso de trás da calça e a garota puxou a varinha de cima do ouvido direito. Írios demorou mais para reagir e preferiu se arrastar para trás dos outros dois. Estaria mais seguro no fundo do que os ajudando, definitivamente.
Esperavam algum novo monstro, mas o que viram foi um garoto alto, magro e loiro tombar entre as copas e se arremessar no gramado da clareira. Ele rolou para frente e depois agarrou com força a terra com as pontas dos dedos, tentando içar o corpo para frente. Ainda tossia pesado e grunhiu. Levantou a cabeça de leve para tentar olhar para os três ao redor da fogueira e, entre resmungos e afogado por um líquido espesso e roxo que brotava do fundo da garganta para fora da boca, pediu:
— M-me ajudem…
Parecia ter utilizado suas últimas energias para conseguir dizer aquilo, sacrificando o pouco de ar que ainda conseguia respirar. Isso porque a gosma roxa tomava conta de seu rosto e agora também brotava pelas narinas, escorrendo pelo pescoço até alcançar o chão. A pele lívida estava ainda mais branca e, ao redor dos olhos, as veias se marcavam em cinza. Os olhos murchos estavam ficando cada vez mais esbranquiçados, até as íris desaparecerem por completo.
— Mas que merda aconteceu com ele? — Írios resmungou voltando ao lado de Pólen e Breno. Apenas quando o rapaz que surgiu da mata resmungou a ajuda em voz alta que ele reconheceu Chiano estirado no chão. Os outros dois ainda o observavam assustados, meio congelados e sem saber o que fazer, mas logo Breno ajoelhou ao lado do rapaz e virou seu corpo com dificuldade para que ficasse de peito para cima.
— Ei, ei — o garoto de cabelos curtos tentou fazer Chiano abrir os olhos novamente, dando palmadas no seu rosto para recobrar a consciência. Em resposta, ele grunhiu e teve um espasmo nas pernas. Breno estava afobado e tremendo pelo nervosismo, mas nitidamente concentrado em ajudar. — Me fala: você comeu alguma fruta que achou no mato?
— P-itangas — Chiano resmungou e logo depois virou o rosto de lado para vomitar mais daquela gelatina opaca e roxa. Írios virou o rosto para evitar vomitar também, pois uma ânsia subiu pela sua garganta.
— Droga — Breno reagiu. Estirou o corpo para trás a fim de alcançar um dos tocos de madeira que havia cortado para alimentar a fogueira e colocou-o abaixo da cabeça de Chiano. Olhou para Pólen, que ainda os encarava assustada, e anunciou: — Ele deve ter comido pitanga selvagem…
Ao ouvir, Pólen esboçou uma cara ainda mais preocupada.
— Sabe como dar um jeito? — a garota pediu ajoelhando-se ao lado de Breno para conseguir medir a febre de Chiano pela testa.
— Eu não — respondeu incrédulo. — Achei que você soubesse.
— Mas você é escoteiro! — Pólen protestou, ficando mais nervosa.
— E daí?
— E daí que você sabe o que deixou ele assim, então têm que saber como resolver.
— Mas eu não sei. Você deveria, você que é curandeira.
— Mas eu também não sei! — Pólen, irritada, gesticulou bem os braços enquanto falava para deixar clara a sua insatisfação com a situação.
— Não olhem pra mim — Írios logo avisou quando os dois decidiram olhar com súplica para ele.
— Me fala mais dessa pitanga de merda — Pólen pediu para Breno, recalculando rota e tentando pensar em alguma alternativa que pelo menos ajudasse a aliviar o problema.
— Ela tem tipo um líquido que quando entra em contato com o estômago faz o corpo botar pra fora essa gosma — Breno explicou tentando vencer o nervosismo para lembrar-se mais claramente das informações.
— E o que é essa gosma?
— Eu acho que é só uma gosma mesmo… Tipo, o suco da fruta simplesmente incha dentro do estômago sem parar.
Pólen ficou reflexiva por um tempo. Trocava olhares entre os arredores e o corpo de Chiano se estremecendo no chão. Até que terminou de pensar e começou a verbalizar o seu plano:
— Vira ele de ponta cabeça.
— O que? — Breno pediu sem entender.
— Vira, agora! É melhor ele botar tudo isso pra fora antes de engasgar ou, sei lá, inalar a gosma!
— Esse é o plano?
— Você tem um melhor? — Ela protestou, indignada. — Também vai ajudar o sangue ir pra cabeça.
— E no que vai ajudar?
— Olha a cara dele, tá todo pálido. Precisa de sangue. Vai, anda logo, vira ele de ponta cabeça.
— Mas eu não sei fazer isso. Tipo, a gente pendura ele numa árvore? — Breno começou a se desesperar e hiperventilar. Írios também estava ansioso e queria ajudar, mas não sabia como. Tinha até mais medo de atrapalhar do que ajudar caso se metesse.
Aquilo era uma grande questão. Não era simples para um feiticeiro lançar magia sobre o corpo de outro tão facilmente, principalmente para movimentá-lo. Era como se a magia de um corpo resistisse à magia de outro, mais do que os objetos e coisas do mundo.
Pólen olhou novamente para Chiano. Uma poça de gosma roxa se formava ao seu redor. Foi então que notou que na parte de dentro da jaqueta preta do garoto havia preso diversos bottons e patches de tecido com desenhos diferentes. Eram os pequenos objetos amaviados com maracutaias que o garoto era muito conhecido por fazer e vender. Um deles, inclusive, foi usado para que Chiano se livrasse do ataque impulsivo de Breno dias antes.
— Se você não tiver a droga desse pó aqui, Chiano… Ayê— a garota resmungou enquanto começou a futricar nos bolsos da jaqueta, calça e também na bolsa tiracolo de Chiano -, eu mesma mato você!
A garota lembrou-se das diversas vezes em que Chiano usou sua descoberta mais recente para infernizar a vida da turma de sua sala. Eram sapatos, mochilas, presilhas, cadeiras… o garoto fez flutuar inúmeras vezes a ponto de esgotar a paciência de todo mundo com aquelas pegadinhas.
Então o toque de seus dedos finos finalmente encontrou um pequeno saquinho de tecido. Puxou para fora e Breno logo reconheceu:
— Pó flutuante?
— Isso.
— Ayê, cê é uma gênia, cara.
— Pelo menos o Chiano trouxe ele mesmo a solução pro problema dele.
Afobados, os dois jovens começaram a preparar Chiano. Arrastaram seu corpo para a beirada da clareira e abaixo uma árvore grande. Pólen começou a salpicar muito daquele pozinho branco sobre o pé do garoto loiro. Em poucos segundos, Chiano foi içado de ponta cabeça para o alto como se fosse um balão, deixando um rastro de gosma pela grama.
Pólen puxou sua varinha, fez um gesto circular e sussurrou alguma palavra que Írios não reconheceu e, com força, fincou a arma de madeira no chão. Perto de onde foi colocada feito uma estaca, uma raíz ainda verde brotou do chão e agarrou Chiano pela mão, impedindo que ele flutuasse sem controle para cima. Agora sim ele parecia uma bexiga.
Por conta da posição, sua jaqueta também virou ao contrário e revelou para Írios a grande quantidade de bottons e patches presos nela. Todos eles tinham uma runa ou um desenho intrigante estampado. Raios, folhas, chaves, ossos, fogo, estrela, pudim, skate…
Chiano vomitou ainda mais e um pouco de cor voltou a pintar a pele de seu rosto. As manchas ao redor dos olhos também foram sumindo e as íris retornando. O garoto começou a se remexer com mais firmeza, ao contrário da maneira molenga com que se portava anteriormente, dando sinal de que estava recuperando um pouco de vitalidade.
— Tá dando certo! — Írios comemorou.
Chiano deu um arroto final seguido de um grande soluço desesperado para recuperar o fôlego. Ficou um tempo de olhos fechados, então resmungou com uma aparente dor:
— Eu preciso de um boca a boca…
— Cala boca, seu bosta — Pólen retrucou já não levando a sério o que ele dizia.
— Valeu, galera — ele se livrou do tom dramático, ainda que estivesse com a voz embargada por causa de tanto vômito. Mexeu com dificuldades numa pequena bolsa que carregava colada sobre o peito e de lá retirou um pequeno chiclete. Mascou, fez uma cara feia — o sabor parecia ser péssimo — e seu corpo foi voltando aos eixos, respeitando a gravidade.
— Por nada. — Enquanto isso, Pólen retirou sua varinha do chão e a raíz que se prendia ao corpo do garoto secou e se desfez.
— Prometo nunca comer mais nada desconhecido que eu encontrar por aí — Chiano resmungou em direção ao riacho, passando por Breno e dando um tapinha no seu ombro. — Ayê, que bagulho horrível isso.
O rapaz magricela e loiro ficou de cócoras na margem para limpar seu rosto e pescoço das marcas que a gosma roxa deixou. Írios notou que todo o material que ele vomitou pela clareira estava murchando e desaparecendo. Quando Chiano voltou para os outros três, estava totalmente limpo e com o aspecto saudável de volta.
— Ok — Breno sentou-se num toco de madeira e resmungou para Chiano. Ainda se recuperava do susto e deixava a adrenalina do corpo abaixar. Os últimos momentos realmente o apavorou. — Acho que você deve algumas explicações.
— Com certeza — Pólen acrescentou no coro.
— Eu sei, seu sei — Chiano também parecia exausto. Jogou o corpo no gramado a fim de descansar e ficou olhando para o céu rosado. Esfregou o rosto com as mãos e grunhiu de raiva. — Sei nem por onde começar, pra ser sincero.
— Pode começar respondendo uma dúvida — o garoto de cabelos curtos provocou, irritado: — Você tava seguindo a gente?
— Tava — respondeu sem peso algum na consciência, como se fosse uma resposta clara e óbvia.
Breno ficou incomodado por não ter percebido. Era treinamento para identificar esse tipo de situação. Se tivesse soltado o bem-te-vi de bolso antes, teriam pego Chiano no flagra.
— E eu vou continuar com vocês — o rapaz loiro sentou-se na grama e ficou de pernas cruzadas. Tinha convicção. — Se acharem ruim, ayê, eu vou andando atrás, tô nem aí. A gente quer a mesma coisa aqui, todo mundo.
— Não — Pólen entrou na conversa. Também não parecia muito receptiva. — A gente tá indo levar as cinzas do Eichler pra ilha.
— Sim — Chiano provocou. — Mas também querem descobrir o que o tampinha fez por essas florestas todas. Conhecendo ele, sei que coisa boa não foi.
Írios sentiu a irritação de Breno aumentar mesmo estando longe do garoto. Ele engoliu em seco, mas não resistiu em ameaçar:
— Já disse pra não falar dele.
— Ok, ok — Chiano cedeu. — Foi mal falar do seu namoradinho. É a força do hábito, cê sabe.
— Tá — Pólen queria mais informações -, não precisa ir atrás da gente pra investigar isso, ou pra achar a Amélie.
— É que os últimos dias foram meio malucos… — respondeu e ficou quieto. Percebeu que os outros três continuaram o encarando com olhares de quem quer mais detalhes, então decidiu contar: — Pouco tempo depois que encontrei vocês lá nas araucárias, percebi que o irmão da Amélie tava no meu pé. Cara, eu sei que aquele mano nunca foi com a minha cara, mas eu real não imaginava que ele pudesse ficar com tanta raiva de mim…
— Ele acha que você fez algo com a irmã dele. Normal, né, ele reagir assim — Breno apontou, já que também não estava muito convencido de que Chiano tinha totalmente a ficha limpa em relação ao assunto. Ainda tinha suas suspeitas.
— Eu sei, eu sei — continuou. — Mas é que eu tô cansado disso. Tá todo mundo me acusando naquela cidade, me olhando como se eu fosse um monstro. E agora, ayê, tô sendo caçado! O jeito que aquele maluco olhou pra mim, como prendeu meus pés embaixo da terra, parecia que ele queria me matar mesmo.
— Ele pode tá com um quebranto… — Pólen refletiu em voz alta.
— Não duvido. O jeito que ele respirava, olhava pra mim, bufava igual um touro. Quase me caguei todo, sérião, viu? Ayê, eu escapei por pouco. Daí vi que não podia voltar pra cidade nem ferrando. E, cara, na moral, eu não posso fazer nada além de tentar achar a Amélie — sua voz embargou quando disse o nome da garota. Írios também notou que lágrimas brotaram e se acumularam abaixo de seus olhos, mas o garoto parecia segurar para não deixá-las escorrer. Pólen ficou mais tocada com o relato. — E se vocês tão indo atrás de algumas respostas… Eu só segui vocês e pronto. Eu só posso voltar se eu levar a Amélie comigo, não tem outro jeito.
— Ok, e onde tá o Flávio agora? — Breno indagou preocupado com a possibilidade do rapaz encontrá-los. Ele era mais forte e mais velho. Poderia dar cabo de todos ali de uma vez só enquanto caçava Chiano.
— Eu despistei ele ontem — o loiro respondeu com convicção.
Pólen e Breno se entreolharam preocupados. Írios preferiu não se meter porque já era um puxadinho naquela história, então não reagiu, mesmo que estivesse muito compadecido com a situação de Chiano. Por ele, o garoto seguiria viagem junto.
A garota fez um sinal com a cabeça para que Breno a acompanhasse até o meio da mata para que conversassem privadamente.
— Tá na hora do julgamento — Chiano disse para Írios enquanto viam os dois se afastando.
O estrangeito ainda estava tentando entender o que achava do garoto. Ok, sua história era triste. Perdeu a namorada, tava sendo acusado e perseguido por isso. Mas ele mudava de humor muito fácil, como se a tristeza por esses fatos nunca se sobrepusesse totalmente ao seu espírito zombeteiro e piadista. Naquele momento, inclusive, Chiano falou com Írios de um jeito debochado, rindo da própria desgraça:
— Nunca imaginei que eu ia pedir ajuda pra duas das pessoas que mais me odeiam. Ansioso pra deliberação secreta deles.
— Eles costumam fazer isso mesmo — Írios respondeu, aproveitando o espaço para desabafar um pouco. Ele era grato por terem aceitado ele como entrosa, mas se sentia triste, deixado de lado, quando os outros dois faziam ou diziam coisas que deixavam claro que a voz dele não tinha peso, que seu valor não era o mesmo que de outras pessoas que poderiam estar ali. Ou quando tomavam as decisões única e exclusivamente entre eles.
— Eu sou Chiano — o menino loiro esticou o corpo até Írios para fazer sua mão alcançar a do novato, que aceitou o aperto de mão de bom grado.
— Meu nome é Írios.
— Nome bonito — respondeu voltando ao gramado e cruzando as pernas novamente. — Não parece vindo do Outro Lado.
Írios ficou encucado. Era tão óbvio assim que ele não cresceu naquele mundo? Por outro lado, Chiano podia ter tirado a conclusão por causa de seu nome.
— Minha família é de feiticeiros — respondeu para justificar o nome.
— Espero que esteja se divertindo em Àttinos — Chiano abriu os braços e apontou para os arredores, num tom irônico sobre a estadia do outro. — Quando tudo isso acabar eu vou te apresentar umas gatinhas atinenses pra você.
— Valeu… — Írios ficou sem jeito. No primeiro momento preferiu apenas aceitar e agradecer para não expandir aquela conversa. Mas as palavras seguintes subiram pela sua garganta quase como se estivessem sob o efeito do pó de lero que Pólen havia usado contra ele dias antes: — Mas eu sou gay.
— Ok — Chiano respondeu sem surpresa. — Conheço uns gatinhos também.
Írios sabia que os feiticeiros eram bem menos conservadores que os humanos do Outro Lado. Mas, mesmo assim, talvez pelo seu costume, ficou surpreso por ter uma resposta apenas normal. Surpreso também por ele mesmo ter verbalizado aquilo com uma afirmação tão natural, mas ainda assim imponente.
— Será que a assembleia já terminou? Quero a deliberação logo — Chiano resmungou e jogou o corpo para trás até deitar de volta no gramado.
Írios teve um pequeno estalo que o preocupou. Ele tinha sido aceito naquela viagem apenas com a desculpa de retornar para levar notícias para Chiano. Se Chiano seguisse viagem com eles, Írios seria dispensado? Chegou a ter tremedeira nos joelhos pensando na possibilidade de perder a viagem pela metade e ainda por fazer todo aquele caminho ao contrário, sozinho.
No outro canto, Pólen e Breno ainda discutiam:
— A gente pode se ajudar. Ele é liso, mas é um bom feiticeiro — ela argumentou.
— Liso nada, Chiano é um traiçoeiro, isso sim. E outra: ele e Eichler se odiavam, não dá pra esquecer isso. Não acho justo ele fazer parte disso.
— Olha, sinceramente, eu acho que o Eichler pilhava essa disputa só pela brincadeira. Nunca vi ele falando um A do Chiano.
— Não acho justo ele ir com a gente. Já têm o Írios, que também não devia tá aqui.
— Para de ser cabeça dura, ayê! Eu to falando: quanto antes a gente descobrir que o Eichler não teve nada a ver com a Amélie, melhor. A gente segue nosso plano normal e pronto, nos despedimos de Eichler.
Breno apenas resmungou, entendendo que a lógica de Pólen fazia sentido, mas ainda receoso a dar o braço a torcer. Não gostava do fato de que o plano original, a jornada até a despedida de Eichler, fosse atravessada por outros assuntos, outros motivos, outras pessoas. Era para ele e Pólen, inclusive com Valen e Julian, estarem viajando para se divertir como sempre faziam. Sentia que a viagem estava sendo esvaziada de significado, por mais que ele também ansiasse muito para descobrir o que os passos do mapa significavam.
— E ainda têm a ilha — Pólen usou seu último argumento, um ultimato. — Precisamos ser quatro pra conseguir entrar lá.
— Mas precisa ser eles? — Breno ainda relutava.
— E a gente vai achar outras duas pessoas dando sopa pra além da periferia pra ajudar a gente? — a garota já perdia a paciência com a cabeça dura do amigo. — O pessoal das Copas eu duvido e muito que aceitem.
— Mas eu não quero que eles atrapalhem nosso rolê — o garoto cruzou os braços e Pólen o enxergou como um bebê birrento naquele momento.
— A gente pede um tempo quando for a hora de jogar as cinzas — ela explicou, tentando ser didática pra não perder ainda mais o pavio -, um espaço, sei lá. Eles vão entender, não são sem noção… Ayê, Breno, que mania de achar que todo mundo é ruim e atrapalha.
— Não é isso — tentou se defender, mas desistiu. Já estava contrariado o suficiente, não ia adiantar continuar discutindo. Além de que Pólen tinha bons pontos e ele sabia disso. Na verdade, não sabia por que estava relutando tanto. Será que ele seria mesmo esse chato todo que a garota apontou? — Mas eles podem vir, então.
— Finalmente um momento de lucidez nessa cabeça mole! — comemorou. Estava ansiosa para que partissem logo. Ela tomou a frente e voltou para a clareira, fazendo um sinal positivo para Chiano.
— Valeu, Polentinha— Chiano agradeceu, mas sem deixar de provocar.
Pólen ia mandá-lo à merda, mas um som estrondoso e muito alto interrompeu sua fala na metade e deixou os quatro em alerta. Depois, um novo som veio, igual ao anterior. Depois mais outro. Já no segundo, Pólen e Breno se entreolharam animados e muito empolgados. Pólen até deu pulinhos de alegria e chacoalhou os braços freneticamente.
— Pista perdida dos skatistas! — Pólen e Breno gritaram em uníssono para comemorar.
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