Por Onde Andou Eichler?
13 A pista perdida dos skatistas
Írios seguiu Pólen e Breno, que foram disparados na frente e embrenhando-se na mata enquanto seguiam na direção de onde vinham os sons dos badalos. Eles pareciam empolgados e o estrangeiro não entendia muito bem aquela animação toda. Chiano também os seguia no fundo, com passos tímidos e ainda um pouco bambos.
A enorme pista de skate não surgiu muito longe dali. Em outra clareira próxima, um piso concretado de uns trinta metros por oitenta se estendia acima do gramado para suportar pistas de skates, rampas, grades, corrimões, escadas, duas piscinas vazias e, no canto, umas mesas de madeira com guarda-chuva, numa espécie de área para descanso. Só faltava uma barraquinha de sucos e sorvetes pra deixar completo.
— Mas que merda é essa? — a empolgação dos dois que saíram na frente foi imediatamente substituída por um susto ao chegarem no local e verem que, por todo lado da pista, centenas de skates andavam sozinhos pelas rampas freneticamente. Outros eram arremessados no ar em direções aleatórias, chocando-se uns contra os outros e atropelando-se violentamente. Pareciam uma nuvem de mosquitos numa desordem ordenada.
— Não acredito numa droga dessas — Chiano riu, quase maravilhado, quando abriu caminho entre os arbustos e chegou ao lado de Pólen. Ele parecia achar legal.
— O que foi? — Írios pediu um pouco confuso — Isso não é normal?
Perguntou porque o conceito de normal era muito abrangente naquele Lado. Ué, era uma pista de skate que aparecia em lugares aleatórios da cidade todo santo dia, por que ela não poderia ter vários skates curtindo um rolê sozinho? Mesmo que violentamente?
— Claro que não — Pólen resmungou, frustrada e um pouco irritada com a pergunta do estrangeiro. — Claro que essa merda não é normal.
— Não sei quem fez isso — Chiano comemorou consigo mesmo, já considerando ser uma grande pegadinha feita talvez pelas últimas pessoas que encontraram a pista por aí. — Mas é um gênio!
— Talvez seja só uma ilusão — Breno resistiu à ideia, mas com sede de entrar na pista para poder aproveitar. Deu alguns passos para frente e entrou nos limites concretados do lugar.
Em poucos segundos, um skate de shape azulado saiu de uma das piscinas e avançou sobre Breno enquanto rodopiava no ar. O garoto até tentou desviar para evitar o choque, mas a beirada da madeira deu com tudo na sua canela. Depois, o skate voltou pra outra rampa na maior tranquilidade. — Desgraçado!
Uma dor aguda se espalhou pela sua canela. Levantou sua perna para segurá-la na frente do corpo e ficou saltitando em um pé só. Chiano gargalhava, achando muita graça. Já Pólen se segurou para não rir do amigo, mas disse em tom de graça:
— Acho que não é ilusão, não. Me pareceu bem real.
— Era uma runa embaixo do skate? — Írios perguntou, sem dar muita atenção do golpe que Breno levou, e nem na graça que os demais achavam daquilo. Enquanto o skate se aproximava do garoto, viu, debaixo do shape, inscrições cor de sangue e ficou intrigado com aquilo.
— Que runa? — Chiano se recuperou das risadas. Breno olhou feio para ele e parecia já estar livre da dor. O garoto loiro estava muito interessado em entender a dinâmica daquela magia toda da pista.
— Não sei — Írios respondeu com vergonha. Mais uma vez a sua falta de conhecimento mágico e de experiência estava o colocando em situações vexatórias.
Mas Chiano não pareceu se importar com isso. Apenas retirou de dentro da jaqueta um pequeno bloco de notas de papiro e uma caneta esferográfica vermelha — provavelmente com sangue no lugar da tinta. Entregou para Írios e pediu que ele desenhasse o que lembrava. Todos se juntaram ao seu redor para olhar bem seu esboço.
— Ok, meio óbvio, mas bom saber — Chiano comentou quando viu o esboço de Írios sobre o papiro. — É uma runa de réplica. Cê num tava errado em tudo não, Breninho: os skates são uma ilusão. Mas eles devem partir de um só original, por isso você sentiu o contato dele.
— Se fosse uma ilusão por ilusão — Írios decidiu tirar a dúvida — e sem uma peça original, os skates seriam intangíveis?
— Exatamente — Chiano concluiu e sorriu para Írios.
Pólen virou o corpo de volta pra pista e comentou, determinada:
— Então vamos achar esse original e dar um pau nele.
— Se a gente se enfiar aí, quem vai tomar um pau é a gente mesmo — Breno resmungou.
— Posso fazer um escudo — a garota continuou pensando num plano. Parecia realmente disposta a se livrar daqueles skates para que ela pudesse finalmente aproveitar a pista.
— Um escudo de vidro? Se os skates avançarem nele, vai espatifar rapidinho — Breno agachou na grama para poder ver a vermelhidão que o golpe lhe causou. — Ninguém aqui deve saber fazer outro tipo de escudo.
— Deve ter mais coisa na pista, não sei… Deve ser uma maracutaia completa — Chiano refletiu em voz alta e também se aproximou do concreto. — A réplica tá como runa no shape dos skates. Mas e o resto?
— Bora dar uma volta ao redor da pista e ver se achamos algo — Pólen sugeriu e todos obedeceram. Até Írios, mesmo que não soubesse exatamente o que estava procurando.
— Aqui! — Breno gritou do lado norte da pista, perto de uma das piscinas. Apontou para o centro dela. Havia cinzas amontoadas e parecia um resto de uma velha fogueira. Esperou todos se juntarem a ele para continuar: — Era uma muvuca. São tocos de madeira?
— Parece mesmo — o loiro agregou ao raciocínio. — Bem, pode ser madeira de cajueiro. Se fosse pra gerar esse caos todo desses skates, é isso que eu faria. Colocaria um limite ao redor da pista, acenderia com fogo a muvuca porque né, fogo gera caos também, e deixaria a pista defumar. Por isso os skates tão doidões.
— E têm como desfazer isso? — Pólen pediu, ansiosa.
— A fogueira não, já era, tá queimada e os skates provavelmente foram defumados. Mas a gente pode tentar achar o selo ou a runa que tá criando esse limite de ar. Tão vendo que a visão fica mais opaca dentro da pista? Acho que é a fumaça. Podemos fazer ela sair da pista e deixar os skates darem uma respirada. É isso que podemos tentar. Vai ser impossível achar o skate original sem entrar na pista. Tava olhando eles e são cópias muito bem feitas. Quem fez isso era realmente um gênio do mal.
— Se não tivesse aqui, juraria que seria você — Pólen provocou Chiano, mas o garoto meio que levou no elogio.
Os quatro retornaram a rodear a pista em busca do tal selo. Írios tinha pouca esperança, pois imaginou que ele pudesse estar muito bem escondido dentro da pista.
Desta vez, demoraram mais tempo. Os sóis já ganhavam mais altura no céu, afastando sua aura lilás para dar lugar a um índigo. Enquanto passava por uma das pontas da pista, um som baixo chamou sua atenção, vindo da mata. Olhou naquela direção e encontrou um pequeno grupo de coelhos de pêlos cianos brincando entre eles. Foi irresistível não ficar admirando-os por um tempo, principalmente porque saltitam contentes e serelepes. Saltitavam no ar, sem precisar o apoio do chão, como se conseguissem ver e pisar em plataformas que só eles conseguiam enxergar.
Írios só se lembrou do que estava fazendo antes de ser distraído porque Breno gritou por eles novamente e apontou para a parte dos bancos de descanso da pista.
— Ali, óh. Embaixo da mesa.
— Boa, Breninho — Chiano comemorou e todos agacharam para poder enxergar. Eram diversas folhas de papiro coladas na madeira da parte inferior do tampo de uma das mesas. Pólen já sacou sua varinha e começou a calcular o trajeto, mas depois bufou ao perceber que não conseguiria acertar nenhum feitiço até lá para dispersar as runas, principalmente por causa do ângulo desajeitado. Nem mesmo puxar a mesa para sua direção, já que os pés eram concretados no chão.
— Alguém vai ter que ir até lá apagar as runas — a garota comentou bufando de frustração.
— Eu vou — Breno decidiu. Queria uma revanche contra o skate que deu a lapada na sua perna.
— E eu vou tentar distrair os skates — Chiano comentou já se afastando e indo para a outra ponta da pista. — Quando quiser, Breninho!
Breno revirou os olhos com o apelido e deu o sinal com o braço. Avançou sobre o concreto em direção da mesa, que ficava a pouco mais de dez passos da borda. Enquanto isso, Chiano também entrou na pista e os skates já se agitaram ainda mais.
Eles pareciam se organizar em uma horda, quase como uma consciência coletiva, e rumaram na direção do loiro porque ele agitava os braços e gritava provocações contra eles. Segundos antes de ser atingido por vários skates, Chiano pulou para fora do concreto e rolou sobre o gramado. Os objetos evitaram a borda e voltaram para a pista.
A distração deu certo num primeiro momento e Breno conseguiu dar alguns passos sem ser visto. Ele já estava próximo do destino, mas outros skates o notaram e já começaram a se organizar para atacá-lo. Após um giro rápido de varinha, Pólen respirou fundo e encheu os pulmões com o máximo de ar que podia. Depois, prendeu a respiração com força e fez uma redoma de vidro cobrir toda a extensão da mesa onde Breno tinha acabado de se esgueirar por baixo.
— Aqui, seus trolhos! — Chiano gritou do outro lado, retornando à pista e chamando a atenção dos skates para ele ao invés de Breno, mas apenas metade da horda se voltou contra ele.
Pelo menos serviu para diminuir a quantidade de skates que tentavam violentamente romper o escudo de Pólen com golpes violentos e desesperados. A superfície do escudo começou a ficar rasurada e rachaduras serpentearam por todos os cantos.
Pólen já estava ficando com a cara roxa de tanto segurar o ar para manter o escudo em pé e proteger Breno, que tentava arrancar os papiros com raiva debaixo da mesa, mas aquilo parecia não estar fazendo efeito. Írios sabia que escudos de vidro eram projeções do ar dos pulmões, que eram usados para invocar o material protetor. Invocar um distante do próprio corpo era ainda mais difícil. Soltar o ar ou voltar a respirar faria com que o escudo sumisse. E todo golpe recebido em sua superfície era refletido diretamente no peito do evocador, tornando ainda mais difícil mantê-lo projetado. Se o vidro todo se rompesse, Pólen teria sérios problemas no pulmão.
Já Chiano precisou pular para fora da pista mais uma vez, fazendo com que ainda mais skates se voltassem para Breno. Foi então que Írios tomou posição na outra lateral da pista e fez o mesmo que o rapaz loiro, abanando os braços no alto e gritando para chamá-los. Agora eles se dividiram em três hordas.
Foi quando um cheiro de fumaça invadiu todo o redor da clareira, em sinal de que a proteção da pista tinha cessado e o efeito das runas decaiu. Os skates perderam velocidade, altura e o caos que tinham, ficando mais lentos e com aspecto de embriagados. Breno finalmente tinha destruído papiros o suficiente para romper o feitiço. Ele relaxou o corpo sobre o concreto e Pólen também desfez o escudo.
A garota tropeçou para trás com uma bufada quente e desesperada que subiu pelo peito. Depois, engasgou com uma tosse seca e alta como se ela tivesse fumado dezenas de cigarros de uma só vez. Um pouco de sangue respingou em seus lábios e na narina. Írios correu até ela para prestar ajuda, mas ela disse que estava tudo bem, que iria melhorar rápido porque tinha um chiclete que ajudaria naquilo.
Do outro lado, Chiano gritava e comemorava, num êxtase pela contra-maracutaia que o grupo havia feito na pista. Os skates já estavam todos no chão, imóveis, então o garoto loiro correu para a pista e começou a chutá-los. A maioria que acertava simplesmente sumia no ar, até que ele chutou um que fez um som mais estridente.
— É esse — bradou para si mesmo e pisou com força na madeira do skate, fazendo-o se partir ao meio e romper a runa original abaixo dele. Imediatamente, todas as réplicas dos skates sobre a pista desapareceram no ar.
— E aí, alguém tá afim de andar de skate? — Chiano gritou para os demais do outro lado da pista, feliz. Agitou um chaveiro de alumínio em forma de skate que estava preso em sua mochila e fez com que uma réplica real dele surgisse ao seu lado. Breno e Pólen fizeram o mesmo.
—
Pólen perdeu Breno de vista por um tempo, mas continuou entretida com suas manobras na pista. Depois de uns minutos, viu pelo canto de olho o garoto na beirada do espaço de concreto, no limite com a mata, sentado no topo de uma rampa, sozinho e cabisbaixo.
— Quer trocar uma ideia? — ela se ofereceu subindo até o topo da rampa pela parte de baixo da bacia. Pegou impulso para correr na parte mais vertical e agarrou a beirada para alavancar o corpo e sentar-se ao seu lado — Cê tá com a maior cara de bunda.
Ela olhou para o outro lado da pista e encontrou Írios e Chiano sentados em uma das mesas de madeira. Chiano fazia Írios dar gargalhadas e Pólen gostou de ver aquilo.
— Eu tô… sei lá — o garoto demorou para responder. Respirou pesado e lento enquanto escolhia as palavras com dificuldade. Continuava sem encarar Pólen, com o olhar baixo e focado nas próprias mãos, que entrelaçavam os dedos.
— Nitidamente tá borocoxô — Pólen complementou sobre o garoto.
— É. — Fez mais uma pausa e bufou. — É que eu achei que a viagem ia tá, sei lá, servindo pra algo, talvez? Como se pudesse me curar, me deixar um pouquinho menos triste sobre o Eichler.
Pólen pensou bem antes de dar uma resposta. Mesmo que em outra medida, a garota sentia basicamente o mesmo que ele sobre esse assunto. Talvez o que ela fosse falar para o amigo naquele momento também servisse para acalentar ela mesma:
— Eu sei, sei bem. É uma dor muito ruim, a gente se apega a qualquer esperança mesmo. Às vezes queria tomar um chá e esquecer tudo, esquecer o Eichler… Pra não sentir falta dele mais, sabe? Tô me agarrando em qualquer coisa pra ver se me sinto melhor.
— Ou voltar no tempo pra dar só mais um abraço — o garoto complementou.
— É. Mas, no geral, a gente tá tentando. É bom mudar de cenário, espairecer. A gente tá tentando, é isso que importa. É melhor do que ficar travadão, sem se mexer, sem… tentar.
— É — ele concordou, mas, no fundo, pouco afetou o sentimento ruim que ele nutria naquele momento.
— Me fala como tá se sentindo — notando que a angústia ainda pairava sobre ele, Pólen decidiu usar uma clássica pergunta de sua avó. Normalmente funcionava para aquele tipo de situação.
— Eu tô… me sentindo traído, passado para trás — foi apenas quando verbalizou esse sentimento que Breno conseguiu organizar, entender e dar nome para a ranço que poluía seu peito desde o momento em que encontrou o mapa na parede.
— Traído pelo Eichler? — Pólen tentou investigar melhor.
— É.
— Por ele ter partido?
— Não. — Respirou fundo. Ainda precisava organizar mais do que sentia, então foi soltando aos poucos: — Por ele ter passado os últimos dias dele longe. Por estar fazendo algo sem a gente, planejando algo, escondendo algo… Algo que eu não sei o que é, algo que ele simplesmente não quis compartilhar comigo. Eu pensei que soubesse tudo sobre ele.
Pólen fez mais uma pausa antes de responder:
— Minha avó diz que cada pessoa é diferente pra outra, diferente até mesmo de quem ela é para si mesma. É normal você se sentir assim, eu te entendo, mas talvez não seja justo com a memória do Eichler, muito menos pra você, que tá se sentindo assim. Ele tinha direito de ser e fazer coisas sem você, sem eu, sem Julian, sem Valen, sem o irmão dele…
— Mas ele me privou disso até o último momento, entende? Eu… acho que tenho raiva dele por causa disso — suas palavras brotaram amargas de seus lábios grossos.
Pólen continuou reflexiva. Não sabia se tinha algo a mais para acrescentar. Entendia que a maioria dos sentimentos, bons e ruins, poderiam ser lidados apenas sendo sentindos. E Breno deveria seguir assim, sentindo e entendendo como se sentia. Não tinha muito truque mágico pra isso.
— As coisas mudam muito quando alguém se vai — ela pensou em voz alta, ligando a morte de Eichler ao seu preparo para perder a avó. — E acho que o luto não é só superar e pronto. É uma jornada, cada uma com a sua.
— Parece que a pessoa morre, se vai, e a gente precisa se despedir dela de novo depois, de outro jeito. Deixar o que ela era pra gente partir também — Breno fisgou o raciocínio que ela tava construindo e acrescentou.
— É. A gente precisa matar o Eichler de novo, mas dentro da gente dessa vez. Eu já refleti muito sobre isso. Acho que estou ficando mais de boa assim.
— Qual Eichler você tá matando dentro de você?
— Não sei exatamente qual, talvez tenha vários. Mas nos últimos dias acho que o que o Eichler significou pra mim por muito tempo foi um jeito de ficar longe da minha família, das minhas responsabilidades. Enquanto a gente curte e se diverte e enquanto eu posso fazer isso ainda.
— Não sei se entendi — Breno resmungou, frustrado.
— Não sei se precisa entender. Só preciso ficar colocando na minha cabeça que é o que a gente tá fazendo agora. Mesmo longe, o Eichler ainda fez a gente tirar a bunda de Àttinos, acampar, dar risada, andar de bike, andar de skate, se divertir, chegar até a praia, ir pra ilha... Consegui entender que ele representava isso sim, mas não só ele. Têm você. O Julian e a Valen também, apesar dos pesares. Mas há muitas outras pessoas que ainda posso conhecer e aproveitar.
Pólen olhava para Írios e Chiano enquanto falava:
— Tou lutando comigo mesma pra não ficar amarga e nem revoltada, ou até apegada, ao fato de Julian e Valen terem deixado a gente de lado um pouco pra processar o luto deles. Claro, esse sentimento tá aqui ainda, mas miúdo. Não é isso que o Eichler ia querer, eu sabia. Então só fui em frente. Tenho que matar o Eichler que mantinha a Malta unida enquanto eu fugia dos meus problemas. Tenho que fazer isso por mim agora. Não exatamente manter a Malta unida, mas buscar alguns rolês e pessoas que me preenchem bem igual. Vou lembrar pra sempre do Eichler como essa cola que juntava a gente, mas daqui pra frente vou me colar com os meus.
Breno sentiu um pouco de inveja de Pólen. Ela parecia estar melhor resolvida com o Eichler. Dava para perceber em sua voz, na sua postura, uma maior tranquilidade que ela tirava não sabia da onde. E Breno queria se sentir assim também. Precisava descobrir qual dos Eichlers ele precisava matar para finalmente ficar melhor.
Chiano estava entretendo Írios com histórias nojentas — porém engraçadas — sobre maracutaias que deram errado. Como uma vez em que Chiano desconfiou de que a catota do nariz de uma espécie de cavalo-escorpião pudesse ser usada para criar um amuleto ou emplastro que poderiam deixar seus tênis mais rápidos e, em consequência, sua corrida mais veloz.
Era porque ele via que aqueles cavalos — que o vizinho do rancho do seu tio criava — ficavam gripados com frequência e o ranho que eles espirravam sobre as saúvas que viviam por perto do curral as deixava muito agitada e frenéticas, então julgou que o catarro equino tivesse algo a ver com dar mais velocidade.
Chiano cantou para Írios que o segredo de um feiticeiro sagaz era ficar atento aos animais e monstros mágicos porque a magia deles era difícil de decair e sempre tinham efeitos fortes que podiam ser usados em ótimas maracutaias.
Bem, só que ele descobriu mais tarde que o efeito que o ranho dava tava mais para entorpecente e as formigas estavam chapadas, e não velozes. O garoto e um colega de sala tinham testado vários emplastros e eles ficaram tão embriagados quando testaram em si mesmos que eles sumiram na floresta do rancho do tio por dois dias. Foram encontrados pelados e totalmente fora de si na beira de um velho açude. Írios achou essa parte meio assustadora, mas Chiano contava com boas risadas.
Era bom conversar com uma pessoa nova, mas Írios ainda sentia aquela aproximação profunda como um píres, já que o garoto loiro não perguntou absolutamente nada sobre Írios, sua vida e se esquivou sem vergonha alguma de quando Írios tentava saber sobre ele. Queria apenas piadas e risadas.
Chiano limpou as lágrimas que brotaram de seus olhos acinzentados depois de tanto rir e saiu para tirar água do joelho. Não gostava de fazer suas necessidades perto dos outros, então se afastou por dentro da mata. Quando terminou, um som metálico e distante chamou sua atenção.
Bastou alguns passos para encontrar a borda da mata e se deparar com um vasto campo coberto de grama e flores rosadas. Era uma paisagem linda, com pétalas a perder de vista. Somente lá no fundo, quase no horizonte, era que o mar rosa que as flores criavam era interrompido por uma serra repleta de neblina e nuvens baixas.
Mas havia uma vida abstrata e negra pintando o centro do campo de rosas, em contraste completo com a paisagem. Chiano forçou a vista para tentar reconhecer o que era aquilo.
De tamanho, entendeu que era grande, mesmo a perspectiva lhe pregando a peça para fazer parecer pequena.
No movimento era penetrante e inusitada, com espasmos, numa dança que migrava da agitação para a delicadeza, intercalando entre uma e outra.
Na cor era ausência. Nenhuma luz lhe escapava, seja dos sóis no centro do céu, seja no reflexo claro de cada pétala abaixo dela.
Na forma era tudo e nada. Mudava a cada vez que Chiano piscava, respirava, pensava. Conforme se movia, sua forma ganhava novos contornos. O mais nítido de identificar eram os espinhos — dezenas de braços que saíam espessos de seu centro e afinavam como agulhas nas extremidades. Eram vários os braços, mas todos diferentes uns dos outros. No todo, ora era larga, ora fina; ora vertical, ora horizontal.
Chiano identificou movimentos circulares. A coisa não saía do lugar, apesar de estar frenética. Tentava ir e depois voltava. Subia e logo ganhava peso novamente. Parecia estar amargurada, com dor. Por isso dos movimentos inconstantes e a incerteza de onde ia e do que seria.
Depois de observá-la com tanta surpresa e afinco, Chiano não sabia se sentia medo ou admiração. As únicas formas que conseguia usar para defini-la eram o aqueles logotipos de bandas de death metal, mas tridimensionais.
— Chiano — uma voz delicada e distante soou vinda de algum lugar. Mas quase de imediato o garoto identificou que aquele sussurro aconteceu dentro de sua própria cabeça. De alguma forma, relacionava-se com a criatura, como se fosse ela quem tivesse mandado o cérebro do garoto falar para ele mesmo. E a parte mais curiosa era que a voz tinha personalidade:
— Amélie? — o garoto perguntou de volta.
Fale com o autor