Por Onde Andou Eichler?
14 A Sociedade das Copas
15 de Agosto de 2012
Querido Bernardo,
[...]
Inclusive, na noite anterior a essa eu pude ouvir de dentro da barraca Pólen e Breno conversando do lado de fora, ao redor da fogueira. Devem ter pensado que a gente já dormia porque o Chiano tava roncando alto do meu lado.
Eles falaram sobre o lobo que enfrentei. Breno cismou que aquele tipo de problema não aconteceria se eu não tivesse por lá. E também deu mais detalhes do dia em que a gente ficou preso na floresta de araucárias gigantes. Que eu atrapalhei e causei aquele transtorno todo. Pólen chegou a comentar que eu já tava gastando demais os curativos que ela levava na mala.
No dia seguinte eu acordei com o peito apertado, me sentindo… pequeno.
Levantei antes que todo mundo. Cuidei pra não fazer nenhum barulho e nem acordar ninguém. Preparei meu café e já deixei a fogueira toda limpa e livre pro próximo que acordasse poder fazer o mesmo. Assim que o Chiano levantou, já arrumei nossa barraca e deixei minha mochila pronta pra continuar a jornada. Por incrível que pareça, ele acordou quieto e na dele, mas não questionei. Queria ficar de boas também.
Durante a trilha eu não emiti um pio sequer, deixei os três conversarem e decidirem sobre qual caminho faríamos, qual horário era o melhor, quem ia na frente… Numa hora, pisei numa planta espinhosa que cortou meu pé através da sola do tênis, mas lidei com aquilo sozinho. Pólen até poderia ter algum remédio pra ajudar, mas eu tava preocupado em gastar mais itens do kit de emergência dela com mais uma trapalhada minha. Caminhei com o pé ardendo até onde consegui e só depois de muito tempo percebi que ele sangrava muito.
Achei que me colocar no meu lugar era melhor pra mim. Me sinto mais confortável assim. Se pudesse, eu me encolhia até o tamanho de uma pulga e me esconderia numa caixa de fósforos até minha curta vida acabar.
Não queria tomar as decisões e lidar com as possíveis consequências delas depois. Não queria dar uma opinião só pra ver ela sendo julgada por ser diferente ou errada. Não queria me posicionar porque simplesmente não queria representar nada. Não queria dizer algo que mudasse o dia de ninguém. Não queria afetar nada ao meu redor, nem pra bom, nem pra ruim. Queria ser pequeno.
Durante o trajeto, não ri de nenhuma piada de Chiano para não demonstrar nenhum sentimento que afetasse o humor do grupo, nem reagi às provocações do Breno, nem aceitei da boa vontade de Pólen.
Se não podia ser útil, eu que tomasse cuidado para acabar não sendo o contrário.
Eu sei que eu me meti nessa viagem tentando me permitir algo que me privei e fui privado há muito tempo, que sonhei por muito. Finalmente podia ser um feiticeiro de verdade e me doeu muito saber que a minha liberdade tava oprimindo e limitando outras pessoas que eu mal conhecia e mal tinham apreço por mim — se é que tinham naquele momento.
Mesmo quando brinco de me imaginar sendo a pessoa mais ativa e extrovertida do mundo, me doía. Dar a cara a tapa, segurar a marimba das minhas responsabilidades, de ser eu mesmo.
Mas, sinceramente, eu estava começando a nutrir muita inveja muito grande do Eichler. Não sei se era pecado ou algo assim ter esse tipo de sentimento por quem já se foi. Mas, mesmo morto, ele despertava sentimentos e memórias tão boas na Pólen e no Breno. Viviam falando dele por aí e em qualquer oportunidade. De suas falas engraçadas e suas piadas clássicas. Sobre como era uma pessoa de humor ácido e ao mesmo tempo de papo acolhedor. Aventureiro, provocativo, dono de si. Como era um cara inspirador, amigo, parceiro, que todo mundo adorava.
Eu queria ser adorado por todo mundo também, mas sinto que tenho tão pouco pra oferecer. Deve ser foda ser esse tipo de pessoa. Ele tá morto e a gente tava lá, a vários quilômetros de casa, carregando suas cinzas para jogar no lugar favorito dele.
Deus tem seus favoritos, mesmo.
E ficou mais nítido pra mim o quão oposto eu sou do Eichler.
Muitas vezes — na maioria delas — quando tou rodeado de gente, me sinto tão diminuto, quase invisível. Não sei a hora de entrar no papo, colocar minha voz. Não faço piadas tão engraçadas quanto os outros. Não animo a galera a fazer algo legal, trocar de rolê. Se eu nem tivesse ali, não faria diferença. Não somo, nem subtraio. Se tou triste, ninguém percebe. Se não tou feliz, ninguém se esforça pra me tirar um sorriso.
E daí teve uma vez que você mesmo — sim, senhor Bernardo — me disse que se eu estou mal, tenho que falar; principalmente se quero ajuda, se quero colo. Mas eu percebia quando você estava mal, então por que não podem fazer o mesmo por mim?
Minha voz é tão fraca, meu rosto tão inexpressivo, tão encolhido, que ninguém nota? Minha presença é pouca ou minha importância que é? Por isso prefiro me aceitar assim do que ficar nessa pira de ser alguém que não sou, de fingir oferecer algo que não tenho pros outros. Igual eu fiz nesses meus primeiros dias em Àttinos.
E sabe o pior? Tinha vezes que eu falava, mas não era ouvido. Acho que a vida das pessoas eram mais importantes pra elas do que a minha, isso é óbvio e eu nem julgo. Mas eu só precisava de cinco minutinhos de atenção.
Desculpa trazer isso, mas, como já tivemos essa conversa uma vez, achei que fosse mais fácil usar ela de exemplo porque eu tava me sentindo exatamente assim naquele dia.
Perdão por esse lenga-lenga sobre meus sentimentos. Mas é que meio importante saber como eu me sentia e o que tava passando na minha cabeça pro resto do que aconteceu na viagem fazer mais sentido quando eu chegar lá…
Enfim, voltando pro dia:
Tinha amanhecido com uma chuva fina, mas insistente. A gente teve que voltar pra pegar as bikes e esconder em outro lugar mais próximo da rota que a gente ia usar pra voltar pra cidade. Um cheiro gostoso de terra molhada subia do chão, mas deixou nossos passos gosmentos e até atolados em algumas partes da trilha. E mesmo prestando atenção por onde eu pisava, acabei enfiando aquele espinho maldito na sola do pé.
Conforme a gente seguia pro próximo destino, a ardência no pé aumentou, mas me mantive quieto. Não podia atrasar a viagem. Percebi que uma febre bateu. O frio do meu corpo se intensificou a ponto do meu moletom, coberto por um corta-vento e outra capa de chuva, já não era mais o suficiente pra me aquecer.
Só queria que uma cabana bem confortável, com uma lareira quentinha e um fogão pra fazer um chá aparecesse do nada no meio do caminho. A gente podia descansar um pouco, dormir em algo mais fofo que um colchão de barraca pelo menos uns minutinhos. Fiquei imaginando o interior da cabana sem perceber que já estava delirando e totalmente. Fiquei tão absorto nos meus desejos que, PLAFT, caí duro e de cara na lama.
[...]
—
Írios sentiu o toque delicado sobre sua barriga e por alguns segundos imaginou estar na casa dos pais, no Outro Lado, despertando em mais um dia comum para ir para a escola.
A mãe de Írios costumava acordá-lo todos os dias bem cedo para que ele fosse estudar. Desde criança o garoto tinha dificuldade de levantar e, normalmente, acordava agitado e desnorteado.
Quando ele mudou o turno do colégio para as manhãs, a mãe decidiu que iria até o quarto do filho todos os dias. Em silêncio e com calma, sentava-se ao lado dele na cama. Colocava a palma da mão sobre seu peito num toque delicado que não causasse um susto. Depois, começava a cantarolar baixo enquanto fazia carinho pela barriga de Írios até que ele despertasse.
Ele então respirou fundo e um aroma de orvalho invadiu seu nariz, seguido de uma brisa úmida e fria que o fez notar estar sem a parte de cima da roupa. Abriu os olhos com dificuldade e percebeu que de fato não estava em casa, mas sim em um lugar cor de madeira escura.
Ainda sentia o toque em sua barriga, então forçou abrir melhor os olhos e encontrou Breno em pé ao seu lado e com o braço estirado sobre seu corpo. Ele olhava fixamente para a barriga de Írios, onde pincelava timidamente com as pontas dos dedos uma cicatriz longa sobre pele morena. A cicatriz tinha dez centímetros, ficava na altura da parte inferior do fígado e seu aspecto era de pele retorcida, num tom rosado e mais claro que o restante de Írios.
As bordas da cicatriz se expandiam por toda a sua barriga em estrias que pareciam ser de queimaduras. Eram quatro fios que se alongavam pela pele: um até a virilha, um para o peito, outro para as costas e a última até acima do umbigo.
Breno se perguntava o que poderia ter acontecido com o corpo do garoto e não conseguia imaginar nenhum ferimento específico que pudesse gerar aquelas cicatrizes. Mas elas pareciam antigas, curadas há tempos, isso podia ver.
No toque invasivo e curioso que Breno não resistiu em fazer sobre o garoto adormecido, sentiu pesar e rancor. Era um machucado violento. O garoto estava tão compenetrado na ferida curada que demorou a perceber que o rapaz já tinha acordado. Quando aconteceu, recolheu a mão num supetão e afastou-se dois passos para trás. Tinha um rosto assustado e corado de vergonha.
Pensou em se desculpar, mas apenas engoliu em seco e ficou observando Írios despertar totalmente na esperança de que ele não tivesse notado seu toque curioso.
Como Írios não gostava de entrar no assunto da cicatriz, ficou quieto e espreguiçou-se. Depois tentou alçar o corpo para cima para ficar apoiado pelos cotovelos. Foi quando olhou para o próprio corpo e encontrou o pé enfaixado e toda a sua barriga preenchida por fios escuros e grossos. Levou um susto e logo se pôs a tentar afastar aquelas coisas esquisitas de si.
— Deixa elas aí — Breno avançou com cautela e segurou o pulso de Írios para impedir que ele mexesse nas sanguessugas que estavam grudadas na sua pele. — Tão tirando a toxina do seu corpo.
Írios ainda sentia um arrepio e asco pelas dez criaturas que se alimentavam do seu sangue, mas, na realidade, não sentia dor alguma. Não sentia nem mesmo as presenças úmidas e viscosas dos corpos delas sobre o seu. Mas aceitou porque sua memória estava aos poucos voltando e lembrando-o de que havia desmaiado e, pronto, acordou naquele lugar.
Falando no lugar, Írios olhou ao redor e achou o ambiente bem estranho, mas ainda sim familiar. Supôs estar dentro de uma espécie de pequena oca feita por folhagens longas e secas — e o fato se confirmou horas mais tarde, quando finalmente pôde sair de lá, totalmente recuperado.
— Se cuida aí — Breno resmungou para Írios, retornando ao seu carranco tradicional e saiu pela porta coberta por uma cortina de miçangas vermelhas. — Vou avisar a Pólen que acordou.
O lado externo parecia estar bem ensolarado e era a única fonte de luz do local, que acolhia apenas a cama em que Írios repousava. Logo a iluminação se ofuscou por um corpo de outra pessoa que se aproximava. Era Pólen. A garota ficou de pé ao lado do rapaz.
— E aí, Liquírios? Tá se sentindo melhor? — ela perguntou até que com certo bom humor. Írios estava esperando ser recebido com rancor por ter feito o grupo parar a viagem, atrapalhando mais uma vez e fazendo-os parar naquele lugar esquisito.
— Que lugar é esse? — o garoto perguntou com a voz rançosa.
— Você tá nas Copas — uma nova voz surgiu pela cortina. Quando entrou na oca, Írios pôde notar melhor seu rosto repleto de sardinhas claras. A garota era do mesmo tamanho de Pólen e tinha cabelos cor de fogo e encaracolados na altura dos ombros. Vestia diversos colares com conchas e contas. — Olha, foi um sufoco convencer o pessoal a deixar você ser cuidado aqui.
— Mas deu boa — Pólen interrompeu tentando, aparentemente, afastar aquele assunto — e já tá quase se curando pra gente zarpar.
— É, que bom que cê tá melhor — a garota ruiva comemorou com um sorriso singelo. — A Clarinha disse que só mais uns dez minutos de sanguessugas e cê já tá dispensado.
— Dez minutos pra você mudar de ideia e vir com a gente, Valen — Pólen virou-se de costas para Írios para conseguir encarar melhor os olhos verdes e grandes da segunda garota.
— Não tenho ideia nenhuma pra mudar — Valen respondeu de forma incisiva, mas sem perder a compostura. Ela desenhou um olhar direto para a tiracolo de Pólen que sustentava a miniatura da urna de Eichler. Depois, deu um passo para o lado para conseguir encarar Írios novamente e falou: — Espero que fique bem mesmo, Írios.
Valen ia se retirar, mas Pólen a segurou pelo braço. A garota ruiva reagiu com uma baforada cansada, mas decidiu ficar:
— Pólen, por favor, eu não vou sair das Copas e perder meu lugar na fila de novo.
— Não quero que perca seu lugar nessa fila dos covardes, Valen. Só tenho mais uma pergunta — Pólen cedeu e suplicou. — Acho que é melhor os seus amigos das Copas não ouvirem.
Valen revirou os olhos para a primeira parte da fala de Pólen, onde ela citou a tal fila, mas preferiu não discutir sobre aquele assunto para não se demorarem ainda mais nele. Na verdade, Írios sentiu que aquele era um tópico que elas provavelmente já tinham discutido diversas vezes entre elas e sem entrar em algum acordo ou consenso.
— Tá, manda — Valen preferiu ser produtiva e falar apenas sobre a tal pergunta de Pólen para acabarem logo com a conversa.
— Breno te mostrou o mapa, né? — a garota cor de caramelo sussurrou para ela.
Írios ficou envergonhado e sentiu que não deveria estar ouvindo a conversa entre as duas. Mas, afinal, elas que estavam batendo boca justamente ao lado da cama dele. Ele não podia sair dali, então apenas relaxou o corpo e ficou ouvindo enquanto fingia que não era com ele.
— Mostrou, sim — Valen confirmou, sisuda.
— E viu que um dos lugares marcados é aqui, justo nas Copas?
Írios não sabia sobre essa informação, já que não conhecia nada sobre a periferia e além dela. No final das contas, seu acidente não tinha atrapalhado tanto assim o grupo, já que estavam de fato em um dos locais que Eichler deixou anotado no mapa. Só não sabia se ele havia desmaiado perto ou longe dali.
— Vi. E o que têm? — a ruiva realmente não parecia muito disposta a falar sobre o assunto.
— Como assim o que têm? — Pólen respirou para não perder a paciência. Caso se exaltasse, perderia a atenção e a boa vontade de Valen em ouví-la. — Você tá aqui há meses. Não viu o Eichler passando por aqui?
Valen demorou para responder. Foi uma reação o suficiente para Pólen ficar arredia e atenta.
— Ele passou aqui, sim — ela confessou. — Uns dois dias depois que o Julian disse que ele passou lá na fazenda.
— Ayê! Eu sabia, sabia! — Depois da euforia, Pólen assumiu certa insatisfação: — E você não contou nada pra gente, caramba!
— Oxe, oxe! Já disse que não preciso contar tudo da minha vida pra você, Pólen. — Valen deu uma bisbilhotada por além da cortina da porta para verificar se ninguém estava por perto e depois voltou para Pólen: — Fale baixo, por favor. Você vai me cagar com o Miguel desse jeito.
— Tá, tá, tudo bem…
— Enfim, o Eichler só tava de passagem, ayê. Disse que mudou o caminho pra me ver.
— Só isso?
— Só. O Miguel deixou ele ficar o dia aqui. Almoçamos, conversamos um pouco e depois mostrei as Copas pra ele. Foi a última vez que vi ele.
— E mais nada?
— Mais nada. Depois ele arrumou as coisas e foi embora. Mas percebi que não foi de volta pra periferia. Foi no sentido que o mapa do Breno mostrou, mesmo.
— Entendi — Pólen ainda não entendia se estava satisfeita ou não com as informações.
— Ah, tinha mais uma coisa — Valen coçou a nuca.
— O que?
— Eu fiquei de longe vendo ele ir embora. No final da trilha, ele parou rapidinho pra desamarrar um cervo que tava preso pela coleira numa estaca. Ele arrastou o cervo junto com ele. Parecia até que tava levando ele pra passear. Na real, não era um cervo normal, era um tipo de cervo midalm.
Mais tarde, remoendo a conversa que ouviu, Írios questionou para Pólen o que seria um cervo midalm. A garota explicou que existiam alguns animais que possuíam uma espécie diferente de alma, provavelmente vindas de reencarnações. Alguns deles projetavam suas almas em seres externos e viravam, no final das contas, dois animais que viviam juntos e dependentes, mas eram um só.
Já outros poderiam ser dois animais ao mesmo tempo, oscilando sua forma entre eles. Mas ambos os casos eram raríssimos. Mais raras ainda eram as espécies de seres mágicos que eram compostas única e exclusivamente por midalms: eram espécies que possuíam apenas descendentes com almas divididas em dois animais vivendo em mutualismo, sem exceções.
— Com a aranha?
— É, com a aranha nas teias da galhada. Ela brilha forte, deu pra ver de longe.
— Uma aranha que brilha? Na galhada de um cervo? — Írios invadiu a conversa completamente chocado com as informações sobre aquele animal exótico.
— É, esse tipo de cervo vive com uma aranha nos chifres — Pólen virou-se rápido para ele para explicar e depois resmungou para Valen: — Isso não é normal, Valen. Nada é normal. O Eichler viajar sozinho, o mapa, cair da árvore…
— Isso quer dizer nada, Pólen, cê sabe que o Eichler é fascinado por animais. Era. — Valen parecia não ter muita paciência sobre qualquer confabulação sobre Eichler, principalmente vinda de Pólen. A cena da garota aos berros contestando a família de Eichler no velório ainda ecoava em sua memória incessantemente. — E amava viajar. Tava tudo certo ele fazer isso sozinho e sem a gente ou o Hugo. Acho legal vocês fazerem o negócio das cinzas, mas parem de buscar significado e motivo em tudo. Na maioria das vezes as pessoas só fazem o que querem, e pronto. Não precisam de um grande motivo.
— Se você dá as costas pra isso e pro Eichler, tudo bem. — Pólen retrucou, magoada. — Mas não precisa exigir que a gente faça igual.
— Não tou impedindo ninguém, tou?
— Não, mas tá dando as costas. Pro Eichler, pra gente, pra Àttinos.
— Não vou discutir isso de novo. Eu vou embora dessa cidade, e ponto. Só estou aqui esperando minha vez de atravessar a droga daquele portal. Se precisar de mim, cê sabe onde me encontrar, mas espero que não precise.
—
— Tá cem por cento, carinha? — Chiano perguntou à Írios, juntando-se ao seu lado e colocando o braço direito sobre o seu ombro na maior intimidade. O dia estava menos úmido e gelado como quando Írios desmaiou, então o garoto magricela e alto amarrou o corta-vento preto na cintura.
— Tou sim, tou sim — Írios respondeu. Realmente sentia-se melhor. Nem parecia que seu pé estava praticamente na carne viva horas antes, como descreveu Pólen.
— Da próxima vez que você se machucar e não falar nada — a garota reclamou enquanto tirava as faixas do ferimento de Írios minutos antes, ainda dentro da oca -, eu mesma te destroço. Se não fosse as Copas e os medicamentos deles aqui, ayê, sei lá o que seria de você. A gente ia ter que voltar pra Àttinos.
Írios pisava no chão de terra batida com cautela, ainda receoso em sentir alguma dor. Mas seu pé estava embalado apenas por um pequeno formigamento por causa dos vários emplastros que recebeu.
No Outro Lado, Írios estava acostumado a receber os cuidados médicos dos humanos. Eram eficientes para as suas necessidades — raramente seria acometido por algum mal mágico que exigisse um tratamento mágico nas cidades em que morou. E era curioso perceber como seu corpo reagia bem aos cuidados de curas feiticeiras. Pólen comentou que Írios era “limpo” porque quanto mais um feiticeiro recebia esse tipo de tratamento, mais a sua resistência decaía. Quanto mais acometido por doenças, mais difícil e dolorosa era a cura.
Chiano puxou Írios para o centro do que ele imaginou ser a tal das Copas: estavam numa espécie de floresta tropical, com muitas árvores diferentes entre si, mas todas altas e com galhos bem grandes e espaçosos. O charme eram as enormes ocas instaladas no pé de suas copas. Algumas eram feitas de folhagens secas e outras de barro, quase como ninhos de joão-de-barro gigantes. Escadas de madeira e cipós saíam do solo até as entradas das ocas, que também eram conectadas entre si pelo ar com pontes de corda e estacas de madeira que flutuavam. O cheiro do ambiente era de seiva doce e fresca.
— Cara, isso aqui é um absurdo! — Chiano bravou olhando ao redor. — Já tinha ouvido falar desse lugar, mas não imaginava que seria assim.
— Realmente é bem legal — o estrangeiro concordou, impressionado.
— Sinceramente achei que seria só um bando de vagabundo no meio vivendo feito selvagens.
Pessoas de todos os tipos e idades — mas a maioria jovens — com colares parecidos com os de Valen transitavam para todos os lados: entre as ocas ou as barracas improvisadas montadas no chão que serviam de cozinhas e salas de descanso coletivas. As cozinhas possuíam vários fogões a lenha feitos de barro e bancadas para o preparo dos alimentos.
Parecia ser uma sociedade bem organizada e com atividades bem definidas: um grande grupo corria de um lado para o outro nos preparos dos alimentos, já outros voltavam da parte mais densa da mata carregando palhas, madeira e caças; enquanto uma parte cuidava de uma espécie de horta e de um grande galinheiro alambrado no final da pequena clareira principal.
— Tá querendo que eles ouçam, seu sem noção? — Breno juntou-se aos outros dois garotos enquanto Chiano falava.
— Por que eles tão aqui? — Írios perguntou, curioso. Será que eram hippies e alternativos que estavam cansados da vida na sociedade moderna? Sem julgamentos, o garoto pensou, mas Àttinos já era uma cidade tão pacata e bucólica. Por que prefeririam viver radicalmente isolados no final da periferia?
— Porque um maldito portal aparece aqui na clareira, sem mais nem menos — Pólen também apareceu novamente e puxou o grupo para a sombra de uma árvore enquanto explicava. Parecia que ela não gostava de ficar muito perto dos tais moradores das Copas — e ele reaparece sem mais nem menos. Em cada vez que ele aparece, uma pessoa pode atravessar para ir embora do condado.
— É isso? — Chiano perguntou impressionado e depois ironizou: — Achei que estavam aqui só por uma grande suruba.
— E é só um de cada vez? — foi a vez do Breno perguntar. — Então deve demorar anos pra todo mundo ir embora.
— É, um de cada — a garota respondeu. — Por isso que eles têm a fila, uma ordem. Quem trabalha mais, vai ganhando prioridade.
— Brasileiro ama filas mesmo — Chiano comentou. Depois de rir da própria piada, sua feição engraçada imediatamente se desmontou para uma cara pensativa. Ele desacelerou o passo e deixou o grupo continuar caminhando sem ele. Depois, deu meia volta e começou a olhar atentamente aos arredores para encontrar Valen.
Encontrou a garota alguns minutos depois. Chiano pulou uma cerca de madeira e caminhou até ela. Valen estava ajudando na colheita de algumas espigas de milho. Ao ver o rapaz se aproximando, parou a atividade e não conseguiu disfarçar certa impaciência:
— O que você quer?
Chiano sabia que devia ir com calma da garota. Tinha total ciência de que ela não nutria uma grande simpatia por ele — e também não a julgava por isso. Isso porque sempre teve uma queda pela garota ruiva e não fazia muita questão de esconder. Assobiava quando ela passava pelo pátio da escola, ficava dando cantadas em momentos inconvenientes em alguns rolês e uma vez chegou a tentar beijá-la à força. Tudo isso antes dele se envolver com Amélie, claro. Mas, de fato, suas investidas eram ruins e já lhe renderam alguns tapas na cara.
— Oi. Tudo bem? — Ele tentou ser simpático.
— Desembucha — pediu retornando a torcer as espigas com força para tirá-las da planta.
— Ok. Desembucho — Valen era uma das poucas pessoas que deixavam Chiano desconcertado. Não exatamente pelo fato dele ter sido caidinho por ela tempos antes, mas porque todos os cortes que ela lhe deu foram bem cruéis e secos como mereciam. — Não sei se você ficou sabendo da Amélie e…
— Não sei de nada sobre ela — respondeu séria, cortando o rapaz sem tirar os olhos das espigas.
— Nem sobre o desaparecimento?
Valen deixou a espiga de milho que segurava escorrer pelos dedos e cair no chão. A alcançou sobre a terra vermelha e, ao voltar com o corpo para cima, decidiu encarar Chiado e dar-lhe a atenção, curiosa. Fez que não com a cabeça, em sinal para que ele explicasse melhor.
— Bem — ele coçou a nuca -, ela desapareceu sem mais nem menos uns dias atrás, lá nas floresta de araucárias. Eu e ela távamos… meio que namorando tem um tempo.
— Sinto muito — Valen prestou os sentimentos, mas ainda não entendia por que o garoto tinha lhe buscado para contar aquilo.
— É, valeu. E eu tô aqui com a Pólen e o Breno porque ela sumiu bem num dos lugares do mapa do Eichler. A gente não sabe o que isso quer dizer, mas enfim, talvez as duas coisas estejam meio que relacionadas. É a única pista que eu tenho e decidi investigar — Chiano explicou com as palavras meio emboladas, nitidamente desconcertado por causa de Valen e também pelo assunto delicado. — E como um dos passos do mapa é aqui, não sei… Só queria saber se você soube de algo, se viu algo. Se viu a Amélie.
Valen refletiu um pouco. Estava surpresa com a sinceridade no olhar triste do garoto. Tinha um pesar genuíno ali. Não sabia que ele era capaz de ter aquele tipo de sentimento, pra ser sincera.
— Desculpa, mas não soube e nem vi nada, não.
— Ah, ok — ele respondeu decepcionado. — Já imaginava. Só não podia deixar de tentar. Valeu.
Chiano se preparava para voltar ao centro das Copas quando a voz de Valen chamou sua atenção de volta:
— Pensou que ela pudesse estar aqui nas Copas?
— Sim. Ontem eu meio que… acho que ouvi a voz dela aqui perto. Acho que foi só uma ilusão, mas entendi como um sinal, sei lá.
— Entendi.
— Me contaria se ela tivesse aqui?
— Se ela me pedisse pra não contar, não contaria. Mas ela não tá aqui, Chiano.
— Ok — respondeu de ombros murchos.
— Mas têm uma coisa — era Valen quem parecia meio desconcertada agora.
— O que? — a atenção que a fala da garota puxou de Chiano foi tamanha que ele até se aproximou mais dela.
— Na última semana — a voz da garota estava preocupada -, duas pessoas que tavam morando aqui simplesmente sumiram.
Chiano a encarou com dúvida. Não entendia exatamente qual era o problema de imediato, mas aos poucos começou a ficar instigado.
— Foram caçar e não voltaram — ela continuou. — Foi o Michel e o Misael, os gêmeos da pinguela.
Chiano fez que sim com a cabeça e depois perguntou: — Eles não voltaram pra cidade?
— Não. Eles tavam muito na frente da fila. A gente ia saber se tivessem voltado pra Àttinos. E ontem encontraram as armas deles caídas num vale não muito longe daqui. Parece que só evaporaram. Sem sangue, sinal de outros animais, nada…
— Alguém viu algo tipo uma luz forte, uma explosão, algo assim?
— Não que eu saiba. Eles tavam sozinhos por lá. Desculpa, não quero insinuar nada em relação à Amélie. Só quis que soubesse…
— Não, tudo bem. Obrigado, de verdade. Eu também não sei o que pensar, mas… Qualquer coisa é alguma coisa.
Valen colocou a mão no ombro do rapaz em sinal de apoio e depois voltou para a lida. Pegou um cesto cheio de espigas e levou para o carrinho de mão. Já Chiano caminhou moroso de volta ao grupo com um único pensamento perturbando a mente: para ele, tava cada vez mais difícil não relacionar Eichler aos desaparecimentos.
—
— Ah, entendi a tal da fila da Valen agora — Breno refletiu.
Quando Chiano retornou, os três ainda falavam sobre as Copas. Estavam retirando a comida por um grande balcão de madeira numa das ocas maiores que eram usadas como cozinha e refeitório. Serviram-se nos pratos fundos de alumínio uma espécie de curau salgado com carne de galinha cozida. O cheiro era muito bom.
Caminharam para fora e sentaram-se na sombra de uma mangueira para almoçarem. Pólen insistiu que Írios comesse bastante para se recuperar bem. Não foi um pedido difícil, já que a comida estava realmente muito boa.
O assunto ainda era o mesmo e Írios lembrou de Valen falando anteriormente sobre seu lugar na fila, então talvez fosse aquilo. Pelo jeito, ela deve ter voltado para o final da ordem por ter saído e ido ao velório de Eichler, e talvez também no dia da fogueira, onde Amélie desapareceu.
— Não sei por que eles iriam querer ir embora de Àttinos — Írios indignou-se.
— Por causa da guerra, ayê— Pólen protestou.
— Que guerra? — Írios pediu, confuso.
— Oxe, oxe. Da Guerra do Nó. Às vezes parece que cê veio de outro mundo, carinha — Chiano começou ironizando, e depois caiu em si: — Ah, veio mesmo, foi mal.
Breno revirou os olhos, mas Írios não soube dizer se foi para a sua pergunta, ou para a tentativa de piada de Chiano.
— Dizem que uma guerra vai estourar a uns dois condados daqui — Breno assumiu a explicação.
— A coisa vai ficar feia lá. Uma prima que mora em Shashonack disse que no último andar do prédio dela dá pra ver o exército se organizando. Imagina que horror — Pólen refletiu.
— Mas por que esse povo todo daqui das Copas só não viaja pra longe? — Írios perguntou — Ou pegam um salto, sei lá.
— Cê acha que é realmente fácil ficar fora das cidades, né, cara? — Breno protestou. — Não dá pra simplesmente viajar a pé por aí.
— E a rede de saltos entre as cidades tá bugadíssima. Quase nada funciona mais — Chiano comentou, sério.
— Por que?
— Eu sei lá.
Írios ficou preocupado se conseguiria voltar para a casa dos seus pais caso quisesse (mesmo sendo muito difícil querer, de fato) ou visitá-los, mas Chiano explicou que para o Outro Lado as viagens pareciam normais.
— Eu fiquei ouvindo a conversa de alguns aqui e pelo jeito as disputas tão meio tensas — Breno comentou, desta vez focando sua conversa mais com Pólen do que com os outros dois garotos. — Então têm uns boatos de que mais condados se juntem à Aliança em breve, inclusive o nosso condado.
— Então a qualquer momento a gente pode ser recrutado? — Chiano ficou preocupado. — Eu real achei que essa parada não ia dar em nada.
— Não sei se rolaria. Primeiro chamariam os adultos, depois só a gente que é mais novo — Pólen respondeu. — Não sei vocês, mas eu era a pior da minha turma no meu primeiro alistamento.
— Então as pessoas que moram aqui tão querendo fugir da guerra? — Írios perguntou para Pólen porque realmente queria entender o motivo daquela organização toda nas Copas.
— Algumas. Dizem que outras na verdade querem se juntar logo no conflito. Só não pergunta o lado, que daí já fica um papo complicado — Breno respondeu.
Írios ficou incomodado com o fato de estar rolando uma possível guerra relativamente perto de Àttinos. Seus pais sabiam? Os tios os deixaram ciente? Aquilo não deveria ser um fator importante para permitirem que Írios se mudasse para lá? E por que os tios fizeram questão de blindá-lo do assunto? Será que ele era tão criança assim ao olhar deles? Sabia que os feiticeiros tinham conflitos constantes. Mas, agora, uma guerra?
— Não sei, acho essa galera meio desesperada — Chiano desabafou. — Sei que nem todo mundo mudou pra cá pra fugir pro continente norte, mas ainda assim acho meio neura e fissura demais.
— E a guerra é por causa de quê?
— Não sei — os três feiticeiros responderam em uníssono.
— Só sei que é por alguma coisa que se chama Nó — Chiano completou. Ele juntou os pratos de todos para devolver à oca da cozinha. Aos poucos, eles se levantaram e começaram a caminhar até perto de outra uma grande oca para pegarem seus pertences.
— E o que a Valen quer? — Írios fez a pergunta que tava entalada na garganta. Agora o grupo já atravessava uma cerca de madeira que delimitava o terreno das Copas com o restante da floresta.
— Sinceramente? Acho que só vazar de Àttinos. A guerra é só uma desculpa — Pólen tinha muito rancor na voz.
— Não sei — Breno tentou ser mais leviano, então veio com outras justificativas: — Pelo que ouvi aqui, nem todo mundo quer sair do condado por causa da guerra. Só querem sair mesmo por causa dos Saltos bugados. Enfim, sei que a Valen não curte muito Àttinos e só veio porque o pai foi transferido pra cá. Ela gostava muito da cidade antiga dela.
— Ela morava onde?
— Bleckhem.
— Não conheço.
— É uma zona de guerra.
— E ela quer voltar pra lá?
— Cada um com seu cada qual.
Nos primeiros passos para longe das Copas, Pólen contou para os garotos o que Valen disse sobre o cervo e Eichler. Ninguém conseguiu tirar uma conclusão daquilo. Imaginaram que Eichler estaria apenas levando o animal para um passeio, sei lá. A não ser o Chiano. Também não sabia o que concluir, mas não deixou a informação cair. Guardou-a no bolso da memória.
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