Por Onde Andou Eichler?

15 A Colheita de Julian


Notas iniciais
Oi, pessoal! Passando só pra avisar que a playlist da história foi atualizada com novas músicas :) Confiram lá! spoti.fi/4bKGIqm Boa leitura!

Os últimos dias de Julian estavam bem movimentados se considerar que o garoto estava de férias.

Acordava antes de todo mundo — antes até mesmo do primeiro galo cacarejar — para passar um café forte e descer para o pomar. Não antes de comer uma vasilha de cuscuz com queijo derretido na boca do fogão à lenha. Depois ia colher as frutas para as irmãs. Marianinha, a gêmea mais nova, gostava das mexericas frescas. Já Antoninha preferia as jabuticabas tão grandes e escuras quanto seus olhos.

Gostava de passar os primeiros minutos do dia debaixo do alpendre enquanto olhava o horizonte do dia começar a dar os seus primeiros indícios. Não gostava exatamente de ver os sóis nascerem. Preferia admirar antes disso, aquele momento que a escuridão da noite começa a ser empurrada para a beirada do céu por um véu claro de ciano. Era nessa meia-luz que terminava de comer

A casa da família ficava no topo de uma colina. De lá dava para ver toda a propriedade. Nos fundos ficava o pomar, o galinheiro e o curral das vacas. Ao norte e oeste, a plantação de milho ia a perder de vista. Era lá que o garoto começava o trabalho. Ao sul, a trilha que vinha do vale ligava a estrada da periferia de Àttinos à propriedade da família Caiapó.

Observando o céu roxo no horizonte, Julian viu uma figura pequena ganhar forma sobre a estradinha de pedras cinzas. Ele adorava receber as visitas de Eichler — eram seus dias favoritos -, mas sabia que o amigo se dava o trabalho de acordar super cedo e encontrar Julian de surpresa na fazenda apenas quando estava se sentindo mal. Passar o dia no campo era praticamente a sua terapia.

Julian botou sua xícara de café de lado para alcançar outra no armário. Aguardaria Eichler chegar no topo da colina já com uma bebida quente para ele se aquecer dos ventos frios que batiam na encosta.

A mãe de Julian também adorava receber a visita do garoto. Quando via que ele estava por lá, corria para preparar sua comida favorita, feijoada. Os meninos colhiam na horta couve para picar e no pomar laranjas para acompanhar a refeição.

Durante a manhã, Eichler ajudava Julian nas tarefas da fazenda que não podiam ser puladas — mas o mais rápido possível, pois sempre ficavam ansiosos para ter o tempo livre e aproveitar o restante do dia.

Pegavam os ovos no galinheiro, tratavam dos animais, tiravam leite da vaca Amanda, colhiam temperos e verduras na horta e iam até o campo para verificar os trabalhadores começando a lida. Julian avisava que tiraria o dia de folga para ficar com Eichler, que acompanhava tudo maravilhado — o cotidiano repetitivo de Julian era um encantamento para o rapaz da cidade.

Quando estavam livres, se aprontavam e desciam da colina para tentar aproveitar ao máximo o restante do dia. Andavam de bicicleta pela trilha nos limites da fazenda. Nadavam no rio do vale — usavam uma corda amarrada numa árvore alta como trampolim para fazerem saltos sobre as águas. Jogavam frescobol no campo. Apostavam corridas a cavalo. Se aventuravam na velha trilha de arvorismo que o pai de Julian tinha montado quando o filho ainda estava na barriga da mãe. Corriam com os cachorros. Brincavam de esconde-esconde com as irmãs de Julian.

E, por fim, deitavam na beira da colina pra descansar e verem os sóis se porem. Normalmente era nesse momento que eles costumavam ter longas e profundas conversas sobre qualquer amenidade ou filosofias sobre a vida. Não era em todas as visitas que Eichler expunha ao amigo o motivo que o levou a buscá-lo para se divertir e se distrair — Julian sabia que Eichler era o tipo de cara que preferia sofrer sozinho, mas também percebeu ao longo do tempo que era um dos únicos amigos que Eichler procurava para compartilhar suas angústias.

Não adiantava sondar, jogar um verde e muito menos perguntar diretamente para Eichler se ele estava mal e porquê — a não ser que você não se incomodasse ou se irritasse em vê-lo mentir descaradamente para fingir que estava tudo bem consigo. Julian deixava o amigo confortável para desabafar caso sentisse que deveria.

Em sua última visita, dias antes de seu falecimento, Eichler contou-lhe absolutamente tudo. O que havia se passado e o que faria — na verdade, o que estava fazendo, pois a visita à fazenda já fazia parte da sua rota.

Julian ouviu absolutamente tudo em silêncio. Não perguntou nada de imediato e não interrompeu o rapaz um segundo sequer. Apenas olhou no fundo de seus olhos e deixou sua boca desaguar tudo que tinha dentro de seu peito.

Num primeiro momento, Julian se entristeceu. Depois, quando decidiu falar, se revoltou, exaltou, discordou, gritou, enfureceu e, depois de horas e horas de confronto entre os dois, decidiu abrir mão de convencer o amigo de cumprir com seus planos. Nada mudaria a mentalidade de Eichler.

— Como vou saber que você vai tá bem? — Julian perguntou afinal.

— Ele vem te visitar — Eichler tirou do bolso um pingente de pássaro.

— Mas é só um beija-flor de bolso.

— Se alguma coisa acontecer comigo, ele vem — explicou acariciando a superfície de prata para transformá-la de volta em um animal.

O beija-flor azulado e de penas cintilantes começou a bater as asas freneticamente. Julian achava lindo como aquele animal pairava no ar com elegância incomum e parecia flutuar como um verdadeiro mestre que dominava os ventos do mundo.

— Seus truques não cansam de me impressionar.

Apenas Eichler mesmo para fazer um animal invocado, uma ilusão, sobreviver tão distante de seu feiticeiro. Até mesmo após a morte.

— Sou uma caixinha de surpresas, mesmo.

O pai de Julian contava que o avô e bisavô colhiam as espigas do jeito antigo: deixavam-nas secar no pé por dois dias depois de cortarem de leve o caule das plantas. Já o pai tinha modernizado a fazenda: comprou um projeto da cooperativa de Àttinos de uma colheitadeira amaviada. Era uma carroça grande com braços e mãos de madeiras que colhiam as espigas uma a uma para colocar sobre sua carroceria. Era lenta, mas ajudava a dar ritmo e permitiu que eles aumentassem a área plantada.

O pai do garoto era meio mão de vaca para gastar dinheiro, mas praticamente nunca se resguardava de investir na fazenda família, principalmente para melhorar a colheita. Ele vivia dizendo que uma plantação era igual suas amizades: sempre valia a pena cultivar. Uma hora a colheita farta viria.

Dois anos antes, Julian tinha participado de um congresso agrícola com o tio e cursou uma aula de maracutaias para mecanismos de plantio e colheita. De volta em casa, aplicou o que aprendeu da velha colheitadeira e a deixou mais ágil. Aproveitou e deu um toque de personalidade nela: vestiu roupas e chapéus nas hastes que saíam dos braços para dar a impressão que a carroça carregava diversos espantalhos que se encarregavam de colher os milhos.

Aos poucos, ia trabalhando com o pai num novo projeto de colheitadeira: queriam montar uma segunda, mas ainda maior. Passavam horas nos fins dos dias juntos entre conversas e rabiscos.

Sua mãe era a única que acreditava que pai e filho um dia se entenderiam. E estava certa, pra variar. Diziam que os dois eram cabeça dura demais, orgulhosos demais. Mas foi só quando passou o período fora de casa viajando com o tio que Julian notou como sentiu falta de seu velho carrancudo. Principalmente por descobrir que o irmão dele, seu tio, era ainda mais pé no saco que ele.

Foi na saudade do pai que Julian descobriu sentir afeto por ele.

Mas essa mudança de perspectiva não era sinônimo de uma convivência tranquila. O homem rústico, com jeito pesado e ar de quem pouco teve tempo de se divertir na vida ia de desencontro com a aura moleque do filho. Julian era mais malandro e liso. Havia quem dizia ser um boêmio do campo — se é que isso existia. E o pai implicava com onde o rapaz focava a cabeça (em qualquer coisa para além das porteiras da fazenda).

Infelizmente os dois não tiveram tempo de moldar e azeitar aquela relação que tinha tudo para se transformar a cada dia — mesmo que lentamente, como uma plantação — em algo tão profundo quanto pai e filho mereciam. Seu pai teve um mal súbito no meio do milharal e foi encontrado já sem vida por Julian horas depois.

A partir daquele desencontro, o mundo de Julian virou de cabeça para baixo. Teve que abandonar de vez seu modo divertido de encarar a vida e seu dia a dia para tomar conta de sua família. Mesmo com alguns funcionários na fazenda, ela não conseguia prosperar sozinha. Em casa, apenas Julian podia ir para a lida. Sabia que o pai faria falta, mas não imaginava que seria tanta.

Já tinham se passado três meses desde o velório do pai e o garoto tinha muita dificuldade de conciliar a escola com o trabalho. Ele mediava muito — à contragosto da mãe — abandonar os estudos por um tempo até que o período da colheita passasse. O rapaz abriu mão de muita coisa naquele tempo, principalmente dos seus próprios gostos e lazer. Quando Pólen insistia nos planos mirabolantes após o falecimento de Eichler, ele era o último que podia atender. Até mesmo encontrar os amigos estava sendo complicado.

Poucos dias depois da visita de Eichler, enquanto Julian soprava sua xícara de café preto, ouviu o som penetrante das asas do beija-flor rondando-o. O pequeno animal parou no ar na frente de seu olhar e por lá ficou por algum tempo. Depois, bicou algumas flores do jardim e foi-se embora. O aperto no peito dominou Julian. Todos aqueles dias ele acordava e torcia para não encontrar com o animal na varanda de casa. Nos primeiros dias, até sentia um arrepio, como se o corpo dissesse para ele não sair de casa para não correr o risco de receber o tal presságio.

Mas sabia que era inevitável.

Julian lembrava da visita do beija-flor sempre que tomava café no alpendre de sua casa. A lembrança já era o suficiente para amargar o peito, mesmo não tendo visto o animal mais.

Num desses dias, ouviu seu búzio chamar-lhe diversas vezes. Sabia que era Pólen, então ignorou. Em parte porque não poderia atender às expectativas da amiga. Não podia abandonar a fazenda e o sustento da sua família para viver uma aventura de adolescente. Aquilo já estava no seu passado. E não a atendia também porque não conseguiria olhar para seus amigos repletos de dúvidas sobre Eichler enquanto ele tivesse que guardar tudo que sabia para si.

Pólen e Breno estavam passando por aquilo pela primeira vez em suas vidas, por uma grande perda, ao contrário de Julian. Por isso via com outros olhos suas dores e rebeldia no momento de lidar com a partida de Eichler. Achava que deveria manter o espaço deles. Não intervir, mas também não endossar.

Até o dia que ouviu aquele bater de asas frenético rondar-lhe sobre o pomar.

Eichler já havia partido e o beija-flor retornava mais uma vez. Algo não ia bem com Pólen e Breno, era isso que a visita lhe dizia.

Émile pouco se lembrava do que aconteceu antes. Seus olhos ardiam como se tivesse lavado o rosto com suco de limão. Aos poucos a memória esmaecia. Sentiu no corpo o peso do sono repentino que tomou conta de sua consciência horas antes, quando a escuridão apagou o mundo ao seu redor feito uma onda gigante quebrando sobre ele.

Na boca o gosto era rançoso e na pele tinha dor.

Os olhos voltaram a arder. Tinha dificuldade de mantê-los abertos. Queria ficar de pé, mas caiu de cócoras enquanto tentava porque não havia nada para se segurar ao alcance das mãos fracas.

Por que tudo ardia, doía e fraquejava? O que tinha acontecido? Decidiu soltar o corpo sobre o solo e desistir de recuperar as estruturas. Preferia focar as energias em lembrar-se do que havia acontecido.

Parecia mais prudente que a primeira pessoa de quem pensaria naquele momento fosse Amélie, sua irmã, e que o primeiro sentimento fosse saudade ou injustiça. Mas foi aquele rosto malandro de Chiano que invadiu sua mente, junto duma raiva latente que bateu no peito.

Era isso. Estava lá, a quilômetros além da periferia de Àttinos, por causa dele. Queria achá-lo. Queria matá-lo ou fazer qualquer coisa com ele que o causasse sofrimento, que desse para transferir para ele a dor que sentia por ter feito sua irmã desaparecer.

Estava passando fome e perrengue por causa de Chiano. Porque ele e Roberto, seu amigo, tinham decidido caçá-lo.

Roberto, era isso.

Quando lembrou do amigo, Émile arrepiou-se por inteiro. Estava em perigo.

Mesmo com a ardência e com as pálpebras encharcadas com lágrimas, tentou forçar os olhos a ficarem abertos para ver se aquela coisa já havia partido e verificar se estava seguro. Ficou de pé e, aos tropeços, alcançou uma árvore para se escorar.

Sua mente foi invadida pelo clarão que cegou-lhe e o fez desmaiar. Sua visão ficou branca após a explosão, mas antes dela havia cores. Púrpura, turquesa e narciso. E antes de estourar, ela se movia sobre suas cabeças, dentro das copas das árvores. As folhas e galhos se remexiam como se alguém se esgueirasse com velocidade dentro deles.

E então: BUM! Roberto foi engolido pela claridade e Émile simplesmente apagou.

Émile gritou pelo nome do amigo algumas vezes e olhou ao redor, limpando os olhos. Mas não teve resposta. Pelo menos não de uma voz que esperava.

— Precisa de ajuda, garotão? — Julian perguntou para o rapaz.