Por Onde Andou Eichler?

11 As Encantadas de Iterum


Pólen entrou na barraca ainda irritada e com os olhos cheios de lágrimas. Jogou-se sobre o colchão fino e afogou o rosto no travesseiro com aroma de lavanda — para estimular um sono tranquilo. Mas a cabeça ainda era um rio turbulento de pensamentos que não deixaria o pequeno e frágil barco do sono navegar tranquilamente.

Virou de barriga para cima para retomar o fôlego e sentiu a adaga embainhada na cintura. Pegou a arma e ficou analisando sua lâmina branca e bem polida enquanto passava a ponta dos dedos sobre o cabo de madeira entalhada.

— Não achei que a gente ia se desconectar tão cedo, Bebel — a garota lamentou com a voz embargada para a adaga. Em seguida, ficou em silêncio como se estivesse ouvindo, telepaticamente, uma resposta da arma, que, na mente da garota, também estaria lamentando. Depois de um tempo, perguntou em voz alta: — Será que a vovó está morrendo? Por isso que você não me responde mais, Bebel?

Mas a arma se aquietou. Era apenas uma adaga, não tinha como saber o que estaria acontecendo com a família de Pólen mesmo se estivesse amaviada. Tudo que Bebel sentia era que a garota que a possuía desde criança não poderia mais usá-la para invocar magia. Nem ela, nem nenhuma outra arma. Sua conexão com armas estava aos poucos se esvaindo.

Por muitos anos, o passatempo favorito de Pólen foi sentar sobre o tapete felpudo da casa de sua avó e ficar horas a fio ouvindo suas histórias. A senhora gostava tanto de contar causos que seu repertório de lorotas já estava se esgotando, então mesclava entre as novelas antigas que ouvia nas rádios, as epopéias de magos milenares e as memórias do passado sofrido da família.

Pólen e a avó passavam um chá, estouravam uma pipoca ou preparavam algum bolo para deixar as tardes ainda melhores. Pólen tinha que correr na horta ou pomar do quintal compartilhado entre as sete casas da família para escolher algum ingrediente pro bolo — sua avó detestava bolo “sabor de nada”. Bolo de bolo, como dizia. Tangerina, erva-doce, erva-cidreira, laranja, acerola e limão eram as escolhas favoritas das duas.

Pólen também gostava quando podia dormir na casa da avó, assim elas ficavam conversando no quarto, deitadas nas camas, contando histórias até de madrugada, com a luz apagada mesmo, pra escuridão dar um descanso para a visão e fazer a imaginação ganhar vez.

A garotinha nunca esqueceu de quando ouviu pela primeira vez sobre como a família chegou às redondezas de Àttinos. Era um dia chuvoso e com muito vento. As aulas foram canceladas e Pólen estava resfriada, então ficou na avó enquanto a mãe cuidava da Botica da família.

A avó sentou-se no sofá, colocou a neta no colo e descreveu com detalhes o navio onde sua própria avó se enfiou escondida para atravessar o oceano do continente norte para o sul.

Antes da travessia, ela vivia numa pequena vila perto das terras bárbaras daquele mundo, onde as jovens mulheres eram compradas para servirem à famílias de nobres ou até mesmo para humanos. A tataravó de Pólen era criança quando foi vendida pelos próprios pais para uma bruxa solitária e única herdeira de uma centenária família envolvida com arrendamento de terras.

Ainda que vivesse como servente, a jovem feiticeira até tinha certa consideração por parte da bruxa, que vivia dizendo que a empregada seria herdeira de seu legado, mas deixava claro que não falava sobre dinheiro — este seria destinado para um fundo de investimentos dos antigos amigos de seus pais. Como a avó de Pólen costumava explicar: dinheiro de gente rica sempre fica com gente rica.

Recém-convertida pelos ensinamentos de Iterum, uma religião bárbara que aos poucos ganhava aquele mundo, a bruxa decidiu transformar a tataravó de Pólen em uma Encantada para receber os conhecimentos e pensamentos de sua família, na esperança de que sua linhagem ideológica se mantivesse naquele mundo através da garota, uma vez que não conseguiria mantê-la com o próprio sangue através de descendentes.

Sem entender muito bem o que mudaria em sua vida, a jovem e inocente empregada aceitou o fardo e, após o ritual, receberia em sua alma todos os espíritos da família da bruxa assim que ela falecesse de velhice.

Desprovida do patrimônio da ama, mas carregando os pensamentos e vozes de centenas de pessoas de sua linhagem, a tataravó de Pólen quase caiu à loucura. E, ao invés de guiar-se pelas mestras de Iterum do norte, decidiu fugir do continente bárbaro para o sul.

Foram anos tentando apagar dos pensamentos todas aquelas vozes atravessadas vindas de pessoas antigas, defasadas e conservadoras. Mas era impossível. Uma vez Encantada, deveria carregar o fardo daquele conhecimento e transmiti-lo para suas descendentes que, segundo a religião, seriam sempre mulheres para toda a eternidade. Nenhum homem nasceria dos ventres das mulheres que nasceriam de seu ventre.

Chegando ao sul, a jovem Encantada vagou por muitas terras acompanhando comerciantes, itinerantes e ciganos entre pequenos vilarejos e povoados. Até que teve contato com uma família também adepta ao Iterum, mas da linhagem do sul, que, ao contrário dos povos bárbaros, não usava de bruxarias e muito menos versava ideologias controversas. Muito além disso, focavam na cura e no atendimento à comunidade. Uma maneira revisitada da religião milenar.

A tataravó de Pólen viveu por anos na fazenda daquelas matriarcas aprendendo a compreender sua fé em Iterum sulista, versar-se sobre as cantigas da religião e dominar sua inclinação à selva para tornar-se uma curandeira material e espiritual. Até que atingiu a idade para partir e criar sua própria linhagem de Encantadas. Deveria partir sozinha em busca de um novo povo para acolher.

Nesse meio tempo, ela resistia às influências das vozes da família da antiga bruxa. Não queria ceder seu destino à parasitagem mágica, não queria se entregar à bruxaria que as vozes tanto cantavam para ela. Reunia todas as forças que tinha para não ser persuadida.

Junto da família da fazenda, aprendeu a fazer as vozes indecentes pararem de invadir seus pensamentos de forma intrusiva para finalmente controlá-las e consultá-las conforme lhe convinha. Filtrava suas ideias de forma útil e ignorava suas bobagens. E esse era o verdadeiro legado de uma Encantada de Iterum: conhecimento que servisse para si e para os próximos.

Suas novas andanças a levaram até a pequena terra de Àttinos, onde se instalou e começou a trabalhar numa pequena botica. Mais tarde, casou-se com o filho de seu patrão e o casal passou a tomar conta do negócio juntos, até que conseguiram abrir o terreiro de Iterum que a mulher era destinada a ter.

As filhas mulheres vieram e a tataravó de Pólen criou uma liga de curandeiras que passaram a atender toda a pequena cidade. Algumas delas, inclusive, cumpriam o ofício de maneira profissional no hospital público da cidade.

Aos poucos, a nova linhagem espalhava a palavra do Iterum sulista, mas não com intenção de converter mais famílias para a religião, e sim para dispor para a comunidade seus conhecimentos e talentos. Não precisavam de discípulos, seguidores, nem nada disso. Compartilhavam seus saberes com jovens mulheres interessadas em tornarem-se herbalistas nos campos e plantações do terreiro e também farmacêuticas na botica.

A matriarca se prestava para a cidade como uma xamã, contadora de epopéias, histórias e sábios ensinamentos, principalmente sobre saúde e nutrição. Mas preparava-se para, antes de fazer sua passagem para a morte, transmitir sua alma para uma de suas filhas, a próxima Encantada. E assim sucessivamente.

Pólen ouvia a história com os olhos brilhando. Foi naquele dia que conseguiu entender melhor o que sua família fazia e por que suas tias e tias-avós eram tão conhecidas e buscadas na cidade. E também por que o terreiro de suas casas era ponto de encontro para rituais, festividades e brincadeiras de Iterum.

E sua avó também não enchia os ouvidos da garota com essas histórias à toa. A senhora era a Encantada daquela época. E havia escutado das vozes que Pólen deveria ser a próxima. Por isso, a preparava tenuamente desde seus primeiros anos de vida, mesmo sem que a garota percebesse.

Enquanto isso, Pólen tinha uma infância normal. Até enquanto pôde.

Era nitidamente mais agitada do que todas as outras mulheres de sua família. A garota tinha o apelido de Espoleta dentro de casa, pois não parava quieta. Nem de corpo, nem de boca. Falava quando não era solicitada, se enfiava nas conversas das adultas e vivia com o corpo cheio de machucados por causa das brincadeiras agitadas.

Mas, dentro de casa e do círculo familiar, essa energia ativa e alegre de Pólen foi se apagando aos poucos. Muitas das suas familiares viviam puxando a garota para ter conversas sobre a partida da avó. Não que ela estivesse doente ou a ponto de falecer em breve, mas porque a morte dela afetaria diretamente a vida da garota a partir daquele evento.

O assunto era tratado de forma tão natural por todas as suas tias, mas Pólen ainda não conseguia processar bem a ideia da morte de alguém tão querida. Ok, você pode até ter ciência de que um ente próximo, principalmente idoso, partirá desse mundo em algum momento. É o ciclo da vida. Mas ser lembrada constantemente sobre isso entre festas familiares, churrascos na casa das primas e almoços de domingo já soava muito invasivo e desnecessário para a pequena Pólen.

A mãe da garota falava sobre o falecimento da avó como se falasse da água de um rio que segue o seu percurso. Sem pesar, sem tristeza. Pólen se questionava se a errada era ela mesma por sentir dor quando estimulada a imaginar um mundo sem sua avó.

Talvez aquele método tivesse funcionado com suas tias e primas, pois todas pareciam ter a mesma visão sobre o assunto. Por isso, Pólen sentia-se errada e quebrada por não ser como elas, por não sentir e ver o mundo como elas. Seria mais fraca? Menos merecedora? Menos da família do que as outras?

Já sua avó tentava tranquilizá-la, dizia que era o destino. Todos partiam, todos morriam. Por que seria diferente com elas? Elas preferiam se preparar e focar suas dores em pontos diversos da vida, principalmente nos imprevisíveis e dos quais teriam pelo menos um pouco de controle. Mas a ansiedade da garota não a permitia ver o mundo assim. Para Pólen, morte era morte. E não uma passagem, um alento. Era um fim. E quem ficava, sofreria.

Pólen nunca soube explicar bem o porquê, mas, quando aquelas conversas sobre a morte da avó começaram a se intensificar, uma chave de rancor virou em sua cabeça e nenhuma das tias foi capaz de voltá-la para o lugar de antes.

O que um dia foi carinho, afeto e amor, tornou-se insegurança. Pólen foi tão forçada a encarar certas realidades que por fim fez de tudo para evitá-las. Seguiu o caminho inverso ao extremo do que queriam que ela se tornasse. A garota passou a se ausentar do terreiro, das festividades, do colo da avó, das noites de contar histórias e dos almoços em família.

Era cobrada e ameaçada. Mas resistia. Até chegar num ponto em que a garota passava mais tempo fora de casa do que com sua família.

Se insistiam tanto para que ela se preparasse para a morte da avó, decidiu fazer do seu jeito: afastar-se por completo antecipadamente para aliviar a tristeza que sentiria quando acontecesse. Para Pólen, essa lógica era a melhor para seus sentimentos.

Quando ficou um pouco mais velha, percebeu que tudo aquilo não era um preparo para uma passagem de vida, mas sim sobre o destino dela mesma.

Demoraram em anunciar à Pólen que ela seria a nova Encantada da família, a Xamã do terreiro de Àttinos, a nova matriarca. Justamente pelas reações controversas que tinha nas conversas com as tias.

E a informação pesou ainda mais para a garota, pois não apenas suas responsabilidades mudariam, mas a sua forma de viver também. Seus cabelos cairiam e nunca mais nasceriam. Sua magia se recusaria a se manifestar através de armas ou varinhas. Deveria procriar e dar a luz a pelo menos três descendentes. Viveria atrelada àquele local para sempre, sem nunca poder ir para além da periferia da cidade. Teria em sua mente os pensamentos de gerações de outras Encantadas e passaria anos de loucura até que pudesse aprender a conviver com elas.

E a garota não queria nada daquilo.

Pensar sobre seu destino a afastou ainda mais do núcleo familiar. Em sua cabeça, caso rejeitasse a família, ela e as Encantadas também a rejeitariam. Quem sabe, após a partida de sua avó, outra prima não fosse escolhida para seguir como a nova Encantada? Era sua maior esperança. Mereciam mais que ela.

Uma das maneiras de se manter distante era interagir com qualquer outra pessoa que não fosse de sua família, principalmente de quem não era adepto ao Iterum. Afinal, a garota ainda tinha muita energia e muita lábia para gastar e não podia reprimi-las. Pólen ficava na rua a maior parte do tempo, arranjando coisas para fazer.

Saía da aula e almoçava na cantina, passava as tardes nas praças, em pistas de skates ou jogando vôlei ou bets com qualquer grupo de crianças que encontrava por aí. Zerou todas as trilhas com sua bike, caminhou por todas as ruas e jogou conversa fora com qualquer pessoa que desse a mínima abertura para ela. Até aprendeu a andar de skate com desconhecidos numa praça.

Mas também não deixava os estudos de lado. Na verdade, os via como alternativa para se afastar da Iterum e ter outra atividade para fazer quando recusasse tornar-se a nova Encantada. Detestava a Botica da família e desejava nunca precisar trabalhar lá, mesmo que sua inclinação à selva já tivesse se manifestado logo cedo.

A garota se enfurnava na biblioteca da cidade para ler e estudar quando precisava, e depois passou a se inscrever na maioria das extensões da escola e da secretaria de cultura e educação para manter a rotina ocupada.

Pólen e Eichler se conheceram na extensão de fotografia analógica. Foi a primeira vez que encontrou outra pessoa da sua idade que também não era muito chegada a ficar trancada dentro de casa, ou que tivesse a mesma energia e disposição para se aventurar pela cidade.

Rapidamente ficaram amigos e passaram a realizar todas as atividades do grupo em conjunto. Numa delas, decidiram fotografar os campos de Àttinos durante a aurora. Acordaram ainda de madrugada para chegarem no destino antes dos sóis nascerem.

Pólen ficou encantada com o passeio de bicicleta durante aquele horário. A cidade vazia, silenciosa, sem uma única alma viva pelas ruas. O vento frio cortando o rosto, os pássaros aos poucos despertando e dando seus primeiros cantos do dia.

Eichler também parecia estar bem feliz com o passeio. A partir dali, não haveria limites ou noites mal dormidas que os impedisse de buscar por uma aventura ou alguma bobagem para fazerem juntos. Justamente por aquele dia ter sido especial.

Quando o primeiro sol deu um vislumbre de suas luzes ao leste, os dois aspirantes a fotógrafos ouviram três badaladas do que parecia ser um sino grande e velho. Ele ecoava pelos campos, mas nitidamente vinha de uma direção específica. Pólen e Eichler se olharam, curiosos, e imediatamente partiram correndo na direção do som.

A menos de um quilômetro dali, ainda nos campos, encontraram sobre o gramado, no meio do nada e longe da cidade uma enorme e vazia pista de skate de concreto. Aquela foi a primeira de duas vezes que conseguiram encontrar a pista de skate perdida.

E é claro que a aproveitaram ao máximo nas duas ocasiões. Passaram o dia todo no local e ainda chamaram alguns amigos para se juntarem à eles. Foi naquele dia que Pólen conheceu Breno e Valen. Dias depois, eles já estavam formando até uma equipe para competir no campeonato varzeano de bets do bairro de Eichler. E nunca mais se largaram.

Com os laços entre o pessoal da Malta se apertando, Pólen passava cada vez menos tempo em sua casa. Até que sua avó foi acometida por uma gripe muito forte a ponto de ficar acamada. Todas as suas tias estavam preocupadas e conscientes de que a partida da matriarca pudesse estar próxima.

Pólen aceitou o pedido de sua mãe para passar mais tempo perto da avó. Ela queria isso, inclusive — mesmo que seus sentimentos sobre a família ainda fossem confusos e conflitantes. Ficou dias seguidos dormindo no quarto da avó para conversarem, ajudou a cuidar dela, preparar suas refeições e tudo mais.

Suas tias aproveitaram a situação para retomar algumas conversas sobre Encantadas e o terreiro com a garota. Elas se preocupavam muito com o fato da distância da garota estar atrasando seus conhecimentos para que conseguisse cuidar do terreiro quando chegasse a hora. Sentiam que estavam atrasando anos de estudos de Pólen. E isso faria muita falta no médio e longo prazos.

Aos poucos, Pólen sentiu que sua presença foi requisitada ao lado da avó não para que passasse um tempo de qualidade com ela, mas para que estivesse próxima da família para ouvir o que tinham a dizer e orientar sobre o seu futuro.

Num dia, uma tia-avó confiscou da garota sua varinha e adaga enquanto ela dormia. Apavorada com a atitude e a invasão de sua privacidade, Pólen fugiu de casa e foi acolhida na casa de Breno durante três dias. Por fim, sua avó se recuperou bem e voltou a cuidar do terreiro normalmente.

Na verdade, sua primeira opção era fugir para a casa de Eichler porque sua mãe era acolhedora de uma forma tão singela e especial que seus afagos e conversas lembravam a sua própria família antes de que ela fosse revelada como Encantada. Mas a mãe de Eichler havia se convertido ao Iterum recentemente e aquilo a afastou da casa do amigo. Na verdade, Pólen evitava ao máximo qualquer uma das pessoas que frequentassem o terreiro. Não porque as achava erradas, mas apenas queria se privar daquilo o máximo que podia.

No período em que a avó estava doente, a garota voltou a frequentar a casa apenas com o juramento de que ninguém mais invadisse sua individualidade e manteve contato próximo apenas com a mãe e a avó. Mas ainda se mantinha esguia quando o assunto era o futuro.

Ela percebia que a avó alimentava um grande desgosto com o fato de sua sucessora rejeitar o destino. A senhora sentia que estava falhando com ela e suas antepassadas. Quando recorria às vozes delas para algum conselho, pouco proveito tirava: nunca antes uma Encantada se esquivou com desprazer o Iterum, então não sabiam como proceder. Suas recomendações eram autoritárias demais, então a avó as rejeitava. A esperança era que em algum dia a iluminação chegasse à mente conturbada e agitada da jovem.

Mas, de qualquer maneira, a avó não deixava de ter empatia por Pólen. Não invalidava os sentimentos e opiniões dela. Tinha ciência de que ser uma Encantada era uma privação de si própria e isso exigia um longo processo de aceitação. Apenas pedia às vozes que um dia Pólen as aceitasse, e o mais breve possível. Porque quanto antes acontecesse, menos a garota sofreria.

No final das contas, as tias se afetavam mais pelo comportamento da sobrinha. Até mais que a própria matriarca.

Passar tempo com a Malta era um jeito de esquecer o seu destino e o dever de sua família, mesmo que sentisse falta de ficar com elas. Quando saía de casa ou trocava a primeira linha de conversa com seus amigos, Pólen simplesmente esquecia sua família. Naqueles momentos, as tias chatas pareciam tão distantes, uma outra vida, uma outra realidade. Uma realidade que ela fazia de tudo para evitar, seja presencialmente ou em pensamentos.

Mas isso não queria dizer que não tivesse o conflito em sua mente sobre o falecimento da avó. Claro que nutria um grande carinho por ela. E também temia o que aconteceria com sua vida a partir dali. Seria obrigada a tocar o terreiro? Ficaria presa à mesma rotina da avó? Seria obrigada a casar-se com um homem submisso? Nunca mais poderia sair, se divertir, viajar, explorar?

A distância da avó antecipava Pólen de sentir a falta da mulher. Aos poucos entendeu a postura das tias sobre a morte, de aceitá-la e encará-la de frente. Era mais fácil assim. Pólen esperava com pesar a morte de sua avó porque não queria ser uma Encantada, mas, no lugar, veio a morte de Eichler.

Foi um sentimento confuso. Um fato que ela já esperava, mas com alguém inesperado. Achava que estava preparada para lidar com aquilo, mas a surpresa acabou balançando sua mente de um jeito que não conseguia nem ao menos processar.

Sua avó costumava a estimular a sempre ir atrás da raiz da tristeza. Fique triste, sinta a dor, mas sempre saiba de onde ela vem. Nunca releve suas dores como se fossem sentimentos espontâneos, ela dizia.

Mas nem isso Pólen conseguiu fazer.

Só sentia raiva de Eichler por ter ido e desfeito toda a segurança e escapismo que ela tinha na Malta.

Pólen tinha crises de choros repentinas durante o dia. Sua mãe e tias a cercavam e tentavam acalmar a garota para que ela não se afogasse com os soluços fortes. Ela se sentia mal por gerar essa comoção toda.

Anos antes, quando um tio de Pólen faleceu, a garota ouviu pelo canto da porta sua mãe conversando com a viúva. Sua tia não deixou cair uma lágrima pelo marido, apesar de sentir muito a sua perda. Mas era porque a mulher já esperava que o esposo partiria em breve por causa de uma doença que o acometia há meses. E sua posição perante ao falecimento causou burburinho na vizinhança. Achavam inaceitável a aparente frieza da mulher perante a situação.

— Escuta, minha irmã — a mãe de Pólen segurou a mão da viúva e apertou com força para se fazer ouvida: -, quando perdemos alguém que amamos é assim mesmo. Vão até tentar nos dizer, ou melhor: ditar como devemos sentir nosso luto, podem julgar a gente, mas isso é com cada um. A dor tem que ser sentida, e no jeito que deve ser sentida. Cada um sabe o seu.

Aquela fala ficava sendo revivida na memória da garota nos dias seguintes à morte de Eichler. Por isso sabia que não podia repreender sua dor ou segurar uma gota de choro que fosse. E foi durante o velório do garoto que ela deixou aflorar tudo que sentia.

Foi um misto de dor de perda com indignação com o pouco que Eichler deixou no mundo: além dos desejos e planos interrompidos sobre sua jovem vida, também tinham as vontades sobre seu corpo mundano.

Recém convertida ao Iterum, a família do garoto decidiu vela-lo conforme orientava a religião: cremar o corpo, selar numa urna e colocar num altar em casa para que ele se tornasse o seu único ponto de contato com o mundo dos vivos.

Mas Pólen sabia que não era bem essa a visão de Eichler. Ele sempre dizia sobre a liberdade que o fim lhe remetia. Vivo, ele estaria onde seus pés pisassem. Morto, o mundo seria seu. E preferia que suas cinzas fossem jogadas em algum lugar que gostasse muito para que sua alma tivesse a oportunidade de estar em todo lugar que lhe importasse.

O garoto versava muito sobre a finitude da vida. E, mesmo com um assunto mórbido, tinha alegria na fala para abordá-lo. Era um tema estranhamente recorrente em sua fala. Por isso marcou tanto a garota. Para Pólen, era um absurdo aprisioná-lo em casa, justamente o garoto que sonhava em explorar o mundo, mas não pôde.

Durante o velório, Pólen decidiu dar voz à sua dor da perda de Eichler e a indignação das pessoas deixaram a religião limitá-las.

Avançou no terreiro depois de um momento de silêncio e oração para gritar em plenos pulmões sobre como achava aquilo tudo desrespeitoso. Ver Eichler preso em uma urna era uma ofensa.

Para a garota foi um momento de libertação. Disse tudo que imaginava. Que estavam desrespeitando a memória do garoto, deixando um desgosto com o pouco que ele poderia ter após a morte.

Para a mãe do garoto, foi apenas dor. Mais dor do que esperava sentir naquele dia. Mas Pólen não se importou. Não deixaria que ninguém dissesse como ela reagiria ao luto dela, nem que a religião limitasse a ela, nem Eichler.

Na época, ainda tinha a falha e egoísta visão que não a fez entender que, ao viver o luto sem as amarras dos olhares dos outros, acabou fazendo o que não queria que fizessem com ela: que ditassem seus sentimentos.

Repreendida por todos que estavam no terreiro no dia do velório, Pólen fugiu e passou quase uma semana toda num acampamento na floresta de araucárias gigantes. Apenas Breno a procurou. Valen e Julian estavam chateados com a atitude da garota a ponto de não quererem mais um contato próximo, pelo menos não naquele momento. E Pólen os odiou por isso.

Eichler não se foi apenas levando sua vida embora, mas também a Malta, ela remoía. Mas, no fundo, sabia que quem acabou com a Malta que ela tanto amava foi ela mesma. E esse sentimento só veio até a superfície muito tempo depois.

Nem mesmo a última vontade da vida de Eichler era o suficiente para fazer com que Valen e Julian quisessem estar junto dela novamente. O que lhe restaria a partir dali?

Chorando dentro da barraca e abraçada com uma adaga falha, Pólen apenas amargava na boca o sabor de ser abandonada. Por Valen, por Julian, por Eichler e por sua família.