Por Onde Andou Eichler?

20 A seresma e o macavenco


Quando caiu em si, Breno tentou recuperar o controle de seu corpo para não deixar mais seu peso solto sobre Írios. Eles descolaram os lábios, mas continuaram com os rostos próximos. As respirações desconcertadas ainda se encontravam entre eles. Os olhares ficaram compenetrados a poucos centímetros um do outro, entrando a fundo nas íris e nas suas intenções.

Os dois garotos só saíram do transe quando um estalo surgiu ao fundo. Breno, de forma desajeitada, recuperou o equilíbrio e ficou de pé para olhar ao redor, buscando a origem do som repentino.

Írios demorou mais para se levantar. Ficou um tempo de costas no gramado, mesmo sabendo que também deveria ficar em alerta. Mas suas pernas estavam bambas demais para lhe darem estrutura rápido o suficiente. Seu coração acelerava tanto que ainda estava tentando entender se aquele descompasso todo lhe fazia mal ou se era consequência de um sentimento bom.

Enquanto tentava se recuperar, outro som soou, desta vez mais alto e forte.

Aquele som veio do alto, das copas. As folhas e galhos se mexiam com violência e era difícil ver o que estava causando aquilo. Parecia ser um animal pesado usando o topo das árvores para se locomover. Era como se um enorme gorila conseguisse se balançar entre os galhos na velocidade de um ágil mico.

Breno acompanhou com a vista aquilo se movimentar sobre eles e pegar o rumo da trilha que levava à clareira onde estavam antes. Bastou uma troca de olhares assustados entre os dois garotos para concordarem sobre o que deveriam fazer: voltar para lá e garantir que Pólen e Chiano estivessem em segurança e cientes de que algo estranho se aproximava.

O garoto de cabelo escuro ajudou o jovem magricela a se levantar agarrando com força a sua mão e usando o aperto entre os dedos para arrastá-lo pela trilha. Em silêncio e sem fôlego, correram de volta para a clareira, olhando quase no horizonte as copas se movendo.

Não demoraram para chegar e encontraram Chiano e Pólen de costas para eles e muito próximos um do outro, receosos e encolhidos. Não havia mais sinal do ser do topo das árvores. Apenas uma mulher velha com o rosto sujo e esfumado com uma espécie de pó preto, talvez carvão. Era dela que os outros dois tinham medo.

A mulher se esgueirava entre troncos de árvores na borda da clareira. Era estranhamente alta, magra e desengonçada, com braços e pernas finos e longos.

— Uma seresma — Breno sussurrou para si mesmo, também travado com a visão. Írios conseguiu ouvir e teve vontade de questionar do que ele estava falando, mas um frio tão compenetrante vinha de seu peito que não conseguiu verbalizar nada além de um murmúrio.

— Me dê — a tal da seresma resmungou para Pólen.

Sua voz rouca se projetava no ambiente como se falasse em um microfone conectado a caixas de som instaladas em todo o redor. Ela olhava direto para a garota com seus olhos brancos. Esticou o braço fino em sua direção, com a palma da mão pálida para cima, como quem quer receber algo. Os dedos longos e esguios estavam pintados com o que parecia ser sangue ressecado. A mulher se escorava no tronco como se não conseguisse manter de pé a estrutura do próprio corpo delgado.

— Me dê o menino — ela continuou.

Pelo gesto que Pólen fazia, Írios entendeu de qual menino a seresma se referia: a garota segurava com força a miniatura da urna de Eichler que estava pendurada no tiracolo, na parte de trás de sua cintura. A garota recuava com passos muito tímidos e lentos na intenção de não deixar seus movimentos serem notados pela mulher. Afastava a urna ainda mais para suas costas, fora do campo de visão da bruxa.

Breno e Írios tinham a vantagem de estarem fora do alcance do olhar da mulher, escondidos por Pólen e Chiano. O garoto de cabelo curto cutucou Írios e apontou para suas duas mochilas no chão, ao lado da fogueira em brasa. Elas estavam mais perto de Írios, que sacou o pedido do outro e já agachou-se devagar e cuidando para se manter oculto pelo corpo de Chiano. Puxou com o pé as mochilas pela alça.

Afobado, Breno tentou resgatar lá de dentro sua adaga, mas as copas voltaram a se mover com violência. Os dois olharam para cima e notaram que, dessa vez, as folhas se moviam em direção à Pólen e Chiano. Por um momento, temeram pelos dois, mas os galhos se agitaram para além deles. Até alcançar a seresma.

O que se movia pelas copas finalmente se revelou. Caiu do alto, pousando ao lado da seresma. Era uma massa escura e sem forma definida num primeiro momento. Se espatifou no chão feito uma gosma, mas logo se ergueu.

— Que droga é essa? — Breno murmurou hipnotizado e olhando para aquilo que ainda tentava entender se tratar de um ser vivo ou um objeto amaviado completamente estranho. Se Breno não sabia o que era, Írios muito menos saberia. Então abraçou a estranheza e parou de tentar entender. Só ficou encarando.

O desenho de Chiano, Breno pensou quando a forma se contorceu e pareceu perder um pouco do aspecto de éter para ficar levemente mais sólida. Do seu centro se expandiram espinhos que logo tornaram-se braços com formato de foices. O ser girou e alcançou a seresma. Írios até imaginou que ela estava sendo atacada, mas, pela calma da bruxa, supôs que ela soubesse o que estava acontecendo.

A massa escura tomou conta das costas corcundas da mulher e se projetou até o topo de sua cabeça habitada por poucos e ralos fios de cabelos brancos. Parecia servir para ela como um exoesqueleto que a ajudava a manter-se de pé. Depois, outros espinhos surgiram, desta vez da região de sua cabeça. Eles se alongaram até o chão, fincando as pontas sobre a terra como patas de aranha e elevando o corpo da mulher para o alto até que seus pés deixassem de tocar o solo.

Enquanto a bruxa e a forma se misturavam, Chiano e Pólen aproveitaram para dar alguns passos para trás em direção à fogueira para tomar mais distância. Mas o tempo foi curto. Logo a seresma também deu passos com as garras em direção à clareira, mantendo a mão esticada para Pólen.

— O garoto — pediu mais uma vez, agora levemente mais impaciente.

Pólen reuniu o pouco de coragem que havia em seu corpo para fazer que não com a cabeça. Sua testa estava repleta de suor amedrontado. Em resposta, a seresma esticou ainda mais o braço, mostrando como ele era mais longo do que parecia.

— Ele me trouxe aqui. Agora precisamos dele para ir embora — sua voz grave e projetada era puro ressentimento.

Algo que Írios pensou por um breve momento foi que, apesar do aspecto horroroso da seresma, ela ainda estava sendo amigável, pedindo pelas cinzas. Porque nitidamente poderia usar da força ou magia para tomá-la de Pólen.

Breno arrepiou-se todo com a possibilidade de perder as cinzas do amigo para uma bruxa como aquela. Foi quando Írios notou que ele já tinha as mochilas bem perto de si. Segurava a espada em uma das mãos e um pequeno ovo azul com a outra. Ele apertou o ovo para quebrá-lo e deixar a clara e a gema escorrerem entre os dedos.

Antes que o líquido chegasse aos seus pés, ele se transformou numa ilusão, numa réplica do tirante de Pólen com a miniatura da urna na ponta. Írios ficou encantado não só com a maracutaia, mas com a antecipação dela: o ovo devia estar preparado desde o começo da viagem para casos de emergência como aquele.

Antes que a bruxa resmungasse mais uma vez para Pólen, Breno gritou ao fundo e em pleno pulmões:

— Taco! Troca!

O código clássico do esporte praticado pelos dois foi o suficiente para que Pólen entendesse o que o amigo queria. Não deu outra. Pólen saltou para trás, pulou a fogueira e encontrou com Breno no meio do caminho entre eles. Rápidos, eles bateram as palmas ainda no ar e os dois tirantes trocaram de lugar sobre seus ombros diversas vezes, confundindo todos sobre qual era de fato o real e qual seria a réplica falsa. Mais uma ilusão pré-preparada entre os dois.

Breno voltou para Írios, pegou sua mão e o arrastou de volta para a trilha. Írios agarrou as mochilas e acelerou o passo como nunca tinha feito antes na vida. Pólen pegou o caminho contrário e se enfiou na mata, correndo enquanto desviava das plantas e galhos.

Chiano ficou travado por um tempo, sem entender a deixa. Ele encarava a bruxa com as garras pretas e apenas quando ela e a forma se dividiram novamente que ele saiu do transe. Tentou correr para a direção da trilha que Breno e Írios pegaram, mas a forma saltou sobre ele e logo arqueou uma das garras para sumir entre as copas das árvores. Chiano jurava ouvir a voz de Amélie vinda da direção daquelas garras pretas.

Já a bruxa passou ao seu lado para correr atrás de Pólen. Ela usava seus braços longos para segurar os troncos e puxar seu corpo pelo caminho, quase como faziam os bichos preguiça.

O garoto loiro sabia que não podia atacar nenhum dos dois seres — seria aniquilado facilmente pelo animal que desconhecia ou pela bruxa centenária. Então agarrou sua bolsa e disparou atrás de Pólen e da seresma, mas tropeçou e continuou na clareira, em silêncio e espantado.

Os galhos riscavam o rosto de Pólen e acertavam seus olhos, deixando a corrida totalmente descontrolada e sem perspectiva de para onde estava indo. Mas não importava o caminho. Só queria ir para o mais longe possível. Apertava o tirante com força, como se qualquer movimento delicado do vento pudesse fazê-la perdê-lo. Não tinha como saber se a urna em seu ombro era a verdadeira, mas a defenderia como se fosse.

Desgraça, Eichler. Ela pensou, irritada, com medo e confusa. Que merda você foi arrumar com uma bruxa?

A seresma, mesmo esguia e com aparência frágil, tinha muita agilidade para se impulsionar pelos troncos das árvores — afinal, seus braços pareciam catapultas para alavancar seu corpo leve. Pólen deu uma olhadela para trás e a viu se aproximar cada vez mais. Já tinha corrido em linha reta o suficiente, então começou a preparar uma leve curva para conseguir dar meia volta e ainda se manter longe da bruxa. Queria voltar para a clareira para não correr o risco de se distanciar demais do grupo.

Numa corrida contra uma bruxa, Pólen sabia que estava em tremenda desvantagem. Ao contrário daquele ser que pouca vida tinha, a garota possuía um corpo que se cansaria em breve. Precisava se proteger no único local seguro que havia a quilômetros de distância, o refúgio de Hugo.

A volta foi longa e cansativa, mas deu certo. A sola do seu pé doía, as canelas queimavam e a respiração já estava descompassada a ponto de dar aquelas pontadas incômodas na boca do fígado.

Entrou na clareira, ainda ouvindo a seresma gritar pela urna atrás dela. Pólen viu Chiano ajoelhado perto da fogueira e encarando com olhos vidrados o mais absoluto vazio.

— Ei, pamonha — ela protestou balançando o corpo dele. — Vamo dar no pé!

— Eu ouvi de novo! — Chiano resmungou enquanto se levantava forçadamente pelo puxão de Pólen. — Amélie! Dentro daquele bicho!

— Que se dane — ela resmungou num berro vendo a seresma se movimentar na borda da clareira. Num pulo e ainda arrastando o garoto, correu para a entrada do refúgio e se embrenhou para dentro dele.

Correram até o fundo. Os animais na estufa estavam agitados e se debatendo nos vidros. Alguns sangravam e gritavam. Era a presença da bruxa. Ela parou na entrada do refúgio, ficou olhando para dentro dele e berrou a pleno pulmões com sua voz consternante:

— Me dê o garoto! O garoto!

Pólen ouviu seus passos vindos do corredor. Mas, depois, tudo se fez escuro e silêncio. Pólen havia encontrado a pequena porta embaixo de uma das mesas de pedra. Arrastou-se por baixo dela seguida por Chiano e os dois engatinharam por um túnel frio e úmido. Quando o silêncio e uma brisa vieram lá da frente sabiam que estavam seguros.

Chiano olhou para trás e notou que o caminho por onde vieram não existia mais. Não havia como retornar, apenas seguir em frente.

Uma das coisas que Valen mais gostava de viver nas Copas, apesar dos diversos compromissos no dia, era que podia acordar a hora que quisesse. Despertar apenas quando o corpo dissesse ser necessário era simplesmente maravilhoso.

Afinal, a ideia da Sociedade não era ser algo muito engessado como um exército regrado, e sim um esforço mediano — porém necessário — antes de um ponto de virada decisivo na vida de cada um que vivia por lá.

Mas naquele dia a garota foi cutucada em sua rede. Acordou assustada, interrompendo um sonho longo e tortuoso. Sonhava que estava em Àttinos, em sua antiga rotina, mas, desta vez, vivendo sozinha na cidade. Isso porque todos haviam desaparecido — todos tinham ido viver nas Copas e atravessado o portal, menos ela. Valen ficou. E tinha um amargo no peito por causa disso:

No sonho, não sabia exatamente por que ela não foi até as Copas — e também por que fora a única que restou. Mesmo sabendo que queria fugir de lá.

Daqueles sonhos que carregavam um resquício de lógica do mundo real, mas sem obedecer às suas regras.

No sonho carregou o fardo de viver numa cidade fantasma e estava presa nas suas obrigações de antes, da sua vida anterior. Acordava cedo com os pássaros a despertando às seis em ponto na janela do quarto do terceiro andar todos os dias. Preparava o café da manhã para ela e a tia — mesmo que ela não estivesse lá. Deixava o prato com omelete e a xícara de café na mesa.

Se trocava ouvindo músicas no rádio do quarto e descia para pegar a bicicleta. Pedalava vinte minutos por uma estrada deserta até chegar no centro da cidade. Sentava na carteira da sala de aula e ficava olhando o quadro como se tivesse alguém lá para ensiná-la.

Almoçava na cantina e depois ia para as oficinas de dança e costura. No intervalo da tarde, pulava o muro dos fundos da Academia pra fumar um tabaco escondida no matagal. Passava um perfume amaviado para disfarçar o cheiro e voltava para a costura.

No fim do dia, ia até a Praça Abandonada praticar duelo e batalhava sozinha. Por fim, ajudava a suposta presença da tia a preparar a janta, estudava e ia dormir.

Talvez o sonho fosse um lembrete de que sua vida era nada daquilo que queria pra si. Mas que suas escolhas poderiam ter consequências sérias.

Antes de ser acordada, viu uma outra figura humana em Àttinos pela primeira vez. Era Eichler. Acenava para ela, sentado no balanço do parquinho onde eles costumavam conversar antes de entrarem para a aula.

Acordando um pouco desnorteada, percebeu que era Miguel quem a cutucava pelo tecido da rede. Ele estava com um sorriso contido no rosto. A garota esfregou os olhos e sentou-se na rede para ouvir o que ele tinha para falar, mas o homem apenas estendeu as mãos para seu peito e mexeu em um dos colares que ela usava.

— Pelo trabalho exemplar — ele comentou retirando dez contas do fio de prata. — E por ter decidido ficar e resistir às suas visitas.

— Obrigada — ela comentou orgulhosa, mas ainda com a mente confusa das primeiras horas da manhã.

— Desse jeito, vai conseguir partir ainda esse mês — após comentar, ele saiu da oca levando consigo as contas vermelhas.

Um choque de ânimo percorreu o corpo da garota dos pés até o último fio ruivo. No dia anterior havia assistido Melinda, Nylon e Roberto atravessarem o portal. Seu peito estremeceu de inveja vendo-os desaparecer pelo fino tecido que balançava no vão de duas árvores tombadas no fundo da clareira das Copas.

Mas sua alegria foi estremecida naquele mesmo dia, horas depois, enquanto ajudava a limpar o galinheiro. Natasha veio afobada e sussurrou em seu ouvido:

— Você tem mais uma visita.

Não imaginou que Pólen e Breno retornariam tão rápido. Imediatamente quando ouviu a notícia, desejou que eles tivessem desistido de seus planos e estavam retornando à Àttinos. Seguiu Natasha e sua fala seguinte a deixou confusa:

— Suspendi ele em sono porque vai ser mais fácil de ajudar. Tava bem agitado, também. Não vou poder ajudar dessa vez, nem mandar pra enfermaria. Vai ter que se virar. Mande ele embora antes que o Miguel veja, ok?

Na oca mais distante da clareira, Valen encontrou Julian deitado direto na terra vermelha do chão. Ficou o fitando por um tempo e tentando entender o que raios ele fazia ali. Mas logo se pôs a ajudá-lo. Tentou conter o sangramento dos seus cortes e costurou com fio de arnica. Só depois de um tempo que ele começou a abrir os olhos.

— Claro que não é o nível Pólen de qualidade — Valen comentou enquanto passava com um pincel pequeno o líquido escuro sobre a pele morena do peito esquerdo de Julian -, mas acho que dá pro gasto. Já tou quase virando uma curandeira experiente por aqui, tou acostumando já.

Valen tentava ser descontraída, mas a feição do outro garoto era cismada — por mais que não deixasse de jogar um sorriso charmoso para a fala dela. Eles se entreolharam por um tempo, preocupados um com o outro, e depois Valen tirou uma mecha de cabelo do rosto do rapaz. Ele ainda estava com os olhos fundos de sono.

— Quem fez isso? — ela perguntou já entendendo que os cortes vinham de uma lâmina afiada de outro feiticeiro, e não de um animal ou um acidente qualquer no meio da mata.

— Émile — Julian murmurou decepcionado.

A cara de confusão de Valen foi impagável. Julian se pôs a contar o que aconteceu nos últimos dias. Do agouro recebido pelo beija-flor até o encontro aleatório com Émile na floresta. Reforçou que estava preocupado com a viagem de Breno e Pólen. Valen também começou a sentir o mesmo enquanto ele contava. Um peso arrematou seu peito. Era uma angústia por não ter sido mais contundente para convencê-los a desistir quando passaram pelas Copas.

Julian continuou sua história. Contou que ajudou Émile a se livrar da sua confusão mental e a entender o que havia acontecido, mas tudo era muito nebuloso: só sabia que seu amigo havia sido levado por uma criatura que não conseguiram ver porque se embrenhava pelas copas das árvores. Então decidiram seguir caminho porque Julian conseguiu usar uma maracutaia para seguir o ser misterioso.

Émile tinha muitos momentos instáveis. Alternava entre a algazarra mental do ataque que ele e seu amigo sofreram com a raiva fulminante e praticamente irracional de Chiano. Mas Julian tentava mantê-lo são com conversas calmas e água benta.

A trilha do monstro morreu nas redondezas das Copas, onde Émile teve um acesso de raiva por causa da falta de luz no fim do túnel. Foi quando discordou de Julian, que preferia montar acampamento. Émile queria continuar a trilha a qualquer custo, mesmo que não soubesse para onde ir.

— Ele te machucou em mais algum lugar? — Valen pediu. Já tinha costurado dois cortes em sua pele, um no peito e outro na costela, e agora passava a seiva para ajudar na cicatrização.

— Não, fora isso só levei umas pancadas nas pernas. Tá ficando meio roxo, mas não dói.

— Você viajou e ajudou ele por dias e ele te atacou, do nada, assim? — Valen estava indignada com a história que ouviu, principalmente por causa da violência.

— Que nada — resmungou. — Desde o dia que achei ele deu pra ver lá no fundo dos olhos que ele tava mal, com alguma coisa. Achei que fosse só um quebranto, por isso insisti pra ele voltar pra Àttinos, mas ele não queria. Preferi acompanhar ele do que deixar se enfiar pela periferia assim sozinho. E outra: tínhamos que dar parte pelo sumiço do outro mano, né?

— Deuses. Você sempre tem que ser bonzinho e ajudar, né? — Valen lamentou como se aquele traço da personalidade do amigo fosse algo negativo.

— Só não consegui ajudar você — ele lamentou para provocá-la. Olhou no fundo dos olhos dela com tanta intensidade que o coração da garota deu um pulo em falso. — Senão você não estaria aqui nesse lugar.

— O Émile deve ter sido possuído por alguma coisa — ela mudou de assunto e desviou o olhar do rapaz para se concentrar no ferimento. — Ele deve estar muito aberto e vulnerável…

— Imaginei mesmo. Pra me atacar do nada e fugir desse jeito… Ele ficava resmungando e resmungando o nome de Chiano, sei lá porquê. Ficou pior a cada dia. Não sei o que esse moleque otário também tá fazendo por aí na periferia, mas se o Émile encontrar ele, vai fazer picadinho dele.

— Chiano? — Valen pediu, preocupada. Deixou o pincel cair no chão de terra batida.

— Que têm ele? — a preocupação de Valen começou a preocupar Julian.

— Julian, ele tava com o Breno e a Pólen. Tá viajando com eles.

Os dois se olharam pasmos por uns segundos e depois um alerta começou a apitar em ambos.

Na direção oposta de Pólen e Chiano, Breno e Írios corriam a todo vapor. Írios era praticamente arrastado pelo outro garoto, que o segurava forte pelas mãos. Seus dedos estavam suados e escorregadios, mas o medo era tanto que sentia a segurança de que aquele laço não seria facilmente desfeito, mesmo com a turbulência toda da corrida.

A trilha acabou numa curva íngreme, então saíram dela e se enfiaram na mata para não perderem o ritmo da fuga afobada, mas logo ficou claro que aquela também não era uma boa escolha: os galhos os forçaram a diminuir a velocidade e, acima deles, o monstro misterioso chacoalhava as copas das árvores impiedosamente rápido.

Breno se perguntava por que ele ainda não havia os atacado já que já tinha os alcançado pelo alto há tempos. Por instinto e medo, eles continuaram correndo até que perceberam que as copas balançavam mais adiante, em sinal de que o ser tinha os ultrapassado e tomado certa distância.

Foi quando, sem mais nem menos, as copas pararam de se remexer e afogaram a mata num silêncio completo. Era o fim deles, os dois garotos pensaram. O ser desceria até o chão na frente deles e com suas pinças enormes ceifaria-os em pedacinhos, imaginaram. O pavor foi tanto que as canelas dos dois simplesmente travaram. O silêncio foi empurrado pelos seus corações pulsando descompassadamente e pelas respirações secas e esbaforidas.

Mas nada aconteceu. Nenhum sinal do monstro nos segundos seguintes.

— Vamos voltar — Írios suplicou, sem fôlego.

Também sem saber como se livrar daquilo, Breno acatou e virou os dois para o sentido contrário de onde estavam partindo. Só que não puderam andar por muito, já que outra figura interrompia o caminho de volta.

Eles travaram novamente tamanho susto. Não era o monstro enegrecido, mas a imagem que encontraram era igualmente horripilante, principalmente por de cara já saberem do que se tratava.

Era um homem com roupas esfarrapadas, sujas e ralas. Ele era curvado para frente por causa da corcunda nas costas. Os braços eram curtos e secos, assim como as canelas. O rosto era inchado e desproporcional ao restante do corpo mirrado. Os olhos eram pequenos, mas expressivos e ficavam em alturas diferentes — o direito mais alto, no meio da sobrancelha, e o esquerdo embaixo, ao lado da narina -, e também tinha a pálpebra inchada. A boca era ampla e banguela.

O velho tremia como quem sentia o frio do pico de uma montanha. Uma de suas mãos estava dentro do bolso do shorts amarrotado. De sua abertura vinha uma luz forte e vacilante, tal qual de uma fogueira. Era a chama que carregava pela floresta adentro. Quando a viu, Írios lembrou-se de Chiano contando sobre aquele espírito errante, o macavenco, que rondava a floresta em frenesi para manter a sua chama sempre em segurança e acesa.

Sua presença era desproporcional ao corpo singelo — Breno percebeu que até mesmo a criatura da seresma havia ficado em silêncio para não incomodar o macavenco. Por isso, apertou com mais força ainda a mão de Írios para que ele entendesse que não deveria se mover, muito menos interagir com o velho que estava fitando uma árvore seca a uns dez metros deles. Precisavam apenas que ele voltasse a andar para seja lá onde estivesse indo, de preferência sem vê-los.

O conto do macavenco era praticamente um clássico nas rodas de fogueiras dos escoteiros de Àttinos. Isso porque era um tipo raro de espírito chamado de sublime — passava parte do dia com uma forma física e parte em forma etérea, ao contrário da maioria, que só assumia uma ou a outra. Isso fazia com que ele pudesse aparecer em locais aleatórios do condado. E sua forma física era, além de feia, impulsiva e inesperada.

Ele parecia ser inofensivo à primeira vista, principalmente porque sua principal missão era manter a pequena chama acesa — ela já era mágica, então dificilmente morreria com o vento ou falta do que queimar. Mas ela enfraquecia na presença de outros seres; e o espírito sabia disso, por isso atacava quem quer que passasse na sua frente, sempre culpando os outros pelo enfraquecimento da chama em seu bolso.

O macavenco estrangulava quem ele implicava até que parasse de roubar o ar que sua chama usava para ficar viva.

Às vezes, ele usava a chama para acender uma fogueira e ficava dias a fio admirando-a. Era um dos únicos instantes em que ficava menos agressivo, pois sua fissura no fogo era tanta que ficava alheio ao seu redor. Por isso, o principal ensinamento da história do macavenco era não invadir acampamentos alheios, muito menos seguir fumaça pelas florestas.

Mas foi justamente no fascínio pelo fogo do macavenco que Breno se apegou para tentar se livrar dele, mas precisava ser rápido e cauteloso. Primeiro para não serem vistos pelo sublime, segundo para não dar brecha para o ser da seresma atrás deles atacar também.

As copas se moveram no fundo mais uma vez. Írios espiou e encontrou o monstro descendo do alto até o chão vagarosamente, como se também não quisesse chamar a atenção do macavenco. Ele usava suas pinças para conter o seu corpo espesso e volumoso, fisgando-as nos troncos das árvores. Foi tateando até conseguir tocar o chão.

Breno precisava agir rápido, ainda que com calma. Então buscou a sua adaga na cintura da calça e colocou-a, com um movimento leve, na frente do seu peito. Puxou todo o ar que conseguiu para os pulmões, mesmo sendo pouco por causa da fadiga da corrida e pelo medo. E enfim evocou na frente dele e de Írios o maior escudo que pôde. Era alto, plano e largo, o que significava que exigia ainda mais esforço, concentração e fôlego para mantê-lo evocado e forte. E, caso o macavenco decidisse avançar sobre eles, precisaria se concentrar ainda mais para que conseguisse contê-lo distante sem que o escudo se quebrasse e os deixasse vulneráveis.

Írios entendia o esforço que o outro garoto precisava para invocar aquele escudo, mas não parou por aí: Breno, num movimento mais furtivo e rápido, soltou a mão de Írios e alcançou a varinha do bolso. Apontou-a para o monstro atrás deles, tomando cuidado para não mover a adaga. O estrangeiro sentiu o calor se reunindo sobre a madeira.

Um estampido soou seguido de uma pequena luz vermelha que atravessou a floresta até encontrar o monstro preto, que já estava totalmente apoiado ao solo. Uma chama grande surgiu naquela região, irradiando sobre o seu corpo disforme.

O simples estalar do fogo queimando no monstro e no gramado abaixo dele foi o suficiente para ativar todos os instintos selvagens e desesperados do macavenco. Ele olhou para aquela direção e avançou com passos estabanados e rápidos. Em pouco tempo estava sobre o escudo. Írios sentiu o corpo todo gelar de medo num milésimo de segundo, mesmo percebendo que o macavenco tinha olhos apenas para o fogo, como se ele e Breno nem estivessem por ali.

Írios entendeu logo o que Breno queria com aquele plano: atrair o macavenco para o monstro desconhecido e distraí-los um com o outro para que os feiticeiros ganhassem tempo e margem para fugir, mas não esperava do garoto o seu seguinte movimento: Breno abaixou a adaga para o escudo desaparecer e empurrou Írios para o sentido contrário do seu. Enquanto isso, içou seu corpo para trás para abrir caminho para o macavenco se chocar contra o monstro.

Com o empurrão, Írios tropeçou no próprio pé e, sem equilíbrio, escorregou e caiu pela encosta. Deslizou sobre as folhas e tentou fincar os dedos na terra úmida para parar de descer. Foi difícil, mas conseguiu fazer o corpo parar de se mover, a ponto dos dedos ficarem todos fracos e doloridos.

Já Breno caiu dentro de um arbusto grande, desmaiado. O escudo e as chamas, somados à tensão, tinham drenado totalmente suas energias a ponto de esgotá-lo por completo. Não planejava simplesmente desacordar assim, principalmente por estar tentando proteger a urna de Eichler no tirante — que nem sabia se era mesmo a real.

Mas pelo menos seus esforços para a distração tinham dado certo: o monstro se remexia com medo do fogo quando o macavenco se debruçou sobre ele, tentando arranhá-lo. Os dois se digladiaram por um tempo — o monstro não sabia se afastava dele o velho espírito ou se tentava apagar as chamas que o rodeavam. Breno não sabia se o fogo se alastraria sobre seu corpo — afinal, parecia ser meio líquido -, mas pelo menos as labaredas estariam ao seu redor.

Os dois monstros grunhiram, o que deu a Írios um maior senso de urgência. Fervilhava em seu peito uma sensação nova:

É claro que ele se preocupava com a segurança de Breno assim como de Pólen e Chiano. Estavam naquela jornada perigosa juntos e precisavam ficar bem para cumprir o objetivo, Írios tinha isso em mente.

Mas aquilo despontando na boca do seu estômago era novidade. Era essa mesma preocupação, mas mais intensa, como se agora houvesse um novo fio traçado entre ele e Breno. Aquela era a sensação de quem entraria na frente da outra pessoa para tomar um feitiço em seu lugar. Um arrepio que combinava medo de não sentir mais o toque macio das mãos e a textura imponente dos lábios de Breno.

Írios recuperou o equilíbrio com dificuldade por causa do terreno inclinado e içou o corpo para cima e de volta para onde estava antes do empurrão.

Esbaforido, tirou do caminho os galhos e folhas para tentar encontrar Breno, não sem antes olhar para o lado e ver os dois seres desesperadamente se enfrentarem. O fogo tomava ainda mais a forma escura enquanto o macavenco tentava arrancar com força duas das de suas garras, mas elas eram afiadas e cortavam sua pele fina. O éter parecia estar mais irritado e impaciente — assustador como conseguia transmitir sentimentos mesmo sem um rosto, apenas com ruídos, gritos e seu movimento.

Írios deu braçadas no arbusto para encontrar o corpo quente e mole de Breno. Puxou-o para fora com dificuldade. Quando alguém estava desacordado, parecia pesar ainda mais. O problema era que ele também estava com o corpo bambo por causa do esforço físico, medo e ansiedade. Por isso cambaleou quando puxou para si o corpo de Breno para tentar pegá-lo no colo.

Foi nesse mesmo instante que o monstro da seresma deu um último rugido. Estava cansado da disputa com o espírito e das chamas que ardiam, então abocanhou o macavenco para dentro de seu próprio corpo. Írios olhou diretamente para a luta, mas aquele era um péssimo momento para atirar os olhos contra o monstro porque ele emitiu uma rajada de luz colorida e forte, que irradiou e esquentou todo o seu redor.

Írios ficou cego na hora. Sentiu os olhos arderem e a visão ficar branca. Cambaleou mais uma vez e caiu novamente no mesmo barranco que antes, dessa vez levando Breno junto. Os dois rolaram na terra por uma distância maior que Írios tinha ido antes. Para Írios, nada fazia sentido: não via nada, a cabeça doía, o mundo girava e o arranhava na pele.

Rolaram até baterem juntos numa placa fincada no meio da floresta fechada. Foi então que os dois, após o toque na madeira pintada de vermelho, mudaram o percurso da queda um pouco para o lado e diretamente para uma fenda que rasgava o solo da encosta e emitia uma luz alaranjada.

Caíram dentro dela e foram levados para um local que teriam muita dificuldade de compreender.