Por Onde Andou Eichler?
21 A floresta entre florestas
25 de Agosto de 2012
Querido Bernardo,
Desculpa pela última carta. Faltaram uns detalhes, eu sei. Mas é que tudo aqui tem sido meio difícil desde o velório…
Enfim. Voltando para onde parei desde a última vez que te escrevi:
Nós caímos naquela fenda de anomalia e tudo ficou absolutamente esquisito.
Eu sei que não se deve ficar procurando muito sentido lógico no mundo dos feiticeiros, mas a floresta onde eu acordei era muito mais contraproducente que o usual.
Não sei quanto tempo fiquei acordado — se dormi por umas horas, ou se acordei imediatamente quando pousamos lá. Mas quando abri os olhos pela primeira vez, fiquei tonto que só.
Primeiro porque aquele lugar era claro como se os sóis tivessem queimando bem de perto. E sabe o mais bizarro disso? Lá não tinha céu!
Quando eu olhei pra cima pela primeira vez, tomei um puta susto. Porque a primeira coisa que vi foi eu mesmo! Um reflexo perfeito de tudo que tinha ao meu redor, como se acima das copas das árvores tivesse um grande espelho que preenchia absolutamente todo o espaço do céu.
Então era como se aquela floresta fosse duplicada — a do chão, e a do céu — e dava uma sensação claustrofóbica, principalmente porque era uma floresta densa, com aspecto de antiga, com árvores centenárias e largas. Mesmo assim, ela era ampla, porque, se liga: os troncos, galhos e absolutamente todos os vegetais naquelas extensões eram transparentes como vidro e cristal — talvez até fossem feitas disso. Dava para ver a floresta se alongando quase infinitamente através daquelas superfícies translúcidas.
Já as folhas, apesar dos formatos e tamanhos diferentes, não variavam tanto nas cores: oscilavam entre amarelo e vermelho em tons outonais. Elas eram as únicas partes das plantas que pareciam orgânicas de verdade.
Mesmo que a textura e o material dos troncos fossem iguais, as árvores até que eram diferentes umas das outras e não formavam uma mata uniforme. Mesclavam entre altas, baixas, largas, finas, com folhas grandes, pequenas, longas.
Depois que dei uma olhada rápida só pra eu me situar de onde estava, um assobio chato começou a cutucar o fundo do meu ouvido.
Sabe, quando cheguei do Outro Lado para o mundo dos feiticeiros, também senti algo parecido. Claro, tinha todo o transtorno que eu sentia bater no meu corpo por causa da densidade do salto entre os dois lugares, mas também sentia refletido no meu corpo uma sensação, um sentido extra, que aquele mundo era simplesmente outro. Não era apenas um fato consumado, racional. Eu também sentia em cada célula do meu corpo que ali era repleto de magia.
E aquela floresta em que eu acordei não parecia o mesmo mundo de onde vim. Na verdade, não parecia com nenhum dos outros dois mundos, nem o dos humanos, nem o dos feiticeiros. Parecia um terceiro, pra ser sincero. Ele vibrava diferente.
Ali, o vento não uivava o alento da magia; a brisa não trazia a marca das bilhares de voltas ao redor dos sóis e as plantas não sussurravam a cantalíngua, a língua das coisas, lá no nível mais delicado das ondas sonoras que os ouvidos humanos podiam perceber.
Depois daquela explosão de sentidos confusos, eu finalmente consegui me levantar. Eu tava tão imerso na curiosidade sobre o ambiente que já tava esquecendo do coitado do Breno.
Quando bati os olhos nele, um arrepio escalou minha espinha. O Breno ainda tava desacordado e pálido feito leite. Foi por causa de tanto esforço que tinha feito pra salvar a gente do macavenco e daquela criatura misteriosa. E o pior é que ele ficou assim por muito tempo. Acho que a partir dali eu vivi as minhas piores horas desde que fugi do mundo dos humanos.
[...]
Írios puxou Breno sobre as folhas até conseguir deixá-lo encostado no tronco translúcido de uma árvore. Sentiu no toque da pele um ardor incomum e notou que uma forte febre efervescia de Breno como se uma fornalha estivesse acesa dentro dele. De súbito, uma preocupação estremeceu o garoto estrangeiro.
Írios sempre imaginava-se completamente paralisado naquele tipo de situação — um antigo amigo até costumava brincar que ele jamais gostaria que sua vida estivesse na mão de Írios porque ele travava facilmente ao menor sinal de pressão. Mas o garoto surpreendeu-se consigo mesmo quando olhou ao redor e soube exatamente o que fazer. E, além disso, fez até com certa agilidade.
Tirou das costas de Breno a sua mochila e cavucou dentro dela tudo que precisava. O tirante com a urna de Eichler cintilou quando mexeu no corpo adormecido do rapaz, mas o ignorou por hora.
O primeiro objeto que separou foi a barraca em lata. Não sabia que lugar era aquele e nem quais os perigos podia encontrar, então a proteção dela seria bem vinda. Rompeu o lacre para fazê-la surgir e se montar ao seu lado. Depois, pegou Breno desajeitadamente no colo e o levou até o seu interior. Nunca havia carregado alguém no colo antes e o corpo mirrado de Breno sofreu para sustentar o rapaz. Seus braços e pernas tremiam de fraqueza.
Dessa vez, sentiu nos seus braços a umidade que transpirava do corpo de Breno; estava ficando encharcado e gotas brotavam cada vez mais de sua pele lívida. Precisava dar um jeito naquela temperatura e fazer sua magia decair de alguma forma.
Mas a segurança deles ainda era uma preocupação maior. Enquanto procurava pela lata na mochila de Breno, bateu o olho numa caixinha de madeira com um círculo dourado gravado no topo. Sabia o que era, mas nunca havia usado. Afastou o nervosismo da cabeça porque não era o momento de ficar nervoso com isso. Seguiria o processo que sabia e torceria para que funcionasse.
Dentro da caixa haviam seis pequenas mudas de arruda, cada uma com apenas uma folhinha. Retirou a primeira e segurou com delicadeza na palma da mão esquerda enquanto usava a mão direita para cavucar o espesso tapete de folhas secas para encontrar a terra do chão.
Enquanto afastava as folhas, algo moveu-se entre seus dedos. Foi rápido demais para identificar o que era — Írios jurou ter visto ossos de uma pequena caixa toráxica se mover serpenteando entre as folhas e sumir logo depois. Assustou-se e afastou a mão de lá instintivamente com certo asco e arrepio. Só que não sabia que o que estava vendo era real ou uma ilusão. Se estava de fato em um terceiro mundo, seria normal sua visão pregar-lhe peças até se acostumar com o local. No fim, torceu para de fato ser apenas uma pegadinha da sua mente fraca.
Voltou a cavar até sentir a terra seca na ponta dos dedos. Abriu um pequeno buraco com o indicador e plantou a primeira das mudas. Depois, fez a mesma coisa com as outras cinco restantes na maior velocidade que pôde: todas ao redor da barraca, formando quase um círculo que interligava cada uma delas.
— Meu primeiro anel de arrudas — Írios murmurou, contente para si mesmo, apesar da situação grave.
Quando a última mudinha foi plantada, viu de relance um véu fino e leitoso descer dos céus até o chão, bem em cima do círculo que formavam. Aquilo os protegeria de qualquer ameaça que aquela floresta esquisita decidisse enviar contra eles.
Retornou para a barraca e encontrou Breno arfando e tremendo. Ainda ardia em febre, então Írios puxou uma toalha e a molhou com toda a água benta que trazia em seu frasco. Dobrou e repousou a toalha branca na testa de Breno, mas apenas isso não seria o suficiente. Então Írios botou as palmas das mãos sobre o tecido, fechou os olhos e tentou se concentrar o máximo que podia, por mais que seu coração violento atrapalhasse dentro do peito.
Írios não era bom em domar qualquer elemento — e isso era ainda mais difícil para um jovem feiticeiro que ainda não havia descoberto a sua inclinação. Naquele caso, por mais que sua inclinação não fosse nada relacionada a água ou frio, teria mais facilidade pelo simples fato de já ter passado pelo despertar completo de seus poderes.
Mas fez o que podia: esvaziou os pensamentos e ignorou os próprios sentidos em busca de silêncio. Precisava afastar sensações amargas e invocar a simples frieza e antipatia. Todo o calor de seu corpo deveria se concentrar apenas no seu tórax, longe dos outros membros, para que a friaca percorresse sobre eles.
A ponta de seu nariz acendeu em escarlate em contraste à pele do rosto, que ficava cada vez mais lívida, como se tivesse enfrentando um frio cortante no rosto. Pronto. A água benzida que suas mãos seguravam foi inundada pelo frio que o corpo do garoto empurrava contra ela.
Írios tombou ao lado de Breno por causa do cansaço que a magia lhe cobrou. Sentiu as pernas bambas e uma ânsia subiu-lhe pela garganta, mas a conteve o máximo que conseguiu. Olhou para o outro rapaz, que parecia estar coaxando menos. Sorriu por causa do aparente sucesso de seu plano, entretanto, ainda queria garantir que Breno ficasse totalmente bem.
Colocou a mão sobre o peito quente de Breno e empurrou a camiseta para cima para poder ter pele a pele. Breno precisava de frio e Írios de calor, convenientemente. Talvez a troca entre eles trouxesse algum equilíbrio.
A cabeça de Írios amoleceu sobre o travesseiro ao lado de Breno e, por um momento, lutou para manter-se acordado, mas era inevitável também ser afogado pelo cansaço. Apagou agarrado a Breno numa última tentativa de fazê-lo se contaminar com seu frio.
Quando Írios acordou, o dia ainda estava claro. Ficou confuso sobre quanto tempo havia se passado — se dormiu horas a dentro a ponto de um novo dia raiar, ou se foi tão pouco tempo que os sóis pouco se moveram, apesar de não aparecerem no céu. Na verdade, não havia céu ali, Írios se lembrou.
O ranço que pulsava em seu corpo parecia ser de horas e horas de sono. Deu-se conta que estava entrelaçado ao outro garoto e imediatamente se afastou para evitar qualquer constrangimento, mas Breno ainda estava desacordado. Tinha apenas alguns espasmos nas pernas e resmungava enquanto respirava profundamente. A maioria eram baforadas inaudíveis, e quando seus lamúrios formavam palavras ou frases curtas, soavam desconexas.
Írios ficou sentado ao seu lado boa parte do tempo, compenetrado em seu rosto com uma esperança ansiosa de que aqueles olhos castanhos e desconfiados voltassem a julgá-lo a qualquer momento. Demorou para se dar conta que sentia fome e buscou alguma fruta para se saciar, então imaginou que Breno também podia sentir fome ou sede. Pingou com paciência gotas de água em seus lábios rosados até a garrafa esvaziar, depois ocupou-se apenas em limpar o suor de seu rosto pálido de tempos em tempos. A febre foi baixando aos poucos, mas ainda mantinha o pano sobre sua testa só para garantir.
Enquanto lhe dava água e sua atenção estava totalmente compenetrada na boca de Breno, Írios lembrou-se pela primeira vez com nitidez do beijo que haviam trocado na floresta anterior. Analisou gota a gota de água descer por cada dobra e detalhe dos lábios de Breno e parecia senti-los na sua própria pele.
— Vamos, cara. Acorda logo — Írios lamentou. Não apenas porque queria ver o garoto bem, mas porque precisava dele para que se livrassem daquela situação. Precisavam voltar para Pólen e Chiano, seja lá onde estivessem. Írios tinha confiança alguma que conseguiria fazer aquilo sozinho.
— Eichler… — Breno resmungou aquele nome pela centésima vez. Írios revirou os olhos. Já estava enjoado por aquela ser uma das únicas palavras audíveis que o garoto conseguia lamuriar.
A sensação era de que apenas aquele cubículo dentro da barraca fosse uma zona segura. Lá fora parecia ser um mundo cruel e capaz de consumi-los apenas com uma olhadela pelo zíper da barraca.
Mas o tempo e a falta de reação de Breno deixou Írios cada vez mais agitado e impaciente, principalmente por causa do tanto de luz que emanava lá de fora. Deu-se conta de que aquele lugar era simplesmente um dia eterno.
O tempo passava e Írios não conseguia conceber o quanto. Já Breno continuava murmurando, resmungando e falando o nome do amigo falecido. Em certo ponto, outras palavras também começaram a ficar mais entendíveis, mas eram completamente aleatórias. Pelo menos, junto a isso, sua temperatura também parecia melhorar.
— Você… se foi… e não me disse se me… — o garoto desacordado resmungou a primeira frase completa. Bom, não tão completa assim, pois pareceu se engasgar antes de terminá-la.
Írios olhou atento para Breno, mas não teve tempo de refletir sobre o que de fato aquilo significava. Entendeu apenas que era óbvio que tinha algo haver com Eichler, já que aquele nome não saía da sua boca.
Não teve tempo de ponderar porque um barulho esquisito soou do lado de fora da barraca. Entendeu serem folhas se mexendo e galhos quebrando. Lembrou-se da criatura que usava as copas das árvores para segui-los e desejou do fundo do peito que ela não os tivesse seguido até ali, mas logo os sons sumiram.
O medo e a ansiedade se misturaram de uma forma esquisita dentro dele. Não o suficiente para travá-lo ou fazê-lo continuar escondido na barraca, nem o suficiente para fazê-lo encarar o mundo exterior com a espada alheada em mãos. Apenas o suficiente para abrir um pouco o zíper e espiar lá fora.
O campo de visão era limitado, mas não encontrou ao redor nada diferente do esperado. Apenas um detalhe o chateou: a muda de arruda da frente da barraca estava seca e morta. Era claro que o anel de arrudas deveria ter algum outro processo que ele desconhecia para manter-se ativo e forte.
Saiu da barraca para conferir as outras: também estavam mortas. Queria pensar em uma solução, tentar puxar da memória algo que ajudasse-as a reviver. Se Pólen estivesse ali, com toda certeza resolveria tudo aquilo.
O som de folhas e galhos quebrados voltou e Írios atentamente olhou em sua direção. Encarou uma das criaturas mais esquisitas que já tinha visto até então — e olha que os últimos dias tinham sido intensos nesse aspecto.
Parecia ser uma espécie de rinoceronte. Bem, o formato e a estrutura do corpo lembravam a de um. Só que não sabia se podia chamar aquilo exatamente de um corpo. Pois não havia pele e nem músculos. Apenas ossos e cartilagem.
A caixa torácica era vazia e ampla e as costelas tinham muitos ossos, mas eram finos e lembravam mais o corpo de uma cobra gigante — alongado e esguio. As patas tinham cascos escuros que sustentavam ossos grossos e envergados. O crânio tinha um formato mais complexo, com vários pequenos ossos encaixados, que na verdade não lembravam exatamente um crânio — parecia ter sido montado aleatoriamente por uma criança que brincava de Lego antes de aprender a fazer construções. Ainda na cabeça, um enorme e afiado chifre de queratina se estendia. O animal parecia encarar Írios com ódio, muito ódio, porque dentro da cavidade onde deveriam estar os olhos havia pequenas luzes vermelhas.
Ao lado das costelas se encolhiam outras formações de ossos que pareciam asas gigantes de morcego. Mas ao invés de serem revestidas de pele como nos animais voadores, as asas do rinoceronte eram cobertas de folhas parecidas com as que forravam toda a superfície daquela floresta, fazendo a vez de penas.
O corpo de Írios gelou por completo. O rinoceronte o encarava como um touro que se preparava para avançar contra o pano vermelho que o toureiro bradava para atraí-lo. A qualquer momento parecia que partiria para cima dele e da barraca.
Mesmo com medo, o garoto foi se recolhendo para trás até voltar para dentro da barraca. Olhou Breno rapidamente. Queria conseguir puxá-lo e levá-lo para outra direção, mas não conseguiria fazer aquilo com agilidade: virariam alvos fáceis e seriam atropelados e pisoteados por aquele ser gigantesco lá de fora.
Começou a ver os objetos ao redor para encontrar sua adaga para pelo menos ter alguma arma em mãos, mas não a achou. Ao contrário disso, seus olhos brilharam ao dar de cara com um objeto ainda mais interessante. Pegou-o num supetão e acabou batendo em Breno sem querer, que resmungou e começou a piscar com força.
Írios não tinha tempo para admirar o outro garoto, então voltou muito devagar para o exterior, torcendo para o rinoceronte ter ido embora. Mas lá estava ele, com o mesmo semblante furioso e com o corpo ossudo todo tenso.
Dentro da barraca e tendo uma boa vista do exterior pela sua abertura, Breno acordava aos poucos e processava tudo que via com muita confusão: um lugar esquisito e um rapaz de costas para ele encarando um bicho ainda mais esquisito.
O rapaz tinha algo prateado na mão. O bicho amarelado começou a aumentar de tamanho. Parecia estar indo em direção à eles. Corria e fazia um barulho alto com as patas no chão. Elas levantavam muitas e muitas folhas vermelhas e faziam uma verdadeira chuva outonal.
Tudo ainda ficava meio embaçado na vista de Breno, e mesmo seus instintos — ainda amornados — começando a dizer para seu corpo sentir medo da situação, ele não conseguia deixar de achar aquela cena bonita.
O menino da sua frente então mexeu o objeto prateado e pareceu jogá-lo contra a direção do bicho esquisito. Do nada, aquele objeto mudou de forma e tamanho. Parecia ter virado outro animal, mas esverdeado. Também tinha patas e corria na direção contra o outro bicho. Os dois se atracaram e o bicho amarelado foi impedido de alcançar os dois rapazes. Breno sentiu um alívio e também certa gratidão.
— Obrigado, Eichler — ele tentou resmungar para o garoto do lado de fora da barraca e então adormeceu novamente.
Írios assistiu maravilhado o lobo-besouro degladiar-se com o rinoceronte-morcego-esqueleto. Eles tombaram sobre as folhas e rolaram para os lados algumas vezes até baterem contra uma das árvores e quebrá-la pela metade. Os cacos pontiagudos caíram sobre eles, mas parecerem ferir apenas o lobo, que reagiu e investiu com uma grande abocanhada o pescoço do rinoceronte. O animal de ossos chacoalhou as asas para o alto em desespero e depois as usou contra seu adversário: as pontas da asa fincaram dentro da barriga do lobo. Se não fosse sua carapaça de besouro, teria se ferido também na região das costas e muito provavelmente seria o seu fim.
Írios voltou à realidade depois de um tempo olhando a luta, admirado. Deveria aproveitar aquele tempo ganho. Voltou para dentro da barraca, vestiu uma alça de cada mochila e depois arrastou o corpo molenga de Breno para fora dela. Com dificuldade e de costas para a luta barulhenta dos dois animais, pegou o garoto adormecido desajeitadamente no corpo e correu no sentido contrário daquela clareira, deixando o lobo, o rinoceronte e a barraca para trás, torcendo para que eles não o notassem.
—
Breno acordou com a movimentação turbulenta e a respiração ofegante e pesada de Írios logo acima dele. Sentiu seu corpo suspenso, com braços e pernas vacilantes no ar. Estava sustentado nos braços de Írios e sentia no seu enlaço que o garoto tremia por causa da força que precisava fazer.
Não conseguia ficar com os olhos abertos por muito tempo. As pálpebras pareciam pesadas e o forçavam a devolvê-lo à escuridão completa de tempos em tempos. Queria falar, resmungar, questionar, mas ainda não podia. Tentava também descobrir onde estava nos momentos em que sua visão funcionava. Era apenas uma imensidão turva, amarela e vermelha que encontrava.
Fora a visão, os outros sentidos iam voltando com mais velocidade. Estava frio e sua pele era úmida de suor. Os membros eram fracos e moles. Se não fosse o colo de Írios, não conseguiria se mover um centímetro sequer. Inclusive, Írios parecia agitado. Claro, com aquela corrida toda. Pareciam estar fugindo de algo. Seu arfar não era apenas por causa do cansaço.
Deu para perceber que Írios usava toda a sua força para levá-los longe do perigo. Que esforço, pensou Breno. Nisso o estrangeiro era parecido com Eichler, continuou refletindo enquanto sua mente voltava à realidade aos poucos. Írios era esforçado. Além disso, parecia também ter a mesma educação e escuta ativa do amigo falecido. Breno percebia que Írios não deixava passar os momentos em que alguém do grupo parecia mal — ele sempre se aproximava, fosse para conversar algo que distraísse ou sondar para ver se estava tudo bem.
Mas havia algo de muito diferente entre Írios e Eichler. Breno percebeu isso logo de cara. Ao contrário dele, Írios tinha falhas pungentes e claras. Apenas há poucos dias que Breno vinha encarando uma face de Eichler que era mais difícil e o chateava, mas seu falecimento pareceu ter inebriado sua visão sobre aquilo tudo. Os questionamentos e sentimentos avessos à Eichler vieram à tona apenas recentemente, desde quando achou o mapa na parede de seu quarto. E parecia que a cada dia da viagem, Eichler se revelava mais o garoto com falhas e segredos que o gentil e simpático. Mais o Eichler mentiroso, esguio e soturno que o Eichler amoroso e amigável.
Nisso Írios era diferente de Eichler, percebeu. Eichler escondia suas falhas ao máximo. Precisava da imagem de bom moço custe o que custasse. Já Írios era… apenas o Írios. Ele se esforçava para ser bom, era ansioso com isso e ficava tremendo feito vara bamba porque se preocupava em ser uma boa companhia. Era isso. Írios se empenhava para transparecer seu lado bom, e não para esconder suas falhas.
E como que Breno ainda se questionava se amava Eichler do jeito mais intenso se o que vinha tendo contato em relação à ele era cada vez mais a sua pior face? E por que amargava sentimentos ruins sobre Írios se ele era mais límpido e parecido com a melhor parte de Eichler? Eu realmente amava Eichler?, Breno pensou. Talvez Breno não fosse como pensava. Havia a possibilidade de nem mesmo gostar de garotos, na real. Seria apenas ludibriado por Eichler e por suas próprias confusões. Naquele momento, as dúvidas o consumiram tanto que adormeceu novamente.
—
A luz vinha da abertura da caverna. Írios ficou sentado ao lado de Breno em silêncio enquanto ele finalmente despertava por completo.
— É fogo — foi a primeira coisa que o garoto disse quando se escorou na parede de pedra cinza. Tinha dificuldade na fala, mas melhorava aos poucos. — Minha inclinação é fogo.
Írios parecia abatido, cansado. Estava suado e com um semblante cabisbaixo, mas não deixou de sorrir para o outro rapaz. Ajudou-o a ficar numa posição melhor.
— Parabéns — não pôde deixar de reconhecer. Aquilo era importante para um feiticeiro. E justamente não era a ocasião e nem o contexto ideal que o momento merecia. — Agora tá explicado.
— O que? — Breno pediu, confuso.
— Você apagou por completo — a voz de Írios estava derrotada. — Ficou dormindo, ardendo, com febre. Achei que era pelo esforço pra salvar a gente do macavenco. Mas era sua inclinação despertando. Pelo menos é uma coisa boa.
Breno quis responder e agradecer pelo cuidado de Írios, mas engoliu em seco e ficou em silêncio por um tempo. Em parte estava contente por finalmente ter despertado a sua inclinação, apesar de ela não ser tão misteriosa antes. Suas explosões de humor, revoltas e ações de raiva faziam total sentido com o fogo. Precisaria lidar com aquilo dali pra frente.
A inclinação de um feiticeiro não era apenas uma revelação, uma afirmação de sua identidade mágica. Mas sim uma indicação da controvérsia entre sua expressão como pessoa e a manifestação de seu poder: jamais poderia dominar o fogo por completo se não aprendesse a equilibrar o seu temperamento. Fogo exigia ira e ódio para ser manipulado. E abusar desses sentimentos o tornaria destrutivo, e não um feiticeiro poderoso. Era a linha tênue que todo feiticeiro tinha que desenvolver durante sua vida. Por isso a inclinação era mais uma indicação de dilemas do que um caminho para o pleno poder.
— Onde a gente tá? — Breno perguntou tirando a atenção de Írios para a fenda da caverna.
— Não sei — ele respondeu com pesar.
Breno se levantou, apesar das pernas bambas. Írios quis ajudá-lo, mas ele disse que queria tentar sozinho e dispensou seu apoio. Escorou-se na lateral da caverna e caminhou em direção à luz. Quando encarou o exterior, fechou os olhos por conta daquela luminosidade toda. Depois, a analisou com atenção.
— Puta merda — ele lamentou quando se deu conta de onde estavam.
A ansiedade efervesceu no estômago de Írios. Ver que Breno reconheceu o lugar o deixou até aliviado, mas o susto na voz do garoto não o agradou. Ainda mais porque ele demorou para se explicar. Espichou o corpo metade para fora da abertura da caverna e ficou olhando ao redor para examinar melhor os arredores.
— Isso não é exatamente um lugar — Breno contou quando voltou para dentro da caverna.
— Como assim? — Írios pediu. Era aquela velha história: podia se esperar tudo do mundo dos feiticeiros. Mas um lugar que não era um lugar já parecia demais para a mente do garoto.
— Não tá sentindo? — Breno indicou o ouvido com seu polegar. — Esse ruído. Essa… vibração. Não é o nosso mundo. Não é… a gente de verdade.
— Você tá me assustando — Írios confessou. Ele se recolheu para o fundo da cavidade.
— Isso aqui tudo ao nosso redor não é nada assim. É só como nosso cérebro limitado interpreta algo que a gente não consegue entender.
— O que isso quer dizer?
— A gente entrou numa anomalia. Uma camada entre o meu mundo e o seu mundo, um lugar fantasma — Breno desembuchou. Parecia preocupado. — Uma das várias camadas que os espíritos usam.
— Mas como isso pode acontecer? — Írios estava confuso. Quanto mais Breno explicava, menos ele entendia.
— Quando a magia tá muito densa num lugar, ela desestabiliza a realidade ao redor. Por isso que têm um limite de saltos que se pode criar num espaço. Florestas já são densas por natureza, diferente das cidades. Se abusamos da magia num espaço como esse…
— O portal e o refúgio… — Írios concluiu.
— É — Breno entrou na teoria do garoto. — Eichler e Hugo podem ter sobrecarregado aquela região. E a gente esbarrou numa anomalia. Pode ser isso.
— Tá, mas que lugar é esse?
— Talvez… Olha, era só uma lenda. Pode ser uma floresta de passagem, talvez. Não viu nenhum ser perambulando por aí?
— Ah, só uns bichos feitos de ossos.
— Droga. É isso mesmo. Olha, a gente precisa sair dessa floresta o quanto antes. Senão os nossos corpos vão ficar presos aqui pra sempre.
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