Por Baixo Do Capuz
1 Capítulo 1: A garota que não usava capuz
Notas iniciais
Ela estava olhando para a vitrine, como costumava fazer todos os dias, observando o manequim que exibia a blusa azul com capuz. Uma camisa que ela queria muito, mas não tinha condições de pagar, ela não pensou muito mais nisso, se virou e continuou o caminho pra escola.
No reflexo das outras vitrines das lojas que preenchiam seu caminho era possível ver sua silhueta, em contraste, ao trânsito pesado da avenida ao lado, magra, relativamente baixa, seus cabelos eram ruivos, mas bagunçados, meio encaracolados, ela costumava brincar com a mãe, quando ela ainda era viva, dizendo q seu cabelo não se encaixava em nenhuma das classificações de corte já inventadas pela humanidade. A blusinha Pólo branca e jeans, padrão de sua escola, Mel gostava de um estilo mais solto nem muito bagunçado, nem muito arrumado, ainda sim, às vezes podia ser considerada bem vaidosa.
Sua escola era no centro da cidade, uma cidade bem quente, uma capital, os verões eram terríveis. Muitos alunos, conversas, risos, algum cara engraçando imitando algo numa roda de amigos que só deveria fazer sentido ali na conversa deles. Ela olhou sua sala, ainda estava um pouco vazia, mas a aula começaria a pouco tempo, a maioria deveria estar fora, se o professor demorasse, ela iria também. Sentou-se e ficou aguardando.
“Ei”. Ele sussurrou em seu ouvido. Ela se assustou e olhou para trás, ele estava com um largo sorriso no rosto, seus olhos ficavam um pouco fechados quando ele sorria, era seu charme, isso e os cabelos negros desgrenhados, um rosto bem emoldurado, ele era muito bonito.
“Oi amor” ela o beijou.
Ele se sentou na cadeira ao lado
“Por que estava falando com o marquinho ontem?” Ele nem se preocupou em ser sutil.
“Ele estava só me perguntando algo da escola” ela suavizou um pouco a expressão e estava mesmo, marquinho não tinha o menor interesse nela, ela nem se achava tão bonita, não entendia o ciúme excessivo do namorado, mas já que se achava feia e sortuda por estar em um relacionamento com ele, ela se envaidecia um pouco.
“Não quero ver você conversando com nenhum homem ali do bairro entendeu? Você sabe que eu não gosto disso. E você sabe da fama deles.”
“Eu sei, era só uma pergunta mesmo” Ela sorriu tímida.
“Venha, eu to afim hoje”
“Não” seus olhos arregalaram de medo, Ela estremeceu o corpo e se esqueceu de tudo, era o momento que ela mais temia, ela não gostava, não queria, tinha horror disso.
“Não Pedro, não posso perder mais aulas, só para gente...sério, a gente faz outro dia, certo?”
“Cala a boca, vamos, hahahaha, eu sei que você gosta” ele piscou o olho pra ela “as aulas de hoje vão ser um saco, e você nem é muito inteligente com essas coisas mesmo”.
“P-pedro...” uma fagulha tímida de negação.
Ele endureceu o rosto, um monstro tomou conta de sua face, nada da personalidade bacana e descontraída que combinava com sua by Text-Enhance\">aparência. Ele acariciou de leve os seios dela, de canto de olho ela olhou amedrontada a sala, só uns três alunos, um dormia os outros estudavam, nem os notavam, eram assim em escolas, quem namorava tinha um certo status, um muro, que as pessoas negavam o constrangimento de olhar, ela deu graças a Deus “você quer que eu fique te tocando na aula, né?” ele levantou o olhar, na sua expressão a velha falsa convicção de que podia entendê-la. agora insinuando tocar na sua perna.
“Não” ela pensou
Nojento, nojenta.
“V-vamos pra o banheiro então” ela se odiou, ela não queria, não havia nem mesmo um pingo de excitação, nojenta, burra.
Burra.
Ele saiu primeiro.
Ela se olhou no espelho do banheiro, seus olhos eram castanhos escuros, seu queixo era pequeno, e o restante do rosto um pouco arredondado, suas sardas lhe davam um pouco um ar de desarrumada, ela ajeitou uma mecha atrás do ouvido esquerdo, e descansou as mãos amuadas na pia.
Ele deu uma pequena batida por trás de um dos boxes do banheiro.
Ela estava sentada no ônibus, voltando pra casa, matando aula. Estava dolorida, ela odiava fazer aquilo, ele era bruto, e doía muito. Ele nem falava nada quando terminavam. Só saia. Os movimentos, os barulhos. Era tudo muito confuso pra ela, angustiante. Quando desceu comprou as cervejas do pai e subiu a rua. Uma amiga, sentada na varanda da casa acenou pra ela, ela acenou de volta. Meliana, ou Mel como era mais comumente chamada. Tinha, talvez não tantas, mas um quantidade considerável de amigas, e se gabava, frequentemente, de seu namorado. De sua gentileza, de seu lado atencioso, ela confirmava todos os boatos incríveis de sua boa reputação. E chegava a desprezar algumas colegas, antes de namorar Pedro ela era um pouco anti-social, costumava ler. Agora com 16 anos, se achava bem madura, entendia de relacionamentos. Tinha muitas meninas bonitas em sua rua, mas Pedro tinha gostado dela, ela era especial, sabia disso, estava apaixonada.
Perto de casa, viu marquinho, ele estava sentado na calçada de sua casa, ele abriu o sorriso pra ela. Tinha algo de estranho no sorriso de marquinho, mais...sincero, alegre, que o de Pedro, algo que a tornava mais a vontade, eles já se conheciam desde antes de ela começar a namorar . Tinha os cabelos curtos e castanhos, e era magro, mas tinha uma boa presença, um porte, talvez. Mel sentia pena dele, no seu círculo de amizades, diziam que ele não pegava ninguém, não tinha namorada, talvez uns rolos. Ele era de outra escola, não do grupo da rua. Diziam que ele mentia, que era maricas, que seu pai se drogava, que ele também era viciado, que roubava lojas pra pagar o vicio do pai. Alem disso Mel o achava tímido, quieto, e um pouco anti-social. Mel não gostava de gente assim, gente que era como ela era no passado, apesar de não conhecer bem sua vida, e só ter ouvidos boatos. E era justamente por não gostar que ela sentia medo, desse pequeno... incômodo, que ela sentia perto dele.
Ele se levantou da calçada e foi de encontro a ela. Levantou a mão antes que ela pudesse protestar
“Não, Não, Não, nem adianta, não vou aceitar um não como resposta”
Ele pegou uma das sacolas com garrafas de cervejas para ajudá-la, ela sorriu um pouco pra si mesma. Ele começou a acompanhá-la no restante do caminho pra casa, um bairro de classe média mais baixa, mas muito bem ajeitado.
“Esta matando aula de novo? Sabe, eu gosto disso em você”
Ela sorriu
“É, hoje eu vou assistir uns filmes, to amando aqueles que você me emprestou”. Ela percebeu a própria animação, “ah, era isso que me incomodava” ela pensou, ela simplesmente não podia deixar de se sentir “sugada” por ele.
“Isso é muito bom, você é tão inteligente, lê livros e tudo, entende melhor aqueles filmes complicados, ahh me sinto tão humilhado” ele fez uma falsa cara de decepção.
Ela riu. Era mentira, ele não sabia que ela tinha parado de ler há muito tempo, suas notas tinham caído, não podia deixar ele saber o quanto ela era burra.
Tinham chegado na porta da casa, quando Eline, uma amiga sua viu, de uma distancia bem longe na rua os dois juntos. Ela sentiu vergonha. Algo acordou dentro dela, “aposto como Eline deve estar pensando o quanto sou caridosa” No começo, ela não tinha tanta confiança de dizer isso ao Marcos ou a qualquer outra pessoa , mas já estava na hora de agir como uma mulher em seu nível de poder, como suas amigas mais populares agiam. Marcos percebeu o olhar de Mel para Eline, e entendeu o constrangimento da situação.
“Marcos, eu vou parar de ser caridosa, já estou cansada de você me perseguindo toda hora, só por que não consegue pegar ninguém não fique no meu pé esta bem? O Pedro não vai gostar. Não se ficar perto de gente como você” Ela fez uma cara de indiferença pra ele.
A cara que marcos fez foi de surpresa absoluta. Como se em um instante estivesse vendo uma deusa, e no segundo seguinte alguma coisa muita repulsiva.
Mel então entendeu o que fez, mostrou seu lado patético pra ele, o seu lado inseguro de baixa auto-estima que se importava com o que os outros falavam. Ela se arrependeu mais do que tudo na sua vida.
“Entendo” ele esboçou uma expressão triste no rosto, olhou para o lado em que Eline estava e o voltou pra ela: “o que eles dizem sobre mim não é verdade e não me importo com o que eles pensam. Mas nunca pensei que você...” ele tentou, mais não pôde deixar de fazer uma cara de desprezo e despontamento, se virou e saiu andando. Ela queria abraçá-lo, correr atrás dele, implorar perdão, sentiu que sua vida inteira podia mudar por causa disso. Ao mesmo tempo, veio a sensação de insegurança, todo seu status social se arruinaria, em sua hesitação ela olhou para Eline, ela sorria satisfeita, do outro lado da rua, ao longe “nossa você é melhor do que eu pensei”, ela não tinha ouvido mas tinha entendido a situação. Ela voltou o olhar pra ele que já estava longe demais pra ela alcançar. “sim, e ele não era só um viciado” sem arrependimentos. Então entrou em casa, a mão apertou com força a maçaneta da porta
O pai desceu a mão gorda no rosto de Mel. Um tapa violento, revoltado. Ela gritou de dor, e antes que ela pudesse sequer pensar em algo, ele lhe deu um murro forte em sua cabeça, tão forte que a derrubou no chão, ela se encolheu, choramingando.
“O QUE EU DISSE SUA VADIA BURRA, VOCÊ É RETARDADA? EU DISSE QUE ERA DA OUTRA MARCA, O QUE EU VOU FAZER AGORA? EU ODEIO BEBER ESSA MERDA. AQUI OLHE” ele agarrou o cabelo dela,
“não pai, por favor não” ela soluçava os dedos fortes de seu pai agarraram firmes a raiz dos seus cabelos, ela olhou a marca, ok o desenho, ela jamais esqueceria novamente o desenho.
“eu prometo, eu prometo, pai, juro por deus que nunca mais vou esquecer, eu entendo essa marca é horrível mesmo, eu prometo, eu promet...”. Ela suplicava em lágrimas Ele soltou os cabelos dela. A dor terrível na raiz do cabelo. Ela se encolheu e apertou as mãos com força contra a cabeça, tentando desesperadamente amenizar a dor.
Em pé, em sua frente, estava seu pai. Tinha um corpo gordo, porém musculoso, o rosto endurecido das suas épocas de soldado, mas com as bochechas gordas, os cabelos curtos e ruivos. Sim, Mel não tinha puxado seus cabelos ruivos de sua mãe, mas de seu pai. Ele cambaleava um pouco. Depois da morte da sua mãe, seu pai tinha se tornado um homem absurdamente violento.
“E BOM MESMO QUE VOCÊ TENHA ENTENDIDO” sua fala estava arrastada, em pouco tempo, provavelmente não faria muito sentido.
“VÁ E TROQUE”.
Mel concordou com a cabeça e foi trocar as garrafas.
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