Por Baixo Do Capuz
2 Capítulo 2: A garota que usava capuz - Parte 1
Notas iniciais
Sentada, na banheira do banheiro, a cabeça enterrada no meio dos joelhos, o chuveiro ligado. A água e suas lagrimas escorriam pelo ralo, seu corpo se mexia ao ritmo de seus soluços. Tudo doía, seu sexo, sua cabeça, o rosto, e...ela lembrou de marcos, de costas, indo. Marcos já tinha desconfiado de algo com o by Text-Enhance\">pai de Mel, mas ele não batia sempre nela, não era freqüente, só quando bebia, no resto, a ignorava, ou saia para algum lugar sem avisá-la. Muita gente não sabia, Mel contava aos amigos que depois da morte da mãe, ela tinha que cuidar de seu by Text-Enhance\">pai. Ela pensou na mãe, no seu sorriso, em deus, e começou a rezar.
Ela se levantou, desligou o chuveiro e se enrolou na toalha. Foi para seu quarto. Havia uma estante com livros na direita, entre vários nomes havia, “Deixa ela entrar” de John Ajvide Lindqvist, e “O oceano no final do caminho” de Neil Gaiman, além de alguns de Stephen King, como o de “Carrie, a estranha”, que ela tinha ficado muita feliz de achar quando era pequena, depois de assistir o filme. No lado esquerdo, a TV, em uma pequena estantezinha de metal, com o DVD em baixo, na grade abaixo da televisão, alguns DVDs em cima do aparelho, alguns de Marcos. E no fundo do quarto sua cama, e a janela atrás.
Ela ligou a TV e se pôs a se trocar.
“mais um caso terrível de assassinatos brutais, o criminoso continua foragido, e a pergunta persiste, até quando os policiais ficarão sem dar notícias...”. Uma mulher gorda, explicava desesperada algo sobre um garoto, seu medo, o sangue, e depois colocou o rosto entre as duas mãos chorando, o policial aproveitou a deixa falou mais algo com uma cara séria. Depois no estúdio, eles discutiam peculiaridades, como desaparecimentos de jovens, e os casos de pessoas que eram internadas, depois de... alguém falou algo sobre sonhos.
Mel desligou a TV, e deitou-se na cama, já eram muitos os casos de assassinatos, isso estava uma loucura, era surreal, talvez fosse terrorismo. Ela se lembrou da escola, seu pai não ligava, e ela estudava no período da tarde, o dia já tinha anoitecido um pouco, sem protestar muito, ela adormeceu.
Ela estava caminhando com sua mãe sorrindo, segurando sua mão. Ainda era bem pequena, o parque, no qual estavam, tinha muito verde. Ainda era verão. Sua mãe tinha os cabelos bem longos e pretos, e sorria pra ela. Mel adorava seus cabelos longos, o deixaria assim quando crescesse. Sua mãe então soltou sua mão, ela tentou, desesperada, agarrá-la de volta, mas já era tarde. Tudo escurecia lentamente. Tudo estava escuro. Como em túnel, Mel podia ouvir o eco de sons vindo ao longe, como um pingo “Venha” uma voz doce ecoou pelo túnel. Ela foi caminhando, “isso mesmo, não tenha medo, pode vir”. No final do túnel havia uma luz, quando ela o transpassou. Um grande flash a cegou por alguns segundos.
Estava em um parque, não no que estava com sua mãe, um parque mais amplo. Sentada, em um banco, bem próximo de onde Mel estava em pé, estava uma garota, ela tinha lindas mechas loiras, que esvoaçavam no vento fraco, as pernas cruzadas, as mãos repousadas sobre, lançava um olhar amoroso, feliz, satisfeito para umas crianças que brincavam em um parquinho. Ela sorriu e virou o rosto para Mel, um rosto de boneca. Seus olhos verdes, vívidos, e sinceros, penetraram pela a alma de Mel.
“oh, então você veio, fico muito feliz, obrigada”. Ela voltou o olhar para o parquinho, agora, um pouco mais séria.
“Você sabe por que está aqui.” Sim Mel sabia “você terá um escolha, escolher possuir poder, e terá consciência das consequências, perfeita consciência”. Ela inclinou um pouco a cabeça “essa é minha habilidade, posso fazer as pessoas já saberem o que eu quero, lhe transmitir minhas emoções, as fazerem me entender”
Um filete de lágrima escorreu pelo rosto de Mel, ela sabia o quanto a garota estava solitária e triste.
“se escolher tê-lo, haverá o preço, e você deverá pagá-lo, mas se escolhê-lo, eu juro por deus, por tudo que eu considero mais valioso, que te amarei pelo resto da sua vida, e lhe serei eternamente grata”
Se não aceitasse, Mel voltaria pra sua vida. De alguma maneira Mel sabia que a ela precisava de ajuda, e que podia ajudá-la. Ela sentiu uma profunda empatia pela garota, que sabia o quanto era errado “libertar” Meliana, mas não tinha outra escolha, e ainda sim se preocupava com a felicidade de Mel.
Meliana assentiu com a cabeça, em pequenos movimentos. Ela aceitava.
Nada podia transcrever a felicidade que tomou conta do rosto da garota loira, seus olhos se encheram de lágrimas, ela se aproximou de Mel, e lhe deu um abraço carinhoso.
E então, se afastou delicadamente, “preciso de sua ajuda, veja” ela apontou para o parquinho.
Mel tomou um susto, as crianças usavam máscaras brancas no rosto, com desenhos estranhos, algumas brigavam, outras soluçavam tentando arrancar as máscaras, outras choravam com os rostos vermelhos, sem pele depois de a terem arrancado, como se as máscaras estivessem coladas em seus rostos. Mel sentiu um arrepio assustador na espinha. Um ímpeto de gritar.
“são crianças que eu libertei, agora estão se afogando em desespero, e destruindo tudo em sua volta, eu errei e agora preciso que as ajude”
Sim Mel aceitava.
“mas antes terá que tirar sua própria máscara” ela olhou para Mel.
Mel se deu conta então, estava com uma máscara no rosto, apenas os furos dos olhos, quando percebeu, sua respiração ficou mais ofegante, sufocando na parede da máscara, “Quando?” ela pensou.
Ok. Agora era a hora.
Ela tinha decidido, e era inevitável, um terror tomou conta de céu corpo, medo. Nada iria impedi-la e ela tinha que fazer, seus dedos deslizaram em torno do topo da máscara, ela fechou os olhos, os apertou com toda a força, então começou a arrancá-la, a dor lancinante, os gritos, a angústia, a pele, sendo arrancada de seu rosto.
Mel abriu os olhos, aterrorizada, suava muito, a cama estava encharcada “um sonho, apenas um sonho” ela respirou aliviada, nossa tão realista, os cabelos colados no suor do rosto, ela ainda estava ofegante. Levantou-se e olhou a hora, tomou um susto. 8:30 da manhã, por quanto tempo tinha dormido? Ela pegou o celular na mesa de cabeceira, mais um susto. 32 mensagens. Sim, ela tinha combinado de se encontrar com Pedro às 8 horas.
Pedro.
De repente, algo muito estranho tomou conta dela, prazer, liberdade. Ela não olhou as mensagens, foi no numerozinho dele em seu celular. No espaço de mensagens “Amor” digitou e enviou.
“Estou terminando com você, não fale mais comigo”
Ela piscou o olho sozinha para o celular.“tchau”, mas que saco ela tinha gastado de seus créditos, Ela se espreguiçou e deu um profundo sorriso, iria assaltar toda a geladeira antes que seu pai chegasse. Ela procurou o DVD de sua banda favorita, no meio da bagunça entre seus filmes: “A perfect circle”, seu rosto se iluminou. E colocou no aparelho. Apareceu a lista de videoclipes, ela a estudou, procurando uma que a agradasse até seus olhos pararem na “The outsider”, ela apertou o play e se levantou. Depois de uma pequena introdução instrumental a voz suave do vocalista começou a cantar.
“Help me if you can
It’s Just that this,
Is not the way i’m wired
So could you please, ...”
Ela não comeu nada, quando abriu a geladeira viu os litros de cerveja do pai, os malditos desenhos estampados da marca que ele gostava. Ela pegou um dos litros com a mão, e o virou na direção do chão, o liquido borbulhou enquanto caia pelo gargalo.
“Lying to yourself again
Suicidal imbecile
Think about it, and put it on fautline...”
Com certeza ela adorava essa parte, começou a cantá-la mentalmente, a poça ia se espalhando pelo piso da casa, ela deu uma última chacoalhada para cair as últimas gotas. Pegou, então, mais um litro, e fez o mesmo, e com mais um, e com mais um, se achou brilhante quando resolveu derramar todo o estoque.
Ela iria sair de casa, não voltaria mais. Lembrou-se do sonho, e, por mais fantasioso que isso pudesse parecer, sabia que tinha algo a fazer. Foi ao banheiro, para banhar e se livrar da cerveja que tinha respingado em seu corpo. Como ela não estaria mais aqui, seu pai seria obrigado a limpar a bagunça. “Isso o ensinará humildade, sim, humildade é algo importante para qualquer ser vivo”. Era ela que fazia os trabalhos domésticos, sem ela, e com aquele corpo, seu pai teria um senhor trabalho.
Ela ligou o chuveiro e se sentou novamente na banheira, como da última vez, ao longe era possível ouvir o finalzinho da música:
“Medicated
Drama Queen
Picture perfect non-belligerence
Narcissistic...”
Ainda cantarolando, e com a água caindo por seu rosto ela percebeu de canto de olho. Mais um susto.
Como um espectro, sentada na pia da banheira, estava a figura da garota loira, vestia um pequeno vestido, e seu sorriso lindo e emoldurado no rosto, como a tinha visto da última vez, mas agora parecia um fantasma, sua forma era esbranquiçada e um pouco transparente
“oi”
“Você... é real” ela balbuciou.
“Sim, vim lhe dar uns detalhes”
“você, tem um nome?”
“sim, eu sou Lúcia.” Ela acrescentou “Meliana”
Mel a encarou por mais um tempo
“Me chame de Mel”
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