Por Acaso.
3 Capítulo 3
Notas iniciais
03 – Cinco anos depois
Subi na porcaria do avião e me sentei, finalmente, no meu banco. Depois de séculos fazendo meu passaporte, arrumando passagens e deixando minhas malas, eu me sentia inteiramente livre do meu pai e de toda aquela vida de bebedeira dele. Tudo bem, eu continuei morando na minha casa e de Chris durante esses cinco anos, mas quando meu pai descobriu começou a ir lá me encher o saco. Eu não avisei ninguém de que estava me mudando para a França, simplesmente juntei o dinheiro e fui. Agora estou aqui, nesse avião lotado, com um cara gigante sentado à minha frente e escorando a cadeira para trás a ponto de esmagar minhas pernas. Eu devia ter juntado mais dinheiro e comprado uma das passagens mais caras, pelo menos eu teria conforto... Suspirei. Eu não agüentaria nem mais um segundo daquela vida.
Depois de horas de vôo e mais algum desconforto causado pelo senhor sentado na frente, eu finalmente pude levantar e caminhar em direção à saída do avião, com as pernas um tanto doloridas. Mais algum tempo procurando as minhas duas pequenas malas pretas e finalmente estava fora daquele aeroporto idiota. O que eu faria agora? Ri para mim mesmo, enquanto desviava de algumas pessoas no caminho. Eu deveria ter um plano antes de simplesmente voar para um lugar desconhecido. Eram aproximadamente nove da manhã quando eu consegui achar um apartamento em que eu pudesse alugar por um bom preço até conseguir um lugar melhor, o que quer dizer que eu não procurei por tanto tempo assim. Depois de pagar a moça simpática que estava na recepção, peguei a chave e subi as escadas até o terceiro andar. Sim, não havia elevadores, mas também não acho que tinha tanta necessidade, num prédio pequeno se cinco andares. Ah, eu contei que tive que me virar com o meu francês precário até agora? Bom, eu só havia feito um cursinho de três meses antes de vir, mas pelo menos me sentia mais ou menos preparado. Quando achei o meu apartamento, enfiei a chave com dificuldade na fechadura e finalmente consegui abrir a porta: não era o apartamento mais bonito do mundo, mas com certeza tinha seu charme. As paredes eram num tom de amarelo claro, daqueles que se vê em casa de velhinhas simpáticas. Todos os móveis eram brancos, com exceção da cama de ferro dourado. Lençóis limpos, chão limpo, pia limpa. Pelo menos eu havia dado a sorte de encontrar um lugar desses. Larguei minhas malas ao lado da cama e me joguei nela, ouvindo o pequeno ruído do ferro balançando. Eu... Me sentia em casa.
Depois de um cochilo, acordei num sobressalto. Eu precisava de um banho e precisava comer. Abri o guarda-roupa na esperança de guardar minhas coisas, mas o que vi não era muito animador: haviam algumas roupas velhas – até mofadas – dentro daquilo, o que me tirou toda a sensação de “oh, que lugar limpinho e lindo”. Suspirei, agora eu precisava de um banho, de comida e de sacos de lixo. Fechei o guarda-roupa fedorento e me voltei à minha mala, pegando algumas roupas limpas e indo até o banheiro, que, graças à Deus, estava limpo.Tomei um banho demorado, lavando meus cabelos – que agora estavam um tanto longos e vermelhos, sim, eu havia mudado um pouco – e esfregando com força o sabonete de camomila sobre o corpo, relaxando um pouquinho. Me sequei e enrolei a toalha na cintura, puxando a água que eu havia espalhado pelo banheiro com o primeiro rodo que encontrei. Depois saí do banheiro, fechei as janelas e me troquei, penteando os cabelos em seguida. Dei uma boa olhada no espelho: eu estava realmente bem diferente de antes. Antigamente eu era um garoto magrelinho de dezesseis anos que nunca deixava o cabelo crescer por preguiça de lavar, e usava roupas velhas sem se importar. Agora, eu era bem o contrário. Cabelos longos e pintados de vermelho, vinte e um anos, e eu nem era mais magrelo como antes. Vesti uma calça jeans preta e uma camisa de botões preta, calçando o all star de sempre, que até já estava meio sujo. Passei um creme qualquer no cabelo e fui andando meio mole até a geladeira. É claro que ela estava vazia. Peguei a carteira, saindo dali e indo para o mercado mais próximo.
Era um mercado bem grande, mas estava consideravelmente vazio. Peguei um carrinho pequeno e fui colocando tudo o que eu achava que precisava: algumas comidas congeladas – já que eu era péssimo cozinheiro –, alguns docinhos pra comer na madrugada e bebidas, vinho, refrigerante, esse tipo de coisa. Lembrei-me daquele guarda-roupa nojento, e caminhei à procura do corredor das coisas de limpeza. Peguei alguns panos, um produto azul que eu não fazia idéia do que era e alguns sacos de lixo para jogar aquelas roupas fora. Eu já estava saindo do corredor quando vi uma mulher parada no final dele, uma mão na boca e a outra sobre o peito. Será que ela estava bem? Bom, talvez estivesse apenas espirrando por conta do cheiro dos produtos. Fiquei observando por alguns segundos, até a mulher se abaixar e colocar as mãos na garganta, os olhos se arregalando. Larguei meu carrinho e fui correndo até ela, me abaixando ao seu lado.
– Você está bem? – perguntei, a pergunta mais imbecil que já havia feito na minha vida. Ela tinha muita dificuldade em respirar, então eu finalmente percebi: uma crise se asma.
Corri de volta até o meu carrinho, eu já sabia mais ou menos o que fazer. Uma prima minha tinha asma e uma vez eu tive que socorrê-la, esperava que desse certo dessa vez também. Peguei os sacos de lixo no meu carrinho e voltei até a mulher, fazendo-a respirar o ar dentro do saco. Aos pouquinhos, ela começou a se acalmar, e eu me sentei no chão ao lado dela e comecei a passar a mão nas suas costas, esperando até que ela voltasse ao normal.
– O-Obrigada... – ela disse, um pequeno sorriso surgindo nos lábios e os pequenos olhos lacrimejando. Eu me levantei, ajudando-a a se levantar também – Eu esqueci a minha bombinha em casa, céus, como eu sou burra.
– Relaxa, essas coisas acontecem. – eu sorri, meio nervoso, ela ainda estava um tanto mole, as pernas se forçando para ficar em pé.
– Mas eu tenho que tomar cuidado com isso, principalmente agora. – a mulher suspirou, colocando as mãos sobre a barriga... Só agora eu percebi que ela estava grávida!
– Realmente, vê se não se esquece disso da próxima vez. – sorri – Sou Arthur, prazer.
– Ah, eu sou Ana. É um prazer, e obrigada mais uma vez.
Continuamos conversando enquanto caminhávamos pelo mercado, cada um pegando o necessário e jogando no pequeno carrinho. Ana era uma mulher baixinha, cabelo preto e olhos castanhos. Ela tinha a aparência de uma mulher normal, mas não me parecia ser qualquer uma. Uma aura de tranqüilidade praticamente brilhava à sua volta. Depois de pagarmos tudo no caixa, saímos do mercado.
– Bom, obrigada pela milésima vez, Arthur. – ela sorriu.
– Você não acha melhor que eu te leve pra casa? Você ainda não me parece muito bem... – levantei as sobrancelhas, segurando minhas três pequenas sacolas.
– Não, não. Não quero incomodar tanto... – ela sorriu novamente, mas parecia mentir.
– Vamos, não me custa nada. Aliás, aposto que você mora perto daqui, e eu também moro. – sorri e peguei as sacolas da mão de Ana, enquanto ela sorria em agradecimento e segurava no meu braço. Eu sabia que ainda estava meio tonta!
Ela me guiou por poucas ruas até a casa dela, e descobri que ela morava praticamente atrás do prédio em que eu estava morando.
– Eu moro bem ali, olha. – apontei para o prédio de tijolos vermelhos – pelo menos estou morando a partir de hoje.
– Você chegou aqui hoje? E já tem gente lhe causando problemas? Que sorte a sua.
Ana riu e eu também, então a segui pelo pequeno jardim até a porta da casa dela. Fui lhe entregar suas sacolas, mas ela balançou a cabeça em negação.
– Agora que você já está aqui, exijo que entre para tomar um chá. Vai ser como um pequeno agradecimento.
– Eu não gosto muito de chá... – eu disse, me preparando para ir embora. Mas mudei de idéia, que mal teria entrar um pouquinho? – Você não teria um café?
Ela sorriu e abriu a porta, então entrei atrás dela. A casa era bem grande, mas parecia estar vazia. A segui até a cozinha e deixei as suas sacolas sobre a mesa, colocando as minhas num canto perto da porta. Me encostei na mesa enquanto Ana preparava o café, me perguntando onde estaria o marido dela agora.
– Você já sabe se é menino ou menina? – perguntei. Eu era um tanto curioso quanto a essas coisas. Apesar de nunca admitir, sempre quis casar, ter filhos e esse tipo de coisa.
– Os dois. São gêmeos. Pelo menos foi isso o que o médico Me disse, mas nunca dá pra ter certeza até as duas crianças estarem bem formadas, então não dá pra saber direito o sexo. Imagina só, vai ser um inferno cuidar de dois bebês ao mesmo tempo.
– Ora, pode ser divertido... Você não queria ter filhos? Desculpe a pergunta, mas pelo modo que você fala de “ser um inferno”, não me parece o pensamento mais positivo vindo de uma futura mãe... – “pare de ser tão curioso, Arthur”. – pensei.
– Ah, é claro que eu quero ter filhos. Mas não foi planejado, entende. Apesar de eu sempre querer ter filhos não acho que seja a hora certa, muito menos pra vir dois. – ela riu, servindo o café pronto em duas xícaras – Mas Chris sempre quis. Pra ele, qualquer hora é a hora certa. Ele parece uma criança desejando um brinquedo novo.
Chris. Os pêlos da minha nuca se arrepiaram com a menção do nome, que há tempos eu não ouvia ninguém dizer. É óbvio, existiam milhares de Chris por todo o mundo, e não havia chance nenhuma de aquele, o marido da Ana, ser o meu Chris. Mas, mesmo assim, eu ainda me sentia meio abalado, com uma pequenina ponta de esperança de que fosse mesmo o meu melhor amigo, e que a qualquer momento ele descesse por aquela escada e me abraçasse, dizendo que sentiu minha falta. maldito Arthur sentimental que havia surgido depois daquilo. Digamos que as coisas haviam mudado um pouco depois daquele beijo.
– Arthur? – Ana me chamou, me desviando dos meus devaneios. Dei um sorriso forçado enquanto pegava a xícara que ela me oferecia.
– Ah, desculpe. Desculpe mesmo, é que às vezes eu tenho desvios de atenção. – sorri, mentindo na cara dura – é difícil o homem estar mais interessado pelos filhos do que a mulher. Me arrisco a dizer que esse é um caso um tanto... Raro.
Ana riu, sentando-se na mesa, e eu fiz o mesmo. Ela tinha uma expressão serena.
– Ah sim, eu concordo com você. Sabe, Chris é escritor e fica em casa o dia todo. Ele diz que vai cuidar das crianças enquanto eu trabalho, que vai passar o dia todo com elas e que vai ser ele quem vai educá-las e que não vão precisar ir à escola... – ela me encarou, mordendo os lábios – Desculpe, acho que estou falando muito dele.
– Não se preocupe, é interessante ver alguém tão apaixonado. – sorri. Antes não havia sido nada interessante, apenas assustador e... Nojento. Segurei um suspiro.
A mulher estava com um sorriso triunfante, e já estava abrindo a boca para responder quando ouvimos uma porta batendo no andar de cima. Eu ainda estava pensando em como o Chris havia virado um escritor e em que aquele de jeito nenhum era o Chris que eu conhecia, quando alguém desceu as escadas. Eu prendi a respiração quando o homem parou na porta da cozinha, me observando. Ele era alto, certamente mais alto do que eu, e mais forte também. Estava sem camisa, os cabelos pretos batendo na cintura e os olhos heterocromáticos cravados em mim. Uma das sobrancelhas estava arqueada e ele batia o pé descalço no piso branco da cozinha. Era ele. Era o meu Chris. O meu Chris estava casado e a sua mulher estava grávida de dois filhos. Nunca pensei que aconteceria, mas aquilo me decepcionou um pouco. Ele se aproximou de Ana e a abraçou por trás, possessivo.
– Quem é esse cara? – perguntou. Pelo menos a voz grossa não havia mudado nada.
– Esse é o Arthur... Eu tive uma crise de asma e ele me ajudou e carregou minhas coisas até aqui... – Ana era cautelosa, talvez sentia a adrenalina aparente que saía de Chris. Ele veio na minha direção e me estendeu a mão, um pequeno sorriso surgindo nos lábios rosados.
– É um prazer te conhecer, Arthur. – retribuí o aperto de mãos, internamente magoado por ele não ter me reconhecido. Como pôde?
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