Poltrona 19
34 Você conhece a Alice?
Notas iniciais
Ele me contou tudo, mesmo tendo a oportunidade em mãos de fingir que aquilo nunca aconteceu. Quando digo aquilo, me refiro ao surto que ele teve. A medida que ele foi contando as coisas, eu fui me lembrando de quase tudo. Foi como se precisasse que alguém ativasse essas memórias, para que eu tivesse acesso a elas. De algumas coisas não me lembrava com muita clareza e de outras não me lembrava mesmo, mas se ele não tivesse contado, tudo continuaria apagado da minha cabeça. Por isso, ele poderia ter simplesmente apagado aquela cena da minha memória, mesmo que fosse da qual eu me lembrei com mais clareza. Eu me senti tão assustada quando aquilo aconteceu, que fiquei meio sóbria sob pressão. Por isso me lembrei bem, mas isso não teria acontecido se ele não tivesse sido sincero e honesto comigo.
Aquele dia me senti tão grata e de certa forma, senti que ele confiava em mim, senti cumplicidade entre mim e Gabriel, e talvez tenha sido por isso que aquela foi uma das semanas mais leves do meu ano. Na segunda todos estavam comentando sobre o aniversário de Bruno e ele se gabava dizendo que foi a melhor festa do século. Bruno gosta de ser o centro das atenções e por isso nunca o vi tão feliz, recebendo “parabéns” o tempo todo e cercado de pessoas. Inclusive, Gabriel fez com que a sala cantasse parabéns para ele em todos os horários e levou presentes, muitos presentes.
Eu mesma acabei saindo no domingo para comprar algo para ele e levei. O dei um vans, porque Gabriel disse que ele tava querendo muito um tênis e postei uma foto em todas as minhas redes sociais, uma das mil que o pessoal me mandou da festa e eu nem sequer me lembrava de ter tirado. Era uma foto espontânea em que ele estava com o braço por cima do meu ombro e estamos olhando um para o outro, rindo muito de algum de seus comentários hilários. Eu gostei daquela foto, porque ela resumia exatamente o que era estar com o Bruno. E foi por isso que a postei com a seguinte legenda:
“Loiro, obrigada por todos os sorrisos e gargalhadas compartilhadas, por ter me mostrado com sua personalidade tão singular, que a vida fica mais leve quando não a levamos tão a serio e que por trás até mesmo de um cara que diz que “a vida é um peito fera”, existe um bom coração. Feliz aniversário, eu te amo”
Ele é tão palhaço que até quanto a isso fez piadinha. Fingiu estar chorando, disse que ia imprimir e colar na cabeceira da cama dele, para lembrar todos os dias que se a vida estiver uma merda, pelo menos uma loira gostosa ama ele. Eu gargalhei, é claro.
Naquela semana também tive reunião com a Rosângela e os demais representantes. Apesar de eu e Arthur não estarmos bem um com o outro, ou melhor, não estarmos sequer olhando para a cara um do outro e ter sido completamente desconfortável estar no mesmo cômodo que ele, conseguimos ser maduros e nos tratar com educação e respeito. Felizmente não tivemos conflitos de ideias e ficou decidido que haveria um trote por mês, sempre na ultima sexta-feira e nos liberando dos dois últimos horários para acontecer o Horário Cultural.
O Horário Cultural é quando acontece algum evento diferente no colégio, como quando tem uma data especial ou é aniversário do colégio e a diretora trás alguma banda ou cantor. É tradição que aconteça também durante os dias de trotes do terceiro ano. É sempre muito divertido e desde o primeiro ano adorava tal coisa, por saber que perderíamos aula.
O professor de Literatura passou o tema do trabalho que teríamos de entregar na semana seguinte sobre alguns autores do Modernismo e por incrível que pareça, uma das coisas acadêmicas mais divertidas que já fiz, foi esse trabalho. Nós reunimos na quarta depois da aula para fazê-lo e gargalhamos tanto que quase fomos expulsos da biblioteca milhares de vezes. A bibliotecária com certeza não gosta de mim.
Ainda na quarta quando cheguei em casa, Natália estava lá. Fiquei feliz em vê-la, mas ela apareceu apenas para avisar que viajaria na madrugada de quinta para sexta com o namorado. Alguma coisa relacionada com a faculdade, mas que ele iria para fazer companhia a ela. Por isso ela perguntou se eu poderia ir até o apartamento dela, dar comida para seu gato, até que ele voltasse. O tal gato é uma fofura e eu não me importava, então topei. Ela deixou a chave comigo e tudo mais.
Tirando tudo isso, minha semana seguiu normalmente. Consegui sobreviver ao meu castigo, que tecnicamente não funcionou de forma alguma e ainda assim, na sexta-feira minha mãe apareceu dizendo que eu estava liberada. Me senti uma péssima filha, mas eu conseguiria sobreviver a esse peso de consciência. Tentando me redimir, até resolvi ficar quieta em casa durante todo o fim de semana. Havia apenas ido até o apartamento de Natália alimentar o gato dela e voltado para casa e no dia seguinte, resolvi que dormiria lá.
Porém, quando chegou a sexta a noite, foi bastante difícil lidar com o tédio infinito. Cheguei a me jogar sobre o sofá e tentar prestar atenção no programa que minha mãe estava assistindo. Era algum programa americano de pessoas que estão procurando uma casa nova para morar, então elas procuram por um corretor de imóveis que as dão três opções de locais e elas escolhem uma das opções. O episódio se tratava de um casal que queria uma casa em Manhattan com vista para o mar, eu me apaixonei tanto pelas três casas, que olhei para a minha com desdém. Ta aí uma coisa pra minha lista de sonhos: Morar em algum lugar com vista para o mar, nem que seja por pouco tempo.
– Quero me mudar. – comentei em voz alta.
– To pensando a mesma coisa. – disse mamãe. – Só não consigo me decidir entre uma casa ou um apartamento.
– Uma casa no condomínio do Gabriel, por favor. Ele mora no condomínio mais luxuoso dessa cidade.
– Então seu namorado é rico? – ela perguntou me olhando com um sorrisinho no canto da boca. Claro que ela o denominou de tal forma apenas para me provocar.
– Ele não é meu namorado! – rebati e me levantei antes que ela começasse a me irritar.
Eu estava com fome ou gula, não conseguia me decidir, mas fui até a cozinha pela milésima vez em questão de minutos e comecei a procurar por comida. Abri a geladeira e não achei nada. Procurei nos armários e nada. Revirei a cozinha e nada. Céus, eu odeio minha casa! Me sentei sobre a bancada e fiquei parada olhando pro tempo, esperando uma lasanha surgir na minha frente por um passe de mágica, porque eu tava com preguiça até de pedir comida. Pena que obviamente isso não aconteceu.
Peguei meu celular para pedir algo e vi que tinha uma mensagem não lida, do Gustavo. Estranhei, mas respondi.
Gustavo: “O que você ta fazendo?”
Eu: “Nada, por que?”
Gustavo:“Quer dar uma volta, comer alguma coisa, sei lá?”
Eu: “Podemos comer? Digamos que to passando fome”
Gustavo: “Conheço um lugar massa. Posso pegar o carro da minha mãe emprestado e te buscar na sua casa, pode ser?”
Eu: “Pode sim. Preciso me arrumar?”
Gustavo: “Não mesmo! Daqui a pouco chego aí”
Eu achei muito estranho Gustavo me chamar para sair de repente assim, mas aceitei. Primeiro porque eu queria saber o motivo de tal coisa e depois porque eu não recusaria um convite pra ir comer no momento, já que minha lasanha não se materializou na minha frente.
Eu não tinha a intenção de me arrumar, por isso continuei com minha camiseta rosa que só uso para dormir, já que me abomino de rosa e apenas troquei minha calça de moletom por uma calça jeans. Porque sair na rua de moletom já é demais. Calcei um tênis qualquer e peguei um casaco apenas por precaução, já que estava uma noite com o clima normal. Gustavo de fato não demorou para chegar, então avisei minha mãe que iria sair apenas pra comer algo e voltaria rápido.
Assim que entrei no carro e nos cumprimentamos, fiquei feliz em ver que ele não estava mesmo arrumado. Estava usando uma camiseta do Star Wars, calça e tênis. Mas isso é o normal dos caras, né? Enfim. O que me chamou a atenção foi não ver Carol no carro. Quando ele fez o convite, imaginei que Carol estava automaticamente inclusa no rolê, já que eles são praticamente uma pessoa só.
Gustavo nos levou até uma lanchonete onde disse que o lanche era muito bom e barato. Eu curti bastante o ambiente. Nós nos sentamos e fizemos o pedido para uma garçonete. Ele estava muito mais quieto que o normal, então por isso quando a mulher se foi com nossos pedidos, decidi que era melhor começar aquela conversa logo.
– Ta tudo bem com você? – indaguei. – Você não parece estar muito legal.
– Na verdade não.
– Quer conversar sobre isso?
– Não sei. – respondeu Gustavo. – Eu estava em casa, mal, queria me distrair ou conversar com alguém e só conseguia pensar em você. Mas desde que entrou naquele carro não consigo parar de pensar que não quero te perturbar com meus problemas.
– Gustavo, você não vai me perturbar. Amigos são pra essas coisas, você pode me falar dos seus problemas quando quiser. Pode me ligar as 4h da madrugada de uma terça para xingar, se quiser. – disse sendo completamente sincera e ele sorriu para mim.
– É a Carol...
– Imaginei. Você nunca faz nada sem ela.
– A gente faz 1 ano de namoro esse mês, 1 ano. E... nosso relacionamento ta uma merda.
Ok, por essa eu não esperava. O Gustavo e Carol parecem o casal mais feliz que conheço, eles estão sempre juntos e de bem com a vida. Eu demorei bastante para processar a informação e conseguir dizer algo.
– O que ta acontecendo?
– Eu to esgotado, cara. A gente briga por tudo e se desentende por tudo. Antes a gente se via todos os dias no colégio e ainda íamos pra casa um do outro a tarde, hoje em dia eu juro que ando tendo desanimo de ter que vê-la até mesmo no colégio.
Caralho.
– Aí além das brigas... – ele prosseguiu. – Ela inventou de ter ciúmes de tudo e fazer drama por tudo. Se eu falo que vou passar a tarde jogando videogame com o Bruno, ela surta. Se eu falo que vou sair pra comprar uma cueca nova sem ela, ela surta. E já que estamos falando de cueca mesmo... Sexo não ta rolando nem se for de reconciliação. A gente não fica espalhando nossos problemas pros outros ou fazendo cena em público, mas ta ficando insuportável. E nessa de ficar fingindo que ta tudo bem pra todo mundo, eu to me desgastando mais ainda. Tenho a sensação de que quando não estamos brigados, não significa que estamos bem, estamos apenas fingindo para nós mesmos que esta tudo bem.
– Vocês já tentaram conversar sobre isso? – perguntei.
– Sim, mas acaba que vamos jogando a culpa um no outro e não resolvemos nada, só pioramos.
– Então seja sincero comigo, como você esta se sentindo de verdade em relação a ela?
– Esgotado, cansado e sufocado. – respondeu Gustavo.
– E não terminou por que? – perguntei e ele ficou mudo, sem saber o que responder, então eu prossegui. – Minha pergunta foi apenas pra te causar esse choque e ver qual seria sua reação. Se todas essas coisas ruins tivessem superado as coisas boas que vocês passaram, você teria me dado uma resposta, nem que fosse dizendo que é porque não tem coragem.
– Mesmo que não tenham superado, não dá pra continuar vivendo assim. Eu ando preferindo ficar sozinho do que estar com ela. Relacionamento não é isso.
– Então lamento, Gustavo, mas o relacionamento de vocês já acabou e nenhum dos dois percebeu. Chega um momento em que todo relacionamento se desgasta, principalmente um que durou um ano como o de vocês, e esse é o momento de se reinventar ou terminar. Vocês não conseguiram a primeira opção.
– Eu gosto tanto dela, cara. – lamentou Gustavo. – Não consigo me imaginar pondo um ponto final em tudo. E se eu estiver fazendo a coisa errada? E se eu me arrepender?
– É claro que você gosta dela, vocês foram tudo de mais importante na vida um do outro durante todo esse tempo, estiveram juntos nos momentos bons e ruins. Mas chega um momento em que você precisa parar pra pensar se o gostar não virou apenas uma questão de comodidade e costume. E infelizmente, é apenas assim que posso te ajudar, te aconselhando a refletir sobre o que realmente sente. Relacionamentos não sobrevivem de lembranças do passado, nem esperanças de um futuro melhor. Se o presente não vale a pena, então não é mais um relacionamento. Mas se você ainda ama ela, sempre ainda é tempo de concertar as coisas.
– E se... E se eu não souber o que sinto? – ele perguntou com tristeza no olhar e infelizmente não queria que tivesse de ser eu a dar essa resposta para ele.
– Então não é amor. – respondi. – Não existe duvidas quando se ama alguém.
A garçonete apareceu nesse exato momento trazendo nossos lanches e eu achei melhor deixá-lo quieto enquanto comíamos, era o que ele estava precisando, um momento para pensar, sabendo que existe alguém do seu lado para caso ele enlouqueça.
Nós comemos calmamente e quando estávamos quase terminando, ele me zoou por não saber comer sem sujar a cara toda de ketchup. Nós rimos e percebi que o clima ficou bem menos tenso. Nesse momento começamos a conversar sobre futilidades e permanecemos até depois de terminarmos o lanche, sem notar o tempo passando. Eu fiquei feliz de conseguir o distrair, pena que fomos interrompidos pelo seu celular tocando e a ligação não parecia nada boa.
– O quão chapado ele esta? – indagou Gustavo. – Aguenta aí uns minutos que já estou indo.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntei preocupada, assim que ele desligou o telefone.
– Você tem hora pra chegar em casa?
– Não.
– Se importa de bancar a babá comigo?
Nós pagamos a conta e fomos embora. No caminho Gustavo me explicou que era um amigo do Gabriel, pedindo para que Gustavo fosse buscá-lo porque ele estava completamente chapado e sem condições de sequer parar em pé sozinho. Ele havia ido pra um festa da UFPR que tinha começado as 16h e quando a festa acabou, as 22h, ainda foram pra um bar.
– É por isso que nunca tenho tempo de conversar com meus melhores amigos... – resmungou Gustavo. – Porque sou sempre eu que tenho de cuidar dos dois.
Quando chegamos no tal bar, me ofereci para descer e ajudar, mas Gustavo não deixou, apenas ordenou que eu o esperasse. Após alguns longos minutos, ele apareceu carregando Gabriel com a ajuda de um outro cara e juntos, eles o colocaram deitado no banco de trás. Eu fiquei totalmente sem saber o que fazer quando o vi naquela situação. Ele havia me avisado que iria sair, só não imaginei que a intenção era sair e beber todo o álcool do mundo.
Assim que Gustavo fechou a porta e entrou de volta no banco do motorista, Gabriel começou a falar coisas sem nexo.
– Ta girando, cara. Ta girando.
– O que você tomou, Gabriel? – perguntou Gustavo.
– Girando... – repetiu Gabriel colocando as mãos em volta da cabeça. Eu não conseguia desviar o olhar dele.
– Se você quiser vomitar, pelo amor de deus me avisa. – suplicou Gustavo. – Minha mãe me mata se você gorfar dentro do carro dela.
– Não vou vomitar. – respondeu Gabriel. – Só manda alguém parar de girar o mundo, por favor.
– Gabriel... – chamei e ele levantou num sobressalto, como se tivessem acabado de dar um choque nele.
Ele teve que segurar a cabeça, como se tivessem girado o mundo numa velocidade ainda mais rápida, mas mesmo assim não deixou de gritar a próxima frase.
– O que diabos você ta fazendo com a Isabelle numa sexta a noite? – ele falou tão rápido, que saiu tudo completamente embaralhado.
– Nós fomos comer. – respondi por Gustavo.
– Ela não pode me ver assim não, cara. Tu ta maluco? – disse Gabriel para Gustavo, ignorando completamente minha resposta, como se eu nem sequer estivesse ali.
– Ela já esta te vendo assim, imbecil.
– Gabriel, deita. – pedi. – Você precisa ficar quieto.
Sendo Gabriel, ele provavelmente pretendia protestar, mas acho que ele percebeu que parado de fato se sentia melhor e deitou. Fomos todos em silêncio pelo resto do caminho, enquanto uma vez ou outra, eu olhava para trás na intenção de me certificar de que ele estava vivo. Quando entramos no condomínio de Gabriel e estacionamos em frente sua casa, não me veio boas lembranças à tona.
– Agora sim vou precisar de sua ajuda! – avisou Gustavo saindo do carro.
Eu desci bem a tempo de vê-lo abrindo a porta para Gabriel e ordenando que ele se levantasse. Gabriel bateu a cabeça no carro pelo menos umas duas vezes tentando sair dele, então quando viu aonde estávamos, começou a surtar:
– Se você deixar ela entrar aí dentro, eu nunca mais olho na sua cara. Você sabe que eu to falando sério.
– Pega o braço dele e apoia em seu ombro, por favor. – pediu Gustavo, ignorando completamente qualquer coisa que ele dissesse. – Tentei fazer ele andar no bar, mas ta impossível. Ele precisa pelo menos de apoio.
Eu obedeci e juntos fomos o levando em direção à porta de entrada da casa, enquanto Gabriel resmungava coisas incompreensíveis, mas que envolvia estar muito bravo e muito chateado com o Gustavo, além de desapontado consigo mesmo. Aparentemente ele não queria que eu o visse tão bêbado, mas principalmente, não queria que eu colocasse os pés do lado de dentro da sua casa em hipótese alguma. Foi por isso que prendi o ar quando adentramos a enorme mansão, em que a única pessoa que poderia me dizer um “bem-vindo”, não me queria ali.
Dizer que eu fiquei boquiaberta não faz jus ao modo em que fiquei, enquanto observava a casa mais cara e luxuosa na qual já entrei. Era de uma arquitetura moderna muito bem planejada, com móveis parecendo encomendados para combinar perfeitamente com todos os outros detalhes e detalhes minimamente pensados. Logo no hall de entrada, o que deduzi ser o cômodo no qual entramos, havia uma enorme escada de vidro que dava acesso ao segundo andar. Tive a sensação de que apareceria uma mulher vestida com um casaco de couro lá em cima, dizendo que meus tênis velhos e sujos estavam sujando seu piso porcelanato polido, limpo três vezes ao dia, que reluzia os lustres no teto.
Nós subimos pela escada com muita dificuldade e guiada por Gustavo, andamos por corredores infinitos até chegarmos a um quarto. O quarto de Gabriel. Ele era enorme, o que pude observar apenas com a claridade do corredor que adentrava o cômodo, já que Gustavo não acendeu a luz e eu tinha medo de apertar qualquer botão que acionasse um robô. Nós o carregamos até a cama e o jogamos sobre ela, para então, eu começar a observar os detalhes daquele lugar, ignorando completamente a discussão que os dois começaram.
Era tudo em tons de branco, cinza e preto. A cama de casal centralizada em uma das paredes; um balcão na outra, sustentando um notebook, luminária e outros objetos; uma parede com três tipos de guitarras penduradas, todas pretas; uma parede com uma enorme televisão e um suporte para videogame; fora a parede com uma estante que guardava sua coleção de discos vinis. Haviam vários pufes pretos espalhados pelo ambiente, assim como um sofá de couro. Pelas paredes consegui avistar quadros e pôsteres de bandas e até mesmo um suporte para skates, mas uma das coisas que mais me chamou a atenção, foi um frigobar.
Além do acesso a sacada, avistei duas portas que deduzi ser uma para o banheiro, mas a outra não fazia a mínima ideia de onde daria. O quarto era surpreendentemente grande e incrível pra caralho. Eu moraria dentro daquele único cômodo pelo resto da minha vida, sem reclamar nem por um mísero segundo.
Estava perdida em meus próprios pensamentos, observando o quarto, quando fui despertada por uma voz fina e doce.
– Gabe? – ouvimos alguém chamar.
Olhei na direção da porta e vi uma criança parada em frente a mesma. Uma garota com cerca de 1,20 de altura, usando um pijama branco e segurando um urso na mão direita. Olhei dela para os meninos e agora que minha visão já havia se acostumado ao ambiente, pude enxergar bem suas expressões. Gustavo e Gabriel estavam mudos, com pânico no olhar.
– Oi, princesa. – respondeu Gabriel tentando falar o mais correto possível. Ele tentou se levantar da cama, mas Gustavo não deixou. – Por que você saiu da cama, ein? Vai se deitar.
– Eu ouvi uns barulhos e vim ver o que era... – explicou a garota.
– Nós só viemos trazê-lo em casa. – disse tentando resolver a situação, porque Gabriel parecia estar tendo um ataque cardíaco. Olhei com receio para Gustavo e ele assentiu, me incentivando a prosseguir. – Gabriel não tinha como voltar para casa.
A garota permaneceu parada e eu me aproximei da mesma. Ao chegar no corredor, consegui a enxergar direito. Um rosto angelical, com olhos curiosos me observando. Os cabelos lisos e castanhos, com as pontas assumindo um tom loiro, como que queimado pelo sol. Eu estava de frente para Babi, a irmã mais nova de Gabriel e não sei porque, mas me senti nervosa em estar a conhecendo.
– Você é a Isabelle. – ela afirmou. Afirmou, não perguntou, o que me pegou de surpresa. Como ela sabe quem eu sou?
– E você é a Babi... – deduzi. – Você poderia me mostrar onde é a cozinha? Eu queria beber um copo de água. – inventei apenas para conseguir tirá-la dali e Gustavo dar um jeito em Gabriel. Ela segurou minha mão e saiu me puxando, me guiando pela enorme mansão em que eles moram.
– Você fica bem de rosa! – elogiou Babi e eu olhei para minha blusa em desaprovação. Queria conseguir concordar. – Por que seu cabelo não ta colorido?
– Meu cabelo?
– É, igual na foto do Gabe com você. – explicou a garota, finalmente me fazendo entender do que ela estava falando. Era da noite em que eu saí com o Gabriel e pintei meu cabelo com cinco cores diferentes.
– Era uma tinta provisória.
– Que pena! Tinha ficado muito bonito.
– Obrigada! – agradeci. Ela me guiava com a rapidez de quem já esta acostumada com o local, quando nada mais chama a atenção diante dos olhos. Mas ao contrário dela, quase tropecei milhares de vezes, embasbacada com a casa.
Nós finalmente chegamos à cozinha e ela era tão gigante quanto qualquer outro cômodo. Daria pra montar um restaurante ali dentro. Babi saiu arrastando um banco até um armário, onde pegou um copo, depois o arrastou até a geladeira e começou a colocar água para mim, num filtro embutido na porta. Ela me entregou o copo e eu agradeci novamente, começando a beber.
– Você e o Gabe estão namorando? – ela perguntou me observando e eu literalmente me engasguei.
– Não, nós somos apenas amigos.
– Você está mentindo. – afirmou Babi como se tivesse convicção do que estava dizendo.
– Por que?
– O Gabe não deixa garotas entrar aqui em casa, ele prometeu pra Alice e ele sempre cumpre as promessas que faz.
Meu coração pareceu ter perdido algumas pulsações naquele momento. Agora tudo fazia sentido. O motivo pelo qual ele não queria que eu entrasse, pelo qual ele brigou com Gustavo e pareceu tão decepcionado enquanto resmungava para si mesmo, provavelmente se culpando por ser tão imbecil a ponto de não poder evitar isso. Fazia até mesmo sentido por ele nunca ter me convidado para vir aqui, ou de quando aconteceu o desafio na noite da festa do Renan, ele só ter relaxado quando Henrique garantiu que ninguém entraria.
– Nenhuma garota? – perguntei, sentindo peso na consciência.
– Nenhuma, nunca, jamais. – afirmou Babi.
– A Carol não vem aqui?
– Apenas a Carol, porque ela é a melhor amiga dele, mas mais ninguém.
Eu me sentei em um banco em frente a um balcão preto completamente sofisticado e apoiei minha cabeça nas minhas mãos. Gabriel vai me odiar pelo resto da minha existência.
– Você acha que ele ficaria muito bravo caso uma garota entrasse aqui sem permissão? – perguntei tratando de uma suposta situação, já que havia dito para ela que viemos o trazer embora e não que viemos o trazer embora carregado de bêbado.
– Provavelmente. – respondeu a garota dando de ombros. – Mas você deve ser tipo uma nova melhor amiga dele, né. Então tudo bem, por isso ele te trouxe.
– Mas o que você quis dizer com namorada?
– Ah, é que a promessa foi basicamente que ele jamais traria uma garota, a não ser que ela fosse sua namorada ou uma de suas melhores amigas.
Isso era tão fofo, que eu não soube o que responder.
– Você conhece a Alice? – perguntou Babi subindo no balcão e sentando de frente para mim. Ela falou de Alice de uma forma tão natural e o que mais me intrigou foi a pergunta estar no presente. Cheguei a ter duvidas de se ela estava falando de sua irmã mais velha mesmo, mas é claro que era.
– Não. – respondi com receio.
– Você ia adorar conhecê-la, ela é a segunda pessoa mais incrível do mundo. Ela sempre vem me visitar nos meus sonhos e a gente faz um monte de coisas divertidas. Às vezes eu queria que ela não tivesse ido embora pra sempre, mas ela diz que eu tenho o Gabriel. Só tem um problema... É que eu não sei quem o Gabriel tem. Eu queria que ela também aparecesse para ele, pra fazer ele parar de chorar, quando ele se encolhe num cantinho e fica tão pequenininho que quase não dá pra notar.
Ela falava com tanta inocência, palavras que me doíam tanto, que quando percebi tive de lutar para não deixar escapar as lagrimas que se acumularam em meus olhos. O fantasma de Alice não estava apenas cravado no passado de Gabriel, estava cravado nas paredes dessa casa e em cada palavra daquela criança na minha frente, que parecia não entender que o que sobrara de sua irmã, era apenas a imaginação que ela carregava dela.
– Você um dia também vai embora pra sempre? – perguntou Babi me fitando e eu não soube o que responder.
– Acho que um dia todos vamos embora para sempre, mas cada um tem sua hora.
– Então o Gabe também vai me deixar?
– Não, querida. Ele não vai te deixar. – respondi tentando concertar a situação. – Ele vai embora apenas quando estiver bem velhinho.
– Igual o vovô Luiz?
– Sim. – respondi sorrindo, mesmo sem saber quem é o vovô Luiz. – Igualzinho ele.
– Aí ele também vai vir morar aqui dentro? – perguntou Babi colocando a mão sobre o lado esquerdo do peito, onde está seu coração. – O Gabe diz que agora a Alice mora em nossos corações e por isso ela estará sempre conosco. Cabe tanta gente assim aqui dentro?
Dessa vez eu não aguentei segurar, quando percebi estava chorando e tentando me controlar. A inocência de uma criança é uma das coisas mais puras que existe e imaginando como deve ser para Gabriel lidar com isso, eu pude sentir como dói.
– Por que você ta chorando? – ela questionou me ajudando a limpar minhas próprias lagrimas. – Você não quer que o Gabe vai embora?
Aquelas palavras foi como ser acertada em cheio no coração.
– Não, não quero. – respondi sincera, expondo pela primeira vez em palavras, o meu maior medo no momento. Perder Gabriel. Confessando implicitamente para uma garotinha que não entenderia.
– Tudo bem, não se preocupe. – disse Babi segurando minha mão. – Falta muito pro Gabriel ficar igual ao vovô.
Naquele momento senti uma mão sobre meu ombro e olhei para trás. Avistei Gustavo sorrindo com cumplicidade para mim. Sorri de volta, um pouco envergonhada.
– Que tal irmos para a cama, Babi? Não queremos deixar o Gabriel bravo, certo? – disse Gustavo e a garota assentiu.
– Você promete que volta, Isa? – pediu Babi. – Nós podemos brincar.
– Se o Gabriel permitir, eu vou adorar. – respondi. A garota sorriu satisfeita e me deu um beijo na bochecha, antes de sair dali carregada por Gustavo, conversando animadamente com ele.
Quando eles saíram dali me permiti chorar o que estava segurando até então. Eu não entendia o porque exatamente estava chorando, mas de repente era tudo que eu queria fazer. Quando se passaram alguns minutos, senti Gustavo me envolver em um abraço e permanecer em silêncio, respeitando meu momento.
– É muita dor na vida de uma pessoa só. – sussurrei.
– Eu sei. – concordou Gustavo. – Eu sei.
Nós permanecemos em silêncio até que eu me acalmasse e depois finalmente fomos embora. Sair de dentro daquela mansão, por algum motivo fez com que eu me sentisse aliviada.
– O Gabriel ta bem? – perguntei assim que entramos no carro.
– Ta sim, ele dormiu.
– A Babi me contou da promessa para Alice. Foi por isso que ele não queria que eu entrasse, né?
– Sim. – respondeu Gustavo. – Henrique costumava trazer muitas garotas para casa e isso irritava ela, então ela fez os dois prometerem que só trariam namoradas, porque com palavras dela: “isso daqui não é bordel e eu tenho muito ciumes”.
Ele sorriu ao falar isso e então me lembrei que Gustavo é o amigo mais antigo de Gabriel. De repente pensei em algo que nunca havia pensado.
– Você conheceu a Alice? – perguntei.
– Ta brincando? Eu era apaixonado naquela garota! – disse Gustavo rindo. – O que ela tinha de bonita, tinha de engraçada e de inteligente. Ela deixava todo cara de boca aberta. E mesmo que o Gabriel morresse de ciúmes dela, ela provocava. Uma vez compramos umas garrafas de vinho escondidos e fomos beber no quarto de Gabriel, quando ele foi ao banheiro, ela subiu em cima de mim e me beijou na boca. Eu fiquei em choque e ela só sabia rir.
Nós começamos a rir, mas sabe quando a risada acaba em um singelo sorriso carregado de tristeza? Foi o que vi acontecer com Gustavo. Nunca havia sequer passado pela minha cabeça que os amigos de Gabriel também sofressem pela ausência de Alice. De repente me peguei imaginando quem mais havia a conhecido e principalmente, em quem havia sido Alice Fornazier. A garota que marcou a vida de todas as pessoas que conheceu, para sempre.
Quando Gustavo estacionou o carro na porta de minha casa, a primeira coisa que fez foi agradecer.
– Obrigado por hoje.
– Obrigada você. – respondi e antes de sair do carro, me lembrei de dizer algo importante, relacionado a tudo que ele havia me confessado essa noite. – Guga... Tudo bem errar, fazer escolhas erradas, se arrepender. Tudo bem não saber o que fazer. Há sempre a chance de voltar atrás e concertar o erro. Não enlouqueça com isso.
– Obrigado! – ele agradeceu novamente com um sorriso sincero no rosto.
Aquela noite quando me deitei na cama, demorei muito para conseguir dormir. Fiquei encarando o teto por horas, intercalando pensamentos. Era estranho saber que o relacionamento de Gustavo e Carol estava basicamente, uma merda, porque eles sempre pareceram muito felizes juntos. Me julguei por nunca ter percebido isso. É muito estranho perceber que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Ver o Gustavo daquela forma me fez querer fazer alguma coisa para ajudar, mas pela primeira vez, eu percebi, que não existia nada que eu pudesse fazer.
Acho que a única coisa mais complicada que relacionamentos, é o Gabriel. Estar na casa dele, conhecer sua irmã, falar de Alice, tudo isso me fez pensar que eu odeio admitir para mim mesma, mas ás vezes, sinto falta da tranquilidade que era estar com o Arthur. Era tudo tão mais simples e fácil. Sem jogos, sem enigmas, sem dores de cabeça, sem dificuldades. Mas ele com certeza, não é capaz de me causar o frio na espinha que sinto, só de fechar os olhos e pensar em Gabriel.
Mesmo que tenha dormido tarde, surpreendentemente acordei cedo. O que foi ruim, porque passei a manhã toda esperando por qualquer sinal de vida de Gabriel, que por acaso não chegou. Eu saí para almoçar com minha mãe e quando cheguei em casa, passei horas reunindo coragem para ir ao apartamento de Natália. Quando estava quase decidindo deixar o gato dela morrer de fome, a campainha tocou e eu me arrastei até o portão.
Ao abrir o portão fiquei tão surpresa, que fiquei sem saber o que fazer.
– Aceita cookie? – ofereceu Babi, me estendendo o pacote que segurava em mãos. Eu tive um pequeno ataque interno, ao perceber que ela estava usando uma camiseta do Coldplay, com a estampa dos elefantes de “Paradise”. Ela estava a coisa mais fofa do mundo vestida com aquela camiseta, um laço na cabeça, short e tênis.
Antes que conseguisse me recuperar da surpresa e respondesse Babi, que desistira de ficar com o braço estendido para mim, vi Gabriel surgir logo atrás dela. Segurando um skate e sorrindo, sem nenhum vestígio da ressaca que eu tenho certeza que o atingiu hoje.
– Fiquei sabendo que as duas se conheceram sem minha permissão. – disse Gabriel cruzando os braços na frente do peito.
– Ela vai ficar de castigo? – indagou Babi se virando para ele e depois para mim novamente. Então cochichou, mesmo que numa altura que dava para Gabriel ouvir. – Ele sempre me deixa de castigo quando faço algo sem sua permissão.
– Sabe que ainda estou pensando nisso... – respondeu Gabriel.
– Enquanto isso, você poderia me explicar o que esta acontecendo aqui? – pedi.
– Nós vamos ao parque. – contou Babi. – Pegue sua bicicleta, nós vamos de blicicleta e Gabriel de skate. Ele não gosta de bicicletas, mas gosta muito de skate. Mesmo que eu nunca me machuque de bicicleta e ele quase sempre fica com sangue no corpo inteiro de skate.
– O que eu disse sobre respirar enquanto conversa, Babi? – perguntou Gabriel e ela fez uma careta. É engraçadinho o jeito dela de conversar, porque ela dispara a falar e fala tão depressa, que parece não respirar enquanto isso. Provavelmente era a isso que Gabriel estava se referindo. – Você tem uma bicicleta? – ele perguntou em seguida.
Busquei pela minha velha bicicleta jogada em um canto da garagem e avisei minha mãe que estava de saída. Ela se assustou quando eu disse que iria ao parque e acho que foi exatamente por isso que nem fez perguntas. Que bom, porque aí ela ficou pensando que eu estou tentando ter uma vida saudável e não que só estou indo por causa de Gabriel.
Assim que saí pelo portão com a bicicleta, vi que Babi já estava dando voltas em cima da sua, que por acaso era de um rosa que cegava meus olhos.
– Tem certeza que você quer me levar para um parque com sua irmã mais nova? – perguntei ao Gabriel, parando ao seu lado.
– Na verdade, eu fiquei realmente muito frustrado quando descobri que você não somente a conheceu, como entrou na minha casa.
– Se serve de consolo, não foi você quem me levou, eu basicamente fui sem ser convidada. Ela não poderia brigar com você. – disse me referindo a Alice e o que Gustavo havia me contado na noite anterior.
Gabriel me olhou e ficou em silencio por alguns segundos, depois respondeu.
– Faz sentido. – concordou. – Mas voltando ao assunto... Porém, a Babi gostou muito de você, não parou de me encher o saco e a porra toda já aconteceu mesmo, então... Por que não?
– É tão ruim assim eu ter conhecido ela? Estou começando a ficar ofendida.
– Eu só apresentaria uma namorada para a Babi. – disse Gabriel olhando para ela, que parecia não estar gostando nada das rodinhas em sua bicicleta, já que estava literalmente as chutando.
– Ah, então ta tudo certo. Foi ela mesmo que Babi conheceu ontem. – respondi subindo na bicicleta e saí pedalando em direção a garota, sorrindo para mim mesma.
Gabriel nos alcançou com seu skate e avisou que era apenas para o seguir. Ele não quis contar para onde iríamos, mas garantiu que eu iria gostar. Só desejei que não fosse muito longe, porque eu sou muito sedentária. Achei engraçado observar que Gabriel parece ser extremamente superprotetor com sua irmã, porque ele estava monitorando cada movimento dela.
– Por que eu tenho que andar numa bicicleta de rodinhas? – reclamou Babi, olhando para as rodinhas presas às laterais de sua bicicleta e quase atropelando Gabriel.
– Pra não correr o risco de você cair e se machucar. – ele explicou calmamente. – E olha pra frente, Babi. – alertou Gabriel.
– Mas eu sou esperta, eu não vou cair. – ela rebateu.
– Eu sei que sim, mas não vamos correr o risco, tudo bem? – disse Gabriel indicando que deveríamos virar para a direita.
– Tudo bem. – ela disse por fim se dando por vencida. – Mas a Bruna não anda em bicicleta de rodinhas.
Eu ri sozinha da situação. A menina tem nove anos, acho que já consegue andar numa bicicleta normal.
– Vamos fazer um trato? – sugeri. Babi me olhou atenciosamente e Gabriel também. – Gabriel vai chegar em casa hoje e tirar as rodinhas, mas você tem que usar equipamento de segurança toda vez que for brincar.
– Joelheira, cotoveleira e capacete? – perguntou Babi fazendo careta em desaprovação. Eu assenti e ela ficou em silencio, como quem estava ponderando a possibilidade.
– Vocês tem isso na sua casa? – perguntei ao Gabriel sem emitir som, apenas mexendo os lábios, para que ela não ouvisse. Ele assentiu, um pouco antes de Babi dar a resposta.
– Tudo bem. – concordou Babi. – Trato feito.
– Então eu tiro as rodinhas assim que chegarmos em casa. – prometeu Gabriel.
– Isa, você tem irmãos mais novos? – perguntou Babi olhando para mim e perdendo o equilíbrio da bicicleta. Gabriel a ajudou mais uma vez e a repreendeu com apenas um olhar. Meu deus, ele é o irmão mais superprotetor que já conheci na vida!
– Não, só uma mais velha.
– Que pena! – lamentou Babi. – Eu poderia fazer amizade com seus irmãos e ir pra sua casa brincar. Seria divertido. Enquanto isso você e o Gabe namorariam...
– Eu já disse que ela não é minha namorada, Barbara. – disse Gabriel sério. Foi a primeira vez que ouvi ele a chamar pelo nome, então acho que a intenção foi dar uma bronca, mas ela deu uma risadinha. E eu também.
– Amigos especiais... Ta, ta, já entendi. – ela disse fingindo tédio.
– Amigos especiais? – perguntei sem entender.
– Sim, ele tem alguns amigos especiais, que são as únicas pessoas que podem ir lá em casa e brincar comigo. – explicou Babi. – Mas a ultima vez que ele chamou uma garota de amiga especial, eu vi ele colocando a língua dentro da boca dela. E agora ela coloca a língua dentro da boca do Guga.
Nesse exato momento nós paramos em uma esquina para esperar o semáforo fechar e atravessar a avenida.
– Ela esta falando da Carol? – perguntei olhando para Gabriel e ele apenas assentiu, enquanto estava literalmente vermelho por estar lutando para segurar uma risada.
– Ela nos viu sem querer... – explicou Gabriel ao se recuperar. – Foi bastante constrangedor e eu demorei um ano tentando dar um jeito na situação.
Nós seguimos pelo resto do caminho conversando sobre futilidades, até chegarmos a um bosque. O lugar era enorme e parecia ser frequentado por famílias. Eu e Babi prendemos nossas bicicletas no bicicletário e ela correu na direção de um parquinho, ao som dos gritos de Gabriel ordenando para que ela não saísse do seu campo de visão. Ele pediu para que eu esperasse um pouco e conversou com uma mulher que estava sentada em um banquinho bem em frente ao parque, depois voltou.
Gabriel me mostrou o resto do lugar que era repleto de árvores, fazendo ventar e passando uma espécie de tranquilidade, que me relaxou instantaneamente. Quase que em contraste com essa calma, chegamos até uma pista de skate que estava cheia com uma galera muito animada treinando manobras e incentivando uns aos outros. Ficamos por um tempo observando, enquanto eu achava cada mínima coisinha que os skatistas faziam, incríveis pra caralho.
– Venho muito pra cá andar de skate. – contou Gabriel. – A galera daqui é alto-astral, todo mundo amigo e receptivo, eles aplaudem até mesmo o moleque que ta aprendendo a parar em pé em cima do shape.
– Isso é muito maneiro! Eu sempre quis aprender a andar de skate, mas acho que não levo jeito pra coisa. – confessei.
– Vamos ver... – disse Gabriel me puxando pela mão até um outro ambiente.
Nós paramos em frente a uma enorme arquibancada de cimento, que era virada para um espaço enorme, que parecia ter sido projetado para ter alguma apresentação, shows ou coisas desse tipo. Fiquei imaginando que seria legal assistir ao show de alguma banda independente ali, ao ar livre, em um ambiente sossegado como aquele. Mas o lugar parecia estar fora de uso há anos e anos.
Gabriel colocou sua mochila sobre a arquibancada e colocou o skate no chão.
– Vou te ensinar a andar de skate. – anunciou Gabriel, olhando para mim.
– Ta maluco, é? Eu nunca nem subi em cima de um.
– Vem logo. – ordenou Gabriel e eu me aproximei com muito receio. Isso não ia dar certo. Não mesmo. Prevejo eu com um hematoma em cada parte do corpo. – Você é destra? – ele perguntou.
– Sim. – respondi.
– Bom, então vamos lá...
Gabriel me ajudou a subir no skate e fiquei com o corpo virado para a direita.
– Coloque seu pé da frente em cima ou próximo dos parafusos da frente e o seu pé de trás perto da calda do skate, essa parte elevada. – ele explicou e assim eu fiz. – Uma coisa importante, você tem que manter seu peso apoiado nos pés.
– Por enquanto tudo certo. – afirmei, feliz por estar em pé sozinha em cima do skate, sendo que até uma criança consegue tal coisa.
– Então agora você vai tentar andar. Você vai virar seu pé esquerdo um pouco pra frente e colocar seu peso sobre ele – explicou Gabriel e eu virei –, ai vai tentar dar um impulso no chão com seu pé dianteiro. Usa a sola do pé.
Eu dei um impulso no chão e o skate andou, depois voltei meu pé direito para a prancha. Mesmo que eu tenha me desequilibrado um pouco consegui me manter de pé e sorri orgulhosa para Gabriel.
– Muito bom! – disse Gabriel – Mas até a Babi sabe fazer isso. – ele completou. Eu já imaginava, mas não precisava esfregar na cara. Apontei o dedo para ele e ele riu, vindo em minha direção.
– Já que a parte básica se foi, deixe-me te explicar melhor. A posição inicial que te mostrei, com os dois pés pra direita, é a posição que você tem que se manter em cima do skate. A posição com o pé esquerdo virado um pouco pra frente é apenas pra você usar o direito pra dar impulso. Ou seja, sempre depois de você dar o impulso, tem de voltar à posição inicial... Aí isso é uma questão de treinamento.
Quando ele terminou de explicar eu tentei fazer. Essa parada de ficar arrumando o pé em cima da prancha enquanto ela está em movimento me fez perder o equilíbrio diversas vezes, mas o máximo que acontecia era eu cair de pé para fora do skate. Teve só uma vez que cai de verdade, foi quando impulsionei o skate forte demais e ao tentar me posicionar direito com ele em alta velocidade, desequilibrei e cai de bunda no chão. Gabriel correu até mim e me ajudou a levantar enquanto morria de rir.
Passei bastante tempo treinando isso, mas de jeito nenhum tirávamos o olho de Babi que ainda brincava no parquinho. Como eu estava andando apenas em linha reta, por fim Gabriel decidiu tentar me ensinar a virar com o skate e aí sim aconteceu o estrago de verdade.
– Pra você virar pra direita vai se inclinar um pouco e colocar mais peso na parte da frente dos pés, pra esquerda é o contrário, vai se inclinar e colocar mais peso sobre os calcanhares. – explicou Gabriel, como se fosse a coisa mais simples e fácil do mundo. – Entendeu?
– Entendi – respondi, respirei fundo e tentei.
De primeira tentei virar para a esquerda, já que como meu peso ficaria centrado nos calcanhares, raciocinei que eu cairia pra trás. E claro... Caí com tudo. O tombo foi feio mesmo. Dessa vez Gabriel veio correndo e me ajudou a levantar, sem rir. Sua expressão estava bem séria.
– Você ta bem? – ele perguntou parecendo verdadeiramente preocupado e eu assenti. Minha bunda estava doendo, minha perna, meu pé e meu braço esquerdo também, mas achei melhor não falar.
– Vou tentar de novo. – afirmei e ele me olhou como quem não aprovava a ideia, mas concedeu.
Subi no skate, tentei virar para a direita, já que não tive muita sorte com a virada para a esquerda e foi pior ainda. Foi por muito pouco que não acertei a cara no chão. Foi apenas sorte de ter tido o reflexo de me virar. Mas dessa vez, eu não contive uma careta, ao sentir quase que meu corpo inteiro doendo. Cair de skate definitivamente não é legal.
– Chega. – ordenou Gabriel se aproximando de mim. Ele me ajudou a me levantar com cuidado, comigo me segurando nele. Parecia que eu tinha sofrido um acidente de carro e não simplesmente caído de um skate, mas eu comecei até a mancar, enquanto ele me guiava até a arquibancada e me obrigou a sentar.
Assim que me sentei, Gabriel virou meu braço direito com cuidado e fez cara de preocupado ao constatar que meu cotovelo estava sangrando. Fiz cara de nojinho ao constatar tal coisa e foi apenas por ter visto o machucado, que de repente, ele começou a arder ainda mais.
– Muito bom... Isso a Babi não faz. – zombou Gabriel me fazendo rir. – Vamos cuidar disso.
Ele abriu sua mochila e tirou uma pequena toalha de dentro da mesma, a molhou com um pouco de água que trazia em uma garrafinha, pegou meu braço e passou a toalha no machucado com cuidado, apenas para limpar o sangue. Devo dizer que ardeu. Depois de já ter limpado, ele procurou por outra coisa dentro da mochila e tirou um remédio de dentro da mesma, o que me fez olhar com perplexidade para ele e vontade de rir ao mesmo tempo.
– Saí de casa com uma criança de nove anos que adora pegar meu skate escondido e levar tombos. – explicou Gabriel sem nem me olhar, como se tivesse lido meus pensamentos. – E claro, eu imaginei que isso fosse acontecer com a criança mais velha aqui.
– Há há. – respondi ironicamente e pude vê-lo sorrindo, enquanto pegava meu braço novamente para passar o remédio no machucado. Dessa vez ardeu pra caralho. Nem tentei esconder minha careta. Ele tentou segurar uma risada ao ver minha expressão, mas não conseguiu. Nem contestei, porque eu estava me sentindo com nove anos novamente, quando minha mãe cuidava de meus ferimentos após eu ter aprontado alguma coisa.
– Você vai sobreviver! – disse Gabriel guardando as coisas de volta na mochila e se sentou ao meu lado. Ele puxou minhas pernas para o seu colo e verificou se havia mais algum machucado, mas achou só dois roxos. – Onde ta doendo?
– É meu pé. – respondi lembrando que havia começado a mancar. – Mas foi só porque caí de mal jeito, ta de boa.
– Tem certeza?
– Tenho.
Percebi que ele olhou na direção do parque em busca de Babi e sorri.
– A gente deveria ir pra lá, você vai ficar mais sossegado. – sugeri.
– Não, quero ficar um pouco aqui com você. E eu consigo ver Babi daqui.
– Serio? – perguntei olhando na direção do parque e depois de muito me esforçar, consegui enxergá-la, brincando em um balanço com outras crianças ao redor. Percebi que haviam algumas mães por ali e reconheci a mulher com quem Gabriel havia falado quando chegamos. – Você conhece aquela mulher?
– É mãe de uma coleguinha da Babi. A Bruna, que ela disse não andar em bicicleta de rodinhas. Quando ela vem, Babi me pede para trazê-la. Por isso não fico tão preocupado, mas mesmo assim, é maior que eu, fico olhando o tempo todo.
– Vocês parecem dar muito certo.
– A Babi é definitivamente a pessoa mais importante da minha vida. – afirmou Gabriel e eu sorri.
– Não sei quem é a pessoa mais importante da minha vida. De fato não consigo escolher.
– Claro que sou eu. – disse Gabriel como se fosse óbvio e riu logo em seguida.
– Abaixa essa bola aí, querido.
Gabriel pegou a mochila dele e colocou atrás de suas costas, encostada no andar de cima da arquibancada, para que pudesse ficar mais confortável. Então me puxou para sentar no meio de suas pernas. Eu me encostei em seu corpo e nunca me senti tão confortável em toda minha vida.
– Pelo que disse mais cedo, Gustavo te contou o motivo de eu não levar garotas para casa. – disse Gabriel.
– Sim.
– Ele ou a Babi disse mais alguma coisa sobre Alice?
– Nada demais. – respondi fingindo indiferença, não queria falar daquele assunto.
Senti ele afastar meu cabelo com a mão e logo em seguida depositar um beijo logo atrás de minha orelha, descendo até minha nuca e continuando por toda a extensão do meu ombro. Fechei os olhos para aproveitar a sensação.
– Pensando bem isso foi bom... – disse Gabriel escondendo o rosto em meu pescoço. Pude sentir sua respiração me causando arrepios. – Agora tecnicamente não existe mais problema em te levar lá pra casa. Isso facilita bastante as coisas para mim.
– Facilita, é? – perguntei com um sorriso brotando em meus lábios.
– Bastante. Você não faz ideia do quanto minha cama é confortável e bem grande.
– Sabe que eu vou adorar conhecê-la... – provoquei. – Algo me diz que ela de fato deve ser a melhor parte daquela casa.
– Dá pra fazer um estrago em cima dela. Mas também tem meu banheiro, que inclusive tem uma banheira gigante.
– Você tem uma banheira no seu banheiro? – perguntei disparando a rir. – Você é muito playboy, Gabriel.
– Ah, vai se foder. – ele resmungou e eu ri mais ainda.
– Você também não tem uma empregada particular e um chofer não, playboyzinho? – zombei, rindo cada vez mais. – Aposto que sua mesada deve ser mais cara que passagem pra Disney.
Enquanto me xingava, Gabriel me virou para ele e colocou a mão sobre minha boca, tentando me fazer calar, mas eu não conseguia parar de rir e ele também não. Ele só tirou a mão da minha boca, quando conseguimos parar de rir e ele resolveu me beijar. E foi assim que passamos o resto da tarde, até escurecer. Literalmente, nos beijando.
– Acho melhor irmos. – disse Gabriel quando percebemos que já havia anoitecido. – A mãe da Bruna disse que elas iriam embora assim que escurecesse e já escureceu. Deve estar apenas esperando eu aparecer.
– Tudo bem. – respondi me levantando, para que ele pudesse se levantar também.
Nós juntamos nossas coisas e fomos atrás de Babi. Ela não queria ir embora, mas depois de Gabriel brigar com ela e da mãe de sua amiga ter afirmado que elas também iriam embora, as duas se despediram e fomos. Antes Babi convenceu Gabriel a comprar picolé para nós, mas durante o caminho continuou reclamando de fome. Eu concordei com ela, porque meu estomago também estava roncando, não havia comido nada além daquele picolé.
– Podemos passar em algum lugar pra comer? – pediu Babi. – É serio, eu to com muita fome.
Gabriel me olhou como se esperasse por uma resposta e eu neguei com a cabeça.
– Minha irmã ta viajando e me deixou responsável pelo gato dela e digamos que se a gente ta com fome, o coitado do gato deve estar morrendo. Preciso mesmo ir embora, para ir pra lá. – expliquei.
– Sua irmã tem um gato? – perguntou Babi gritando animadamente. – Nós podemos ir visitá-lo, Gabe? Podemos? Por favor, por favor, por favor...
E ela continuou repetindo “por favor” até que ele topasse.
– Você se importa? – ele perguntou olhando para mim.
– Não mesmo. – respondi. – Mas eu tenho que passar em casa pra deixar a bicicleta e pegar minhas coisas, porque vou dormir lá.
– Tudo bem.
– Aí nós podemos pedir algo para comer. – sugeri.
– Pizzaaaaa! – gritou Babi e nós rimos. Pizza e mais tempo com o Gabriel? Me parece uma ótima ideia.
Nós passamos na minha casa e eu fiz tudo que precisava fazer, então fomos para o apartamento de Natália. Eu achei que não seria possível subir com a bicicleta de Babi no elevador, mas ela coube lá dentro. Quando abri a porta do apartamento, o gato veio nos recepcionar e Babi começou a ter um surto. Ela o pegou com dificuldade e começou a brincar com ele.
– Qual o nome dele? – perguntou Babi.
– Lennon.
– Lennon, igual o John Lennon? – perguntou Gabriel.
– Sim. – respondi. – Minha irmã é muito fã de Beatles.
– Maneiro! – elogiou Gabriel.
Mandei que eles ficassem a vontade e fui direto colocar comida na vasilha do coitadinho do bicho. Babi carregou ele no colo e achei bonitinho, porque ele pareceu gostar dela. Quando ela o colocou no chão, ele veio até mim e depois se enfiou no meio das pernas de Gabriel.
– Eu não gosto de gatos. – confessou Gabriel fazendo careta ao ver o gato se esfregando em sua perna. Ri assistindo a cena, mas felizmente Lennon o deixou em paz ao perceber que agora havia comida em sua vasilha antes vazia.
– Agora podemos pedir a pizza, por gentileza? – sugeri. – Porque eu to morrendo de fome.
– Vamos pedir de quatro queijos! – gritou Babi subindo em cima de uma das cadeiras e pulando em cima das costas de Gabriel. – Com queijo extra!
– Por isso ela é minha irmã preferida! – confessou Gabriel rindo e o acompanhei. Qual seria a cara do atendente quando pedíssemos “uma pizza de quatro queijos com queijo extra, por favor”? Isso com certeza não deve ser muito normal. – Mas eu quero uma pizza com mais coisas, Babi.
– Vamos ligar na pizzaria e ver o que eles tem. – disse pegando o telefone e discando para a pizzaria que sempre ligo. É o único numero que sei de cor, porque em pleno século 21, ninguém decora mais o telefone de ninguém.
Acabou que nós enlouquecemos o coitado do atendente da pizzaria, que provavelmente deve ter pedido demissão no momento em que desligamos o telefone. Nós ligamos, colocamos o celular no auto falante e começamos a tagarelar os três ao mesmo tempo. Não queríamos uma das pizzas do cardápio, porque queríamos misturar mil coisas na pizza, por isso acabamos foi montando uma. Enquanto um gritava que queria bacon, o outro gritava que queria calabresa e o outro que queria frango. Foi a pizza mais mutante que alguém já pediu na vida e no final nós chegamos ao consenso de que deveria ter queijo, muito queijo, bastante queijo. Nós literalmente subornamos o moço para colocar praticamente todo o queijo que eles tinham, já que pagamos mais caro por isso. E o Gabriel me mostrou o que é ser esperto, quando também subornou o cara para passar nosso pedido na frente dos outros. Eu nunca recebi uma pizza tão rápido na minha vida!
Nós colocamos todas as coisas na mesinha de centro que tem na sala da minha irmã e nos sentamos no chão ao redor. Todas as coisas foram basicamente: a pizza, meu suco de laranja e o da Babi, a coca de 2 litros que Gabriel pediu surpreendentemente só para ele, ketchup e maionese. Não pegamos pratos, nem talheres e essa foi a parte divertida da coisa. Comemos com a mão e fizemos muita bagunça. Eu comi dois pedaços, Babi comeu um e meio, Gabriel comeu quatro e ainda a outra metade do da Babi.
– Isso é normal pra você? – perguntei à Babi, enquanto ele finalizava o pedaço dela.
– Normal não é não, porque eu fico me perguntando pra onde vai tanta comida. Mas já me acostumei.
– Pro meu estômago... – respondeu Gabriel virando um copo de coca e sorrindo satisfeito. – Que por acaso aceitaria mais uma inteira dessa.
– Você é um alienígena!
– Tanta beleza assim só poderia ser de outro mundo, né. – brincou Gabriel e eu revirei os olhos.
Babi se levantou e se jogou sobre o sofá, bocejando logo em seguida.
– Não vai dormir, Babi. Não tenho como te levar embora dormindo. – ordenou Gabriel, mas ela fingiu que nem ouviu. Só se aconchegou e fechou os olhos.
Gabriel me ajudou a recolher as coisas e levar para a cozinha, então se ofereceu para me ajudar a lavar a louça. Eu não recusei, então montamos um esquema de que eu lavava as coisas, passava para ele e ele enxaguava, depois colocava no escorredor. Assim terminaríamos mais rápido.
– Sua irmã mora aqui sozinha? – perguntou Gabriel enxaguando um prato.
– Tecnicamente era pra ser. Ela forma esse ano e resolveu que queria se mudar. Ia comprar o apartamento sozinha e tal, mas meus pais acabaram se juntando e dando de presente pra ela. Só que desde que ela se mudou, o namorado dela passa praticamente todos os dias aqui. Ele ajuda com as despesas, mas eles não assumem que moram juntos. Acho que pra não parecer que o relacionamento ta sério demais.
– Só que, obviamente, está! – deduziu Gabriel.
– Exato.
– O cara também forma esse ano?
– Sim, ele é um ano mais adiantado na faculdade, mas o curso dela é de quatro anos e o dele de cinco. – expliquei.
– Esse relacionamento vai ser um caos enquanto os dois estiverem fazendo o TCC. – disse Gabriel e eu assenti enquanto ria, porque era verdade. Todo mundo entra em um estado deplorável enquanto esta fazendo o TCC, em que fica com a aparência uma merda e a mente e o emocional sobrecarregado. Duas pessoas convivendo debaixo do mesmo teto lidando com essa pressão, não vai ser nada fácil. – Mas pelo menos se eles sobreviverem a isso, acho melhor você gostar dele, porque aí acaba em casamento.
– Já pensei nisso, mas ela é tão nova pra se casar, que sofro por ela. Agora que ela ta terminando a faculdade, que a vida vai começar de verdade. Ela ainda tem muita coisa pra viver.
– Tem quanto tempo que eles estão juntos?
– Acho que vai fazer uns dois anos.
– É bastante tempo... – disse Gabriel enquanto enxaguava o ultimo copo que entreguei pra ele.
– Com certeza. – concordei. Peguei um pano de pratos e enxuguei minha mãos, depois joguei para Gabriel fazer o mesmo.
– As vezes tenho medo pra caralho disso acontecer comigo. – confessei, me sentando sobre o balcão da cozinha. – Conhecer alguém nova, achar que é essa a pessoa da minha vida e é isso aí. Eu não queria casar antes dos 30 anos.
– Se quer saber, 30 ainda é pouco pra mim. – disse Gabriel se sentando ao meu lado.
– Pra mim também, mas quando comentei isso com minha família, eles começaram o discurso do século. Falando que aí eu caso com 30, engravido com 31, tenho filho com 32 e quando ele for um adolescente de 16 anos, eu vou estar com quase 50 anos, já velha, sem entender a geração dele, sem ter capacidade para criá-lo da forma com que a geração dele pede e consequentemente de controlá-lo e educá-lo. Sério, pré-ditaram minha vida até o dia em que eu vou morrer.
– Caralho!
– Pois é.
– Mas você quer mesmo casar, ter filho e essas coisas? – perguntou Gabriel. – Mesmo que depois dos 30, quando já tiver vivido o suficiente?
– Acho que sim. – respondi. – Uma hora temos que construir nossa própria família. Porque no fim, o tempo leva todo mundo embora, ou pelo menos para longe. Eu não quero acabar sozinha.
Ele não disse mais nada, ficou apenas em silencio.
– E você? – perguntei. Fiquei bastante curiosa.
– Eu vou morrer de overdose antes de sequer pensar direito sobre isso. – respondeu Gabriel sorrindo e eu sorri de volta. – Eu preciso ir embora, prometi pro Gustavo e pro Bruno que sairíamos nós três hoje.
– Sem a Carol?
– Exatamente.
Me lembrei da conversa que tive com Gustavo. Desde que conheci Gustavo e Carol, nunca os vi saindo separados e se isso estava acontecendo, não significava coisa boa. Eu de fato só espero que isso não machuque nenhum dos dois, mesmo que, sejamos sinceros, seja algo impossível. Mas principalmente, que não atrapalhe a amizade de ninguém. Seria horrível ter de escolher alguém para apoiar e ver nosso grupo segregando. Não quero isso.
– Você acha que eles terminam? – perguntei ao Gabriel.
– Sinceramente, não sei. – ele respondeu após dar um longo suspiro.
Nós ficamos em silêncio pensando sobre isso. Acho que se para mim, já seria difícil saber o que fazer, para Gabriel seria pior ainda. Afinal, é o melhor amigo dele e a melhor amiga, passando ao mesmo tempo, por uma das piores fases da vida de alguém: o rompimento de um relacionamento.
O silêncio foi quebrado pelo Gabriel falando no telefone. Aparentemente ele pediu para Henrique vir buscá-los, já que não teria como ele carregar Babi dormindo e a bicicleta dela. Resolvemos ir para a sala esperar por Henrique, que não demoraria muito para chegar.
– O Gustavo veio perguntar de você pra mim... – contou Gabriel se sentando no sofá. Me sentei virada de frente para ele, colocando minhas pernas sobre as suas.
– Como assim?
– Hoje de manhã, fui na casa dele agradecer por ontem. Então ele me contou que tava com você quando ligaram pra ele e que você o ajudou a me levar embora, enrolar minha irmã e etc. Terminou dizendo "eu gosto pra caralho da Isabelle" e eu respondi que eu também. Aí ele perguntou "de que forma?" e eu olhei pra ele com cara de "que pergunta gay foi essa?". Então ele começou a falar que eu te trato de um jeito diferente e que ele percebe. Que ele reparou até mesmo pelo cuidado que tive pra te colocar dentro do carro da minha mãe e te levar embora no dia do aniversário do Bruno, abaixar o banco pra você ficar mais confortável e me preocupar em te cobrir com minha blusa de frio.
Enquanto ele ia contando, me contive para não sorrir. Eu gosto de pensar que Gabriel se preocupe comigo, mas preferi não demonstrar. As vezes acho que sufoco ele.
– O que você respondeu? – perguntei simplesmente, querendo de fato saber o que ele havia dito para Gustavo.
– Que sinto por você o mesmo carinho que tenho pela Carol.
Dessa vez eu não contive meu sorriso, na verdade sorri de propósito, na intenção de mostrar para ele que parece bom para mim. Pensar que eu tenho para ele, a mesma importância que Carol, fez com que eu me sentisse bem. Independente de qualquer outro envolvimento que tenhamos, é bom saber que acima de tudo, somos amigos.
– Eu acho que temos um tempinho... – disse Gabriel olhando para Babi, parecendo querer ter certeza de que ela estava dormindo e então me puxou para um beijo.
Ok, talvez eu goste ainda mais disso.
Não tivemos muito tempo, porque logo o Henrique chegou. Gabriel jogou sua mochila nas costas, com o skate dentro e levou Babi no colo. Eu o ajudei, levando a bicicleta da mesma até a porta do prédio. Ao chegamos lá, ele deitou Babi no banco de trás do carro e eu entreguei a bicicleta para Henrique, que a guardou.
Quando Henrique entrou no carro, Gabriel veio até mim e me deu um selinho.
– Se cuida. – disse Gabriel abrindo a porta.
– Pra que? Tenho você pra fazer isso pra mim. – respondi sorrindo e ele sorriu de volta.
Voltei para o apartamento com aquele sorriso de sempre no rosto. Aquele sorriso que ele causa e que eu não consigo reprimir. Aquele que me deixa parecendo uma idiota e que fez com que eu me jogasse no sofá em que estávamos nos beijando minutos antes, para acabar cochilando ainda pensando nele.
Acordei algumas horas depois totalmente perdida no tempo, mas ainda não era nem meia noite. Tomei um banho, me joguei sobre a cama e me enfiei debaixo das cobertas. Liguei a televisão num canal qualquer que estava passando The Vampire Diaries e comecei a assistir. Percebi que fazia tempo que eu não assistia series, porque da ultima vez que vi essa em específico, o amor da vida da Elena ainda era o Stefan e não o Damon. Apesar de assistir TVD não ser a melhor ideia que eu tenho para um sábado a noite, eu não estava ligando para isso. Meu dia havia sido bom o suficiente e eu estava me sentindo exageradamente feliz.
Quando estava prestes a me render ao sono, sem ainda ter entendido quando foi que o Damon se tornou o mocinho, a campainha tocou. Permaneci imóvel, tentando absorver a informação de que me obrigariam a levantar da cama quase 1h da madrugada. Até que depois de um longo período de tempo, ouvi o som da campainha pela segunda vez. Deveria ser algum amigo da Natália que não sabia que ela estava viajando, por isso deixei a preguiça me vencer e decidi que não iria atender a porta. A campainha tocou pela terceira vez e permaneci deitada, até que minha curiosidade foi muito maior que a preguiça e eu me levantei bufando, andando a passos largos até a porta.
Assim que abri a porta sem sequer olhar quem era pelo olho mágico, ou me importar com a forma que eu estava vestida, um sorriso involuntário surgiu em meu rosto. Eu não entendi o que ele estava fazendo ali, já que ele iria sair com Gustavo e Bruno. Pelas suas vestimentas, algo me dizia que ele havia mesmo saído, o que deixava tudo com menos sentido ainda, já que Gabriel não iria embora de um rolê meia noite e pouco.
– Eu prometi que iria sair com meus amigos e eu fui. Eu cumpri a promessa, certo? – ele perguntou, mas percebi que se tratava de uma pergunta retórica. – E eu juro... – prosseguiu Gabriel, dando alguns passos para frente, entrando no apartamento e parando bem em frente a mim. Ele ficou tão próximo, que fui obrigada a olhar para cima, para enxergar seus olhos. – Que tentei me divertir com eles. – dito isso ele usou uma das mãos para bater a porta de entrada atrás de nós. – Mas eu só conseguia pensar em uma coisa. Você imagina o que?
Essa não havia sido uma pergunta retórica, mas eu não consegui responder. Ele estava me encarando e falando com tanta firmeza em suas palavras, que me senti intimidada. Quando quer, os olhos de Gabriel são bem expressivos, e dava para entender perfeitamente o que ele queria.
Eu apenas neguei com a cabeça e vi um sorriso surgir no canto de sua boca. Então, senti seu braço esquerdo envolver minha cintura e me virar para o rumo da porta, para onde ele me guiou até que eu estivesse encostada na mesma. Nesse momento ele encostou seu corpo completamente no meu, de forma que devido a sua altura, sua boca ficou logo acima do meu ouvido. Ouvi o barulho da chave girando na fechadura, o que indicou que ele estava trancando a porta com sua mão disponível. Mas acima de tudo, que ele não pretendia ir embora. Então suas palavras vieram como ondas de excitação:
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Em mim. E você. A noite inteira sozinhos nesse apartamento.
Eu senti seus lábios em minha orelha, depois acompanharem meu maxilar até meu queixo e subirem até encontrar minha boca, sem perceber que involuntariamente eu movia meu rosto para facilitar todo o processo para ele. Gabriel me beijou e eu pude perceber pelo seu beijo, que as suas intenções não eram nada boas. Eu soube o que ele queria apenas pelo seu olhar e pude confirmar com sua frase, mas percebi que havia sido ingênua sobre o quanto ele queria, ao sentir o desejo em seu beijo. E é disso que estou falando. Suas intenções não eram nada boas, porque Gabriel não queria bancar o bom moço, ele queria uma noite de sexo de verdade.
Senti ele puxar minhas pernas para cima e envolvê-las em seu quadril. Ele estava excitado. Muito excitado. Nós paramos o beijo por falta de ar, mas foi sua próxima fala que me deixou realmente sem saber como respirar.
– Eu vou te fazer ter um orgasmo na sala, na cozinha, no banheiro e no quarto. No chão, no sofá, na pia e na cama. – prometeu Gabriel.
E cumpriu.
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