Notas iniciais
Oi, anjinhos! Dessa vez a coisa foi séria, né? Eu preferi nem ver quantos dias foram sem um sequer sinal de vida. Cheguei a receber várias mensagens aqui no Nyah, que só vi hoje quando vim postar. Algumas pessoas pensaram que eu havia desistido da história e peço desculpas, mas eu já garanti para vocês e torno a dizer: nada me faria desistir de escrever Poltrona 19. Nem que restasse apenas UMA pessoa ainda disposta a ler! Quero deixar claro que é obvio que não fiquei tanto tempo sem postar por motivo nenhum, foram tempos difíceis na faculdade e na minha criatividade também, mas to de volta. Na tentativa de não deixar isso acontecer novamente, vou tentar seguir o conselho de uma leitora e começar a programar as postagens, mesmo que para isso os capítulos sejam menores, porque pelo menos assim eu postaria com frequência. Confesso que isso vai ser um ENORME desafio para mim e por isso não garanto que vai dar certo, já que sou péssima em me programar, mas vou ao menos tentar. Preciso achar uma solução pra esses sumiços insuportáveis, porque não são apenas vocês que ficam mal, eu também fico e MUITO. Nesse tempo que desapareci recebi uma quantidade de comentários surpreendente! Eu fiquei meio chocada e cheguei a me perder. Porque além dos comentários do último capítulo, surgiram muitos leitores novos que comentaram os 34 capítulos da história. Eu tenho MUITA coisa pra responder e vou gastar bastante tempo com isso, por isso resolvi postar primeiro e agora vou tentar responder um por um. Me perdoe se acabar esquecendo de algum. Também irei responder as mensagens aqui no Nyah, no twitter e facebook. Peço apenas um pouquinho de paciência! Eu confesso que quando abri o site do Nyah pensei que fosse ter perdido alguns leitores e ganhado alguns xingamentos, mas pelo contrário, me deparei com mais QUATRO recomendações. Dizer que fiquei apenas emocionada, é bem pouco. Me deparar com uma recomendação já me deixa sentimental daquele jeito que vocês já sabem bem, pensa então ler quatro de uma vez? Não faltou chorôrô em cima do computador! Cada recomendação é unica por si só, pelo sentimento que é colocado nelas por parte de quem escreve e pelo motivo que está levando determinada pessoa a recomendar justamente tal história. É por isso que quero agradecer a Isabella Olimpiana, Bia Costa e Bel Delacroix pelas lindas palavras ao elogiarem não somente a história, como minha escrita e gastarem um pouquinho de seu tempo para recomendarem a outras pessoas. Porém, eu quero dizer um obrigada especial para a Talita Gouveia. Sua recomendação conseguiu tocar meu coração de uma forma que não sei como explicar. Talvez seja o fato de você ter abandonado a monografia para vir se dedicar a dizer palavras tão lindas, mas sei que chorei e senti de fato, que estou fazendo a coisa certa. Eu fui capaz de realmente pensar que minha vida está ligada a escrita e que é assim que pretendo fazer a diferença na maior quantidade de corações possíveis. Obrigada as quatro por esse momento especial! Pessoal, eu gostaria de pedir para lerem com calma o final desse capítulo. Eu gostei bastante dele e gostaria que refletissem um pouco sobre o que a reflexão da Isa dessa vez, tem a dizer. Boa leitura a todos!

– Love, love me do, you know I love you, I'll always be true, so please love me do…

Foi assim que eu acordei, com os gritos de Gabriel misturados a musica dos Beatles, em um volume que renderia uma multa de condomínio para Natália em segundos. Virei-me para o lado e avistei Gabriel apenas de cueca, em frente a um aparelho de som, segurando uma travessa de vidro em mãos, com o que parecia ser sucrilhos e leite dentro.

– Os vizinhos vão ligar pro síndico e reclamar. – resmunguei alto o suficiente para que Gabriel pudesse ouvir. Ele se virou para mim e deu um sorriso provocador.

– Se não reclamaram dos seus gemidos a noite toda, não reclamam de mais nada.

Eu peguei meu travesseiro e arremessei nele.

– Ei, meu sucrilhos! – reclamou Gabriel ao se desviar do travesseiro.

– Eu te odeio. – afirmei. – E você estragou a coisa toda!

– Que coisa toda? – ele perguntou finalmente abaixando o som.

– O momento em que a gente acorda feito um casal de filme, completamente felizes, olhamos um para o outro com cara de idiotas apaixonados e falamos “bom dia”, como se não nos importássemos com a cara de derrota que todo mundo sempre acorda. Muito pelo contrário, você me olha como se eu fosse uma angel da Victoria’s Secret. Por que diabos isso nunca acontece com a gente?

Gabriel gargalhou quase tão alto quanto a música estava minutos antes.

– Desculpe. – ele pediu colocando a travessa que segurava, em cima do aparelho de som. – Vamos tentar de novo.

Dito isso ele se deitou na cama ao meu lado e me obrigou a virar, para que ele pudesse me abraçar por trás.

– Ok, agora quando a gente acorda? – perguntou Gabriel num sussurro, me fazendo rir. Me virei para ele disposta a xingá-lo, mas acabei foi rindo ainda mais com seu teatro. – Bom dia, angel da Victoria’s Secret! Como eu sou um cara sortudo por acordar ao seu lado!

– Você é ridículo!

– Você é mais gostosa que uma angel, você sabe né? – ele perguntou parecendo estar falando verdadeiramente sério. Eu revirei os olhos, porque se isso foi uma cantada, foi péssima. – É serio, elas são tipo esqueletos com vida.

– Que namoram Adam Levines da vida!

– Pffff... Quem quer namorar o Adam Levine quando acorda do meu lado? Fala sério!

– Você é mesmo ridículo! – afirmei, antes dele sorrir e me puxar para um beijo. – E assaltou a dispensa da minha irmã.

– Eu acordo quase com tanta fome quanto excitado. – explicou Gabriel se colocando sobre mim. – A primeira parte eu já resolvi, você podia resolver a segunda.

– Não é possível que você ainda esteja com disposição pra transar depois dessa noite, Gabriel. – falei completamente indignada. – Você não cansa?

– Que tipo de pessoa se cansa de transar? – rebateu Gabriel mais indignado ainda.

– Eu, Gabriel! Eu!

– Mas poxa, eu fiquei sabendo que era agora que a gente ia tomar um banho juntos...

– Eu acredito na sua capacidade de se lavar sozinho. – respondi.

– Mas eu não recusaria uma ajuda.

– Não vou transar com você agora.

– Poxa, Isabelle! Você ta nua embaixo de mim nesse exato momento. Isso não é justo.

– E estive nua a noite inteira. Sua cota de Isabelle nua do fim de semana já se esgotou. – disse o empurrando para o lado e me levantei me enrolando no edredom para procurar por minhas roupas, que por acaso, não estavam no quarto.

Comecei a me lembrar da noite anterior e me dei conta de que a ultima vez que estive usando qualquer peça de roupa, eu estava na sala e foram poucos minutos depois de Gabriel entrar pela porta da frente daquele apartamento. Caminhei pelo corredor em direção a sala e percebi a bagunça que se encontrava todo o lugar. Eu precisava arrumar tudo antes de Natália chegar.

Encontrei minhas roupas esparramadas pelo chão, assim como uma quantidade de portas-retratos que me fez pensar no quanto sou absurdamente sortuda por nenhum ser de vidro. Na noite anterior, Gabriel me empurrou contra o bufê com pernas cabriolet que Natália usa para colocar suas fotografias em cima e com uma só mão jogou todos os portas-retratos no chão, dando espaço para que eu me sentasse e me agarrasse logo em seguida. Sem se preocupar nem um pouco com os objetos que arremessou em direção ao piso.

– Acho que vamos ter de arrumar tudo isso aqui, certo? – deduziu Gabriel, me despertando de meus pensamentos.

– Óbvio, porque se eu entregar o apartamento pra Natália desse jeito, ela me mata. – respondi, recolhendo minhas roupas.

– É sempre assim que encontro o apartamento do meu irmão.

– Homens... – disse de forma acusativa e me virei na intenção de ir até a cozinha. Nesse momento Gabriel me pegou de surpresa e me jogou por cima de seu ombro. – O que você ta fazendo, Gabriel?

– Eu não aceito não como resposta. – respondeu Gabriel caminhando em direção ao quarto. De fato não estava entendendo ao que ele estava se referindo, até que ele parou na porta do banheiro. – E então, vai por conta própria ou terei que te colocar debaixo do chuveiro com edredom e tudo?

Nesse momento tentei me debater, socá-lo e fazer qualquer outra coisa para conseguir que ele me soltasse, mas nada adiantou.

– Ok, então. – disse Gabriel entrando no banheiro e fechando a porta.

– Não se atreva, Gabriel!

Ele me carregou para dentro do box e só me soltou dentro do mesmo, quando pôde me encostar na parede e ligar o chuveiro sobre mim. Senti a água no começo fria cair sobre minha cabeça e encharcar o edredom enrolado em meu corpo, o deixando extremamente pesado. Murmurei alguns xingamentos e puxei Gabriel para mim, fazendo com que ele também se molhasse.

Pude ver seus cabelos se encharcarem e a água escorrer pelo seu rosto, até cair sobre seu corpo. Ele não estava bravo, estava era sorrindo, porque afinal, ele conseguiu o que queria: nós dois embaixo daquele chuveiro. E vê-lo tão sexy em minha frente, me impediu de ficar irritada e fez justamente o contrário. Puxei seu rosto para mim e ataquei seus lábios molhados, iniciando um beijo intenso.

Gabriel se livrou do edredom que cobria meu corpo tão rápido quanto me livrei de sua cueca e juro que aquela foi uma das melhores transas da minha vida. Foi difícil lidar com o ambiente cada vez mais quente e abafado, dificultando minha respiração que parecia não saber como se normalizar. Assim como foi difícil me equilibrar com uma de minhas pernas em volta de seu quadril o ajudando em seus movimentos e tendo apenas o box e as paredes para me apoiar. E mais difícil ainda foi não cravar minhas unhas em suas costas e conter gemidos que eu lutava em vão para serem inaudíveis.

Eu parecia sentir tesão com o simples contato dos nossos corpos e é por isso que de tão excitada, apenas depois que atingi o orgasmo e tentava me recuperar, ainda abraçada ao Gabriel que mantinha a testa encostada na parede, esperando que o oxigênio também voltasse aos seus pulmões, meus olhos enxergaram o edredom sujo e molhado no chão, com o qual eu nem sequer havia me preocupado... Assim como a camisinha que só então me lembrei que não havíamos usado.

Eu senti pânico imediatamente, mesmo tendo consciência de que tomo anticoncepcional e que tomando certo eu não tenho chance nenhuma de engravidar. Justamente pela parte do tomar certo.

– Gabriel, nós não usamos camisinha. – disse em desespero.

– Tudo bem, você toma remédio, não toma?

– Sim, mas eu não tenho certeza se tomei certo todos os dias esse mês. Eu sou muito esquecida.

– Ok... – disse Gabriel de um jeito que fez parecer que não estava nada ok. – Eu vou na farmácia e compro a pílula do dia seguinte pra você, aí fica tudo certo.

– Eu nunca tomei essa parada antes. – admiti. – Isso tem efeitos contraindicativos?

E lá estava eu meia hora depois sentada na cama, segurando em mãos uma cartela com dois comprimidos e lendo a bula do remédio para Gabriel, que estava deitado ao meu lado, com nem um terço da preocupação que eu estava sentindo. Na verdade, ele só tava reclamando de fome e dizendo que sou exagerada.

– “PILEM é um contraceptivo de emergência, indicado na prevenção da gravidez, para ser utilizado quando nenhum método contraceptivo foi usado (alto risco de gravidez) ou nos casos comprovados ou suspeitos de falha contraceptiva (rompimento, deslizamento ou emprego incorreto da camisinha; deslocamento, ruptura ou retirada antecipada do diafragma ou do tampão; falha na interrupção do coito (por exemplo, ejaculação na vagina ou na genitália externa); cálculo incorreto do método da tabelinha; expulsão do DIU; esquecimento de tomar por dois ou mais dias o comprimido contraceptivo hormonal oral diário em um ciclo)”. – li em voz alta.

– O que vamos comer no almoço? – perguntou Gabriel. Dei um tapa em seu braço e prossegui.

– “O produto não deve ser usado por pacientes com hipersensibilidade aos componentes da fórmula, em casos de gravidez comprovada ou suspeita, tromboembolia venosa profunda nas pernas (presente ou com história anterior), embolia pulmonar (presente ou com história anterior), doenças cardíacas (atual ou com antecedentes), história de acidentes cerebrovasculares, doença cardíaca valvular com complicação, pressão sangüínea elevada, diabetes com problema vascular, graves dores de cabeça, tumor no fígado, nas mamas ou ginecológico, doença hepática ativa ou por pacientes fumantes. Deve ser usado com cautela em casos de diabetes, varizes, pressão alta, epilepsia e antecedentes de flebites. Este medicamento não protege contra doenças sexualmente transmissíveis, incluindo infecção por vírus da imunodeficiência humana (HIV) ou síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS)”.

– Você tem alguma dessas coisas? – indagou Gabriel.

– Não.

– Então ninguém vai morrer. Agora toma logo e vamos comer, por favor?

– Agora que eu vou ler as reações adversas e os efeitos colaterais. – avisei.

– Meu deus do céu! – resmungou Gabriel. – Você sabe que não vai ficar grávida!

– E se eu ficar? Você vai assumir? Não vai, né? Então cala a boca. – gritei impaciente. Gabriel ficou quieto e eu percebi que não tinha necessidade de estar gritando com ninguém. – Desculpa. Só não quero minha vida arruinada aos 17 anos de idade.

– Você pode ter esquecido de tomar o anticoncepcional até uns dois dias e você não esqueceu, Isa.

– Sempre existe uma história maluca em que com zero porcento de chances, aconteceu, então melhor precaver.

– Tudo bem.

– “Náusea: cerca de 25% das mulheres que utilizaram o contraceptivo de emergência experimentaram náusea passageira que pode desaparecer dentro de poucas horas, mas pode excepcionalmente prolongar-se por até dois dias. Vômito: aproximadamente 5% das mulheres que tomam contraceptivo de emergência podem vomitar. Caso o vômito aconteça dentro de 2 horas após a administração de PILEM, deve-se repetir a dose e utilizar um medicamento antiemético. Alterações no ciclo menstrual: foi relatado que após o uso do contraceptivo de emergência, cerca de 75% das mulheres não experimentaram modificações no ciclo menstrual. No entanto, sangramento vaginal irregular pode ocorrer após o uso do contraceptivo de emergência. Tais alterações nos padrões de sangramento podem ser temporárias e normalmente não indicam qualquer problema mais sério. O sangramento menstrual pode começar alguns dias antes ou após o esperado. O fluxo menstrual pode ser menor ou mais intenso que o usual. A paciente deve ser orientada a contatar o médico caso o sangramento perdure por mais tempo que o período normal, ou não comece dentro de 21 dias após o tratamento. Há relatos regulares de aumento de sensibilidade nas mamas, cefaléias, dores abdominais e tontura. Estas reações adversas podem, usualmente, subsistir por um ou dois dias após fim do o tratamento com PILEM”. – terminei de ler. – Beleza, tudo certo.

Gabriel me estendeu o copo de água que ele estava segurando há uma eternidade enquanto eu insistia em ler a bula, e eu tomei os dois comprimidos da cartela de uma só vez.

– Pronto, Senhora Complexidade? – zombou Gabriel.

– Pronto, Gabriel. Podemos almoçar.

Foi só quando chegamos à cozinha que não soubemos ao certo o que íamos comer.

– Você sabe cozinhar? – perguntei revirando a geladeira buscando por algo para fazermos.

– Você quer que eu seja sincero? – questionou Gabriel e eu já soube a resposta. Óbvio que não, ele tem empregada pra isso. – Eu nunca sequer acendi um fogão com fósforo.

– Meu deus do céu, é pior do que eu imaginava.

– É melhor ligarmos em algum restaurante e pedirmos algo. – sugeriu Gabriel se sentando sobre o balcão da pia.

Olhei de volta para dentro da geladeira, não disposta a me render. Na verdade agora eu estava determinada a obrigar o Gabriel a cozinhar algo. Quero ver o desastre que será isso, aposto que darei muitas gargalhadas. Tudo que havia ali dentro era leite, toddy, um saco de pão de forma, presunto, mussarela, algumas verduras, ovos e vidros de ketchup e maionese. No congelador encontrei algumas carnes e foi quando tive uma ideia genial.

Peguei a carne moída e coloquei em cima da pia ao lado de Gabriel.

– Coloca isso pra descongelar. – ordenei e peguei o leite e os ovos dentro da geladeira, depois abri os armários para procurar pelo resto que eu precisava. Farinha e óleo. O que felizmente consegui encontrar e peguei para colocar na pia também. Foi aí que percebi Gabriel me olhando bastante confuso. – O que foi?

– Como se descongela carne? – ele perguntou e eu tive que rir, qualquer pessoa no mundo sabe como descongelar uma carne.

– Gabriel, vem cá! – pedi parando em frente ao micro-ondas. Ele andou até mim e parou ao meu lado. – Ta vendo esse botão aqui? Como é que ele chama? – perguntei apontando para uma função especifica.

– Descongelar. – leu Gabriel e depois olhou para mim dando um sorriso forçado.

– Pois é... Basta você colocar a carne dentro de uma vasilha, enfiar dentro do micro-ondas e apertar esse botão mágico. Será que você é capaz?

– Não precisa esculachar também, né... – ele resmungou indo fazer o que pedi. Apenas sorri e voltei ao dever.

Peguei o liquidificador e coloquei o leite, ovos, óleo, farinha e sal lá dentro para bater.

– O que você vai fazer? – perguntou Gabriel me observando curioso.

– Uma das minhas coisas preferidas no mundo... – respondi sorrindo. – Panquecas!

– Você sabe fazer panquecas?

– As melhores que você vai comer na sua vida. Mas... Você vai me ajudar.

– Eu? – ele perguntou apontando para si mesmo.

– O próprio. – afirmei. – Nós vamos fazer panquecas de carne moída com queijo.

– E o que você quer que eu faça?

– É simples, você vai fazer a massa na frigideira, enquanto eu faço a carne e o molho. – expliquei já terminando de bater a massa no liquidificador. – Pega uma frigideira no armário e unta ela com óleo.

– Un o que?

– Untar, Gabriel. Passar óleo sobre a frigideira.

– Não dava pra falar isso? – ele reclamou pegando a frigideira.

– Mas todo mundo sabe o que é untar, seu burro!

– Não me chama de burro que eu passo óleo em você! – ele ameaçou e eu resolvi ficar quieta.

Gabriel untou a forma e quando terminou, liguei o fogo para aquecer um pouco a panela. Feito isso fui tentar explicar para ele o que fazer, mostrando ao mesmo tempo.

– Você vai usar essa colher concha pra pegar a massa dentro do liquidificador, colocar na frigideira, esparramar ela por toda a superfície e esperar ela ir fritando. Quando você ver que ela desgrudou da panela, da uma mexida e joga ela pra cima pra virar e fritar do outro lado. Aí tira e coloca nesse prato que deixei aqui do lado. – expliquei. – Entendeu?

– Entendi.

– Então faz você pra eu ver.

Ele pegou a quantidade certa de massa, espalhou direitinho pela frigideira e soube a hora certa de virar. Mas na hora de virar, ele jogou a panqueca pra cima com tanta força, que ela bateu no depurador e caiu no fogão. Eu disparei a rir e ele ficou frustrado.

– Eu vou conseguir! – afirmou Gabriel tentando novamente e a segunda caiu no chão.

– Você vai acabar com a massa, vou te ensinar de outro jeito.

– Não, eu vou fazer assim! Me deixa!

Gabriel parecia tão determinado que deixei ele tentando enquanto fiz o recheio. Ele não demorou muito para pegar o jeito e acabou fazendo tudo direitinho. Com o recheio pronto fui ensinar ele a enrolar as panquecas e aí tive certeza de que ele daria trabalho.

– Você coloca a massa no prato, uma fatia de mussarela por cima, depois uma faixa do recheio, enrola e aí coloca dentro da vasilha. – expliquei.

Simples e fácil, mas cada vez que ele ia colocar o recheio dentro da panqueca, colocava um pouco na mão e comia. Quando terminamos de enrolar tudo e colocamos dentro da vasilha, joguei um pouco de molho por cima, queijo e levei ao forno por dez minutos. Durante esse tempo fiz Gabriel fazer o suco enquanto eu arrumava a mesa para comermos.

Quando finalmente nos sentamos à mesa para almoçar e vi Gabriel se servindo, sorri involuntariamente.

– É a primeira vez que fazemos isso sozinhos. – observei.

– Isso o que?

– Nos sentamos em uma mesa arrumada bonitinha e nos servimos decentemente, para comermos uma comida de verdade. – respondi. – Geralmente quando estamos sozinhos só comemos porcarias e quase sempre sentados no chão de algum lugar, já reparou?

– É verdade. – concordou Gabriel. – Até na casa do Renan nos sentamos no chão pra comer pudim.

– Qual o nosso problema?

– Acho que não sabemos muito bem como ser normais. – respondeu Gabriel.

– Faz sentido.

Assim que nos servimos e começamos a comer, esperei a reação do Gabriel. Eu não sei cozinhar quase nada e não nego isso. Visto que tenho minha mãe como exemplo, a mulher que consegue queimar pipoca de micro-ondas. Mas eu gosto das panquecas que faço e queria que ele gostasse.

Gabriel colocou um pedaço na boca e fingiu estar saboreando por muito tempo.

– Ai, para. Você não leva mais que dez segundos pra mastigar alguma coisa, Gabriel. – reclamei impaciente. Ele riu e começou a comer de verdade, enfiando enormes pedaços na boca e engolindo como quem não precisa mastigar.

– Eu juro que essa parada entrou pra minha lista de comidas preferidas. – garantiu Gabriel.

– E qual seria sua comida preferida? – perguntei.

– Lasanha. – ele respondeu sem nem pensar. Me lembro que um dia, sentados no chão da biblioteca do colégio, fazendo meu trabalho de História, eu havia feito essa mesma pergunta para ele e ele se negou a responder. Isso colocou um sorriso tão grande em meu rosto que fui incapaz de esconder.

– Sério mesmo?

– Definitivamente lasanha. – afirmou Gabriel. – Uma vez quando eu era criança, comi tanta lasanha que fui parar no hospital. Eu não conseguia sequer levantar da mesa de jantar, não conseguia respirar e parecia prestes a vomitar a qualquer momento, mas eu simplesmente me negava a vomitar lasanha. Tive a maior indigestão da minha vida. E adivinha o que fiz no dia seguinte?

– O que?

– Pedi lasanha pro almoço. – contou Gabriel e eu gargalhei. – No meu aniversário de 12 anos, minha mãe perguntou que sabor de bolo eu queria e eu respondi que de lasanha, é claro que ela me xingou, mas aí no dia da festa, tinha uma lasanha no lugar do bolo. Isso foi ideia da mente extraordinária da Alice.

– Cantaram parabéns pra você com uma vela numa lasanha?

– Exatamente. – respondeu Gabriel. Aquilo de fato havia sido uma ideia extraordinária. Queria eu ter conseguido pensar em algo assim para fazer em seu aniversário. O qual não faço ideia de quando seja.

– Você não vai mesmo me contar quando é seu aniversário? – perguntei.

– Jamais!

– Você é chato pra caralho, puta que pariu.

– Quando é o seu? – ele perguntou.

– Se você não me fala o seu, eu não falo o meu. – respondi fazendo birra.

– Ta bom. – disse Gabriel indiferente. Não dá pra jogar com esse menino.

Quando terminamos de almoçar, eu nem me senti surpresa ao ver que Gabriel havia comido todas as panquecas que fizemos. Acho que estou começando a me acostumar com seu estômago ser equivalente ao de três adultos. Mas depois daquilo tudo que ele queria, era se jogar sobre o sofá e tentar se recuperar. Foi exatamente o que ele fez, até que acabou cochilando.

Eu aproveitei a situação para colocar música para tocar e arrumar tudo que havíamos bagunçado no apartamento. Encontrei Lennon esparramado no chão da lavanderia e o alimentei. Ele se manteve quieto durante todo o tempo em que estivemos lá, mas pelo resto do dia desde que me viu, resolveu que me seguiria de um lado para o outro. Quando terminei de arrumar tudo, ele ainda estava me perseguindo e foi assim que tive uma ideia genial.

O coloquei em cima da barriga de Gabriel e deixei que o mesmo acordasse, com Lennon tentando se acomodar ali.

– Tira essa coisa de cima de mim, fazendo favor. – pediu Gabriel com a voz sonolenta, fazendo careta.

– Essa coisa é a coisa mais fofa que eu já vi.

– Então eu definitivamente não gosto de coisas fofas.

Eu ri, mas peguei o gato e o levei de volta para sua cama. Voltei para a sala e encontrei Gabriel se espreguiçando no sofá.

– Dormi por muito tempo? – ele perguntou.

– Na verdade não. – respondi me sentando e colocando minhas pernas sobre ele. – Não são nem umas quatro da tarde.

– Domingos são eternos.

– Mas eu gosto deles!

– Você arrumou tudo? – questionou Gabriel observando o lugar e percebendo que estava tudo organizado.

– Sim. Arrumei toda a bagunça que nós fizemos. – respondi enfatizando o nós. Ele deu uma risada.

– Desculpe. – pediu Gabriel. – Foi uma longa noite, sabe como é, eu estava cansado.

Sorri e apenas ignorei o que ele havia dito. Essa provavelmente foi a melhor noite do meu ano.

– Eu lembro da felicidade da Natália quando se mudou pra cá. – contei. – Porque mesmo que já tivesse tempo que ela estivesse namorando e mesmo minha mãe sabendo que ela fazia sexo, todo mundo sempre ficava desconfortável com a presença do Marcos na mesa de café da manhã, indicando que ele havia dormido ali.

– Marcos é o namorado dela?

– Sim. Minha mãe ama ele, mas achava meio estranho. E ela não comentava, mas Natalia sabia que ela estava pensando e ficava com paranoia.

– Vocês são a família paranoia? – brincou Gabriel.

– Mais ou menos, tipo vocês são a família encrenca. – rebati.

Gabriel me olhou com as sobrancelhas arqueadas e sorriu.

– Justo. – ele disse balançando a cabeça.

Pensar nisso me fez lembrar de quando Natália perdeu a virgindade e me fez a acobertar dizendo que ela estava na casa de uma amiga, quando estava na casa do cara. E pensar nisso, me fez pensar em uma coisa:

– Com quem foi sua primeira vez? – perguntei.

Gabriel me encarou com a expressão de quem não acreditava que eu estava de fato fazendo aquela pergunta.

– Eu quero saber com quem foi a primeira garota que você transou. – insisti.

– Que diferença isso faria?

– E qual o problema de contar? – rebati.

– Nenhum, só não vejo motivo pra ficar te falando essas coisas.

– Foi sua primeira garota, eu quero saber.

– “Sua primeira garota”... – repetiu Gabriel revirando os olhos. – Pra homem essas coisas não importam, Isabelle. A primeira, a segunda ou a vigésima. Tudo que importa é estar comendo direito a atual, o que eu sei que estou fazendo.

Foi a minha vez de revirar os olhos.

– É claro que importa, foi a primeira vez que você fez um monte de coisas. – rebati. – Minha primeira vez foi super marcante, eu estava completamente perdida e o Pedro foi super atencioso comigo.

– Deixa eu adivinhar... Foi muito especial? – disse Gabriel imitando alguma garotinha apaixonada, na intenção de me zoar. Apontei o dedo pra ele. – O homem só quer ir lá, fazer a coisa certa, ter um belo de um orgasmo e vazar pra contar pros amigos que fez sexo. Se quer saber eu nem lembro o que aconteceu na minha primeira vez...

– Mas lembra com quem foi e onde foi... – rebati.

Gabriel suspirou derrotado e decidiu falar.

– Eu tinha 15 anos, foi na oitava série. A garota chamava Camila e era uma amiga minha bem gostosa. A gente tava se pegando na época e ela me chamou pra ir na casa dela a noite ver filme, porque os pais não estariam. Oitava série não é normal tu ir pra casa de ninguém nem pra se pegar, quem dirá ver um filme a noite, então ficou meio que muito obvio o que ia rolar e os moleques me encheram o saco o dia inteiro. Aí eu fui e rolou. Fim.

– E você conhece ela ainda? – perguntei curiosa.

– Conheço sim. – ele respondeu indiferente, mas em questão de segundos eu estava imaginando um zilhão de coisas desnecessárias. A primeira garota com quem ele transou reaparecendo na vida dele bem mais bonita do que já era e o chamando para tomar um café. Então ele vai levar ela embora pra casa e começa a chover, ela convida ele para entrar até a chuva passar e eles acabam transando na cama macia dela, com o barulho da chuva abafando os gemidos horríveis que ela dá.

– Você ta fazendo aquilo que as garotas sempre fazem, né? – perguntou Gabriel despertando-me de meus pensamentos.

– O que?

– Inventando histórias em sua própria cabeça.

– Ah, qual é? Você deixou claro que ela era bem gostosa. – disse em minha defesa.

– É por isso que eu não queria falar! Se essa menina surge na minha frente qualquer dia desses, nem que seja no supermercado, você vai surtar!

– Juro que tentarei não fazer isso... – prometi, duvidando de minhas próprias palavras. – Ah não ser que ela seja de fato muito gostosa!

– Ela é tipo a Megan Fox. – disse Gabriel bem sério, mexendo no celular. Eu juro que não soube se ele estava zoando com a minha cara ou não, assim como não sei se senti ciúmes ou raiva de mim por não ser tipo a Megan Fox.

Tirei as pernas de cima dele e me levantei do sofá. Nesse instante ouvi suas gargalhadas e senti ele me puxando de volta para trás. Cai bem em cima dele, que usou suas pernas e braços para me prenderem.

– Fala sério, você acha mesmo que existe alguém minimamente parecida com a Megan Fox? – perguntou Gabriel. Dei de ombros ainda com cara de bosta e ele riu mais ainda. – Ninguém chega aos pés dela. Ninguém supera a Megan Fox. Eu lamberia o chão pra ela passar.

Um minuto de silêncio.

Eu olhei para ele, ele olhou para mim e nós dois começamos a gargalhar.

– Eu nunca disse isso. – falou Gabriel tentando concertar a situação.

– Eu vou te zoar pra sempre. – garanti.

– Cala a boca! – ele ordenou tentando de fato cobrir minha boca com sua mão.

– Foi você quem disse.

– Ela que lamberia o chão pra mim passar.

– Para de falar isso, Gabriel. É nojento!

– E aí eu beijaria ela mesmo depois de ela ter lambido o chão. Primeiro porque ela é a Megan Fox, depois porque ela lambeu o chão pra mim. – disse Gabriel.

– Isso fica cada vez mais nojento.

– E te beijaria depois disso. – completou subindo em cima de mim e tentando me beijar, mas eu não conseguia parar de rir, muito menos ele.

– Eu com certeza não te beijaria depois disso. – afirmei fazendo cara de nojinho e o empurrei pro chão.

Fez muito barulho e foi então que me lembrei que o chão da sala estava sem tapete. Gabriel havia batido direto com as costas no chão e estava resmungando de dor. Eu entrei no difícil dilema de sentir dó e o ajudar ou rir. Tentei fazer os dois, mas não funcionou muito bem. Fiz ele se sentar e o abracei de lado, passando a mão por suas costas, enquanto o ouvia me xingar entre risadas reprimidas.

– Me desculpa. – pedi praticamente enfiando minha cara em suas costas para abafar o som de minha própria risada.

– Acho que quebrei umas três costelas.

– Não seja exagerado.

– Quer experimentar? Posso te jogar do sofá. – zombou Gabriel.

– Não, obrigada. Deixa pra próxima.

Enquanto passava a mão por suas costas, reparei na quantidade de arranhões que havia deixado nele e sorri.

– Suas costas estão lindas. – elogiei e ele me olhou de canto de olho.

– Nem imagino o porquê... – respondeu Gabriel sarcasticamente.

– Tem um arranhão daqui até aqui. – disse colocando o dedo sobre a ponta de um arranhão bem próximo da barra de sua bermuda e subi o acompanhando até o seu fim, no meio das costas, mas um pouco mais para a esquerda. – Que por vez, é cortado por um que vem daqui até aqui. – continuei agora seguindo caminho por um arranhão que terminava na base de sua nuca. – E bem aqui... – disse depositando um beijo em seu pescoço. – Tem um belo de um chupão.

Quando levantei meu rosto e encarei seus olhos, ele me beijou.

– Ah é? Então deixa eu te mostrar uma coisa... – disse Gabriel. No momento seguinte senti suas mãos na barra de minha camiseta e permiti que ele a tirasse. Então me deitei no chão e ele se colocou sobre mim, fazendo a sua vez de me provocar.

– Bem aqui tem um chupão... – disse beijando a região entre meu umbigo e minha calcinha. – Aqui também... – prosseguiu beijando minha barriga mais acima... – E aqui... – o beijo agora foi bem próximo à área entre meus seios. – Obviamente no meu lugar preferido também... – dessa vez foi em meu seio direito. – E no seu lugar preferido... – finalizou beijando meu pescoço.

Ele estava muito certo. Não sei o motivo de gostar tanto que ele beije meu pescoço, mas talvez tenha algo haver com o arrepio que sobe pela minha espinha e me arrepia o corpo inteiro.

Foi exatamente assim que passamos o resto da tarde. Deitados no chão da sala, juntos, ouvindo apenas as músicas que tocavam. Até que de repente, o dia começou a virar noite.

– Essa é minha coisa preferida da vida. – sussurrei.

– O que? – perguntou Gabriel.

– Me deitar sobre o chão gelado aos domingos, selecionar a playlist mais melancólica para tocar e esperar o dia virar noite. Esse fim de tarde, em que o céu azul se transforma em alaranjado e então pouco a pouco, o alaranjado vai se transformando em cinza e esse cinza pouco a pouco se transforma em escuridão.

“Eu gosto desse cinza, por nos lembrar dias nublados e chuvosos, justo aqueles em que mais refletimos. E gosto de refletir. Aproveitar esse momento, para assim como o céu se rende a escuridão, respirar fundo e me render a meus próprios pensamentos.”

“Não parece perfeito? Para refletirmos sobre quem somos, quem fomos e quem seremos. Sobre o que estamos fazendo de nossas próprias vidas e o que queremos da mesma. O que nos motiva a acordar todos os dias e não desistir de tudo. Talvez chorar pelos erros cometidos, planos fracassados, sonhos perdidos, amigos que se tornaram desconhecidos e futuro confuso. E quem sabe, decidir mudar, concertar os erros, traçar novos planos, encontrar novos sonhos, dar valor aos verdadeiros amigos e encontrar forças para encarar o futuro.”

Respirei fundo, encarando o teto acima de mim. As palavras pareciam sair pela minha boca em forma de confissão.

“Sabe por que o céu é azul? A cor dos objetos é determinada pelo comprimento de onda dos raios luminosos e um objeto possui determinada cor, justamente se não absorver os raios correspondentes à frequência daquela cor. Se uma folha verde utiliza todas as cores para fazer a fotossíntese, menos o verde, porque esta foi refletida, é justamente a cor verde que veremos na folha.”

“A luz solar que aparece no céu aparenta ser branca. Porém, o branco possui todas as cores do arco-íris. A cor branca vai atravessando um prisma e sendo decomposta em vermelho, amarelo, laranja, azul, verde, anil e violeta. E no momento em que a luz solar atravessa a atmosfera, ela se depara com gases que faz com que o azul sofra maior difusão. Ele basicamente se espalha por múltiplas direções.”

“Isso porque essa dispersão para diferentes direções ocorre com a formação de pequenas partículas, com diâmetros semelhantes, e dentro delas estão os tons de azul. Em termos de tamanho, as partículas do azul se sobrepõem às vermelhas, alaranjadas, amarelas e verdes. O azul se sobrepõe ao resto e se espalha. É por isso que eu gosto tanto dessa cor, gosto de pensar no que ela representa. Gosto de pensar que às vezes algum momento bom, pode se sobrepor a milhares de outros ruins. E gosto de pensar que pra tudo na vida existe uma explicação, assim como existe para a famosa pergunta de Renato Russo: “Por que que o céu é azul?””.

“Agora quando estamos no pôr do sol, a luz acaba tendo um caminho bem maior para percorrer do que no meio do dia. Assim, nesse trajeto, muitas das cores são difundidas sobrando apenas do amarelo ao vermelho para enxergarmos. O que forma aquele alaranjado tão bonito, às vezes com reflexos de amarelo, vermelho e cores de tons parecidos.”

“É bonito por si só olhar pro pôr do sol e pensar no quanto o universo é complexo, mas acho ainda mais bonito pensar em todo esse trajeto que a luz percorre e todas essas transformações que ela sofre no trajeto. É como a vida, sabe? Temos um trajeto tão longo a percorrer e nesse meio tempo mudaremos e nos transformaremos. Nada continua o mesmo, nem nós, nem a vida. E então, no fim disso tudo, me convenço de que sempre é tempo para recomeçar.”

Eu olhei na direção de Gabriel e encontrei seus olhos me fitando com um misto de curiosidade e admiração, ao mesmo tempo em que pareciam esperar que em algum momento, eu fosse capaz de lhe explicar através de mais uma longa linha de explicação, o sentido da vida. Naquele momento não fui mais capaz de desviar os olhos dos seus.

“Quando o sol se vai e a escuridão toma conta de todo o ambiente, quando meus olhos não são mais capazes de enxergar onde estou, eu não me sinto assustada, porque sei que não preciso me sentir perdida. O dia vai recomeçar novamente. A vida também.”

Senti seu olhar intenso dentro do meu e então ele aproximou nossos rostos. Seus lábios encontraram os meus por alguns breves segundos, mas de forma verdadeiramente carinhosa. Começou a tocar “Photograph” do Ed Sheeran e senti meu coração palpitar dentro do peito, ouvindo a voz do cantor ecoar pelos alto-falantes do som, letras nas quais não queria me identificar, apenas para não ter mais uma música que me lembrasse Gabriel.

Parecia impossível, ao olhar para seu rosto parcialmente iluminado, pela luz natural que entrava pelas janelas e nos alcançava, enquanto o Sheeram dizia coisas como: “Loving can heal, loving can mend your soul and it's the only thing that I know, I swear it will get easier, remember that with every piece of you and it's the only thing we take with us when we die” (Amar pode curar, amar pode remendar sua alma e é a única coisa que eu sei, eu juro que fica mais fácil, lembre-se disso com cada pedaço seu e é a única coisa que levamos conosco quando morremos).

– Eu amo essa música. – confessei.

Gabriel se levantou e pegou o controle do som, para voltar a música no início e aumentar o volume. Então, estendeu a mão para mim, me ajudou a levantar e sem dizer nada, começamos a dançar no ritmo da melodia.

Nossos olhares se fixaram por alguns segundos e ele sorriu de uma forma que involuntariamente me fez sorrir de volta. Eu senti aquele mesmo frio na barriga de sempre. Tenho pena de quem nunca pôde sentir a sensação de ter o tempo paralisado, de estar em uma espécie de outra dimensão, de se perder nos olhos de alguém. Pude perceber como continuamos a sorrir, não por qualquer coisa que tenha acontecido antes, mas simplesmente porque queríamos sorrir. Era involuntário o tamanho do sorriso em meu rosto.

Gabriel me abraçou e me beijou de um jeito que fez parecer que ali era o meu lugar, exatamente entre seus braços. Eu não seria capaz de explicar em palavras a intensidade daquele momento. Me peguei pensando que não me importaria de viver tal momento pela eternidade, quem sabe. Estranhamente, cada toque seu parecia dizer muito mais do que realmente significa.

Quando paramos de nos beijar e continuamos com os rostos próximos, eu literalmente perdi a noção de tudo ao meu redor. Eu só conseguia pensar em como pode ser bom entregar seu coração a alguém. Devemos ser sempre responsáveis por nossa própria felicidade, mas há uma certa beleza em compartilhá-la. Há uma certa beleza em dois corações batendo igualmente acelerados, pelo mesmo motivo. Há uma certa beleza no amor que não pode ser descrita, apenas sentida. O velho clichê que nunca sai de moda, por se tratar da mais pura realidade.

Eu abracei seu pescoço e entrelacei meus dedos em seu cabelo. Permiti que ele me segurasse e fechei os olhos, permitindo me entregar as sensações. A sensação de suas mãos deslizando pelo meu corpo, a sensação dos seus lábios ora procurando pelos meus, ora preocupados em arrepiar minha pele.

Não é assustador quando nos pegamos imaginando um futuro? Eu me peguei desejando que Gabriel fosse parte do meu, quando abri os olhos e percebi que o dia havia se rendido a escuridão. Quando meus olhos não me permitiram enxergar onde estava, os braços de Gabriel ao meu redor indicaram que era exatamente onde eu deveria estar. De repente eu entendi porque desde que o conheci, a vida pareceu mais leve. O trajeto parece mais fácil quando ele caminha junto comigo.

Notas finais
Lindos, atendendo a pedidos, eu criei um snapchat pra quem quiser saber um pouquinho mais da minha rotina ou o que eu estou apontando. Me adicionem lá: kpettrova O próximo capítulo sairá dia 26 de Fevereiro, quinta-feira. Beijinhos da K!