Poltrona 19
21 Pijama!
Notas iniciais
Quando minha mãe me deixou na porta do prédio do meu pai, me senti com remorso por ter de deixá-la uma semana inteira sozinha, mas esse remorso passou no instante em que cheguei à porta do apartamento 609. O cheiro do jantar estava até mesmo no corredor e fez com que meu estômago roncasse. Eu estava com preguiça de procurar minhas chaves, então toquei a campainha e um garoto usando uma camiseta branca, calça de moletom e pés descalços, atendeu a porta.
– Você é um anjo! – disse Nicolas assim que abriu a porta. – Se ela inventasse mais um jantar estranho, eu me suicidava. – Eu não entendi nada, mas poupei perguntas para depois do abraço apertado que dei nele. Senti falta desse garoto.
Nicolas é o único filho de Lilian, ela o teve em seu primeiro casamento. Ele se parece muito com a mãe, tem os cabelos e olhos pretos, um porte físico comum, mas mesmo assim é bonito. Porém, tem apenas quinze anos e o considero praticamente como um irmão. Nós nos damos bem e sempre ficamos próximos quando estamos aqui, mas também sempre nos afastamos quando vou para casa de minha mãe e ele para a casa do pai, que por acaso é um babaca.
Apesar de Lilian e meu pai estarem morando juntos há um tempo, ela não gosta que eu me refira a ela como minha madrasta, ou esposa do meu pai, porque ela ainda não conseguiu o divórcio. Seu ex-marido não tão ex assim, não aceita assinar os papéis. Eu disse que ele é um grande babaca. Até mesmo minha mãe vem tentando ajudá-los nesse processo. Isso parece estranho pras pessoas, eu acho é hilário. Minha família não é normal.
– Sobre o que você ta falando? – perguntei me soltando de Nicolas.
– Minha mãe cismou em querer variar o cardápio e fica cozinhando umas coisas estranhas pra gente. – ele explicou me ajudando a levar minhas coisas para o meu quarto, mesmo que eu pudesse levar tudo sozinha sem problema nenhum. — Mas como você vinha pra cá hoje, seu pai avisou que você não come nada estranho e aí ela fez um jantar normal.
– Por que não conta que não gosta dessas receitas diferentes? – sugeri abrindo a porta do quarto.
– Você acha que eu já não contei? O problema é que ela gosta de cozinhar, testar essas novas receitas e seu pai apoia ela em fazer o que gosta, então ela não para!
– Cruel! – afirmei colocando minhas coisas sobre a cama enquanto Nicolas fazia o mesmo.
– Totalmente! E eu só disse tudo isso em voz alta para que eles ouvissem da cozinha, onde estão esperando que eu te mantenha ocupada aqui por alguns minutos, até que eles arrumem a mesa de jantar. Não deu tempo de fazer isso antes. – contou Nicolas se sentando na cama e eu ri, então me sentei ao seu lado.
Meu quarto na casa do meu pai se parece muito com meu quarto na casa de minha mãe, por seguir o mesmo estilo de planta, com a porta na parede da direita e janela na parede da esquerda. A diferença é que no meu pai ao invés de janela, tenho uma sacada. Todas as paredes do quarto são brancas, porque meu pai tem preguiça de reformas e quando comprou o apartamento, apenas o mobiliou, deixando do jeito que estava. Mas ele me deu liberdade para ser criativa e aprontar o que eu quisesse no mesmo, afirmando que bancaria tudo. Acho que no fim ele se arrependeu pelo tanto que gastou, mas eu gostei muito do resultado.
Selecionei várias fotos, páginas de jornal e revistas, pôsteres das minhas bandas preferidas e pedi para que meu pai mandasse para uma fábrica, onde imprimiram tudo em um tamanho maior e em preto em branco. Então, colei tudo na parede da minha cama. Quis que fosse em preto e branco porque ficaria menos poluído visualmente e mais harmonioso no ambiente.
Pela parede da cama já chamar muita atenção, o resto deixei o mais simples possível. Na parede da sacada, há uma bancada de laca branca que se estende por toda a parede — exceto pela parte em que está a porta da sacada — e possui algumas gavetas para que eu guarde meus materiais e minhas coisas. Nela fica meu notebook e outras mil coisinhas coloridas, que coloquei apenas para dar alguma cor ao quarto, como um abajur lilás e porta-retratos. Na sacada há uma cortina para que eu controle a iluminação do quarto.
Na parede da porta tem apenas meu guarda-roupa, que tem a porta de correr e é um espelho e ao lado, uma poltrona lilás. Na parede de frente à minha cama tem uma televisão presa a parede e em cada lado dela há três pequenos quadros, que meu pai colocou porque de acordo com ele “a parede estava sem graça demais”. Aquilo fez ele parar de reclamar, então nem liguei.
O apartamento do meu pai é bem grande, mesmo que ele não ache mais. Ele achava quando o comprou, assim que se divorciou de minha mãe, porque era apenas para ele e para mim e Natália quando viéssemos pra cá. Porém, quando ele e Lilian decidiram morar juntos, Nicolas acabou ficando com o quarto de Natália, que tem seu próprio apartamento, então não faz diferença, mas pro meu pai, ela ainda devia ter um espaço só para ela aqui. Ele também diz que não é grande o suficiente para quatro pessoas e que não é justo me fazer dividir um banheiro com o Nicolas. Ele faz o maior drama, sendo que nem eu e nem Nicolas nos importamos, muito menos Natália.
O apartamento contém a sala com uma mesa de jantar e a maior sacada de todas. Uma cozinha, dispensa, lavanderia e o corredor que dá acesso ao escritório do meu pai na primeira porta a esquerda, o quarto de Nicolas que fica em frente ao escritório, o meu quarto, que é na segunda porta à esquerda e um banheiro que fica em frente ao meu quarto. No fim do corredor tem o quarto do meu pai que é uma suíte. É importante ressaltar que meu quarto não é o único com sacada, todos os quartos tem.
– Disco massa! – elogiou Nicolas me chamando a atenção, ele estava segurando em mãos o presente que Gabriel me deu.
– Foi um presente de um cara mais massa ainda. – respondi sorrindo e ele me olhou desconfiado, com um sorriso maldoso nos lábios. – É só um amigo, Nicolas.
– Eu não disse nada. – ele disse se defendendo.
– Meninos, lavem as mãos e venham jantar! – gritou meu pai da cozinha e só de ouvir a palavra “jantar”, meu estômago roncou.
Eu e Nicolas obedecemos imediatamente, fomos ao banheiro e lavamos as mãos, então seguimos para a mesa de jantar. Meu pai estava sentado na ponta da mesa e Lilian colocando uma jarra de suco sobre a mesma.
– Pensei que não fosse mais voltar aqui! – reclamou meu pai enquanto eu o dava um abraço.
– Também senti saudades! – respondi rindo e segui até Lilian, também a dando um abraço apertado.
Assim que os cumprimentei, nos sentamos à mesa. Lilian havia feito batata-frita e filé mignon ao molho madeira, eu enchi meu prato como se não comesse há semanas e pensei em minha mãe, que teria me dado uma bronca e me chamado de esfomeada, mas ninguém disse nada. Aliás, Nicolas conseguiu encher um prato maior que o meu. Quando fui começar a comer, me lembrei de Gabriel falando sobre sua mãe e suas regras de etiqueta, me perguntei se em algum lugar nesse exato momento, ele estaria comendo feliz, enquanto é reprovado pelos olhares dela.
Durante o jantar colocamos o assunto em dia. Meu pai perguntou sobre como está minha vida e como foi meu dia. Acabei contando tudo, que fui ao colégio e depois passei a tarde com Gabriel. Ele se lembrou dele. Depois foi a vez de Nicolas, mas ele apenas afirmou que seu dia foi normal e que não queria ser atrapalhado no melhor momento dele: o jantar.
Mesmo tendo dormido na grama do Jardim Botânico, após o jantar eu descobri que estava muito cansada. Talvez isso tenha sido justamente por causa do jantar. Então tomei um longo banho, dei boa noite a todos e me deitei. Antes de dormir, resolvi olhar minhas redes sociais e tinha notificação pra caralho. Uma delas me chamou a atenção, uma notificação de domingo em que dizia: “Anna Carolinne Schmidt adicionou uma nova foto com você”. Eu cliquei meio confusa, por não me lembrar de ter tirado foto com a Carol – sim, o nome dela é Anna Carolinne – e era uma foto de nós cinco – eu, ela, Gustavo, Gabriel e Bruno – cantando durante o cover no sábado. A foto estava hilária, tive que salvar.
Quando abri o whatsapp, não sabia se xingava o Gabriel ou chorava de rir. Durante a tarde eu dormi antes dele e o lindão tirou uma foto nossa, em que ele está fazendo careta pra câmera e eu dormindo. Ele me mandou a foto e disse “Bela Adormecida esperando o beijo do príncipe encantado, vulgo eu”. Fui obrigada a responder também zoando e disse “Quando foi que te lançaram o feitiço que você virou sapo?”. Nós dois somos um amor... Não, não mesmo.
Assim que fechei os olhos, apaguei. Dormi a noite toda e só acordei com meu despertador tocando. O lado negativo de ficar na casa do meu pai, é que acaba a mordomia de acordar um pouquinho mais tarde e chegar ao segundo horário no colégio. Lilian faz questão de que todos tomem café da manhã juntos e meu pai faz questão de nos levar ao colégio. Então eu acordei mais cedo e fiz o mesmo de sempre: me arrumei de qualquer jeito e juntei meus materiais.
A caminho da cozinha, senti aquele cheiro familiar e por algum motivo, meus olhos se encheram de lágrimas. Senti o cheiro que fez parte de minhas manhãs durante boa parte da minha vida. Senti o cheiro de café quente invadindo minhas narinas, o cheiro do café feito pelo meu pai, não do café feito por uma maquina programada para facilitar nossas vidas. Ou tirar da gente, a possibilidade de assimilar um cheiro a um lar.
– Dormiu em pé? – perguntou a voz de Nicolas atrás de mim, só então percebi que estava paralisada no corredor.
– Não, mas quase. – respondi me virando para ele. – Ele ainda faz café todas as manhãs?
– Sempre.
Nós seguimos para a cozinha e meu pai já estava sentado à mesa junto com Lilian, apenas nos esperando.
– Bom dia – desejei me juntando a eles e Nicolas fez o mesmo.
– Bom dia – responderam em uníssono.
Eu comi apenas um pão e tomei leite, ao contrário de Nicolas que comeu quase tudo que tinha na mesa. Eu digo que caras comem demais. Quando me levantei da mesa, me lembrei da pior parte de ficar na casa do meu pai, pior até que ser obrigada a ser pontual, ele ainda não desistiu de me tornar uma menininha dessas que se importam com a aparência.
– Não demora pra arrumar ou vamos nos atrasar, Isa. – disse papai.
– Você sabe que eu estou pronta. – respondi o fuzilando com o olhar e ele bebericou seu café, dando uma de desentendido.
– Não, você vai pentear esse cabelo e dar um jeito nesse rosto, ou não saímos daqui.
– Que bom então, vamos todos voltar para a cama e ficar em casa. – rebati cruzando os braços.
– Isabelle... – repreendeu meu pai.
– Para de tentar me mudar!
– Ai como ela é dramática... – zombou papai. – “Para de tentar me mudar”, blábláblá... – disse tentando imitar minha voz e todo mundo riu. Eu revirei os olhos, mesmo que também tenha ficado com vontade de rir.
– Vem, querida, deixa eu te ajudar. – pediu Lilian. Ela me levou até seu quarto e me sentou em sua cama, então foi até o banheiro e voltou segurando algumas coisas.
Lilian começou a pentear meu cabelo e me senti em uma cena de filme, até fiz careta por isso. Quantos anos eu tenho? Dez? Depois passou um negócio nas minhas bochechas, que tive de perguntar o nome para descobrir ser blush. E por último, passou um gloss em meus lábios. Eu odeio essa parada, parece que comemos frango frito e esquecemos de limpar a boca.
Quando ela terminou nem quis me olhar no espelho ou ficaria estressada, apenas peguei minhas coisas e fui direto para o elevador. Eu apenas me esqueci que no elevador também tem espelho e enquanto esperava todos entrar, acabei vendo meu reflexo. Que cara de patricinha mimada, puta que pariu. Odeio quando fico arrumadinha demais, porque fico mesmo parecendo uma patricinha e tenho repulsa dessa raça.
Chegamos no estacionamento e seguimos para o carro do meu pai, enquanto Lilian seguiu até o dela. Meu pai é dentista e tem seu próprio consultório, então ele entra mais tarde no serviço, por isso é sempre ele que nos leva ao colégio. Me sentei no banco da frente, coloquei o cinto de segurança, meus fones de ouvido e encostei a cabeça na janela.
Primeiro deixamos Nicolas no colégio, depois meu pai me deixou e seguiu para o trabalho. Pensei que seria legal se Nicolas estudasse no mesmo colégio que o meu, mas ele gosta do seu próprio colégio e é lá que estão seus amigos, então não faria muito sentido ele mudar. Sem contar que ele estuda lá há tanto tempo que já está acostumado.
Entrei no colégio caminhando preguiçosamente, é inacostumável chegar no primeiro horário e ter de passar pelos corredores lotados de alunos. Entrei na sala praticamente dormindo, então ouvi um grito agudo vindo do fundo da sala e olhei assustada. Uma garota moreninha, que se chama Débora e senta ao meu lado, estava sendo rodada sobre os ombros de um menino que senta ao lado dela e se chama Breno.
– Olha a Isabelle chegando no primeiro horário! – gritou o tal Breno e todo mundo olhou para mim.
– Pensa rápido! – gritou Bruno no mesmo instante e tacou uma bola de vôlei que estava segurando em mãos, na minha direção. Por instinto fechei os olhos esperando pela bolada que me deixaria com a cara roxa, mas nada me atingiu e comecei a ouvir risadas. Então abri os olhos e Gabriel estava segurando a bola ao meu lado, rindo muito.
– Não faríamos isso. – disse Gabriel.
– Que bom, porque eu teria chutado o saco de vocês. – afirmei e sorri irônica. Caminhei até meu lugar e joguei minhas coisas sobre a mesa, me perguntando da onde essa galera tirou tanta animação.
– Isa, vou dar uma festa na minha casa esse sábado, bora? – chamou Renan, um garoto bonitinho que senta do outro lado da sala. Achei estranho receber o convite e a forma com que ele me chamou pelo apelido, como se fossemos amigos. Então me lembrei de tudo que Gabriel havia me dito na manhã anterior e como eu adoro festas, é lógico que toparia.
– De graça? – perguntei me sentando sobre a mesa.
– Sim! Open tudo. Cerveja, vodka e até tequila. – contou e houve alguns gritinhos na sala. Uma festa de graça com direito a tequila? Esse cara deve estar nadando em dinheiro.
– Pode contar com a minha presença. – respondi. – Mas reserva metade do seu estoque de bebidas pra mim.
– Ela ta falando sério! – afirmou Carol e todo mundo riu.
– Espero que lá tenha um palco e uma música bem massa pra ela dançar... – zombou Marcelo, o palhaço da sala que sempre faz piadinhas com tudo.
– Desde quando eu te dei essa intimidade pra me zoar? – indaguei séria.
– Toma! – gritou Bruno rindo pra caralho, acompanhado de várias outras pessoas. O cara ficou completamente sem graça e eu até senti dó, porque não fiz por mal.
– Foi mal – desculpou-se Marcelo.
– Ta de boa. – respondi. – Eu gosto de intimidar.
– Ah meu Deus. – gritou Gabriel e disparou a rir. – Ela é tão intimidadora! – disse irônico.
Eu apenas apontei dedo para ele e o professor de Literatura entrou na sala, então todos começaram a se sentar em seus devidos lugares, inclusive eu.
– Bom dia, turma! – disse o professor de Literatura escrevendo a data no quadro. – Eu tive a ideia de começar algo diferente com vocês. Uma brincadeira que se der certo, vai acontecer em todas as aulas pelo resto do ano. Se chama “Os 5 minutos antes da Ordem do Dia”.
– E como vai funcionar isso? – perguntou Carol.
– Vocês estão terminando o Ensino Médio, onde vão passar por um momento de transição na vida de vocês. Vão abandonar o colégio, os amigos, os antigos hábitos e se tornarem universitários. Eu sei que tem muita gente que entra em crise por isso. Os inseguros, nostálgicos, medrosos, não conseguem aceitar que essa transição acontecerá. E não é apenas essa a questão... Nessa fase da adolescência, nesse exato momento da vida de vocês, tudo causa desgaste emocional e psicológico. Pras pessoas tudo parece drama e ninguém parece verdadeiramente te entender. Então esse será os nossos cinco minutos de desabafo.
– Desabafo? – foi Tatiane quem fez a pergunta dessa vez e pelo seu tom de voz, ela não estava curtindo muito a ideia.
– Vai ser o momento de expressar as emoções e tensões de vocês. Toda aula, vocês terão de trazer um texto falando sobre vocês, que devolverei na aula seguinte. O que vocês quiserem! Um desabafo sobre algo que aconteceu nos últimos dias, um desabafo sobre algo que aconteceu há muito tempo, uma narração breve de recordações, uma avaliação de si, contar seus projetos, sonhos, divagações e medos, qualquer coisa. E quando me entregarem esses textos, eu sortearei dois para serem lidos na frente da sala.
– Mas não queremos compartilhar nossos segredos, medos e confissões com o resto da sala. – reclamou Tatiane.
– Por que não? – perguntou o professor e ela não soube responder, então ele prosseguiu. – Porque vocês tem medo de encarar a opinião do próximo, vocês tem medo de serem julgados. Esse é o momento em que vocês mais se enchem de medo do que o outro pode pensar de você, colocam uma armadura em volta de si e raramente deixam que alguém a ultrapasse. E por que ao invés disso, não enfrentar esse medo de ser você mesmo e criar um elo de confiança e companheirismo com os colegas? A pessoa que está sentada ao seu lado, será a melhor lembrança que você carregará pelo resto da vida. – ele afirmou e automaticamente olhei para o Gabriel, que também estava olhando para mim. Nós dois sorrimos ao mesmo tempo e eu voltei a olhar para frente. — O Ensino Médio é a maior nostalgia da vida de alguém e o maior arrependimento, é não vivê-lo intensamente.
– Isso não vai dar certo, porque logo vai estar todo mundo comentando da vida dos outros. – disse Débora.
– Isso é uma questão de caráter. É uma questão de você parar e pensar: Eu devo comentar isso com alguém? Eu me sentiria confortável no lugar de fulano se fizessem isso comigo? Confiem um no outro, aprendam a guardar os segredos um do outro. Encontre no seu colega, um ombro amigo e faça do seu próprio ombro, algo igual. Vocês perceberão o quanto ficarão mais próximos.
– Eu acho que vai ser legal! – afirmou Barbara, uma garota que senta no primeiro lugar da fileira do meio.
– Eu não! – rebateu Tatiane. Acho que vai ser impossível eu gostar dessa garota algum dia.
– Vamos fazer um experimento. Eu não vou obrigá-los a fazerem, escreva quem quiser. Mas eu gostaria que ao menos pensassem a respeito, tentassem e participassem. Lembrem-se que isso é o mesmo que encarar seus próprios medos e que ser corajoso, diz muito sobre quem você é.
– Tem mínimo ou máximo de linhas? – perguntou Gabriel chamando a atenção da sala para ele.
– Vou restringir a uma folha frente e verso, mas não tem mínimo. – respondeu o professor. – Mais perguntas?
– Os textos sorteados serão lidos pelos próprios autores ou por outros alunos? – perguntei.
– A preferência é que você leia seu próprio texto, colocando na sua fala a entonação e emoção com que você escreveu. Mas se quiserem que outro leia ou eu, não vejo problemas. Mais perguntas? – ele perguntou e houve um silêncio geral, então ele prosseguiu. – Não... Então quero ver se tem alguém que seja corajoso o suficiente nessa classe. Alguém se voluntariaria para vir aqui na frente e dizer algo? Sem texto nem nada? Qualquer coisa?
Por um breve momento o silêncio foi tudo que se ouvia dentro da sala, enquanto todos olhavam para os lados, esperando por alguém que se pronunciaria. E quando eu comecei a achar que isso não aconteceria, aconteceu.
– Eu quero. – se voluntariou Gustavo. Todos olharam perplexos para ele, enquanto ele se levantou e foi para a frente da classe, parando bem no meio da mesma. Ele entrelaçou suas mãos uma na outra e percebi que estava tremendo.
– Sinta-se a vontade, Gustavo. – disse o professor numa tentativa de tranquilizá-lo, mas percebi que não adiantou. Se ele estava tão nervoso, por que quis fazer isso?
– Bom... – Gustavo começou a dizer. – Meu pai é um grande médico. Grande. Bem grande. E não to falando de tamanho. To falando que é bem grande o tempo em que ele não estava em casa e não está. To falando que é bem grande a casa que eu moro e fui criado por babás, porque minha mãe também é grande. Uma grande arquiteta. Bem grande. Bem grande o tempo em que ela passa observando minimamente os detalhes do desenho de uma planta, mas não consegue observar os detalhes da personalidade depressiva de uma criança solitária. Grande. Bem grande a quantidade de tempo que passei tentando chamar a atenção deles, até perceber que no fim não adiantava. Então foi grande a quantidade de tempo que comecei a passar com livros, para afastar a solidão. Grande foi se tornando minha timidez, minha introversão, minha mania de me esconder. E grande se tornou meu medo de ser pra sempre, um vestígio do garoto que se sentia pequeno dentro de uma mansão. E por isso é grande o meu medo de estar aqui na frente falando, mas maior ainda é a minha determinação de superar qualquer marca que o passado me deixou.
Quando Gustavo terminou de falar, senti o ar escapar de meus pulmões e me esqueci de como recuperá-lo. O silêncio preencheu o ambiente, como se todos estivessem se colocando em seu lugar e de alguma forma, sentindo a solidão que ele sentiu.
– Como você se sente agora, Gustavo? – perguntou o professor para ele.
– Bem, por ter compartilhado isso. – ele respondeu.
– Obrigado! Pode se sentar.
Gustavo começou a caminhar lentamente de volta para seu lugar e ouvi alguém puxar uma salva de palmas. Esse alguém foi Gabriel. O professor esperou que as palmas cessassem e direcionou uma pergunta ao Gabriel:
– Por que achou que seria um momento propício para bater palmas?
– Porque ele foi corajoso o suficiente para reprimir todos os seus medos e falar abertamente na frente da sala.
– Exatamente isso, Gabriel. Fico feliz que tenha entendido. – elogiou o professor. – Mas e se eu lhe pedisse para vir na frente da sala e falar algo?
– Alguns são corajosos, outros não. Uns caminham até a frente da sala, outros permanecem no fundo dela. – ele respondeu e o professor entendeu, assentindo com um sorriso no rosto.
O professor se deu por satisfeito por ao menos um aluno ter se voluntariado e prosseguiu com sua aula. Eu passei os dois primeiros horários pensando se toparia ou não participar de tudo isso. Se teria coragem de expor algo de mim, para a classe inteira. Mas por algum motivo, quando o professor disse que “ser corajoso, diz muito sobre quem você é”, eu me senti desafiada.
Quando o sinal do primeiro intervalo tocou, eu não estava disposta a sair da sala e estranhei quando os meninos chamaram Gabriel e ele pediu para que fossem na frente. Assim que todos saíram, ele me encarou.
– Por que você simplesmente não para de se manter enfiada nessa sala durante o intervalo?
– Porque eu não sou normal e nunca vou ser. – afirmei e Gabriel sorriu, então se levantou e se aproximou de mim, colocando uma de suas mãos apoiada em minha cadeira e a outra em minha mesa. Ele abaixou até que sua boca estivesse colada ao meu ouvido.
– E você sabe que é por isso que eu gosto de você. – sussurrou e saiu andando, me deixando para trás com um sorriso idiota nos lábios.
O resto da manhã passou normal. Eu prestei atenção em todas as aulas e também me mantive na sala no segundo intervalo. No último horário recebi uma mensagem do meu pai em que dizia: “Filha, quer que eu te busque? Mas vou demorar uma meia horinha”. Geralmente quando estou na casa dele volto do colégio de ônibus, porque o fim da aula fica em um horário muito ruim para que ele me busque. Mesmo assim, sempre que possível, ele tenta buscar eu e Nicolas. Meia horinha é muita coisa para quem fica esperando, mas respondi um “Pode ser”.
Quando o sinal indicando o fim da aula tocou, arrumei meus materiais vagarosamente e fiquei decepcionada ao perceber que Gabriel saiu da sala correndo sem se despedir de mim. Como meu pai ia demorar, após me despedir do pessoal, caminhei lentamente até a saída e me encostei no muro para esperar, enquanto observava os alunos indo embora.
– Não vai embora a pé? – perguntou Gabriel surgindo ao meu lado e eu sorri. Ele não foi embora sem se despedir.
– Não, meu pai vem me buscar, to na casa dele.
– E quanto tempo ele vai demorar?
– Uma meia hora. – respondi fazendo careta. Odeio esperar, mas com certeza, é melhor que andar de ônibus. Principalmente por eu ser tão preguiçosa.
Gabriel não disse mais nada, apenas segurou minha mão e saiu me puxando entre os alunos que esperavam por seus pais ou quem quer que fosse buscá-los. Nós viramos a esquina e entramos na rua lateral do colégio, que estava praticamente vazia, mas ele continuou me puxando até quase o fim dela, onde finalmente parou e sem dizer nada, me encostou no muro azul marinho e me beijou.
Eu fiquei confusa, mas estava ocupada demais retribuindo o beijo para dizer qualquer coisa. Qual é a nossa situação, afinal? Antes estávamos ficando toda vez que bebíamos e nos víamos. Depois, ele afirmou que não rolaria mais nada entre nós. Aí ficamos por dois dias consecutivos sem nem sequer estarmos bêbados, além de ele me levar para passear em parques e me comprar presentes.
– Que que ta rolando? – perguntei interrompendo o beijo, Gabriel não pareceu ter ficado muito contente com isso.
– Como assim? O que que ta rolando?
– Por que ta me beijando de novo, Gabriel?
– Porque eu quero!
– E agora você me beija quando e onde quer? – rebati.
– Qual é o drama da situação? São só beijos. – ele respondeu tentando me beijar de novo e eu não permiti. O afastei um pouco e desencostei do muro indo até a beirada da calçada.
– Beijos que eu nunca sei quando e se vão acontecer. – disse sem olhá-lo.
Não queria admitir que o que eu to pedindo é um rótulo para nós. Não gosto de forçá-lo a isso e nem queria que isso acontecesse, mas a verdade é que tudo isso me irrita por não saber como agir. Eu tenho que agir normalmente, porque somos apenas bons amigos ou eu devo beijá-lo a próxima vez que vê-lo porque está rolando alguma coisa entre a gente? Não dá pra ter um meio termo nessa ocasião, não quando essas ficadas não estão acontecendo em sábados à noite e sim, numa terça-feira na hora do almoço.
– Estamos ficando, Isabelle. – disse Gabriel me abraçando por trás e eu senti vontade de sorrir, mas não o fiz, porque de alguma forma senti que ele só falou aquilo por pura obrigação. – Só não queria colocar nesses termos exatamente porque não quero que ninguém saiba.
Ah, esse assunto de novo. Ele pareceu ter lido minha mente ao me puxar para trás, até que nos encostássemos no muro de novo e me virasse para ele.
– Você viu que o Gustavo não aceitou muito bem o fato de já termos ficado, se ele souber que isso ainda está acontecendo, acho que tem um ataque cardíaco. E não quero ninguém falando disso, ou sei lá, só vamos deixar acontecer...
– Tudo bem. – concordei e ele sorriu, então puxou meu rosto para perto do seu e me beijou novamente. Dessa vez abracei seu pescoço e deixei que me beijasse por quanto tempo quisesse, o que resultou em um beijo longo que só terminou quando sentimos falta do ar.
– Você vai mesmo à festa do Renan? – perguntou Gabriel.
– Acho que sim.
– Suas amigas vão?
– Não faço ideia, não sei se ele as convidou. Mas a Amanda é a Amanda, as chances são grandes.
Ele encostou a cabeça no muro atrás de si e permaneceu em silêncio, perdido em seus próprios pensamentos que eu não fazia ideia de quais eram. Dei um beijo em seu pescoço e ele sorriu, finalmente disposto a se pronunciar.
– Tenho planos pra essa festa e eles envolvem eu, você e ninguém mais. – afirmou permanecendo na mesma posição, permitindo que eu continuasse com os beijos. – Então se puder obrigá-las a não ir, ficarei muito grato.
– Se elas forem ou não, tenho certeza de que nada mudaria seus planos, então qual a diferença?
– A diferença é que eu quero você a noite inteira só pra mim. – ele sussurrou próximo ao meu ouvido e ia me beijar novamente, mas senti seu celular vibrar em seu bolso e ele o pegou para conferir. – Minha carona chegou. – avisou enquanto digitava algo que deduzi ser uma mensagem de texto.
Ele guardou o celular de volta no bolso e me deu um beijo rápido, então saiu me puxando para a frente do colégio novamente. Quando viramos a esquina, avistei seu irmão num carro estacionado do outro lado da rua.
– Te vejo amanhã. – ele disse e me deu um beijo no canto da boca, antes de atravessar a rua correndo.
Me encostei no muro e observei Gabriel entrar no carro, depois o mesmo desaparecer de minha vista. Mordi meu lábio inferior ao me lembrar do que ele disse sobre ter planos para nós na festa do Renan. Eu não sou burra, Gabriel quer transar. Sinceramente, acho totalmente broxante sexo programado, mas ainda sinceramente: eu também quero e muito.
Alguns minutos depois meu pai chegou. Nicolas estava sentado no banco da frente e fez menção de descer do carro para que eu pudesse sentar em seu lugar, mas acenei para que ele não fizesse isso. Acho engraçada a forma com que ele me respeita e tenho uma nova meta: quebrar essas barreiras que ainda existem entre a gente. Nós nos damos bem, então quero nos tornar amigos. Amigos de verdade.
Papai nos deixou na porta do prédio e seguiu de volta para o trabalho. Então guardamos nossas coisas no quarto e fomos para a cozinha esquentar o almoço que Lilian havia deixado pronto para nós.
– Fogão ou microondas? – perguntei.
– Microondas. – respondeu Nicolas indo em direção ao armário e pegando dois pratos. — Cada um monta seu prato e esquenta, é muito mais fácil.
Foi o que fizemos e nos sentamos-nos à mesa da cozinha para comer. Enquanto comíamos conversamos sobre banalidades, como o que fizemos no colégio. Contei a ele sobre a proposta do meu professor de Literatura e ele achou massa, mas confessou que não teria coragem de participar. A verdade é que o professor estava bem certo, jovens tem medo demais de serem julgados. Principalmente eu. E é por isso que ainda não decidi se escreverei meu texto.
Quando terminamos de almoçar e lavamos tudo que sujamos, seguimos para a sala, onde Nicolas se jogou no sofá e ligou a televisão.
– E então, você ainda ta igual a mim? No esquema de uma casa pra outra? – perguntei me jogando sobre o outro sofá.
– Mais ou menos, to passando mais tempo aqui. Meu pai fica cada dia mais idiota. – respondeu Nicolas. – Bebendo mais, fumando mais e levando cada vez mais mulheres pra casa.
– Ou seja, ele deveria ser teu ídolo, mas não é. Difícil compreender.
– Eu tenho nojo dele. O desgraçado fez minha mãe sofrer, não tem responsabilidade nenhuma com nada, só come puta e não liga pra mim. Ele com certeza passa longe de ser meu ídolo. Sem contar que ele ainda me trata como se eu fosse uma criança.
– Mas você é uma criança. – zombei e ele me fuzilou com o olhar. – Nicolas, vamos conversar sério. Meninos levam uma vida muito mais avançada que a das meninas, tipo assim, eles fazem tudo antes...
– Tu não quer conversar sobre usar camisinha não, né? – ele perguntou assustado, me fazendo gargalhar.
– Não, eu não sou sua mãe. Sou sua irmã e sua amiga.
– É a mesma coisa que minha mãe diz. – ele afirmou. — “Eu sou sua amiga, Nick, pode confiar em mim”. – disse imitando Lilian.
– É o que toda mãe diz. Mas relaxa, não é esse o ponto em que quero chegar. Bom, não diretamente. – disse e ele bateu uma almofada na própria cara. – Ninguém curte conversar sobre esse tipo de coisa com os pais e você não tem irmãos, então eu só queria que soubesse que pode confiar em mim, de verdade. Atualmente, eu tenho três amigas mulheres e sete homens, então acho que dá pra perceber que me entendo melhor com caras.
– Isso é estranho. – ele afirmou e eu concordei, porque é mesmo.
– A questão é que não sou nenhum dos seus amigos, com quem você conversa de boa. Mas se tu tiver desesperado porque a camisinha estourou, pode me ligar perguntando onde faz aborto clandestino. – disse e foi a vez dele gargalhar. – Ou então, quando precisar de alguém pra acobertar suas merdas, pra te botar debaixo do chuveiro quando estiver caindo de bêbado ou até pra ouvir reclamar da menina da bunda redondinha que te deu um fora.
– Valeu, Isa. – Nicolas agradeceu com um sorriso sincero.
– O que eu queria te perguntar era se você já fez merdas, se já bebeu, se já transou. Isso que queria fazer desde o início, porque a vida de cada um é de um jeito e eu realmente não faço ideia de qual é a sua resposta pra essas perguntas. Mas antes quis deixar claro que tu pode mesmo contar comigo. – afirmei e ele assentiu.
– Cara, nunca fiz nada na minha vida.
– Isso é o que eu digo pra minha mãe até hoje... – afirmei e ele riu, então se endireitou no sofá e se virou pra mim.
– Não, sério. Eu tenho 15 anos e meu pai é um idiota que não liga pra mim e me trata como criança, e minha mãe não me trata como criança, mas é superprotetora. Ou seja, eu quase nunca vou á festas. Aliás, eu só fui em duas festas de verdade até hoje. Uma foi durante o dia e eu não bebi porque era a primeira vez que tava num lugar daqueles, e tu se caga de medo da sua mãe descobrir qualquer coisa que tu fizer. Na outra eu bebi um pouco e minha mãe não percebeu, mas foi bem pouco, porque era cerveja e eu odiei. – contou.
– Cerveja é horrível!
– Pois é. – ele concordou. – Aí eu não entro em boates e nem posso frequentar bares, porque acho que minha mãe surtaria se eu pedisse pra ir em um. Então já deu pra perceber né... Se eu mal saio, não tenho tempo pra fazer merda, muito menos transar.
– Relaxa, tu não ta atrasado. É na tua idade mesmo que as coisas começam... Aí quando percebe já ta perdido na vida. – afirmei por experiência própria.
– E você, Isa? – indagou Nicolas visivelmente curioso.
– Espera. – pedi me levantando do sofá e sai correndo da sala, o deixando bem confuso.
Fui até meu quarto e peguei meu notebook sobre a bancada, então voltei para a sala e me sentei do lado de Nicolas. Assim que liguei o notebook, fui direto para o youtube e coloquei um vídeo para carregar e então, o entreguei para que ele assistisse. Nicolas ficou chocado e eu fiquei constrangida, mas soube que naquele momento, viramos cúmplices. Era meu vídeo dançando no pub.
– Foi esse fim de semana num pub. – contei. – Eu estava completamente louca.
– Você é demais! – ele afirmou dando replay no vídeo e rindo pra caralho. Tirei o notebook da mão dele, uma vez foi o suficiente para me deixar constrangida.
– Costumo beber quando saio com meus amigos e é esse o tipo de coisa que acontece... Semana passada também fui suspensa da escola por ter agredido uma menina... – ele tentou esconder o quanto ficou perplexo, mas não conseguiu. – Não sou mais virgem faz um tempo. E é isso aí.
– Meu pai não é meu ídolo, Isabelle. Você é! – ele afirmou me fazendo rir. – E to falando sério. Sua vida deve ser uma loucura da qual eu adoraria fazer parte.
Ao dizer isso, ele me fez ter uma ideia genial. Tanto meu pai quanto Lilian confiam em mim, ou seja, tenho certeza que dará certo. Isso só não vai deixar Gabriel muito feliz, mas é por um bem maior.
– Quero que você vá numa festa comigo esse sábado. – convidei.
– Que?
– É serio. Você sabe que nossos pais não vão impedir, você vai estar comigo.
– Ta falando sério? – ele indagou incrédulo e eu assenti. – Mas eu não vou atrapalhar sua noite ou qualquer coisa desse tipo?
– Não, na verdade eu faço questão que você vá. E então?
– Eu topo! – ele respondeu animado e eu bati palmas em aprovação. Amanhã converso com Renan sobre isso, aposto que ele também não vai se importar se eu levar alguém. O grande problema é que já era minha noite com Gabriel, porque terei de fazer companhia pro Nicolas o tempo inteiro. Aliás, eu quero fazer dessa, a noite mais louca da vida dele.
Eu me lembrei de que tenho de entregar o trabalho de Química amanhã e fui para o meu quarto fazê-lo. Como me distraio facilmente com as coisas, só consegui terminá-lo depois das 19h. Lilian já havia chegado do trabalho e meu pai deveria chegar a qualquer momento. Guardei minhas coisas e percebi que não fui na casa de minha mãe buscar o que eu queria: meus diários. Foi isso que não quis pedi-la pra trazer e estou sentindo falta deles.
Guardando minhas coisas, peguei o disco que Gabriel havia me dado e o segurei mais uma vez, foi nesse instante que bateram na porta, mesmo que ela estivesse aberta. Me virei para trás e meu pai estava me olhando.
– Oi, querida.
– Oi, pai. Como foi no trabalho?
– Dia agitado! Vou tomar um banho. – avisou e saiu andando. Olhei para o disco mais uma vez e então tive uma ideia.
– Pai... – chamei e ele voltou, parando no rumo da porta. – Você poderia me fazer um favor?
– Claro!
– Você poderia mandar fazer um quadro com esse disco? – perguntei levantando o disco para que ele o visse. – Eu ganhei de presente e não queria que estragasse. Então pensei que eu poderia pendurá-lo na parede do meu quarto. – expliquei e ele se aproximou, pegou o disco em minhas mãos e sorriu ao analisá-lo.
– Não é muito comum se ganhar um disco de presente atualmente. – observou.
– É verdade, mas eu adorei.
– Oasis... Seja lá quem te deu, esse alguém tem muito bom gosto.
– Foi Gabriel. – contei – Ele ta começando uma coleção de discos e é muito fã deles.
– Que tal convidá-lo para jantar aqui em casa? — sugeriu papai. — Eu lhes mostro algumas coisas, conto outras... Tenho certeza que não vão se arrepender.
Eu achei que seria um pouco constrangedor, mas depois de Gabriel ter almoçado na casa de minha avó com minha família inteira, um jantar na casa do meu pai não era nada. Então resolvi convidá-lo, até porque fiquei bastante curiosa sobre o que meu pai quis dizer com nos mostrar e contar coisas.
– Quando?
– Hoje!- respondeu papai.
– Hoje?
– Sim. Qual o problema? Lilian vai adorar cozinhar para mais alguém.
– Mas é que ta muito em cima da hora pra convidar alguém pra jantar.
– É só um jantar aqui em casa, Isa. Se ele quiser vir de moletom e chinelos não vamos ligar. Aliás, podíamos fazer um jantar a caráter. Tipo, jantar do pijama. — ele deu a ideia e eu ri muito. Esse é realmente o tipo de ideia que só meu pai teria. – É isso aí. – ele saiu andando na direção do corredor e parou no mesmo para poder gritar. – Lilian, Nicolas, hoje termos um jantar a caráter, as vestimentas deverão ser pijama e teremos um convidado.
– Você é demais. – afirmei sorrindo.
– Posso levar o disco? – ele perguntou ainda com o disco em mãos e eu assenti, então ele piscou pra mim e foi para o seu quarto.
Eu peguei meu telefone e decidi ligar para Gabriel pra fazer o convite e mesmo que eu odeie falar no telefone, porque me sinto constrangida, não hesitei. Chamou quatro vezes até que eu ouvisse sua voz do outro lado da linha dizendo “alô”.
– Meu pai está te convidando para jantar aqui em casa. Sim, meu pai, não eu. E isso tem alguma coisa haver com Oasis. – comuniquei sem cumprimentá-lo, nem nada do tipo. – Ah, não posso me esquecer que as vestimentas do jantar são obrigatoriamente pijama.
– Pijama? Cê ta falando sério?
– Nunca falei tão sério na minha vida. – afirmei.
– Que horas e qual o endereço? Eu espero sinceramente que ele tenha convidado o Noel Gallaguer. – respondeu Gabriel e eu ri.
– Prefiro o outro irmão Gallaguer.
– Você não sabe de nada. – ele rebateu.
– Eu sei que se fosse pelo Liam você poderia ir a um show deles. Pelo Noel tu não precisa nem sonhar com esse dia.
– Justamente. Quem vive de sonhos não vive a realidade. — respondeu Gabriel me deixando sem argumentos.
– Vem umas nove horas. Eu te mando o endereço por mensagem. – avisei. – Pijama!
– Que isso? Um novo tipo de despedida? Pijama! Pijama! Ai desligamos? – quando ele disse isso eu tive uma crise de riso, só estava o lembrando que ele deveria vir de pijama. – Então ta... Pijama! – dito isso ele desligou o telefone. Eu demorei um bom tempo para conseguir parar de rir.
Mandei a mensagem para ele passando meu endereço e eu soube que esse jantar seria no mínimo, inesquecível.
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