Poltrona 19

22 Bob esponja


Notas iniciais
PUTA QUE PARIU... Perdoem o palavreado, mas foi exatamente o que eu pensei quando abri o site e vi que a história recebeu MAIS DUAS RECOMENDAÇÕES. Eu juro que quando comecei a escrever a história, tinha esperança de receber ao menos uma recomendação. Sonhava em receber mais de uma, mas achava impossível. E em hipótese alguma, esperava chegar ao total de CINCO recomendações. Cinco é muita coisa! Na verdade nem consigo me considerar merecedora disso tudo. E hoje o meu MUITO OBRIGADA vai para A Rocket, uma leitora bem fiel e divertida. Eu adorei TANTO tudo que você disse, que não consigo escolher minha parte preferida, eu simplesmente amei cada palavra. E é isso, eu quero agradecer por cada palavra. Já deve ter ficado meio clichê dizer a importância que isso tem para mim, mas é necessário que eu diga mais uma vez, porque é realmente MUITO importante. E bom, a outra recomendação foi da Rafa e me rendeu um sorriso especial. Não é todo dia que você descobre uma leitora nova a partir de uma recomendação. Por isso, MUITO OBRIGADA não somente por tudo que disse, mas por acompanhar a história, mesmo que seja escondidinha! Hahaha O capítulo de hoje vai ser dedicado para as duas que me deixaram tão felizes quanto as outras três que recomendaram, mas que me fizeram acreditar que o impossível as vezes pode ser possível. Boa leitura à todos os meus lindos!

Eu tomei um banho e coloquei meu melhor pijama de frio, um azul claro. Primeiro porque estava fazendo muito frio, depois porque meu pai pode ser o pai mais legal do mundo, mas eu estaria abusando se colocasse uma camisola ou um baby doll na companhia de um cara, na frente dele. Quando fui para a sala na intenção de esperar o Gabriel chegar, achei engraçado ver todo mundo vestido com pijamas para poderem jantar. Nicolas estava com um pijama cinza com preto, meu pai com um pijama marrom e Lilian com um pijama rosa.

Marquei com Gabriel às nove horas, mas o jantar com certeza iria atrasar, porque quando Lilian começou a fazê-lo já eram quase oito horas. Ela me pediu uma sugestão do que fazer e conhecendo Gabriel, sugeri que fizesse algo bem gostoso e simples. Enquanto ela fazia tudo, me ofereci para por a mesa simplesmente porque queria me distrair com alguma coisa até que Gabriel chegasse, se não ia ficar olhando o relógio de minuto em minuto. Quando terminei eram exatamente nove horas, mas é claro que Gabriel não chegaria na hora. Tentei pensar em algo para fazer, mas nada me veio à cabeça, restou apenas me juntar ao Nicolas e meu pai na sala, que estavam assistindo e discutindo sobre futebol.

Os minutos que se seguiram foram longos e tortuosos, mas quando ouvi a campainha tocar, meu coração quase saiu pela boca. Eu havia mandado o endereço certinho para ele, inclusive com o número do andar e número do apartamento. E meu pai já havia interfonado para o porteiro, deixando avisado que ele viria e que poderia subir. Então eu tinha certeza que era ele, enquanto caminhava até a porta para abri-la.

Quando abri a porta disparei a rir e não conseguia parar, fui obrigada a me apoiar na parede, porque sabe quando você ri tanto que perde as forças? Foi o que aconteceu. Gabriel estava usando um pijama do bob esponja, com direito a um capuz que é a cabeça do bob esponja e tem buracos na região dos olhos, além de pantufas. Ele tava a coisa mais gay, engraçada e fofa do universo. Muito mais gay do que o resto.

— Meu pijama está se sentindo ofendido pela sua reação. – ele afirmou e eu comecei a rir mais ainda. Não dá pra levar a sério um capuz de bob esponja falante e ele percebeu, então tirou o capuz e me puxou para um abraço. Foi só então que consegui parar de rir.

— É o melhor pijama que já vi na minha vida. – afirmei.

— Eu sei. Eu sou demais! – ele respondeu se gabando e nos soltamos.

Fiz sinal para que ele entrasse e ele o fez, pedindo licença. Fechei a porta e ouvi a risada do meu pai acompanhada pela de Nicolas.

— Agora eu entendi as gargalhadas da Isa. – disse papai.

— Eu sou um cara muito ligado à moda e desenhos estão em alta nesse verão. – zoou Gabriel. Ele não deveria falar esse tipo de coisa nem por brincadeira, usando uma coisa tão gay.

— Seja bem-vindo, bob esponja. – disse meu pai apertando a mão de Gabriel.

— Obrigado. – respondeu Gabriel. – Eu trouxe isso pro senhor. – disse entregando uma sacola para meu pai que só então eu notei. Ele ainda estava segurando uma outra.

Meu pai abriu a sacola e tirou de lá de dentro uma garrafa de vinho, o que o fez abrir um sorriso enorme, porque ele adora vinhos. Não sei como Gabriel sabe disso, mas não pode ter sido apenas coincidência.

— O senhor me contou na casa de Elizabeth que gosta de vinhos, achei que seria propício lhe dar um em agradecimento pelo convite para jantar.

— Eu gosto desse rapaz. – afirmou meu pai ainda sorrindo. – Mas, por favor, não me chame de senhor, apenas de Paulo. – ordenou e Gabriel assentiu. – Podemos servir o vinho durante o jantar, vou levá-lo até a cozinha e avisar para Lilian.

Assim que meu pai se retirou, eu aproveitei a brecha para apresentar Nicolas ao Gabriel. Eles não se conhecem e seria bom que já fossem se aproximando, já que em breve contarei a Gabriel que ele nos fará companhia no sábado.

— Gabriel, esse é o Nicolas, meu quase irmão. Ele é filho da Lilian, minha madrasta. – expliquei e os dois se cumprimentaram com um aperto de mão.

— Qual foi a sensação de saber que teria de aturá-la provavelmente pelo resto da vida? – perguntou Gabriel. – Ela é muito chata.

— No início eu achava que iria pular da sacada a qualquer momento, mas depois descobri que conseguiria sobreviver. – respondeu Nicolas e os dois riram.

— Vocês são tão engraçados. – ironizei.

Meu pai voltou da cozinha acompanhado de Lilian e a apresentou para Gabriel. Os dois se cumprimentaram e ela também acabou rindo do pijama dele, mas disse que adorou e elogiou sua criatividade. Da onde o Gabriel tira essas ideias retardadas, eu não sei, mas eu gosto do fato de ele ser sempre tão divertido e engraçado.

— Você tinha isso em casa? – indaguei curiosa.

— Claro que sim! – ele respondeu. – Eu durmo com ele todas as noites.

— Gabriel...

— Assim que desligamos o telefone, eu sai pra comprar. Queria vir usando algo engraçado. – confessou. – Ai comprei isso pra você... – ele disse me entregando a sacola que estava segurando – Porque se acha que vou pagar mico sozinho, está muito enganada!

Eu abri a sacola com receio, porque sabia que boa coisa não seria. Encontrei um pijama idêntico ao dele, só que rosa. Era o Patrick. Todo mundo na sala disparou a rir ao mesmo tempo e meu pai me obrigou a ir vestir o pijama. Eu não queria, mas acabei cedendo. É claro que fuzilei o Gabriel com o olhar antes de seguir até meu quarto e me vestir, mas quando já estava vestida, não conseguia parar de rir e todos, absolutamente todos, se juntaram a mim, assim que apareci de volta na sala.

— Você ta demais! – afirmou Nicolas.

— Valeu a pena cada centavo que gastei nesse presente. – disse Gabriel com dificuldade, entre gargalhadas.

— Se juntem, meninos. – pediu Lilian e quando olhei para ela, a mesma estava segurando uma máquina fotográfica.

— Não mesmo! – respondi depressa.

— Você acha mesmo que não vamos registrar esse momento? – perguntou Gabriel se aproximando. – Até meu celular já está com ela!

— Eu te odeio. – afirmei e ele sorriu. Aquele sorriso que faz sua única covinha aparecer e é claro, que eu topei tirar quantas fotos ele quisesse. Fui obrigada a posar não somente para a câmera de Lilian, mas para o celular de Gabriel e do meu pai, mas acabou que todas as fotos ficaram realmente hilárias e eu adorei todas.

— Agora vamos jantar! – ordenou Lilian nos guiando até a mesa do jantar.

Nós nos sentamos na mesa com meu pai na ponta, o lugar de Lilian reservado do lado esquerdo, ao lado de Nicolas e eu e Gabriel do lado direito. Assim que nos sentamos Gabriel pegou o guardanapo e colocou sobre o colo, eu fui obrigada a rir.

— Aqui não fazemos esse tipo de coisa. – disse chamando sua atenção.

— Que tipo de coisa? – perguntou Lilian colocando a comida sobre a mesa.

— Coisas relacionadas a essas irritantes regras de etiqueta. – respondi. – Os pais dele são meio paranoicos com isso.

— Deve ser um saco! – afirmou Nicolas.

— E é! – concordou Gabriel. – Juro que eu queria ter uma família normal assim. Na mesa de jantar da minha casa sempre tem: Sousplat, prato raso, prato fundo, prato para pão, garfo para peixe, garfo comum, faca comum, faca para peixe, colher de sopa, faca de sobremesa, garfo de sobremesa, colher de sobremesa, faca para manteiga, copo para água, copo para vinho tinto, copo para vinho branco, copo para champanhe e guardanapo.

— Puta que pariu! – exclamei. Eu nem sabia que rico coloca tanta coisa assim na mesa. – Vocês vão só comer! Pra que tanta frescura?

— Me pergunto isso sempre. – respondeu Gabriel.

— Perdão... Mas seus pais são chatos pra caralho! – afirmou papai e o repreendi com o olhar, mas Gabriel deu a gargalhada mais alta até o momento.

— Eu sei! – concordou Gabriel.

Lilian apareceu trazendo a última coisa que faltava: a lasanha. Ela conseguiu fazer com que toda nossa atenção se voltasse para ela e meu estômago roncasse. Eu amo lasanha. Poderia passar o resto da minha vida comendo apenas lasanha. Mentira, acho que eu ainda prefiro pizza. Não sei. Posso passar o resto da minha vida comendo lasanha e pizza. Tenho medo de mim mesma quando começo a ter esse tipo de pensamento idiota.

— Gabriel, espero que você goste de lasanha! Isabelle me sugeriu fazer algo simples e gostoso... Foi o que consegui pensar. – explicou Lilian.

— Ta brincando? Você espera que eu goste de lasanha? Eu espero que você tenha feito uma inteira apenas para mim! – ele respondeu e eu sabia que ele não estava brincando. Eu realmente acredito que Gabriel seria capaz de comer uma lasanha inteira sozinho.

Enquanto começamos a nos servir, Lilian foi até a cozinha e voltou trazendo o vinho que Gabriel trouxe.

— Bom, seus pais tem alguma regra para vinhos acompanhado de comidas? – brincou Lilian.

— Muitas! – respondeu Gabriel. – Mas eu não ligo nem um pouco.

Lilian serviu vinho para todos nós, até para Nicolas que ficou meio indignado. Depois se juntou a nós na mesa e começamos a comer. O jantar foi bem descontraído e divertido. Meu pai e Gabriel já tinham se dado bem quando se conheceram na casa de minha avó, mas dessa vez a conversa entre eles fluiu ainda mais. Fiquei feliz por Gabriel também ter se relacionado muito bem com Lilian e Nicolas. Queria ter o dom que ele tem para socializar com as pessoas.

Quando terminamos de jantar, ajudei Lilian a tirar a mesa, enquanto os meninos e meu pai se sentaram na sala, onde continuamos a conversar por um tempo, até que meu pai tivesse uma ideia maluca.

— Agora podíamos fazer algo divertido... Como jogar Xbox. – sugeriu papai. – Mas algo realmente divertido e eu escolho... Música.

— O que? – indagou Nicolas incrédulo.

— É tão previsível homens jogando joguinhos de carro, futebol e lutinha... Agora quero ver um cara ser homem o suficiente pra topar dançar. – ele respondeu.

— Eu aposto que ganho. – desafiou Gabriel.

— Vocês acabaram de comer! – repreendeu Lilian. – Vão passar mal!

— Acho que aguentamos... Não é mesmo, rapazes? – perguntou papai e eles assentiram, mesmo que Nicolas não estivesse muito feliz com a ideia. Acho que topou apenas porque Gabriel deixou um desafio no ar.

— Já que vocês vão fazer isso, eu quero escolher a música mais escrota possível. – afirmei.

— Vocês não, nós. – corrigiu papai. – Você também está nessa!

Eu achei melhor nem discutir, eles acabariam me convencendo a participar mesmo. Então esperei meu pai ligar o jogo e comecei a olhar a lista de músicas disponíveis, escolhendo uma que eu tinha certeza que eles iriam odiar, mas que eu acharia extremamente hilária: What Makes You Beautiful do One Direction.

— Eu odeio vocês, sério. – reclamou Nicolas e eu ri muito.

Nos posicionamos em frente a televisão. Nicolas na lateral esquerda comigo ao seu lado, Gabriel também no meio e meu pai na lateral direita. A música começou a tocar e tentamos imitar os passos ridículos dos “bonecos” do jogo. Quem é o indivíduo que programa essas danças? São realmente ridículas. Eu confesso que mais ri do que dancei, mas o inacreditável foi que Gabriel teve a pontuação mais alta e ele comemorou muito.

— Eu tive uma ideia! Quem tiver a menor pontuação, dá o lugar para quem está de fora do jogo. – sugeriu Gabriel

— Anão, eu não vou jogar isso! – rebateu Lilian.

— Larga de ser chata, mãe! – pediu Nicolas e ele recebeu o apoio do meu pai. Eu acabei insistindo também, mesmo que acreditem se quiser, a menor pontuação tenha sido minha. No fim Lilian acabou aceitando e eu me joguei sobre o sofá para vê-los dançarem a próxima música.

Para mim, assistir foi muito mais divertido que jogar. É engraçado ver todos tentando acompanhar os passos e é engraçado ver as reações quando as pontuações são lançadas. Acabamos jogando por muito tempo, revezando os jogadores e quando nos cansamos de dançar, os meninos acabaram jogando outros jogos e até que eles se cansassem já era mais de 1h da manhã.

— Eu sou demais, ganhei tudo! – se gabou Gabriel sentando ao meu lado.

— Quase tudo. – corrigiu Nicolas que estava sentado no outro sofá com uma cara de derrotado.

Meu pai que estava sentado, se levantou e apontou para mim e Gabriel.

— Venham! Ta na hora de lhes mostrar e contar o que prometi. – chamou papai e saiu andando. Nós o seguimos até que ele parasse na porta de seu escritório e o abrisse. Poucas vezes na vida entrei no escritório do meu pai ou de minha mãe, por ser um local deles. Para mim, é uma questão de respeito e privacidade.

O escritório do meu pai é uma coisa bem de paizão mesmo, mas explicando melhor, tem uma mesa de madeira enorme onde fica seu computador e impressora, uma poltrona atrás, uma televisão, sofá, algumas estantes e decorações de acordo com seu gosto, como por exemplo, coisas de futebol.

Assim que entramos, ele fechou a porta e pediu para que nos acomodasse, então nos sentamos no sofá. Papai seguiu até uma das estantes, pegou uma grande caixa preta e se encaminhou até nós, entregando a caixa para Gabriel. Quando a abrimos, encontramos vários discos vinis.

— Isa me contou que você ta começando uma coleção, achei que fosse achar interessante ver isso. – disse meu pai ao Gabriel, que estava retirando alguns dos discos da caixa para vê-los. – Eu tenho muitos, mas não porque quisesse ter uma coleção. Na minha época o que existiam eram os discos e se você quisesse ouvir música, teria de comprá-los. Era algo comum, não um item de colecionador. Por isso tem aí alguns de minhas bandas preferidas.

Achei engraçado perceber pela expressão de Gabriel, que para ele, era praticamente o mesmo que estar segurando um tesouro em mãos. Ele pegava os discos, olhava e me mostrava. Achamos discos de incontáveis bandas internacionais, mas o que mais nos chamou a atenção foram os discos das bandas nacionais, que estavam quase todos autografados, como Legião Urbana, Raul Seixas, Cazuza, Barão Vermelho, Tittãs e RPM.

— Eu dei trabalho na minha juventude. Juntava dinheiro e ia pra shows ou até mesmo viajava para shows. Já cheguei a vender coisas minhas para comprar um ingresso, ou sai de casa com uma mochila e fui pedir carona na rodovia. – contou papai. – E aí eu sempre dava um jeito de conseguir esses autógrafos.

— É realmente incrível! – afirmou Gabriel.

— Muito incrível! – concordei. – E você conseguia pedindo para pessoas próximas a banda ou para a própria banda?

— As duas coisas. – ele explicou voltando até a estante e abrindo uma outra caixa. — Já implorei pra segurança, produtor e coisas assim, mas a grande maioria foram pedindo para a própria banda. – ele procurava por algo dentro da caixa e de repente voltou até nós trazendo alguns álbuns de fotografia que nos entregou. – Eu conheci todos eles.

Nós abrimos os álbuns e vimos fotos de meu pai em shows, com seus amigos e com todas as bandas. Quando chegamos a uma foto em que ele está com o Renato Russo, vocalista do Legião Urbana, ele se pronunciou.

— Sem duvida alguma, esse cara foi o maior gênio que eu conheci na minha vida. – afirmou meu pai e eu não duvidei.

Enquanto olhávamos as fotos, vi meu pai se afastar e pegar um disco em cima de sua mesa. Percebi que era o disco que Gabriel me deu, então ele seguiu até um canto do cômodo e parou em frente a uma mesinha de madeira, com algo em cima tampado por uma capa. Quando ele retirou a capa, reconheci um toca-discos, onde ele colocou o disco que Gabriel me deu para tocar, conseguindo a atenção dele também.

— Tem um disco em especial dentro da caixa que vocês ainda não acharam. – disse meu pai ainda de costas.

Eu e Gabriel nos entreolhamos, pegamos a caixa de novo e começamos a olhar os discos atentamente. Estávamos procurando por algo que não sabíamos o que, enquanto “Hello” tocava, mas quando Gabriel o segurou em mãos, soube que havíamos achado. Era o disco “(What's the Story) Morning Glory?” do Oasis, o mesmo que Gabriel me deu, só que... Autografado. Eu olhei perplexa para o meu pai, que sorriu e sentou no outro sofá.

— No dia 20 de Março de 1998, eu vi os irmãos Gallagher invadirem o sambódromo paulistano e se apresentarem para quinze mil pessoas. E não vi pela televisão, eu era uma daquelas quinze mil pessoas. – contou papai e eu fiquei ainda mais perplexa. – Eu me lembro de ler em revistas “Os rebeldes sem causa do Oasis chegam ao Brasil essa semana”, “o conjunto inglês de maior sucesso internacional desde os Beatles e os Rolling Stones”. Foi quando começou a se falar do brit rock.

“O público ficou bem dividido após o show. Alguns reclamavam, dizendo que eles eram mesmo tão antipáticos quanto aparentavam, que eles eram apenas uma copia dos Beatles e coisas assim que dizem até hoje. Enquanto outros falavam justamente o contrário, que eles eram muito melhores do que as críticas espalhadas.”

“Eu fiz parte do segundo grupo de pessoas, mas talvez porque eu era muito fã e também foi por isso que agindo pior do que qualquer fã apaixonada, eu e meus amigos nos hospedamos no hotel deles e acabamos conseguindo as autógrafos. Sua mãe também estava conosco, Isa. Você tinha apenas dois anos, então te deixamos com sua avó, para podermos viajar e foi uma das melhores loucuras que fizemos na vida.”

— Isso é inacreditável! E incrível! E foda! – disparei a falar e meu pai riu. – Vocês deveriam ter me levado, mesmo que eu não fosse me lembrar.

Eu olhei para Gabriel, esperando que ele fosse estar tão eufórico quanto eu, mas vi uma expressão em seu rosto muito diferente do que eu imaginava. Ele estava com os olhos fixados no disco em suas mãos, batendo o pé no chão repetidas vezes e rapidamente, enquanto respirava fundo.

— Gabriel, está tudo bem? – perguntei e ele assentiu sem levantar a cabeça.

— Me desculpem, eu posso usar o banheiro? – pediu e eu afirmei que sim, então expliquei o caminho para ele que saiu do escritório com pressa.

Eu e meu pai nos entreolhamos e ficamos em silêncio enquanto aguardávamos, ouvindo apenas a música que estava tocando. Eu não entendi o que aconteceu e fiquei preocupada. Gabriel demorou bastante para voltar, mas quando voltou, estava sorrindo.

— Me desculpem por isso, é que eu fiquei meio zonzo do nada, minha visão ficou turva... Não sei o que aconteceu, mas já ta tudo bem. – ele explicou voltando a se sentar.

— Tem certeza? Eu posso te levar ao médico ou a sua casa. – disse papai.

— Essas coisas não acontecem do nada. – afirmei ainda preocupada.

— Não, ta de boa. – ele garantiu. – Esqueçam isso. E que história incrível, Paulo. Eu queria ter tido a chance de ir a algum show deles, queria pra caralho! Me conta sobre como foi o show? – pediu Gabriel entusiasmado, mas por algum motivo, ele não me convenceu.

Como Gabriel garantiu que estava bem, meu pai resolveu deixar para lá e começou a contar tudo com detalhes, sobre cada música que tocou, quais foram as reações do público, sobre coisas que ele, minha mãe e os amigos fizeram, com Gabriel ouvindo atentamente. No entanto, ele me pareceu tão robótico ao voltar do banheiro, como se estivesse simplesmente atuando, que eu passei uns bons minutos o observando complexada, até me convencer que era apenas viagem da minha cabeça. Por que ele não estaria verdadeiramente entusiasmado? É a banda preferida dele.

Quando meu pai terminou de contar tudo, começou a nos mostrar algumas das coisas que ele havia guardado da época, como matérias de jornais e então, nos mostrou o vídeo de uma entrevista que o Oasis deu para a MTV.

— Gosto dessa entrevista pelo que o Noel diz... – explica papai. E o que o Noel disse, foi: “Não fazemos música só para entrar na parada, nem pros críticos ingleses e nem pros críticos de qualquer parte do mundo. Fazemos música porque ela nos faz sentir felizes e esperamos que ela faça o mesmo com as pessoas. Se não vender uma única cópia na loja, não dou a mínima.” — Acho que a essência da boa música está nisso, quando ela é feita por prazer e não na pretensão de ser vendida.

— E o que você acha de compararem tanto eles com os Beatles? – perguntou Gabriel.

— É como o Noel disse em uma entrevista uma vez: "John Lennon tinha um problema: ele achava que era Deus. O meu problema? Eu acho que sou John Lennon". Mas não, não acho que Oasis seja uma cópia dos Beatles, eles são os ídolos e uma inspiração para o Oasis, apenas.

— Qual seu Gallagher preferido? – indaguei.

— Com certeza o Noel.

— Qual o problema de vocês com o Liam? – rebati irritada. — O Noel é o proferido só porque ele é o bad boy!

— E porque canta melhor. – afirmou Gabriel e o fuzilei com o olhar. – Eu gosto do Liam e ele também é bad boy... Só que ele usa sapato de oncinha. E isso é verdade. – ele contou e todos rimos. – Gosto dele também por ser tão sem noção! Teve uma vez que ele quase morreu engasgado comendo aquelas balinhas MM, mas nunca morreu com a quantidade de ecstasy que tomou nos anos 90.

— Isso é sério? – perguntei perplexa e ele assentiu, então disparei a rir. Imagine só, alguém perguntando “morreu de que?” e a resposta é “comendo MM”. Não dá pra levar algo assim a sério.

— Eles são dois grandes babacas metidos que me matam de rir. O Noel disse uma vez: "Dentre as 50 melhores canções de rock de todos os tempos, 49 são dos Beatles. A outra? Wonderwall". – ele contou e gargalhei. – E em uma outra vez "Nós somos mais importantes na juventude de hoje do que Jesus Cristo". – dessa vez gargalhei mais alto ainda.

— Que arrogante! – afirmei entre a risada.

— "Nós não somos arrogantes, nós só achamos que somos a melhor banda do mundo" GALLAGHER, Noel. – respondeu Gabriel.

— Ele é demais!

— Eu sempre achei hilárias as brigas dos dois irmãos, porque elas eram tão frequentes e extremas, que tinham até intervenção da mãe deles. – disse papai.

— Sim! – concordou Gabriel. — Tipo, qual é? Você e seu irmão são dois artistas do rock, ganhando bilhões, comendo todas as mulheres do mundo e mexendo com todo tipo de droga possível, mas ainda tem que levar bronca da sua mãe. Uma vez quando o Noel foi perguntado sobre essas brigas com o Liam, ele respondeu: "É uma boa coisa a gente não morar nos EUA, onde armas são mais acessíveis, porque senão eu já teria estourado a cabeça dele. O problema é que eu não posso despedir ele, porque senão minha mãe iria me matar".

— Eu to impressionada com a quantidade de coisas que você sabe sobre eles. – confessei.

— Sou fã, né. – respondeu Gabriel indiferente. – E são coisas hilárias. O tipo de coisa que você lê ou ouve e não consegue esquecer, pelo tanto que riu. Tipo quando o Liam disse que "Quando você pode transar com todas as mulheres do mundo, tudo fica meio sem graça". Olha, eu quero ter permissão para discordar.

— Permissão concedida. – respondeu papai e nós rimos muito. – Quando eu era jovem, pensava que era injusto isso de uns nascerem pra ter tudo e outros pra ter nada. E não to falando da desigualdade social no Brasil não, to falando é das estrelas do rock terem acesso tão fácil a drogas e mulheres, enquanto eu tinha que contar moedinhas pra comprar umas gramas de maconha.

— Pai, você usava drogas? – indaguei perplexa.

— Eu vivi na era do rock, Isabelle! Quem não usou? – ele respondeu e nós rimos. – Mas não conte pra sua mãe que te contei essas coisas ou ela dirá que sou uma má influência, combinado? Você sabe como sua mãe é!

— Combinado!

— Bom, se me derem licença, eu vou deixar vocês aqui conversando e vou ir deitar, porque estou bem cansado. – avisou papai. — Fique a vontade para ir embora quando quiser, Gabriel. E volte mais vezes!

— Se você tiver mais histórias desse tipo, eu volto todas as noites. – afirmou Gabriel.

— Se der bola pra velho, ele acaba contando sobre todos os shows que foi... – brincou papai.

— Pai, existe mais alguma coisa sobre você que eu não saiba? – perguntei. Ele nunca me contou nenhuma dessas histórias.

— Eu trabalhei pro FBI. – ele respondeu sério e eu sou tão retardada que quase cai na piadinha, mas ele não aguentou e começou a rir.

— Eu te odeio. – afirmei e ele me abraçou.

— Boa noite. – desejou dando um beijo em minha testa, então foi na direção de Gabriel, que se levantou para apertar sua mão, mas foi surpreendido por um abraço. – Boa noite, rapaz.

— Boa noite, Paulo. – respondeu Gabriel.

Meu pai saiu andando e ao chegar na porta, começou a fechá-la, mas antes piscou disfarçadamente para mim. Meu santo deus. Eu fiquei vermelha dos pés a cabeça. Ele é meu pai! Será que ele poderia ser um pouco mais normal? Ele é inacreditável. Qualquer pai normal teria mandado o Gabriel ir embora antes das onze horas da noite e se não, em hipótese alguma, fecharia sua filha adolescente com um cara em um cômodo.

— Serio? Ele vai nos deixar aqui e ir dormir? Tipo, sozinhos? Sem se preocupar nem nada? – perguntou Gabriel perplexo, como se pudesse ler meus pensamentos.

— Ele acabou de piscar pra mim! – contei tão perplexa quanto ele e Gabriel começou a gargalhar, tentando fazer o mínimo de barulho possível.

— Seu pai é o cara, sério, ele é o melhor pai do mundo. Ele é meu novo ídolo.

— Ele é demais! – concordei e me peguei imaginando como seria se ele ainda estivesse com minha mãe, como seria ter os dois perto de mim sempre, nós todos morando na mesma casa. Eu nunca havia pensado nisso antes e nem sei porque estou pensando agora, eu sei que eles estão melhores separados e eu gosto muito da Lilian, também de Nicolas. Dois presentes que meu pai trouxe para minha vida.

— Pensando no que? – perguntou Gabriel e eu percebi que estava viajando em meus próprios pensamentos.

— Na separação dos meus pais. – respondi me deitando no sofá e colocando minhas pernas sobre seu colo. – Gosto tanto do meu pai e também da minha mãe, mesmo que ela me irrite às vezes, que de repente comecei a pensar como seria os dois juntos novamente.

— Eu gostei da Lilian.

— Eu também gosto dela... Foi viagem da minha cabeça. – afirmei.

— A noite foi bem divertida, você devia me convidar para jantar aqui mais vezes. Principalmente se tiver lasanha. – disse Gabriel e eu ri.

— Sinta-se convidado para voltar sempre.

— Você sabe que eu volto, eu sou folgado. – ele respondeu.

— Sim, eu sei. – concordei, porque é verdade. Eu avistei um relógio em uma das paredes e me esforcei para conseguir enxergar as horas nele, quando consegui, levei um susto. — Gabriel... – chamei e ele me olhou. – Já passou das três horas da madrugada.

— Que? – perguntou Gabriel incrédulo. Eu apontei na direção do relógio para que ele visse e ao ver, ele pegou seu celular no bolso, certificando de que o relógio estava mesmo correto. – A gente ta na merda.

— Temos aula daqui a pouco.

— Acho melhor eu ir embora.

— Acho melhor você ficar, não dormirmos e irmos pro colégio juntos. – sugeri.

— Sem meu uniforme e materiais?

— Quem precisa de uniforme com esse pijama ultra fashion? – perguntei zombando e ele me fuzilou com o olhar. – Ta bom, então eu te empresto umas roupas, minha camiseta baby look vai ficar maravilhosa em você. – completei ainda zombando e ele continuou a me fuzilar, então ri.

— Seus olhos quase se fecham quando você ri e o engraçado é que literalmente se fecham quando você ri de verdade, espontaneamente, de algo que achou extremamente engraçado. É tipo uma diferença entre uma risada e uma gargalhada. – disse Gabriel e lentamente eu parei de rir, me sentindo extremamente sem graça.

— Você pisca muito quando fica sem graça, como agora. É tipo uma diferença entre estar com qualquer outro ser humano e estar comigo. – ele disse me fazendo gargalhar novamente. Fiz tanto isso hoje.

— Viu, fechou os olhos. – ele observou e fiquei um bom tempo o encarando.

— Me beija. – pedi e ele obedeceu. Gabriel se inclinou sobre mim e me beijou. Me peguei pensando no porque gosto tanto do seu beijo e cheguei a conclusão de que a resposta está exatamente na pergunta. É o seu beijo. E atualmente eu ando gostando de quase tudo vindo do Gabriel.

Ele segurou meu rosto com sua mão e não me incomodei com o fato de seus dedos estarem gelados, por estar fazendo frio. Na verdade, tive a ideia genial de enfiar minhas duas mãos por baixo de sua blusa e as colocar em suas costas, de modo que ele se contraiu com o contraste da temperatura gelada dos meus dedos e sua pele quente, me fazendo sorrir entre o beijo.

Quando nos afastamos, Gabriel se aconchegou ao meu lado e pegou seu celular, começando a mexer no mesmo. Ele abriu o instagram e a única coisa que consegui pensar, foi: Não acredito que ele vai fazer isso. E ele fez. Gabriel selecionou uma das fotos de nós dois que Lilian havia tirado e postou com a legenda “Vocês estão prontas, crianças? ESTAMOS CAPITÃO!”. Isso foi o suficiente para me fazer rir, mas no local em que a foto foi tirada, ele colocou: A pineapple under the sea. Foi então que eu quase morri de tanto rir.

— Você é muito idiota! – afirmei.

— E você deveria atualizar com mais frequência suas redes sociais. Você já pensou em agir como alguém da sua idade?

— Já pensou em parar de tentar me encaixar num grupo de pessoas? Eu gosto de ser eu, assim toda diferente.

Ele encaixou seu rosto na curva do meu pescoço e pude sentir que estava sorrindo, então ele beijou levemente aquela região e me arrepiei.

— Passamos na minha casa antes de ir pra aula? – perguntou Gabriel.

— Claro. – respondi. – Se você não se importar de ser com meu pai, porque ele vai fazer questão de nos levar. Ah, e que você tome café da manhã também.

— Tudo bem, mas ele não vai importar de eu dormir aqui?

— Não.

— Então apague a luz. – ordenou Gabriel.

— Você não quer ir pro meu quarto?

— Não, quero dormir aqui. Até porque se eu levantar daqui pra ir pro seu quarto, nós não iremos dormir. – ele afirmou ainda com o rosto escondido e eu ri. – E eu estou tentando manter a boa impressão que seu pai teve de mim.

Quando ele terminou de falar, me levantei com cuidado e segui até o interruptor perto da porta, apagando a luz. Por precaução, resolvi abrir a porta e deixá-la aberta, seria menos suspeito de que fizemos qualquer coisa dentro do escritório do meu pai. Então voltei ao sofá e me deitei. Gabriel virou seu corpo e me abraçou por trás, de forma que ficamos totalmente confortáveis no sofá de couro.

— Boa noite. – desejou Gabriel depositando um beijo atrás da minha orelha.

— Boa noite, bob esponja. – respondi sorrindo e de alguma forma eu soube que ele também sorriu.

Meu despertador estava programado para tocar dali algumas horas, mas eu não queria que ele funcionasse. Queria continuar deitada, com os braços de Gabriel envolvendo meu corpo pelo máximo de tempo possível. Sentindo seu perfume e sua respiração batendo contra a pele em meu pescoço. Queria simplesmente tê-lo por perto o máximo de tempo possível.

Por que você me deixa assim, Gabriel?

Notas finais
Pessoal, sobre a enquete realizada no último capítulo, eu ainda vou deixá-la aberta para respostas e depois divulgo o que ficou decidido, porque tem muitas questões envolvidas, que terão de ser explicadas com tempo e eu estou meio que atrasada pra um compromisso importante! Hahahaha desculpem. E tenho uma novidade pra vocês! Eu adoro conversar com meus leitores, mas levando em consideração a quantidade de leitores que a história tem, já é pouco o número de leitores que comentam... E menor ainda os que falam comigo por mensagens. Mas eu queria ter um relacionamento melhor com vocês, queria ter um espaço para comentar sobre a história, avisar quando vai ter capítulo novo, me justificar quando o capítulo for demorar, conversar de boa e etc... Então fiz um twitter novinho, apenas pra isso! Não sei vocês, mas eu sou viciada naquela coisa e acho que pode ser útil e divertido! Então comentem e me digam o username de vocês, que irei seguir todos para nos socializarmos! Ou então, podem me seguir lá que sigo de volta, o twitter é: @kpettrova Espero que tenham gostado do capítulo e até o próximo!