Poltrona 19
32 Lista de sonhos
Notas iniciais
Quando eu e Gabriel chegamos em minha casa, assim que abri a porta da sala, avistei algo que estranhei bastante. Meus pais e Lilian em pé no centro da sala, enquanto Nicolas estava sentado em um dos sofás com a cabeça baixa. Ao ouvirem o barulho da porta todos me encararam, menos Nicolas que continuou da forma que estava. Eu de fato não estava entendendo nada, porque era para estarem todos trabalhando, não em uma aparente reunião de família.
– Oi – cumprimentei um tanto receosa.
– Oi Renatta, Paulo, Lilian, Nicolas... – disse Gabriel em seguida.
– Oi Gabriel. – eles responderam em uníssono, mas nem sequer o papai sorriu. Foi nesse momento que eu descobri que algo bem errado havia acontecido.
– O que ta acontecendo aqui? – perguntei de uma vez por todas.
– Gabriel, eu peço desculpas, mas você poderia retornar outro dia? – perguntou mamãe ignorando minha pergunta. – Precisamos discutir um assunto sério com a Isabelle.
– Claro, Renatta. Eu que preço desculpas. – respondeu Gabriel. – Bom, eu vou indo. A gente se vê no colégio amanhã, Isa.
– Eu posso pelo menos levar ele até o portão, ou a patrulha não permite? – indaguei.
– Vai lá. – respondeu papai. – Desculpe por isso, Gabriel.
Nós caminhamos até o portão em silêncio e minha vontade era de implorar para que Gabriel não me deixasse ali sozinha. Porque seja lá o que aconteceu, eu soube que assim que ele se fosse, eu estaria ferrada. Quando chegamos ao portão, eu olhei desesperada para ele e comecei a ter um pequeno surto.
– O que diabos está acontecendo aqui? Meus pais estão em casa, com expressões sérias, dizendo que precisam conversar comigo! Eu to morrendo de medo!
– Ta, aquilo foi medonho. – concordou Gabriel. – Mas o que te resta é respirar fundo e ir descobrir qual o motivo disso tudo, porque de qualquer forma, não dá pra fugir.
– Me liga mais tarde, por favor? Só pra garantir que eu ainda estarei viva?
– Claro! – ele respondeu sorrindo e me deu um selinho.
– Desculpa por isso.
– Não se preocupe. Te vejo amanhã.
– Até amanhã! – me despedi fechando o portão e percebi que estava tremendo. Coisa boa não aconteceria quando eu entrasse naquela sala, mas não havia como fugir, mesmo que eu quisesse muito. Então fiz exatamente o que Gabriel me aconselhou: respirei fundo. Respirei e fui.
Quando entrei no cômodo, Nicolas me olhou e seus olhos estavam vermelhos e inchados. Fiquei tão preocupada que ignorei os adultos, fui até ele e me sentei ao seu lado no sofá.
– Ta tudo bem? – perguntei, mas ele não respondeu.
– O que aconteceu sábado a noite, Isabelle? – indagou mamãe e eu engoli seco. Eles descobriram algo e algo de sábado a noite. É muito pior do que eu imaginava. Nós fizemos muitas loucuras das quais eles não se orgulhariam nem um pouco e é exatamente por isso que era hora de pensar rápido.
Minha mãe é advogada e das boas, é praticamente impossível mentir para ela. Ela analisa e reanalisa as histórias, até que encontre alguma brecha ou erro e acabe descobrindo toda a verdade, então o que eu faço sempre é tentar enrolá-la. Nesse caso, eu não sabia o que eles descobriram e seja lá o que foi, eles com certeza já haviam interrogado Nicolas e conseguido uma versão da história. Eu não poderia acabar entregando outra coisa sem querer ou dar uma versão diferente da dele, por isso, eu precisava me fingir de boba até que alguém soltasse a informação que eu preciso.
– Fomos a uma festa de aniversário, por que?
– Não, vocês não foram apenas a uma festa. O que mais vocês fizeram? – mamãe tornou a perguntar.
– Dançamos, bebemos, curtimos, beijamos na boca de pessoas que gostamos. Quer os detalhes?
– Isabelle, não tente bancar a boba.
– Talvez então você queira me contar o que foi que fizemos.
– Vocês foram até a casa do Marcelo? – perguntou Lilian indo direto ao ponto e minha mãe revirou os olhos por ela ter estragado tudo, mas eu nem comemorei minha vitória, apenas senti minhas pernas bambearam. Puta que pariu. Eles descobriram a pior coisa de todas, eu não fazia a mínima ideia do que fazer.
– Eu já disse que ela não foi. – Nicolas respondeu depressa. – Ela estava com o Gabriel e eu me aproveitei para fugir da festa e ir sozinho. Eu fiz muitos amigos lá e ela pensou que eu estava me divertindo com algum deles, mas quando não me achou, ficou me ligando desesperada e eu não atendi. Ela não fez nada, foi apenas...
– Você já deu sua versão da história, Nicolas. – interrompeu mamãe. – Eu quero ouvir o que a Isabelle tem a dizer.
Eu olhei no fundo dos olhos de Nicolas, mal acreditando que ele estava mesmo tentando me livrar daquilo, então sorri para ele e apertei sua mão na intenção de mostrar algo: Nós estamos juntos nessa. Eu jamais deixaria Nicolas assumir a culpa daquilo sozinho.
– Nós fomos a casa do Marcelo. – confessei. – Nós. Ele não fez nada sozinho. Fomos eu e ele.
– Vocês fizeram mesmo aquilo? Vocês tem alguma ideia do que fizeram? O Marcelo bateu na porta da minha casa furioso, querendo espancar o Nicolas. Ele ameaçou prestar queixa na polícia e aí eu perderia a guarda do Nicolas. – disse Lilian nervosa. – Você entende isso, seu irresponsável? – ela terminou gritando com Nicolas.
– Isabelle, vocês invadiram uma propriedade e destruíram o equivalente a mais ou menos 200 mil reais? – indagou meu pai incrédulo.
– Sim.
– Por que vocês fizeram isso?
– Porque ele merecia. – respondeu Nicolas e no instante seguinte Lilian partiu pra cima dele, o enchendo de tapas. Eu simplesmente não me controlei e quando percebi, já havia dito.
– Sério que você vai fazer com ele o que o Marcelo fazia com você? – indaguei e ela me olhou perplexa. A sala ficou em total silêncio, até que eu o quebrei. – Vai tomar um copo de água e me espera na varanda Nicolas. – ordenei, encarando Lilian que parecia não saber o que dizer.
– Não, eu... – ele tentou argumentar, mas não permiti.
– Agora.
Nicolas se levantou e sem olhar para nenhum de nós, saiu da sala em direção à cozinha. Meus pais estavam me olhando completamente confusos e Lilian completamente assustada.
– Meu pai sabe, Lilian?
– Sabe do que? – intrometeu papai e Lilian permaneceu calada, ainda em estado de choque.
– Que o Marcelo agredia ela fisicamente. – respondi e meus pais olharam novamente para ela, mas dessa vez com uma mistura de perplexidade com susto. – Você não contou, Lilian? Não contou que ta batendo no seu filho que tem ódio intenso do pai, por ter crescido vendo a mãe ser agredida? Não contou?
– Isso é verdade? – perguntou papai.
– Nada justifica. – respondeu Lilian quase que gaguejando. – Eu posso perder a guarda de Nicolas se o Marcelo prestar queixa na polícia. Eles destruíram um imóvel.
– Ele pode ser preso se você prestar queixa na polícia. Ele destruiu muita coisa mais importante. – rebati.
– Isabelle, nos dê licença um minuto, fazendo favor. – pediu papai bastante sério.
– Vocês façam o que quiser... – disse me levantando do sofá. – Mas se eu descobrir que o Nicolas foi punido por tomar uma atitude que Lilian nunca tomou, eu não vou ficar quieta e nem calada. Vocês são a autoridade nessa casa, mas nem por isso sou obrigada a engolir certas coisas.
Dito isso deixei a sala e fui para a cozinha e peguei um copo d’água para beber, como eu mesma havia recomendado para Nicolas. Eu estava nervosa. O que nós fizemos não foi certo, não acho que tenha sido uma coisa bobinha, mas de fato não era nada perto do que alguém tão desprezível como o Marcelo merecia. E em hipótese alguma Lilian poderia culpar Nicolas por ter tanta raiva de seu pai a ponto de querer fazer algo como isso. Eu gosto muito dela e não quis ser grossa ou causar intriga. No momento, eu só quis defender o que acho certo. Defender o lado de Nicolas.
Enquanto bebia minha água, pude ouvi-los conversando baixo na sala, mas nem sequer me dei ao trabalho de tentar ouvir, eu não queria ouvir. Estava morrendo de fome, então para almoçar, peguei a comida, coloquei num prato e fui para a varanda. Nicolas estava sentado sobre um sofá encarando o muro no fundo da casa, então me sentei ao seu lado.
– Ta tudo bem?
– Ela não vai me perdoar por isso. – respondeu Nicolas sem sequer se mover.
– Nós podemos ter exagerado no que fizemos, mas ela não pode te culpar por nada e todos sabem. No seu lugar, eu teria feito coisa muito pior, Nicolas, e quando eu digo coisa pior é muito pior mesmo. Eu não teria destruído simplesmente o imóvel de um homem que agrediu minha mãe, teria destruído a vida dele ou no mínimo transformado-a em um inferno. Sua mãe está assustada pela ameaça do seu pai, porque te ama e não quer te perder, mas no fundo ela sabe que ele jamais conseguiria te tirar dela. Se existe alguém que está com medo, é ele. Depois que ele viu o que você fez, ele com certeza tem medo de que acabe fazendo coisa pior. Ele sabe que pode ser preso.
– Mas ela vai ficar com raiva de eu ter te contado o que acontecia e agora todos saberem.
– Já havia passado da hora do meu pai saber a verdade. Certas coisas não podem simplesmente ser ignoradas como se nunca houvessem acontecido. Principalmente coisas como essa.
– Você tem razão. – concordou Nicolas.
– Só espero de coração que você não tenha se arrependido de ter saído comigo aquela noite...
– Ta brincando? – ele perguntou finalmente me olhando e sorrindo. – Aquela continua sendo a melhor noite da minha vida.
Nós continuamos sentados na varanda conversando por um longo tempo. Eu tentei puxar qualquer outro assunto que não envolvesse o que havia acontecido, apenas para tentar distraí-lo e acho que consegui. Ele me contou que ele e Bárbara continuam conversando e eu achei isso extremamente legal e fofo ao mesmo tempo. Até me senti mal quando ele me perguntou sobre como ela está se saindo cumprindo seu desafio e eu percebi que não prestei muita atenção, por ter passado a semana inteira de mal humor por causa do sumiço de Gabriel. Mas pelas coisas que observei, ela estava se saindo muito bem. Ela estava conversando com todos, sendo sociável, passando o intervalo com nós e parecendo bem menos tímida.
Quando meu pai apareceu para chamar Nicolas para irem embora, já era noite. Despedi-me dele, que não disse nada sobre o assunto e eles se foram. Eu imaginei que quando entrasse ainda teria que passar por alguma conversa com minha mãe, que por ser quem é, jamais deixaria essa história passar abatida, então permaneci ali fora por mais algum tempo, apenas observando o céu.
Ao entrar não encontrei minha mãe em nenhum cômodo pelo qual passei, então fui direto para o meu quarto, tomei um banho demorado e me joguei na cama para assistir televisão. Eu já estava comemorando por não ter que ouvir nenhuma bronca, quando ouvi algumas batidas na porta do quarto. Comemorei cedo demais.
– Podemos conversar rapidamente? – perguntou mamãe parada na porta e eu apenas assenti, sabendo que eu não tinha a opção de dizer não. – Isabelle, eu não vou te dar bronca pelo que fez, porque você já é adulta pra entender a situação. Mas é justamente por isso que você deveria saber que foi totalmente irresponsável e impensada a atitude de vocês, e que algo assim teria consequências. A questão é que apesar de tudo, vocês não deveriam ter caçado justiça com as próprias mãos e por isso não posso simplesmente ignorar. Então você está de castigo por uma semana a partir de amanhã.
– O que? – perguntei praticamente gritando e me sentando na cama em um impulso.
– Você não vai sair no final de semana e vai ser do colégio pra casa, da casa pro colégio. E isso envolve sem Gabriel ou qualquer outra visita.
– Você não pode fazer isso comigo! – reclamei completamente desesperada e frustrada. – Sábado é aniversário do Bruno. Eu não posso simplesmente não ir ao aniversário do Bruno, justo do Bruno.
– Eu não sei nem quem é Bruno, então imagino que não seja alguém tão importante.
– Claro que é! Ele é um dos meus novos melhores amigos, é o melhor amigo do Gabriel. É o Bruno! O Bruno! Eu não posso perder o aniversário do cara mais épico que eu já conheci!
– Lamento, você não vai.
– Todo mundo vai, mãe. Todo mundo. E se você responder que eu não sou todo mundo, eu sinceramente levarei um tapa na boca, mas soltarei um belo de um palavrão. Se você me proibir de ir, eu não olharei mais pra sua cara.
– É só uma festa. – rebateu mamãe.
– Não é qualquer festa! Até minhas melhores amigas que não são tão amigas dele estarão lá, eu tenho que estar. O Gabriel vai ficar muito bravo comigo.
– Você está de castigo e não se fala mais nisso. Lamento, Isabelle.
Eu levantei da cama enraivecida e caminhei a passos largos até a porta. Então olhei para ela uma última vez antes de dizer algo pensado propositalmente:
– Eu gosto muito mais do meu pai. – gritei e bati a porta em sua cara, trancando-a em seguida.
Ela não fez nada, não tentou bater na porta, me gritar, xingar ou sei lá o que, porque eu sabia que aquilo a chatearia, mas ela não era a única chateada da história. Posso estar agindo feito uma garotinha mimada e foda-se, que seja então, mas não era justo que ela me privasse de estar junto com meus amigos justo no aniversário de uma das pessoas mais importantes na minha vida ultimamente.
Me joguei sobre a cama e fiquei encarando o teto do meu quarto por um longo tempo até que minha raiva se esvaísse. Quando já estava mais calma me lembrei que Gabriel ainda não havia me ligado, então peguei meu celular e resolvi eu mesma ligar. Disquei seu número e na quinta vez chamando, ouvi sua voz do outro lado da linha.
– Alô. – atendeu Gabriel e quase não consegui entender o que ele disse, porque estava muito barulhento onde quer que ele estivesse.
– Oi.
– Espera só um pouco. – ele pediu e percebi que aos poucos o barulho foi diminuindo. – Pronto. Desculpa por isso.
– Onde você ta?
– Num barzinho com o Bruno, ele me perturbou até eu aceitar vir.
– Ah...
– O que aconteceu hoje? Me desculpa por ter esquecido de ligar.
– Meus pais descobriram o que aconteceu sábado, sobre termos destruído a cada do pai de Nicolas. – contei.
– Puta que pariu... – ele disse lentamente, visivelmente preocupado.
– Não se preocupe. – o tranquilizei. – Eu e Nicolas assumimos tudo, não contamos de mais ninguém.
– Como assim? Vocês não deveriam ter feito isso! Tava todo mundo nesse jogo, todo mundo participando, todo mundo fazendo merda junto. Então se um se fode, o resto se fode junto, é assim que as coisas funcionam. Amigo não é só pra momento bom não, cara.
– Ei, relaxa. Ficou tudo bem. – garanti. – Ou quase tudo. E além do mais, fui eu quem fez o desafio e Nicolas quem o aceitou. A responsabilidade foi nossa sim.
– Não concordo com isso.
– Acredita em mim, ficou tudo numa boa. Nós conversamos com nossos pais e consegui os convencer de que Nicolas teve fortes motivos para fazer algo assim, então eles não poderiam julgá-lo.
– E quais foram esses motivos? – perguntou Gabriel curioso.
– São pessoais, deixa pra lá. Você tem seus segredos, também tenho direito de ter os meus.
– Justo. – ele concordou e eu apenas sorri, mas permaneci em silêncio. – Você ta legal?
–Não. – respondi sincera.
– Quer que eu vá praí?
– Não. Quer dizer... Tecnicamente não posso. Estou proibida de te receber em casa por uma semana.
– Por que? – perguntou Gabriel gargalhando e mesmo que ele não fosse gostar do rumo que essa conversa tomaria, me permiti aproveitar o som da sua risada por alguns segundos.
– Minha mãe me colocou de castigo por uma semana e esse castigo envolve não ver Gabriel Fornazier fora do colégio.
– Até sua mãe sabe que essa é a maior tortura que podem lhe causar. – ele se gabou.
– Vai se foder, Gabriel.
– Mas o que mais tem nesse castigo ein?
– Digamos que... eu estou proibida de sair. – contei e ele ficou calado. Esperei por um tempo pra ver se ele diria qualquer coisa, mas se passaram longos e tortuosos segundos e nada. – Desculpa, Gabriel. Você sabe que a culpa não é minha.
– Ta.
– Eu juro que até tentei discutir, mas não deu certo.
– Ta.
– Gabriel, para... – pedi e ouvi ele suspirar do outro lado da linha.
– Eu vou desligar, porque o pessoal ta enchendo o saco. A gente conversa amanhã.
– Tudo bem.
– Tchau. – despediu-se e desligou sem ao menos me dar chance de responder. Obrigada, mãe. Obrigada mesmo.
Naquela noite eu procurei por qualquer coisa para fazer, desde assistir televisão a mexer na internet, mas nada me distraia. Em determinado momento cheguei a pegar meu material para ver se tinha atividade ou algo do tipo. Por fim, acabei escrevendo em meu diário e quando me cansei, fui dormir mais cedo para ver se acordava de bom humor. Eu precisava de paciência para conversar com o Gabriel.
Ao me deitar peguei meu celular e fui olhar o instagram. Péssima decisão. Gabriel havia postado uma foto linda e engraçada, com um grupo de amigos que não conheço. Os únicos que reconheci na foto foram Bruno e Amanda. Senti um misto de ciúmes, com inveja e chateação. É pra isso que as redes sociais servem, para nos fazerem odiar nossas próprias vidas, sempre acreditando que a vida dos outros são melhores. É incrível o efeito de uma única foto em alguém, porque fiquei pensando que queria ter a vida da Amanda até conseguir pegar no sono.
Quando meu despertador tocou no dia seguinte, eu custei a acreditar que aquela merda de semana ainda não havia acabado. Me arrumei tão bem quanto me arrumo para ir dormir e quando fui tomar café da manhã, encontrei minha mãe na cozinha. Como eu queria deixar claro que estava brava, olhei para a cara dela e sai de casa, sem comer nada, sem falar nada. Fui para o colégio de estomago vazio só pra ela perceber que eu havia propositalmente preferido não ficar no mesmo ambiente que ela. Foda-se quem acha que estou sendo exagerada, porque é mesmo apenas uma festa, mas eu odeio ser a única a estar por fora de tudo. Odeio. Dos comentários da semana seguinte, das histórias, das risadas, das piadinhas internas. Odeio quando dizem “lembram daquele dia em que aconteceu tal coisa” e todo mundo começa a rir, mas você fica sobrando. E era exatamente o que aconteceria.
Ao chegar no colégio me aproveitei que entraria no segundo horário e sentei na lanchonete para comer algo, ou meu humor ficaria péssimo aquela manhã. Mais péssimo do que comumente fica quando algo que eu não gosto me acontece, porque eu tenho uma tendência a me transformar numa pessoa psicopata com fome. Pedi um pão e um leite quente, que não veio quente e sim, fervendo. Enquanto esperava esfriar, mexendo o leite pacientemente com a colher, alguém se sentou ao meu lado.
– Sua mãe desistiu de te fazer chegar no primeiro horário? – perguntou Arthur.
– Não cita essa mulher se você quiser ter uma conversa saudável. – respondi sem nem olhar para ele.
– Eu serei o representante e a Bruna Ferreira será a vice-representante, só queria avisar. – ele disse e se levantou do banco em seguida. Pareceu não ter gostado da forma com que o respondi ou do tom de voz que usei.
– Não fui grossa porque quis, só não estou legal. – expliquei antes que ele se afastasse.
– Você nunca esta legal pra conversar comigo.
– Sem dramas às sete horas da manhã, fazendo favor. Eu ainda nem acordei.
– Claro. As coisas só funcionam da forma que você quer mesmo.
– Qual é, Arthur? O que diabos você quer de mim? – perguntei me virando para ele ao me sentir verdadeiramente irritada. Eu já não estou em uma boa semana e ele resolve me provocar, então que vai se foder.
– Talvez que você não seja uma completa idiota comigo.
– Você foi um completo idiota comigo muito antes. – o lembrei. – Agora porque eu te superei, ta doendo a dor de cotovelo? Eu sentiria pena se você já não tivesse me feito sentir uma merda muito maior.
– É disso que eu to falando. – rebateu Arthur levantando a voz. – Se você quer jogar na minha cara que eu te troquei por outra, então não aparece toda vez que estiver bêbada querendo algo comigo.
– Larga de ser ridículo, Arthur. Quem me beijou na casa do Pedro foi você.
– E você correspondeu.
– Uma vez, e daí? Eu tava confusa e como você mesmo disse pro Gabriel quando nos encontrou ficando, “inconsciente dos meus atos”.
– E é a mesma desculpa que você tem pra casa do Renan? – provocou Arthur.
– Foi uma aposta! – respondi gritando, mesmo que minha intenção não fosse fazer um barraco no meio do colégio. A raiva simplesmente me fez fazer tal coisa. – A Amanda me desafiou a ficar contigo pra provar que eu não sinto mais absolutamente nada por você! – contei e ao terminar de dizer, ele ficou calado por longos e longos segundos. Juro que tentei decifrar sua expressão ou tentar deduzir o que ele estava pensando, mas ele não moveu um único músculo do rosto.
– Eu definitivamente não esperava isso de você, Isabelle. – ele afirmou e finalmente expressou algo, desprezo. Então me virou as costas e saiu andando.
– Não sai andando como se você fosse superior a mim.
– Eu sou superior a você! – gritou Arthur olhando de volta para trás e aquela foi a primeira vez em todo o tempo que nos conhecemos, que Arthur gritou comigo. – Eu por acaso já te coloquei no meio de alguma aposta estúpida? Não, Isabelle! Porque eu gosto de você!
– Gosta o caralho! Lembrou disso só depois que levou um fora? E antes? Antes quando tinha a Bianca nas mãos não lembrava, né? Você ta carente e nada mais que isso. Aposto que se ela aparecesse disposta a reconstruir a linda história de amor de vocês, você fingiria que eu nem existia de novo. Sabe o que você é? Um trouxa e um idiota.
– Esse é o nosso ponto em comum, né. – disse Arthur voltando a usar a voz calma e serena, com um sorriso debochado nos lábios. – Nós dois adoramos ser feitos de trouxa por alguém.
Quando ele disse isso, saiu andando novamente dando a entender que o assunto estava acabado. Pena que a raiva me atingiu de forma tão súbita e tão intensa, que eu não raciocinei. Foi apenas um relapso, mas eu peguei a xícara em cima do balcão e no instante seguinte, estava a arremessando na direção dele. Minha ação foi tão automática e impensada, que eu não mirei e por isso, não consegui o acertar. Mas a xícara passou tão próxima, que ele me olhou imediatamente paralisado com cara de perplexidade. Aquela não foi minha intenção, mas eu não arrependi, nem tentei voltar atrás. Muito pelo contrário.
– Some da minha vida, Arthur. – ordenei.
– Com prazer, Isabelle.
Dessa vez o deixei ir embora. Quando me virei de volta para a lanchonete, tinham quatro funcionárias me encarando assustadas. Elas deveriam ter assistido tudo, por isso não se atreveram a dizer nada, nem mesmo me xingar. Eu peguei minha mochila e saí dali sem dar satisfações. Se o colégio quisesse meus pais pagariam a desgraça da xícara, ou não, foda-se, não to afim de saber. Sai andando sem rumo até parar sentada em um dos bancos do pátio. Joguei minha mochila no chão e peguei meu celular para ouvir música. Quando percebi estava chorando. Chorei de desgaste, quando seu emocional está tão sobrecarregado que você precisa esvair isso de alguma forma. E foi chorando que consegui tal coisa.
Quando o sinal tocou simplesmente continuei sentada no pátio, sem vontade de me levantar. Só não fiquei ali pelo resto do dia, até que me obrigassem a ir pra sala ou ir embora, com uma super bronca, porque eu havia assumido um compromisso com minha turma e com a diretora, e por incrível que pareça, queria honrá-lo. Subi para a sala e convenci o professor de Física a me deixar entrar, simplesmente porque os alunos de todas as salas provavelmente me procurariam no segundo horário.
Ao entrar na sala, não falei com ninguém. Sequer olhei para o rosto de alguém. Me sentei, abri meus materiais e comecei a desenhar em uma folha, enquanto pouco a pouco os representantes das outras turmas foram aparecendo e eu consegui montar a lista para entregar a Rosangela. A única turma que não se pronunciou foi o Terceiro B, minha antiga sala, mas faltando alguns poucos minutos para o sinal do intervalo tocar, recebi uma mensagem de Leticia.
“Me candidatei só pra passar mais tempo com você, vadia. E ganhei. Então vamos monopolizar esse colégio! A Larissa Lopes ficou como vice”
Isso me fez sorrir mesmo que por pouco tempo. Então com a lista pronta, planejei ir a sala de Rosangela entregá-la assim que o sinal do intervalo tocasse e também suplicar para que ela mudasse aquela reunião de dia, inventando que eu não estava me sentindo bem. Eu não tinha estruturas para ficar no mesmo cômodo que o Arthur depois do que aconteceu.
***
Tomei um banho e me deitei na cama. Mal conseguia acreditar que era sábado a noite e eu estava em casa, trocando os canais da televisão impacientemente, que por acaso, não tinham nada de interessante passando. Sexta-feira no colégio eu e Gabriel nem conversamos, devido ao meu mal humor que fodeu com o meu dia inteiro. Apenas hoje mais cedo ele havia me mandado uma mensagem em que dizia “Não estou bravo com você, só queria que estivesse comigo hoje”. Isso fez meu dia acabar de vez, porque eu posso garantir que era o que eu também queria. Então respondi um “Tudo bem, eu também queria. Aproveita por mim!” e passei o resto do dia curtindo depressão e remoendo ódio dentro do meu coração. Isso não faz muito bem para alguém.
Meu telefone tocou e eu não queria sequer olhar quem era, com minha vontade de me isolar e sumir do mundo durante todo o sábado, o final de semana e a semana seguinte também, se possível. Porém, quem quer que estivesse ligando insistiu e eu fui obrigada por minha própria curiosidade, a pegar o aparelho telefônico e verificar quem era. Gabriel Fornazier. Atendi na esperança dele falar que o evento foi cancelado.
– Não vai ter festa? – perguntei assim que atendi.
– Tranca a porta do seu quarto, se veste, pule a janela, chegue até o portão sem fazer barulho, destranque-o e feche devagar. – ordenou Gabriel.
– Você ta maluco?
– Se ela descobrir: foda-se. Você já esta de castigo de qualquer jeito. Fica na semana que vem, que não terá nenhum evento importante. Se não: perfeito! Eu te devolvo antes dela acordar.
– Gabriel, não vou fazer isso.
– Estou chegando na sua casa e ainda nem peguei o Bruno. Não perde tempo. Leva um biquíni. – ele disse e desligou o telefone na minha cara. Eu te odeio, Gabriel. Odeio muito.
Me sentei na cama completamente perdida e sem saber o que fazer. Então pensei no que Gabriel havia dito e quer saber, se eu vou ficar de castigo, que seja por algo que eu acho justo. Me levantei correndo e tranquei a porta do quarto e vesti uma roupa qualquer agradecendo por ter tomado banho antes de deitar. Coloquei uma blusinha preta, um short jeans e calcei um all star branco. Em seguida peguei uma bolsa grande que tenho e nem sequer tirei as coisas de dentro dela, apenas enfiei uma roupa extra lá e comecei a procurar por um biquíni.
Que tipo de cidadão curitibano tem um biquíni eu não sei, mas revirei minhas gavetas atrás de um que minha mãe havia comprado pra mim tempos atrás, para viajarmos. Tinha a vaga lembrança de tê-lo guardado em algum lugar e de fato, o encontrei jogado no fundo de uma das gavetas. O joguei dentro da bolsa rezando para que ele ainda me servisse e por último, taquei minha carteira lá dentro também, apenas por precaução.
Ao terminar de juntar tudo isso peguei meu celular, a chave de casa e pulei a janela com todo o cuidado que eu não tenho, tentando fazer o menor barulho possível. É claro que só por isso bati minha cabeça, o joelho e saí do quarto com uns mil hematomas. Ao pular a janela, a fechei pelo lado de fora, assim minha mãe não conseguiria ver o lado de dentro caso estivesse passeando pelo quintal, por algum motivo que eu não consigo imaginar.
Caminhei pelo quintal sem acreditar que eu estava mesmo fazendo aquilo. Quando comecei a destrancar o portão, percebi que estava tremendo, mas assim que o abri, avistei Gabriel que estava me esperando em frente a ele e me ajudou a fechá-lo, sem fazer barulho. Assim que o fechamos, comecei a rir e mostrei minhas mãos tremendo para ele, mas Gabriel tampou minha boca ordenando que eu não fizesse barulho. Assenti com a cabeça e corremos até o carro.
Assim que me sentei no banco do passageiro e fechei a porta, Gabriel ligou o carro e o acelerou.
– Essa é minha garota! – ele disse rindo e eu disparei a rir junto de tanto nervosismo que estava sentindo.
– É melhor essa festa valer muito a pena, porque tem grandes possibilidades de ser a última da minha vida.
– Vai valer, eu garanto!
– O que vocês inventaram pro Bruno? – perguntei.
– Ele chamou todos os amigos para irem pra uma boate, que por acaso eu fiquei supostamente responsável de te avisar, mas é claro que não vai rolar boate. Então pra conseguirmos levá-lo para a chácara, o Gustavo inventou que os pais dele o obrigaram a ir pra lá e ele levou a Carol junto. Mas depois de tanto choramingar sobre ser o aniversario do melhor amigo dele, seus pais o liberaram pra ir embora, desde que ele se virasse para ir, acreditando que ele não conseguiria encontrar uma forma. Então ele me ligou e aqui estamos nós, indo buscá-los.
– Ele caiu nessa?
– Não só caiu, como está xingando o casal, por estarem atrasando o rolê. – respondeu Gabriel.
– Que dia é o aniversário dele oficialmente?
– Segunda.
– Tem alguma sugestão do que eu posso dar de presente para ele? – perguntei.
– A Leticia.
– Isso é serio?
– O Bruno gosta de mulher, então eu diria: alguma de suas amigas. Mas a Leticia seria mais divertido, porque ela irrita ele um pouquinho e ele gosta de mulher marrenta.
– Eu curti essa ideia. – confessei. – Mas ainda preciso pensar em algum presente de verdade.
– Cerveja. Ele também gosta de cerveja.
– Algo decente, Gabriel.
– Eu gostaria de ganhar cerveja. – ele rebateu rindo.
– Quando é seu aniversário? – perguntei curiosa e ele parou de rir imediatamente.
– Não comemoro aniversários, Isa. Então melhor nem saber, para não me dar parabéns.
– Por que não? O melhor dia do ano é sempre o dia do nosso aniversário.
– Não gosto, simples assim. É serio, se você tem algum tipo de consideração por mim, finja que eu não faço aniversário. Se você tentar revolucionar esse dia, como costuma fazer, a gente termina. – avisou Gabriel estacionando o carro em frente a uma casa que deduzi ser a de Bruno. Fiquei feliz por ser uma casa normal como a minha e não mais uma mansão, como a de Gabriel ou Gustavo.
Me curvei no banco me aproximando de Gabriel e respondi ao seu aviso:
– Não temos nada para terminarmos, bonitinho. – provoquei e o roubei um rápido beijo.
Gabriel buzinou e em questão de segundos o portão se abriu, saindo um Bruno eletrizado de lá de dentro. Pareceu que ele estava do lado de dentro apenas esperando por aquela buzina. Bruno correu até o carro e abriu a porta traseira, mas não entrou. O que ele fez em seguida foi abrir a minha porta e me pegar no colo.
– Desculpe, madame. O banco da frente é meu! – ele anunciou me colocando sentada no banco de trás e fechando a porta.
– Cara, eu prefiro andar do lado de mulher. – reclamou Gabriel no momento em que Bruno entrou no carro e começou a dirigir.
– Eu sou sua mulher! – rebateu Bruno e eu gargalhei, mas Gabriel apenas mandou ele ir se foder. – O Gustavo é um viado mesmo, uma bichona, gay do caralho. Só empaca minha vida, meus rolês, até meu aniversário. – ele reclamou mudando completamente de assunto. – A propósito, parabéns pra mim! – gritou.
– Seu aniversário nem é hoje, cala a boca aí. – ordenou Gabriel.
– Meu aniversário é quando eu quiser. Se eu quiser comemorar meu aniversário todo dia, eu comemoro, porque todo dia é dia de comemorar minha existência.
– Você é sensacional, Bruno. – afirmei.
– E dias antes do meu aniversário então, são os dias ideais. Porque nessa altura do campeonato eu já tava planejando como é que eu ia sair do útero da minha mãe. Ta ligado que teve toda uma preparação, né? Não foi simplesmente sair da vagina da minha mãe, eu tive que pensar até em como iria ser meu primeiro berro, porque tinha que ser inesquecível.
– Meu deus do céu! – gritou Gabriel muito alto, enquanto eu gargalhava da imaginação que o Bruno tem. – Por que eu sou seu amigo?
– Um dia você vai ser igual a mim, não fica chateado. – rebateu Bruno.
– Vamos falar sobre a Isabelle ter fugido de casa para estar com a gente agora. – disse Gabriel mudando de assunto, visivelmente não estando com vontade de falar sobre como Bruno passou pelas partes íntimas da mãe dele.
– Ta me zoando! – gritou Bruno se virando para trás. – Você é meu orgulho, loira!
– Minha mãe vai descobrir e me matar.
– Vamos raciocinar... – pediu Gabriel. – Nós saímos da sua casa, já era 21h. Você acha que ela te procuraria no seu quarto?
– Não, porque estamos brigadas. – respondi.
– Melhor ainda! Porque se ela te procurar, a porta estará trancada e ela pensará que você esta apenas a ignorando propositalmente. Mesmo que ela fique brava e que te xingue muito amanhã, não passará pela cabeça dela que na verdade você fugiu para a festa. E você vai chegar antes dela acordar, não tem como ela descobrir!
– E se eu não chegar?
– Você vai entrar pela janela, ela não vai ver.
– E se ela ouvir o barulho do portão?
– Larga de ser pessimista, garota! – ordenou Bruno. – Que isso, mano. Desse jeito vai acabar dando errado mesmo. Quando tu fechar o portão, sai correndo e se joga dentro do quarto. Se ela ouvir você já vai estar lá dentro, nega tudo. Ela não terá provas, vai morrer na dúvida.
– Vocês não prestam. – afirmei.
– Não... – discordou Gabriel. – Você quis dizer: nós somos geniais.
– Eu sou uma péssima filha.
– Talvez... – disse Bruno. – Mas eu amo você, loira!
– Feliz aniversário, loiro! – desejei sorrindo e ele piscou pra mim.
– Fala sério, vocês planejaram uma mega festa surpresa para mim, né? Estamos indo pra lá, pode contar. – disse Bruno e eu quase achei que ele tivesse descoberto, até que percebi pela resposta de Gabriel que ele estava apenas brincando.
– Claro que sim. Com um monte de stripper, mulheres nuas servindo bebidas e um monte de gostosas pra você pegar. Putaria livre! – respondeu Gabriel.
– Af, vocês são os piores amigos do mundo. – reclamou Bruno. – Nem uma mísera festinha.
– O aniversariante é você, logo quem tem que dar a festa é você, não nós. – rebati.
– Não mesmo! Vocês que deviam ser amigos legais! Eu sempre quis ter uma festa surpresa!
– Para de reclamar, viado. – ordenou Gabriel. – Ou então não te dou seu presente.
– Você comprou presente? – perguntou Bruno abrindo um sorriso de orelha a orelha.
– Ta no porta-luvas. – contou Gabriel e imediatamente Bruno o abriu. Observei sua ação e vi ele pegar um pacotinho com algo verde dentro. Bruno gritou um “não acredito” tão entusiasmado, que parecia ter ganhado na mega sena.
– Feliz aniversário, irmão! – desejou Gabriel. – É importada esse caralho.
– Você é o melhor! Você é o cara! Você é foda! – Bruno disparou a falar.
– Eu sei. – respondeu Gabriel.
– Eu até diria que te amo se isso não fosse ser tão gay.
Eu fiquei apenas observando os dois e achei tão fofa a amizade deles, que estava sorrindo. Bruno seguiu o resto do caminho falando sobre como pretendia ficar louco essa noite e curtir ela como se o mundo fosse acabar. Eu não duvidada. Passado alguns minutos finalmente chegamos em nosso destino.
Nós entramos em uma chácara que para mim parecia mais uma fazenda, de tão enorme que era e o Gabriel estacionou o carro numa área reservada para isso, mas que não havia mais nenhum outro carro. Foi nesse momento que estranhei. É claro que o Bruno descobriria a surpresa no momento em que visse o lugar todo cheio de automóveis, mas eu fiquei intrigada com onde a galera havia enfiado seus carros.
– Essa chácara é dos teus pais, Gabriel. Não do Gustavo. – observou Bruno enquanto descíamos do carro. – O que os pais dele estão fazendo aqui?
– Minha mãe ta aí também, veio com eles. Por que você acha que ela liberou o carro pra mim? Só porque não vai precisar dele.
– Toda vez que a mãe de vocês sai juntas, eu imagino elas bolando algum plano maligno contra os dois.
– Você é meio retardado né, Bruno?
– Não confio em mães unidas. – ele respondeu me fazendo rir. Me parece uma desconfiança sensata.
Nós caminhamos pelo lugar até chegarmos na varanda que dava acesso a porta da frente da casa e durante todo o caminho, fiquei pensando em como é estranho lembrar que os pais de Gabriel sejam tão ricos. Gabriel não parece o tipo de garoto que cresceu sendo mimado.
No instante em que Gabriel abriu a porta, com Bruno ao seu lado, as luzes se acenderam e gritaram “surpresa”. Bruno pareceu tão perplexo que não disse nada, ficou apenas parado observando a quantidade imensa de pessoas dentro daquele cômodo. Eu jurava que ele havia desconfiado de toda essa história, mas pelo sorriso em seu rosto, ele de fato, não fazia ideia. Enquanto o pessoal cantava parabéns, Gustavo surgiu com um bolo em mãos.
Foi exatamente como em qualquer festa surpresa, exceto pela parte de que talvez eu nunca tenha visto alguém tão feliz em uma, quanto o Bruno. No instante em que terminaram o parabéns e ele apagou as velas do bolo, pegou o mesmo em mãos e entregou para uma pessoa qualquer, apenas para poder abraçar Gustavo. E esse foi apenas o primeiro dos milhares de abraços que ele deu.
Bruno abraçou Gustavo, Gabriel, Carol, eu e morreu de tanto nos agradecer. Abraçou o resto do pessoal que também estava ali e depois teve de abraçar todas as milhares de pessoas que queriam lhe desejar feliz aniversário. Enquanto ele fazia isso, andei pela casa e descobri que havia muito mais gente do que eu imaginei quando abrimos a porta. Havia gente em todos os cômodos.
Encontrei Leticia e Amanda, que estavam com o resto dos nossos amigos e fiquei conversando com todos, enquanto já começávamos a beber, porque a festa começou a acontecer. Eles contaram que ficaram o dia inteiro organizando as coisas, correndo atrás das bebidas e comidas e cuidando para que tudo desse certo. Imaginei o quanto aquilo deve ter dado dor de cabeça.
Na última vez que dei uma festa de aniversário, pensei em desistir da mesma milhares de vezes até que ela começasse. Parece que sempre tem algo para dar errado e quando você consegue resolver o problema, surge mais um. São tantos detalhes, tanta coisinha mínima para se pensar, que te deixa exausto mentalmente.
Quando eles terminaram de contar, acabei contando minha história sobre estar de castigo e ter fugido para vir. Eles ficaram perplexos e a Leticia soltou um comentário que me fez rir muito:
– Se sua mãe descobrir, acho que ela desiste oficialmente de você e te manda pra um orfanato.
– Eu não duvido. – respondi.
– Gente... – gritou Bruno surgindo do nada. – Eu só queria dizer que vocês são os melhores amigos do mundo e que eu amo vocês!
– Nós sabemos. – respondeu Henrique.
– E quero roubar a Isabelle um minuto. – completou me puxando pela mão. – Já já voltamos. Amo vocês. Vocês são fodas. – ele continuou a gritar enquanto caminhávamos pelo meio da multidão.
Bruno me guiou até o lado de fora da casa e me levou até uma área mais afastada, onde vi Gabriel, Gustavo e Carol sentados num gramado. Estava escuro e só consegui os enxergar por cauda da iluminação da lua. Quando os alcançamos, Bruno se sentou e fez sinal para que eu sentasse também.
– Eu tenho muitos amigos importantes, mas quero dividir meu presente só com vocês. – ele disse tirando o pacote de erva que Gabriel havia o dado do bolso e o jogando para Gabriel. – Eu sei que você nem fuma... – ele disse se virando para mim. – Mas queria que estivesse aqui. Não é qualquer um que foge de casa por minha causa.
– Você ta tão sentimental que ta parecendo um viado. – disse Gustavo nos fazendo rir e Bruno apontou dedo para ele.
Eu fiquei feliz que eles quisessem minha companhia ali, muito mais do que eles poderiam imaginar. Gustavo me entregou um copo de bebida e eu comecei a observar o que Gabriel estava fazendo. Ele começou a bolar um beck com facilidade, enquanto conversava com o resto do pessoal sobre algum assunto que eu não estava prestando atenção, porque estava focada demais em observar o que ele estava fazendo.
Gabriel distribuiu a erva dentro de um papel que me parecia ser de seda e colocou um outro papel na ponta do baseado. Esse outro papel estava dobrado como se alguém tivesse tentado fazer um leque e havia uma parte não dobrada por cima desse leque. Era como um W dentro de um círculo.
– O que é isso? – perguntei não controlando minha curiosidade e Gabriel me olhou sorrindo.
– Uma piteira. Serve pra não deixar entupir ou a erva cair.
Quando ele colocou a tal piteira, começou a enrolar a seda com cuidado. Ao terminar de enrolar, lambeu uma parte que parecia ser a cola do papel e o fechou. Gabriel apertou bastante a parte de trás e então estava pronto o baseado. Em seguida, ele começou a fazer a mesma coisa com outra seda e o restante da erva, montando mais um beck. A erva não acabou, mas ele pareceu satisfeito apenas com dois baseados.
– Alguém tem um isqueiro aí? – perguntou Gabriel. – Perdi o meu.
– Você sempre perde seus isqueiros. – rebateu Gustavo jogando um para ele.
Gabriel colocou o beck na boca, o acendeu com o isqueiro de Gustavo e ele mesmo deu início a rodada de tragadas. Ao terminar de tragar ele passou o baseado para Bruno e se deitou no gramado. Foi só então que percebi que Bruno também estava deitado. Bruno tragou e passou para Carol que por fim, entregou para Gustavo. Mais uma novidade, Carol também fuma. Minha rodinha de amigos são maconheiros e eu não sabia. Ok, isso foi bem discriminatório. Desculpem.
– Fumar maconha é modinha agora? – pensei em voz alta e fiquei com medo de alguém se irritar comigo. – Sem ofensas.
– Sinceramente, acho que sim. – respondeu Gustavo ao terminar de tragar e passar o beck para Gabriel, me pulando. – E isso é meio que ridículo. Fume porque se quer ser mais recreativo, porque quer relaxar, porque curte o efeito ou porque simplesmente gosta de fumar. Fume até porque gosta de ficar retardado, como o Bruno. Mas não fume para impressionar alguém, porque isso te faz alguém bem fútil.
– Eu, por exemplo, só fumo pra ter alguma desculpa pra comer tudo que aparecer na minha frente, sem ser julgado. – brincou Gabriel.
– A larica é real mesmo?
– Mais que real. Depois de fumar você fica com muita fome. Muita mesmo. Como se estivesse há uns três dias sem comer. Você come exageradamente e tudo parece mais gostoso.
– Por que?
– Eu li numa pesquisa uma vez que a maconha causa em alguns receptores cerebrais, algo parecido com o que acontece quando pulamos uma refeição. – explicou Gustavo. – O THC, princípio ativo da maconha, ativa a área olfativa do cérebro. Você basicamente começa a achar o cheiro de toda comida mais gostosa, tipo quando acontece quando você ta com muita fome e sente o cheiro de alguma refeição. Além de que o gosto de tudo fica mais saboroso. Você simplesmente consegue sentir o cheiro e sabor das coisas melhor, então você come absurdamente.
– É tipo comer batata frita e ela estar ainda mais gostosa do que já é! – exemplificou Gabriel. – Você consegue imaginar que batata frita possa ter um gosto ainda melhor? É uma super batata frita!
– As vezes eu realmente acredito que você só fuma pra comer. – rebateu Carol.
– Não... – discordou Bruno. – Ele come fumando ou não fumando. A fome dele é normalmente a fome que alguém sente quando ta com larica. E quando ele fuma, tem larica ao quadrado.
– Larica ao quadrado. – repetiu Gabriel gargalhando. – Você é demais, Bruno.
– Quer experimentar? – perguntou Gustavo estendendo o baseado para mim.
– Não, ela não quer. – respondeu Gabriel por mim. – Agora passa o beck.
– Acho que quem decide sou eu. – rebati.
– Quem ta na responsabilidade de cuidar de você, sou eu.
– Minha mãe não mandou ninguém ficar de babá, porque aliás, ela nem sabe que eu to aqui. Então cuida de você, que eu cuido de mim.
– Quantas horas são? – indagou Gabriel.
– Não sei. – respondi com preguiça de pegar meu celular para olhar e com vontade de irritá-lo também.
– O efeito dura mais ou menos umas cinco horas, Isabelle. Preciso te levar pra casa antes do dia amanhecer.
– Ok...
– Se você vir me acusar depois de te levar pro mau caminho, eu juro que te mando tomar no cu. – afirmou Gabriel.
– Eu quero. – finalmente respondi ao Gustavo. – Mas não faço ideia de como se fuma maconha.
– Acende, puxa, prende, passa... – cantou Bruno e todo mundo gargalhou.
– É o seguinte... – disse Gabriel se sentando. Ele tomou o baseado da mão de Gustavo e me entregou. Eu o segurei como havia observado todos segurarem. – Se fuma igual fuma qualquer outra coisa. Mas existe uma grande diferença entre tragar de verdade e bancar o fumante. Tem gente que não sabe nem puxar a fumaça e se acha o fumante.
– E isso é mais comum do que se imagina. – afirmou Carol.
– Voltando... Você vai basicamente puxar a fumaça pra boca e inspirar ela, levando pro pulmão. Aí você segura quanto tempo achar que consegue e solta pela boca, nariz, tanto faz. Mas quando eu digo segurar, é no máximo uns três segundos, ta? Não vai tentar ficar a eternidade com a fumaça no pulmão não.
– Só isso?
– É, só isso. Parece fácil, mas existe grande possibilidade de você se engasgar e tossir. Então não sinta vergonha. A Carol teve um ataque de tosses na primeira vez que fumou. Achamos que ela ia morrer sem ar.
– Não precisamos lembrar disso... – disse Carol parecendo constrangida.
Levei o beck até a boca e fiz exatamente o que Gabriel mandou. Puxei a fumaça para a boca e a inspirei devagar. No momento em que fiz isso, senti uma leve ardência em minha garganta e então me veio vontade de tossir, mas consegui controlar. Depois de segurar a fumaça, a soltei pelo nariz e em questão de segundos, senti meu corpo relaxar.
Ao terminar todo o processo, olhei para o pessoal e estavam todos me encarando.
– Você nunca fez isso antes mesmo? – perguntou Bruno se levantando um pouco e apoiando o peso de seu corpo nos cotovelos.
– Não. – respondi sincera.
– Mas você não tossiu, nem nada... – observou Carol. – Você fez isso com a maior naturalidade do mundo.
– Eu posso não ter conseguido tragar, então.
– Você soltou a fumaça pelo nariz, Isabelle. É óbvio que você tragou. – afirmou Gabriel. – De que outro modo você acha que passaria a fumaça da sua boca pro nariz?
– Você acaba de humilhar a Carol. – disse Gustavo e ela deu um tapa em seu braço, enquanto todos ríamos.
Passei o beck para Gabriel e me deitei no chão, com a cabeça no centro da roda. Observei ele tragar e segurar a fumaça por muito mais tempo que eu, aproximadamente uns cinco segundos. Senti falta de ar por ele, mas Gabriel não pareceu nem um pouquinho incomodado. Assim que ele terminou e passou o beck para Bruno, se deitou ao meu lado.
Fiquei encarando o céu por um tempo até que a maconha chegasse em mim novamente. Foi quando percebi que estávamos todos deitados, formando um círculo com as cabeças encostadas. Ao tragar novamente, dessa vez não senti vontade de tossir. A sensação foi bem melhor que na primeira.
– Qual o efeito preferido de vocês? – perguntei passando o beck para Gabriel.
– Perda da definição de tempo e espaço. – respondeu Bruno. – Porque por exemplo, eu não faço ideia de quanto tempo tem que estamos aqui. Já tem muito tempo? Eu preciso voltar pra minha festa.
– Ah, deve ter uma meia hora, cara. – respondeu Gabriel e percebi que ele estava acendendo o outro beck que havia bolado.
– Eu gosto da sensação de euforia com uma mistura de relaxamento e como tudo fica tão na paz. Gosto de como eu fico mais sociável também. – disse Gustavo.
– Eu gosto de rir. – disse Carol e começou a rir em seguida. Não faço ideia do porque, mas aquilo me fez querer rir e eu comecei a rir. E ri muito. Eu também gosto de rir. Rir é bom. Todo mundo começou a rir e de repente comecei a sentir dormência na barriga.
– Por quanto tempo estamos rindo? – perguntei.
– Não sei. – respondeu Bruno – Mas minha barriga ta doendo.
E assim nós começamos a rir novamente, até que eu não desse mais conta de continuar. Ou melhor, assim que o baseado voltou para mim.
– Eu gosto do efeito na hora de fazer sexo. – contou Bruno. – Fica mais intenso.
– Ta me zoando, cara? – perguntou Gustavo. – Eu tenho que me esforçar muito pra não broxar! – ele confessou e nós gargalhamos. – É sério, gente. Eu fico muito aéreo, muito disperso. É tipo: “Que que eu to fazendo mesmo? Ah é, sexo”.
Eu gargalhei tanto, tanto, tanto, que me contorci no chão.
– Ele já broxou, Carol? – perguntou Gabriel. – Conta a verdade!
– Sim e foi frustrante. – respondeu Carol.
– Não acredito! – gritou Bruno em meio a gargalhadas.
– Não julga, Bruno. – interferiu Gabriel. – Não cheguei a broxar, mas já passei por muita situação parecida, de começar a brisar e esquecer da mina.
– Como alguém simplesmente esquece que ta transando? – perguntei. – Vocês são muito retardados.
– Também acho. – concordou Bruno.
– Mas, eu concordo com o Bruno. – disse Gabriel. – O efeito é massa na hora, porque as sensações, sensibilidade e sentidos ficam intensificados.
– Melhores orgasmos. – afirmou Bruno e repentinamente mudou de assunto. – Como será que a Isabelle vai ficar?
– Oi? – perguntou Carol parecendo perdida.
– Não muda de assunto assim, quando meu cérebro parece estar funcionando dez vezes mais lento. – reclamou Gustavo.
– Eu juro que to pensando a mesma coisa, Bruno. – disse Gabriel. – Ela é tão reflexiva, que eu acho que se ela se desligar do mundo, vai passar o resto da festa brisando.
E foi nesse momento, que eu me desliguei do mundo. Eu estava me sentindo tão relaxada, que a grama parecia ser uma nuvem ou o que eu imaginava ser a sensação de tocar uma nuvem. Poderia facilmente ser feita de ar também, como se eu estivesse flutuando. Mas parecia mais uma nuvem, com certeza uma nuvem. Porque eu podia tocar na nuvem. Quer dizer, na grama.
Ao me focar na música que estava tocando, ela ficou tão próxima, que era como se estivesse dentro da minha cabeça. Uma caixinha de música dentro do meu crânio. Fiquei viajando no som até que comecei a sentir minha boca seca e de repente comecei a sonhar com um copo gelado de coca-cola com vodka. Imediatamente me levantei e quase cai.
– Onde você ta indo? – ouvi Gabriel perguntar, mas não respondi, apenas sai andando.
Caminhei em direção a casa, atravessando a multidão do lado de fora, mas parecia que o lugar estava muito maior que antes. Eu andava e andava e andava, mas nunca chegava na porta.
– Isabelle? – alguém me chamou e avistei Leticia parada ao meu lado. – Por que você ta andando assim?
– Assim como?
– Levantando a perna muito mais que o necessário. – ela respondeu.
– Estou? – perguntei voltando a andar e percebi que estava. Comecei a imaginar que eu estava andando na lua, onde não tem gravidade e de repente, eu estava rindo e saltitando pelo quintal.
Quando consegui entrar na casa, as pessoas não gostaram muito que eu saltitasse e me esbarrasse nelas, então tive que parar. Mas mesmo assim, foi dificílimo caminhar dentro daqueles cômodos superlotados. Eu perdi as vezes de quantas vezes pedi desculpas por derrubar a bebida de alguém. Parecia que eu estava muito mais desastrada do que normalmente sou e sem equilíbrio nenhum.
– Onde você quer ir? – perguntou Leticia e percebi que ela estava me seguindo.
– Na cozinha. – respondi levando meus dedos até meus lábios. – To com sede. Muita sede. Minha boca ta seca.
Leticia me puxou pela mão até a cozinha e começou a procurar por algo. Ela pegou um copo e encheu ele de gelo que encontrou dentro de um freezer. Eu abri esse mesmo freezer e peguei uma garrafa de vodka e uma garrafa de coca-cola. Quando fui encher o copo, acabei derrubando vodka em cima do freezer. Minha coordenação motora também havia desaparecido.
– Você ta muito bêbada! – afirmou Leticia e eu comecei a rir. – Devo me preocupar?
– Deve se preocupar em por que você não está. – respondi.
Ao conseguir encher meu copo com álcool e refrigerante, o bebi de uma vez só. Parecia que eu virei um copo cheio somente de coca e foi muito bom. Como quando bebemos água depois de fazer exercícios debaixo do sol. Por isso mesmo, enchi o copo novamente e virei novamente.
– Isso ta muito bom! – disse para a Leticia. – Muito bom!
– Você ta ao menos sentindo o gosto da vodka? – ela perguntou pegando a garrafa e enchendo seu copo.
– Não sei. – respondi. – Mas quem se importa?
– Aceitam batida? – perguntou uma mulher vestida de garçonete. Tem garçons nesse lugar? Achei que qualquer um pegava a sua bebida e pronto. Mas é compreensível, levando em consideração que isso sempre vira bagunça. Deve ter mais bebida em algum outro lugar.
– Batida é um nome engraçado pra uma bebida. – comentei. – O que se passou na cabeça de alguém ao pensar “Hum, acabei de criar uma bebida que tem uma fruta, álcool e leite condensado... Vou chamar de batida”. Batida. Batida. Batida.
– Eu aceito. – disse Leticia sorrindo sem graça. A mulher colocou a bebida rosa em um copo e entregou para ela.
– Eu também quero, por favor. – pedi e ela me entregou outro copo.
Quando experimentei a bebida, ela estava tão maravilhosa, que passei um bom tempo degustando o sabor. Céus, isso é tão bom! Por que aprendemos a tomar coisas como tequila, se existem coisas como álcool e leite condensado juntos? Infelizmente a tal garçonete desapareceu, então me contentei em pegar uma garrafa de vodka e uma de suco e carregar comigo.
– Preciso levar isso pro Bruno. – menti. – Tinha me esquecido. Nos vemos por aí!
Sai andando e fui de volta para o lado de fora. Estava uma temperatura tão boa. Uma noite fresca, com um vento agradável. Comecei a dar uma volta pela casa, na intenção de voltar para onde o pessoal estava, quando avistei uma escada na parede, que dava acesso ao telhado. Aquilo provavelmente não seria uma boa ideia, mas olhei para os lados, tentando descobrir se alguém estava me observando e fui em direção à ela. Coloquei a vodka e o suco embaixo de um braço e com o outro comecei a subi-la. Ou tentar. Em um determinado momento quase escorreguei e minha respiração chegou a falhar. Senti um desespero instantâneo e travei.
– Respira, Isabelle. Respira. – disse a mim mesma na tentativa de me acalmar.
Eu voltei a subir, devagar e calmamente. Ao chegar no telhado, me joguei no mesmo, respirando aliviada. Muito bom não morrer aos dezessete anos caindo de uma escada, chapada, depois de fugir de casa. Muito bom mesmo. Quando me acalmei, engatinhei até a beirada do mesmo e me sentei. Dava para observar absolutamente tudo lá de cima.
Comecei a observar as pessoas enquanto bebia minha vodka e quando me cansei de ver as mesmas coisas – gente bebendo, dançando, conversando, beijando –, me deitei no telhado e comecei a observar o céu. Percebi que eu estava muito louca. Nesse momento peguei meu celular e liguei para Gabriel, na esperança de que ele atendesse. Não muito tempo depois, ele atendeu.
– Onde você ta? – perguntou de imediato.
– Te dou um prêmio, se acertar. – propus. – É um lugar alto, onde não tem mais ninguém e que dá para ver o céu perfeitamente, assim como tudo que está acontecendo na festa.
– Me diz que você não é tão maluca quanto eu estou achando que é.
– Eu não sou maluca.
– Você ta no telhado da casa, Isabelle? – ele perguntou com receio e eu sorri.
– Pode escolher o prêmio. – respondi e desliguei.
Voltei a beber enquanto fiquei perdida em meus próprios pensamentos. Não sei quanto tempo se passou, mas de repente ouvi um barulho e dei uma breve risada. Eu sabia que ele viria atrás de mim.
– Você não é maluca, você é completamente maluca. – disse Gabriel, vindo em minha direção. Ao chegar até mim, ele puxou minhas pernas, me obrigando a desdobrá-las e se colocou sobre mim. – Saiba que só vim buscar meu prêmio.
Ele me beijou e eu fiquei me perguntando se aquele prêmio era de fato para ele ou para mim. Eu comprovei o que ele havia dito mais cedo: as sensações, sensibilidade, sentidos, tudo fica mais intenso sob o efeito da maconha. Talvez por isso beijá-lo naquele momento foi a melhor coisa que eu fiz em dezessete anos de existência. Apesar de que sempre que o beijo, penso exatamente isso.
– Sabe no que eu estava pensando? – perguntei quando nos afastamos e ele se deitou ao meu lado. – Como nós podemos fazer nossa formatura?
– Como você gostaria que fosse? – ele remendou minha pergunta com outra.
– Não sei, queria que fosse diferente do habitual.
– Explique.
– Eu não queria que a colação de grau fosse junto com a festa, fica tão bagunçado. Queria que fosse igual as formaturas americanas, em que a colação é uma coisa mais familiar, feita em um dia e a festa é em outro dia, sendo um momento de comemoração apenas dos formandos. – expliquei. – Fala sério, ninguém se diverte em sua própria formatura, sabendo que sua família inteira ta lá meio que te vigiando.
– Eu acho que seria bem melhor, mas teríamos alguns probleminhas: os pais concordarem e ter bebidas alcoólicas na festa. Geralmente tem porque o colégio sabe que seus pais estarão lá pra te vigiar, mas sendo apenas nós, tenho certeza que proibiriam.
– Tudo bem, estou ficando expert em burlar o sistema mesmo. – brinquei – Minha vida anda uma loucura. Como se tivessem a virado de cabeça pra baixo.
– E isso é ruim?
– Muito pelo contrário. É como se eu tivesse me adaptado bem melhor a esse mundo de cabeça pra baixo. Como se...
– Tivesse acontecido com você o que você fez com Bárbara e Nicolas? Tivessem te apresentado a verdadeira vida? – deduziu Gabriel me interrompendo e praticamente tirando as palavras da minha boca.
– Irônico, né? – perguntei retoricamente e sorri. – A pessoa que me permitiu isso, ser justamente alguém que não dá a mínima pra vida.
– Por que você é tão implicada com isso? Você tem tanto medo assim da minha personalidade?
– Tenho medo de não saber até que ponto os momentos em que passo com você são verdade. – respondi sincera.
– Você acha o que? Que eu passo 24h por dia atuando? Que eu to aqui agora fingindo estar curtindo esse momento sem de fato estar? Não são assim que as coisas funcionam. Eu te confessei que não tenho expectativa de vida, mas isso não significa que eu não acabe mesmo que sem querer, vivendo. Eu não tenho a mínima vontade de planejar nossa formatura, como você estava fazendo, por exemplo. Mas eu estava aqui com você e estava acontecendo, não estava? Não estávamos planejando? Tudo que acontece é realidade, Isabelle. Só é uma realidade que acontece por acaso. Se eu não quisesse estar em cima de um telhado com uma garota lunática, eu não estaria. Simples assim.
– Adoro como você é sempre tão amoroso. – brinquei sorrindo para ele e o beijei. – Sabe o que eu queria? – perguntei interrompendo o beijo.
– Não, sabe o que eu queria? – ele disse me interrompendo. – Que você falasse menos e me beijasse mais.
– Vou te ignorar. – afirmei segurando a risada e prossegui. – Queria intensificar ainda mais essa minha nova personalidade, determinada a viver.
– Mais? – indagou Gabriel como se isso não fosse possível. – Como?
– Eu vou escrever uma lista de sonhos para realizar antes de morrer.
– E se você morrer antes de realizar algum?
– O objetivo é não deixar isso acontecer.
– E se você não conseguir?
– Por que você é tão pessimista? – perguntei.
– Eu sou realista. – rebateu Gabriel.
– Então deixo a você a honra de pegar essa lista e terminar de cumpri-la.
– E se não nos conhecermos mais? – indagou Gabriel cogitando a hipótese.
– A vida é imprevisível. – respondi sem querer pensar que essa hipótese pode se tornar realidade. Simplesmente me neguei a estragar minha noite pensando que a realidade pode sim ser cruel.
– Lista de sonhos para realizar antes de morrer, por Isabelle Nemitz. – disse Gabriel sorrindo, em seguida me olhou e aproximou nossos rostos. – Isso um dia será uma relíquia. – afirmou e me beijou. Dessa vez eu não o interromperia. O deixaria me beijar por quanto tempo ele quisesse. Pela noite inteira quem sabe.
***
– Isabelle, levanta, vamos para a casa de sua avó. – gritou mamãe e me esforçando para abrir os olhos, a encontrei parada na porta de meu quarto. Quando viu que eu havia acordado, ela se retirou, deixando a porta aberta.
Estava impossível me acostumar com a luminosidade, mas quando me dei conta de onde estava, me sentei na cama abruptamente e franzi a testa, completamente perdida.
– Como diabos eu vim parar aqui?
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