Poltrona 19
33 Surtos
Notas iniciais
Me levantei da cama em um sobressalto, completamente perdida, confusa e assustada. Olhei para o meu corpo e meu desespero aumentou ainda mais, ao notar que eu estava vestindo uma camisola e não as roupas de ontem. Andei até o banheiro e abri a torneira da pia, enchendo minha mão com água fria e jogando em meu rosto. Me olhei no espelho e forcei-me a tentar lembrar como cheguei ali, como isso tudo havia acontecido, mas eu simplesmente não conseguia.
Voltei para o quarto e avistei minhas roupas jogadas em um canto ao lado da cama. Corri até elas e as revistei, estavam cheirando a álcool e cigarros, mas fiquei feliz ao encontrar meu celular no bolso do meu short. A primeira coisa que vi nele foi uma mensagem de Gabriel, em que dizia “me liga assim que acordar”. Era exatamente o que eu pretendia fazer, mas quando comecei a discar seu número, minha mãe me chamou parada na porta. Levei tanto susto que dei um pulo.
– Não me assusta assim, caralho. – reclamei.
– Olha essa boca, Isabelle! – brigou mamãe. – Vai tomar banho logo, porque já são quase 11 horas e sua avó esta nos esperando para almoçar.
– Eu não quero ir.
– Tem muito tempo que você não visita seus avós.
– Eu vou outro dia, sem você. – rebati. – Não estou com paciência pra isso.
– Você é impossível, Isabelle.
– Eu tenho a quem puxar. – respondi entrando novamente no banheiro e fechando a porta.
Liguei o chuveiro apenas para que ela pensasse que eu havia ido tomar banho e fosse sem mim, o que funcionou. Alguns minutos depois consegui ouvir o barulho do carro saindo da garagem. Mesmo que quisesse muito tomar banho de verdade, fechei o chuveiro e me sentei na pia, discando o número de Gabriel. Precisava muito mais falar com ele. Tinham tantas perguntas na minha cabeça que eu nem sabia o que perguntar primeiro.
O celular não chamou nem três vezes até que ele atendesse.
– O que você ta fazendo acordada? – perguntou Gabriel do outro lado da linha. – Eu te deixei em casa não tem nem quatro horas.
– Então foi você que me trouxe pra casa?
– Quem mais teria sido?
– Não sei, mas estou aliviada. – respondi me encostando no espelho atrás de mim. – Porque digamos que eu não me lembro de nada do que aconteceu ontem a noite.
– Nada?
– Lembro, mas quando vou buscando as coisas na minha memória, a ultima coisa da qual me lembro é da gente no telhado. Não consigo me lembrar de nada depois disso.
– Então você não vai gostar de saber que o telhado foi só o começo da festa. – contou Gabriel.
– Me diz que você ta zoando, por favor...
– Não estou.
– Então me conta tudo, pelo amor dos deuses olimpianos. – implorei.
– Onde você ta? Tem como a gente encontrar? Aproveita que eu ainda não cheguei em casa.
– Como assim? Onde você ta, Gabriel? – perguntei.
– Depois que eu te deixei em casa, voltei pra chácara pra ajudar o pessoal com as coisas. Eu contratei gente pra limpar tudo, mas precisávamos pelo menos juntar as garrafas, arrumar os freezers e coisas assim. Tava chegando em casa agora.
– Você deve estar muito cansado. Vai dormir e depois a gente conversa.
– Se eu dormir agora, só acordo a noite. – avisou Gabriel. – Você ta em casa? Vou praí!
– Minha mãe me proibiu de te ver, lembra? Mas ela foi almoçar na minha vó. Meu medo é ela aparecer do nada.
– A gente conversa rápido e eu vou embora.
– Ta bom, vou te esperar.
– Até daqui a pouco.
Assim que desliguei a ligação, fui direto para debaixo do chuveiro e tomei o banho mais longo da minha vida. Tão longo que fiquei com peso na consciência. Me enrolei na toalha e passei a mão no espelho embaçado pelo vapor da água quente, para conseguir me enxergar. Meus olhos ainda estavam borrados de maquiagem, mesmo que eu tivesse os esfregado debaixo da água um zilhão de vezes. O que me fez ser obrigada a apelar para o removedor de maquiagem, guardado dentro do armário, que eu não usava fazia séculos.
Ao terminar de limpar o rosto e pentear os cabelos, abri a porta do banheiro e dei de cara com o Gabriel deitado na minha cama, com o controle da televisão em mãos.
– Se você demorasse mais um minuto, eu dormiria. – ele reclamou e me olhou, abrindo um sorriso malicioso ao ver que eu estava apenas enrolada em uma toalha.
– Como você entrou? – perguntei paralisada na porta.
– Como você acha que eu fui embora ontem? Hoje, sei lá... Tive que levar sua chave.
– Minha mãe nos viu? – perguntei caminhando até o guarda-roupa.
– Você não estaria viva se tivesse visto. – respondeu Gabriel enquanto eu pegava uma roupa íntima em uma das gavetas e depois um vestido, para voltar ao banheiro.
– Pode se vestir aqui... – gritou Gabriel quando eu estava prestes a fechar a porta. Apenas apontei o dedo do meio para ele, antes de fechá-la mesmo.
Me vesti rapidamente e voltei para o quarto. Me sentei na cama ao lado de Gabriel e o observei. Ele estava com as roupas sujas, o cabelo mais bagunçado que o normal e os olhos bem vermelhos.
– Você ta destruído.
– Você fica diferente sem maquiagem. – ele observou, ignorando totalmente o que eu havia dito.
– Muito ruim?
– Não, fica com o rosto mais angelical e menos desafiador.
– É... Por isso prefiro com a maquiagem.
– Preparada para ouvir a história? – ele perguntou sorrindo.
– Não mesmo.
***
– Ele quer tomar ecstasy. – contou Gustavo pelo telefone, se referindo ao Bruno. – E quanto mais eu discuto com ele, mais ele finge que não se importa. Eu vou socar a cara dele, Gabriel.
– Não, quem vai socar a cara dele sou eu. – respondi. – To indo praí, espera um pouco.
– Ta bom.
Desliguei o celular e olhei para o lado para falar com Isabelle, mas ela não estava lá. Me sentei de uma vez e a vi inclinada para frente, na beirada do telhado, rindo de algo.
– Tu ta maluca? – gritei. – Afasta da beirada desse telhado, porque você ta chapada.
– Vem ver o que eu to fazendo. – chamou Isabelle.
Aproximei-me dela e percebi que ela segurando uma caixa de suco em mãos. Sempre que alguém passava logo abaixo de nós, ela jogava um pouco do suco na cabeça da pessoa e se afastava para trás, rindo enquanto ouvia os xingamentos de quem foi acertado.
– O tal do bêbado vira filho do capiroto mesmo. – comentei e ela riu. – Da onde você tirou esse suco?
– Trouxe pra cá junto com uma vodka.
– E cadê a vodka?
– Bebi. – ela respondeu naturalmente, como se fosse algo completamente normal.
– Você bebeu uma garrafa de vodka inteira sozinha?
– Talvez. – respondeu Isabelle rindo ao acertar mais uma vítima. O que eu faço com essa garota, ein?
– Precisamos descer. – avisei. – Bruno esta dando trabalho.
– Eu não quero descer.
– Mas precisamos. – rebati e ela ia contestar, mas não deixei. A olhei sério e apontei para a direção da escada. Ela se arrastou até a mesma, me xingando baixinho. Sorri com a situação.
Achei melhor descer primeiro, para estar lá embaixo caso ela caísse, o que eu não duvidava muito.
– Você consegue descer? – perguntei assim que cheguei ao chão.
– Consigo.
– Tem certeza?
– Não, mas eu vou descer de alguma forma, nem que seja caindo. – respondeu Isabelle e eu sorri. – Só espera um minuto que preciso pegar uma coisa.
Uma das minhas coisas preferidas na Isabelle é justamente o seu senso de humor. O mundo seria um lugar melhor se as pessoas tivessem mais senso de humor, o politicamente correto não existisse e a liberdade de expressão de fato existisse. Eu vou rir eternamente de piadinhas inconvenientes, sem graças ou de humor negro e nem Deus pode me julgar. Porque sinceramente, rio de piadinhas com Deus também.
Meu celular começou a vibrar no meu bolso e o peguei. Bufei. Era Gustavo novamente, nem me dei ao trabalho de atender. Apenas o guardei e olhei para cima, Isabelle estava começando a descer de uma forma bem desajeitada.
– Isso é uma escada pro telhado? – perguntou alguém atrás de mim e mesmo no escuro, reconheci os traços de Bianca. Fala sério, ninguém merece.
– Não, é acesso a um tobogã que vai direto pro inferno. Passe livre pra você. – respondi sarcasticamente, sem um pingo de paciência.
– Alguém ta precisando transar.
– Bianca, some da minha frente.
– Tava fazendo o que num telhado com essa coisa? – ela perguntou olhando para cima, se referindo a Isabelle. Rezei internamente para Bianca evaporar antes que ela chegasse ao chão.
– Vou repetir. Some da minha frente.
– Você não gosta dela, eu sei disso. Sei que ela é apenas seu joguinho da vez. Só não entendo porque ela, você já pegou coisas melhores.
– Sabe o que é pior que mina corna, Bianca? É mina que não cansa de ser corna.
– Você finge que me odeia, só pra me afastar e me manter longe dos seus planos. Mas não se preocupe, eu não vou te atrapalhar em nada. Se quer saber, estou aguardando pacientemente na plateia pra ver o estrago que você vai fazer na vida dessa aí.
– Mano, vai ocupar tua boca com uma rola e desaparece antes que eu deixe a Isabelle acertar sua fuça de novo. – ordenei sem paciência nenhuma.
– O que tem eu? – perguntou Isabelle chegando ao chão e se virando para nós. Ela fechou a cara no exato momento em que seus olhos alcançaram Bianca.
– Mais tarde eu te procuro, amorzinho. A gente tem umas pendências pra resolver na cama. – disse Bianca antes de finalmente ir embora. E infelizmente, depois de ter conseguido me estressar ao extremo. Pena que seis frases dela não me irritaram um terço do que uma, irritou a Isabelle.
– Por favor me diz que você não vai começar uma discussão por causa dela. – implorei.
– Ela tava só me provocando, certo? – perguntou Isabelle respirando fundo, aparentemente tentando se acalmar.
– Certo.
– Então vamos só ignorar o que ela disse e irei ignorar também o fato dela ter sido convidada pra festa.
Ops. Acho melhor eu me lembrar de não comentar que quem convidou a galera fui eu.
– Que merda é isso na sua mão? – perguntei mudando de assunto pro meu próprio bem.
– Uma bola, encontrei lá em cima. Pode nos ser útil.
Ela já tinha tido todo o trabalho de descer carregando a bola, então deixei ela levar a mesma. Andamos até avistar o pessoal próximos a piscina e eu com toda minha paciência que já não existe, e que estava esgotada, parei na frente do Bruno e o segurei pela camiseta.
– Olha aqui, desgraçado. Tu tomou cerveja e fumou maconha, se tu enfiar um ecstasy na boca, eu juro que enfio um pau no teu cu antes de você morrer. – avisei e ele ficou serio, fazendo com que eu o soltasse.
– Eu só tava aloprando o Gustavo, relaxa. Não vou morrer do dia do meu aniversário.
– Eu sempre pensei como seria massa uma lápide com a data de nascimento e óbito igual. – comentou Isabelle.
– Não da ideia pra gente chapada. – pediu Gustavo.
– Falando em ideia, tive uma genial. – disse Isabelle. Eu gargalhei quando percebi que ninguém teve coragem de perguntar qual. A Isabelle bêbada só tem ideia maluca. Porém, nem precisamos perguntar.
Isabelle caminhou sorrindo até o Bruno, parou na frente dele, deu um tchauzinho e antes mesmo que tentássemos deduzir o que ela estava prestes a fazer, ela o empurrou pra frente e ele caiu na piscina.
– Vamos jogar bola dentro da piscina. – sugeriu Isabelle, tacando a bola na cabeça de Bruno assim que ele emergiu na água, xingando todos os palavrões que ele conhece. E olha que o Bruno conhece muito palavrão.
– Isso me lembrou a casa do Gustavo! – comentou Carol.
– Vamos tentar não quebrar garrafas hoje, fazendo favor. – recomendou Gustavo. – Porque aquele dia éramos poucos, hoje não teremos controle de quem pode cortar os pés ou não.
– Carol, guarda meu celular na sua bolsa, por favor? – pediu Isabelle entregando o celular para ela.
– Me deem as coisas de todos vocês, por precaução. – sugeriu Carol e eu achei melhor entregar mesmo. Eu quebraria a cara de um se meu celular ou minha carteira molhassem. Aliás, espero que o Bruno não esteja com suas coisas no bolso, ou vai ser a segunda vez em menos de um mês que ele manda o celular pro concerto.
Olhei para Isabelle e vi que ela estava tirando seu all star. Quando pensei em formular uma pergunta, ela os deixou juntos na beirada e se jogou na piscina.
– Filha duma mãe! – gritei com vontade de afogar ela dentro daquela maldita piscina. – Eu te mandei trazer biquíni pra que? Porque eu sabia que em algum momento da noite você ia ter essa ideia genial, mas não era pra ficar com a roupa molhada! Ô Capeta.
– Henrique, dá uma ajudinha aí, por favor. – gritou Isabelle e eu fui pego de surpresa sendo empurrado para a água. Até tentei puxar o desgraçado junto comigo, mas ele se desvencilhou. Sabe quando você tem vontade de gritar um belo “vai tomar no cu”? Com a boca cheia? Daquele jeito que parece que a sua alma sai junto com o palavrão? Foi exatamente o que eu fiz.
– Porra, mano! Vocês são insuportáveis! – resmunguei.
– Você que é! – rebateu Henrique.
– Pulem aí de tênis então, desgraçados.
Eu soube que precisava trocar de amigos quando eles pularam. Sinceramente, quase sempre eu não entendo a cabeça de um bêbado. Vamos nos jogar numa piscina? Vamos! Vamos nos jogar no esgoto? Vamos! Vamos nos jogar de um precipício? Vamos!
Não, amigos. Não vamos. Vamos usar o cérebro.
Acho que eu sou mesmo um saco. Só não saí da piscina estressado, porque iam me encher o saco pelo resto da noite e eu já estava molhado.
– Tenho uma ideia! – gritou Bruno. – Vamos jogar Queimada. Ou melhor, Strip Queimada. Quem for acertado, tira a roupa.
Eu não vi da onde veio a bola, só sei que ela acertou em cheio o Bruno. Duas boladas em questão de minutos e ainda esperam que o cérebro dele funcione. Ele resmungou de dor e então deduzi que foi Luiza, pelo que ela disse em seguida:
– É incrível como é sempre você o imbecil que sugere algo envolvendo tirarmos a roupa.
– É incrível como sempre que eu te peço isso a sós, você não reclama nem um pouquinho. – rebateu Bruno.
E começou a típica discussão.
O Bruno nunca perde a oportunidade de irritar a Luiza, mas ultimamente mesmo que ele não admita em voz alta, quem anda irritado é ele. Já faz tempo pra caralho que ele e a Luiza tem um rolo sem fim, tanto é que todo mundo sabe que a Luiza é apaixonada nele. Eles brigam e se xingam o tempo todo, mas no final da noite sempre acabam juntos. O Bruno já sai de casa sabendo que se nada der certo pra ele, pelo menos transará com a Luiza. Porém, faz semanas que ela resolveu não dar mais moral pra ele. Ele vai atrás dela e ela esnoba. Liga pra ela e ela não atende. Ele ta frustrado pra caralho, mas nega quando tocamos no assunto.
A última vez que eles ficaram foi no aniversário do Renan e mesmo assim, porque ele perturbou ela muito. Mas está nítido o quanto ela mudou e está nítido que isso afetou ele. Tenho até dó do Gustavo, porque é com ele que o Bruno “desabafa”. Desabafar no dicionário do Bruno é falar nada que tenha nexo, com um xingamento a cada três palavras. Mais ou menos assim:
“A vadia esculachada acha que tem a porra da permissão de evaporar e depois ressurgir das cinzas do inferno, pra me assombrar com aquele capeta de jeito irritante do caralho, achando que consegue me ter na mão, mostrando os peitos numa desgraça de decote”
Isso foi exatamente o que ele disse a ultima vez que viu a ex. Ele ficou bastante abalado, mas eu só conseguia rir. Deve ser por isso que é com o Gustavo que ele conversa e não comigo. Ou pelas minhas respostas a esses ataques. Como nessa vez, em que eu só disse:
“Os peitos dela são legais”
Pra deixar claro, não foi uma boa ideia. Ele teve outro ataque, onde dessa vez o esculachado foi eu. Então eis que novamente eu resolvi fazer comentários desnecessários, ele me mandou tomar no cu e saiu andando. Mas até que foi engraçada nossa discussão, me fez refletir e pensar que nunca mais direi que peitos são legais.
“Legais? Sério que depois de tudo que eu falei, você comenta que os peitos dela são legais? E legais? Quem se refere a peitos como legais? Pessoas são legais. Ou não. Mas você se refere a pessoas como legais, não peitos. Você não cumprimenta um peito, não discute sobre The Walking Dead com um peito, nem vira tequila com um peito. Então você não decide se um peito é legal ou não. Você decide se peitos são bons, bonitos, sexys...”
“Você já ouviu falar de body shots?”
“Vai tomar no cu, Gabriel.”
E ele foi embora, me deixando refletindo sobre body shot poder ou não ser considerado como virar tequila com um peito.
– No que você ta pensando? – perguntou Isabelle surgindo ao meu lado.
– Em peitos. – respondi.
Isabelle estava com a cabeça tombada para trás, brincando com os próprios cabelos na água, mas se endireitou para me olhar com a testa franzida. Eu comecei a rir e ela me acompanhou.
– As vezes não precisamos ser tão sinceros. – avisou Isabelle.
– Não, é que sabe quando você começa pensando em uma coisa e termina em outra?
– Tipo nas aulas de matemática? Em que você começa pensando na matéria e termina pensando qual a média de vida de uma formiga?
– Formigas são tão interessantes na aula de matemática, né?
– Ta, nós estamos falando de peitos, formigas ou matemática? – indagou Isabelle. – Eu to confusa.
– Estamos falando da Luiza e do Bruno. – respondi.
– Eu to muito confusa.
– É que eu tava pensando nisso e acabei lembrando de uma discussão minha com o Bruno sobre peitos, mas isso não vem ao caso. A questão é que, a Luiza decidiu que não quer mais o Bruno e ele ta surtando internamente. Desde que ela decidiu que não se importa mais, ele se importa por ele e por ela.
– Pisa que ele gruda, gruda que ele pisa.
– Oi? – indaguei. Dessa vez quem ficou confuso fui eu.
– Ela só ta jogando. E ta funcionando. O Bruno sempre teve ela quando quisesse, agora que ele viu que não, ela tem o controle do jogo e quem tem ele quando quiser, é ela. – explicou Isabelle e fez todo sentido. Desses joguinhos eu entendo bem, só nunca tinha imaginado que a Luiza conseguiria inverter as coisas. – Garota esperta, to orgulhosa!
– Eu também. – concordei.
– Vocês vão jogar ou não? – gritou Bruno para nós. Eu nem soube o que eles iam jogar, mas me juntei a eles mesmo assim.
Começamos jogando queimada – o jogo normal, nada de tirar a roupa –, mas quando percebemos que acertar alguém com uma bola, dentro de uma piscina, é basicamente acertar a pessoa apenas na cabeça, desistimos. Depois jogamos vôlei, mas aparentemente se um bêbado vê outros bêbados dentro de uma piscina, ele também se joga. E de repente tinha tanta gente dentro daquela porra, que desistimos de jogar qualquer coisa e saímos de lá.
A Isabelle pareceu ter decidido que beberia todo o álcool do mundo naquela noite e isso começou a me preocupar, já que ela ainda estava sob efeito da maconha. Mesmo enquanto estávamos jogando, quase toda hora que eu olhava para ela, ela estava com um copo na mão e assim que saiu da piscina, a vi sentada na grama com o Bruno, dividindo uma garrafa de vodka. Isso não vai dar muito certo e eu preciso entregar essa menina viva.
O pessoal formou uma rodinha sentados no gramado e me juntei a eles. Comecei a ouvir a conversa para descobrir sobre o que eles estavam falando.
– Então você tem diários? – perguntou Bruno à Isabelle.
– É tipo The Vampire Diaries? – remendou Carol.
– Tipo coisa de criança de sete anos? – Bruno tornou a perguntar. – Você escreve “Querido diário”?
– Não, Bruno. São apenas comentários sobre os meus dias. – respondeu Isabelle.
– E você conta seu dia todo?
– Também não. Faço comentários sobre coisas relevantes que aconteceram. Por exemplo, se hoje fui ao supermercado, assisti televisão, usei a internet e um meteoro caiu na Terra, eu não vou citar o supermercado, a televisão ou a internet, iria simplesmente escrever algo do tipo: “Hoje um meteoro caiu na Terra, eu sobrevivi, para a tristeza de Bianca. Não deu tempo de tirar uma foto para postar no instagram, mas tudo bem, porque eu nem sequer atualizo meu instagram. A vida segue.”
Nós gargalhamos, mas eu tive que interromper para fazer um comentário:
– Ta faltando uma coisa...
– O que? – perguntou Isabelle.
– A parte em que você faz toda uma reflexão sobre o meteoro, a vida e o mundo, e qualquer outra coisa que minha mente sozinha não seria capaz de pensar.
– Com certeza. – concordou Gustavo.
– Conte como você relataria um apocalipse zumbi. – pediu Bruno.
– Hoje eu acordei e me deparei com meus amigos agindo de uma forma diferente... – Isabelle começou a inventar e com uma frase eu já comecei a rir. Que merda, cara. Nós somos muito retardados. – Eles andavam de forma estranha, cambaleando, com olhos vermelhos e exclamando por fome. Imediatamente soube que estava num apocalipse zumbi. Então eu corri até o banheiro, me tranquei e me olhei no espelho. Foi nesse momento que percebi que eu também estava da mesma forma. Eu havia virado um zumbi? Não, só lembrei que precisamos parar de usar drogas.
– Você é sensacional! – afirmou Bruno rindo. – Mas e se fosse um apocalipse zumbi de verdade?
– Não aconteceria um apocalipse zumbi de verdade.
– E cairia um meteoro? – ele rebateu. Bruno não quietaria enquanto não conseguisse o que queria.
– Claro que sim! Meteoros são fenômenos naturais, apocalipses zumbis fenômenos sobrenaturais.
– São uma coisa natural em The Walking Dead.
– Bruno... – julgou Isabelle concluindo que de fato, ele não quietaria.
– Vai, quero um relato. – implorou Bruno.
– Hoje aconteceu um apocalipse zumbi... – Isabelle tornou a inventar. – Bruno foi o único que saiu ileso sem esforços. Confundiram ele com um deles, porque ele não tem cérebro. Aliás, Bruno é o novo líder dos zumbis, por isso estou viva. Mas em troca de minha vida, lhe devo favores sexuais.
Isso era tão a cara do Bruno, que até eu tive crise de riso.
– Não tem como liderar um exercito zumbi... – contestou Bruno. – Mas vou perdoar sua ingenuidade porque eu adorei a parte dos favores sexuais. Adorei muito.
– O relato é meu, se eu quiser, meus zumbis fazem sexo e fumam maconha. – rebateu Isabelle.
– Seriam os sonhos de Bruno se tornando realidade. – comentei.
– Meu sonho já é realidade, ele se chama Isabelle Nemitz.
– Você ficou tão sem opções assim depois que a Luiza desistiu de você?
E foi assim que a Isabelle começou a treta do ano. Todo mundo olhou do Bruno para a Luiza, da Luiza para o Bruno. Luiza permaneceu com a expressão indiferente, enquanto Bruno já estava com uma expressão de quem se sentiu verdadeiramente ofendido. Então o que se seguiu foi Bruno contestando, dizendo que ela sempre amou ele e sempre vai amar, e Luiza mandando ele abaixar a bola. Eles literalmente começaram a discutir o relacionamento deles, que nem existe, na frente de todo mundo.
Eu ri bastante, mas depois de um tempo, cansei de ouvir um tentando ser superior ao outro, sabendo que no final da noite, eles iam discutir é pra ver quem vai ficar por cima na cama. Mudei o assunto.
– Vocês estão tão incomodados quanto eu de estar com a roupa encharcada? – perguntei. – Eu to com TOC aqui. Serio.
– Na verdade ta me incomodando pra caralho, mas eu to com muita preguiça de ir me trocar. – confessou Carol.
– E eu to com preguiça de buscar minhas coisas no carro. – disse Isabelle. Minhas coisas também estavam no carro e eu também estava com preguiça. Mas meu TOC tava maior que a preguiça
– Vou lá buscar. – avisei me levantando.
Pedi minhas coisas para Carol e segui rumo a entrada da chácara, onde eu havia estacionado o carro. Quando estava me aproximando do mesmo, vi que tinha um casal se agarrando, encostados no capô.
– Opa, opa, opa! – gritei os assustando. – Vão desencostando do carro da minha mãe aí, arranjem outro lugar pra essa pegação.
– Foi mal, Gabriel. – desculpou-se o cara que não consegui reconhecer no escuro, mas que saiu puxando a garota, que parecia estar bastante constrangida.
Se alguém arranha, amassa ou faz qualquer coisa no carro de Patrícia Fornazier, não quero nem imaginar o barraco que ela aprontaria. Consigo até visualizar a cena dela arrombando a porta do meu quarto, pra me arrastar pela escada a baixo até chegar na garagem e me jogar dentro do carro, dizendo: “Você só volta pra essa casa com esse carro novinho em folha. E para isso, se vire com a sua mesada.”
Peguei minha mochila e a bolsa de Isabelle dentro do automóvel e voltei para a festa. O pessoal ainda estava sentados no gramado. Caminhei até eles e entreguei a bolsa para a Isabelle, nesse momento todo mundo se levantou para ir trocar de roupa. Até onde eu sei, como todos iriam dormir aqui, eles trouxeram suas mochilas e guardaram nos quartos, que estavam trancados. Eu e o Bruno entramos em um deles.
Devo dizer que mais insuportável que estar vestindo calça jeans e tênis molhado, é só tentar tirar a tal calça e o tênis. Parece que gruda no teu corpo e só sai com macumba. Tirei meu tênis e tinha um rio dentro dele. Taquei o tênis pela janela e o Bruno começou a berrar.
– Mas é playboy mesmo, né. Se tua mãe te da um tênis por dia, a minha não me dá não, viado.
– Tinha um rio dentro daquilo. Ia dar um chulé do capeta!
– Claro! Então vamos jogar ele fora! – disse Bruno com sarcasmo. – Você já ouviu falar em talco?
– Bruno, eu te dou um tênis de presente segunda. – disse na intenção de fazê-lo calar a boca.
– Promete? To precisando.
– Prometo. – respondi rindo.
Desabotoei minha calça e tentei tirá-la, mas falhei na missão. Isabelle bateu na porta e deixamos ela entrar, mas queria não ter deixado, porque ela abriu a porta no exato momento em que eu cai no chão. Ela e Bruno dispararam a rir, enquanto eu apenas me estirei no chão.
– Ta precisando de ajuda aí? – zombou Isabelle.
– Eu odeio jeans molhado.
Eu demorei tanto pra conseguir tirar a merda da calça, que desistiram de mim e voltaram pra festa. O que não foi uma boa ideia, já que depois de trocar de roupa, eu olhei pra cama e me joguei sobre ela. Meus olhos arderam de sono e a cama estava tão confortável, aliás, eu estava tão confortável dentro de roupas quentes. Tive que me levantar num impulso antes que pegasse no sono e fui direto pra cozinha atrás de bebida.
Abri um dos freezer e peguei uma garrafa de cerveja. Quando estava servindo um copo para mim, colocaram outro ao lado do meu. Olhei para cima e avistei Amanda, gostosa como sempre.
– O que você vai fazer sexta? – ela perguntou enquanto eu enchia seu copo.
– Não sei, por que?
– A galera vai pro pub, vamos? Vai rolar festa de algum curso da UFPR.
– É o evento que a galera tinha chamado a gente semana passada? – perguntei em duvida. – Achei que fosse no sábado.
– Não, sábado é festa da PUC.
– Ah é. – lembrei. – Vamos sim. Você vai com a Mariana ou quer que eu te busque?
– Ela se ofereceu pra me levar, mas vai sair da aula 22h, não to afim de ir tão tarde.
Mariana é uma amiga nossa que ta na faculdade. É ex-namorada do meu irmão. A garota cursa Direito e tem aula praticamente o dia todo, mas sempre arruma ânimo pra sair. Eu admiro ela por isso, porque já tenho vontade de morrer só de ter aula de manhã. Passar o dia todo em ambiente acadêmico não é uma ideia que me agrade muito.
– Eu te busco. Depois a gente combina direito.
– Ok! – respondeu Amanda e ficou mexendo nas próprias unhas, inquieta. Ela queria falar algo, mas parecia não saber como. Se a Amanda não sabe como dizer algo, significa que não é boa coisa. Pensei em fugir enquanto ainda havia tempo, mas pensei nisso tarde demais. – Gabe, eu preciso conversar com você.
Eu odeio que me chamem de Gabe.
– Anão, Amanda. Só pelo jeito que tu falou eu já sei que é assunto serio e parece que todo mundo quer discutir assuntos sérios comigo ultimamente. E adivinha, eu não quero ter conversas sérias no meio da festa do meu melhor amigo. Então a menos que eu tenha te engravidado e teu pai esteja nos obrigando a nos casar, o que não é o caso, essa conversa não rolará agora.
– Você sempre foge, é incrível. – reclamou Amanda.
– Esse é o meu dom. – me gabei. – Mas só uma duvida... Do que se trata?
– Da Isabelle.
Eu travei.
– Ela ta com câncer ou descobriu que vai morrer de alguma doença grave?
– Não, Gabriel! – respondeu Amanda num quase grito. – Credo, bate na boca. Não é isso. Quero falar sobre você e ela.
– Então de fato não tem porquê conversarmos agora. – disse me retirando da cozinha e a deixando para trás. Dessa vez eu não só fugi do assunto, como literalmente fugi dela.
Às vezes eu me esqueço de que a Amanda é muito mais esperta do que parece. Além de que muito desconfiada. Se ela se empenha em descobrir algo, ela sempre consegue. E se ela descobre o que está rolando entre mim e a Isabelle, eu juro que prefiro nem imaginar o que aconteceria comigo. Digamos que eu ainda não estou preparado para lidar com o escândalo que será. Ultimamente quase sempre quando não estou pensando que cometi a maior burrada da minha vida, estou pensando que tenho certeza.
Parei na sala onde havia uma quantidade de pessoas muito maior do que o cômodo suporta e em menos que um minuto, me derrubaram bebida e esbarraram em mim três vezes. Uma garota caminhou em minha direção parecendo disposta a conversar, mas eu não devia estar com uma expressão muito simpática, porque ela apenas sorriu e passou reto, como quem havia desistido. Reconheci ela, é uma garota do colégio com quem já fiquei, mas nem sequer sorri de volta.
Talvez eu não possa de fato reclamar dos meus pais, certo? Eles liberaram a chácara pra eu fazer a festa do Bruno, sabendo que centenas de adolescentes bêbados estariam ali e poderiam estragar qualquer coisa. Quer dizer, minha mãe autorizou, mesmo que para isso ela tenha dado um jeito de sumir com praticamente toda a mobília dos cômodos com mais acesso. Ela autorizou e eu sei que para isso ela teve de falar com meu pai. Isso não significa necessariamente que ele tenha concordado, mas de uma coisa eu sei, se ele tivesse dito que não, não estaríamos aqui agora.
Saí andando sem rumo, pensando que no final das contas, ele se importa um pouquinho comigo, certo? Não... Mais provável que ele se importe mais com o Bruno mesmo. “Por que não deixar que a festa do Bruno aconteça? Ele merece. Ele não usa meu dinheiro se entupindo com remédios porque tem problemas mentais; nem taca fogo no meu carro que matou minha própria filha, mas que por algum motivo desconhecido, eu mantenho intacto dentro da minha garagem; ou se mantém praticamente 24h por dia bêbado ou drogado”, deve ter pensado ele.
Eu não passo 24h do meu dia distorcendo meu cérebro com álcool e substancias ilícitas, mas ele acredita em mim tanto quanto acredita que alguém pode vencer na vida cursando Publicidade. E é exatamente por isso que escolhi tal curso. Porque ele é um idiota.
Dei um murro na primeira coisa que vi e foi uma porta. O cômodo era o único trancado e sinceramente, nem sei porque peguei as chaves penduradas na minha bermuda para abri-lo, mas sei que não deveria ter feito isso. Destranquei a porta e entrei, no lugar que parecia praticamente o mesmo do qual eu me lembrava.
A enorme estante de livros ocupando toda a parede paralela a uma parede com armários de madeiras que costumavam estar repleto de brinquedos. Alguns deles ainda estavam ali. Assim como a mesa de pebolim, desgastada pelas tardes em que eu e meus irmãos costumávamos passar desfiando uns aos outros. Os enormes pufes nos quais nos arremessávamos para jogar videogame ou assistir televisão, ocupavam o canto. E em frente a parede da Linha do Tempo, uma mesa que só foi parar ali, quando eu e Henrique não tínhamos mais interesse em colocar os pés dentro daquele lugar.
A Linha do Tempo.
– Quem será que cresceu mais? – perguntou minha mãe, trazendo em mãos a fita métrica. Alice vinha logo atrás segurando três vasilhas.
– Claro que fui eu! – afirmei, mesmo tendo que puxar um banco para conseguir abrir a porta do armário que guardava as tintas.
– Estamos percebendo. – debochou Henrique.
– Quais cores vocês querem? – perguntei pegando a tinta azul para mim.
– Laranja! – respondeu Alice. Torci o nariz em desaprovação, que tipo de pessoa gosta de laranja?
– Eu quero roxo. – anunciou Henrique.
Peguei as três cores e desci do banco, correndo na direção da minha mãe. Entreguei as tintas para ela e a assistimos jogar um pote dentro de cada vasilha que Alice havia trago.
– Quem vai ser o primeiro? – perguntou mamãe.
– O pirralho. – disse Alice apontando para mim.
– Eu não sou pirralho. – rebati caminhando até a parede e me encostando na mesma, com as costas coladas na superfície gelada. Mamãe pegou a fita métrica e colocou logo ao meu lado, usando o pincel que ela havia molhado na tinta azul, para demarcar meu tamanho. – E então? – perguntei curioso.
– 1,31. – respondeu mamãe. – Gabriel cresceu cinco centímetros! Incrível!
Molhei minhas mãos na vasilha com tinta azul e as fixei na parede, deixando a marca de minhas duas mãos, logo abaixo da nova marca com minha altura. Peguei o pincel com minha mãe e escrevi meu nome embaixo das marcas.
– Acho que você vai ganhar dessa vez. – sussurrou mamãe quando entreguei o pincel de volta para ela. Saí sorrindo, mesmo sabendo que ela sempre dizia coisas inspiradoras para todos nós.
Logo em seguida foi a vez de Alice.
– 1,36. – anunciou mamãe. – Alice esta quatro centímetros mais alta.
E por ultimo foi a vez de Henrique.
– 1,46. – disse mamãe sorrindo para mim. – Henrique também cresceu quatro centímetros.
– Eu não acredito que você cresceu mais que todos nós! – disse Alice frustrada. – Meninas crescem muito mais que os meninos na nossa idade. Mas isso é só porque você come igual um elefante!
– Eu deveria ter crescido mais. – reclamou Henrique. – Eu sou o mais velho.
– Bom, o presente é do Gabriel. – disse mamãe abrindo a gaveta do armário e tirando uma caixa de bombons de lá de dentro. Ela me entregou e meus olhos praticamente brilharam, porque eu juro que comeria tudo sozinho.
– Você vai dividir isso com a gente, Gabriel! Não vai? – perguntou Alice esperançosa.
– Não mesmo. – respondi já abrindo a caixa. Então a vi de relance molhar as mãos na tinta laranja novamente e começar a correr atrás de mim.
– Eu odeio laranja! – gritei enquanto corria, tentando escapar.
Era assim todos os anos. Minha mãe media nossas alturas, marcava na parede e depois deixávamos a marca de nossas mãos com nossa assinatura. Quem crescesse mais de um ano para o outro, ganhava um presente. As marcas ainda estavam ali na parede a minha frente, que minha mãe chamava de “Linha do Tempo”. Ela acabou em 2009.
Minha cabeça começou a latejar de dor e eu me afastei da parede, caminhando até o armário que não precisava mais de banco para alcançar. Apoiei minha cabeça no mesmo por poucos segundos e comecei a revirá-lo. Agora ao invés de tintas, ele guarda garrafas de bebidas. Entre as garrafas, encontrei uma de whisky. Não fazia ideia do quão forte aquilo seria, mas por ser do meu pai, com certeza não seria pouco. Peguei a garrafa e andei até a enorme mesa construída com alguma madeira importada envernizada. A rodeei arrastando a garrafa por sua superfície, até parar sentado na confortável poltrona posta em frente à mesma, que se reclinou para trás ao sentir meu peso. Coloquei os pés sobre a mesa e enchi meu copo pela metade com o líquido dourado, ingerindo-o em seguida em um único gole.
Fechei os olhos ao sentir minha garganta se queimando e assim que os abri novamente, meus olhos alcançaram um porta-retrato de mim e meus dois irmãos. A foto havia sido tirada em uma tarde, pouco antes de o Henrique quebrar um braço.
– Você já subiu o suficiente, Henrique. – alertou Alice. – Vai acabar caindo.
– Eu vou alcançar o Gabe.
– Você não consegue, babaca. – provoquei.
– Henrique, ele é muito mais maneiro que você. Os galhos lá de cima aguentam ele, não você. – insistiu Alice e mesmo assim, Henrique continuou a subir pela enorme árvore plantada no fundo da chácara de meus pais, tentando me alcançar no topo dela.
Um passo de cada vez, até que de repente, ele pisou em um galho fino que fez um ruído e se quebrou. Em meio a um grito, vi Henrique despencar da árvore direto para o chão, batendo em galhos que estavam pelo caminho. Aquilo com certeza doeu muito, tanto é que minha primeira reação foi me preocupar. Ele atingiu o chão, abraçou a própria cabeça e começou a gritar sem parar:
– O mundo ta acabando! O mundo ta acabando! O mundo ta acabando!
Mas vê-lo tão desesperado e assustado, aparentemente surpreso por ter caído repentinamente, me fez começar a gargalhar. Me senti menos mal quando ouvi o som da risada de Alice se misturando com a minha. Meu pai surgiu correndo e o ajudou, mas é claro que minha mãe apareceu logo atrás completamente desesperada e preocupada. Uma das cenas mais hilárias da minha vida foi vê-la correndo com uma barriga gigantesca, de oito meses de gravidez.
– Desçam daí, imediatamente! – ordenou mamãe gritando, olhando para mim e Alice que estávamos observando tudo de cima.
– Ta vendo, você estragou a brincadeira toda, seu pirralho. – culpou-me Alice, obedecendo mamãe.
– Quem veio atrás de mim foi ele. – disse dando de ombros.
– Quem provocou foi você.
– Quem foi burro foi ele.
– Será que ele quebrou alguma coisa? – ela perguntou começando a descer.
– Espero que no mínimo um braço. – brinquei e Alice me reprovou com o olhar, mas não aguentou e começou a rir.
– Você é o irmão mais maligno de todos, mas eu te amo.
Tão de repente quanto sempre acontece, senti minha cabeça girar e minha visão ficar turva. Tentei impedir que aquilo acontecesse, mas já era tarde demais. Levei minhas mãos até minha cabeça e a abracei, sabendo que não tinha mais controle do meu próprio corpo. Comecei a tremer, suar e senti um pânico me invadir de certa forma que fiquei apavorado, com medo de algo que não sabia o quê, mas me fazia querer fugir. Tentei me levantar, mas é claro que não consegui e de repente minha respiração começou a falhar. Tive a sensação de que a cadeira tombaria comigo e que eu cairia, mas não como se eu fosse cair no chão e sim de um precipício. Um som agudo invadiu minha cabeça e eu fechei meus olhos em desespero, pedindo por socorro para alguém que nunca viria.
Senti duas mãos me sacudirem e abri os olhos, demorando para conseguir de fato identificar a imagem de Carol na minha frente, mexendo a boca no que parecia ser a pronunciação de palavras que eu não conseguia identificar. Ela continuava a me sacudir e olhando nos meus olhos, não se cansava de repetir algo que meu cérebro não conseguia compreender, eu não conseguia ouvir. Tudo que eu conseguia perceber era o desespero nítido em sua expressão e aquilo me deixou ainda mais desesperado. Ela sabia que eu estava tendo um surto, eu soube que eu estava tendo um surto. Mais uma vez.
Quando minha vista começou a se embaçar novamente, avistei cabelos dourados e me foquei nos mesmos, tentando me manter consciente. Reconheci o rosto de Isabelle e diferente de Carol, ela não estava desesperada, ela estava calma. Por que diabos ela estava calma se logo atrás dela, consegui ver Carol chorando? Isabelle segurou meu rosto com uma mão, me forçando a olhar para ela e pegou a outra levando-a até seu peito. Eu não conseguia entender o que ela estava fazendo, mas ela começou a respirar fortemente e devagar. Com minha mão acompanhando o ritmo de seus pulmões. Eu me concentrei na sua respiração e percebi que pouco a pouco, a minha foi se acalmando, tentando acompanhá-la. Sua voz começou a se tornar audível e eu finalmente percebi que ela dizia algo, com a voz serena e tranquilizadora.
– Foca em mim, você consegue. – ela pedia insistentemente e eu me foquei. – Respira devagar, ta tudo bem.
Eu assenti mesmo que ainda zonzo, mas não desviei o olhar do dela.
– Ele assentiu, ele ta voltando. Não deixa ele dispersar. – ouvi alguém dizer, ao mesmo tempo que entregou um copo para Isabelle. Pude ver que era Gustavo, nos breves segundos que consegui olhar para ele, quando jogara algum comprimido dentro de um copo. Ele entregou o copo para Isabelle que puxou meu rosto de volta em sua direção e como quem cuidava de alguém totalmente incapaz de se cuidar sozinho, me ajudou a beber o líquido do copo. Eu estava tão confuso, que não conseguia entender porque eu estava fazendo aquilo.
Eu bebi e fechei os olhos, na tentativa de me sentir melhor. Mas Isabelle não deixou que os mantivesse fechados.
– Abre os olhos, Gabriel. – ela ordenou severamente. Forcei-me a abri-los e me foquei na primeira coisa que vi, a mão de Isabelle segurando a minha, tremendo talvez mais que eu. Ela não estava nada calma, só fingia estar, porque ela sabia que mostrar desespero na frente de alguém tomado pelo pânico, é basicamente o mesmo que intensificar esse pânico. Ela não deveria estar entendendo absolutamente nada e mesmo assim estava ali. Que merda, cara. Que merda. Eu preciso sumir da vida dessa garota.
Me levantei abruptamente sem de fato ter todos os meus sentidos de volta e foi por isso que quase cai, se não fosse por Gustavo que me ajudou a me equilibrar.
– Não foge, cara. – pediu Gustavo. – Não tem nada de errado com você.
– Ta tudo errado. Tudo errado.
Algumas pessoas conseguem lidar com as coisas, melhor que outras. Meu irmão mais velho costuma xingar até conseguir aceitar o problema. Minha irmã mais nova costuma ser bastante teimosa. Bruno costuma rir de sua própria desgraça. Carol simplesmente aceita. Gustavo procura tirar a melhor lição de tudo. Isabelle enfrenta o problema, face a face, até que haja um vencedor, que ela não aceita não ser ela. Eu, não lido.
Algumas pessoas possuem estruturas psicológicas para lidar com problemas, aparentemente não sou uma delas. Nem qualquer outro tipo de estrutura, se é que isso importa. Descobri isso no dia em que Alice morreu. Dizem que o luto possui diferentes fases, algo pré-ditado, mas se esqueceram de que pessoas reagem a acontecimentos de formas diferentes. Principalmente a dor. Eu pude aprender sobre isso da pior maneira possível, vivenciando a experiência.
Uma coisa é fato, não é fácil para ninguém perder alguém que se ama, mas pode ser mais difícil para uns que para outros. É por isso que alguns encontram uma forma de seguir em frente e seguem, enquanto outros, simplesmente não conseguem. Alguns, quase quatro anos depois, ainda mergulham em um buraco negro, quando são obrigados a relembrar. Alguns se agarram as memórias, como se elas fossem a maior dádiva da vida, outros fogem dela, como se fossem o maior pesadelo. Essa foi a forma que encontrei de continuar vivo. Literalmente.
Eu entrei em depressão assim que Alice se foi e a única forma de amenizar isso, foi apagando da minha cabeça as memórias que envolvam ela. Meu psiquiatra disse que isso era totalmente normal, mas eu estou bem longe de ser considerado alguém normal. Vivo constantemente com medo disso acontecer e porra, tinha tanto tempo que não acontecia. Aconteceu bem na frente de Isabelle.
– Tão errado que você guarda os remédios contigo, cara. – disse inconformado, com raiva de mim mesmo. Eu vi ele colocando o remédio no copo. O remédio que eu parei de tomar há um tempo. E ele guardou, como se soubesse que fosse acontecer de novo.
– Era por precaução, Gabriel. Tu é meu irmão! Eu me preocupo, cara! – disse Gustavo. – Não tem nada de errado contigo, mas se você acha que tem, eu não vou virar as costas pra você.
Eu assenti e Gustavo me deu um breve abraço. Olhei para ver quem mais estava ali e me senti um pouco aliviado por ser apenas Carol e Isabelle.
– Não contem pro Bruno, por favor. – pedi. – É a noite dele.
– Não vamos contar pra ninguém. – garantiu Carol encostada na mesa, com o rosto vermelho. Abri os braços para que ela viesse me abraçar e ela veio. Me abraçando tão forte que parecia ter medo de algum dia eu não voltar de algum desses surtos. Eu sou um merda mesmo.
– Não vai acontecer de novo. – sussurrei para ela. – Me desculpa.
– Tudo bem, Gabe.
– Você quer ir embora? – perguntou Gustavo quando me separei de Carol. – Eu posso te levar em casa. Não tem problema.
– Não, não. – respondi depressa. – Não se preocupem comigo, eu só preciso dar uma volta sozinho e respirar.
– Tudo bem. – concordou Gustavo.
Olhei de canto de olho para Isabelle e ela nem sequer olhava para mim. Estava quieta e calada. Percebi que vê-la muda, me assustava mais que as perguntas que ela comumente insiste em fazer e eu não posso responder. Mas sinceramente, não sabia o que fazer. Não queria contar mais coisas para ela, mas depois do que aconteceu, era o mínimo que eu tinha que fazer. Se não fosse por ela, eu provavelmente não estaria bem agora. Eu precisava pensar primeiro, depois decidiria o que fazer.
– Vocês podem trancar aqui, por favor? – pedi e Gustavo assentiu, então saí do cômodo sem olhar para mais nada. Não podia correr o risco de surtar de novo.
Caminhei para fora da casa, saindo pela porta da cozinha. Eu precisava de ar. Assim que atravessei a porta já me senti melhor. Fiquei simplesmente parado por um bom tempo, sentindo o vento gelado. Sem pensar em nada exatamente. Acho que eu não queria pensar, queria só desligar minha mente por algum tempo.
Quando estava prestes a sair dali, avistei pela janela da cozinha, Isabelle tomando um copo de água encostada na pia. Respirei fundo antes que me arrependesse e fui até a janela.
– Quer dar uma volta? – convidei. Ela negou, colocou o copo sobre a pia e se virou. – Por favor. – insisti.
– Pra que? – perguntou Isabelle finalmente me olhando. – Você não vai responder nada mesmo.
– Eu responderei. – prometi. Ela demorou um bom tempo, parecendo ponderar a possibilidade, mas se virou e saiu da cozinha, vindo em minha direção.
Nós andamos sem rumo por muito tempo, em silencio. Geralmente é ela quem faz as perguntas, mas dessa vez quem quebrou o silêncio fui eu.
– Como vocês me acharam?
– Você gritou. – ela respondeu com a voz baixa. – Uma garota ouviu e contou pra Carol. Nós estávamos pegando bebida na cozinha. Ela saiu correndo com o Gustavo logo atrás e eu os segui. Eles pareciam saber o que tava acontecendo, mas eu não fazia a mínima ideia. Ate que chegamos lá e encontramos você.
– Você ta com raiva? – perguntei sem entender porque ela estava tão quieta.
– Não, to assustada. – admitiu Isabelle. – Você estava prestes a desmaiar e a Carol e o Gustavo gritavam coisas um para o outro, enquanto a Carol tentava te ajudar em vão. Eles estavam tão desesperados que eu entrei em pânico! E foi nessa hora que eu percebi que ela provavelmente estava te deixando ainda mais apavorado.
– Aí você se intrometeu. – deduzi e mesmo no escuro, pude vê-la assentir.
Chegamos na cerca da entrada da chácara e eu me encostei nela. Isabelle ficou parada de frente para mim, na intenção de me observar, como ela sempre faz. Às vezes parece que ela me estuda e por um breve momento, eu fico realmente com medo de ela ler minha mente ou descobrir qualquer coisa, apenas porque eu pisquei de um jeito diferente.
– O que aconteceu? – perguntou Isabelle. – Digo, o que foi aquilo e por que aconteceu?
– Pra conseguir superar a morte da Alice, eu me forcei a esquecer as lembranças que a envolviam. Não foi bem esquecer, mas eu jamais me permito reviver qualquer uma dessas lembranças na minha cabeça. Porque quando sou forçado a fazer isso, minha mente simplesmente se força a apagar. E eu apago.
– Acontece sempre?
– Não, mas eu parei de tomar meus... – hesitei em falar, porque senti vergonha, mas eu prometi que iria responder. – Antidepressivos. Tinha muito tempo que não acontecia. É só que, eu também não entrava naquele lugar tinha anos. Nós costumávamos brincar muito lá.
– Eu vi aquelas pinturas na parede...
Então, eu contei toda a história da Linha do Tempo para ela.
– Sua mãe parece ser incrível. – concluiu Isabelle.
– Ela se dedicava muito a nós, hoje não é mais assim. Todo mundo procurou uma forma de seguir em frente, não posso julgá-la pela dela. Mas ainda a amo. Ela pelo menos ainda... é ela. Ao contrário do meu pai.
– Você esta totalmente desconfortável. – afirmou Isabelle. Sorri com isso. Ta vendo, sempre me estudando.
– Eu odeio falar do meu passado. É por isso que preciso confessar, que eu não entendo sua obsessão por se agarrar as memórias.
– As vezes elas são tudo que sobra.
– Eu acredito que o ser humano gosta de sentir dor. – contei. – Essa teoria deduz que somos seres naturalmente masoquistas, mas eu realmente acredito em tal coisa.
– E no que se baseia essa teoria?
– Você não gosta de ouvir músicas tristes quando já esta triste? Ler seus livros do John Green sabendo que vai chorar? Assistir filme de drama mesmo que seu gênero seja autoexplicativo? De ficar remoendo lembranças? E de até mesmo escrevê-las em seus diários justamente para isso? Você nunca pensou em como seria sua própria morte, como seria seu próprio velório e enterro? – indaguei. Ela ficou pensativa por um tempo, então balançou a cabeça e sorriu. – Se sua resposta foi sim para qualquer uma dessas perguntas e eu sei que foi para todas elas, minha teoria tem consistência o suficiente.
– Já imaginei inúmeras vezes como seria morrer... – confessou Isabelle. – E imaginei quem mais sofreria com isso. No final das contas percebi que seria eu.
– Por que?
– Porque eu sempre acabava chorando como se tivesse em luto por minha própria vida. Sério. Chorando loucamente, de soluçar. E isso tudo só imaginando algo.
– Também já imaginei tal coisa. – contei.
– E chegou a conclusão de que...
– Na primeira vez, que eu queria mesmo morrer. – admiti e ela me julgou com o olhar. Eu apenas sorri. – Na segunda, que minha morte poderia desencadear feridas em pessoas que eu não queria ferir.
– Quando você disse “que eu queria mesmo morrer”, você deixou implícito na frase que você não pensou em como seria morrer e sim em morrer. – concluiu Isabelle. – Me diga que eu estou errada.
– Por que faz tanta questão de ler as entrelinhas? – perguntei me virando para ela. Ela sorriu com minha pergunta e respondeu como se fosse óbvio.
– Porque são nas entrelinhas que se encontram o que não temos voz para dizer.
Eu me aproximei dela e a encostei na cerca, disposto a beijá-la, mas ela não deixou.
– Me promete uma coisa? – pediu colocando seu dedo indicador entre nossas bocas.
– Não. – respondi.
Eu posso ser um filho da puta assumido. Posso me achar um escroto em 99% do tempo. E posso não levar as coisas a sério, como por exemplo, as pessoas. Mas se tem uma coisa que levo muito a sério, são promessas. Eu jamais seria capaz de conviver comigo mesmo – o que já é difícil – sabendo que quebrei alguma.
– Me promete que um dia vou saber toda a verdade sobre você, mesmo que ela não me agrade.
Eu hesitei e pensei a respeito.
– Prometo. – respondi abaixando sua mão e finalmente a beijei.
Não sei quanto tempo ficamos ali nos beijando, mas foi muito tempo. Por fim estávamos apenas em silêncio, absortos em nossos próprios pensamentos e mesmo que estivesse acontecendo uma festa a alguns metros de nós, eu estava confortável em simplesmente ficar quieto ali.
– Minha vida anda tão diferente. – comentou Isabelle.
– Diferente como?
– Não me lembro quando foi a última vez que fiz algo com minha irmã ou minha melhor amiga.
Estar com a Isabelle sempre envolve sentir — principalmente — duas coisas: intensidade e remorso. Desde que nos conhecemos é como se ela tivesse se envolvido tanto em minha vida, que se distanciou da dela. Apesar de qualquer coisa que eu tenha planejado, isso não estava nos meus planos. Eu sempre soube que seria culpado de afastá-la de Leticia e de Amanda, mas afastá-la do que costumava ser sua vida, não. Acabou acontecendo sem querer, quando deixei que nosso envolvimento fosse maior do que o planejado. É aí que entra o remorso, porque nunca tive a intenção de transformar sua vida, foi apenas algo que fugiu do meu controle.
Minha história com Isabelle se transformou na maior bagunça que eu já me enfiei. Porque quando se lida com a Isabelle, não existe estabilidade. Ela é imprevisível. É como quando um escritor planeja um enredo, mas o escreve sem roteiros. Escrever de improviso acaba fazendo com que ocorra imprevistos. A história foge do foco em algum momento, coisas precisam ser acrescentadas, outras retiradas, coisas novas surgem e outras desaparecem. É algo que se torna impossível de ser controlado. E foi isso que aconteceu. Nós dois não foi algo que aconteceu por acaso, aconteceu porque eu quis, mas desde então eu nunca sei como vai ser o amanhã, porque Isabelle jamais permitiu que eu a controlasse. E nem faz ideia disso ou do quanto isso me enlouquece.
– Vai atrás dela agora. – sugeri. – Aposto que ela vai ficar feliz de passarem o resto da festa juntas.
– E você, vai fazer o que?
– Eu sobrevivo sem você, Isabelle.
– Tem certeza? Não é o que parecia lá dentro. – ela brincou e eu apenas a fuzilei com o olhar. – Tudo bem, mas vamos fazer um acordo. Eu vou me divertir com ela, mas você vai se divertir com o Bruno. É o aniversario dele, acho que ele quer sua companhia.
– Fechado. – concordei.
Isabelle foi se divertir com Leticia e eu resolvi de fato ir me divertir com o Bruno. Apesar do que aconteceu, a noite valeu a pena. Eu me diverti muito, zoei muito, bebi muito... Mas pelo visto, nem metade do quanto a Isabelle e Leticia beberam. Eu percebi que elas estavam exagerando, mas achei melhor não estragar o momento, porque elas pareciam empolgadas com a companhia uma da outra. Porém, o momento mágico e lindo com purpurinas, não acabou muito bem, já que Amanda levou Leticia praticamente carregada embora. E a Isabelle, bom...
– Eu posso comer mais um? – ela pediu se referindo ao cachorro-quente que Luiza fez para nós. Ela havia acabado de comer o quarto e queria mais um. Isabelle estava vivenciando a famosa larica, pós efeito da maconha e eu estava me divertindo com a situação.
– É melhor não, você ta muito bêbada, vai acabar vomitando.
– Não estou tão bêbada assim. – rebateu Isabelle se deitando sobre a mesa na qual estava sentada. – Mas eu acho que vou deitar aqui só um pouquinho e tirar um cochilo.
– Não mesmo! – gritei correndo em sua direção, mas era tarde demais, ela já havia se deitado. A puxei pelos braços obrigando que se sentasse novamente e ela nem se deu ao trabalho de colaborar, parecia mais uma boneca de pano sendo manuseada. – Nós vamos embora, porque você atingiu níveis de embriaguez jamais atingidos antes.
– Talvez. – ela concordou apoiando a cabeça em meu ombro. Na situação em que ela estava, dormiria em qualquer lugar que encostasse, então puxei seu rosto para trás e o segurei.
– Não durma! – ordenei.
– Você ta em condições de dirigir? – perguntou Carol.
– To sim! Só preciso que alguém venha abrir o carro pra mim, porque essa daqui terei que levar no colo. – expliquei. – E preciso que alguém pegue as coisas dela no quarto.
– Eu vou. – se voluntariou Gustavo.
– E eu pego as coisas. – avisou Carol.
Joguei as chaves para ele e peguei Isabelle no colo em seguida.
– Tchau, gente. – me despedi e quando achei que Isabelle já estava dormindo, ela levantou a mão e começou a dar tchau.
– Tchau, tchau. Beijinhos da Isa. Não bebam mais, não fumem, não transem. Amo vocês. – disse Isabelle enquanto saíamos da cozinha e o pessoal gargalhou, enquanto respondiam que também a amavam.
A carreguei até o carro e Gustavo o abriu para mim. Coloquei Isabelle deitada no banco do passageiro e o abaixei para que ela ficasse confortável. Estava fazendo frio, então peguei uma blusa de frio no banco de trás e joguei em cima dela. Foi o suficiente para que ela se aconchegasse e fechasse os olhos. Carol trouxe as coisas dela e eu me despedi dos dois. Assim que entrei no carro e o liguei, vi as horas no painel. 5h34. O dia estava prestes a amanhecer.
Isabelle dormiu o trajeto todo e eu desconfiei de que não conseguiria a acordar, quando chegamos em sua casa, mas eu precisava que ela acordasse. Felizmente quando a chamei, ela abriu os olhos. Com dificuldade, mas pelo menos os abriu.
– Nós chegamos na sua casa. – avisei, enquanto ela tentava manter os olhos abertos. – Preciso da sua ajuda pra conseguirmos entrar, pode ser?
Ela assentiu e se sentou no banco. Foi tudo muito difícil. Desde abrir o portão com cuidado, até caminhar pelo quintal rezando para que a mãe dela não nos visse. Mas principalmente, ajudá-la a pular a janela. Essa parte foi praticamente um desastre, mas nós conseguimos entrar. Eu coloquei suas coisas encostadas em sua cama, enquanto Isabelle imediatamente se jogou sobre a mesma, tentando tirar os sapatos. Me aproximei para ajudar quando percebi que ela não conseguiria.
– Foi mal por estar tão bêbada. – desculpou-se.
– Tudo bem.
Sua roupa estava cheirando a álcool e cigarro, então achei melhor ajudá-la a se trocar, vestindo-a com uma camisola que achei em seu guarda-roupa. Depois disso ela se deitou e eu a cobri, observando ela fechar os olhos para dormir. Imaginei que ela fosse dormir instantaneamente, mas quando me levantei para ir embora, ela disse algo.
– Me conte um segredo seu. – pediu Isabelle com os olhos abertos, olhando para mim como se suplicasse por uma resposta. Soube que teria de contar qualquer coisa, ou ela não quietaria. – Você sabe que eu não vou me lembrar disso amanhã, eu estou muito bêbada.
Era verdade. Mas e se ela lembrar?
Passei a mão pelos seus cabelos, aproximei meu rosto do seu e rocei meus lábios no dela, até que ela mesma me deu um selinho.
– Eu odeio estar fora do controle. – admiti com a voz baixa e o rosto ainda junto ao seu.
– Isso não vale. – contestou Isabelle. – Disso eu já sabia.
– Você não me deixou terminar... – expliquei e prossegui. – Eu odeio estar fora do controle do que está acontecendo entre a gente.
– E o que exatamente está fora do seu controle?
– Tudo. Mas principalmente a parte em que eu não deveria preferir estar aqui cuidando de você, do que ainda enchendo a cara com meus amigos.
– Você gosta de mim, Gabriel? – ela perguntou olhando nos meus olhos, como se procurasse por uma resposta neles e não no que eu diria. Mais uma vez eu não respondi a uma de suas perguntas, apenas a beijei.
Tenho me feito essa mesma pergunta por dias e dias. Você não acreditaria se soubesse que quebrei minha própria mão por isso. Não acreditaria se soubesse pelo menos metade do que não pode saber.
Fale com o autor