Poltrona 19

15 Isso é brigar, entendeu agora, piranha?


Notas iniciais
Oi pessoal! Eu estou tão feliz pela quantidade de leitores novos que tem aparecido, queria agradecer de coração pelo interesse em minha história e agradecer principalmente aqueles que comentam, me motivando a escrever mais. Tudo isso é realmente muito importante para mim. É com essa felicidade que escrevi mais um capítulo para vocês, dessa vez, bem tenso... Haha. Boa leitura!

Na segunda-feira, quando me deitei para dormir, conclui que sou muito mais nostálgica do que imaginava. Eu considerei aquele um dia feliz, simplesmente porque cheguei em casa e minha irmã estava lá. Então eu, minha mãe e ela almoçamos juntas, depois Natália passou o resto do dia comigo. Ficar feliz simplesmente porque almocei com minha família — ou quase toda minha família — e passei a tarde com minha irmã mais velha, como nos velhos tempos, é ser nostálgica até demais.

Minha mãe estava com o humor tão bom, que não faço ideia se foi pelo elogio que dei a ela ou porque naquele dia nos sentimos próximas novamente, ao contrário do que já vem acontecendo há algum tempo. Ela no seu canto e eu no meu. Então decidi que no dia seguinte tentaria manter esse elo e também seguir a diante com a minha determinação sobre ser uma boa aluna.

Acordei cedo, tomamos café-da-manhã juntas e eu fui pro colégio. Novamente cheguei a tempo de assistir ao primeiro horário e Gustavo até me elogiou por isso. Porém, se eu achava que aquele seria um dia calmo e tranquilo, eu estava muito enganada. Assisti alegremente ao horário de Literatura, suportei o horário de Matemática e quando chegou o primeiro intervalo estava com tanto sono que acabei dormindo. Só acordei no fim do terceiro horário, que era de Filosofia e sobrevivi ao horário de Física. Quando finalmente chegou o segundo intervalo, foi que a vida se lembrou de sua função comigo: me foder.

Eu havia combinado com Leticia de nos encontrarmos no pátio. Ela disse que estaria sentada com o pessoal e realmente estava. Os avistei conversando sentados ao redor de duas mesas que estavam juntadas. Quando já estava chegando até eles, senti alguém puxar meu braço abruptamente, fazendo com que eu me virasse para trás e visse quem não queria ver. A vadia fantasiada de patricinha, vulgo Bianca, que estava me olhando furiosa.

– Minha paciência chegou ao limite com você, idiota. – disse Bianca ainda segurando meu braço.

– Ficou louca, garota? – perguntei. – Dá pra me soltar ou eu vou ter que tirar essa patinha a força de mim?

– Não, não dá pra te soltar, vadia.

– A única vadia aqui é você. – afirmei, tirando sua mão do meu braço, extremamente irritada.

– Eu vim te dar um aviso. – disse Bianca me olhando séria. – Você pegou o Gabriel e como se não bastasse, eu descobri que ficou com o Arthur de novo. Eu vou avisar uma só vez: Fica longe dos dois.

Dei uma gargalhada alta e irônica.

– O que mesmo te interessa se eu fiquei com um ou com o outro? Você não é nada de nenhum deles.

– Não sou porque não quero, mas isso não significa que você possa roubar qualquer um deles de mim. – ela respondeu.

– Se enxerga, garota. O Gabriel te meteu o par de chifres do ano e o Arthur já se tocou da puta que você é. – rebati. – Infelizmente, só o Leandro que não se tocou que até puta de bordel ta valendo mais que ti, já que pelo menos elas cobram pra sair dando pra qualquer um.

Pelo jeito Bianca não gostou muito de ouvir a verdade, pois ela avançou em minha direção, puxou meu cabelo e acertou um tapa em meu rosto. Cheguei a ficar estupefata com sua atitude. Primeiro por Bianca ter tomado a péssima decisão de começar uma briga e depois, começar uma briga feito menininha. Eu sei, ela é uma menina, eu sou uma menina. Mas puta que pariu, se tu resolveu me agredir, então faça isso direito.

Assim que recuperei o raciocínio, fechei o punho e mirei a cara de Bianca. Não sei bem onde o soco acertou, mas ela deu um grito e me soltou para levar a mão ao rosto que começou a sangrar. Estava com tanta raiva que avancei em sua direção e a empurrei contra a parede da lanchonete, colocando minha mão em volta de seu pescoço, sem apertá-lo, queria apenas segurá-la.

– Tu ficou louca né, vagabunda? O que te faz pensar que eu te deixaria viva depois de me agredir? – gritei.

– Cala a boca, idiota. – ela gritou em resposta e na tentativa de se soltar, começou a me arranhar com suas unhas, o que me irritou mais ainda.

– Eu odeio garotas que acham que brigar envolve unhas e cabelo. – gritei. – Sabe o que é brigar? Eu te epxlico! Em brigas damos socos e chutes, entendeu?

Ela mais uma vez puxou meu cabelo e arranhou meu rosto, fazendo com que eu me desconcentrasse e usou toda sua força para me empurrar para trás, de modo que cai no chão. Bianca subiu em cima de mim e me acertou outro tapa na cara. A empurrei para o lado e sem repetir a ação de subir sobre ela, acertei um soco em seu rosto, que a distraiu e logo em seguida acertei outro soco, dessa vez em seu queixo. Percebi que ela ficou extremamente desconcertada.

Senti alguém me puxar para trás, me fazendo ficar de pé, mas estava furiosa demais para ver quem era.

– Isso é brigar, entendeu agora, piranha? – gritei. – Isso é a porra de um soco. E eu não precisei subir em cima de ti pra te acertar dois em cheio, entendeu? Porque eu não sou lésbica pra ficar de quatro em cima de outra mulher.

– Cala a boca, Isabelle. A porra da menina ta sem consciência. – ouvi Gabriel gritar na mesma altura que eu e olhei assustada para trás. Era ele quem estava me segurando.

Sua frase doeu mais que o soco que eu acertei nela, porque de repente, a realidade me chamou de volta e eu senti o pânico invadir meu corpo. Vi a quantidade de pessoas aglomeradas ao redor de nós, incluindo meus amigos que olhavam assustados para nós duas. Vi Arthur e Leandro agachados ao lado de Bianca, eles seguravam seu rosto e chamavam seu nome. Ela estava com os olhos abertos, mas não conseguia responder. Se ela desmaiasse, eu seria expulsa do colégio. Eu serei expulsa do colégio de qualquer jeito, eu já tinha tomado o último aviso. Eu acabei de ser expulsa da porra do colégio.

Agarrei com força o braço de Gabriel que ainda estava ao redor de mim, como se temesse que eu fosse acertar o soco que faltava para Bianca apagar de vez e me virei para ele com lágrimas nos olhos.

– Eu acabei de ser expulsa do colégio, Gabriel. – sussurrei em pânico. – Eu acabei de ser expulsa do colégio.

– Se acalma. – pediu Gabriel vendo o quão apavorada fiquei. Me acalmar? Eu estava mais que desesperada. Eu to fodida. Eu to muito mais fodida do que a porra da menina sem consciência no chão.

– Não deixa as pessoas me verem chorando, por favor. – pedi já chorando, porém, tentando limpar as lágrimas disfarçadamente.

– Ela respondeu, Isa. Ela recuperou a consciência. – ele disse com o tom de voz mais tranquilizador que podia.

Eu respirei aliviada por ela não ter desmaiado, respirei aliviada por Gabriel estar tentando me acalmar. Respirei aliviada por alguns segundos, até que ouvi a voz que não queria ouvir. A voz conhecida por cada indivíduo que compunha a aglomeração ao nosso redor e a voz que estava em um tom conhecido principalmente por mim. Um tom autoritário e severo, que a diretora Rosângela sabe usar perfeitamente.

– Saiam da frente. – ordenou a diretora e eu tremi. Ela estava se aproximando.

– Você já tinha ganhado o último aviso, Isabelle? – perguntou Gabriel, parecendo só então ter entendido a gravidade da situação, o motivo pelo qual eu afirmei que seria expulsa. Eu apenas assenti positivamente, incapaz de responder.

– Que desgraça! – ele xingou baixo, mas eu consegui ouvir.

– O que ta acontecendo aqui? – indagou a diretora Rosângela, sua voz estava alta, mostrando que ela estava próxima de nós. Mas eu não conseguia olhar para ela, ou para as pessoas ao nosso redor e muito menos para Bianca. Ao ver Bianca caída sobre o chão, com certeza ela já teria declarado mentalmente a minha expulsão. – Dá pra alguém dizer alguma coisa? – ordenou Rosângela, uma vez que ninguém teve coragem de responder a pergunta anterior.

– Isabelle e Bianca brigaram, diretora Rosângela. – disse uma voz que não reconheci, mas que aparentemente veio do meio da multidão.

Eu finalmente tomei coragem pra parar de encarar a camiseta de uniforme do Gabriel e olhar para o lado. Bianca estava sentada no chão, com a ajuda de Leandro. Quando olhei para a Diretora, ela estava intercalando um olhar furioso entre mim e Bianca.

– Eu quero as duas na minha sala, imediatamente. E o resto faça o favor de seguir para suas respectivas salas, não me façam mandar novamente. – ordenou Rosângela, logo em seguida se virando para se retirar, mas foi interrompida.

– Diretora, creio que Bianca não está em condições para isso. – disse Leandro. – Ela precisa de atendimento médico.

A diretora olhou novamente para Bianca e pareceu finalmente ter percebido que ela só estava sentada porque estava apoiada em Leandro. Agradeci por Bianca estar com o rosto virado para outra direção, uma vez que seu rosto estava com sangue.

– A levem imediatamente para a enfermaria. – Rosângela ordenou ao Leandro. – Nemitz, se encaminhe até minha sala já.

A multidão começou a se dispersar, uma vez que ninguém queria ouvir outra ordem da diretora. Algumas poucas pessoas se mantinham relutantes ali e percebi que todas elas eram ou meus amigos, ou amigos de Bianca. Quando meu olhar cruzou com o de Leticia, percebi que ela estava mais apavorada que eu, seu olho estava cheio de lágrimas e ela estava agarrada ao braço do Pedro. Ela sabia tanto quanto eu o que aconteceria a seguir.

Esperei receber algum tipo de apoio assim que a diretora se retirou, mas o silêncio se manteve enquanto Leandro colocou Bianca em seus braços e se levantou para levá-la à enfermaria do colégio. Não era culpa dos meus amigos não saberem o que dizer, não havia o que ser dito, então sem olhá-los mais uma vez, soltei o braço de Gabriel que só então percebi ainda estar segurando e comecei a andar rumo à diretoria.

Percebi que teria de passar por Gustavo, Carol e Bruno, que estavam próximos ao Gabriel e me surpreendi ao receber um abraço de Gustavo.

– Vai ficar tudo bem. – ele afirmou ao mesmo tempo em que percebi que Carol se uniu ao abraço junto com Bruno. Sorri permitindo que as lágrimas escorressem por meu rosto. Tudo bem, agora eu estava entre amigos.

– Não vai, depois Gabriel explica pra vocês. – respondi. – Mas obrigada por me apoiarem.

Eles desfizeram o abraço e sorri para eles. Então, ouvi a voz de Leticia.

– Estamos com você nessa, Isa. – disse Leticia. Olhei para trás e avistei rostos conhecidos há mais de anos.

– Nós estivemos com você em todos os outros avisos, algumas vezes até literalmente, já que também estávamos dentro da diretoria. – disse Pedro, me fazendo rir enquanto as lágrimas só aumentavam. – Estaremos agora e sempre.

– Tenta conversar e explicar o que aconteceu, somos testemunhas de que você não teve culpa. Talvez ela entenda e se não entender, enfrentaremos a mamãe Nemitz juntos. – disse Alexandre, também conseguindo me arrancar uma risada.

– Eu também to do seu lado, Isa. – disse Arthur, fazendo com que todos olhassem para ele. Assenti agradecida. – E me desculpe por isso. – completou.

– Acho que o que estamos tentando dizer enquanto a diretora deve estar furiosa porque você ta demorando, é que independente de tudo, estaremos ao seu lado, porque amamos você. – afirmou Vitor.

Estava parecendo tudo dramático demais, mas a verdade é que as chances de eu ser expulsa do colégio eram 99%. E se eu for expulsa, meus pais não me perdoarão por isso. Na verdade, não quero nem pensar em tudo que irá acontecer, então apenas me foquei nas palavras de apoio e me senti um pouco melhor.

– Nem pensem em abraço em conjunto... – disse antes que alguém tivesse essa ideia – E sem mais delonga. Preciso encarar a fera e explicá-la que esse colégio não sobrevive sem mim. – afirmei fazendo todos rirem e me virei.

– Eu amo você, Isa. – disse Amanda. A única que não havia dito algo. A única que permaneceu em silêncio durante todo aquele tempo. A única coisa que eu precisava para me sentir motivada o suficiente para realmente encarar a Diretora Rosângela.

Me virei para ela e sorri.

– Também te amo, Amandinha. – respondi.

Segui rumo à Diretoria caminhando calmamente, não estava com pressa para ouvir a bronca do ano, nem saber o que Rosângela determinaria sobre isso. Não queria ser expulsa no terceiro ano do Ensino Médio e ser separada de definitivamente todos os meus amigos. Literalmente não vê-los mais. Ser obrigada a me mudar para uma escola nova e não realizar um de meus maiores sonhos.

Não pude deixar de pensar em uma listinha guardada junto aos meus diários. Uma listinha de vários sonhos que quero realizar antes de morrer. Uma coisa boba que comecei a fazer quando tinha quinze anos. Ainda acrescento coisas nessa listinha e sempre risco as que já aconteceram. Ter uma formatura inesquecível, era um desses sonhos, mas sem os meus amigos, isso não será possível.

Perto da diretoria, ficam também a sala dos professores, da coordenadora, supervisora, pedagoga e todas as pessoas que eu mais odeio nesse colégio. Ali perto também fica a enfermaria, então tive de passar por Leandro que estava sentado em um banco na porta da mesma, com a cabeça baixa.

Ao me aproximar da diretoria, avistei o aquário que fica perto da porta com apenas um peixe. Antes eram três, mais dois morreram e sobrou apenas a Tênia, como eu, Leticia e Amanda a nomeamos no primeiro ano.

– Oi Tênia. – cumprimentei batendo o dedo no vidro do aquário quando passei pelo mesmo, e então, parei na porta da sala da diretoria.

A sala estava com a porta aberta e Rosângela estava sentada atrás de sua mesa, com as mãos cruzadas sobre a mesma. Ao me ver ela se levantou e então eu entrei na sala.

– Sente-se. – ela pediu indo em direção à porta, enquanto eu já me sentava. – O que está fazendo aqui, Gabriel? – a ouvi dizer e olhei para trás rapidamente, avistando Gabriel em pé próximo a porta.

– Vim com Isabelle. – ele respondeu.

– Creio eu que solicitei a presença apenas dela e não também a sua. – afirmou Rosângela.

– Creio eu que para apurar um acontecimento, a senhora precisa de testemunhas ou não estará sendo justa. Não queremos uma diretora que não é justa no comando do colégio. – rebateu Gabriel. – Portanto, estarei sentado bem aqui, quando precisar. – completou se sentando em um banco.

Rosângela não respondeu, apenas fechou a porta da sala e voltou a se sentar em seu lugar. Eu sabia que aquilo a teria deixado furiosa e que provavelmente complicou mais ainda minha situação, mas não conseguia controlar a vontade de sorrir. Gabriel é louco, completamente louco. Acabara de bater de frente com a diretora desse colégio por minha causa.

– Não me admiras que esteja envolvida em uma confusão, em menos de um mês de aula, senhorita Nemitz. – disse Rosângela interrompendo meus pensamentos. – Mas eu acreditava que você não quisesse ser expulsa.

– Não quero. – respondi.

– Eu deixei claro na última vez que esteve aqui, que aquele era o último aviso, Isabelle. Tanto é que foi por isso que te mudamos de sala, para te separar dos seus amigos e evitar possíveis confusões. Portanto, não é o que parece.

– Eu não tive culpa. – afirmei.

– Explique o que aconteceu. – ela ordenou.

Então, eu comecei a história do início, sem poupar detalhes. Literalmente. Nem mesmo os xingamentos foram deixados de lado. Expliquei que Bianca aparecera surtando, aparentemente porque descobrira que eu havia ficado com dois caras de quem ela gosta. Que me insultou e me agrediu, sendo então, ela a pessoa a começar a briga. E também expliquei como foi a briga.

Quando terminei de contar, Rosângela permaneceu em silêncio por alguns minutos, como se estivesse processando toda a história e finalmente disse algo, após soltar um longo suspiro.

– Bianca ter começado a briga não muda o fato de que você se envolveu em uma confusão, o que você não podia. Uma briga resulta no mínimo, em três dias de suspensão e você nem sequer tem direito a mais uma suspensão. Sem contar que você agrediu de forma bruta sua colega, que neste momento está na enfermaria. Os pais dela exigirão providências.

– Então conte a eles que a filha vagabunda não se contenta em dar pra um cara só, ela quer ter três e sai por ai xingando e agredindo os outros por isso. – disse exaltada.

– Olha o palavreado em minha sala, Isabelle, eu exijo respeito... – repreendeu Rosângela me interrompendo, mas a ignorei e continuei a falar.

– Conte pra eles quem foi que começou a discussão e a briga, vamos ver se eles acharão que ela é a vítima da história. Tenho certeza que se contentariam com uma suspensão para as duas e tudo estaria perfeitamente bem, afinal, minha atitude foi para me defender.

– Mas você não tem direito a mais uma suspensão. – repetiu Rosângela.

– E você não tem direito de me expulsar por uma coisa que eu não tive porra de culpa nenhuma. – respondi alterada e começando a chorar novamente, então olhei para o lado, como se aquilo fosse impedir que ela visse as lágrimas em meu rosto.

A diretora não disse mais nada, então resolvi também permanecer calada. Alguns minutos se passaram até que o silêncio foi interrompido pelo barulho de sua cadeira sendo empurrada para trás, de forma que ela pudesse se levantar. Ela se encaminhou até um filtro de água ao lado de sua mesa e encheu um copo.

– Aguarde aqui um momento. – pediu me entregando o copo que peguei com relutância. Logo em seguida, a diretora se retirou da sala.

Bebi a água calmamente enquanto tentava controlar o choro e depois coloquei o copo sobre a mesa. Então, passei a mão por meu rosto para secá-lo e percebi que havia sangue nele. Bufei em desaprovação, a vadia havia conseguido me machucar com as malditas unhas.

Se passaram longos minutos desde que a diretora se retirou, pensei em olhar se Gabriel ainda estava ali, mas ela havia fechado a porta, então o que me restava era aguardar ansiosamente. Quando a porta finalmente se abriu, automaticamente me endireitei na cadeira.

– Seu rosto está machucado... – disse Rosângela parando ao meu lado – Então pedirei para que vá até a enfermaria enquanto converso com duas testemunhas.

Assenti e me levantei da cadeira, foi quando vi Gabriel e Leandro parados próximos a porta. Eu sei que Gabriel me defenderia, mas não sabia o que esperar de Leandro. Somos amigos há bastante tempo, na verdade, melhores amigos. Mas eu havia acabado de dar uma surra em sua namorada, ou seja lá o que ela for dele. Uma surra que a fez parar imediatamente na enfermaria.

Ao passar por eles Gabriel sorriu para mim de forma tranquilizadora e então, Leandro também deu um meio sorriso. Não sei o que aquilo significava, mas eu me sentiria melhor se soubesse que ele não me odeia.

Os dois entraram na diretoria e eu me encaminhei até a enfermaria. Parei em frente a porta com vontade nenhuma de entrar. Bianca estaria ali e tinha medo de começar a socá-la novamente, quando a visse. E se isso não acontecesse quando a visse, aconteceria caso ela abrisse a boca para dizer qualquer coisa. Eu precisaria ter muita paciência e auto-controle.

Bati na porta e logo em seguida uma mulher morena a abriu. Ela estava usando um uniforme branco e deveria ter no máximo uns quarenta anos, em seu crachá estava escrito Regina.

– Isabelle Nemitz? – perguntou Regina sorrindo.

– Sim. – respondi.

– Entre. – ela pediu dando espaço para que eu entrasse. – A diretora avisou que você viria.

Ao entrar no cômodo que era pequeno, vi que o ambiente estava dividido ao meio por uma cortina. À esquerda, Bianca estava deitada sobre uma maca, então a mulher me guiou até uma outra maca à direita e pediu que eu me sentasse. Agradeci mentalmente a cortina que me impedia de ver Bianca e também por ela ter tomado a sábia decisão de se manter quieta e calada. Será que a cortina servia para evitar justamente esse tipo de situação?

Regina cuidou de meus machucados no rosto, que eram apenas alguns arranhões e depois me fez algumas perguntas, como por exemplo, se eu estava sentindo dor em alguma outra parte do corpo. Fomos interrompidas pela pedagoga que apareceu perguntando sobre Bianca, foi quando consegui as informações que queria. Regina disse que ela apenas sofreu uma perda momentânea de consciência ao levar o soco no queixo, que é a região mais perigosa de ser acertada, mas que seus machucados já haviam sido cuidados e ela estava bem, então a pedagoga pediu para que Bianca a acompasse até a sala da diretoria.

Um pouco depois de Bianca ter se retirado e Regina ter se certificado de que eu estava bem, pediu para que eu aguardasse um pouco que ela iria saber se poderia me liberar. Ela demorou bastante e se desculpou ao retornar, quando me explicou a situação.

– Isabelle, a diretora Rosângela está conversando com sua mãe e a mãe de Bianca nesse momento. – esclareceu. – Você pode ir e aguardar ao lado de fora da diretoria.

Não consegui esconder o pânico que tomou conta de mim. Meus olhos se arregalaram quando ela disse a palavra "mãe" e meu coração começou a bater tão rápido, que pensei que teria um infarto ali mesmo. Ainda bem que eu já estava em uma enfermaria.

– Mas pode permanecer aqui até se acalmar. – completou Regina com um sorriso cúmplice no rosto. Aquela mulher ganhou um espaço no meu coração. Ela tem de cuidar de adolescentes mimados que saem fazendo idiotices por ai e mesmo assim, é extremamente educada e gentil.

Confesso que levei alguns longos minutos para me acalmar. Minha mãe havia sido retirada de seu trabalho e estava conversando com a diretora nesse exato momento sobre minha possível expulsão. Eu consigo imaginar o quanto ela está com raiva de mim agora, mas de qualquer forma, terei de encarar a segunda fera.

– Obrigada por tudo. – agradeci à Regina me levantando da maca – E assim, nos filmes, as pessoas ganham pirulito. Não tem nenhum ai? – perguntei, fazendo com que ela desse uma breve risada.

Regina seguiu até um armário e retirou de lá de dentro um pote de pirulitos, então me entregou dois.

– Um pela simpatia e outro para desejar boa sorte – disse ela, ao me entregar os doces.

– Obrigada, precisarei. – agradeci guardando-os em meu bolso. Em seguida, me retirei da sala e segui rumo à minha morte. Quer dizer, morrer seria melhor do que o que minha mãe deve estar pretendendo fazer comigo.

Ao me aproximar novamente da diretoria, avistei três pessoas sentadas nos bancos ali fora. Consegui a atenção de duas delas, Leandro e Bianca que estavam sentados ao lado esquerdo. Ao lado direito, estava Gabriel, que pareceu não me notar já que estava com a cabeça encostada na parede e de olhos fechados.

Não pude deixar de observar o quanto Bianca estava destruída. Seu lábio estava inchado, o que comprovava que ele estava cortado e que provavelmente fora a causa do sangue que estava em seu uniforme. E ela estava pressionando uma bolsa de gelo contra seu queixo.

Me encaminhei até Gabriel e me sentei ao seu lado, que abriu os olhos em seguida e sorriu para mim.

– Você nunca esteve tão linda sabe, muito sexy esses arranhões. – zombou Gabriel, me fazendo soltar uma risada tensa. Eu estava tensa.

Quando o silêncio tomou conta do ambiente, olhei de relance para Leandro e Bianca que estavam nos observando.

– Tem muito tempo que elas estão lá? – perguntei ao Gabriel, referindo as nossas mães.

– Na verdade não, quando a enfermeira apareceu por aqui a diretora ainda estava conversando com Bianca. – Gabriel começou a explicar. – Ai primeiro apareceu sua mãe e eu conversei com ela. Depois apareceu a mãe de Bianca, então a diretora liberou Bianca que já deu de cara com a mãe dela aqui e que por acaso surtou ao ver a menina daquele jeito. Então a diretora pediu para que a enfermeira explicasse o estado de vocês para suas mães e as tranquilizasse, depois levou elas para a sala do decreto final e estão lá há menos que dez minutos.

– Perai... Você conversou com a minha mãe? – perguntei perplexa.

– Ela estava furiosa. – ele respondeu fazendo uma careta. – Mas eu tentei acalmar ela dizendo que você não tinha culpa de nada.

– Obrigada. – agradeci sorrindo, ou tentando sorrir.

– Ta com medo? – ele perguntou com a voz serena.

– Bastante – respondi –, mas acho que a verdade é que eu simplesmente não queria sair do colégio e me separar de todo mundo.

– Não, a verdade é que você não queria ficar longe de mim. – ele afirmou sorrindo enquanto colocava os pés sobre uma mesinha à nossa frente, com algumas revistas.

Não sorri. Não respondi. Nem sequer olhei para ele.

– Sabe, tenho certeza que Rosângela estava com dó de você. Nossa conversa foi tranquila, tirando a parte em que eu surtei. – ele disse indiferente.

– Como assim? – perguntei.

– Eu disse que se ela te expulsasse o colégio organizaria uma manifestação, faríamos um abaixo-assinado, mataríamos aula, queimaríamos a escola, assombraríamos a vida dela, coisas desse tipo. – respondeu Gabriel.

– To começando a achar que é você que não quer ficar longe de mim. – afirmei rindo.

Ele não sorriu. Não respondeu. E nem sequer olhou pra mim.

Eu queria ter tido tempo para raciocinar sobre a reação dele à minha afirmação, mas quase dei um pulo no banco ao ver a porta da sala da diretora ser aberta. Abaixei a cabeça no mesmo instante com medo de olhar para minha mãe, então Gabriel segurou minha mão, a apertou com força e depois a largou novamente. Eu entendi o recado, precisava ser forte.

Levantei o rosto e avistei minha mãe ao lado da diretora, com um olhar inexpressivo e com certeza, já sabendo qual seria meu futuro. Foi só então que senti o verdadeiro pânico, foi só então que tudo pareceu real. Foi então que senti o verdadeiro desespero, aquele que te faz sentir um nó na garganta, suar frio, tremer e sentir como se seu coração tivesse parado de bater.

Notas finais
Agora vem aquela perguntinha de sempre: E então, o que acharam? Será que Isabelle será expulsa ou não? Será que a mãe dela está furiosa ou não? Será que Leandro a odeia? O que será que acontecerá em seguida? Deixo aqui todas essas dúvidas para vocês! Haha. Dêem suas opiniões e nos vemos no próximo capítulo. Beijinhos!