Poltrona 19

20 Clichês de parque


Notas iniciais
Oi pessoal! Como está sendo de carnaval? Estão curtindo bastante ou odeiam essa merda toda e querem que todo mundo vá se foder? Hahahaha Eu adoro o fato de ter sido liberada das aulas por alguns dias! Bom, eu sei que extrapolei os limites da paciência de vocês, como disse para uma leitora que me mandou mensagem perguntando do capítulo. Sei que dessa vez demorou muito mais do que o aceitável. Então só me resta pedir desculpa. Desculpa, pessoal. Não me abandonem, por favor. Eu amo vocês (sério). E PRECISO SURTAR, FAZER UM ESCÂNDALO, DIVIDIR COM VOCÊS A EMOÇÃO QUE ESTOU SENTINDO, ENQUANTO LÁGRIMAS DE FELICIDADE ESCORREM PELO MEU ROSTO. OBRIGADA, KATHERINE PETROVA CIPRIANO, POR TER FEITO A PRIMEIRA RECOMENDAÇÃO DA HISTÓRIA! Eu não tenho palavras para explicar o quanto me deixou feliz e o quanto estou grata por isso. Você com certeza melhorou meu dia, minha semana, meu mês, meu ano e minha vida! Hahaha. Obrigada por ser uma leitora tão fiel desde o começo da história e por todas as palavras ditas na recomendação, eu sei que pode parecer bobo, mas foi realmente muito importante para mim. Dedico esse capítulo totalmente à você s2 Espero sinceramente que todos gostem do capítulo e quero dizer que a história vai começar a tomar seu verdadeiro rumo exatamente a partir dele. Mesmo que não dê para perceber isso e nem qual é este rumo. Boa leitura a todos!

Se no domingo anterior eu tinha passado mal, nesse eu já estava imaginando qual seriam minhas últimas palavras. A sorte foi que na noite de sábado, antes de dormir, fui inteligente o suficiente para pegar uma garrafa de hidrotônico e uma barra de chocolate, que havia comprado no meio de semana, e guardei no meu quarto. Quando eu acordei tomei mil remédios junto com o hidrotônico. Remédio pra dor de cabeça, pra dor de estômago, pra dor no corpo, remédio pra tudo. Como eu não tive uma overdose, eu não sei. Depois comi o chocolate pra minha glicose subir. Mas se isso resolveu alguma coisa? Talvez me impediu de morrer, mas me senti bem perto disso. Passei o domingo todo trancada no quarto dizendo “eu nunca mais vou beber”. A tal da ressaca nos faz dizer coisas absurdas.

Nessa de ficar trancada no meu quarto, passei por duas situações: ou eu dormia, ou eu ficava acordada sofrendo pela ressaca. Mas quem me dera fosse apenas a ressaca normal, porque eu estou me referindo a ressaca moral mesmo. Quando me lembrei de tudo que eu fiz, rezei para que tivesse sido apenas um sonho maluco... Mas não foi. Eu estava usando uma camiseta vermelha escrita “Bazinga”.

Conseguia ouvir minha ressaca gritando “bazinga!”.

Eu gastei sessenta reais em bebida, porque procurei por dinheiro em meu bolso e não encontrei. Sem contar todas as bebidas que ganhei. Dancei e cantei na frente de um pub inteiro, aliás, eu beijei um cara na frente de um pub inteiro. Eu também beijei o Bruno e fui alvo de discussão dele com os meninos, mas eu nem sequer me lembrava do que aconteceu direito. Só tinha consciência de que houve uma briga. E me lembro de que minha noite encerrou com dois acontecimentos: Gabriel fuma. Gabriel me odeia.

Quando me levantei da cama na segunda-feira, estava fazendo tanto frio que me mantive enrolada no edredom até escolher uma roupa. Coloquei uma de minhas típicas calças pretas, a camiseta de uniforme, um casaco branco e um cachecol azul. Eu adoro usar cachecol. Calcei meu vans azul e quando fui escovar os dentes, ouvi o barulho do carro de minha mãe saindo da garagem. É, tudo voltou ao normal na minha vida.

Nesses dias absurdamente frios, escovar os dentes ou mexer com qualquer coisa que envolva água é terrível. Parece que seus dedos vão congelar e ao fazer qualquer movimento brusco, quebrar. É por isso que após terminar de me arrumar, coloquei minhas maravilhosas luvinhas e meu maravilhoso gorrinho. Ah, como eu amo o frio.

Ao sair de casa, percebi que não estava somente fazendo muito frio, estava ventando muito. Só não reclamei de não ter pegado carona com minha mãe, porque não queria chegar ao meu destino em hipótese alguma. Eu preciso parar de me transformar no centro das atenções. A última vez que pisei no colégio, eu soquei a cara de uma menina até ela quase perder a consciência e agora estava retornando, após um fim de semana bancando a gostosona rock star. Meu Deus, por que eu faço esse tipo de coisa? Já devo estar me tornando uma web celebridade com tanto vídeo postado no youtube. Aliás, no domingo nem tive coragem de abrir minhas redes sociais e ignorei qualquer notificação que chegasse em meu celular.

Quando cheguei ao colégio, atrasada como sempre e me sentei no pátio, notei vários olhares direcionados a mim e bufei de raiva, mas sinceramente preferia ser o foco de todos aqueles olhares do que subir para a sala. Mais do que nunca eu não queria ter de encarar o Gabriel. Mesmo que tudo que eu houvesse dito para ele fosse verdade e exatamente o que eu penso, eu não deveria ter dito daquela forma, nem naquele momento. Eu precisava engolir o orgulho e pedir desculpas.

Ao entrar na sala, absolutamente todo mundo me olhou, discretamente ou não. Fingi não ligar, mas ao avistar Bruno, fiquei automaticamente constrangida. De primeira não entendi o que estava acontecendo, mas depois minha consciência fez o favor de me lembrar que fui eu quem beijei ele. Me direcionei até meu lugar, fazendo o possível para nem sequer olhar para o rumo de Gabriel.

Durante todo o horário de Química, me mantive focada na aula e no professor, que passou um trabalho para entregarmos na próxima aula, que já seria quarta. Quando faltavam alguns minutos para o intervalo, deitei a cabeça na mesa e fingi estar dormindo, para não ter de conversar com ninguém e também não descer para o pátio. Ao não ouvir mais barulhos, o que supostamente significava que todos já haviam saído da sala, levantei a cabeça e juro, literalmente, pulei de susto ao ver Gabriel me encarando, sentado na cadeira à minha frente.

– Previsível – afirmou Gabriel.

– O que? – perguntei, mas ele não respondeu. Apenas se levantou e caminhou até a porta da sala, onde parou e me lançou um olhar.

– Vai ficar ai? – perguntou e então, saiu da sala. Tive vontade de responder que a intenção era essa, mas nem tive tempo. Esse garoto é louco. Definitivamente muito louco. Mas mesmo assim me levantei e sai correndo até o corredor. Gabriel estava quase chegando às escadas, quando o alcancei.

– Você poderia aprender a responder minhas perguntas. – reclamei.

– Tu deita a cabeça na mesa minutos antes do intervalo, após uma série de acontecimentos que tenho certeza, te deixam constrangida. Você só estava fugindo de todos os seus problemas. Muito previsível. – respondeu Gabriel, que me deixou muda. Eu sou mesmo a pessoa mais previsível do planeta. – Sendo que o único problema nisso tudo é você enxergar essas coisas como problemas.

– Mas Gabriel...

– Mano, você faz alguma ideia do quanto é popular? – ele perguntou me interrompendo.

– Eu? Popular? – perguntei irônica e comecei a rir, enquanto ele continuava andando pelo pátio. – Você ficou louco? Popular é a Amanda.

– Você é mais popular que a Amanda, a diferença é que ela é esperta. – ele respondeu parando no lugar e me olhando sério. Ele está mesmo falando sério?

– Nunca. – rebati.

– Eu já sabia quem você era antes de nos conhecermos porque você mudou de sala. Eu queria ficar com você, quando fiquei com Leticia. Mas mudei de ideia quando percebi que tu era dor de cabeça. – contou Gabriel.

– Que? — perguntei incrédula e chocada.

– Já falei demais, Isabelle. O fato é que você é conhecida, só não é sociável. Eu te garanto que esse colégio inteiro sabe quem você é. A Amanda é esperta porque ela se aproveita disso, o que você precisa aprender a fazer.

– Para com esse papo maluco. Eu não sei nem porque estamos conversando. – disse me lembrando de nossa briga e que supostamente ele deveria estar com raiva de mim.

– Você é extremamente bonita. Seus amigos e conhecidos só falam bem de você, o que te torna aquele tipo de pessoa pra quem a galera olha e pensa “eu queria ser amiga daquela garota”. Você age como age por se sentir inferior, mas na realidade isso passa pras pessoas um ar de superioridade, um ar de “não perco meu tempo com qualquer um, por isso não me incomode” e é apenas por isso que ninguém realmente te incomoda. Você humilhou a Bianca, ganhando o respeito da metade da galera desse lugar e aumentando o seu ar de superioridade. Você dançou no palco de um pub famoso da cidade e ganhou uma competição, se tornando assunto de uma galera que nem é do colégio e olha que a única coisa que se ouve falar é “ela é foda”. Você só fica com caras considerados os cobiçadinhos do colégio. Você ficou comigo, Isabelle. E nós estamos conversando no meio do pátio, onde 60% das pessoas estão nos observando e comentando ou sobre você, ou sobre mim, ou sobre nós dois.

Quando ele terminou de falar, eu olhei para os lados e certifiquei de que era verdade que estávamos sendo observados. Assim como também era verdade todo o resto, mas tentei assimilar cada uma das coisas que ele havia dito e não estava conseguindo.

– É informação demais pra minha cabeça. – confessei. – Isso é muito estranho, não dá pra digerir.

– Vamos fazer um teste pra você acreditar de vez em mim. – sugeriu.

Ele me guiou até o caixa da lanchonete, que estava com uma fila enorme e me deu as instruções:

– Eu vou cumprimentar uma garota qualquer e você também, como se fossem amigas.

– Como assim? – indaguei confusa. – Eu nem vou saber quem é ela.

– Diz essas coisas que garotas dizem, tipo “oi, linda” ou “oi, fofa” e ai, se ela souber seu nome, você vai pedir pra ela comprar seu lanche.

– O que?

– Sorriso no rosto. – ele ordenou ignorando minha pergunta e se aproximando da próxima garota da fila que iria comprar. – E ai, tudo bem? – disse à garota e assim que terminou de falar, me deu um cutucão disfarçadamente, já prevendo que eu não faria minha parte.

– Oi, linda. – disse sorrindo. Espero que tenha saído um sorriso de verdade e não uma careta.

– Oi Gabriel, Oi Isabelle. – respondeu a garota e Gabriel sorriu satisfeito. – Tudo sim e com vocês?

– Também. – Gabriel respondeu por nós, porque eu estava em choque. Eu nunca vi aquela criatura na minha vida. Sério. Nem de passagem pelos corredores ou qualquer coisa do tipo. Gabriel teve de me cutucar de novo para me trazer de volta à realidade.

– Eu to com um pouco de pressa, você poderia comprar nossas fichas? – pedi.

– Claro! – ela respondeu educadamente. – O que vocês querem?

– Um bolo e um suco. – disse entregando meu dinheiro para ela. Gabriel também pediu um bolo, mas trocou o suco por uma coca-cola.

Eu realmente fiquei muito perplexa por ela saber quem eu sou e por estar nos fazendo um favor quando estávamos nitidamente sendo folgados. Mas foi quando ela nos entregou as fichas, que fiquei ainda mais perplexa.

– Isa, você estava demais no pub sábado! – elogiou a garota.

– Obrigada. – respondi completamente sem graça.

– Você estava por lá? – perguntou Gabriel.

– Sim.

– Dá próxima nos cumprimente. – disse Gabriel sorrindo gentil e a garota concordou. Quem não concordaria? Nós nos despedimos da garota e nos retiramos. – É assim que se faz. – disse Gabriel.

– Eu estou chocada. – foi tudo que consegui dizer.

– Então vamos comprovar que não foi apenas sorte. Até porque eu to com fome. Apenas faça a mesma coisa – ordenou Gabriel me guiando dessa vez até a lanchonete.

Nós fizemos a mesma coisa. Ele cumprimentou uma garota qualquer, ela conhecia nós dois e aceitou numa boa pegar os nossos lanches. Não foi apenas sorte e eu estava completamente chocada. Quando ela nos entregou tudo, sentamos em um banco e Gabriel começou a devorar seu bolo, nitidamente se sentindo vitorioso.

– Digamos que você esteja certo... Por que resolveu me contar e provar isso agora?

– Só quero te fazer sair dessa bolha que tu se enfiou. – respondeu Gabriel. – Quando você age por impulso ou está bêbada, sempre faz umas coisas que te deixam feliz, porque tu curte viver intensamente. O problema é que você sempre precisa de um impulso, por ter medo demais das consequências e do que as pessoas pensam. Queria que tu superasse isso, mas se não consegue, que saiba que o que pensam de você não é nada negativo.

– Como isso é possível? Eu nunca fiz esforço nenhum para construir uma popularidade, ou seja lá que merda é essa. Eu não sou tipo você.

– Era por isso que eu queria te conhecer. – ele disse e ao perceber que não entendi, prosseguiu. – Tu faz ideia de que qualquer pessoa queria conseguir, o que você nem fazia ideia do que conseguiu? E tu conseguiu sendo espontânea, sendo você. Igual aquelas porras de clichês que minha irmã lia em revistas femininas. Mas é a verdade. Para de se reprimir, de se esconder. Seja você mesma e se aproveita disso, porque o mundo é dos espertos.

O sinal do intervalo tocou, mas não nos levantamos. Quando Gabriel citou sua irmã no meio de tudo, me lembrei de que devia algo à ele.

– Me desculpa pelo que aconteceu. – pedi. No mesmo instante ele fechou o cara e olhou para o lado, provavelmente não queria que eu notasse.

– Não quero falar disso.

– É sério, Gabriel, eu sei que...

– Não quero falar disso. – ele me interrompeu, com a voz firme e dessa vez me olhando sério. – Não toque nesse assunto novamente.

– Tudo bem. – concordei.

– Melhor irmos pra sala. – ele disse se levantando e jogando o resto das suas coisas no lixo. Foi quando eu percebi que ele havia comido todo o seu lanche e eu nem sequer havia tocado no meu. Tive que levar tudo para comer na sala, mesmo que a maioria dos professores não goste disso.

Durante os próximos dois horários fiquei pensando em tudo que Gabriel havia dito e estava a ponto de enlouquecer. Não é possível que sou uma Amanda da vida. No quarto horário, o professor de História também passou um trabalho, esse para entregarmos na sexta. To prevendo que essa semana meu humor estará uma merda com esse tanto de coisas pra fazer.

No segundo intervalo resolvi descer e procurar por meus outros amigos. Nisso acabei vendo Bianca que também havia voltado pra escola e ainda estava com o rosto marcado, que azar o dela. Deve ser por isso que não a vi no pub sábado. Encontrei meus amigos sentados na arquibancada da quadra de futebol e eles pareceram bem surpresos quando me viram aproximando. Estavam todos ali, inclusive Novata.

– Sobreviveu? – perguntou Pedro quando cheguei até eles.

– Já estou me tornando imune à ressaca. – respondi e todos riram. Cumprimentei um por um, não deixando Lorena fora disso, a qual estava me olhando com todo receio do mundo. Então me sentei entre Leticia e Amanda.

– Você viu o link que te mandei no facebook? – perguntou Alexandre.

– Nem abri minhas redes sociais ainda, desde sábado. Devem estar cheias de notificações dos fãs. – respondi zoando.

– É mais um vídeo seu no youtube. Dessa vez rebolando pra Curitiba inteira.

– Vou começar a cobrar cover artístico. – disse, mais uma vez causando risadas. – A propósito, posso fazer uma pergunta?

– Sim. – eles responderam em uníssono.

– Vocês me acham popular? – perguntei fazendo careta.

Todos os meninos responderam que sim. Amanda respondeu que não. Lorena permaneceu calada. E Leticia fez outra pergunta:

– Por que ta perguntando isso?

– Hoje chegaram em mim e disseram que sou popular, até me “provaram”... – contei, dizendo “provaram” imitando aspas com as mãos. – Mas isso é tão estranho. Não faz sentido na minha cabeça.

– Eu não acho que seja. – disse Amanda. – Eu sou popular. Eu sou amiga desse colégio inteiro. Eu sempre sei de todas as festas. Eu sempre consigo o que quero.

– Mas todo mundo sabe quem eu sou.

– Isso não significa nada. – ela afirmou.

– Ser conhecida pelo colégio inteiro significa bastante coisa, Amanda. – disse Pedro.

– E a Isabelle sempre dá um jeito de virar o centro das atenções sem nem fazer isso propositalmente. – completou Leandro. Exatamente o que Gabriel disse.

– Ta, mas eu não sou só conhecida, eu tenho amigos, aliados. A Isabelle pode até ser alguma coisa nesse lugar, mas vira nada comparada a mim. – rebateu Amanda. Nossa, que tapa na cara. Me senti ofendida.

– É que eu tenho ética demais pra sair usando as pessoas. – respondi irritada e Amanda não disse mais nada, mas o clima ficou visivelmente tenso.

– Nós temos Educação Física no próximo horário, mata aula aqui com a gente... – pediu Leticia mudando descaradamente de assunto para aliviar a tensão.

– Não posso, o professor sabe que somos de salas diferentes. – respondi. – Na minha primeira Educação Física ele perguntou sobre isso e tal.

– Que droga.

– Esse dia foi extremamente engraçado, eu senti falta de vocês pra gritar durante os jogos e aí Gustavo me fez companhia. Ele é um amor. Foi o dia que sai carregada pelo Gabriel.

– Ah, eu lembro disso. – disse Leticia. – E falando neles... Lá no pub, o Gustavo apareceu perguntando de você, porque aparentemente era pro Gabriel ter te levado até nós, pois você estava muito bêbada.

– É verdade, mas eu estava tão bêbada que supliquei para que ele me levasse embora. – menti, assim como havia garantido pra ele que faria.

– Entendi.

– Você ficou com o Bruno, né? – perguntou Arthur. – Eu vi vocês. – completou. A atenção da roda foi totalmente direcionada para ele e depois para mim, todos me encararam esperando pela resposta.

– Sim.

– Você me enche de orgulho! – afirmou Leticia. – Sério, o Bruno é meu sonho de consumo.

– Eu recomendo. — respondi e ela gargalhou.

Continuamos conversando sobre futilidades até o sinal tocar e eu ser obrigada a retornar para a sala. Foi cruel ser obediente sabendo que eu teria cinquenta minutos de matemática. Eu realmente não consigo perdoar o infeliz que inventou as matérias de exatas. Aliás, eu não consigo perdoar o infeliz que resolveu misturar números com letras. Isso não é matemática, isso é putaria! Eu tenho certeza que ele foi direto pro inferno.

O mais engraçado de tudo é perceber como Gabriel parece lidar com facilidade com a disciplina. Na verdade não só com Matemática, mas com todas as disciplinas. Comecei a observar isso desde a vez em que ele me explicou os exercícios. Gabriel não faz o tipo de cara inteligente, mas ele parece ser muito. Quero comprovar isso vendo as notas dele após os exames.

Quando o fim do horário chegou, eu não posso nem nomear minha ação como “guardei meus materiais”, porque eu simplesmente enfiei tudo de qualquer jeito dentro da minha mochila e saí da sala. Eu estava desesperada para sair daquele lugar, já estava me sentindo claustrofóbica com a professora falando, falando e falando.

Fui direto para a quadra e me deitei sobre a arquibancada. Ainda estava fazendo muito frio e o céu estava completamente cinza, mas pelo menos parou de ventar. Fechei os olhos e ouvi as vozes dos meninos chegando para jogarem futebol. Espero que ninguém me acerte uma bolada enquanto estou curtindo meu momento de paz.

– Você consegue diferenciar quem nasceu em Curitiba de quem não nasceu, vendo quem tá de casaco. – disse uma voz próxima a mim, que reconheci ser de Gabriel. — E por mais incrível que possa parecer, os que são de Curitiba são os que estão de casaco.

– Não faz sentido – respondi ainda de olhos fechados.

– Pode não estar fazendo frio, nem chovendo e nem ventando, que mesmo assim os curitibanos estão com casacos. Por que? Porque eles são programados para usarem roupas de frio, eles não sabem se vestir no calor. – ele afirmou e comecei a rir, porque fez todo sentido.

É exatamente assim que as coisas funcionam. Eu só aprendi a me vestir no calor porque viajava demais com meus pais para cidades em que fazem muito calor. Mas na primeira vez em que fui ao Rio de Janeiro, senti tanto a diferença, que passei mal. Eu me senti presa dentro de um forno e um forno bem pequeno, porque em todos os lugares que meus pais levavam a gente, estavam socados de gente. Essa coisa típica de turistas que sempre acabam indo aos mesmos lugares.

– Não vai jogar hoje? – perguntei abrindo os olhos para olhá-lo e percebi que Gustavo e Bruno também estavam ali. Até me assustei, porque o Bruno quieto e calado é uma coisa que raramente acontece. Estavam os três sentados à minha direita, com Bruno no meio e Gustavo na ponta mais afastada. – Oi pessoal! – cumprimentei.

– E ai – responderam Bruno e Gustavo em uníssono. A diferença foi que Bruno sorriu para mim e Gustavo continuou quieto na dele olhando para um ponto qualquer. Meu cérebro automaticamente ficou paranoico e me lembrou de que não falei com ele ou com Carol ou com Bruno hoje e comecei a me perguntar se fiz algo de errado para ele.

– Não estou afim. – respondeu Gabriel e demorei para entender que ele estava respondendo à minha pergunta.

– Onde Carol sempre fica durante a Educação Física? – indaguei voltando a me deitar e fechar os olhos.

– Jogando vôlei, ela gosta. – respondeu Bruno.

– Ah.

– Como foi a ressaca no domingo? – perguntou a voz rouca, pertencente ao Gustavo.

– Pior que qualquer outra. – confessei.

– Você se lembra de tudo? – ele tornou a perguntar e eu percebi em que assunto ele queria chegar, então resolvi me sentar para observar as expressões de todo mundo.

– Depende do ponto de vista. – respondi. – Eu me lembro sim de todos os acontecimentos relevantes. Me lembro que bebi demais, me lembro que participei da competição no palco, que fiquei com o vocalista e com o Bruno. Mas a partir do momento em que começamos a beber as vodkas, após a competição, minhas memórias se tornaram borrões pretos.

– Você se lembra do que rolou depois que nós aparecemos quando vocês estavam se pegando? – perguntou Gustavo finalmente me olhando.

Não sabia o que ele queria com isso, então tentei me lembrar daquela noite e desse momento em específico, para saber se eu estava me esquecendo de algum fator importante, mas nada me veio à cabeça. Eu só me lembro de que eles apareceram e aparentemente não gostaram do que rolou entre mim e o Bruno. Me lembro de que houve uma discussão, mas não me lembro do que exatamente rolou durante essa discussão. E me lembro de que eles descobriram que eu já fiquei com o Gabriel. Será que é disso que ele está falando?

– Mais ou menos, Gustavo. Qual o objetivo desse assunto? – perguntei começando a ficar irritada. – Se o problema for eu ter ficado com algum dos dois aqui, não me arrependo. – confessei apontando para Gabriel e Bruno, que permaneceram calados o tempo inteiro, mas riram da minha confissão. Gustavo balançou a cabeça negativamente e voltou a olhar para frente.

Ficamos observando o jogo por alguns minutos sem que ninguém dissesse nada, até que Bruno se levantou e resolver que queria jogar, então se juntou ao pessoal na quadra. Após um bom tempo Gustavo foi pegar sua garrafinha de água, mas ela estava vazia, então ele perturbou Gabriel até que este aceitasse ir encher a garrafinha para ele. Quando Gabriel saiu, Gustavo me olhou sério e eu percebi que ele não queria água nenhuma.

– São meus dois melhores amigos... E você é a garota nova na turma, mas eu gosto pra caralho de ti. Então escuta bem, que tu não ta ouvindo de qualquer um por aí, tu ta ouvindo de mim. – ele disse me deixando assustada. – Eles não valem nada. – afirmou com segurança na voz, na expressão, em tudo. – Só não faça isso de novo, Isabelle. Confie em mim.

Quando ele terminou de dizer, tudo que consegui fazer foi assentir com a cabeça. Gustavo falou de um jeito tão sério, que fez meu estômago se revirar. Então, ele se levantou e saiu. Encontrou com Gabriel do outro lado da quadra, pegou sua garrafinha e seguiu em frente. Gabriel voltou para a arquibancada e se sentou ao meu lado. Eu não tive coragem de sequer abrir a boca depois do que Gustavo disse.

– Gustavo tem medo de magoarmos você. – disse Gabriel como se soubesse o que havia acontecido. – É difícil convencê-lo de que não faríamos isso. Até porque eu espero que você não tenha intenção de ficar com o Bruno de novo. Espero mesmo. – ele afirmou me encarando.

Me senti feliz por saber que Gustavo se sente assim e me senti um pouco aliviada pelo que Gabriel disse. O medo de Gustavo e o fato de ele ter afirmando que nem Gabriel, nem Bruno, valem alguma coisa, significa que eles não valem mesmo. Mas Gabriel deixou claro que não me magoariam e não teriam motivos para isso, já que não tenho nada com eles. Acho que o pensamento que mais tenho tido ultimamente é sobre isso, o que é realmente irritante. Ficar me questionando as atitudes do Gabriel já encheu o saco.

– Me empresta seu celular? – pediu Gabriel e o entreguei para ele, que o destravou e começou a mexer. Foi quando eu cai na real... Como Gabriel sabe meu código de desbloqueio? E não é a primeira vez que ele mexe sem eu ter desbloqueado para ele.

– Como você sabe meu código?

– Vi você desbloqueando uma vez. – ele respondeu como se fosse óbvio.

– Você me dá medo! – confessei. – Qualquer dia desses zera minha conta bancária falando que achou a senha do cartão em alguma das minhas coisas.

– Por que, tem muito dinheiro na sua conta bancária? – ele perguntou com a sobrancelha direita erguida e um sorriso divertido nos lábios, depois começou a rir e voltou a mexer no celular.

Acho que qualquer pessoa normal não deixaria alguém mexer em seu celular, principalmente sem se preocupar com o que essa pessoa está fazendo. Mas eu não sou uma pessoa normal. Eu nunca tiro fotos sozinha, portando se ele quisesse olhar minha galeria de fotos, poderia ficar a vontade. Eu nunca converso por celular qualquer coisa que possa destruir minha dignidade. Não me importa que acessem minhas redes sociais. E tudo que tem no meu whatsapp só envergonharia meus amigos, não a mim. Portanto, não ligo pra isso. Falando em amigos...

– Ás vezes eu acho que a Amanda adora me deixar pra baixo... – disse chamando a atenção de Gabriel.

– Por que?

– Hoje ela disse que não sou nada comparada a ela. – contei e ele sorriu balançando a cabeça negativamente.

– Ela é sua melhor amiga, não faz por mal, mas a questão é que ela precisa te por pra baixo, pra se sentir superior. – ele afirmou. – Ela nitidamente se esforça pra ser quem é, e como eu disse, você não. Não deve ser fácil lidar com isso.

– Esse assunto ta me estressando.

– Pronto. – disse Gabriel e eu não entendi, até olhar para ele e ver que ele estava com meu celular estendido em minha direção.

– O que você fez? – perguntei pegando o aparelho.

– Mandei mensagem pra sua mãe avisando que você não vai pra casa. – ele respondeu ao mesmo tempo em que o sinal indicando o término das aulas tocou.

No mesmo instante fui até as mensagens do meu celular para ver se ele realmente havia feito isso e tinha, não só feito como se passado por mim. E eu morri de vergonha quando li a conversa.

Eu (ou melhor, Gabriel): Mãe, vou almoçar com o Gabriel e ele vai me levar pra fazer umas coisas depois, não sei o que, mas devo ir embora tarde. Qualquer coisa liga pra gente, te mando notícias.

Mãe: Hummmmm, almoço com o gatinho e surpresas a tarde... Se divirta! Mamãe te ama. Bjsss

Eu (ou melhor, Gabriel): Ele é o máximo, né? Estou apaixonada! Também te amo.

– Gabriel, vai tomar no cu. – xinguei olhando feio para ele, que estava parado em pé na minha frente. Eu tinha certeza de que minhas bochechas estavam vermelhas. Eu odeio minha mãe. E odeio ele.

– Eu sou um gatinho, né? – ele disse virando as costas e começando a andar enquanto ria da minha cara.

– Não, você não é. – rebati. – E você para de sair andando e me deixar pra trás, porque eu não sou nenhuma psicopata pra ficar te seguindo. Então volte aqui e vai andar do meu ladinho.

Ele parou, olhou pra trás e cruzou os braços na frente do peito.

– Isso foi uma intimação? – perguntou.

– Lembrando que eu nem sequer aceitei almoçar com você. – disse me levantando e andei até ele. – Aliás, não me lembro de ter ouvido um convite. – completei e sai andando, como ele sempre faz.

Por um momento nada aconteceu, então pensei “ótimo, vou para casa almoçar com minha empregada, porque dei um fora num cara bonito e legal”. Mas depois de um tempo andando ele surgiu ao meu lado e caminhamos juntos até a saída do colégio.

– Então... Quer almoçar comigo, vossa majestade? – convidou Gabriel assim que passamos pelo portão. Eu parei e fingi estar pensativa. Como eu sou ridícula, a única coisa que me faria recusar esse almoço seria o Jared Leto nu na minha cama.

– Não tenho nada pra fazer mesmo. – respondi forjando indiferença.

– Só um trabalho de Química e um de História... – respondeu Gabriel irônico e eu o fuzilei com o olhar. – Vou te levar no meu lugar preferido do mundo...

Ele me levou ao Pizza Hut. Já era de se imaginar que o lugar preferido do Gabriel fosse algo assim, mas mesmo assim ri muito com a empolgação dele quando chegamos ao local. Também é de se imaginar que caras comem muito, mas eu juro que o Gabriel supera qualquer um. Eu comi um pedaço de pizza e me senti completamente satisfeita, porque o pedaço de pizza nesse lugar é enorme, quem já comeu sabe do que eu to falando. Porém, o Gabriel comeu três pedaços.

– Você faz academia? – perguntei enquanto ele terminava de comer.

– Cê ta me zuando? – ele rebateu me olhando com a testa franzida. – Tu acha que eu tenho paciência pra frequentar academia?

– Então como você não engorda? Tu come pra caralho, Gabriel.

– E por acaso é proibido comer? – ele perguntou enfiando mais um pedaço da pizza na boca.

– Não... Seja feliz!

– Estou sendo! – respondeu Gabriel falando com a boca cheia.

– Não converse de boca cheia, é falta de educação. – repreendi zombando.

– Desculpa, dona Patrícia.

– Quem é Patrícia? — perguntei curiosa.

– Minha mãe. — ele respondeu. — E ela é bem chata com regras de etiqueta, tipo exageradamente. – afirmou Gabriel. — “Não coloque os cotovelos em cima da mesa, Gabriel”, “troque a faca de mão para partir os alimentos”, “coloque o guardanapo no colo”... – ele imitou as broncas de sua própria mãe.

– É sempre assim? – perguntei rindo.

– Não porque um dia minha irmã fez um trato com ela. Nos comportamos como quisermos em jantares em casa e prometemos seguir todas as regras em jantares fora de casa. Ai eu me tornei uma pessoa feliz... Ignorando os olhares reprovadores dela. – explicou. Assim que terminou de falar ele se levantou e pegou nossas comandas na mesa, então seguiu rumo ao caixa sem dizer nada.

E mais uma vez eu vi acontecer... Gabriel mudar repentinamente ao citar Alice. É engraçado como acontece, sua expressão, sua postura, tudo se modifica automaticamente. É uma reação instintiva, que nem sequer é controlada por ele. Simplesmente acontece. Eu tenho cada vez mais certeza de que essa garota era a pessoa mais importante da vida dele e cada vez mais certeza de que algo mais aconteceu depois da morte dela. Algo que não ajudou em nada na superação.

Eu li em um livro de psicologia uma vez, que o luto possui cinco fases: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Na fase da negação, a pessoa se nega a acreditar no que aconteceu e que tudo seja real; na fase da raiva, a pessoa consegue acreditar que tal fato ocorreu, mas acreditar nisso causa um sentimento de raiva extremo, por acreditar que o que está acontecendo não é justo; na fase da negociação, geralmente é onde o indivíduo apela pra religiosidade, fazendo promessas para que consiga superar a perda; na fase da depressão, é onde a pessoa entende o significado da perca e a sente com mais intensidade, repassando lembranças e memórias dentro da própria cabeça de forma repetitiva e quando acredita que não consegue lidar com isso; na fase da aceitação é quando a pessoa finalmente aceita e supera, quando ela enfim consegue lidar com toda a situação. Eu acredito que Gabriel ainda esteja na fase da depressão.

– Paguei sua conta porque fui eu quem fiz o convite para o almoço. – disse Gabriel ao retornar à mesa.

– Quanto cavalheirismo...

– Não acostuma não. – ele respondeu pegando sua mochila sobre a cadeira e colocando nas costas. – E vamos embora porque ainda temos dois lugares para ir.

– Anão, sério que você quer me obrigar a andar depois de comer? – reclamei.

– Você precisa perder as calorias que acabou de ganhar, né?

– Se eu fosse essas garotas neuróticas com peso, te xingaria agora, mas como não sou, ignorarei e continuarei sentadinha aqui.

Me arrependi de dizer isso, porque Gabriel praticamente me arrancou da cadeira do estabelecimento e saiu me puxando pela mão. Mal tive tempo de pegar minhas coisas. Andamos até nosso próximo destino comigo reclamando o tempo inteiro. Em determinado momento, Gabriel chegou a me colocar em suas costas e me carregar. Eu só parei de reclamar quando ele disse que já estávamos na rua do local.

Nós entramos na Galeria Cezar Franco e ele me guiou até uma loja, que me surpreendeu. Eu confesso que não imaginava que na atualidade ainda existisse uma loja assim, mas existe, nós entramos em uma loja de disco vinil. Uma loja bem simples, mas aconchegante, decorada com uma coleção inteira de discos da velha guarda nacional. A loja não continha apenas discos para venda, também tinha CDs e LPs.

Gabriel cumprimentou o dono do estabelecimento, mas eu estava deslumbrada demais para repetir a ação. Após observar os detalhes, fui diretamente até os discos, ver o que eu encontraria. Andando de um lado para o outro, olhando realmente tudo, descobri que a loja tinha discos nacionais, importados e alguns que eu até consideraria uma raridade. Só percebi que perdi a noção do tempo, quando avistei Gabriel encostado no balcão, olhando para mim.

– Maneiro, né? – ele disse sorrindo.

– Eu quero esse lugar pra mim. – respondi segurando “A Night at the Opera” do Queen em mãos. Gabriel se aproximou e parou ao meu lado, averiguando o que eu havia pegado.

– Eu sempre quis ter uma coleção de discos, mas nunca levei a ideia a sério. – contou Gabriel – Até alguns anos atrás, quando encontrei essa loja por acaso e pensei “por que não?”. Então eu comecei a comprar sempre que sobrava uma grana da minha mesada, ou quando meus pais me davam dinheiro extra. Por enquanto tenho uma coleção bem pequena, mas quem sabe um dia consigo ter um cômodo cheio deles.

– Ia ser incrível. – afirmei colocando o disco de volta no lugar. – Você já tem a coleção completa de alguma banda?

– Beatles, Pink Floyd e Oasis, o que soma o total de 34 discos. – respondeu Gabriel.

– Eu acho que pra ser considerado um grande colecionador precisa ter muito mais que isso, mas puta que pariu, 34 discos pra mim já é muita coisa. E isso é apenas de três bandas.

– Meu irmão diz que vai vender essa “velharia” toda e ficar com a grana. – disse Gabriel rindo. – O pior é que dá mesmo uma grana boa.

– Ele é um grande babaca. – afirmei e ele apenas assentiu, saindo de perto e retornando ao balcão.

– Vamos embora? – chamou Gabriel e só então percebi que eu havia perdido mesmo bastante tempo distraída com os discos.

Fui até o balcão e não pude deixar de elogiar a loja ao senhor que Gabriel indicou ser o dono da mesma, ele agradeceu com um sorriso sincero, enquanto entregava duas sacolas para Gabriel. Assim que saímos de lá, Gabriel me contou que a loja já existe há mais de vinte anos, eu fiquei impressionada. Deve ser difícil mantê-la numa época em que tudo se encontra acessível a um clique na internet.

Nós andamos até a Praça Carlos Gomes, onde pegamos um ônibus sentido a Solitude, porque Gabriel disse que estava com preguiça de andar, mesmo tendo afirmado que nosso próximo destino era perto. Tive vontade de espancá-lo. Quando o lugar é perto ele nos faz pegar o ônibus, quando é longe, me faz andar. Perguntei onde iríamos, mas ele não quis responder.

– O que você comprou? – perguntei curiosa e ele não respondeu, apenas me entregou uma das sacolas. Ao abri-la encontrei dois discos: "The Joshua Tree" do U2 e "Exile on Main St." do Rolling Stones. – E a outra sacola?

– Surpresa. – ele respondeu sorrindo. – Quando chegarmos ao nosso destino, você descobre.

Eu fiquei muito curiosa, mas permaneci quieta e devolvi a sacola para ele. Alguns minutos depois descemos do ônibus e eu já tinha quase certeza de para onde estávamos indo, mas achei estranho, então deixei que ele continuasse a me guiar até que comprovasse minha teoria.

– Jardim Botânico? – perguntei com receio, ao atravessarmos a rua em sentido à entrada do mesmo. – Viramos turistas?

– Qual é, eu adoro esse lugar. As pessoas que moram aqui deviam visitá-lo tanto quanto os turistas.

– Elas fazem isso. – respondi. – Afinal, um turista não vem com frequência. – Ele revirou os olhos com meu comentário, mas sorriu.

Nós entramos no Jardim Botânico e Gabriel me guiou até a sombra de uma árvore qualquer, onde se deitou na grama, usando sua mochila como travesseiro. Eu me joguei ao seu lado e repeti sua ação.

– Eu com certeza não iria até a estufa ou o museu... – disse Gabriel. – Mas eu gosto de ficar deitado aqui, na paz, ouvindo música ou fazendo qualquer outra coisa. Longe das pessoas, longe da minha casa, longe de tudo.

– É, me parece uma boa escolha na hora de se isolar do mundo. – concordei. – Mas Gabriel se isolando é uma novidade pra mim. Achei que eu fosse a única que fizesse isso.

– Você se surpreenderia com a quantidade de vezes que eu faço isso. Acredite, não tenho nem um terço da paciência que demonstro ter com as pessoas e as coisas.

– E por que você finge ter? – perguntei.

– Porque uma hora ou outra sempre acabamos precisando dos outros. — ele afirmou e permaneci em silêncio por um tempo.

– Por que você me trouxe aqui? – perguntei.

– Não sei, me responde você. Esse lugar parece um parque, o que comumente acontece nos seus livros clichês quando um casal vai ao parque?

– Depende do momento da história, do casal, de um monte de coisas. – respondi. – Eles podem estar curtindo um momento romântico, eles podem estar num momento tenso em que alguém faz uma revelação bombástica, eles podem se reconciliar depois de uma briga.

– Todas elas acabam em beijo. Interessante.

– Na revelação bombástica não, então qual é a sua revelação? – perguntei e ele riu.

– Geralmente o casalzinho aceita um ao outro independente de tudo, não? Então suponho que também acaba em beijo.

– É, mas não temos um casal aqui. – rebati. – Então por que me trouxe aqui?

– Queria sua companhia. Algum problema?

– Nenhum. – respondi desconfiada e ele percebeu, o que ficou nítido pela risada que ele deu.

Ficamos deitados em silêncio por um bom tempo e cheguei a pensar que Gabriel havia dormido, mas ao olhar para ele, vi que estava apenas pensando. Sorri ao perceber o estágio em que chegamos. Ficamos em silêncio, sem que o momento se torne constrangedor. É um silêncio confortável.

Senti meu celular vibrar em meu bolso e o peguei. Me assustei ao olhar o relógio, já eram quase 17h e eu pensando que estava bem mais cedo. Recebi uma mensagem de minha mãe em que dizia “Não se esqueça de que irá passar a semana na casa do seu pai. Preciso te levar antes do jantar. Bjs”. Havia me esquecido desse pequeno grande detalhe, ainda tenho que ir para a casa do meu pai hoje e nem arrumei as coisas que preciso levar.

– Acabaram as surpresas pra hoje, né? – perguntei.

– Não, ainda tem mais uma. Mas nada que nos tirará daqui. – explicou me olhando e sorriu ao ver minha expressão de confusão. Eu não farei perguntas, ele não responderá de qualquer jeito.

Gabriel voltou a olhar para cima e continuei o encarando descaradamente. Ele fechou os olhos e colocou as mãos embaixo da cabeça. Eu acabei adormecendo, na grama do Jardim Botânico, observando Gabriel, em uma segunda-feira cinzenta. E acordei na grama do Jardim Botânico, observando Gabriel, em uma segunda-feira escura.

Levantei em um sobressalto, já estava de noite. Por quanto tempo dormimos? Peguei meu celular para averiguar as horas e já eram 19h. Pelo menos minha mãe não me mandou mensagem, nem ligou. Ela deve confiar mesmo em Gabriel, cujo estava dormindo tranquilamente. Fiquei com pena de acordá-lo, mas era necessário, eu não posso demorar muito mais para ir embora e se não me engano, o Jardim Botânico fecha em meia hora. Então o balancei até que ele acordasse.

– Bom dia, Bela Adormecida. – disse ao vê-lo abrir os olhos. Ele apenas sorriu e pareceu não se preocupar pelo fato de já estar à noite. – Eu preciso ir embora, acho que vou pedir para minha mãe me buscar. Você se importa? – perguntei e ele balançou a cabeça negativamente. – Gabriel, você está acordado? – novamente ele apenas balançou a cabeça negativamente e eu ri.

Peguei meu celular e liguei para minha mãe pedindo para que ela me buscasse. Acabei a convencendo de pegar todas as coisas que eu precisaria para ir pro meu pai, como minha mochila, materiais, carregador do meu celular e uniformes, o resto tenho na casa dele. Nesse tempo, Gabriel pareceu finalmente ter acordado, então pegamos nossas coisas e fomos esperar minha mãe do lado de fora, antes que nos trancassem ali. Estava fazendo mais frio do que fez o dia inteiro e voltou a ventar novamente.

– E então, já tinha dormido no Jardim Botânico antes? – perguntou Gabriel.

– Na verdade, faço isso sempre! – respondi ironicamente e ele riu.

– Eu faço. Sério.

– Você é definitivamente muito estranho!

– Não, eu sou um mistério. Você é estranha! – ele afirmou e eu fui obrigada a concordar. – A última surpresa é um presente pra você. – disse Gabriel me entregando uma sacola. Reconheci ser a sacola que ele não quis me mostrar, quando saímos da loja de discos. – É um dos meus discos preferidos.

– Não precisava, Gabriel. E não é papinho de gente sendo educada, é que com a grana que tu gastou, poderia ter comprado mais um pra sua coleção.

– Eu quis te dar um presente.

– Tudo bem então... Obrigada! – agradeci sorrindo. Um sorriso muito maior do que eu queria que ele visse. Eu fiquei realmente feliz por ter ganhado um presente do Gabriel. Ele comprou um de seus discos preferidos pra mim. Na verdade, acho que surtaria naquele exato momento, se não fosse algo tão vergonhoso. — Posso ver agora ou...

– Não, veja quando estiver em casa.

– Tudo bem. — concordei. — Como você vai embora?

– De ônibus. Não tenho pais tão legais quanto os seus.

– Tenho certeza que minha mãe adoraria te dar uma carona. — afirmei. É a mais pura verdade.

– Não, valeu. — recusou Gabriel. — É que eu ainda tenho que passar em alguns lugares.

– Então se eu fosse você iria embora antes que ela chegasse. — aconselhei. — Ela vai insistir muito.

– Não vou te deixar aqui sozinha.

– Não tem problema nenhum.

– Claro que tem! — ele afirmou.

– Não, não tem. Ela já ta chegando.

– Isabelle... — disse Gabriel nitidamente desconfiado de minhas intenções.

– Estou tentando te mandar embora para evitar um momento constrangedor. — confessei e ele riu, mas pelo menos consegui o convencer a ir.

– Tudo bem, mas me mande mensagem quando chegar em casa. — pediu e eu assenti. — Até amanhã! — se despediu após me dar um abraço e um beijo no rosto.

Gabriel saiu andando, mas não deu dez passos até parar e olhar pra trás. Não entendi, ele provavelmente ainda estava preocupado por me deixar ali sozinha, mesmo que eu não me importasse nenhum pouco com isso. Ele começou a andar de volta em minha direção e soube que era exatamente esse o problema.

– Esqueci de uma coisa muito importante... – disse Gabriel se aproximando. Tudo bem, não é o que eu estou pensando. — Os clichês de parque acabam em beijo.

Dito isso ele segurou meu rosto em suas mãos e selou nossos lábios. Foi quando eu percebi o quanto senti falta do seu beijo. Quando ele desceu sua mão pela lateral do meu corpo e apertou minha cintura por baixo da minha mochila, no mesmo instante abracei seu pescoço. Sem nem sequer me preocupar com o presente que estava segurando em mãos e que estraga com facilidade.

É mentira tudo que dizem sobre ser inesquecível o momento em que você beija alguém que gosta, sobre se lembrar de cada detalhe, porque você não lembra. Nada ao seu redor importa. Tudo que você consegue fazer, é fechar os olhos e se focar na sensação única dos seus lábios junto aos seus e infelizmente, sensações não são tão memoráveis quanto visões. É por isso que se torna quase desesperador o desejo de aproveitar cada segundo.

Quando nos separamos, percebi que havia um carro estacionado ao nosso lado e tive vontade de cavar um buraco e me enfiar dentro.

– Por favor, diz que não é um Honda. – pedi sem coragem de olhar para o lado, mas Gabriel acenou e eu soube que era sim, minha mãe. – É, muito mais constrangedor do que antes.

– Boa sorte. – ele desejou rindo e me deu um selinho. – Agora sim, até amanhã!

Gabriel foi embora e eu respirei fundo antes de entrar no carro da minha mãe. Quando entrei, disse um singelo “Oi” enquanto colocava o cinto de segurança e olhei para frente. Ela ligou o carro e de canto de olho, vi que estava segurando uma risada. Quando ela percebeu que eu estava olhando, começou a rir de vez.

– Para, mãe. – pedi e ela começou a rir mais ainda. Eu estava extremamente constrangida.

– Vocês formam um casal muito fofinho. – ela elogiou e eu ignorei, mas não pude controlar meus próprios pensamentos, que foram: fazemos mesmo.

Não consegui esperar chegar na casa do meu pai. Peguei a sacola que Gabriel havia me entregado e abri dentro do carro mesmo. O disco estava envolto num papel de presente que eu rasguei com dó, mas quando terminei, estava segurando "(What's the Story) Morning Glory?" do Oasis em mãos. E nele estava colado um bilhete escrito: "There's lots and lots for us to see, there's lots and lots for us to do. She is electric, can I be electric too?".

Notas finais
Sim, eu fiquei emotiva com a recomendação, por isso quero deixar aqui um agradecimento especial para todos os leitores. Um agradecimento para aqueles que comentam sempre, aqueles que comentam ás vezes, aqueles que não comentam e até aqueles que acompanham sem ter uma conta no nyah. Quero agradecer a cada um de vocês que acompanham a história e me motivam a continuar escrevendo. Eu amo escrever, mas não acredito em mim mesma. Mas se vocês acreditam, eu jamais pararia. Obrigada do fundo do meu coração!