Polly

16 O baile vermelho


Notas iniciais
Eu admito super envergonhada que falhei em escrever todos os dias. Essa batalha contra o bloqueio criativo é algo que nunca termina, mas mesmo assim, eu consegui terminar! Ficou um pouco maior que os capítulos de costume, mas eu espero de verdade que gostem. Não é nenhum Red Wedding apesar do nome, então não se preocupem! hahaha Espero que gostem. Boa leitura!

Tenho absoluta certeza de que assustei Klaus com o meu convite repentino, e me arrependi um segundo depois de dizer. Mesmo assustado, ele me sondou perguntando sobre os meus planos e quando partiríamos. Para não dizer que eu iria sozinha, mandei-o embora e finalmente fechei a porta.

– Quem é o bonitão ali fora? Um antigo namorado? – Rachel, que o espiava entre as cortinas, me perguntou interessada.

– Não é ninguém.

– Claro, não é ninguém. Só o filho de Marcus que Polly está se aproveitando.

Olhei furiosa para Nina, que chegava no meio da conversa. Pude sentir a reprovação de Rachel atrás de mim. E dessa vez até Amanda parecia me reprovar.

– Polly? Como assim? – Rachel queria não acreditar.

– Muito obrigada, Nina. – Vociferei para ela.

Ela me respondeu com um sorriso sarcástico, pois havia conseguido o que queria. Rachel implorava por respostas atrás de mim, e eu a trouxe para o sofá a fim de explicar tudo.

– Quando eu cheguei a cidade, descobri que Marcus tem um filho. Eu sei, parece absurdo, e não sabemos nada da mãe. Ela está morta, e pelo que fui informada, era bem mais nova do que ele.

– O que já era de se esperar. – Disse Rachel com asno. – Mas, por que ele veio te procurar?

Dessa vez não fui capaz de olhar em seus olhos.

– Klaus está a procura do pai, e a única pista que tinha ele me deu. O endereço de Edith, que naquela época foi sua namorada, cúmplice e álibi.

Rachel arregalou os olhos e abriu a boca em O como sempre fazia quando estava aterrorizada.

– Polly! Isso não é justo! Você precisa contar a verdade a ele! Meu Deus, ele pensa que você vai trazer o pai de volta. Você nem sabe se ele está morto, Polly. Poupe o rapaz de mais sofrimentos! – Seu rosto estava vermelho indignação.

– Rachel, você não entende. Ele é o único jeito de eu conseguir alguma resposta. Estando morto ou vivo, eu vou descobrir. E é indo atrás de Edith.

Nina, que percebeu que eu também me exaltava, puxou Amanda pelos braços deixando eu e Rachel a sós.

– Então você vai usá-lo como fantoche, para chegar até o pai, e depois matá-lo. Como vai explicar isso a ele?

– Eu! Bom eu... ainda não pensei nisso.

– Polly, você sabe que eu sempre estive do seu lado. Pois eu acreditava que você estava fazendo justiça. Mas dessa vez eu não posso aceitar uma coisa dessas. Eu ainda não o conheço, mas ele não merece isso. Ele não é o pai, Polly.

Mas tem os olhos e o sorriso do demônio, pensei.

– Justiça? Acha que o caminho para ajudar todas vocês foi justo? Eu matei pessoas por vocês, Rachel. Todas vocês andam tranquilas pelas ruas, sabendo que seus agressores nunca mais encostarão um dedo. E mesmo que outros aparecessem, agora sabem se defender porque eu as ensinei. Agora é a minha vez, Rachel. E eu não estou pedindo que aceite ou que ache justo, mas que não atrapalhe o meu caminho.

Minhas palavras soaram duras como uma rocha saindo de minha boca. Rachel tinha seus olhos lacrimejantes, e era porque eu a magoei.

– Está bem, Polly. Eu não vou meter o dedo nos seus planos de vingança. Mas se tudo der errado, lembre-se que eu te avisei.

Rachel levantou-se após suas últimas palavras dirigiu-se para o grande piano da sala. Piano que Nina havia acabado de comprar, e que tenho certeza de que não levaria muito tempo para aprender. Nina era impecável em tudo que fazia, mas Rachel tocava por uma razão.

Sem suportar ouvir a música, me levantei e fui para cozinha, a procura de um copo d’água ou qualquer coisa que me acalmasse. Nina e Amanda conversavam distraídas e recostadas no balcão. Suas mãos se tocavam. Nina notou minha presença e um embaraço se fez em seu rosto.

– Nina, posso conversar com Amanda a sós?

– Eu ia preparar o jantar agora e...

– Deixe que eu cozinhe. Eu faço um espaguete exemplar! – Amanda disse, dispensando-a com um largo sorriso.

– Então eu vou ver como Ian está.

Nina correu da cozinha deixando apenas eu e Amanda nos olhando. Sentei ao lado de Amanda no balcão, e pelo seu revirar de olhos esperava uma conversa maçante. Claro que Nina deveria ter algo bem mais interessante em mente.

– Acho que eu sou a única da casa que está do seu lado. – Ela disse com a boca cheia de biscoitos.

– Obrigada Amanda. Mas não é por isso que eu quero conversar com você.

– Mas é sério. Eu acho que você tem que acabar com a vida do Marcus, não importa como vai chegar até ele. É o que eu faria no seu caso.

Para a falta de sorte de Amanda, eu já havia percebido que ela evitava o assunto falando sem parar e impedindo que eu me pronunciasse.

– Amanda! Dá pra me ouvir, droga?! – Explodi. Realmente minha paciência estava se esgotando, mas foi o necessário para fazê-la se calar. Prossegui.

– Você deve ter percebido que Nina gosta muito de você, apesar do pouco tempo.

– Eu também gosto muito dela. Ela cuida de mim. Ninguém nunca tinha feito isso por mim.

– Espero que você saiba dar valor ao que ela faz por você, então não a magoe.

– E por que eu a magoaria? Nós somos ótimas amigas.

– Só estou dizendo que... Nina pode esperar algo que você não pode oferecer. Acredite ou não, mas Nina tem um coração sensível.

– Todos nós temos a nossa fraqueza. – Amanda pareceu dizer mais para si mesma do que para mim, olhando para o nada, enquanto enfiava mais uma rosquinha na boca.

***

Levando em conta o talento para fazer tudo errado que Amanda tinha, desconfiei do seu “incrível” jantar, mesmo que estivesse sobre os olhos críticos de Nina. Eu sabia que ela não estaria tão atenta hoje como sempre era. Mas por fim, tudo havia saído bem, e todos estavam sentados à mesa para jantar. Eu, Amanda, Nina, Ian e Rachel, embora esta ainda estivesse ressentida comigo.

Porém ouço alguém chegar e abrir a porta. Maya nos olhou desconcertada e sem saber onde enfiar o rosto.

– Vim buscar minhas coisas. – Ela disse.

– Eu vou te ajudar. – Ian se levantou e os dois sumiram da cozinha.

Eu estava triste por Ian mais uma vez estar sofrendo daquele jeito. Eu queria vê-lo feliz e amado, mas me perguntava se alguém poderia fazer isso. Talvez fosse minha total falta de confiança, mas não sentia que alguém o merecesse. Nem mesmo Maya.

Mas isso era algo que ele precisava decidir sozinho, e eu não era capaz de ajudá-lo, embora quisesse. No momento, eu deveria me concentrar em encontrar Edith e afastar Klaus o mais rápido possível. Rachel tinha razão. Eu não poderia sustentar aquela mentira por muito tempo. Eu deveria partir sozinha, encontrar Marcus e dizer ao filho que ele nunca conheceu que seu pai estava morto. Mas era de extrema importância que ele nunca, jamais descobrisse o monstro do qual carrega o mesmo sangue e a pessoa que iria matá-lo.

– Polly? Já terminou? – Uma voz distante me trouxe a realidade. Amanda pegava o meu prato vazio.

– Sim. Vocês se importam se eu for descansar agora?

– Pode ir, Polly. Eu ajudo Amanda. – Nina pegou todos os pratos e colocou na pia. Rachel também se juntou a elas, pois era ingênua demais para perceber que elas queriam ficar sozinhas.

Tão logo me liberaram, corri para o meu quarto que agora eu deveria dividir com Rachel e Amanda. Sem ligar a luz, me joguei na escuridão e cai na cama. Livrei-me de todas as roupas e fechei os olhos, sem sono. Só conseguia pensar em terminar toda aquela história logo.

***

A carta de Edith foi a primeira coisa que vi quando acordei. Estava nas mãos de Rachel, que àquela altura já deveria ter lido tudo. Ofendida pela falta de privacidade eu puxei a carta com raiva de suas mãos.

– Bom-dia pra você também, Polly. – Ela disse rispidamente.

– Com que direito você pega as minhas coisas?

– Na verdade isso não é seu, isso é de Klaus. E eu queria saber qual é o endereço dessa tal Edith.

De acordo com o endereço da carta, Edith morava agora numa cidade vizinha. Porém, a carta tinha sido entregue há vários meses atrás, e não tínhamos certeza se ela estava morando no mesmo lugar ou se Marcus ainda morava com ela. Mas com certeza alguém deveria saber para onde ela havia se metido. Edith adorava fazer amizades.

Entretanto, o endereço de Edith só interessava a mim, e de certo modo a Klaus. Rachel não teria nenhum objetivo com aquela carta, a não ser que planejasse atrapalhar os meus planos.

– Rachel. Você prometeu que não iria me atrapalhar.

– Corrigindo. Eu prometi que não iria te atrapalhar se você parasse de usar Klaus para matar o próprio pai. E lembre-se, quando eu perceber que essa história está indo longe demais, eu vou intervir.

Eu não estava gostando nada daquele tom superior de Rachel.

– Não preciso de você mandando em mim. E de qualquer forma, Klaus não irá comigo e eu direi isso a ele hoje.

De repente o rosto de Rachel se anuviou e ela não parecia dessa vez estar tão aborrecida comigo.

– Poupe-o o máximo que puder. – Ela levantou-se e beijou a minha testa.

– Eu vou. Agora se me der licença, preciso arrumar as coisas para a viagem antes que ele venha me procurar. – Por um segundo ela se permitiu rir e se foi.

Antes mesmo de pensar em arrumar algo, eu precisava arrumar a confusão em que eu estava. Tomei um longo banho quente. Penteei meu cabelo e os cachos se extinguiram e se transformaram em ondas. Por sorte, eu não havia desarrumado minha mala, por isso apenas separei o que seria necessário. Provavelmente eu não passaria muito tempo.

O pouco dinheiro que ainda me restava estava acabando, e eu teria que pedir emprestado para Nina, e logo depois procurar por um emprego. Mas isso eu resolveria depois. Isso se houvesse um depois. Deparei com a terrível ideia de não ter pensado em nada no meu futuro. Todos os meus planos incluíam acabar com a vida de Klaus e de todos que o ajudaram. E mesmo assim, sentia que estava fazendo algo errado. Eu não tinha o mesmo talento para planejar como Nina.

– Então você vai mesmo. – Uma voz rouca veio da porta e me trouxe de volta ao presente.

Ian me fitava, recostado à porta, e seus olhos pareciam desapontados. Eu me perguntava se esse desapontamento tinha como culpada Maya ou Polly.

– Eu preciso ir. Preciso pegar esse cara. – Respondi deixando bem claro que no momento eu só teria olhos para vingança.

– Eu deveria ir com você. Garantir que nada de ruim lhe aconteça.

Eu realmente odiava quando Ian tentava me proteger. Em parte porque eu gostava de ser independente, mas principalmente porque eu me sentia mal e sabia que não merecia isso, ou ele.

– Já não sou uma criança, Ian. Você foi um grande mestre e me ensinou muitas coisas, mas você sabe que eu preciso fazer isso sozinha.

Talvez por ser sete anos mais velho que eu, Ian sentia a necessidade de me proteger, como um irmão mais velho. E eu bem sei que se não tivesse a sua ajuda naqueles anos difíceis, teria sido insuportável.

– Eu sei. Acredito que no momento, talvez eu precise mais de você do que o contrário. – Aquela confissão me quebrou por dentro e me vi envolvendo-o, como uma criança.

– Eu sinto muito por Maya. Eu sei que eu deveria ficar, mas eu já estou voltando. Vou terminar isso sozinha.

–Sozinha? Se eu fosse você não teria tanta certeza. O garoto de sangue ruim está ali embaixo, e Rachel parece bem interessada.

Droga. Eu realmente não contava com isso.

– Mas o quê? O que ele está fazendo aqui a essa hora da manhã? Ele não tem que dar umas aulas? Mas que droga, justo Rachel?! Estou ferrada.

Meu plano era comprar as passagens e ligar para Klaus (já no ônibus) para dizer que precisava ir sozinha e que o manteria informado (com minhas mentiras). Ele iria me odiar, é claro, mas não tanto se me visse matar o seu pai. E agora ele estava aqui, conversando com Rachel, e amaciando ainda mais seu coração mole. Não demoraria muito até ela lhe dar a verdade.

Desci a escada pisando nos meus próprios pés, e encontrei os dois conversando distraidamente recostados ao piano com suas xícaras fumegantes. Klaus ria descontraído, e Rachel parecia encantada e preocupada.

– Eu toco desde os cinco anos. Dei uma pausa durante a faculdade, mas agora estou tocando numa pequena orquestra. – Ela dizia toda orgulhosa, até se deparar comigo. Seus grandes olhos pareciam assustados.

–O que você está fazendo aqui? – Minha voz saiu um pouco mais alta do que planejava, e logo me arrependi do tom rude.

– Estava te procurando. – Klaus disse, ignorando minha péssima recepção.

–A essa hora? Você não tem um compromisso no colégio?

– Na verdade, só a noite. Hoje é o aniversário do colégio e as aulas foram suspensas.

Percebi que andava distraída com as datas, mas nunca me esqueceria das noites de 26 de julho. Na verdade, só comemorei uma única noite, mas foi inesquecível. Todas as garotas usavam vestidos elegantes, e os professores pareciam ricos. O colégio não economizava nas festas. Gastando horrores com decoração, e com todo o resto. Principalmente o bufê. Os professores é que mais gostavam das festas, pois podiam convidar qualquer pessoa e beber dos melhores vinhos de graça. Às vezes os professores mais novos nos ofereciam uma taça qualquer. Marcus havia me oferecido uma vez e eu aceitei com toda a ingenuidade da antiga Polly. E pensando nele, já percebi o que veria por ai.

– Na verdade terá uma festa hoje a noite, e como você disse que já estudou lá, imaginei que você gostaria de ir. Mas sua amiga Rachel acabou de me dizer que você estava de partida. Quer falar mais sobre isso, Polly? – Ele cruzou os braços e me olhou de um jeito tão sonso que me irritou.

Olhei para Rachel demonstrando todo “você me paga” que eu não podia falar agora, e ela entendeu perfeitamente. Mas Klaus ainda esperava por uma resposta, então o puxei pelo braço e o levei até a varanda.

– Primeiramente, você precisa me avisar antes de aparecer do nada. Nem parece que possui a educação europeia. – Joguei logo um ar de repreensão.

– Sou bem mais brasileiro que europeu, embora o sotaque me condene. Mas discutir minha nacionalidade não é o importante aqui. Eu quero saber por que você estava partindo atrás do meu pai sem mim. – Ele cruzou os braços mais uma vez, e percebi que aquela era sua pose de ataque. Pobre garoto.

– Olha, Klaus, eu entendo que você quer encontrá-lo, mas você tem uma vida aqui, e no momento eu não tenho nada em mente a não ser encontrar o seu pai. Não quero te atrapalhar. Juro que se o encontrar, eu vou te dizer.

– Polly, qual o seu problema? Eu te dei aquela carta porque eu queria ir junto com você. Não tem o direito de me por de lado, agora que conseguiu o que queria. – Ele parecia realmente chateado.

– E o colégio? – Eu iria insistir naquilo até o fazer desistir.

– Já conversei com eles. Acontece que eu não tiro uma folga há anos, Polly. E eles me adoram por isso. Posso pedir uma folga por um mês e não terei problemas. Há quem possa me substituir, e apesar de minhas alunas adorarem minhas aulas, ela ficarão bem.

– Eu não sei, Klaus. Não me parece uma boa ideia. Eu... ah, eu nem sei o que fazer.

– Eu sei o que deve fazer. – Ele pegou a minha mão, mas logo reprimi o seu toque. – Você vai comigo a essa festa hoje. E logo depois partiremos atrás de Edith.

– Não me dê ordens. Eu odeio isso.

– Sim, tem razão. Estou só sugerindo. Mas só quero deixar bem claro que não vai se livrar de mim assim tão fácil. – Ele sorriu e uma fumaça saía de sua boca graças ao frio.

– Vou pensar.

– Como quiser. Mas de qualquer forma, eu estarei aqui as seis e ponto. Sabe o que vestir. – E assim ele se despediu, estalando um beijo na minha bochecha. Esperei que ele desaparecesse no horizonte para limpar o local.

***

Enquanto olhava para o espelho, eu não entendia ao certo porque decidira seguir com aquela estupidez. Eu estava usando um vestido justo e vermelho, de ombros caídos. O zíper ainda estava aberto, esperando que eu mudasse de ideia. Transformei as ondas rebeldes dos meus cabelos em cachos que precisavam ser cortados logo. Não gostava do meu cabelo grande, embora estivesse na altura dos ombros. De maquiagem eu usava apenas um delineador e um batom ainda mais escarlate que o vestido. Eu gostava desse tom de vermelho sangue, a qual eu apelidava carinhosamente de vermelho vingança.

Ian apareceu novamente no meu quarto. Ao que tudo indica, ninguém respeita a privacidade na família deles, mas eu não ligava. Não tínhamos segredos e nos conhecíamos intimamente.

– Você está linda. – Ele disse enquanto fechava o meu zíper. Estremeci com o toque bruto de suas mãos calejadas.

– O vestido esconde um pouco as cicatrizes de luta. – Respondi rindo. Um riso triste se formou em sua boca também.

Ele pegou um longo casaco de veludo negro e me cobriu.

– Está muito frio lá fora. Vai precisar disso. E é claro, não quero que o garoto de sangue ruim veja muito de você. – Seu rosto era pacífico, mas eu podia ver seus olhos queimarem de ciúmes.

– O nome dele é Klaus. – O corrigi. – E de qualquer forma, essa vai ser a última vez que ele me verá.

– O que está planejando, Polly?

Peguei minha pequena bolsa preta. Dentro, eu levava o resto de minhas economias e uma única passagem que Nina comprou para mim. Eu partiria à meia noite e meia, beirando a uma da manhã.

– Gosto mais desse plano. – Ele admitiu sorrindo. – Mas como o inglês de sangue ruim não vai perceber a dama vermelha fugindo? – Às vezes eu acho que Ian deveria escrever contos ao invés de se acabar nas lutas.

– Ele estará bêbado demais para conseguir distinguir o vermelho do vestido e o vermelho do vinho.

Ian deu uma gargalhada gostosa, me abraçando em seguida feito um urso.

– Se ele tentar algo pode me avisar que eu vou acabar com ele.

– Se ele tentar algo eu mesma acabo com ele. – Corrigi-lhe.

Pensei em perguntar sobre Maya. Se eles haviam se despedido pacificamente. Mas Ian parecia em paz, e isso me respondeu que a despedida fora igual. Mesmo assim queria ter certeza, porém, ele preferia se despedir daquele jeito.

Levei minha fiel e melhor amiga separada numa caixa passada a chave. E a chave estava no meu cordão dourado. Minha arma e suas munições estavam bem escondidas, junto com meu antigo diário, que já havia dado muito problemas. Com certeza eu precisaria de ambos. Na minha bolsa preta um punhal e um canivete também eram meus acompanhantes. Uma garota sempre precavida.

Do alto da janela, pude ver um carro chegar timidamente, iluminando a grande árvore de Nina. Vi um vulto alegre sair do carro e constatei que o ingênuo Klaus havia chegado.

– Seu fantoche acabou de chegar. Embora eu não consiga distinguir agora quem é o fantoche. – A aparição de Nina veio se despedir. Não controlei e lhe mostrei o dedo.

– Somente você consegue ser suja e elegante ao mesmo tempo. – Ela disse sem parecer se afetar.

Peguei a minha mala. Isso convenceria Klaus, por um momento, que eu estava disposta a viajar com ele. Mas ao findar a noite, eu pegaria as minhas coisas e o abandonaria.

– Talvez você devesse se despedir dos seus pais. Já partiu uma vez sem o consentimento deles. Não vai querer partir assim de novo.

– Tem razão. – Dessa vez não houve conflitos entre nós duas. Mas eu ainda estava chateada por Nina nunca me ouvir.

Amanda e Rachel me esperavam na sala. Klaus também estava parado a minha espera.

– Está vestida para matar. Literalmente. Então, cuidado. – Amanda sussurrou no meu ouvido, antes de me abraçar forte. Assim que nos afastamos, ela e Nina deram as mãos.

– Espero que não tenha se esquecido do que prometeu. – Disse Rachel com cara de poucos amigos.

– Não esqueci. – Mostrei a ela a única passagem, de modo que Klaus não pudesse ver também. Ela parecia melhor.

– Polly. Ele é um bom cara. Não quero que o magoe. – Ele sussurrou antes de um abraço fraco.

– Vai poder consolá-lo quando eu for embora. – Eu disse, soando mais áspero do que planejava.

Rachel foi a única que se despediu de Klaus, embora fosse apenas um aceno fraco. Ele sorriu em resposta, mas logo virou-se para mim.

– Estou contente que tenha mudado de ideia. – Ele disse, beijando minhas mãos.

– Vamos fazer uma parada. Preciso me despedir dos meus pais. – Avisei secamente.

***

Durante o trajeto conversamos pouco, mas Klaus estava exageradamente animado para nossa aventura.

– Sabe de uma coisa, Polly? Faz muito tempo que não tenho uma aventura dessas. Eu costumava viajar muito, mas havia perdido o interesse. Você me trouxe o ânimo de volta.

– Faz muito tempo que eu queria partir. – Foi o que me limitei a dizer.

Eu sempre me perguntei por que Klaus se mostrava tão interessado em mim, sendo que tínhamos tão pouco em comum. Mas esse desejo por aventuras e o sonho de explorar o mundo era algo da antiga Polly que não havia mudado, e era o que nos unia no momento. Percebi que em outras circunstâncias, Klaus e eu daríamos bons parceiros de viagem.

– É aqui? – Ele disse, apontado para uma pequena casinha.

– Sim. Não se preocupe, eu não vou demorar. E bom, seria melhor você ficar no carro. Meu pai sempre foi bem ciumento.

Klaus soltou uma gargalhada.

– Claro. Quero ficar bem longe da espingarda do seu pai. – Ele sorriu sarcástico.

Surpreendi meus pais mais uma vez chegando sem avisar. Meu pai cochilava em sua poltrona, e a espingarda do seu lado. Minha mãe me recebeu maravilhada com o meu visual.

– Você devia se vestir assim mais vezes, ao invés daquelas roupas escuras e pesadas!

– Está belíssima, filha. – Disse meu pai, ainda meio grogue de sono.

– Obrigada. Eu devia ter voltado aqui, mas estava sem cabeça para isso. Eu vim me despedir de vocês.

Os dois se entreolharam confusos.

– Não entendo. Você disse que iria ficar. – Meu pai tentava entender.

– Eu sei, eu prometi. É uma pequena viagem. Eu voltarei logo. Estou indo visitar uma antiga amiga. – Arrepiei-me ao imaginar uma mulher patética feito Edith como amiga.

– Volte logo, e muito cuidado por esses caminhos! – Meu pai me advertiu, com toda a sua ingenuidade. Mas minha mãe, e minha tia Helena que acabara de chegar já haviam imaginado os meus planos.

Ambas se entreolharam e pareciam cansadas. Imaginei que eram cúmplices, e durante esses dias tentaram descobrir algum plano para me manter afastada de problemas. Mas seus abraços em time demonstravam que haviam desistido.

E assim, com os olhos ingênuos do meu pai, e com os olhos aflitos de minha mãe e de minha tia, deixei de lado todas as coisas que importavam para mim. E agora eu estava pronta.

***

Eu devia admitir que Klaus estava admirável aquela noite. Dessa vez não exagerou no perfume. Estava todo de preto, usando um enorme casaco que chegava quase aos pés. Seu cabelo sempre desarrumado dessa vez estava todo penteado para trás, dando-lhe a aparência mais velha. Também levava uma mala consigo, e alguma quantia em dinheiro. Mas para meu alívio, não voltou a tocar no assunto da viagem em momento algum da noite. Então depois de muito tempo, me permiti aproveitar uma festa.

Estar de volta ao salão de festas do colégio era algo incrível. O tempo parecia não ter passado naquele lugar. O assoalho continuava preservado, e a iluminação baixa deixava o local mais aconchegante e quente. Várias meninas desfilavam com seus vestidos rodados, em contraste com a decoração escarlate, com as cores do colégio. Uma banda de blues alegrava a festa, e garçons se desviavam das garotas com bebidas não alcoólicas e vinho para os adultos.

Peguei duas taças e ofereci uma a Klaus.

– Já está se sentindo em casa, não é? – Ele sorriu.

– Isso aqui já foi a minha casa. – “Antes de se tornar perigosa”, pensei.

A festa acabou sendo mais agradável do que eu esperava. Conheci a nova geração de professores, e fiquei feliz por não detectar nenhum comportamento estranho em qualquer um deles. Não queria que aquelas garotas corressem riscos. Garotas que percorriam Klaus com olhos doces, e curiosos e furiosos olhares atribuídos a mim.

Durante danças e banquetes, me limitei a tomar duas taças de vinho apenas. Klaus parecia mais alegre, e claro, bebia mais do que eu. Por vezes ele me oferecia várias, mas eu mantinha a promessa de nunca aceitar bebida nenhuma de pessoas não confiáveis.

– Polly, do que você tem tanto medo? – Ele soltou uma vez, encorajado pelo álcool.

– Do passado, Klaus. E do seu incrível poder no meu futuro.

Com a música alta ele não foi capaz de me ouvir, e foi melhor assim. Klaus rodopiou-me e disse, num tom elevado demais, que precisava conversar com alguns amigos professores. Observei-o se afastar lentamente e iniciar uma conversa distraída. Klaus estava alto e ocupado demais para se importar comigo, e essa era a minha deixa.

Assim que sai do salão, corri o máximo que podia apesar do salto, até chegar ao estacionamento. Segurei firme as chaves que eu havia roubado de Klaus, quando este se aproximou demais de mim. Só precisava pegar as minhas coisas e sair dali o mais rápido possível. Olhei as passagens mais uma vez no meu bolso, mas algo me cercou antes que eu pudesse fugir.

– Senti falta das minhas chaves, e da minha acompanhante. – Klaus sussurrou, me interceptando na porta do seu carro.

– Klaus...

–Eu sabia que você ia aprontar uma dessas. Não sou tão estúpido assim,sabia.

– Você não entende.

–Não. Você não entende. Já estou envolvido demais, e agora não posso deixar você fugir.

Tentei afastá-lo sem machucar, mas meu esforço havia sido em vão.Toda a pena que senti por ele naquele momento se esvaiu, pois Klaus agarrou meu rosto e roubou um beijo dos meus lábios sujos de vinho, como se estivesse faminto. Envolvendo-me mais forte nos seus braços, Klaus aproveitava o momento e tenho certeza que se sentia invencível. Mas ele iria se arrepender da sua pior atitude.

Notas finais
Então... o que vocês acham que vai acontecer com o devasso Klaus? Não esqueçam de comentar! E mais uma vez, muito obrigada por ler!