Polly

17 Fantasmas do passado


Notas iniciais
Esse capítulo acabou saindo maior do que eu planejava, mas espero que gostem! Nele há muitas revelações, e acabei de perceber que estou chegando perto do clímax dessa aventura da Polly. Espero que continuem lendo e interessados para ver até onde ela pode ir. Obrigada por estar lendo e boa leitura!

­– Nunca. Jamais faça isso novamente. – Cuspi ríspida como um lobo para Klaus.

– Como desejar. – Ele se atreveu a dizer.

Obriguei Klaus a ficar no banco de trás, como castigo. Primeiro porque não confiaria nele dirigindo. E segundo porque ele deveria manter distância de mim, para o bem de ambos. Olhei pelo espelho e segurei o riso novamente ao dar de cara com o rosto inchado de Klaus.

Ele havia me envolvido, e roubado um beijo. Sim, roubado, não havia expressão que melhor explicasse. Logo constatei que Klaus era daquelas pessoas que ganham uma coragem incrível à medida que consomem álcool. Ele me segurou firme e me empurrou para dentro do carro. Foi o momento para eu lhe dar um murro e afundá-lo no banco de trás. Arremetei dando-lhe um chute no meio das pernas. Escolhi bem em usar um scarpin aquele dia.

Ele ainda agonizava de dor, agora baixinho. Eu o fizera pedir perdão e prometer que jamais me obrigaria a fazer algo assim.

– Eu fui um idiota. – Ele admitiu, depois de um tempo.

– Que bom que você percebeu. Foi a melhor coisa que você fez depois daquilo.

– Eu estraguei tudo?

–Não. Ainda. Mas ajudaria se não me lembrasse disso.

Klaus se calou finalmente e desistiu de tentar se redimir. Ele havia me decepcionado muito, transformando toda a pena em ódio. Agora sentia o desejo de matar o seu pai na sua frente para mostrar a ele o que acontece com homens que se aproveitam de mim.Mas é claro que eu não era um monstro tão evoluído para isso.

Antes de sairmos da cidade, resolvi parar em um supermercado.

– O que estamos fazendo? – Klaus perguntou com sua voz sonolenta.

– Vou comprar algumas coisas para viagem, e você vai ficar aqui. Troque de roupas enquanto isso. Não queremos chegar à casa de uma senhora com roupas formais.

– Por que tenho que fazer tudo que você manda? Esse é o meu carro, sabia?

Eu o olhei, furiosa, e senti que ele se arrependeu logo depois de ter dito isso.

– Ainda quer se redimir, não é? Então vai fazer o que eu mando. – Tentei parecer firme, deixando-o trancado.

Encontrar alguma coisa aberta àquela hora era difícil na cidade, mas este lugar estava sempre aberto. E o melhor de tudo, não teria ninguém. Entrei em um pequeno banheiro que por sorte tinha um espelho. Limpei todo meu rosto de qualquer vestígio de maquiagem. Principalmente do batom vermelho borrado graças ao devasso Klaus. Tirei o apertado vestido vermelho e coloquei calças e um casaco mais quente. Um gorro vermelho deu um jeito no meu cabelo emaranhado.

Voltei ao mercado e comprei duas barras de chocolate, alguns biscoitos e energéticos. Talvez ficássemos por mais tempo na estrada e eu precisava me manter ligada. Não confio e nem posso confiar em Klaus.

Quando regressei ao carro Klaus estava com um casaco de lã e recostado no banco de trás, sonolento. Joguei-lhe uma barra de chocolate.

– Você não merecia, mas, não quero ninguém reclamando de fome durante a viagem.

Dessa vez ele não respondeu nada. Apenas de recostou e não demorou muito para que desistisse de ficar acordado. Finalmente tive a ótima sensação de ter apenas o silêncio como companhia. Assim eu poderia organizar minha mente confusa.

Tomei uma lata inteira de energético e mantive os olhos atentos na estrada escura e escorregadia. Entretanto, o burburinho em minha mente se tornou mais alto que o som do motor do carro.

Eu prometi a Ian, Nina e Rachel que partiria sozinha. Pouparia Klaus de futuros traumas e seria uma pessoa a menos que eu iria machucar. Porém, tudo acabou dando errado. E lá estava eu partindo para matar o seu pai, e seu filho é meu acompanhante.

Eu não planejara nada bem. De acordo com a carta, Marcus e Edith ainda moravam juntos, e se ele não foi covarde a ponto de fugir do seu próprio filho, ainda estaria lá. Um arrepio terrível desceu em meu corpo ao imaginar bater a porta e vê-lo atendendo para mim. Um homem beirando aos cinquenta anos. Como ele estaria? Seria capaz de me reconhecer? Não, nunca me reconheceria. Em sua mente ele pretende imortalizar minha imagem de criança a qual ele consegue dominar. E eu vou tirar isso dele.

Mas antes eu teria que me livrar de Klaus, mais uma vez.

***

Quando o céu negro apresentou as lindas cores roxas e bruxuleantes da alvorada, eu ainda planejava teorias a respeito da minha vingança. Meu coração palpitava graças ao efeito dos energéticos, e minhas mãos tremiam ao volante. Não devia ter exagerado tanto, mas pelo menos já estávamos na cidade. Sempre tive facilidade com mapas.

De acordo com o endereço da carta, a casa de Edith e Marcus ficava em um bairro afastado do centro urbano. Ainda precisava parar num posto para restabelecer o carro e tomar um café da manhã digno.

Fiz uma parada brusca para acordar Klaus do pior jeito: derrubando-o. Quando gritou assustado, achando que havíamos batido carro, não pude conter o riso.

­– Minha cabeça está girando de tanta dor. – Ele reclamou, com uma voz rouca de sono. Era a ressaca; um belo castigo para ele.

– Acorda logo e peça para encher o tanque. Vou comprar alguma coisa para comer. – Disse enquanto eu saía.

– Mas que honra finalmente ter a posse do meu carro! Obrigada por mandar em mim, Polly! – Ele disse num tom sarcástico.

Ignorei-o e corri até a lanchonete. Comprei dois pedaços de torta de chocolate e um café para a sua ressaca. Até que estava sendo gentil demais com ele. Mas o que eu planejava fazer era bem pior que um simples beijo forçado. Não fazia lógica condená-lo. Eu não tenho mais esse direito.

– Tome. – Ofereci e ele agarrou com veemência.

– Talvez eu deva dirigir agora. – Ele disse com a boca cheia de torta.

– Não. Já estamos chegando lá. Não vai fazer diferença.

– Polly, você passou a noite inteira acordada. Deixa eu te ajudar só um pouco.

– Não posso confiar em você, Klaus.

Ele pareceu magoado com a forma ríspida que eu disse.

– Eu sei, eu sinto muito. Já disse que não farei isso de novo. Não sou esse tipo de cara.

Ele tentava me convencer de que não era como o sádico do pai?

– Eu não vou me aproveitar de você, Polly. Eu acho isso repulsivo. Aquele beijo foi um erro, eu sei. Mas só fiz porque eu queria muito.

“Eu acho isso repulsivo”. Senti o desejo de lhe contar de uma vez todas as coisas repulsivas que seu pai havia feito comigo, e talvez com outras garotas. Mas a falta de coragem matou as palavras antes que elas chegassem a criar voz.

– Está bem. – Eu disse. – Mas eu fico aqui do seu lado.

Klaus pulou para o volante e eu me recostei ao banco, do seu lado. Talvez já se passasse das sete horas da manhã, e pelo visto aquele seria um dia ensolarado. Mas naquela região o tempo era sempre imprevisível, e tudo poderia mudar de uma hora para outra.

***

– Chegamos.

Diferente do modo brusco como eu o acordara, Klaus me acordou suavemente. Adormeci durante um curto período, mas de repente a paisagem havia mudado completamente. Estávamos numa rua coberta por árvores, e casas clássicas. Eu olhava agora para uma casa igual a todas, com o número que constava na carta. A casa de Edith.

Klaus me olhou apreensivo, e eu sentia o mesmo medo que ele. Talvez Edith me reconhecesse. Talvez Marcus esteja dentro daquela casa. E a simples hipótese de ver minha farsa sendo desmascarada perante seus olhos, já me causava arrepios.

Podia ouvir a voz aguda de Rachel dizendo “Eu te avisei”.

– Vamos ficar parados aqui o resto do dia? – Klaus finalmente se pronunciou. Seu rosto era um misto de empolgação e nervosismo.

– Sim. Vamos lá. – Reuni toda a coragem que eu ainda tinha e sai do carro.

Um portão alto de ferro nos dividia de um gramado tão verde quanto inacreditável. Porém estava destrancado.

– Deve ser um local pacífico. – Klaus comentou.

Por via das dúvidas, coloquei grandes óculos escuros. O dia ainda estava ensolarado, embora frio, então ninguém iria achar estranho.

Klaus apertou a campainha. A porta branca era ornamentada de vidros, possibilitando que eu visse todo o interior da casa. Mas tudo estava escuro e morto ali dentro, como se ninguém vivo habitasse aquele local. Klaus apertou a campainha mais uma vez. A única coisa viva naquele local fúnebre.

– Talvez ela não esteja em casa. – Eu disse para acalmá-lo.

– Talvez ela não more mais aqui. Olha para essa casa, Polly? Acredita que alguém vivo more aqui? Talvez... Talvez meu pai já esteja morto e toda essa viagem tenha sido em vão.

Suas palavras criaram um vazio dentro de mim. Como se tudo que eu tivesse feito, pensado e planejado durante todos esses últimos anos tenha virado nada.

– A única coisa morta nessa casa são essas plantas que eu acabei de recolher. – Disse uma voz feminina atrás de nós. Klaus virou-se para a voz num salto.

Era ela, só podia ser ela. Muitas rugas nasceram durante todos esses anos, mas o sorriso exagerado continuava o mesmo. O cabelo louro sem cor agora era quase dominado por fios brancos. Mesmo assim, era estranho ver uma mulher que outrora só usava salto alto e roupas de secretária usando um macacão jeans e luvas sujas de terra.

– Edith? – Klaus perguntou todo nervoso.

– Sou eu. O que deseja, meu filho? – Ela perguntou docemente, tirando as luvas de terra para abraçá-lo. Olhei para o lado a fim de que ela não percebesse minha presença.

– A senhora escreveu para mim há alguns meses. Eu sou Klaus.

O sorriso encantador e amarelo rapidamente sumiu de seu rosto, dando lugar a mais rugas de preocupação.

– Oh meu Deus... Eu pensei que você nunca me procuraria. – Ela estava boquiaberta. – Mas que diabo... você tem os olhos do seu pai!

Klaus pareceu contente com aquilo.

– E quem é a garota tímida atrás de você?

– Ah essa é a Po... Ai! – Pisei forte no seu pé a tempo de silenciá-lo.

– Meu nome é Amanda. Sou a namorada dele. – Klaus me olhou estupefato.

– Então estamos todos em família! Por favor, entrem. Aposto que você procura algumas respostas, meu jovem. – Ela nos empurrou para dentro da sala morta, e seus olhos me acompanharam.

A sala tinha um cheiro forte de coisas guardadas. Edith abriu todas as cortinas e janelas, e parecia que aqueles móveis em mogno não viam a luz do sol há anos. Pareciam esperar por nossa visita.

– A mocinha tem algum problema de vista? – Ela apontou para os meus óculos.

– Não sei . Há muitas coisas que eu não sei sobre... Amanda. Ela sempre me surpreende. – Klaus me olhou desafiador. Estava brincando comigo.

Tirei os óculos, mas mantive o olhar baixo. Edith tinha seus olhos fixados em mim, e aquilo estava me deixando cada vez mais nervosa. Pensei que a novidade de Klaus tiraria toda a atenção de mim.

– Tenho a impressão de que a conheço de algum lugar.

– Impressão sua, senhora. Acabei de chegar à cidade. – Respondi, agradecendo aos céus por não ter mais o sotaque tão carregado.

Klaus ainda me olhava incrédulo, ainda mais confuso do que antes de chegar ali.

– Meu pai... Ainda mora aqui? – Ele foi direto. Edith parecia melancólica.

– Vou trazer café e um pouco de bolo. E então conversaremos sobre o seu pai. –Ele se afastou com o mesmo sorriso amarelo de antes.

Três segundos depois Klaus me cercou.

– Que história maluca de Amanda é essa?! E agora somos namorados, é?! Que eu saiba namorados se beijam e não batem nos outros. A menos que você seja sadomasoquista.

– Shhh... Coloquei o dedo entre os seus lábios. – Dá pra falar mais baixo?

– Então explique-se, Amanda. – Ele agarrou a minha mão.

– Eu e Edith tivemos alguns desentendimentos quando eu ainda estudava no Bertha. Eu pensei que se ela me reconhecesse talvez estragasse todo o nosso plano. – Foi o que apenas pude oferecer a ele sobre a verdade.

– E por que não me disse isso antes?

– Eu não sei. Eu pensei que ela não se lembrasse de mim.

– Foi tão sério assim? Quer dizer, o que aconteceu entre vocês duas?

– Não quero falar sobre isso, Klaus.

Ele se recostou na cadeira de couro e bufou, desanimado.

– Será que algum dia irei te conhecer, Polly? – Ele resmungou, e percebi que era uma pergunta retórica.

–Seu pai se sentava nesta poltrona, sabia? – Edith retornou com xícaras de café e um bolo de chocolate.

– A senhora é a pessoa certa para me falar sobre ele.

Edith sentou-se lentamente do meu lado. Ela devia ter uns cinquenta anos agora, mas parecia muito mais velha. Entretanto, um sorriso jovial nos ofereceu assim que começou a falar sobre o seu assunto preferido desde os quarenta anos: Marcus.

– Você se sentiria muito orgulhoso em tê-lo como pai! Marcus é um verdadeiro gentleman. Parece ter saído de outro século. Tem a educação e os princípios de outro século. Lia os melhores clássicos e sempre tinha uma ótima recomendação na ponta da língua. Sim... um verdadeiro gentleman. – Ela suspirou nostálgica.

Apesar de seu enjoativo discurso sobre Marcus estar no presente, seu ar taciturno e nostálgico me deixou preocupada. Para alívio e preocupação, era óbvio que ele não morava mais naquela casa. Então... onde estaria ele? Não, não podia estar morto. Não antes de eu ter a minha chance.

– Cada vez mais eu tenho a curiosidade de conhecê-lo. – Marcus parecia realmente animado com o seu pai.

– Pegue o porta-retrato do seu lado, minha filha. – Ela disse para mim.

Deparei-me com Marcus dez anos mais velho. O cabelo cinza cor de rato, e algumas rugas. Diferente de Edith, o tempo não lhe maltratara tanto assim. Parecia feliz como um vencedor. Senti vontade de rasgá-lo e jogá-lo no fogo.

– Essa é a minha foto preferida dele. – Ela suspirou, olhando para ele. – Ele está de terno, assim como um cavalheiro deve estar. Está segurando o seu livro preferido.

– Lolita. Um clássico. – Klaus pegou a foto, procurando semelhanças entre os dois. – Não somos nada parecidos. – Ele parecia decepcionado.

– Tem o mais importante. Os seus olhos. E não duvido que não seja um cavalheiro. Estou errada, Amanda? – Senti meu rosto enrubescer.

– Acredito que Klaus seja ainda melhor que o pai. – Disse sarcástica.

Klaus entendia que tudo fazia parte da encenação. Mas mesmo assim ele pareceu contente ao ouvir isso.

– Mas onde está o meu pai agora? –Ele tornou a perguntar. Afinal, era o que todos naquela casa queriam saber.

– Eu não sei como dizer isso. Você talvez tenha uma imagem ruim a respeito do seu pai. Mas tente compreendê-lo. A única imagem de pai que Marcus teve na vida foi horrível. Ele era impaciente, queria que o filho aprendesse a cuidar de sua fazenda. Ser um verdadeiro homem da terra, matar porcos, cavalgar puro-sangue. Mas aquele não era o seu pai. Seu sonho era contar histórias. E fazer história era o que ele queria. E sofreu demais quando tomou a decisão. Bom... seu avô tinha sempre um chicote no cinto para por ordem em seus animais. Chegou a uma situação em que seu filho e seus cavalos recebiam o mesmo tratamento.

Uma lágrima serpenteava entre as rugas do seu rosto, até morrerem em seus lábios murchos. Klaus absorvia todas aquelas informações desolado. E eu sentia uma estranha satisfação por ver que Marcus sofreu. Isso me faz um monstro terrível, mas sou incapaz de sentir pena dele. Mesmo que naquela época ele fosse apenas um garoto com sonhos ingênuos. Assim como eu fui um dia.

– Quando eu lhe contei que havia surgido a notícia que seu filho havia retornado, ele entrou em pânico. A única certeza em sua vida era que nunca seria pai. Ele nunca seria capaz de dar um amor fraterno a qual nunca recebeu. É um homem sábio, mas nunca saberia ser um pai. Por isso ele foi embora e me abandonou, Klaus. Para o seu bem e para minha terrível desgraça. – E assim ela desatou a chorar.

– Não! – Klaus de repente gritou. Estava desesperado. – Eu preciso da ajuda dele. Eu preciso da sua ajuda! Eu demorei a aparecer, eu sei, mas estou perdido e não tenho dinheiro e não tenho ninguém!

Klaus estava desesperado e eu estava confusa. Percebi que eu não era a única a esconder algo.

– Quem disse que você não tem nada, meu filho? Esta casa é sua. Quer dizer, não restou muita coisa da herança do seu avô. Seu pai vendeu tudo, pois queria o legado do pai perdido. Foi uma vingança pessoal. Mas esta casa está no seu nome. Fiz isso escondido assim que seu pai me abandonou. É sua por direito e eu tive uma pequena vingança pessoal. – Ela sorriu para ele.

Klaus parecia mais aliviado por ter uma herança do que ter o pai. Rapidamente constatei que seu filho não era tão íntegro como aparentava ser. Mas havia um motivo, e eu iria descobrir.

– Eu queria conversar com ele, pelo menos uma vez na vida.

– Ele pode ter ido para vários lugares. Se eu soubesse com certeza teria lhe dito.

Não pude acreditar. Minha única pista foi em vão. Agora voltei a estaca zero. Klaus tinha a sua verdade e a herança,que é o que realmente importa. Mas Marcus poderia estar morto, e morrera feliz. Tendo a minha imagem imortalizada como criança assustada.

– Por favor, fiquem aqui. Pelo menos essa noite. Temos um quarto de hóspedes com uma cama de casal. Esta casa vale muito, como deu para perceber.

– Não acho que seja uma boa ideia. – Respondi nervosa.

– Não precisa se envergonhar minha filha. Eu sou velha, mas não uma santa. Eu sei que os dois querem um pouco de privacidade. Podem trazer suas coisas. E podem ficar quanto tempo quiserem!

Eu não queria ficar mais ali. Eu não queria estar numa casa rodeada de fotos de Marcus. Já basta vê-lo em meus pesadelos.

– Não se preocupe. Eu vou me comportar dessa vez. – Klaus sussurrou no meu ouvido, antes de ir para o carro.

***

Enquanto carregávamos nossas coisas para o quarto que Edith nos ofereceu, o celular de Klaus vibrava a cada segundo. Nas primeiras ligações ele olhava para o aparelho e rapidamente desligava apreensivo. Agora o deixava tocando no bolso enquanto a cor sumia do seu rosto. Alguém estava atrás dele e pelo visto não era nada bom.

– Você devia atender. Deixa que eu cuido dessas coisas.

– Realmente devia atender, mas não quero. – Ele disse antes de se retirar.

Acompanhei-o até que ele atendeu. Infelizmente não podia ouvir nada que a outra pessoa na linha falava, mas Klaus falava claramente.

– Pare de me ligar. Eu disse que quando eu voltasse iríamos resolver tudo isso.

Algo dizia que aquele telefonema tinha alguma coisa a ver com a necessidade de Klaus de receber a herança.

– Não eu não tenho nenhum dinheiro ainda, mas a casa já está no meu nome. Eu lhe devolverei tudo com juros. Eu prometo.

Minhas suspeitas eram concretas. Klaus devia dinheiro.

– Não toque nela! Eu vou te encontrar.

Klaus desligou o telefone e voltou para o carro. Não veio atrás de mim, e percebi que ele queria me proteger de algo. Mas eu sabia me proteger, e ele não. Por sorte, eu estava com minha inseparável amiga na bolsa. Corri para a garagem de Edith, esperando encontrar um carro. No lugar, havia uma bicicleta branca e rosa com um cesto cheio de flores.

– Isso vai servir. – Repeti para mim mesma enquanto tentava alcançá-lo.

***

Klaus dirigia bem devagar, como se não quisesse chegar ao local combinado. Eu me esforçava ao máximo para não perdê-lo de vista, mas às vezes ele entrava em uma rua diferente e fugia de mim. Já estava chegando a uma rua mais movimentada, quando ele saiu do carro. Mantive-me afastada e escondi a bicicleta num beco. Foi o tempo suficiente para ele se perder na multidão e fugir do meu campo de vista.

Murmurei um palavrão e me afundei num mar de pessoas, procurando por uma jaqueta de couro e um par de olhos de dar medo. Mas a cada minuto a confusão era maior e Klaus estava distante de mim. Por um milagre, consegui me livrar da multidão, e nada de Klaus.

Murmurei um palavrão e me recostei em um muro, ao lado de um beco. Acabei me perdendo numa rua deserta, sem nenhum sinal de Klaus. Estava quase a desistir quando escutei um som de murros e uns gemidos de dor. Entrei no beco ao meu lado escuro, e finalmente o encontrei. E entendi porque ele ia tão devagar ao local combinado.

Um homem careca com braços monstruosos atacava-o com socos e pontapés. Quase no automático, dei-lhe um golpe na nuca com um saco cheio de moedas que eu sempre carregava na bolsa. Eu nunca gastara aquelas moedas, mas elas eram perfeitas para se livrar de um assalto. O homem caiu no chão xingando.

– Some daqui, Klaus! – Gritei enquanto o enchia de pontapés no quadril, assim como ele fizera.

Klaus se arrastava pelo chão com o rosto coberto de sangue. O homem agonizava de dor, mas tinha forças o bastante para me derrubar. Jogou minha bolsa de lado, fazendo a arma escapar para fora. Congelei naquele instante. Eu precisava pegar a arma antes que ele percebesse, ou provavelmente estava perdida. Talvez o misto de adrenalina e medo me fizeram ser mais rápida que o monstro sem cabelo e eu recuperei minha melhor amiga de volta. Dei-lhe outro murro com a arma, levantei-me e coloquei a arma encostada a sua nuca.

– Eu não sei por que você está atrás de Klaus, embora ainda hoje eu o obrigue a explicar. Só sei que você não vai mais nos procurar. Ou então, eu não vou hesitar em apertar o gatilho. – Eu estava tremendo, nervosa, mas minha voz não me traiu. Permaneci firme.

–Eu... Quero o dinheiro. – O homem careca balbuciou. Eu não fazia ideia do que ele estava falando, mas percebi que aquele era o motivo de Klaus ter apanhado tanto.

– Está vivo. Aceite isso como recompensa.

Afastei-me olhando e apontando a arma para o homem careca. Klaus esperava por mim.

– Eu posso explicar... – Ele começou, mas eu o impedi.

– Depois. Vamos dar o fora daqui e rápido.

***

Era a segunda vez que Klaus apanhava no mesmo dia. Os murros do homem careca só fez piorar o inchaço da lição que eu havia lhe dado nessa madrugada. Seu rosto estava destruído, mas eu não me arrependia. Pelo menos lhe ajudava fazendo alguns curativos e lhe dando bolsas de gelo e remédios, assim como fazia com Ian sempre que ele retornava de uma luta. Concentrei-me para não pensar em Ian, pois isso sempre partia o meu coração.

E sobre corações partidos, Edith nos recebeu com o seu na mão. Queria saber o que acontecera com Klaus, insistindo em levá-lo para o hospital. Disse-lhe que não era necessário se ela me trouxesse o que eu pedisse. E assim o fez, nos levando para o quarto, onde enfim ele poderia me explicar o que aconteceu.

– Não sabia que você tinha uma arma. Isso não é proibido? – Klaus balbuciou com seus lábios inchados de dor.

– Tenho uma licença para usá-la. Somente em casos de emergência.

– Há muitas coisas que eu não sei sobre você, Polly.

E pelo visto eu não era a única a manter segredos.

– Quem era aquele cara? E o que ele queria?

– Eu não sei. – Balbuciou Klaus com os lábios inchados. – Ele é só um contratado.

– Contratado por quem? E por quê?

Klaus ficou em silêncio por um bom tempo.

– Não faço ideia de como ele descobriu onde eu estava.

– Klaus, eu salvei sua vida. E eu preciso saber por que estão atrás de você, para que isso não aconteça de novo.

Ele vacilou por um momento. Olhou-me com os olhos envergonhados, com medo de me decepcionar mais uma vez.

– Você deve me achar o pior cara do mundo. Beijei-a contra a sua vontade e agora sou procurado por mercenários. – Sua voz tinha um forçado ar de piedade.

– Já conheci piores. – “Como o seu pai, por exemplo”.

Aquilo pareceu deixá-lo mais à vontade para falar. Mas ele quis ser breve.

– Eu não fui sincero com você. Quando resolvi ir atrás do meu pai, foi além do que “carência paterna”. Eu não tinha mais ninguém. Envolvi-me com muitas coisas erradas na faculdade, e dívidas foram se acumulando. Acabei perdendo meu emprego como professor. Peguei o dinheiro que estava juntando para pagar as pessoas perigosas, e viajei. Consegui uma licença para trabalhar aqui por um ano, e já está se esgotando. Se eu comprovar que Marcus é meu pai, eu posso ficar aqui. Pensei estar seguro, mas eles me encontram de um jeito de outro.

Eu jamais poderia imaginar que Klaus, com todo a sua elegância, fosse um devasso mau pagador. Lembrei-me de como ele ficara com o efeito do vinho. Talvez não fosse sua culpa, afinal. Talvez ele tivesse um histórico a qual era envergonhado demais para recordar.

– Mas quando eu te conheci, eu já estava sendo ameaçado. Essa não é minha primeira briga e nem será a última, Polly. Pensei que se encontrasse o meu pai, poderia pedir uma herança. Imagine que apresentação maravilhosa. “ Olá, eu sou o filho que você abandonou. Não, não precisa se sentir culpado. Apenas confirme ser o meu pai oficialmente e me dê algum dinheiro, porque me meti em algumas enrascadas. Sabe como é, não tive um exemplo de pai para seguir. E você, nem um filho para pagar mesadas todo o mês. Acho que ficaremos quites agora”. – Klaus tentou sorrir, mas seus lábios inchados se contraíram de uma forma estranha e acredito que dolorosa.

– Por isso você insistiu tanto em vir comigo. Você está fugindo. – Murmurei.

– Não pense errado, Polly. Eu sou encantado por você, apesar de me dar medo. Ainda mais agora que eu sei como sabe manejar uma arma e bater. Veja pelo meu lado. Você era minha última chance, eu não podia te deixar.

Eu não podia sentir raiva de Klaus, não depois daquilo. Eu só podia me sentir culpada por manter essa mentira por tanto tempo. Eu queria dizer antes que fosse tarde que o seu pai era um monstro, e que iria lhe decepcionar. Marcus jamais lhe aceitaria como pai, e ele voltaria para seu antigo lar sem pai, sem herança e com mais dívidas. Sem saber o que fazer, sem coragem para lhe dar a verdade, eu o envolvi em meus braços como se aquilo pudesse lhe proteger de tudo.

Ele não reclamou, mas eu sabia que devia doer. No dia seguinte Klaus teria hematomas por todo o corpo, e precisaria de remédios contra a dor. Mas eu o queria fazer bem.

– Isso dói? – Perguntei, me afastando.

– Posso lidar com isso. – Klaus disse sem medo de sorrir.

– E isso? – Inclinei e lhe dei um beijo leve.

– Eu até esqueceria a dor por isso. – Ele mentiu com um sorriso.

Estávamos no quarto que Edith nos reservara. Era espaçoso e aconchegante, com uma cama enorme e macia. As horas haviam corrido quando enfim percebi que passamos a tarde toda correndo atrás de alguém e fugindo. Mas mesmo assim as luzes continuavam desligadas, salvo um velho abajur ao lado da cama. Eu sabia que não era prudente avançar com aquela situação, mas deixei que ele me beijasse. Tomei cuidado para que não o machucasse, afastando por um momento a repulsa que eu sentia por seus laços sanguíneos. Mas quando Klaus deixou sua mão em minha coxa enquanto se encaminhava para outro lugar, meu corpo o repeliu imediatamente.

– Qual o problema? – Disse Marcus.

Sim, eu o tinha na minha frente agora. A escuridão, impedida apenas pela luz fraca do abajur, deixava o seu rosto coberto por sombras. Klaus me olhava com os olhos dominadores do pai e o sorriso diabólico. Com aquele toque um lapso de memória me ocorreu e eu simplesmente não podia continuar.

– Polly? Você está bem?

Ele deve me achar uma maluca desequilibrada. Eu havia chegado para o canto da cama, longe o possível dele. Klaus me olhava perguntando o que fez de errado, e a resposta era nada. Eu havia errado em tudo, ao arrastá-lo para esse inferno e ter a ideia perturbada de que há nele a maldição do pai. Talvez eu realmente estivesse maluca, mas o que importava era que deveria sair dali.

– Preciso respirar um pouco. – Disse ofegante, levantando-me o mais rápido possível e repetindo incansáveis vezes para eu mesma: não chore, não chore.

***

Tomei um longo banho quente. Vesti roupas quentes. Vi Edith largar seus livros de poesia e se retirar para dormir. Mas eu não sentia vontade de subir de volta para aquele quarto. Dirigi-me para a cozinha. Precisava de um pouco de água e de um momento sozinha para repor os pensamentos de acordo com a razão. Como eu precisava de Nina agora. Ele saberia o que fazer.

Havia uma foto pendurada de Marcus e Edith, sorrindo felizes durante uma ceia de natal. Sem pensar joguei os dois no chão e os pisoteei com toda a minha força. Sentia cada pedaço de mim cedendo à loucura lentamente. A foto escapou dos cacos de vidro e percebi que havia algo escrito atrás dela. Peguei o papel, cortando um dos dedos.

“ Edith. Eu sempre pude compartilhar meus segredos com você e sei que jamais me desapontaria. Mas dessa vez você falhou em procurar aquele garoto sem que eu soubesse. Agora preciso me afastar de você, mas sei que continuará me escrevendo. Assim como eu escreverei. Espero que me mantenha informada sobre tudo, como sempre me ajudou. Com amor, Marcus. ’’

Embaixo havia um endereço. Era uma fazenda, e pelo visto, uma fazenda rica. Era o suficiente para voltar a busca. E talvez com a morte de Marcus minha sanidade voltasse para mim.

– Seu nome não é Amanda. – Uma voz surgiu atrás de mim, me fazendo congelar.

Edith estava atrás de mim, com uma camisola enorme e esvoaçante, e os cabelos tão brancos e velhos como a flanela que usava.

– Não sei do que está falando. – Tentei disfarçar. Edith tinha uma faca nas mãos, e eu estava afastada demais de alguma para me defender.

– Ah, não tente me enganar, Polly. Eu sou velha, mas ainda não estou cega. Acha que eu não a reconheci? Eu sempre soube que você voltaria para nos atormentar novamente.

Ela se aproximou um pouco mais, e abriu a geladeira. Eu não tinha ideia do que ela iria fazer, quando ela me surpreendeu pegando uma pequena tigela de biscoitos. Igualzinha aos biscoitos de Marcus.

– Eu tinha feito como sobremesa do jantar, mas nenhum dos dois quisera comer, então guardei para uma ocasião especial. Como agora. – Ela sorriu para mim.

– Edith, a senhora não entende. Não entende o que ele fez comigo. – Eu percebi que as lágrimas começavam a surgir.

– O que ele fez com você? E o que você quer fazer com ele? Quer matá-lo e pegar tudo que ele tem, para conseguir sua vingança. E o pior de tudo, enfeitiçando o filho.

– A senhora realmente não faz ideia, não é? Acreditou em tudo que ele lhe disse, esses anos todos. Será que nunca percebeu? Ele a fez mentir para a polícia! Já imaginou por que ele a obrigou a fazer isso? Se ele não tivesse culpa, por que o faria? E antes disso ele nem ao menos olhava para a senhora. Era velha demais, é claro.

Edith transferiu toda a sua raiva numa bofetada poderosa. Ela estava começando a enxergar a verdade, só não queria aceitá-la.

– Coma. – Ela pegou um biscoito. – Agora. – Disse com mais firmeza.

Eu sabia bem antes de prová-lo que os biscoitos estavam envenenados.

– O veneno é a arma dos fracos. – Disse para ofendê-la.

– Sim, e admito ser uma fraca. Mas pelo menos não sou uma mulher morta. Agora coma. – Ela levou a faca a minha jugular.

Empurrei-a contra o chão e procurei por uma faca.

–A senhora é fraca, e eu sou jovem e sei o que estou fazendo. Não é a primeira vez. Já arranquei sangue de muitas pessoas e não sentiria pena em fazer isso agora.

– Mas não o faz, porque ninguém iria acreditar que agiu por legítima defesa. Imagine só, a garota que tentou acusar o professor de estupro, obriga o filho de ele a acompanhá-la e matá-lo. Matando uma velha conhecida da cidade e um professor influente. Vejam só, queridos jornais! Um novo casal de psicopatas para estampar as telas sensacionalistas!

– Eu a arrasto e o mato na sua frente. Queimo o local com os dois dentro, e ninguém jamais irá saber a verdade. Não duvide de mim, Edith. Não me encontro no meu momento mais lúcido. Eu sei onde ele está, e não há nada que você possa fazer para me atrapalhar.

Edith deu uma gargalhada e me olhou como se zombasse de mim.

– Garota inocente. Somente eu sei onde ele está.

E desse jeito, completamente em paz da situação, Edith comeu um dos biscoitos com uma mordida só.

Notas finais
Edith morta? Será mesmo? Bom, seria uma alívio. Até fácil demais. Estou super curiosa para saber o que acharam deste capítulo, então não se sintam envergonhados de comentar. Preciso de suas opiniões! E espero encontrá-los no próximo capítulo!