Polly
22 Dia do caçador
Notas iniciais
Adormeci relendo pela terceira vez o caderno de Marcus. Não sei se suas palavras ou o som de seu esforço para se livrar da cama tiveram efeito, pois meu subconsciente estava atormentado por sonhos de imagens que não possuíam sentido algum. A péssima noite de sono me deixara ainda mais abatida que outrora.
Enquanto bebia um café (a única coisa que ainda não tinha vencido naquela casa), eu arquitetava um plano para levar a público todo o conteúdo daquele caderno. Seria a desgraça final de todo o status que Marcus fingira até então, e o choque de realidade em todos aqueles que o ajudaram e acreditaram em suas mentiras. Claro, os que ainda permaneciam vivos.
É uma ideia, daquelas surgidas entre conexões de palavras aleatórias, foi a escolhida. Uma confissão. Um suicídio. Eu só precisava cuidar bem do cenário e jamais haveria dúvidas do ápice da fraqueza de um monstro.
Voltando ao seu quarto, eu estava ansiosa para lhe dizer as boas novas. Marcus estava ensopado pelo suor e de sua cama exalada um cheiro horrível. Percebi que ele fitava a gaveta que eu abrira na noite passada, estupefato.
– Estou vendo que conseguiu entrar em todos os meus segredos. – Ele olhou para mim, e parecia assustado.
– Se está falando dos seus desenhos, sim, eu os encontrei. – Senti meu rosto enrubescer com a memória daqueles rabiscos, enquanto Marcus parecia sentir-se mais aliviado.
– O que pretende fazer comigo agora?
Não lhe respondi, queria que ele adivinhasse. Andando por todo o quarto à procura de papel e caneta, acompanhada de minha arma. Encontrei jogado pelo chão um papel que deveria se tornar mais uma carta à Edith, mas se tornaria apenas suas últimas palavras escritas. Quando desatei o nó que prendia sua mão direita, ele por fim tomou conhecimento dos meus planos.
– Uma confissão suicida. Ah Polly, é próprio dos covardes não assumir os erros que cometem.
– Não suporto mais suas reflexões carregadas de hipocrisia. E nem tente se livrar ou eu vou acabar com você de uma forma bem pior. Lembre-se, eu posso quebrar todos os seus ossos e ainda forjar sua letra. – Dei-lhe um ultimato, e dando-se por vencido, colocou-se sob minhas ordens mais uma vez.
À todas as pessoas que acreditaram em mim até então, preciso dizer que todas são tão estúpidas e ingênuas quanto um animal. E se derramarem sequer uma lágrima por mim, provavelmente tenham algum nível de retardo mental. Com um tiro eu tiro minha existência hipócrita deste mundo, mas antes, acredito que dizer-lhes a verdade seria o meu único saldo positivo nesta vida. Fui um exímio professor e pedófilo. Enganei e manipulei mentes fáceis, pois a maioria das mentes o são. Burlei leis e regras graças à herança que me foi dada por um homem que ajudou a construir este monstro que sou agora. E não há solução para mim senão a morte. Espero que depois do conteúdo descrito nesse pequeno livro, suas mentes aprendam de uma vez por todas que a maldade não é fictícia. Ela está dentro de nós.
Depois do que me pareceu uma eternidade, Marcus entregou seu bilhete suicida em uma caligrafia impecável. Li todas as palavras, procurando o mínimo sinal de mudança, uma entrelinha que denunciasse o meu plano ou algum código feito por erros de ortografia. Não havia nada além do que eu havia pedido.
– Quer dizer algo da sua autoria pela última vez? – Minha arma estava em direção a sua mente doentia.
Marcus fitava as cortinas esvoaçantes, como se procurasse algo no horizonte naquela fria manhã de agosto.
– Só queria dizer que temos visitas. – Seu sorrido gélido dirigido a mim foi o causador do meu desmoronamento moral. Ao seguir seu olhar, encarei um problema que pensei não ter que lidar nunca mais. Um carro que eu conhecia tão bem estava ali estacionado. O som da campainha imobilizou-me feito estátua.
***
Klaus apertava a campainha incessantemente. Minha mão, ainda estendida com a arma contra Marcus, tremia violentamente.
– É melhor atender. Ambos não queremos que ele me veja assim. – Ele sorria sarcasticamente, mas era perceptível o seu medo.
O som agudo da campainha foi substituído por batidas estridentes na porta que parecia não aguentar por muito tempo.
Com o coração batendo ao ritmo dos socos furiosos de Klaus, eu me aproximei da porta, deixando Marcus sozinho em seu quarto. Eram poucos os passos até encarar o mal que eu havia lhe causado. Senti meu corpo gelar de medo e remorso, constatando-se pelo suor frio que ele não estava preparado para pagar o preço da vingança.
O homem possesso que se apresentou já não era mais Klaus. Os olhos haviam conseguido superar o efeito demoníaco do seu precursor. Misturado ao âmbar havia a decepção que me desconcertou. Seu olhar viajava entre mim e arma, e a vergonha me fez jogá-la pelo canto abandonado. A respiração ofegante mostrava esforço para extrair toda a raiva, e os emaranhados em seus cabelos não podiam representar melhor a confusão em sua mente.
– Onde ele está? – Sua voz foi dura e sem entonação de pergunta.
– Klaus, eu posso explicar.
– Não precisa! Rachel me contou a grosso modo,e completei o resto na minha mente conturbada. Não sou tão burro quanto você pensa. – Ele cuspia suas palavras.
Eu devia ter desconfiado antes de dizer a Rachel. Ela não conseguiria guardar segredo, principalmente de Klaus, que ultimamente estava confundindo o seu coração.
– Ela me mostrou para onde você havia partido. E eu como um estúpido fui atrás, preocupado com o que você poderia fazer. Encontrei mais uma família desolada, um pai que me indicou o possível lugar onde poderia te encontrar e o pior de tudo: uma criança que a considera uma heroína. – Ele riu sarcasticamente, zombando do monstro que eu me tornara.
– Uma criança que foi estuprada pelo seu pai! – Proferi aquelas duras palavras, me arrependendo subitamente. Klaus parecia ter levado uma facada em seu peito com aquela verdade.
– Você consegue ter um mínimo de empatia ainda? Como teve a capacidade de mentir para mim? Eu preferia saber que meu pai estava morto, e agora terei de conviver com esse pesadelo. Sabe como é sentir que o sangue de um monstro corre em suas vezes? Sabe o que é ter de conviver com a terrível ideia de ser fruto de um estupro?
O rosto de Klaus estava rubro e agora ele gritava. Eu sabia que Marcus era capaz de nos ouvir agora. As lágrimas começavam a correr tanto em meu rosto quanto no seu.
– Eu sinto muito, você não merecia nada disso. Eu tentei te afastar, mas você insistiu e insistiu...
– Porque eu estava apaixonado por você, porra! Viajar com você à procura do meu pai, é claro que eu não ia deixar passar. Mas você me usou, Polly. E agora eu nem sei mais o que sinto, o que eu sou. Só gostaria de nunca ter nascido.
Klaus proferia todas as mágoas e as cuspia em mim, e eu sentia que merecia aquilo. Ao perceber até onde aquela situação fora, percebi que havia me perdido completamente. Tornara-me algo frio e desumano. Havia perdido os sentidos para os sentimentos, deixando de perceber detalhes importantes por estar presa nos problemas que eu havia causado.
Detalhes cruciais como os avisos de Nina, que sempre pressentia um erro.
Um erro simples e terrível como deixar uma mão de prisioneiro livre.
***
–Klaus, você precisa sair daqui. – Ordenei.
– Tarde demais,Pollyana. – Ouvi a voz de Marcus atrás de mim e o som de uma arma sacada.
Onde estaria aquela arma que eu não percebera até então?
– Deveria ter olhado melhor aquela gaveta. Eu tenho muitos esconderijos. – Ele respondeu, lendo o meu pensamento como sempre fizera.
Percebi que meu corpo estava petrificado. As mãos para cima, qualquer movimento poderia ser meu fim. Eu parecia entrar em um torpor ocasionado pelo choque, que paralisava todo o meu ser. Só conseguia pensar no que eu havia errado, tanto esforço para ser derrotada por ele mais uma vez. O causador, a única fraqueza que eu deixara aberta estava bem à minha frente, assustado com a imagem do pai que ele tanto sonhara e que rapidamente se transformara num pesadelo. Seus olhos, agora não mais enfurecidos e sim temerosos, dividiam-se entre mim e o seu precursor.
– A única coisa que eu te pedi, Polly, a única coisa que eu apelei para o seu lado humano, é que o poupasse dessa história.
Não era possível que ele pudesse fazer isso agora. Transformar-me em um monstro e dar-lhe pelo menos o saldo positivo de poupar a inocência do filho.
Klaus nada dizia, mas parecia tentar com todos os esforços. Ou apenas esperava o momento certo para dar vida a sua voz. Olhar em seus olhos era o único reflexo que eu poderia ter do homem que mais uma vez tentava me destruir.
– É uma pena ver aquela doce criança se tornar esse ser maligno a minha frente. Preciso afirmar, é claro, que nunca conheci mulher tão forte quanto você. Além da sua mãe, é claro.
A reação feroz de Klaus me fez perceber que ele não se dirigia a minha mãe, e sim a mulher que talvez tenha sido sua vítima ou não.
– Você não tem o direito de falar da minha mãe! – Klaus bradou, e logo me vi controlando seus braços em uma técnica rápida de luta.
– Não se mexa, Polly! – Marcus gritou atrás de mim, e por um momento eu pude sentir o sangue recuar ao coração.
Eu sabia naquele momento que eu poderia morrer de dois jeitos. Enfrentando Marcus sem uma arma sequer, ou salvando Klaus do tiro certeiro. Era certo que Marcus não soubesse lutar, Ian deixara isso bem claro. Porém, as caçadas a pássaros que tanto o seu pai quanto o meu amavam, serviram de primeira escola da forma mais rápida de matar alguém.
– Não toque nela. – Disse Klaus, tentando manter firmeza, porém eu podia sentir o seu medo. Apesar de saber que ele não era capaz, sentia-me estupefata por até mesmo naquele momento ele demonstrar cuidados sobre mim.
Mas eu não merecia os seus cuidados. Eu deveria cuidar dele.
– Marcus, a morte não me assusta e você sabe disso. Já adquiri minha vingança destruindo-lhe tudo que mais importa para você. A lembrança de uma ninfeta, a inocência de um filho e a sua reputação. – Joguei o caderno preto para Klaus, sabendo que aquele seria meu último golpe contra Marcus. Desnudar a sua perversidade para o seu próprio filho. Ser pior que o seu pai.
– Pois que não seja você a morrer então.
Minhas pupilas se dilataram na medida em que o gelo do terror paralisou meu coração. Escutei o som da arma sendo sacada, e somente com o som pude inferir a sua direção. O coração de Klaus, algo que tanto me fora oferecido, e que mesmo não podendo retribuir com o meu, poderia retribuir com a minha vida. Se assim como Marcus eu merecia morrer, que morresse com este saldo positivo.
Joguei-me sobre ele, e Klaus desabou ao chão. A bala perfurara a minha fria carne antes mesmo que o terrível som inundasse o local. A dor fez com que um gemido acompanhasse o som do tiro, mas não poderia dizer o que era Polly e o que era Klaus naquele som. A dor lancinante da perfuração jogou-me ao chão, tirando completamente a minha capacidade de raciocínio. Não poderia dizer se o tiro era fatal ou não, mas não me fizera morrer imediatamente. Fizera-me afogar em meu próprio sangue, estirado no chão de assoalho.
– Polly! – Klaus correra até mim, e toda a cor do seu rosto se esvaíra.
– Vá embora daqui, Klaus. E me perdoe por tudo. – Murmurei, já sentindo-me fraca. A bala havia me acertado no alto, e roubava sangue rapidamente.
– Não é a sua vingança mais, agora é a minha. – Klaus olhou sombrio sob mim, e quando percebi minha antiga arma estava em suas mãos. Aquela que eu havia abandonado envergonhada.
Percebi agora que estávamos ambos perdidos. Klaus era um professor excelente, mas não fazia noção de como manusear uma arma. Com dificuldade, virei o meu rosto para ver pai e filho prestes a se matarem. Percebi que não sentia mais as minhas pernas, apenas a dor.
– Garoto estúpido, o que te faz pensar que eu não possa te matar antes?
– Não vai me matar. Eu sei o que você mais odeia no mundo, e é o seu pai. Prefere o inferno ao ser o pai que agride o próprio filho, e matar-me tornaria o meu avô um santo e você um demônio.
Talvez minha visão turva enviasse mensagens errôneas para o meu consciente, mas Klaus parecia tomar a vingança para si. Marcus continuava mirando-lhe a arma, mas isso não impedia que Klaus avançasse para mais perto dele.
– Vou perguntar apenas uma vez. Você fez a minha mãe o mesmo que fez à Polly? – Klaus cuspiu as palavras em interrogação.
– Meu filho, mais uma vez repito. Não sou uma pessoa que saiba distinguir o que é concedido ou não. – Eu poderia jurar que Marcus sorria.
Marcus continuava com a arma apontada para Klaus, assim como seu filho apontava para ele. Já havia eu perdido o sentido da visão, e agora só era capaz de ouvir murmúrios. Como um delírio que prenuncia a morte, escutei mais uma vez o golpe na alma que o som do tiro perfura. A última coisa recebida por mim antes de entregar-me ao inconsciente é que alguém havia conseguido a sua vingança. E esse alguém, meus caros, por ironia do destino, não foi eu.
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