Polly
23 Traumas expostos
Notas iniciais
Minha primeira visão disso fora turva como um sonho. A forte luz branca que me recebeu primeiramente me fez sentir como uma personagem do ensaio sobre a cegueira. Afastei-me o mais rápido que pude para o lado e pude sentir a presença de alguém ao meu lado. Alguém que trazia cor ao branco fantasmagórico do que só poderia ser a cama de um hospital.
Aos poucos a confusão foi diminuindo. Vi algo vermelho ligado a mim, e estranhamente minhas pernas eram a única parte do meu corpo que não sentia dor. Não sentia nada. Era como se elas nem estivessem ali. Isso foi o suficiente para me relembrar de um pesadelo que naquele momento, dopada pelos remédios, eu não conseguia distinguir se era real.
– Polly? – Uma voz masculina me atraiu. Virei-me para o vulto ao meu lado e percebi quem estava ali.
— Ian. – Eu sorri ao reconhecê-lo, apertando a sua mão. Ele a pegou e a beijou.
— Você ainda me mata, guria.
Eu queria finalmente uma distancia de qualquer assunto sobre morte. Aos poucos, me recordei do que havia acontecido, e a dor que eu sentia era real demais para um pesadelo.
— E Klaus? O que aconteceu quando eu apaguei?
— Ele está bem. Não está machucado, mas... Bem, ele matou uma pessoa. Você sabe o que ele está passando.
O peso na consciência que ele deveria estar sentindo já era o meu velho companheiro. Agora, minha maior vergonha era ter o sujeitado a fazer isso. Enganá-lo e obrigá-lo a encarar o pai. Nunca pude imaginar que as coisas sairiam de controle, e que a vingança não seria minha e sim dele. Eu sei que o principal motivo para matá-lo foi a nossa sobrevivência, mas eu sei que havia uma pontada de vingança pelo que ele fizera a sua vida. Ou pelo que talvez tenha feito com a sua mãe e ele nunca saberia.
— Eu preciso me desculpar. Eu sei que eu sou a última pessoa no mundo que ele quer ver agora, mas eu preciso..
— Calma, Polly. Você precisa se recuperar. E não importa o que você disser agora, eu vou cuidar de você dessa vez.
Por um momento meditei no que exatamente teria que me recuperar, mas fiquei grata por estar viva e por não ter perdido Ian. Era estranho como eu me lembrava exatamente o que havia lhe dito por último. Talvez um impulso por pensar que eu poderia morrer. Mas não perdia o seu grau de verdade.
— Sobre o que eu disse a você pelo telefone... – Comecei, sentindo meu rosto queimar.
— Conversaremos sobre isso depois. – Ele colocou os dedos sobre a minha boca em sinal de silêncio. Como sempre cuidando de mim.
— Está certo. Pode me contar tudo que aconteceu.
Ian ficou um pouco em dúvida se seria conveniente me contar tudo que ocorrera até então, julgando o estado em que eu me encontrava. Porém ele conhecia como ninguém a minha curiosidade, sempre se dando por vencido. Por fim, me contou que Rachel telefonou para Nina assustada dizendo que Klaus fora atrás de mim, nos contando onde exatamente estava. Ele, Nina e Amanda correram então para a pousada no sítio, o endereço que eu dera a Rachel. Encontraram Anna e a sua mãe, que já tinha conhecimento de tudo que acontecera. Mas já era tarde, pois Klaus e o pai de Anna já tinham partido.
Eu não sabia que o pai de Anna também havia se envolvido na história. Percebi que apesar de tudo ele se importava com a filha, e com o espírito vingativo de um xerife, também queria dar uma lição àquele que ele sempre defendeu.
Ian me disse que Klaus havia deixado o pai de Anna na cidade e partido para o chalé de Marcus sem ele. Quando chegou era tarde demais. Por sorte, Klaus não seria condenado pois apenas se defendeu. Entretanto, nós dois seríamos investigados. Uma parte de mim se sentia orgulhosa por desmascarar o terrível monstro que Marcus era. Entretanto, me sentia igualmente exposta. E não podia esquecer as pessoas que eu protegia longe desse segredo. Como o meu frágil pai, por exemplo.
— Terei que inventar uma bela história dessa vez. – Pensei, já imaginando as matérias do jornal local.
— Não se preocupe, você tem uma ótima advogada para isso. – Ele sorriu, beijando a minha mão.
— Com licença, claro que eu posso entrar! Se eu sou da família? Essa guria não seria nada sem mim! – Como sempre, Nina entrou com grande estilo.
— Ainda bem que está viva! Ou então você ia ver o que eu faço com você. Quando eu chegasse no inferno pra ficar do seu lado, ia tornar a experiência ainda pior! – Eu simplesmente amava a forma de Nina dar uma bronca e cuidar de mim. Erguendo os braços acalmei os seus nervos com um forte abraço.
— Não diga nada a eles antes de mim. Eu vou cuidar de você, querida. – Ela sussurrou de uma forma raramente doce.
Percebi que muitas pessoas estavam ali, inclusive minha mãe e a minha tia Helena. Meu pai não se encontrava ali, e por um instante temi pelo pior. Junto com Nina, vi Amanda, que parecia preocupada e orgulhosa de mim. Rachel me olhava como se pedisse desculpas, mas a maior surpresa fora encontrar a pequena Anna no meio de todas aquelas pessoas.
— Eu sei que todas vocês querem ver a Pollyana, mas agora eu tenho um assunto muito serio a tratar com ela. – Disse um médico de meia idade, que segurava uma caneta em sua mão e uma agenda em outra.
Todos entenderam que era melhor nos deixar a sós, mas fora difícil para Ian me deixar ali. Percebi que ele tinha um semblante cansado, e eu não fazia ideia de quanto tempo ele ficara aqui. De quanto tempo eu ficara aqui.
— Doutor? Há quanto tempo eu estou aqui?
— Quatro dias. Precisamos fazer uma cirurgia para retirar a bala e você perdeu muito sangue. Achamos que você não iria sobreviver. Mas por sorte, sua tia era compatível.
Mais uma vez minha tia Helena me ajudando a ficar mais forte.
— Entretanto, temo que talvez tenhamos coisas mais complicadas com que lidar. – Aquele tom que o médico usava não era de boas notícias.
— A bala danificou uma parte de sua vértebra. Por sorte, não foi rompida completamente e o ferimento não foi tão alto. Você corre o risco de perder os movimentos, mas não creio que definitivamente. Preciso antes que você me diga se consegue sentir suas pernas.
Meu coração se acelerou com aquela ameaça. Eu, que jamais pensara na importância das minhas pernas agora temia pelo pior. Começando a suar de nervosismo, disse a ele que eu não sentia nada além do medo de não sentir nunca mais.
***
A ameaça de não poder mais andar me atingiu em cheio e conseguiu, em uma fração de segundo, mudar todo o centro de minhas preocupações atuais. Já não pensava mais em Marcus, Klaus ou a polícia. Meu medo era ficar presa àquilo.
— Estou com medo. – Confessei a Ian assim que ele voltara ao meu quarto.
Apesar de tentar se manter firme, eu podia sentir que também estava preocupado.
— Vai ficar tudo bem. O médico disse que você só está machucada. Serão necessários vários meses de recuperação e fisioterapia. Acho que posso ajudar bastante nesse caso. – Ele disse sorrindo. Sorri em cumplicidade ao pensar que receber massagens de Ian não seria lá um martírio.
— Sinto muito interromper o momento, mas Polly e eu precisamos ter uma conversa séria. – Nina apareceu novamente, trazendo mais uma vez uma tempestade em seu rosto.
Ian se levantou e lentamente se despediu de mim, nos deixando a sós. Quando Nina tomou o seu lugar, percebi que aquela era a primeira vez que conversávamos pessoalmente desde a minha partida. Pude perceber um fenômeno acontecer em seu rosto: a expressão sempre concentrada de Nina se esvaiu, dando lugar a olhos brilhando, o máximo que ela se permitia chorar. Ignorando todo o sermão que ela provavelmente me daria, puxei-a para um longo abraço.
— Por que você nunca faz o que eu mando, Polly? Você quase morreu, porra! Eu disse para não levá-lo. Eu te disse! – E depois de uma rara trégua, a sua histeria estava de volta. Percebi que Nina estava extremamente tensa, pois quase nunca utilizava palavrões.
— Eu sei, as coisas saíram do meu controle. Você tinha razão. – Limitei-me apenas a essa fala, porque não queria discutir com minha melhor amiga agora. Meu corpo e minha mente estavam cansados de igual para igual.
— Bom... Pelo menos ele está morto. Está lidando com o fim?
Eu me sentia ainda mais longe do que chamam de felicidade. O fato de ser a responsável por transformar Klaus no assassino do próprio pai me deixava indignada. O medonho era saber que o que me causava mais aflição era por ele ter terminado o que eu comecei. Eu queria ter tido o prazer de matá-lo. E aquela realidade era o que eu tinha mais de assustador.
— Eu não sei o que vou dizer a polícia. E também não quero me importar, pois eles nunca me ajudam quando eu preciso!
— Calma. Você vai dizer exatamente o que eu mandar. O pai de Anna está do nosso lado agora. Vai convencer a delegacia de que foi tudo em legítima defesa e nada planejado.
Contar com a ingenuidade deles era quase impossível, mas esperava que a vergonha da negligência os perseguisse pelo resto de suas vidas.
— A história é essa. Você conheceu Klaus e mantiveram um relacionamento. Quando ele lhe contou quem era o seu pai, você pensou em fugir, mas ficou do lado dele em segredo. Você o convenceu a desistir de ir atrás de Marcus, mas ele insistia na curiosidade. Com medo de que algo pudesse acontecer, você foi junto. Encontraram Edith, que já vinha usando exageradamente remédios. Depois encontraram o pai de Anna e enfim o local onde Marcus atualmente morava. Você pensou que ele não fosse te reconhecer, mas a reação não poderia ser pior. Marcus teve uma crise obsessiva e tentou acabar com os dois, atingindo você. Klaus acabou por matar o pai em legítima defesa.
Aquela era uma das histórias mais esdrúxulas que eu já ouvira. Nenhum policial, por mais ingênuo que pudesse ser, acreditaria nisso. Marcus era a escória da humanidade para mim, mas infelizmente era muito astuto. Nunca agiria por impulso, sem ter um plano. Por um tempo fitei os olhos de Nina, surpreendida por aquele absurdo ter saído de seus lábios tão sagazes.
— Eu sei que parece absurdo, mas lembre-se de que ainda temos o apoio do pai de Anna. Ele pareceu bem motivado em vingar o nome da filha.
A expressão de asco no rosto de Nina deixou bem claro que, assim como eu, ela também o odiava por ser um comprado.
— Bom... Mesmo que a polícia engula essa história, estamos nos esquecendo de uma coisa: Klaus.
— Ele é o mais interessado em se livrar da culpa nessa história. Ele não te odeia tanto ao ponto de pensar em se vingar. Você não criou outra Polly.
O modo ríspido como ela dissera fez com que soasse cruel, mas no fundo aquilo era o mínimo que eu merecia por colocar todos em perigo.
— Ele não quer mesmo me ver, não é?
Ela negou veementemente.
— É melhor assim. Não fique se culpando. Provavelmente teria acabado com Marcus se ele não tivesse atrapalhado tudo.
Perder o controle da situação com a chegada de Klaus fora a minha fraqueza. Entretanto, analisando a situação de uma maneira mais filosófica, percebi que aquilo provava que ainda existia algo de humano dentro de mim.
— Preocupe-se agora em se recuperar logo. A Polly que eu conheço não se mantém presa. Não pense em mais nada, irei despistar a polícia. Vou dizer que os remédios estão confundindo a sua mente, e por isso você não se encontra apta para prestar depoimento.
Nina despejara seu plano segurando a minha mão, o sinal que fazia quando tentava me proteger e cuidava de mim. E apesar de estar impossibilitada de me mover, me sentia grata por continuar vivendo e ter essa amizade. Eu me perguntava o que eu teria feito para merecê-la, quando a única coisa que eu fiz foi aceitá-la quando sua família ainda não conseguia entendê-la. O que me fez lembrar de minha própria família.
— Nina, onde está o meu pai? Ele está bem?
A hesitação de Nina fez o meu coração disparar. Por um momento pensei que tivesse colocado a vida de meu pai em risco.
— Sua mãe e sua tia não saem deste hospital. Eu as segurei por um bom tempo, porque precisava conversar com você e não sabia se reagiria bem ao desespero de ambas. Seu pai... Bom, ele está se recuperando da notícia. Parece que seu coração não recebeu muito bem, mas está se normalizando.
Estranhamente eu sentia a necessidade de me desculpar por ele ter descoberto daquela maneira tão bruta. Pensei que estava planejando bem, mas fui impulsiva em boa parte do tempo.
— Ele vai ficar bem, Polly. Você precisa ficar bem. Quando for prestar o depoimento a polícia, fique calma e repita exatamente o que eu mandar, combinado?
Sem querer discutir mais, apenas confirmei com a cabeça.
— Agora descanse. Logo estará em casa. – Nina beijou a minha testa e me deixou sozinha.
***
Por sorte não fui obrigada a suportar o hospital por muito tempo. Nunca iria me acostumar com a sensação de não sentir pernas. A cada dia o medo de nunca mais poder andar me consumia, e eu acordava várias vezes a noite, o suor escorrendo no frio do medo.
Meu pai viera me visitar em meu último dia do hospital. Ao olhar para mim, ele não disse nada. Apenas me abraçou aos prantos. Era a primeira vez que eu via meu pai chorar. Com relutância, eles aceitaram que era melhor que eu continuasse com Nina. Um espírito puritano havia tomado conta do meu pai depois do crime desvendado, como se depois de tudo ele ainda pudesse me proteger. Percebi que era duro para ele ver que eu tive de me tornar forte porque ninguém me protegeria além de mim mesma.
A caminho de casa pude perceber, entre as gotas de uma chuva de setembro escorrendo na janela do carro, o olhar curioso das pessoas. Aqueles velhos rostos conhecidos de estranhos, que com certeza teriam lido a minha história nos jornais. Eu conhecia o público, eu participava disso, embora tentasse ao máximo evitar o vírus sensacionalista que matava aos poucos o jornalismo. Constatei que enquanto eu tentava me recuperar dos traumas da coluna, algum jornal na televisão estaria fazendo uma cena, com atores terríveis, sobre o “caso de uma aluna de doze anos e o professor doente. Fariam de tudo para mostrar o quanto eu era “frágil”, “indefesa” e acima de tudo, eu acabaria levando a culpa por ter dado confiança. Os pais teriam mais argumentos para trancar suas filhas, e os homens cresceriam achando que seu “instinto sexual das cavernas” é impossível de controlar.Como eu odiava tudo aquilo. Eu só queria esquecer tudo e evitar atiçar a curiosidade dos policiais.
– Não se preocupe, com a ajuda do pai de Anna a polícia não vai mais pegar no seu pé. Você precisa apenas dar uma droga de depoimento.
— Mal posso esperar. –Respondi e minha voz me pareceu exausta.
Rachel e Amanda estavam prestes a me abraçar quando se depararam pasmas com a cadeira de rodas. Era uma reação natural, eu não podia criticar. Mas aquilo aumentara ainda mais o medo que eu sentia por não ser capaz de andar novamente.
— É apenas temporário. – Senti que afirmava aquilo mais para mim do que para elas.
A primeira que deu um passo a frente e iluminou a atmosfera densa do local foi, para minha surpresa, Amanda. Ela me abraçou com força, e por um momento pensei que iria destruir os ossos dos meus braços. Rachel esperou timidamente pela sua vez, me abraçando envergonhada.
— Eu sinto muito não ter ficado do seu lado. – Ela sussurrou em meu ouvido.
— Tudo bem. Como ele está? – Fui direta, pois soube que Rachel seria a melhor pessoa para me explicar o seu estado.
Olhando com autoridade sobre Ian, ela pediu para me levar até a cozinha, onde poderíamos conversar com privacidade.
— Eu não queria dizer isso, pois sei que você ainda está se recuperando, mas ele ainda está muito magoado. – Rachel começou.
— Eu sei que isso acabaria acontecendo, eu acabei pedindo por isso. Será que ele me odeia tanto ao ponto de entregar toda a verdade? – Assim que as palavras saíram eu senti que elas alcançariam seu destino de forma dura e talvez egoísta, pois Rachel pareceu ofendida.
— Nem todo mundo pensa em se vingar, Polly. – Ela disse rispidamente.
– Um trauma pode mudar pessoas, Rachel. E você sabe muito bem disso.
Dessa vez ela não encontrou forma de revidar.
— Vocês irão depor no mesmo dia. Corre o risco de se encontrarem.
Eu adoraria que não acontecesse. Não queria confrontar a culpa no rosto de Klaus.
— Mas você precisa esquecer isso agora. Se quiser eu te levo até o quarto.
– Não, eu a levo. Tenho algumas dicas de atuação para os policiais amanhã. – Amanda irrompeu a cozinha com toda a rebeldia dos seus cabelos, e me resgatou daquele tenso clima que ali havia se formado.
Deixando Rachel boquiaberta, Amanda me guiou até o corredor dos quartos.
— Escute com atenção. Eu sei que você está se mordendo de raiva por ter que reviver tudo isso, mas finja que é apenas um papel. Faça o que a plateia quer ver. Se quiser, tenho algumas máscaras e truques para chorar. Mas você tem cachos dourados, já engana fácil com essa carinha de anjo. – Disse a professora Amanda, que era a única capaz de tornar aquela situação leve.
— Obrigada. – Eu sorri para ela, enquanto ela me deixava sozinha em meu quarto. Sozinha com os pensamentos borbulhando sobre o papel que eu exerceria em um teatro um tanto peculiar.
***
– Sabe, senhorita. Eu acredito em muitas coisas. Mas se tem uma delas que eu sou incapaz de acreditar é a coincidência.
Depois de ouvir a minha história e meditar em silêncio por um bom tempo, essa foi a única frase que o policial a minha frente entregou a mim. Uma frase repleta de ambiguidade, embora seu verdadeiro significado estivesse óbvio para mim. Era realmente muito difícil de acreditar que por coincidência do destino, eu viria a me relacionar com o filho do homem que quase destruíra minha vida. Era realmente difícil acreditar em algo que nunca aconteceu e nunca poderia acontecer.
— Tem razão, senhor. Eu não estou aqui novamente por coincidência. Estou aqui porque há uma década vocês foram incapazes de exercer o seu trabalho.
Deixei de lado qualquer máscara, e encarei profundamente o policial ao lhe dar um tapa na cara usando apenas as palavras. Ele pareceu desnorteado por um instante, numa tentativa de se recuperar do golpe. E por fim, voltou a me encarar, estranhamente sorrindo.
— Para sua sorte, eu ainda acredito em justiça. – Ele respondeu de maneira ambígua novamente, mas percebi que dessa vez eu poderia contar com eles.
Quando pude enfim sair daquela sala, encontrei o que eu havia pedido a noite toda para não ter que lidar. Era estranho olhá-lo de baixo, e percebi que ele tinha a mesma expressão de choque das pessoas que me encontram nesse estado. Por um momento pensei que ele talvez não me reconhecesse.
— Polly. – Ele murmurou, destruindo mais uma vez minhas expectativas.
— Boa sorte lá dentro. – Murmurei para ele, sem saber o que dizer e buscando a primeira coisa estúpida que viesse a minha mente.
Ele não me respondeu. Olhou para mim e dessa vez não parecia sentir ódio. Era um olhar de pena que eu rapidamente detestara. Preferia o ódio casual. Parecia haver tanta coisa a ser dita, e um pedido de desculpas seria inconveniente. Enquanto ambos encaravam o vazio, ele decidiu por fim se virar e entrar na sala. Era a última vez que eu o veria; a melhor coisa que poderia nos acontecer.
***
O relato de Klaus o tornou um herói problemático digno de uma tragédia shakespeariana. Mais e mais jornais sensacionalistas pipocavam a nossa história, e a única pessoa que parecia mais chateada com isso além de mim, era Ian.
— Agora você é uma celebridade para eles. Bando de hipócritas! – Ele murmurava durante algumas sessões de fisioterapia.
— Relaxa. Daqui a uma semana uma criança morre e eles conseguem mais uma tragédia para se alimentar.
A polêmica, entretanto, havia atingindo o seu local de origem. O colégio Bertha havia perdido grande parte das alunas, e gerado diversos protestos entre os pais, que assim como os meus, não conseguiam entender como tamanha atrocidade poderia ter acontecido em um lugar que eles julgavam ser confiável. Eles queriam realizar um pedido de desculpas escandaloso para mim, mas eu recusei veemente. Eu recusaria qualquer coisa daquele lugar.
Pelo que eu soube depois, Klaus pediu demissão, como era de esperar. Para a tristeza das alunas e alegria de outras, uma nova professora fora contratada para as aulas de inglês. Entretanto, com a enorme transferência de alunas para colégios normais (os pais havia se assustado com a ideia de suas filhas dormindo no local de trabalho de professores como Marcus), apenas as filhas de professores (que não pagavam) continuaram por lá. A nova professora de inglês não obteve tanto trabalho, pois o fechamento era certo.
Quando senti uma pontada de alegria ao saber do fracasso do Bertha, percebi que certas coisas em mim jamais mudariam. E talvez as coisas que eu julgava estarem perdidas nos anos daquele colégio ainda existissem em mim.
O único que sempre acreditara nisso era Ian. Mesmo depois de todas as atrocidades que eu fizera, ele ainda me via da mesma forma. Tenho certeza que se eu estivesse entregue a um fisioterapeuta qualquer, o resultado não seria alcançado tão rápido. Dia após dia, Ian me fazia arriscar novos movimentos.
— Paciência, Polly. Logo voltaremos a lutar. – Ele dizia, sempre que eu tentava um passo arriscado.
— Logo eu voltarei a te nocautear, você quis dizer.
Ian permanecia concentrado, mas um sorriso temia em aparecer em seu rosto.
Os movimentos avançavam lentamente, mas continuavam a causar dor. O medo de não conseguir andar já estava afastado, e nas milagrosas mãos de Ian eu esquecia todos os meus pesadelos e pensava, até mesmo por um momento, que poderia voltar a ter uma vida normal. Estávamos em setembro, e as chuvas realmente pareciam ter lavado aquela história marcada por sangue. Mas eu realmente merecia ter uma vida normal?
— Agora, segurando o apoio, tente vir até mim. – Ian havia se afastado alguns metros. A distância aumentava a cada sessão, mas estávamos cada vez mais próximos.
Por um instante isso me fez hesitar. Olhei para Ian, sempre ali por mim. Quantas vezes baguncei sua vida? Estava em paz, estava noivo. Eu tirei isso dele. Tirei a sua paz enquanto saía por aí, sedenta por vingança.
— Polly? O que tem de errado? Por que não consegue vir?
A limitação não era apenas a física, mas a psicológica.
— Você não deveria estar fazendo isso por mim, Ian. – E além de tudo, ele havia se recusado a receber pelas sessões.
Ele suspirou profundamente, olhando para a janela. Mais uma chuva de setembro começava a se formar. Depois olhou em minha direção, fazendo com que eu perdesse o pouco equilíbrio que havia conquistado até aqui.
— Não foram poucas as vezes em que eu tentei te provar o contrário. E eu acho que você já sabe, mas não quer se livrar dessa culpa, porque na verdade ela já faz parte de você. Todos cometem erros, mas eu sei que ficar do seu lado não é um erro. É difícil pra caralho, mas não um erro. Agora, se aquilo que você disse para mim quando pensou que ia morrer na verdade foi um erro, então nem precisa vir até aqui.
As palavras de Ian me pegaram de surpresa, assim como o toque que ele deu com a mão no longo corrimão até mim. Seus olhos negros me encaravam com seriedade. Entendi que aquele era um ultimato. O que eu havia dito não era um erro e não deixaria de ser verdade. Ele tinha razão, eu havia me acostumado àquela culpa. Mas entre perder a culpa ou perder Ian, não havia o que pensar.
Quando comecei a caminhar, mais determinada que em qualquer sessão, Ian sorriu e abriu os braços para mim. Encostei o meu rosto em seu peito, sentindo o calor e o seu coração. Ian envolvia meu corpo com cautela, sempre cuidando para que eu nunca me quebrasse. E da mesma forma é o seu beijo. Lento e intenso. Que viaja da boca ao pescoço. Os beijos, cheiros e mordidas me lembram a primeira vez. Estávamos no mesmo cômodo e o desejo também era o mesmo.
Ian percorre as partes descobertas do meu corpo com suas mãos, que lentamente descobrem as cobertas. Todas as curvas do meu corpo são exploradas pelo seu toque. Percorro seu corpo quente com as minhas mãos, que revelam o corpo marcado por cicatrizes, tatuagens e por meus lábios. Onde suas mãos percorrem, fica uma quentura demarcando o lugar. Com as mãos agarradas a minha cintura, Ian me levanta com facilidade. Sempre fui leve em seus braços.
Minhas pernas, entrelaçadas em sua cintura, puxam seu corpo para mais perto do meu. Sinto seu corpo em mim. O calor que mistura o nosso suor. Sua boca que procura o meu corpo com sede.
Nossos movimentos, cada vez mais intensos. Meus gemidos são abafados pelos seus beijos. Sinto o prazer dominar nossos corpos, como choques em áreas bem específicas, fundindo num profundo êxtase.
Nossos corpos cansados. Estou livre de qualquer culpa por ora, saboreando aquilo que perfeitamente chamam de "pequena morte”.
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