Polly

12 Cheiro de casa


Notas iniciais
Primeiramente peço desculpas pela demora mais uma vez! E principalmente para a VitóriaF, que fez aniversário e eu havia prometido que terminaria o capítulo e dedicaria a ela. Mas... aí está! Gostaria de colocar uma parte importante, mas preferi editar e deixar para o próximo capítulo (que não demorar, eu juro). Espero que gostem, e que continuem lendo. Boa leitura!!

Nem havia posto os meus pés de volta ao sul e eles já estavam congelados. Havia escolhido logo o mês de julho para voltar, onde sempre se marcava as temperaturas mais baixas. Uma espessa nuvem branca cobria a vegetação. Respirei o ar frio da janela do táxi; cheiro de casa.

Ele me deixou em frente a nova casa de Ian. Nina passava quase o tempo todo lá e no seu escritório de advocacia, mas sempre se lembrava dos seus pais. Estava tão ansiosa por vê-los novamente que já havia projetado na minha mente Nina abrindo a porta para mim, com seu ar orgulhoso e braços cruzados. Mas para minha surpresa, outra pessoa me atendeu. Só podia ser a noiva de Ian.

Maya era totalmente o oposto do que eu havia pensado sobre a noiva de Ian. Pensava em uma pessoa de pavio curto, igual a ele, que na certa me atenderia com lutas de boxe e postura marrenta. Mas tudo que eu via era uma hippie usando uma saia indiana e uma blusa bem psicodélica. Seus cabelos ondulados caíam livres, e me lembraram muito a enorme juba de Amanda. Ela usava óculos e parecia estar lendo um livro de poesias. Fiquei um minuto a contemplá-la, sem saber o que fazer. Era estranho conhecer a noiva de Ian depois de tudo que havia acontecido entre nós.

Mas, para minha surpresa, ela me abraçou bem forte como se esperasse há muito a minha presença.

– Polly! Que bom que você veio antes! Já ouvi muito sobre você e estava ansiosa para conhecê-la.

Definitivamente aquela não era o tipo de recepção que eu esperava.

– É um prazer conhecê-la, Maya.

A casa de Ian estava bem diferente desde a última vez que eu estivera ali. A principal diferença era a quantidade de incensos. Aquele cheiro me deixava desnorteada, mas era bom ao mesmo tempo.

– Nina está aqui?

– Não. Ela estava na casa dos pais, mas já estava vindo te ver. Ian está treinando lá em cima, não quer ver?

Nunca imaginaria alguém como Maya me convidando para assistir um treino de luta. Mas ela já devia estar acostumada, agora que vivia sob o mesmo teto que Ian. Ela me levou até um pequeno cômodo onde eu podia escutar o som dos golpes fortes e mortais de Ian.

Sem dúvida aquele era o meu cômodo preferido.

– Pode fazer uma pausa? – Disse Maya docilmente assim que entramos.

– Já estou acabando, Maya.

– Você tem visitas, querido.

No mesmo instante Ian se virou para mim. Ele estava do mesmo jeito de sempre. A pele morena marcada por tatuagens. O mesmo cabelo. Mas havia algo de diferente em seu semblante. Antes, o rosto sempre tão carrancudo e brutal agora parecia sereno. Maya deveria ser canonizada, pois aquilo era um milagre.

Ian continuava a me observar estupefato.

– Já volto com um chá. – Maya se retirou, nos deixando a sós.

Não tive tempo de me mover, pois Ian veio ao meu encontro me puxando para si num abraço claustrofóbico. E foi naquele instante que eu percebi o quanto sentia falta deles. Ele era o único homem que me abraçava sem me deixar desconfortável.

– Por que demorou tanto, moçinha? – Ele disse sem me largar.

– Estava consertando a minha vida.

Eu não me cansava de abraçá-lo.

– Precisamos treinar, sabia?

Aquele era o seu modo de começar uma conversa.

Olhei ao redor do cômodo, agora todo revestido de madeira e pôsteres com escritas asiáticas. Alguns objetos de luta e roupas eram novos. Como aquelas paredes tinham história para contar.

– Não posso lutar com você. Vai acabar comigo. – Eu disse depois de uma breve pausa.

– O que a faz ter tanta certeza disso? Que eu saiba andou treinando pesado.

– Bom, você tem motivos para querer acabar comigo.

Seu semblante sereno se transformou em algo estranhamente taciturno.

– Bom, eu fiquei mal quando você partiu de novo e eu percebi que tinha me enganado.

Aquele era um golpe forte na minha consciência, mas não era injusto. Eu realmente havia usado Ian, e aquelas paredes eram prova disso. Apesar do tempo, eu ainda lembrava com detalhes. Como poderia esquecer.

Eu estava descarregando toda a minha raiva no treino naquele dia. Eu tinha dezoito anos e havia entrado para a faculdade de jornalismo. Todos os meus colegas, os quais eu quase nunca conversava, só sabiam falar sobre sexo. Era sexo de manhã, tarde e principalmente à noite. Geralmente eu conseguia fugir do assunto, mas teve um dia que foi impossível.

Todos estavam jogados no chão, escondidos entre as grandes últimas estantes da biblioteca, onde a iluminação torna quase impossível ler e onde moram os livros que nunca são lidos, geralmente visitados por casais em busca de privacidade. Ou raramente um grupo de universitários, onde eu estava incluída.

Foi quando um grande idiota teve a estúpida ideia de conhecer melhor o grupo. E a primeira pergunta queria saber como cada um havia perdido a virgindade. Não demorou muito para que as primeiras histórias pipocassem e fossem compartilhadas. Apesar de algumas histórias serem um tanto interessantes, eu apenas ignorei, ansiando que se esquecesse de mim.

– E você, Polly? Não tem nenhuma história para contar? – O engraçadinho se virou para mim.

– A única história que eu tenho para contar aqui é sobre esse livro. – Disse apontando para o livro que tentei ler durante toda a brincadeira.

– Aposto que ela é virgem! – Gritou uma garota que mascava chiclete como uma vaca.

– Não precisa ter vergonha, loira. Eu cuido disso pra você agora. Garanto que depois vai ter a melhor história para contar.

O engraçadinho enlaçou-me, mas não tive tempo de deter meu sentido. Afastei-o com força, levando-o imediatamente ao chão.

– Sua maluca, isso é só uma brincadeira! – Gritaram para mim antes que eu me afastasse de todos.

Por sorte era véspera do fim de semana, e pude voltar para Ian. O único que eu queria ver naquela hora. Enquanto eu descarregava toda a minha raiva nele, os pensamentos corriam soltos na minha mente. Acabei deixando todo o meu controle sobre eles, e quando percebi havia realizado um golpe em falso. Rolei pelo chão com a dor que senti dos meus pés.

– Polly! Você está bem? – Ian correu na minha direção.

– Estou sim, é só o meu pé...

Ian pegou o meu pé com cuidado, mas do mesmo jeito senti a dor.

– O que aconteceu?

– Eu me desconcentrei. Só isso.

– Você está muito tensa, Polly. Tente relaxar um pouco.

E com isso, ele iniciou uma massagem relaxante nos meus pés. Fechei os olhos, enquanto sentia a dor latejante diminuir num ritmo delicioso. Olhei de relance para Ian. Não sabia que aquelas mãos brutas, podiam tocar de um jeito tão sensível daquele jeito. Ele percebeu que eu o observava e hesitou por um momento.

– Que foi? Está desconfortável? Eu posso parar se você quiser...

– Está tudo ótimo, Ian. Continue.

Eu realmente odiava quando ele se distanciava, com medo de avançar de um jeito que me traumatizasse. Por mais que eu tentasse, toda vez que me aproximava de alguém eu carregava certa desconfiança. Mas Ian era diferente de qualquer um. Eu me sentia bem ao seu lado, embora fôssemos só amigos e eu gostasse que fosse assim.

Mas aquele dia eu queria que fosse diferente. Queria ter uma bela história íntima para lembrar. Queria me sentir próxima de alguém, pelo menos uma vez na vida. E eu sabia que ele gostava de mim, e queria isso. Talvez eu devesse dar uma chance.

Pensei que eu ficaria surpresa, mas não tanto quanto Ian quando eu o beijei. Um beijo carente. Eu o prendi junto a mim para que ele não fugisse, para que aquele momento não fugisse. Quando olhei para Ian, ele me olhava procurando por respostas.

– Polly? – Ele parecia não me reconhecer. Nem eu mesma me reconhecia naquele momento.

Fiz um sinal de silêncio e o beijei novamente. Dessa vez ele correspondeu com vontade, esquecendo de vez todos os meus problemas. Desabotoei sua camisa com um só puxão, fazendo alguns soltarem e caírem ao chão. Contemplei os músculos duros, frutos de tantas lutas, e percorri o desenho de suas cicatrizes, fazendo-o arrepiar.

Ian não hesita ao arrancar minha blusa. Percorreu todo o meu corpo com uma curiosidade intensa. Em algum lugar da minha mente mensagens de aviso da besteira que eu havia começado deviam estar sendo compartilhadas aos gritos, mas os inúmeros beijos que ele distribuiu por todo o meu corpo me ensurdeceram. Entreguei-me pela primeira ao desejo e senti a sensação de se sentir realmente amada e desejada, de um jeito nem um pouco doentio.

O pensamento racional não apareceu enquanto gritos ecoaram naquele cômodo. Foi então que percebi Ian, repousando sobre mim com todo o seu peso e serenidade. Gostaria de ler os seus pensamentos naquela hora, embora seu sorriso para mim revelasse tudo. Ele queria muito mais do que eu poderia oferecer-lhe.

– No que está pensando? – Ian me trouxe de volta para o presente.

Meu pequeno devaneio foi bruscamente interrompido por Ian que, diferente do Ian em quem eu estava pensando, estava completamente vestido por um kimono. Senti meu rosto queimar de vergonha por trazer a tona aquela lembrança de um homem que estava prestes a se casar.

– Acho melhor nem saber, pela cor em seu rosto... – Ian riu.

– Não era nada. Sinto muito por aquilo, Ian.

Apesar de não sentir mais raiva de mim, toda vez que eu tocava no assunto de ter o abandonado, Ian reagia como a um golpe certeiro.

– Não foi nada. – Ele disse.

Era o que ele sempre repetia, mas nada poderia mudar meu sentimento de culpa quando enfim percebi a grande besteira que havia feito. As lembranças não estava a fim de serem contidas naquele momento, então voltei a me recordar.

Ficamos por um bom tempo deitados e enrolados por seu kimono. Nenhum dos dois sabia o que dizer, então ambos permaneceram em silêncio. Ian acariciava de leve os meus cabelos e lentamente entrei naquele transe de quase inconsciência, onde tudo fica longe.

Mas nem tudo estava longe. Nina, pelo contrário, estava bem perto, e me trouxe de volta com um grito que ecoou pelo cômodo inteiro. Nunca tinha a visto vermelha ou envergonhada na vida, mas com certeza ela não estava tão vermelha quanto eu.

– Desculpe atrapalhar. – Ela disse e saiu correndo.

Eu fui atrás dela e foi exatamente naquele momento que eu percebi a besteira que tinha feito. Deixei Ian sozinho naquele quarto e corri para Nina. Esperava que ela fosse me julgar, ou qualquer coisa, mas a sua reação foi exatamente como deveria ser.

– Estou feliz que você finalmente tenha transado. Mas tinha que ser justo com o meu irmão?!

Foi engraçado naquele momento, mas depois, não consegui encarar Ian. Ele voltou a me procurar, embora jamais tocasse no assunto. E nunca poderia agradecê-lo por aquele momento do jeito que ele queria.

Olhando para Ian agora eu não poderia demonstrar a grande alegria por ainda tê-lo como amigo, mesmo sem merecer.

– Vamos treinar um pouco? Em nome dos velhos tempos. – Ian me disse sorrindo.

Eu não estava nem um pouco enferrujada, pois havia treinado muito durante minha época recente de justiceira. Arriscaria até melhor que Ian, pois ele estava surpreso com o meu desempenho.

De repente a porta se abre e Maya aparece de novo.

– Desculpe atrapalhar, mas tem alguém aqui para ver a Polly.

Logo reconheci a pequena figura de cabelos pretos, rosto emburrado e braços cruzados.

– Por que demorou tanto para chegar? – Disse Nina, enquanto eu corria para abraçá-la.

Como eu sentia saudades.

– Você me deve algumas explicações, guria. – Ela disse me puxando para uma conversa em particular.

Realmente eu lhe devia várias explicações. Assim que os abraços e beijos de reencontro acabaram, Nina cruzou os seus braços e me lançou aquele olhar indagador. Como o assunto no qual iríamos tratar era um tanto incriminador, deixamos Maya e Ian sozinhos e fomos para o pequeno escritório de Nina.

Quando entrei no escritório de Nina quase chorei de vergonha ao lembrar da minha mesa bagunçada no jornal. Sua mesa, diferente da minha, era impecável. Não havia nenhum papel solto sequer. Apenas uma luminária e um notebook. Todos os documentos estavam organizados em gavetas. Nenhum livro solto, todos arrumados como se deve em todas as estantes que engoliam as paredes.

– Ok, apesar de saber que você me ama muito, esse não é o principal motivo de você ter adiantado sua visita, não é? – Nina foi direto ao ponto, ignorando meu fascínio por seu perfeccionismo.

Concordei, sabendo que seria inútil esconder alguma coisa dela, que também era minha advogada.

– Então a sua aventura de justiceira na metrópole não deu muito certo, assim suponho.

– Não saiu do jeito que eu planejava.

– Fale mais sobre isso.

Contei a ela tudo que havia acontecido desde Albert. Da polícia na minha cola, o dossiê que ele havia armado, sobre Amanda e sua persuasão, e por fim o episódio do chalé. Eu sei que no fundo Nina deve ter se preocupado comigo, pois eu poderia estar morta, mas sua maneira de dizer isso foi me apunhalar com sua monstruosa bolsa de couro.

– Essa doeu, sabia? – Disse massageando o lugar onde ela me atingira.

– Eu devia te bater mais! Como é que você cai na conversa de uma qualquer?!

– Eu estava tentando ajudá-la!

– É por isso que eu não posso te deixar sozinha. Pensei que já sabia se cuidar.

– Eu sei bem como me cuidar. E você não conhece a Amanda.

– Para a sorte dela!

Às vezes o atrevimento de Nina passava dos limites. Ainda mais agora que era advogada e se achava a rainha da verdade.

– Enfim, eu preciso da sua ajuda.

– Ajuda em quê? Acha que Albert pode ter alguma coisa escondida sobre você?

– Não estou me preocupando com isso agora. Preciso de ajuda com outra coisa.

O olhar que trocamos disse tudo que ficou vago. O rosto atrevido de Nina deu lugar a uma expressão preocupada que eu havia presenciado poucas vezes.

– Olha. Tudo que eu mais quero é que ele pague bem caro pelo que fez. Mas, tenha certeza de que é isso mesmo que você quer?

– É a única coisa de que tenho certeza, Nina. E não adiantar me convencer do contrário. Eu vou fazer e ponto. Com ou sem a sua ajuda.

Nina riu.

– Sem a minha ajuda? Polly, o que seria de você sem mim?

Apesar do meu orgulho, não suportava pensar nessa hipótese.

– Então. Vai me ajudar ou não?

– Sempre. – Ela me respondeu imediatamente. – Só me diz o plano.

– Primeiro, – Comecei misteriosa – Preciso visitar o nosso antigo colégio. Dependendo do que eu encontrar por lá, em breve teremos um plano.

– Quer voltar mesmo para aquele lugar? Tem certeza disso?

– Mal posso esperar. – Respondi convicta.

– O cara sumiu do mapa, Polly. O que te faz ter certeza de que encontrará alguma coisa por lá?

– Sinto que minha sorte está preste a mudar, Nina.

– Sorte não existe. – Ela retrucou imediatamente. – E você está muito cansada para planejar vinganças sangrentas agora. Vá descansar um pouco.

Não havia quarto de hóspedes, então eu teria que dormir com Nina. Seu quarto, como era de se esperar, era impecável e demasiado branco. Senti minha cabeça latejar ao olhar diretamente para as paredes alvas, então fechei rapidamente os olhos e me deitei em sua cama macia. Maya apareceu com seu sorriso doce e um chá que provavelmente eu não tomaria. Logo foi embora também, me deixando sozinha e voltando para os braços de Ian.

Deveria ser bom na maioria das vezes ter alguém ao seu lado. Mas eu nem sequer pensava nisso agora. Eu só pensava no meu novo plano, no que eu iria descobrir. Nina estava certa; a chance de encontrar alguma coisa no nosso antigo colégio era nula, mas no fundo, eu sabia que havia algo lá de extrema importância.

Algo que em breve eu iria conhecer.

Notas finais
Polly está certa! Realmente há algo importante no seu antigo colégio. O que você acha que é? Espero contar com a leitura de vocês no próximo capítulo. Muitíssimo obrigada por ler, e continuem sempre comentando, pois preciso saber a opinião de vocês! Até a próxima!