Polissuco

18 Sectumsempra


Notas iniciais
"Can I clear my conscience If I'm different from the rest Do I have to run and hide? I never said that I want this This burden came to me And it's made it's home inside." -Monster (Imagine Dragons)

Dois meses se passaram desde que Ron fora envenenado. Dois meses desde que o plano de Malfoy falhou. Dois meses desde que Voldemort o ameaçara e lhe dera uma última chance. Dois meses desde a última vez que o Malfoy falara com a Granger ou com a Greengrass. Depois daquele dia, quando Voldemort descobriu que o Weasley bebeu o veneno no lugar de Dumbledore, Draco não deixou de trabalhar em um novo plano por um só segundo, mesmo que não concordasse com nada disso. Para tornar tudo mais fácil, ele deixou de ir aos encontros noturnos com Hermione e Astoria, ele as evitava o máximo possível, pois sabia que não aguentaria ficar com elas sabendo que estava trabalhando num plano que botaria as duas em perigo. Na verdade, as únicas pessoas com quem o Malfoy se dava o luxo de interagir eram Crabbe e Goyle, mesmo querendo esmurrá-los de vez em quando.

Nessa noite, porém, Draco tomara uma decisão: ele ia ver Hermione e Astoria.

Aproveitando a ausência dos seus companheiros de quarto, Malfoy escreveu dois bilhetinhos, pedindo para que as meninas o encontrassem no lugar de sempre, na hora de sempre. Amarrou um bilhete em cada pé da coruja e lançou o pássaro janela a fora.

Ainda faltando duas horas para a “hora de sempre” Draco correu para a sala precisa, para garantir que estava tudo nos conformes. Depois de passar três vezes em frente à sala, pensando no que queria, uma porta se materializou e Draco disparou para dentro, correndo em direção ao armário que transportava coisas –e aparentemente pessoas- para outro armário na Borgin & Burkes e vice-versa. Ao abrir a porta do armário, tudo o que encontrou foi um pedaço de papel com os detalhes da invasão. Ao examinar a folha ele percebeu que a invasão aconteceria dali a exatamente um mês.

Assim que acabou de ler a folha, a Marca Negra em seu braço começou a arder, e o ar pareceu ficar mais pesado, a sala encolhia à medida que a escuridão engolia tudo à sua volta. Logo, tudo não passava de um breu completo.

Um rosto pálido, ofídico, surgiu em meio ao vazio. Duas fendas ocupavam o lugar onde deveria ficar o nariz, e os olhos eram tão vermelhos que chegavam a brilhar. A figura pálida e esquelética abriu a boca, e uma voz fria soou distante, mas ao mesmo tempo muito próxima:

–Oh, se não é o meu comensal mais novo, Draco Malfoy! Então, Draco, como está o seu pai? Aquele inútil ainda está de férias em Azkaban?

–Ele não é um inútil! –Gritou Draco, mesmo sabendo que o Lorde Das Trevas estava a poucos metros de distância.

–Mais respeito, por favor, a não ser que queira que sua mãe se junte ao seu pai, claro.

–Desculpe, Milorde.

–Quanto ao que disse antes, não se preocupe, se você completar a missão seus pais lhe esperarão sãos e salvos no conforto da sua casa. Porém, se o velho professor sair vivo, seus pais não só sofrerão a sua perda, como a sofrerão nas profundezas de Azkaban. –Acrescentou Voldemort, como se comentasse um fato óbvio, do tipo “O céu é azul”.

–Pode contar comigo, Milorde, não o decepcionarei. –Respondeu o Malfoy, sem acreditar nas próprias palavras.

–Pois bem, faça o que tem de fazer, eu quero Dumbledore morto antes do final do ano letivo. –Lembrou o Lorde das Trevas. –Essa é a sua última chance, não se esqueça.

Então, aos poucos, Voldemort foi sumindo, e as cores da sala precisa voltando. Draco piscou para se adaptar à luz, sem acreditar no que tinha visto, mas ele sabia perfeitamente que estivera cara a cara com o lorde das trevas, que aquilo não era um sonho. Apoiando-se em uma mesa, Draco ficou de pé, e ficou olhando para o nada, sem saber o que fazer.

Desde que a missão de assassinar Dumbledore lhe foi dada, Draco recebia ameaças, mas sempre soube que poderia tentar a vontade, até que finalmente matasse o velho. Todos os seus planos envolviam matar Dumbledore indiretamente, através de algo envenenado ou amaldiçoado. Mas aqui estava ele, com o plano final em suas mãos, sabendo que a última chance de matar Dumbledore seria com a própria varinha, e que essa seria a única opção. Mas ele não queria fazer isso, não queria matar Dumbledore, não queria matar ninguém!

Sacudiu a cabeça tentando afastar o pensamento, e olhou para o relógio – Estava quase uma hora atrasado para o horário combinado com as meninas. Ele pôs-se a correr, tendo o bom senso de evitar os corredores principais.

Quando chegou às masmorras, encontrou Hermione e Astoria sentadas no chão. Hermione ria enquanto Astoria contava uma história, gesticulando exageradamente com as mãos. Ao ver o Malfoy entrando lentamente nas masmorras, com as mãos nos bolsos, Astoria parou de falar instantaneamente. Vendo a reação da amiga, Hermione olhou para trás, tentando entender o que a fizera parar, então o viu, e não desgrudou os olhos do Malfoy até que ele sentasse entre as duas.

Um silêncio assustador tomou conta da sala.

Malfoy pigarreou.

–Eu... Eu só queria que vocês soubessem o quanto vocês são importantes pra mim. –Disse, com a voz rouca, e Astoria não pôde deixar de notar como ele parecia acabado, como se não dormisse há dias. –Sabe, antes do Krum e de vocês, eu nunca soube como era ter amigos de verdade, eu achava que aqueles babuínos que me seguem eram os meus melhores amigos, só porque eles faziam o que eu mandava. Mas vocês, vocês não ligam pra quem eu sou ou pra quem meu pai é, vocês se importam comigo, mas não se importam com meu dinheiro, vocês me fazem sentir completo, amado, coisa que eu nunca me senti antes. Então... obrigado por serem tão... por serem vocês. –Acrescentou com um sorriso no rosto. As meninas o encaravam com os olhos cheios d’água. Draco nunca pensou que pudesse falar algo assim pra alguém, mas essas duas mereciam, elas mereciam muito mais. –E eu quero que vocês saibam que, seja lá o que eu fizer depois de hoje, eu não quis fazer, eu não tive escolha.

Ele beijou a testa de Astoria e os lábios de Hermione, mesmo sabendo que ela e o Weasley já estavam em paz outra vez, ele tinha que fazê-lo pelo menos uma última vez, antes de virar um monstro. Ele se levantou e saiu, sem mais nenhuma palavra.

Quando chegou ao pé da escada, ele se virou e disse:

–Desculpem-me por ter agido feito um idiota nesses últimos dois meses, e por tudo o que eu vou fazer.

Então subiu as escadas sem olhar para trás, sentindo os olhares das meninas às suas costas.

Já estava amanhecendo, então decidiu ir para o jardim, aproveitar o silêncio, se despedir silenciosamente da escola, pois sabia que depois que completasse a sua missão, se ele saísse vivo, nunca mais seria bem vindo naquela escola. Em escola alguma, para falar a verdade.

Ele se sentou à margem do lago, tirou os sapatos e colocou os pés lá dentro. Observou algumas silhuetas andando pelos corredores em direção ao refeitório, uma certa agitação na torre da grifinória, alguém entrando em uma sala de aula no terceiro andar, provavelmente um professor. Sua mente vagou pela escola, desde o campo de quadribol até a sala comunal da sonserina, onde os poucos alunos que acordam cedo olhariam pelas grandes janelas de vidro e veriam seus pés no fundo do lago. Lembrou-se do refeitório decorado para o Halloween, dos viscos que cresciam pela escola todo Natal, do baile de inverno e da formatura que provavelmente nunca teria. Pensou em como destruiria a escola e, assim, qualquer chance de se tornar um curador, depois de matar Dumbledore. Ele destruiria todo o seu passado, todos os momentos bons que viveu naquele lugar, e provavelmente o seu futuro. Ele se destruiria.

Malfoy calçou os sapatos e caminhou de volta para o castelo. Não queria ir para o refeitório, não queria olhar para nenhum aluno sabendo que qualquer um deles poderia ser uma vítima da invasão. Ele tinha medo de pensar no que iria acontecer. Ele tinha medo de deixar tudo aquilo pra trás. Ele tinha medo de si mesmo, do que poderia fazer, do que poderia se tornar.

–Draco? Você estava chorando? O que houve? – Draco se virou e deu de cara com Murta que Geme, a fantasma que já fora o seu único apoio na escola, antes de Hermione, antes de Astoria.

Só então Draco percebeu que uma lágrima escorria pela sua bochecha esquerda.

–Nada, Murta, nada. –Respondeu. O que ele menos queria agora era uma fantasma depressiva para lembrá-lo de todos os seus problemas.

Numa tentativa de se livrar de Murta ele entrou no banheiro masculino, geralmente movimentado. A fantasma não gostava de plateia. Infelizmente, o banheiro estava vazio. Draco se escorou na pia e abriu a torneira para lavar o rosto, tirar qualquer indício de que estava chorando.

–Não! –Disse Murta que Geme atrás dele. -Não... conte-me o que está errado... Eu
posso ajudá-lo...

Ao ouvir as palavras de Murta, a mente de Malfoy começou a processar tudo o que havia de errado, desde o pai em Azkaban até a missão homicida. Ele pensou em Hermione, no seu sonho de curar os feridos, na sua mãe, que fazia algo com que não concordava apenas por que amava o pai. Ele não conseguiu segurar as lágrimas, nem as palavras.

–Ninguém pode me ajudar! –Cuspiu as palavras. O corpo tremendo. -Não posso fazer isso... Eu
não posso... Não quero trabalhar... e a menos que eu faça logo... ele disse que me matará... –Sabia que Murta não estava entendendo nada, mas tudo o que ele precisava era botar tudo pra fora. Na mistura de palavras e lágimas, Draco se engasgou, e tossiu até recuperar o ar. Quando tudo ficou claro novamente, ele olhou de relance para o espelho –Estava evitando o próprio reflexo há algum tempo- e viu o Potter espiando pela porta entre aberta.
Malfoy puxou sua varinha e lançou um feitiço qualquer, sem pensar direito. O feitiço errou Harry por centímetros, quebrando a lâmpada ao lado de Harry na parede. Potter jogou-se de lado no chão, pensando “Levicorpus!” E apontando sua varinha, mas Malfoy bloqueou o feitiço e levantou sua varinha para grifinório...
–Não! Não! Parem com isso! -Guinchou Murta que Geme, sua voz ecoando alto, de modo que qualquer um no castelo teria ouvido -Parem! PAREM!
Malfoy não podia acreditar que o Potter o vira chorando, que o Potter interrompera um momento tão pessoal. Harry não tinha ideia de pelo que o garoto estava passando. Um ódio do Potter tomou conta de Malfoy. Ele podia não concordar com Voldemort, mas isso não queria dizer que gostava de um estrelinha metido como o Potter. Ele nunca pensou que usaria esse feitiço, mas o Potter o tirava do sério:

–Cru- Começou Malfoy, mas foi interrompido pelo grito do Potter.

–SECTUMSEMPRA!- Gritou Harry do assoalho, agitando sua varinha descontroladamente.

O sangue jorrou do rosto e do peito de Malfoy como se ele tivesse sido chicoteado ou cortado por uma espada invisível. Ele balançou para trás e caiu no chão enxarcado, sua
varinha caindo brandamente de sua mão direita.
–Não ... -Engasgou-se Harry. Deslizando, Harry mergulhou emdireção a Malfoy, cujo rosto brilhava em vermelho escarlate, sangue jorrando dos seus poros. -Não, Eu não queria...-Harry não sabia o que dizer. Ele caiu de joelhos ao lado deMalfoy, que estava se agitando descontroladamente banhado pelo próprio sangue.

Murta que Geme gritou alta e descontroladamente:

–ASSASSINATO! ASSASSINATO NO BANHEIRO!

Harry entrou em pânico. E o Malfoy Mais ainda.

Quando Snape entrou no banheiro, Malfoy sequer conseguia distinguir as palavras do professor, só sabia que estava brigando com Harry. Malfoy não conseguiu evitar um sorriso antes de apagar.

Notas finais
A música que eu citei nas notas iniciais me ajudou a escrever esse conflito interno do Draco, esse medo do que ele pode fazer, e essa falta de escolha, e eu acho que esse trecho representa bem isso. Tadinho do Draco, dói-me o coração escrever capítulos como esse, o pobre não já sofreu demais? Ah sim, o capítulo foi inspirado no capítulo 24 de "O Enigma do Príncipe", com algumas adaptações na narração, claro. Então é isso, gostaram?