Polissuco

14 Memories


Notas iniciais
Olá!
Antes de tudo eu quero me desculpar pela demora. Eu sei que eu prometi postar o capítulo logo e que eu demorei muito, mas eu juro que eu tentei.
Eu escrevi pelo menos três versões diferentes do capítulo e essa foi a que ficou menos ridícula (Mas mesmo assim eu não estou 100% satisfeita).
Sem mais delongas, com vocês, o 14 capítulo da fic!

Gregory Knight soluçava enquanto recolhia as cartas espalhadas no chão. Três garotos do segundo ano gargalhavam da desgraça do garoto, deliciando-se com o sofrimento do lufano.
A verdade é que Gregory, que estava em seu primeiro ano em hogwarts, não tinha muito amigos, e resolveu mostrar, numa tentativa frustante de conseguir amigos, um truque com cartas que seu pai, trouxa, havia lhe ensinado. Mas, antes mesmo que o garoto pudesse completar o truque, Draco Malfoy, Goyle e Crabbe, o azararam, fazendo não só com que o garoto derrubasse todas as cartas, mas que verrugas roxas cobrissem todos os lugares possíveis de seu corpo.
"Aprenda, Knight, isso é mágica de verdade" Disse Draco, que parecia ser o líder do grupo, acompanhado pelas gargalhadas de Crabbe e Goyle.


***
Draco apertou os joelhos contra o peito com força, tentando afastar a lembrança. Murta passou, ou tentou passar, as mãos pelos cabelos do menino, numa tentativa inútil de consolá-lo. Ultimamente seus dias se resumiam em consolar Draco, falar mal de Lorde Voldemort, inundar o banheiro abandonado e espionar o banheiro masculino dos monitores.
Draco não lembrava de ser tão malvado a ponto de apreciar o sofrimento dos outros. Não podia negar, por mais que ele fosse o perfeito exemplo de criança terrível, ele foi uma criança feliz. Esse é o preço do conhecimento, pensou Draco, quanto mais se aprende sobre a vida, mais difícil é conquistar a felicidade.
Não podia deixar de se perguntar se Lorde Voldemort não estava certo, se tudo aquilo em que acreditou um dia não era a verdade e agora ele acreditava em uma mentira. Mas ele tinha certeza de que acreditava no certo, se é que havia um certo, e durante todos esses anos apoiando a pureza do sangue nunca havia sentido tanta convicção.
Mas pior do que estar em dúvida entre o que é certo e o que é errado, era ser obrigado a fazer algo que não queria, fingir ser alguém que não era e ter a única coisa com que se importava de verdade em risco. E Draco Malfoy se encontrava nessa mesma situação.
Por mais que discordasse completamente com o Lorde das Trevas, virou um Comensal da Morte e recebeu uma missão que jamais realizaria por pura e espontânea vontade e, depois de ter falhado na primeira tentativa de realizar a missão, foi ameaçado por Lorde Voldemort a completar logo a missão e se falhasse seus pais que sofreriam as consequências.
Draco soltou uma palavra tão baixa que Murta lhe deu um tapa na cara. Ou pelo menos tentou.
Não podia acreditar que a vida dos Malfoy, que sempre tiveram do bom e do melhor, tivesse chegado a esse ponto. Não podia acreditar que, depois de tudo o que sua mãe sofreu pelo pai, Narcisa fosse sofrer pelo filho.
E, mais uma vez, desabou, chorando.
Sabia que a visão dele chorando, no banheiro feminino, sendo consolado por uma fantasma, enquanto toda a escola assistia o jogo da Grifinória contra Sonserina, seria no mínimo ridícula. Mas não havia nada que pudesse fazer além chorar e se culpar por tudo que estava acontecendo.
Então a porta do banheiro se abriu e fechou rapidamente com um estrondo. Uma menina encostou na porta e caiu sentada no chão com um baque surdo, afundando a cabeça nos joelhos e soluçando, ignorando completamente a presença do menino e da fantasma.
Quando Draco viu o estado da menina, que, por mais improvável que isso seja, estava pior que ele, ele teve uma vontade quase irresistível de abraçá-la e consolá-la. Mas sabia que se tocasse nela sairia com pelo menos três dentes a menos. Ele não tinha se esquecido do soco que ela lhe dera no terceiro ano. Mas também não tinha esquecido o beijo do ano anterior.
Ele tentou afastar todas as lembranças que o atingiram, lembranças que ele se esforçava para guardar no fundo de sua memória, onde ninguém podia encontrar. Mas a tentativa foi em vão, dois segundos depois já estava com a cabeça na Bulgária, com os lábios grudados nos da Granger e com o corpo em combustão.
Os gritos de "EiEiEi, Weasley é nosso rei!" já haviam cessado quando um barulho de torneira aberta ecoou do andar de cima. Murta esboçou um sorriso.
— Hummm, parece que tem alguém usando o banheiro dos monitores, tomara que seja aquele corvino dos olhos verdes! -Disse Murta em um tom safado e desapareceu. Só então Hermione pareceu notar a presença de Draco no banheiro.
Ela o examinou cautelosamente, e não pôde deixar de reparar que havia algo muito errado com o garoto. Seus dedos tamborilavam nervosamente o chão, os olhos, inchados e inundados em lágrimas, fixavam-se no nada, e sua boca tremia levemente. Ela nunca havia visto Draco Malfoy tão... vulnerável.
A garota se arrastou até o garoto e sentou-se ao seu lado, sem dar uma palavra. Naquele momento ela não sentia nojo ou ódio do Malfoy -Na verdade já tinha deixado de sentir há muito tempo- mas pena e, de certo modo, solidariedade.
Os dois ficaram em silêncio por vários minutos, absortos em seus próprios pensamentos, até que um "Ei Ei Ei, Weasley é nosso rei!" ecoou pela sala, fazendo a menina soluçar outra vez.
Draco não resistiu, passou seu braço pelo ombro da menina e a puxou para perto de si. A garota apoiou a cabeça na curva do pescoço do loiro, e tentou agradecê-lo, mas apenas soluços saíram da sua boca.
-O que aconteceu? -Sussurrou Draco na orelha da menina, fazendo com que seus pelos da nuca se arrepiassem.
-Pergunta ao Ron. Ah, espera, ele não pode falar com a língua na boca da Lilá. -Respondeu Hermione, e só então percebeu como soou amarga. Ela não devia se abrir com o Malfoy, devia? Mas alguma coisa dentro dela dizia que Draco Malfoy sabia guardar segredo. E, vamos admitir, ela não estava errada.
O Malfoy nunca gostou do Weasley, mas agora era diferente, agora um ódio pelo ruivo dominava o loiro, um ódio por ele deixar Hermione naquele estado, um ódio por ele trocar a Granger pela Brown.

Apesar de todo o ódio, tristeza e ciúmes que o Malfoy sentia naquele momento, ele riu. Eu estou ficando louco, só pode, pensou.
A Granger levantou o olhar para o garoto que ria com os braços à sua volta. Sabia que Draco não era do tipo sensível, mas não acreditava que sua falta de tato tinha atingido esse ponto.
-Rindo de que? -Perguntou a menina, e, ao perceber a raiva em sua voz, Draco parou de rir.
-Nada... Desculpa... É só que eu nunca imaginei que Hermione Granger, melhor aluna da escola, a garota que enfrentou dezenas de comensais no ministério, orgulho dos nascidos trouxa, a garota que deu o fora no disputado Vítor Krum... esteja sofrendo de algo tão banal como ciúmes do idiota do Weasley com a idiota da Brown.
-Isso foi um elogio? -Perguntou Hermione, mesmo sabendo que sim.
-Ah, por favor, Granger, você é mais inteligente que isso.
A garota começou a rir.
-Isso foi outro elogio, Malfoy? A que devo essa honra? -Perguntou, em tom de desafio.
-Não vá se acostumando, Granger. -Disse o Malfoy, grosso. Não queria tratar a menina assim, mas também não queria apagar sua memória novamente.
Hermione não fez nada, não disse nada. Por um segundo acreditou que o Malfoy tinha mudado, que eles deixariam as discussões infantis de sempre. Mas no fundo ela sabia que estava certa, ele tinha mudado, e ela já havia percebido isso diversas vezes, como quando eles encontraram o trasgo na Bulgária e ele a defendeu, e quando ele correu para a casa dos gritos e enfretou os amigos pra salvar uma menina que nem sequer conhecia. Isso sem contar com o incidente da biblioteca e no dia em que ela adormeceu em seu colo na Bulgária. Ele estava diferente, de um jeito melhor.
Um silêncio constrangedor dominou o cômodo, mas nenhum dos dois teve coragem de quebrá-lo. Draco percebeu que a garota continuava em seus braços, com a cabeça apoiada em seu ombro, e rezou internamente para que ela não mudasse a posição.
Depois de longos minutos, a Granger quebrou o silêncio.
-Draco, por que você estava chorando? -Sua voz era tímida, suave, quase inaudível.
O menino a olhou espantado. Não estava esperando por essa pegunta e não estava esperando que ela o chamasse de Draco. Ele não pôde deixar de notar como seu nome soava diferente, de um jeito bom, na voz delicada da menina. Ele podia se acostumar com isso.
-Érrr... eu.... hã... eu não estava... -Tentou explicar o garoto, mas sabia que a Granger tinha o visto chorando. Ele olhou para a Granger. Sabia que podia confiar nela, mas ela continuava sendo a melhor amiga do Potter e se os planos de Lord Voldemort chegassem aos ouvidos do Harry ou de Dumbledore, Draco não só perderia os pais como também perderia a própria vida. Ele respirou fundo e disse: — Eu recebi uma ameaça.
-Uma ameaça?
-Sim, uma ameaça. Se eu não fizer o que eles querem, eles matam meus pais. E no momento meus pais são... Meus pais são tudo o que eu tenho.
Draco fechou os olhos para que as lágrimas não escorressem. Não queria que a Granger o visse chorando.
Por mais que odiasse admitir, a ideia de acabar com todo esse sofrimento de uma vez por todas já tinha lhe vindo à cabeça, mas o Malfoy sabia que a vida era uma dádiva, e do mesmo modo que ela piorou subitamente, ela podia melhorar. Além disso, ele sabia que isso seria quase uma facada no peito dos pais, e estava passando por tudo isso por eles. Agora ele entendia porque a mãe fingia apoiar Voldemort, agora ele entendia o valor da família.
A Granger não disse nada, apenas se acomodou nos braços do menino e acariciou sua bochecha, como se falasse "Sinto muito". Ela sabia que o pai dele estava em Azkaban, mas achava que com Voldemort no poder a família Malfoy estaria mais feliz do que nunca. Mas não era isso que os olhos, geralmente cinza gélidos, do garoto estavam dizendo. Seus olhos, agora marejados, pediam socorro, imploravam por ajuda e pareciam procurar qualquer coisinha que trouxesse felicidade.
O Malfoy, que olhava distraidamente para o nada, direcionou seu olhar para a menina que o olhava com pena enquanto acariciava seu rosto. Ele não queria que ela sentisse pena dele, ele não queria ser um coitado. Mas, por mais que ele não quisesse admitir, ele gostou de saber que ela se importava e, mais importante, gostou da pequena demonstração de carinho. Gostou mais do que deveria.
Ele se inclinou e aproximou seu rosto do da menina, que ainda acariciava seu rosto. Ela assentiu levemente com a cabeça, como se lhe desse permissão. Ele quebrou a pequena distância entre os dois e colou seus lábios. Dessa vez ambos estavam conscientes do que estava acontecendo. Dessa vez não houve palavras interrompidas, apenas palavras não ditas.
Todo o sofrimento dos últimos dias desapareceu instantaneamente. Tudo o que importava agora era a Granger, e se prender a ela o máximo o possível. Hermione ficou surpresa com o modo com que suas bocas se encaixavam, suas respirações pareciam coreografadas e, principalmente, como ela se sentia confortável nos braços do Malfoy, era como se eles já conhecessem os movimentos um dos outros. O Malfoy, claro, sabia perfeitamente o porquê.
Quando eles finalmente se separaram, ele começou a rir, uma risada pura e verdadeira, diferente das risadas arrogantes e ignorantes de sempre, esquecendo completamente da tristeza em que estava. Hermione, ainda constrangida, não pôde deixar de achar a cena adorável. Ele devia rir mais, pensou a menina, que não pôde evitar que um esboço de sorriso esboçasse seu rosto. Mas, claro, ela tinha que manter sua reputação.
-Qual é a graça? -Não conseguiu evitar o tom de brincadeira em sua voz.
-Nada. -Disse o Malfoy, ainda rindo. Ele estava rindo porque achava toda aquela situação com a Granger completamente improvável, principalmente por eles serem, bem, Malfoy e Granger. Ela o lançou um olhar de "Aah, por favor, claro que não é nada!". Só para não perder o costume, ele recorreu á única arma humana que consegue substituir a verdade sem parecer uma mentira: o sarcasmo.
-É que eu nunca pensei que seria o segundo na fila de alguém, sabe geralmente as meninas fazem fila por mim, não eu por elas.
A Granger riu.
-Bem, agora você é o primeiro.
O Malfoy ergueu uma sobrancelha.
-Isso quer dizer que você esqueceu o Weasley?
-Isso quer dizer que você esqueceu a Parkinson? -Perguntou a Granger no mesmo tom desafiador. Só então o garoto lembrou que, teoricamente, estava numa relação com Pansy Parkinson. Ele apenas sorriu como se dissesse "Temos um empate" e a beijou outra vez.

Toda a delicadeza e suavidade do primeiro beijo foram substituídos por uma estranha voracidade.
A porta se abriu mais uma vez e os dois se separaram o mais rápido o possível, a culpa do que tinham feito já pairando sobre ambos. De algum modo, aquilo parecia estranhamente errado e certo ao mesmo tempo, como roubar comida de um rico para alimentar os pobres.
Uma menina loira entrou e fechou a porta o mais rápido que pôde. Só depois de recuperar o fôlego ela notou o menino e a menina ofegantes. Ela não era burra, sabia somar 2+2, sabia que tinha atrapalhado alguma coisa e se sentiu estranhamente constrangida.
-Mil desculpas, eu não sabia... eu não queria atrapalhar... -Começou, mas o garoto a interrompeu.
-Desculpa a pergunta, mas você não devia estar na enfermaria? -Ele lembrava perfeitamente de levar uma Astoria Greengrass inconsciente para a enfermaria.
-É, eu devia, mas eu já estou melhor, e eles não vão nem sentir minha falta. Hãã... E se eu fosse você eu me esconderia, tem um Firenze furioso me procurando, e acho que ele não vai ficar feliz em te encontrar aqui nesse estado. -Disse a menina. Draco levantou o olhar para o espelho quebrado na pia. Estava tão obvio assim? Seus lábios estavam vermelhos e inchados, seus cabelos bagunçados e a camisa amarrotada.
-Entrem em uma cabine, eu posso dar cobertura. -Disse Hermione, os dois assentiram. Draco lhe deu um beijo rápido antes de se levantar e correr para a última cabine, com a menina às suas costas.
-Muito obrigada. -Gritou Astoria enquanto seguia Draco para dentro da cabine.
Ela se sentou no chão e retomou o fôlego. Ele sentou-se no sanitário.
-Por que o Firenze está atrás de você? É por causa daquela bola de cristal que você quebrou? -Perguntou Draco, lembrando do livro "Como consertar bolas de cristal" que a menina estava lendo na biblioteca.
A menina assentiu.
-Ainda não sei como ele descobriu, ou como ele soube que fui eu. Mágica de centauro, eu acho. -Disse a menina. -Mas aquela bola nunca funcionou mesmo.
Draco riu.
-Ah, sim, eu sou Astoria Greengrass. Esqueci de me apresentar. -Disse a garota. O Malfoy sorriu.
-Eu sei quem você é, suas irmãs me falaram sobre você. -Comentou Draco, por mais que Gwen e Daphne tivessem apenas mencionado a garota. -Draco Malfoy, prazer.
-Aah, você é o ex da Daphne! Ela sempre falava sobre você. -Disse Astoria. -Você também salvou a Gwen e me salvou. Obrigada, eu podia ter morrido ali se não fosse você.
Draco soube que a menina estava sendo sincera.
Ele lembrou de ter ajudado a Gwen na Bulgária, e em como ela se tornou uma espécie de amiga que ele nunca teve. A família Greengrass era uma das mais nobres e respeitadas do mundo bruxo, ninguém imaginaria que duas das três filha já tivessem sido torturadas. E que as duas tinham sido salvas por alguém considerado arrogante e egoísta como Draco Malfoy.
-Disponha. Sempre que precisar de um herói... -Ele disse e deu uma piscada debochada para a menina. Os dois começaram a rir.
-Hermione? Por que você está chorando? -Ouviram a voz do professor Firenze e Draco não pôde deixar de se perguntar como o centauro tinha subido as escadas.
-Não é nada, professor, é uma coisa muito pessoal. -Respondeu Hermione e Draco se perguntou de onde surgiram os talentos artísticos da menina. Ele já tinha visto Hermione mentindo antes, e ela não era boa nisso. Mas ele mesmo quase acreditou no choro da menina.
-Mais alguém entrou nesse banheiro? -Perguntou Firenze constrangido por atrapalhar um momento tão pessoal para a menina.
-Não, senhor.
-Aah... Então tudo bem. Espero que você melhore logo, Hermione. -Disse o centauro, e Draco ouviu o barulho de seus cascos se afastando do banheiro.
Quando o som dos cascos de Firenze já eram inaudíveis, Draco e Astoria saíram do banheiro. Mas, para a decepção de Draco, Hermione não estava mais lá. E ele se sentiu desmoronando mais uma vez. Astoria lhe deu uns tapinhas de leve nas costas.
-Não se preocupe, -Disse a menina, baixinho. -Ela só está constrangida, quando ela superar o constrangimento ela será toda sua.
Draco não pôde deixar de se sentir grato pelo apoio da menina. Ele sorriu pra ela.
-E quanto a mim, não se preocupe, seu segredo está bem guardado. -Comentou Astoria, fingindo que fechava a boca com uma chave.
-Obrigado. -Disse o Malfoy, com um sorriso no rosto. Algo lha dizia que aquele era o início de uma grande amizade.
Às costas dos loiros, o destino ria. Estava tudo saindo como o planejado.
Às vezes o destino encontra a forma mais estranha possível para fazer o que é preciso. Mas ele nunca, jamais, sob circunstância alguma, deixa de fazer o seu trabalho.

Notas finais
Gostaram? Não gostaram? Sugestões? Críticas? Elogios? Comentários? A sua opinião é sempre bem vinda!
Acho que é isso, até o próximo capítulo!