Política da Boa Vizinhança
8 Olhar Pelo-Amor-De-Deus-Faça-Alguma-Coisa
Notas iniciais
Às vezes, eu tentava lembrar de que era apenas uma adolescente que podia curtir uma noite com os amigos sem pensar tanto em consequências que talvez fossem apenas invenção da minha cabeça. Isso me fazia lembrar de Jade. Sempre que eu deixei de fazer algo por medo do que tal ato acarretaria, eu pensava que ela o faria sem receio de nada. Sempre admirei sua coragem de seguir aquilo que seu coração – ou sua cabeça maluca – mandasse, lidando com o que quer que viesse em seguida.
Por isso, eu imaginei, a cada foco naqueles lábios rosados, o quão mal me faria tomar uma atitude como se eu fosse tão corajosa quanto Jade.
— Você está calada – disse Arthur, tirando o meu foco da sua boca.
— Eu disse que era um pouco antissocial.
— Você não parece antissocial.
— Eu disse um pouco – sussurrei, querendo, ao máximo, que Jade estivesse aqui. Ela leria minha mente e responderia o que eu não tinha coragem de falar.
Arthur me olhava como se esperasse que eu fosse correr a qualquer instante. O local da reunião da Renata era mais distante da cidade do que eu pensei. Percorremos de carro até a orla e ainda caminhamos durante alguns minutos por uma faixa larga de areia. Eu já me preparava para a barulheira constante que me achou na última festa, porém, um grupo reduzido de pessoas, uma fogueira, uma caixa térmica e alguns violões foi tudo o que eu tive.
Minhas sapatilhas já não guardavam os meus pés, sendo carregadas por Arthur e eu já começava a sentir frio nos ombros. Jade, havia tempos, tinha sumido com Matheus e me deixara na companhia de Arthur, mas não sem me dar aquele olhar pelo-amor-de-Deus-faça-alguma-coisa antes de ir.
Eu estava certa de que Arthur também percebeu.
Ele, todavia, não me forçara a nada. Conversamos sobre quase nada. Certo, ele falou e eu ouvi. Ele tomou algumas cervejas e eu não toquei em nenhuma garrafa, já pensando na dor de cabeça que uma ressaca causava. Exato, o medo das consequências.
— Olha – Arthur disse, sentado ao meu lado na areia, bem próximo a água – se você não estiver se sentindo confortável aqui, eu levo você para casa. E não se preocupe com Jade. Eu levo ela assim que ela pedir. Não precisa ficar, se não quiser.
Quis olhar em seus olhos, incapaz de acreditar em tal gentileza, mas ele encarava as ondas. A ideia de ir para casa e mergulhar em um livro me era tentadora, porém, me deixava triste. Eu não queria ir embora, não quando significava que eu não teria a sua companhia. Respirei fundo e soltei o ar em silêncio, ainda observando o seu rosto imponente distraído com vai-e-vem da água salgada. A cicatriz da sua sobrancelha esquerda ficava ainda mais evidente deste ângulo, fazendo a curiosidade arder na minha cabeça.
E isso, o fato de que eu estava desistindo antes mesmo de dar uma oportunidade a mim de conhecer um cara, talvez, incrível, fez com que eu me sentisse uma perdedora conformada. Talvez Renata estivesse certa; eu estava mesmo presa no mundo dos livros; talvez Jade estivesse certa: eu precisava mesmo de um namorado; talvez Dona Helena estivesse certa: ele parecia mesmo ser especial e eu queria a sua presença.
Talvez Otávio estivesse certo: quem sabe, eu realmente me tornara uma linda mulher.
— Na verdade – respondi – eu queria mesmo uma cerveja.
Arthur virou o rosto para mim e me olhou por uns dois segundos antes de quase me derreter com um sorriso lindo e – eu quis que fosse – feliz. Levantou-se e caminhou até a caixa térmica, tirando uma garrafa pingando água gelada. Assisti, encantada, como a blusa verde-clara aderia aos seus ombros não tão largos e ao remexer leve de seu quadril enquanto ele caminhava de volta para onde eu estava sentada. A lua já se erguia ao meio do céu e eu via mais estrelas do que seria possível da porta da minha casa.
Ele me entregou a garrafa e eu tornei o liquido gelado, não sabendo se reclamava do gosto amargo ou se agradecia ao refresco para a minha garganta seca. Arthur me ergueu pela mão desocupada e me levou para perto da fogueira, onde Renata cantava desafinadamente com mais um grupo de pessoas, enquanto outras me conquistavam com uma flexibilidade incrível em tocar as cordas dos violões. Sentamos mais distantes do que os que cantavam e ele me rodeou os ombros com um braço, me trazendo mais próxima do seu corpo.
— Seus ombros estão gelados.
— O vento estava frio perto da água – respondi – mas eu gosto do frio.
— Bem, escolheu o lugar errado para morar, então.
Ri, já me sentindo mais à vontade. A música agitada deu lugar a um dedilhar leve e o ambiente perdeu o pouco barulho que tinha, tornando se em um lugar calmo e lírico. Depositei minha garrafa na sapatilha para que não sujasse de areia e observei o fogo.
— Eu sempre pensei em como seria viver longe daqui – falei – Em qual seria o sentimento de se perder no lugar onde você deve chamar de casa. Acho que é isso o que mais me encanta no mundo literário: essa força interna descomunal que guia o coração de cada personagem que me cativa. Essa falta de medo de se perder – fitei ele, que me encarava sério e atento – Talvez, por eu torcer tanto por um alguém que já tem seu final feliz garantido, eu tenha esquecido de me preparar para qualquer coisa real – segredei e baixei os olhos novamente para as chamas – Por isso, talvez, eu me sinta tão antissocial.
— Quem sabe, você só precisa de um empurrão – sugeriu ele, ainda me contemplando – Todos temos algo que nos faz disparar e realizar coisas que jamais sonhamos em fazer.
— Bem, se for assim, você é esse algo – voltei a ele, respirando alto e pensando bem sobre não continuar depois dessa maldita frase que saiu sem querer. Mas eu já tinha começado – Eu provei cerveja, conversei e entrei em dispensas com que eu não conhecia e fugi da polícia, tudo com você. E sua presença me torna uma tagarela.
— Ou talvez, seja a cerveja.
Gargalhamos, caçoando juntos da minha falta de vontade de socializar, ignorando que, entre nós, ela nem sequer aparecia. Aproveitei aquele momento para cravar na minha memória o som da sua risada e como eu me sentia bem em acompanha-lo. O anseio de rir foi passando e nós ainda nos encarávamos, satisfeitos de que aqueles minutos constrangedores sem que disséssemos uma palavra estavam desfeitos. O conforto de estar juntos voltou como no corredor da casa de Renata.
Seus olhos de gato admiravam os meus castanhos não-claros-porém-visíveis e, pela primeira vez, não senti a necessidade de desviar o olhar. Me cativava aquele âmbar e, sem que eu me tocasse, pus a mão em seu rosto.
— Eu tenho certeza de que é você, e não a cerveja.
Agradeci mentalmente por ele não demorar mais de um segundo para tomar uma atitude como se ele fosse tão corajoso quanto Jade.
Seus lábios eram tão macios quanto eu imaginava e se encaixaram nos meus mais perfeitamente do que eu previra. Ele não desceu a mão para a minha coxa ou agarrou um dos meus seios, como aqueles garotos desesperados para perder a virgindade. Ele pôs a garrafa de cerveja no chão de areia e segurou o meu rosto com as duas mãos, a gelada e a quente, e empurrou mais a boca contra a minha, devagar e calmo, como se eu fosse frágil.
Aquele puxão na parte baixa da minha barriga voltou, mas agora era como se fosse se instalar ali de vez. Como se ele precisasse de alívio. Como se eu precisasse de alívio. Desci a mão até a sua nuca e abri espaço pelos seus lábios com a minha língua, certa de que meu corpo estava atuando no modo automático. Senti sua garganta vibrar e ele acariciou a minha língua com a sua. O puxão se transformou em algo quente e espalhou-se por todo o meu corpo, me fazendo arfar.
Eu queria respirar, mas o ar já não parecia tão importante enquanto ele me beijava.
“E o seu abraço será a moldura do meu corpo. E a minha boca o pretexto para o seu mais demorado beijo…”
Marla de Queiroz soube muito bem o que eu precisava dizer no instante em que ele me tomou as palavras.
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