Política da Boa Vizinhança
9 Beijo de Boca e Mãos e Dentes e Pernas.
Notas iniciais
— Não acho que esse copo pode ficar mais enxuto – sussurrou Jade, com a boca encostada no meu ouvido, me fazendo jogar o que eu tinha nas mãos para o alto e dar um pulo. Ela gargalhou e eu fiquei envergonhada, mais uma vez tendo meus pensamentos roubados pelo tempo longo de amizade com ela – Aquele garoto deve ter uma saliva viciante para fazer você esquecer de piscar.
Joguei o guardanapo nela, rindo e suspirando, já escorregando para dentro da memória do beijo de Arthur. Gastar as poucas horas que se passaram depois do luau pensando na boca carnuda dele não parecia ser uma coisa ruim de se fazer. A não ser quando você tem uma melhor amiga capaz de adivinhar o que se passa no seu cérebro. A reunião de Renata foi melhor do que eu esperava. Terminou em dança e abraços quentes para espantar o vento frio.
— Talvez ele tenha...
— Será que eu ouvi Laís, a menina mundo dos livros, admitir que um beijo sentido, e não lido, pode ser viciante?
— Para – pedi – Eu não sei, foi... diferente. Ele não foi desrespeitoso ou rude. Lembra daquele garoto que achou que os meus peitos fossem bolinhas de fisioterapia?
— Nem fale. Você bateu nele e gritou por mim – ela parou e riu – Ele nunca mais olhou para você.
— Pois é – larguei a louça que tinha acabado de pegar para enxugar e suspirei, feliz – Arthur não é assim. Ele é gentil e calmo. Ele... eu não sei. Foi diferente.
— Você já disse isso.
— Já disse mesmo – respondeu tia Raquel, sentada na cadeira e apoiada na mesa pelos cotovelos, para nosso espanto – Esse garoto parece ser fascinante para fazer você suspirar assim, menina. Minha filha cabeça oca se apaixona mais fácil do que eu quando mais nova, mas você sempre foi mais centrada. Ele é especial, se ganhou o seu coração.
Ouvimos em silêncio e assim ficamos, cada uma em um lugar diferente na mente – Mas, mãe – disse Jade – eu não sou cabeça oca.
Ri – Preciso concordar com a tia Raquel.
— Sua traidora – reclamou, fingindo choque.
Uma batida soou na porta e logo mamãe entrou, sem esperar que abrissem. Ela trazia sacolas e um olhar cansado, que já era característica de uma noite inteira com a minha avó. Ele pôs as compras no chão próximo ao sofá e veio até mim, me depositando um beijo na bochecha.
— Como foi a festa, minha filha?
— Foi incrível! – respondi, animada, e logo me arrependendo.
— Mesmo?
— Mesmo, tia – atirou-se Jade, logo me calando e sendo Jade – A Laís achou um bofe lindo que se apaixonou por ela e veio até buscar ela aqui para levar ela. Ele é lindo, tia. Tipo, gato de verdade e...
— Jade – chamei e fuzilei ela com os olhos.
— Que bom, minha filha – disse mamãe, para minha mortificação maior – Só tome cuidado. Você é jovem, tem que se prevenir contra...
— Eu sei e, não, não aconteceu... aquilo. Nós só nos beijamos.
— Só? – exclamou Jade – Cara, você é muito mole.
— Jade! – ralhou tia Raquel – Isso é maneira de se comportar?
— Desculpa – pediu ela sem vontade enquanto me olhava e eu mexia os lábios num óbvio “bem-feito”.
— Bem – disse minha mãe – se você diz que não há com o que se preocupar, eu acredito. Confio em você.
— Obrigada, mãe.
— Viu? – falou Jade, virando para sua mãe – É assim que você deveria agir comigo.
Sua mãe riu e veio até ela, abraçando-a por trás – Conquiste minha confiança e conversamos sobre isso.
A cidade estava calma como nunca, já que, no fim de semana, os moradores pareciam se esconder dentro de suas casas ou fugir da cidade para poucas horas de descanso. A falta de barulho me era estranha. Sem buzinas ou nada da zoada característica de um bairro comercial.
O que era uma maravilha para quem amava mergulhar num livro.
Arthur parecia não querer me atrapalhar, e não tinha muito sucesso. Deitado em suas costas ao meu lado, num pano quadriculado vermelho e azul no chão de grama da praça vazia, ele se distraia enrolando um cacho no dedo indicador, com fones nos ouvidos e mexendo os lábios levemente no ritmo das palavras cantadas. Quase não consigo me concentrar nas palavras escritas com aquele movimento chamativo na boca dele. Me esforcei um pouco mais no que lia para poder compreender a estrofe marcada por lápis. Senti minhas bochechas queimarem diante das palavras de Pedro Bandeira, que não podiam ser mais inoportunas.
— O que foi? – perguntou Arthur, virando de lado e chegando mais perto de mim. Fechei o livro num baque alto e balancei a cabeça em negativa – Você está com vergonha.
Meu rosto queimou mais – Não. Porque estaria?
— Você está com vergonha. Sei disso porque, quando você se constrange, costuma baixar a cabeça, mesmo que não esteja olhando para ninguém, e segurar o ar por alguns segundos.
— Eu não faço isso.
— Faz, sim — ele tirou os fones e fitou o meu livro, prensado no meu peito – Você está lendo romance erótico?
— Meu deus, não! – escondi o rosto nas páginas, para diversão dele.
— Me mostra – pediu.
— Não. Não é nada.
— Me mostra – balancei a cabeça e ele tentou arrancar o livro das minhas mãos. Virei de costas para ele e ele me puxou pela cintura, me forçando a voltar para minha posição original. Brigamos por alguns segundos antes de ele sentar em cima de mim, com as pernas em cada lado do meu corpo e puxou o livro das minhas mãos. Tentei pegar de volta, mas Arthur segurou meus pulsos juntos com uma mão, erguendo-os acima da minha cabeça, e abriu o livro na página marcada com a outra. Descendo o rosto ao nível do meu, começou a recitar o implorar desesperado de Isabel para Cristiano — “Cristiano, me agarra, sou tua! É assim que te quero, assim! Me aceita fraca, desprotegida, nua! Vem morar dentro de mim! ” — ele olhou dentro dos meus olhos e encostou a boca na minha, sem transformar o toque íntimo num beijo. Juro que Pedro Bandeira nunca foi tão intenso — Quer dizer que você é do Cristiano e quer que ele te agarre?
— Não – sussurrei, de boca seca – A Isabel quer isso.
Ele colou mais nossos lábios – Então você é minha e quer que eu te agarre?
Minha respiração ficou rasa e eu comecei a ofegar, sem consegui lembrar quando me senti assim antes. Aquele puxão na minha barriga voltou com força total. Ele puxou meu lábio inferior com os dentes e eu fechei os olhos, notando que meu corpo parecia estar entrando em combustão. Sua mão pousou no meu queixo e ele me beijou bem de leve, quase como se apenas uma pena passasse em minha boca.
— Você não me respondeu – ele disse, declinando os lábios para onde estava sua mão e continuando a descer pelo meu pescoço – Você é minha e quer que eu te agarre?
Eu suspirei, somente, e soou como uma resposta para ele. Ele me beijou, de verdade. Aquele tipo de beijo que exige uma reação explosiva e descontrolada para que seja satisfatório. Aquele tipo de beijo que não trabalha apenas a boca, como demanda mãos e dentes e pernas e cintura e suspiros e respiração pesada e proximidade extrema. Ele deitou em cima do meu corpo, me tirando, por alguns segundos, o pouco ar que eu tinha, mas logo se apoiando nos cotovelos e largando meus pulsos, para que eu circundasse seu pescoço e aproximasse mais nossas bocas. Como se fosse possível.
Um movimento leve me tirou do transe imposto pelos beijos de Arthur e notei pessoas se aproximando. Avisei Arthur e ele saiu de cima de mim, fazendo com que o meu corpo, de repente, parecesse leve demais. Me sentei e era como se eu tivesse corrido uma maratona, devido a respiração pesada. Pus a mão na altura do coração por reflexo. Arthur riu, segurando-me pela cintura próximo a ele.
— Laís? – chamou uma voz feminina que não era estranha. Ignorei o ar convencido que vinha de Arthur e ergui a cabeça na direção de quem havia me chamado. Amanda, noiva de Otávio, já chegava onde eu me encontrava sentada, com um copo grande e molhado na mão de unhas perfeitas e anel de noivado – Oi! Reconheci você pelo cabelo – ela riu.
— É lindo, não é? – disse Arthur, enrolando um cacho no dedo indicador.
— É, sim – ela voltou-se para ele – Bem, eu me chamo Amanda. Sou vizinha da Laís. Você, quem é?
— Eu sou Arthur. Sou... – reparei que ele olhou para mim, apesar de fitar Amanda – um amigo da Laís.
Ela baixou a cabeça, se divertindo com alguma coisa. Tomou um gole da bebida grossa do copo e voltou a me contemplar, piscando com um olho apenas. Para o meu completo embaraço, Arthur gargalhou alto, junto com Amanda. E tudo só ficou ainda pior quando Otávio surgiu atrás de ela e rodeou sua cintura, perguntando do que ríamos.
Eu, sinceramente, não respondi por que não estava rindo. Nem um pouco.
— Acabo de pegar Laís no flagra, amor – ela caçoa, enterrando minha cara nas chamas.
— É? – ele disse, como se estivesse distraído, mas fitando-me como se realmente quisesse uma explicação. Ele olhou para Arthur e soltou um leve bufado, então voltou para mim – Você está linda, Laís.
— Obrigada.
— Bem – exclamou Amanda – eu só vim aqui mesmo para convidar você, Laís, para um jantar que a Dona Helena está preparando, imagina só, de noivado. Ela diz que um compromisso assim merece ser celebrado – ela balançou a cabeça, pintando ter tentado bastante deixar essa história para lá – é daqui a duas noites, lá na casa da Dona Helena mesmo. Pode até levar o seu... amigo.
— Amanda...
— Sua mãe ficará muito feliz, Otávio, com muitos convidados. E Laís pode levar seu acompanhante, se quiser – Amanda virou-se para Arthur – Precisa passar pela avaliação de Dona Helena para poder namorar a Laís.
Ele encheu o peito – Eu já passei.
— Ora, melhor ainda – ela puxou Otávio, que engolia o liquido do copo que tomara da mão dela com esforço – Vamos, sua mãe quer que compramos algumas coisas para o jantar. Até o jantar, vocês dois. E comportem-se – ela baixou a voz em tom de segredo, já distante – Esse é um ambiente público.
Arthur, que havia se sentado, riu baixinho, enquanto eu segurava um sorriso educado no rosto. Otávio olhou mais uma vez para mim, vestindo um semblante triste e partiu ao lado de sua noiva.
Amanda.
Arthur se pôs de pé, me oferecendo a mão para me levantar.
— Acho que esse Otávio gosta mesmo de você – ele disse, para meu espanto, me puxando para cima e colando nossos corpos – Ele praticamente me fuzilou com os olhos. Além de olhar para você com muito carinho. Essa família parece se importar muito com você.
— Pois é... – respondi apenas, porque, para mim, carinho não era exatamente o que se passava na cabeça de Otávio em relação a mim.
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