Política da Boa Vizinhança
3 Leoa de Dentes Amortecidos
Notas iniciais
Leoa de Dentes Amortecidos
Se o que você quer saber é se eu fiquei bêbada o suficiente para me esquecer de Jade e cedi ao meu comum desejo adolescente de descobrir o mundo, dormindo com aquele carinha de sorriso bonito, a resposta é não. Mesmo eu estando meio tonta e com vontade de dizer em voz alta cada palavra que surgia na minha mente, eu soube me controlar. E até consegui encontrar minha amiga na névoa etilista que se instalara na minha visão.
Se você está dizendo que eu só tomei um copo para estar bêbada desse jeito, lembre-se que eu nunca tinha bebido antes e que ninguém me avisou de que comer algo evita um porre.
Jade quase me matara com os olhos quando sai do lado dela, mas quando eu voltei, ela nem sequer me notou, já que o corpo do loiro galante cobria boa parte do seu e, caso ela estivesse pensando em me dar uma bronca, o que duvido, ela não poderia porque estava com a língua ocupada demais.
Sem saber como agir, decidi que o melhor lugar para mim era o corredor do barril. Eu só esperava que o menino do sorriso bonito não estivesse lá, mas como o destino adora sacanear quem menos merece...
— Você voltou – constou ele, segurando uma garrafa de cerveja Budweiser – Precisando de algo forte para encarar a confusão lá fora?
Fiz uma careta com a ideia – Eu acho que já chega de álcool por hoje. Minha amiga parece bêbada o suficiente por nós duas.
Depois que terminei de falar, percebi que tinha dito duas frases inteiras para alguém que eu não conhecia, o que literalmente não era do meu feitio. As pessoas que me conheciam diziam que eu precisava me expressar mais, que eu falava pouco.
Aquele garoto me fazia virar uma tagarela, se comparado a mim normalmente.
Ou, talvez, fosse o álcool.
Ele trocou a garrafa de mão, esticando a que estava segurando o objeto para mim – Eu sou Arthur.
Segurei sua mão, que estava gelada devido à bebida – Laís.
— Laís – ele repetiu, como se quisesse não esquecer – Então, Laís, que argumento impossível de ser derrubado te trouxe aqui, já que você não parece ficar muito confortável em festas como essa?
Dei um sorriso sem graça, baixando a cabeça – Renata disse que se eu viesse, não iria mais me incomodar sobre eu ser um pouco... antissocial.
— Antissocial? – espantou-se ele – Você não me parece ser antissocial.
— Deve ser o álcool.
Ele riu – Se isso vai te fazer ficar mais solta... – ele pegou uma garrafa no freezer e abriu para mim arrastando a tampa na maçaneta de uma porta ao lado. Peguei a garrafa, insegura, olhando para ela como se fosse um alienígena.
— Não sei se gosto de cerveja.
— Não vai saber se não provar.
Pensei em quantas eram as possibilidades dele ter posto algum comprimido alucinógeno naquela cerveja, mas ele a abriu na minha frente, então corri o risco ao jogá-la na boca.
Certo, aquilo não era bom. Na verdade...
— Isso é horrível – falei, tossindo, e ele gargalhou, se divertindo com a careta que eu, com certeza, fazia.
— Mas é o que mais chega perto da água, analisando o grau alcoólico.
— Isso é... reconfortante – declarei, virando a garrafa mais uma vez.
— Então, de onde conhece a Renata? – perguntou.
— Estudamos juntas.
— Estranho. Ela nunca falou de você.
— Digamos que eu não sou tão interessante para ser assunto de uma conversa.
— Bem, duvido muito disso – constou ele, deslizando pela parede até sentar-se no chão – Eu, provavelmente, vou falar da garota de tênis, jeans e cabelo rebelde que nunca tinha bebido cerveja para todos os meus amigos.
Desviei o olhar, sem graça por ser o centro de uma conversa, coisa muito difícil de acontecer, já que eu passei minha vida inteira tentando ser invisível. Decidi que, se eu estava com coragem o suficiente naquela noite, eu aproveitaria. Sentei-me na parede oposta a que Arthur estava escorado, bem de frente para ele.
Achei importante ressaltar que nossas pernas estavam quase se tocando.
— E você, de onde conhece a Renata?
— Ela já namorou o meu irmão. E eu moro aqui na frente — eu estava com a boca da garrafa na boca, tomando mais um gole quando ele disse isso. E eu quase não consegui engolir o líquido.
A janela do quarto de Renata era de frente para a rua, o que nos fazia ver quase todas as casas daquela parte do condomínio chique no qual ela morava. E Renata sempre fora apaixonada pela casa da frente, me mostrando-a sempre que eu ia ali, e, depois do que Arthur disse, eu suspeitava que era por causa do irmão dele. Só que aquilo não era uma casa.
Era um palácio.
— Você mora... na casa da frente?
— Sim – respondeu, sorrindo e balançando a cabeça – Eu sei por que o espanto. É uma casa bem imponente, não é?
— Eu diria que é um castelo bem imponente.
Ele gargalhou mais e começou a me explicar que a casa sempre fora da família desde seus tataravós. Que era recheada de pessoas, já que a família dele sempre fora enorme. Que ela já existia antes mesmo de criarem o condomínio e que queriam derrubá-la para que o terreno ficasse totalmente livre para o início das obras.
— Meu avó brigou com eles até que arredaram o pé e desistiram de tentar compra-la – contou-me ele, com um ar orgulhoso – Isso foi bem antes de eu nascer. E eu devo estar de entediando com esse papo chato.
— Não – tranquilizei-o – Eu gosto de ouvir histórias assim. Deve ser legal ter um avó que salvou sua casa com a teimosia.
Ele riu – É, mas meu pai não pensa assim. Ele quer vende-la e ir morar em um lugar menor. O que vai ser uma confusão, já que nós somos muitos.
— Você parece gostar de lá.
— Vivi lá minha vida inteira. Ela tem certo valor emocional para mim.
Eu juro que jamais pensei em ouvir um garoto dizer que algo tinha certo valor emocional. Então eu meio que me lembrei de personagens, que eu tentei me fazer acreditar, jamais poderiam existir de verdade por terem tal sensibilidade.
— Eu queria poder ter morado na mesma casa a vida toda – confessei, distraída.
— Você se muda muito?
— Na verdade, eu moro na mesma casa há nove anos. Mas já morei em mais lugares do que você pode imaginar.
E deixei claro que não prosseguiria com esse tópico, então começamos a conversar sobre banalidades e descobri que ele tinha dezenove anos e estava no terceiro semestre de Engenharia Florestal. Tinha apenas um irmão, mas mais primos e tios do que ele poderia se lembrar. Ele gostava de festas e praia, mas também adorava ler. Não vou negar que me animei quando ouvir isso. De repente, estávamos trocando os nomes dos nossos livros favoritos e eu já estava bebendo a minha terceira cerveja, sentindo os dentes ficarem dormentes, mas mal me importando.
Conversamos tanto, sobre tanta coisa, que mal me dei conta da sirene que ficava cada vez mais perto, até que Arthur me segurou pelo pulso e me puxou, correndo, para dentro de uma das portas do corredor, que se revelou uma despensa mal iluminada com muitas prateleiras recheadas de enlatados.
— O que está acontecendo? – perguntei, sentindo o álcool evaporar da minha corrente sanguínea, enquanto ele me guiava para os fundos do local.
— Algum vizinho chamou a polícia – explicou, olhando para a porta e de costas para mim – A maioria de nós é maior de idade, até mesmo Renata, mas ainda há quem não tem idade suficiente para beber.
— Tipo, eu.
— É – ele se virou para mim, acendendo uma luz que nos permitiu ver, mas que não nos denunciaria com a porta fechada – Tipo, você.
O que eu não tinha conseguido descobrir sobre sua aparência no corredor escuro, pude ver ali. Ele tinha a pele clara, ainda que pouco bronzeada, e olhos claros, numa mistura impressionante de âmbar e amarelo, que me faziam imaginar o olhar de um gato selvagem.
Certo, eu estava muito bêbada.
— A luz lá de fora fazia o seu cabelo parecer rosa – ele disse roucamente, sério, puxando um cacho castanho-escuro bem devagar – É muito bonito, de um jeito... selvagem. Como um leão.
Não sei explicar o porquê, mas ele ter dito isso, com aquele tom, fez com que eu sentisse um puxão repentino na parte baixa da minha barriga.
E, então, alguém abriu a porta da frente e rapidamente nos abaixamos atrás de uma prateleira, segurando a mão um do outro, me fazendo recordar do que disse Cabot num dos meus muitos livros:
“O toque dele parecia dizer: estou no controle. Não há necessidade de se preocupar com nada. Tudo vai ficar bem agora”.
— Laís? – chamou-me uma voz familiar.
— Jade! – me elevei e corri para ela, que estava acompanhada do Matheus, o loiro galante.
— Achei que tinha sido presa! – sussurrou, me abraçando e logo se juntou a nós no fundo da despensa. Ela olhou Arthur com desconfiança – Quem é você?
— Sou Arthur – respondeu.
— Esses são Jade e Matheus – apresentei, me sentindo numa situação bem estranha.
Ficamos em silêncio por bastante tempo, até que Jade não aguentou.
— O que vocês estavam fazendo sozinhos aqui?
— Nos escondendo – contestei, envergonhada.
— Sei...
— Olha, nós conversamos depois. O que importa agora é como vamos sair daqui. Eu e Jade somos de menor e...
Matheus fitou Jade com dúvida – Seu nome é Jade?
— Sim.
— Achei que você era a Laís.
— Eu sou a Jade.
— Não é ela a Jade? – apontou para mim.
— Ela é a Laís.
— Mas...
— Certo – falou Arthur, se levantando – Eu vou ver se a barra está limpa e já volto.
Ele saiu andando e não consegui não notar o balançar contido dos seus quadris a cada passo. Virei meu rosto esquentando para outro ponto, com medo de que alguém ouvisse meus pensamentos. Jade encostou o corpo contra o tronco de Matheus, que rodeou sua cintura com ambos os braços. Senti-me sozinha e incomodada com tal ato de intimidade e torci para que Arthur voltasse logo.
Ele realmente não demorou a eternidade que pareceu ter demorado.
— Tem polícia na porta da frente, mas eu sei de uma saída na cozinha. A gente só tem que ser rápido para que ninguém nos veja. A sala ainda está escura, então...
— Certo – concordou Jade, meio instável.
— Você está bem? – perguntei.
— Tonta pelo álcool, mas eu posso correr. Meio torta, mas eu consigo.
Andamos juntos pelo corredor, graças a Deus, ainda escuro e conseguimos passar pela sala antes lotada sem fazer barulho, pelo menos até que Matheus esbarrou em uma cadeira, que, com um estrondo, atingiu o chão, nos fazendo parar.
Passaram-se dois segundos antes que disparássemos como foguetes.
— Ei, vocês! Parem, agora!
Não demos atenção a quem gritou, atravessando a cozinha, que nunca fora tão grande. Quando chegamos à porta, Arthur segurou minha mão e me puxou para a noite fria, com Jade e Matheus no nosso encalço. Fomos para a parte de trás da casa, que tinha um muro um pouco maior do que eu e logo vi que estava perdida.
Eu nunca tinha subido num muro. Eu jogava bola na rua feito um moleque, brincava de queimada feito um moleque, manjava de motos feito um moleque, mas nunca tinha subido num muro. Nunca.
Arthur me largou e juntou as duas mãos, formando uma espécie de degrau para que eu alcançasse o topo da parede. Sustentei meu peso com os braços e me forcei a subir até ficar no alto do paredão. Fui mais ágil do que achei que seria. Fiquei sentada com as pernas já viradas para o outro lado do muro, com medo de pular e quebrar alguma coisa. Jade saltou e Matheus a ajudou a levantar, mas eu parecia travada.
— Vem – disse Arthur, estendendo os braços para cima, já do outro lado, na minha direção – Eu pego você.
Respirei e ouvi a porta da cozinha da casa de Renata se aberta, com um policial logo saindo de lá, mas olhando para o lado errado. Se ele se virasse, eu estava perdida. Decidi confiar em Arthur e me joguei.
Ele me agarrou pela cintura, me apoiando contra seu corpo quente, com uma força nada convencional e que me impediu de pôr os pés no chão. Fitei seus olhos de gato, que estavam mais próximos dos meus do que jamais estiveram durante toda a noite, e com suas pupilas dilatadas, quase me dizendo que os meus olhos também estavam assim. O puxão na minha barriga voltou, só que mais forte.
Ele, aos poucos, me pôs no chão, mas não separou nossos corpos – Ainda bem que encontrei uma garota de jeans e tênis para salvar essa noite. Correr com você de salto alto seria bem complicado – eu ri, sentindo seu coração bater perto da minha clavícula e desviando o olhar – Se bem que ajudar você usando um vestido colado a descer desse muro não seria nada ruim...
Meu sorriso morreu e eu senti o rosto dele se aproximar do meu, bem devagar, me dando um espaço para dizer se era aquilo o que eu queria. E, sinceramente, eu não sabia responder.
— Vamos logo, vocês dois – chamou Jade, quebrando o calor agradável que nos cercava – Querem ser presos?
Arthur me largou, mas pôs sua mão na minha, me puxando para continuarmos andando.
— Vem, leoa, vou levar vocês para casa.
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