Política da Boa Vizinhança
4 Caro Sr. Chocolate
Notas iniciais
Eu nunca fiquei com tanto medo de voltar para casa. Eu sentia que a minha mãe logo perceberia o odor de cerveja que saia da minha boca, minha calça jeans suja de terra e minha cabeça tentando achar uma história plausível para o meu estado alcoolizado. Mas me preocupei a toa.
Entrei sem fazer barulho, com Jade tirando a sapatilha devagar, procurando evitar qualquer intervenção no longo caminho até o meu quarto. Eu me sentia menos bêbada que ela, que andava pendendo um pouco para o lado.
Arthur nos deu uma carona até a minha casa, deixando Matheus ruas antes, depois que demos a volta no quarteirão e chegamos à garagem da sua casa, que, de perto, era muito maior. Apesar de eu ter ido no banco da frente, sem poder aturar o clima íntimo no banco de trás, Arthur não encostou mais em mim, a não ser o aperto sem graça na minha mão quando eu agradeci a carona. Recordei-me de uma passagem escrita por Meyer:
“A pele dele tinha o mesmo bronzeado dourado que povoava meus sonhos nos últimos seis meses. Era bem estranho ter essa parte do meu sonho materializada a menos de um metro e meio de mim, realidade palpável. Surreal”.
Nem tão palpável.
Não sabia dizer por que estava desapontada.
Decidi que era melhor Jade dormir na minha casa, já que ela parecia não conseguir se manter ereta sem ajudar. Perguntei-me o quanto mais ela bebera. Minha mãe, já adormecida, não percebeu que já estávamos lá e nem que eu estava meio porre, que fugira da polícia e que quase me agarrara com um desconhecido na despensa escura de uma casa repleta de adolescentes em chamas.
Quis me lembrar se tinha tirado os sapatos antes de desabar na minha cama.
Imagine um sino, grande e barulhento, embutido no meio do seu cérebro. Agora, imagine um ser desprezível tocando esse sino sem parar, fazendo sua cabeça aumentar de tamanho a cada badalada. Foi assim que eu acordei no dia seguinte a reunião singela de Renata.
O cheiro do café da minha mãe ajudava o latejar irritante a diminuir a frequência. Eu, geralmente, acordava bem cedo e fazia o café, tanto que eu já adorava o café da mamãe, porque significava que eu poderia dormir até mais tarde. Eu não andei, eu me arrastei até a cozinha, me irritando com a claridade forte que se mostrava pela porta do quintal e que fazia os meus olhos doerem. Sentei-me bem devagar, fugindo de qualquer movimento brusco.
— Talvez isso ajude na dor de cabeça – disse mamãe, depositando uma xícara quente e fumegante na minha frente.
— Como sabe que estou com dor de cabeça?
— Você sempre aperta os olhos quando tem dor de cabeça.
— Obrigado – agradeci a ela pela xícara de café – Você tem algum analgésico por ai, mãe?
— Não, mas eu vou comprar aqui na Dona Helena para você.
— Não precisa. Eu mesma faço isso.
— Você vai conseguir chegar lá?
Eu ri baixinho com a sua preocupação exagerada, me arrependendo por ter feito movimentos involuntários – Não é como se a quitanda da Dona Helena fosse tão longe. Eu só vou me trocar.
— Mas essa roupa está boa.
Eu estava prestes a perguntar para a minha mãe se já era moda andar de camisola na rua quando notei que estava de jeans e tênis. Eu não tinha nem tirado o sapato! Mamãe se levantou e aquietou meu cabelo revoltoso bem lentamente, sem fazer minha cabeça doer. Eu quase dormir de novo com aquele cafuné.
— Tem trocado debaixo do pano da geladeira.
Ergui-me sem vontade, pegando o dinheiro e indo mais devagar do que a tartaruga da fábula. Limpei os olhos, procurando tirar os vestígios de quem tinha acabado de acordar. Assim que abri a porta da frente, o sol magoou ainda mais os meus olhos. Voltei e peguei os óculos escuros que minha mãe sempre deixava na mesinha do computador repleta de fotos. Daquele jeito, a luz não era mais tão desconfortável.
Eu era uma morta-viva entrando em direção à quitanda bem organizada quando um som estrondoso ao longe me fez estremecer de dor. Acelerei o passo, concordando que na lojinha da Dona Helena mesmo que tomaria aquele analgésico. Quando apareci na entrada do local, Dona Helena me olhou e logo veio até mim.
— O que aconteceu com você, meu anjo?
Meu anjo, eu lembro que ela sempre me chamou assim. Desde que comecei a morar na vizinhança, ela me chama de meu anjo.
— É só uma dor de cabeça. Você tem analgésico?
— Claro. Venha – ela me empurrou pela cintura e me sentou num dos bancos que ficavam próximos ao caixa – eu vou pegá-lo. Aproveito e trago um copo de água.
— Obrigado.
Ela saiu e me deixou sozinha no lugar ainda vazio, o que era estranho, já que aquele era um negócio bem vantajoso. Normalmente, estava sempre tão cheio que o neto de Dona Helena, Leandro, tinha que ajudá-la quando chegava da escola. Senti uma pontada novamente e me fiz prometer que jamais beberia outra vez, e questionei onde estava Jade. Eu bem me lembrava de tê-la levado para dormir lá em casa, mas não de tê-la visto. Meu pensamento me levou a ela fugindo bêbada da polícia. Sorri, me recordando de ter pulado de um muro e caído nos braços de um moreno sem igual. Arthur. Pensar nele me fez sentir aquele puxão novamente. Aqueles olhos amarelos, aquela cicatriz charmosa, aqueles braços fortes...
E então, um idiota mandado do sétimo circulo do inferno surgiu na moto mais maneira que eu já tinha visto em toda a minha vida, acelerando-a bem em frente à quitanda, me fazendo apertar as têmporas com a ponta dos dedos e desviar a atenção da minha tão bela linha de raciocínio.
A dor na minha cabeça era tamanha que eu tenho certeza de que jamais xinguei tanto alguém mentalmente quanto xinguei aquela pessoa.
Foi quando ele desceu da moto e tirou o capacete. O sol não me deixou ver nada além de um borrão em forma de pessoa entrando na loja, mas quando sua imagem se ajustou a luz interna e suas feições tomaram definição, eu quase caí para trás.
Chocolate foi a primeira coisa que me surgiu na cabeça dolorida.
Ele parecia ser todo feito de chocolate. A pele morena, o cabelo castanho cortado um pouco rente à cabeça, os olhos marrons... Tudo era da cor daquele chocolate ao leite da marca mais cara que você acha no supermercado. Aquela que você pensa em qual seria o imbecil que compraria algo tão caro, mas que, no fundo, você adoraria comer.
Sim, ele parecia ser bem comestível.
Ele era imponente, ocupava espaço com tanto tamanho, mas era enxuto e definido. Carregava numa das mãos aquelas malas de couro preto que só se vê em filmes e na outra, um capacete preto. A altura dele era ideal para aquele namorado que gosta de carregar a namorada nas costas e correr por uma praia vazia. Seus olhos tinham um ar doce que não exalava do seu corpo enlouquecedor e seus lábios cheios, apenas olhando, prometiam insanidades.
Eu quase tive uma convulsão por acha-lo familiar.
— Desculpe a demora, meu anjo – disse a velha, me entregando o comprimido já fora da embalagem e um copo de água – Eu quase não achei o analgésico.
E eu quase não tirei meus olhos cobertos pelos óculos da barra doce ambulante que se aproximava cada vez mais de onde nós estávamos. Foi quando ele me surpreendeu mais do que se tivesse chegado numa MTT Y2K.
— Mãe!
Dona Helena parecia ainda não ter enxergado o estranho familiar, o que eu achei completamente impossível. E quando ele a chamou de mãe, meu queixo quis cair e só não caiu porque eu estava me impedindo de fazer movimentos bruscos devido à dor na cabeça. Ela virou e um sorriso obviamente aliviado apareceu em seu rosto.
— Otávio, meu filho! – ela andou até o homem, que abraçou a mãe ainda segurando o capacete – Eu já estava preocupada com você.
Certo, Otávio. Eu me lembrava de um Otávio alto, magro, bonito de rosto, mas que nunca me chamou atenção. Filho da Dona Helena, que tinha dois irmãos e morava com a mãe até nove anos atrás. Eu tentei, de verdade, mas não pude acreditar que não pensei nesse pedaço de mau caminho durante tanto tempo.
— Você parece com fome – declarou ela.
— Cheio de fome – e sorriu, para o meu total deleite. Engoli toda a água numa virada só.
Dona Helena lembrou-se de mim, que não fazia questão de ficar o dia todo admirando a cena. Ela largou Otávio – um pecado – e veio até onde eu estava. Isso fez com que ele virasse sua atenção para mim e fiquei orgulhosa em notar que ele ergueu as sobrancelhas em surpresa por alguma razão.
— Meu anjo, eu me esqueci de você – ela passou para trás do balcão onde ficava o caixa, abrindo a caixa registradora antiga, já que ela não gostava dessa nova tecnologia. O barulho das teclas já não me incomodava tanto quanto poderia – Aqui – ela me passou uma sacola com os comprimidos que eu não tomei ainda na cartela. Passei o dinheiro, agradeci e virei para ir embora, mas não sem fitar mais uma vez Otávio. Ele me observava com admiração e dúvida.
Fingi que não estava olhando, grata ainda mais pelos óculos de feira da mamãe e saí da quitanda, sem olhar para trás. No entanto, parei de ao lado da porta, escondida pela parede vermelha, esperando para ver se ele perguntaria de mim.
Não me decepcionei.
— Quem é essa moça, mãe? – questionou ele – Ela não me parece ser... estranha.
— É a filha da Dulce – respondeu e eu pude ouvir o sorriso em sua voz – Ela mudou muito, não é?
Ouvi o sorriso na voz dele também – E como...
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