Pokémon - Reconquest
14 Capítulo 12: Versátil
Notas iniciais
Atravessando as duplas portas de correr imensas ladeadas por duas estátuas das evoluções de Bellsprout (um Weepinbell à direita e um Victreebell à esquerda, ambos em tamanho real), a primeira agressão direta que os atingia era a poluição sonora. Após poucos segundos lá dentro, Kristen já sentia a cabeça doer com a gritaria constante.
Como que acostumado, o jovem que se apresentava como Dark Hunter avançou, indiferente aos brados antes isolados pela acústica local. Atravessaram um saguão simples com um tapete e quadros de desenhos amadores num mural, passando por outro par idêntico de portas, porém sem as estátuas, e desembocando num salão de extrema confusão visual.
Um corredor gigantesco se abria diante do trio, com ambos os lados completamente ocupados por barracas que possuíam todo tipo de produtos pendurados: desde pelúcias e roupas Pokémon feitas artesanalmente até Pokébolas que os vendedores juravam possuir efeitos especiais de captura, afirmando categoricamente que não eram legalizadas pela Elite Four por interesse comercial, pois a mesma já possuía sua série de Pokébolas especiais oficializadas.
O corredor apenas parecia grande visto da porta. Uma vez inseridos na enorme multidão, dentro da qual se deslocavam osmoticamente, tanto Ryla quanto Kristen acharam o local absolutamente claustrofóbico. Dark Hunter, pequeno como era e aparentemente acostumado ao ambiente, ganhava espaço entre ombros e mochilas sem maiores problemas.
Kristen esforçava-se integralmente para não ser reconhecido, de modo que não se aproveitava de sua altura privilegiada para espiar as barracas, como as pessoas ao redor tentavam fazer. Ryla mantinha instintivamente uma das mãos agarrada à camisa de Kristen como uma judoca, embora não desgrudasse os olhos dos chaveiros e camisetas com várias estampas diferentes.
Após o que pareceram a Kristen vários quilômetros de caminhada, ambos seguiram o minúsculo guia temporário por um recuo à direita entre duas barracas que ele nem tomou nota do que vendiam. Ali o corredor diminuía consideravelmente em quantidade de pessoas, mas o clima ficava decididamente mais pesado.
Kristen não sabia onde começava a relação entre causa e efeito, mas o fato é que a iluminação precária e o semblante dos poucos transeuntes fazia supor que aquele não era um lugar frequentável a visitantes levianos.
De crianças a homens de meia idade, várias pessoas estavam encostadas ao longo do estreito corredor gradeado, uns conversando entre si, outros apenas olhando para o nada com as mãos nos bolsos. Kristen reparou em pequenas bancas de madeira a intervalos pontuais, sobre as quais havia uma máquina cinza e azul com recipientes esféricos e teclados de computador, que contrastavam seriamente com o ar rústico da passagem.
Fumaça de cigarro e cheiro de mofo preenchiam os pulmões. Kristen, dado a caminhadas e pernoites ao ar livre, não escondeu o incômodo, mas Ryla e Hunter não pareciam se incomodar nem um pouco.
- Hey, lutador! Não quer trocar seu Tyrogue?
O trio imediatamente virou-se para trás. Um jovem andrógino de roupas pretas justas, cabelos pintados num vermelho chocante e o rosto maquiado em roxo e preto encarava Kristen de forma insolente, um cigarro espremido no canto dos lábios e nenhum pêlo no corpo. Sua mão esquerda estava apoiada sobre uma daquelas estranhas máquinas e havia uma cadeira ao lado com uma caixa de Pokébolas empoeiradas.
- Então, escolha uma delas. Pelo seu famoso Tyrogue, posso até oferecer dois por um, o que acha?
- Você ficou maluco? – perguntou Kristen, chocado – Por que eu iria trocar meu Tyrogue?
- Oras, ele vale muito dinheiro. – respondeu o rapaz com um sorriso bastante insinuante – Dinheiro não significa nada pra você, tudo que quer é concluir sua jornada, não? Tenho Pokémon bastante fortes aí nessa caixinha. Pode ver um por um, não tenho pressa.
- Você é doente. – retrucou Kristen, com nojo – Tyrogue é meu amigo, não é só meu instrumento de batalhas!
O jovem afastou-se dois passos da máquina, rebolativo. Kristen, Ryla e Hunter começavam a reparar que outras quatro pessoas de aparências semelhantes às do insistente negociante começavam a se acercar à situação.
O próprio negociante abotoava despretensiosamente o casaco até metade da barriga, trazendo o zípe de volta ao peito e repetindo o processo várias vezes, enquanto media Kristen por inteiro com os olhos.
- Vamos, não seja assim. Se fizer a troca comigo, além de poder escolher os dois que você quer, ainda ganha uma noite inesquecível de graça, que tal? Se quiser trazer a namorada junto, eu cobro uma taxa simbólica. – concluiu, com uma piscadela.
Durante vários segundos, Kristen apenas encarou-o nos olhos, sem saber o que dizer, até que Hunter o puxou pelo braço para trás, trazendo-o de volta à realidade.
- Vamos. Você foi muito bem.
Kristen seguiu com eles, ainda olhando para trás por vários metros, até que as pessoas que os cercavam fossem só pontos indistinguíveis no corredor. Finalmente se ajeitou, caminhando reto ao lado de Ryla e Hunter, ainda bastante perturbado.
- Pode me dizer o que significa isso? – perguntou, entre dentes.
- Todos viram pela TV o que você aprontou em cima daquele Charizard e também o que fez com o policial no Centro Pokémon. Nenhum deles é maluco de puxar confusão... pelo menos não de chegar às vias de fato.
- Mas por que tanta insistência com o meu Tyrogue?
- Pelo visto você precisa aprender muita coisa ainda, Kristen. – debochou Hunter.
Haviam passado por mais uma dúzia de olhares curiosos, mas ninguém mais parou Kristen ou qualquer um dos outros dois. Eles já podiam vislumbrar o final do corredor, que agora Kristen reconhecia ser uma espécie de túnel dentro do andar.
- Além das trocas e vendas oficiais de Pokémon, existem prêmios no mercado negro.
- Como assim?
- Pokémon famosos... Pokémon de treinadores famosos. Essas coisas.
Kristen sentiu o estômago revirar. Teve vontade de pedir a Hunter que parasse de falar, mas precisava ouvir até o fim para ter certeza.
- Você e seu Tyrogue foram realmente impressionantes naquele ginásio. Você tem despertado atenções desde que começou sua jornada, pelo simples fato de pausar uma carreira na qual você claramente ia se tornar a maior lenda do mundo para enveredar por uma nova. Sua conta bancária também atrai gente dessa laia... não tenho tido muito acesso aos preços, são informações difíceis... mas imagino que seu Tyrogue deva estar valendo uma grana preta às escondidas por aí. Ah, chegamos.
Kristen hesitou antes de cruzar a porta junto com Ryla e Hunter, de modo que ela retornou após alguns segundos para buscá-lo. Ele encarava o chão, desolado. Ela tomou-lhe as mãos, notando novamente o quanto era ridícula a diferença de tamanho entre eles.
- Kris-kun... não fique assim.
- Eu expus o meu Tyrogue. Agora ele está correndo perigo por minha causa...
- Que besteira. Ele ama você, admira você... luta por você porque quer, você não o obrigou a nada. Tenho certeza de que ele está disposto a passar por tudo isso. Você não pode abraçar o mundo inteiro, Kris...
Era justamente a hipótese com que trabalhava o lado racional de Kristen, mas este se sentia oprimido... até o momento em que Ryla verbalizou aquilo. Sem dizer nada, ele beijou-a na testa ternamente, repentinamente aliviado.
Hunter correu um dos lados da porta, com o corpo intencionalmente virado para fora do corredor.
- Lamento interromper, mas esse não é o melhor lugar pra namorar. Sem falar que eu não pretendo esperar muito mais. Já fui bastante paciente, Kristen-san, acho que é hora de cumprir sua promessa.
Ciente de que não valia a pena responder, Kristen tomou Ryla pelo braço e prosseguiu pela porta, decidido a não se abalar com mais nada que visse por ali. Não precisou, porém, de muito esforço. O lado leste do andar não era nada impressionante.
Logo diante deles havia uma escada rolante idêntica à do andar anterior, na qual Hunter já subia sem olhar para trás. De ambos os lados, havia diversas salas com portas únicas e vidros que deixavam ver do lado de dentro. Embora as mais próximas estivessem todas vazias, Kristen podia ouvir risadas e discussões acaloradas por perto.
Ao fim das escadas, um grande salão quadrado rodeado por janelas em três quartos das paredes trazia uma iluminação repentina aos olhos dos três jovens. Havia pessoas espalhadas em diversas partes da sala, com algumas poucas bancadas com dois ou três jovens atrás recebendo e contando quantidades exorbitantes de cédulas de dinheiro.
- O que é isso? – perguntou Kristen, com as sobrancelhas franzidas.
- Bolsa de apostas. – limitou-se a dizer Hunter, com os olhos esquadrinhando todo o local analiticamente.
- Como disse?
- Ah, sempre esqueço que você nunca veio... É simples, marcamos as batalhas em alguma das bancadas, cada uma delas administra uma ou mais arenas. – explicou ele, apontando para portas brancas tão camufladas à única parede sem janelas que Kristen não teria reparado sem a indicação – Dependendo de quem for a pessoa, movimenta mais ou menos apostas... a galera que ganha leva uma parte, a bancada também e até o perdedor às vezes ganha alguma porcentagem.
- Hm. Parece um grande ginásio do mercado negro.
- É totalmente legalizado, senhor certinho, não precisa se preocupar. – debochou Hunter.
- Não deve ser de graça isso, não é? – intrometeu-se Ryla.
- Boa pergunta. Depende muito da bancada... e também de você.
- Como assim? – indagou Kristen.
- Se for um treinador famoso, provavelmente não vão te cobrar nada. No caso dos mais famosos como vocês, que acabaram de sair vitoriosos de ginásios, as bancadas costumam disputar a tapas... algumas até pagam um cachê inicial pra você lutar, outras aumentam a porcentagem da vitória... Tem que ser muito inteligente e controlado pra administrar esse tipo de negócio.
Kristen, que não duvidava nem um pouco disso, começava a temer novamente um reconhecimento. Instintivamente, manteve-se próximo à entrada enquanto Hunter continuava parecendo procurar alguma coisa.
- Quer dizer então que nós não teremos problemas em encontrar um lugar pra batalhar, não é? – concluiu Kristen, chateado pelo motivo.
- Não fique se achando demais, lutador. – disse Hunter – Eu consegui uma insígnia aqui em Violet antes de você. E enquanto você dormia, eu fiz meu nome aqui na torre... agora venha, tenho uma surpresa para você.
Hunter se moveu decididamente até uma bancada próxima, na qual um casal de jovens semelhantes aos que os haviam abordado no túnel de trocas estava parado trocando carícias pouco discretas ao lado de um senhor que lembrava muito a Ryla os piratas descritos em muitos dos que romances que adorava.
Do alto do rosto talhado de cicatrizes, ele ergueu os olhos e era possível notar que o esquerdo era apenas um risco branco fendido na carne, enquanto o direito era de um castanho penetrante e avaliador. Ele parecia ter farejado o trio, pois apenas erguera os olhos de sua grande pilha de dinheiro, que contava e recontava compulsivamente, para olhar diretamente para o grupo, que ainda se aproximava.
- Como vai, Sr. Hirata? – cumprimentou Hunter com naturalidade.
- Boa tarde, garoto. – respondeu o homem com uma voz rouca e jovial – Vejo que trouxe, enfim, o que me prometeu.
O sorriso repleto de dentes enegrecidos do homem era endereçado a Kristen e este não se intimidou, sustentando o olhar.
- Kristen Jounochi. Notável... parece ainda maior pessoalmente que pela TV.
Apesar do elogio e da aparente educação, o homem não se levantou nem estendeu a mão a Kristen. Ryla, inconscientemente, tentava ficar invisível atrás do amigo.
- Então quer dizer que você será o rei da mesa de hoje?
- O que é isso? – perguntou Kristen — Sr. Hirata? – acrescentou, tentando parecer educado.
- É simples. Essa arena atrás de mim – apontou para a porta branca à direita de seu braço – está dividida em duas partes, ambas de minhas posses. Duas vezes ao dia, às terças, quintas e fins de semana, cada uma delas conta com um treinador que tenha obtido a insígnia de Violet recentemente que fica disponível para ser desafiado. Os treinadores pagam uma taxa, apostadores assistem às lutas... Enfim, você deve conhecer o procedimento...
- Não estou muito familiarizado, mas não creio que faça diferença. – respondeu Kristen com indiferença.
- Ótima resposta. – sorriu Hirata – Basicamente, quanto mais treinadores você vencer, mais dinheiro você leva, em geral são treinadores de nível bastante baixo querendo quinze minutos de fama.
Ele retirou um pedaço de papel amarrotado da mesma gaveta onde depositava o dinheiro já contado e embolado em tiras elásticas, desamassando-o e empurrando-o sobre o tampo na direção de Kristen. As cifras não significavam nada para ele, embora ele tivesse notado que fossem suficientes para pagar várias vezes a taxa de inscrição no ginásio de Violet.
- A lógica é simples... se alguém ganhar de você, assume seu lugar e você sai apenas com metade do que já havia conquistado até aquele momento. As batalhas são de um contra um e têm limite de cinco minutos, exceto a luta final, que não tem limite, mas é contra um treinador especial escolhido por mim. Se você vencer as dez lutas primárias, as cifras estão garantidas e então você e esse treinador especial disputam o prêmio maior, que está identificado aí no final.
Kristen logo notou que o homem não era alguém de muitas palavras, limitando-se a explicar apenas o essencial o tempo inteiro. Ele admirava pessoas prolixas, embora preferisse que as da estirpe do Sr. Hirata fossem sucintas daquela forma.
- Quanto cobra dos desafiantes?
- O lutador especial naturalmente não paga, assim como o rei da mesa. Os primários pagam uma merreca, cerca de quarenta por cento do valor da inscrição do ginásio de Violet.
- Parece um pouco barato demais, não? – perguntou Kristen, desconfiado – De onde tira seu lucro?
- Das apostas, é claro. – sorriu de leve o obscuro empresário, lembrando-se de não mencionar que seu negócio alimentava um vício doentio em um sem-número de pessoas – Então, você me dá a honra?
- Por mim tudo bem... mas tenho uma condição.
- Apenas diga, oras...
- Não quero seu dinheiro, independente dos meus resultados. Acho que é um bom treino para meus Pokémon... mas em compensação quero escolher o outro rei da mesa... você disse que eram dois, certo?
Hirata e Hunter se entreolharam, ressabiados, por um instante.
- Isso pode ser arranjado. De quem fala?
Kristen pousou a mão animadamente sobre a cabeça de Ryla, que demorou bastante a entender o que acontecia.
- E...eu?
- Ela? – perguntaram os outros dois ao mesmo tempo.
- Sim, ela. Conseguiu uma insígnia de Violet no mesmo dia que eu, cumpre os requisitos. Some os meus pagamentos aos dela. O que acha?
Hirata fingiu avaliá-la por um instante. Ele e Hunter respiraram aliviados por algum motivo, mas Kristen sequer notou.
- Por mim tudo bem. A mocinha está de acordo?
- Kris-kun... de onde tirou essa idéia? – perguntou Ryla, parecendo em pânico.
- Oras... vai ganhar o seu próprio dinheiro, não acha maravilhoso? – perguntou Kristen, radiante – Não é tanto assim, mas ao menos vai pagar algumas despesas, o que acha?
Ryla engoliu em seco e virou-se para o homem uma segunda vez, agora motivadamente decidida.
- Tudo bem. Eu aceito!
- Ótimo, podem entrar. – o homem apenas esticou o braço e girou a maçaneta, escancarando a porta, que parecia esconder umas duzentas pessoas, tamanha era a gritaria – Estejam prontos em vinte minutos.
Agradecendo educadamente, Ryla e Kristen entraram, fechando a porta atrás de si. Sem nenhuma alteração visível na expressão, Hirata empurrou na mão de Hunter um calhamaço de cédulas coloridas.
- Bom fazer negócios com o senhor, Hirata-san. – concluiu Hunter.
- Espero que valha a pena, rapaz. Vocês dois: — o jovem retirou a mão de dentro da saia da menina e as bocas se descolaram – um de vocês avise ao Jugger que ele vai ter de esperar até o turno da noite, pois precisei colocar outra pessoa no lugar dele com alguma urgência. O outro – sorriu de forma triunfante – comece a divulgar que teremos Kristen Jounochi como rei da mesa em menos de meia hora.
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Apesar dos vestígios quase inexistentes da linha solar por trás das gigantescas formações rochosas, a floresta permanecia em breu total. Em parte pelas árvores de tamanho absurdo, mas algo de sobrenatural parecia emanar quiasmaticamente da escuridão.
Mesmo com a ausência quase completa de iluminação, era possível ver os contornos de pelo menos uma centena de pessoas, de costas para a montanha, o sol e tudo mais. Viravam-se marcialmente para a direção oposta, mirando um vulto completamente coberto por roupas escuras, bem menor que a maioria das pessoas, que estava parado à frente de um baú de madeira pelo menos cinco vezes maior que ele.
- Os senhores sabem como proceder.
A voz taxativa e frígida parecia vir de algum ponto impessoal, próximo ao vulto mas não fixado nele. O mar que colidia com as pedras ao fundo concedia um aspecto ainda mais sobrenatural a toda a situação.
- A missão é simples. A metodologia é a mesma de sempre. Vão entrar, eliminar os humanos que se puserem no caminho, libertar os Pokémon e sair.
Um vento exageradamente frio cortou o ar, mas nenhum dos homens ousou deixar transparecer sequer um calafrio.
- Caso um companheiro esteja em iminência de ser morto, deve ser deixado para trás para não comprometer a operação. Caso alguém seja capturado, deve ser morto junto de seus captores para não corrermos riscos de expor a organização. Caso qualquer tipo de resistência seja oferecida, devemos atacar com violência e sem piedade, esmagá-los e mostrar o nosso poder. Deste modo, fica determinado que não haverá exceções ao juramento nesta missão.
O baú gigante tremeu, embebido numa luz roxa que parecia liquefeita. A pesada tampa se abriu com um estrondo e todo o conteúdo estava recheado até a boca por Pokébolas.
- Caso algum dos senhores tenha qualquer momento de fraqueza, lembre-se de porquê fazemos isso. Vocês vão se mover com a benfeitoria da escuridão. Se partirem agora e executarem a missão dentro dos precisos quarenta e cinco minutos que estipulei, estarão de volta antes de tornar a amanhecer e então teremos entrado e saído sem sermos vistos, o que é crucial.
As Pokébolas estavam envolvidas pela mesma luz arroxeada do baú e começavam a se erguer no ar, movidas por forças invisíveis, abrindo-se e liberando diversas formas ocultas na escuridão atrás dos homens em forma. A maioria deles sequer se mexia, habituados que estavam aos procedimentos.
- Vão, senhores. Vão mostrar a esses humanos nojentos que vocês não são a raça superior. Vão mostrar aos seus companheiros de espécie que os Pokémon não são meros animais de estimação.
Em resposta a esta última ordem, uma infinidade de asas de todos os tamanhos e formatos se abriu na escuridão, seguidas de gritos, rugidos e grasnados autênticos em vários tons.
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Tyrogue afundou o punho com força na mandíbula proeminente do Rattata, que rolou inconsciente pelo chão. O público foi a delírio e o treinador, um adolescente gorducho com cabelos loiros encaracolados, retornou-o, incrédulo. O Pokémon de Kristen afofava os punhos nas palmas das mãos, sem um arranhão sequer sobre o corpo.
Após abater os três primeiros com Ponye, Kristen notou que ela começava a se cansar e trocou-a por Tyrogue, que ainda não havia sido tocado e não parecia ter gasto nem dez por cento de sua energia após abater sete adversários seguidos. Estava estranhando o baixo nível dos adversários e orgulhoso da determinação irredutível de Tyrogue, que não subestimou nenhum deles – nem o pobre Rattata que só sabia desferir cabeçadas desgovernadas.
As duas arenas descritas pelo dono na verdade se provaram um único espaço fechado de chão de cimento bruto, assimetricamente dividido por dois bancos de madeira que teoricamente serviam para delimitar os dois ambientes.
Rodas de espectadores ensandecidos se reuniam em volta das batalhas, urrando e torcendo fanaticamente, o que lembrava terrivelmente a Kristen os clubes de briga de rua sobre os quais lia freqüentemente. Eles passavam discretamente o dinheiro ao dono, que se mesclava à multidão, mas que possuía o inexplicável dom de localizar os potenciais clientes em segundos; cadastravam-se no papel dele e misturavam-se aos demais para praticar seu vício.
Tamanha era a quantidade de apostadores no grupo de Kristen que ele mal podia vislumbrar o grupo de Ryla, logo depois dos bancos, embora pudesse ter certeza de que ela ainda não fora derrotada por ninguém, já que ainda não haviam se dispersado.
- Muito bem... – anunciou Hirata, manquejando para dentro da roda, sem dificuldades para abrir espaço de forma respeitosa – Vamos à luta final. Batalha de um contra um, desta vez sem limite de tempo. Só termina quando um for nocauteado ou desistir. Apostas dobradas comigo... e que entre o desafiante!
Hirata recuou de forma teatral para a multidão e dela emergiu ninguém mais que...
- Hunter?
O jovem nerd que o guiara até ali entrou confiante na roda e imediatamente as gritarias se transformaram em cochichos abafados. Kristen notou com o canto do olho que o movimento ao redor de Hirata aumentou e o sorriso de pirata do velho com sua prancheta tinha um crescimento proporcional.
- Aqui você pode me chamar pelo nome: Dante.
- Nome legal... por que usa aquele apelido?
- Aprendi na net que não é muito inteligente sair dando seu nome a qualquer um em qualquer lugar.
Diante dos protestos para que deixassem de papo furado e começassem logo a batalha, Hunter sacou a Pokébola. Diferente de Kristen, ele não se alheava ao público: jogava com os ânimos dele.
- Tenho uma boa nova para você, lutador!
Mas quem ficou surpreso de verdade foi Tyrogue, quando uma cópia fiel de si mesmo se materializou à sua frente. O público ovacionou a inesperada aparição e algo no olhar de Hirata dizia a Kristen que ele sabia de tudo.
- Surpreso? Como acha que alguém da minha idade consegue andar por aqui de cabeça erguida e ser respeitado? Eu fui o rei da mesa em quase todos os turnos da tarde enquanto você estava naquele hospital, Kristen. Não fui derrotado nenhuma vez. Ainda não sei onde aquele cara estava com a cabeça quando aceitou trocar esse Tyrogue pelo meu antigo Natu.
Kristen decidiu não responder. Procurava não entrar em jogos psicológicos durante uma luta. Estalou os dedos para extravasar, sem deixar de notar que seu Tyrogue estava igualmente incomodado com a situação. Agora era uma luta de honra para ambos novamente e era imprescindível que desta vez o resultado fosse diferente.
- Você sabe o que fazer com um lutador selvagem, Tyrogue. – limitou-se a dizer Kristen.
- Selvagem? – perguntou Hunter, com um sorriso debochado – Quanta arrogância. Ele foi muito bem treinado por mim.
- Você não entendeu.
O Tyrogue de Hunter sequer percebeu a aproximação velocíssima do oponente, cujos três primeiros socos erraram seu rosto por pouco. O quarto, porém, atingiu-o no supercílio e ele sentiu o sangue molhar as pálpebras.
- Meus Pokémon lutadores são treinados para lutar como humanos. Pode não ser uma vantagem tão significativa contra outros tipos de Pokémon, mas para outros lutadores treinados como Pokémon comuns... essa diferença é crucial.
O Pokémon de Hunter desviou-se de um chute e estava encurralado, quase em contato com o público, que já começava a vaiar sua atitude passiva na luta. O ferimento não era grave, mas o sangue que demorava a coagular lhe dava uma aparência medonha.
- Você não é o único iludido.
Um grito diferente modificou a atmosfera da multidão ao redor quando o Tyrogue de Kristen se aproximou para finalizar o serviço e recebeu um chute em cheio na genital. Ele dobrou os joelhos e recebeu um violento soco na face, tombando de lado com uma dor exagerada enquanto o oponente tentava enxergar através da cascata de sangue.
- O que diabos pensa que está fazendo?
- Você não está em cima dos seus tatames! Suas regrinhas de golpes baixos não valem aqui. Batalhas Pokémon são batalhas entre animais, não entre pessoas!
- Como ousa...?!
Empurrando uma grande pataca de sangue de uma vez só para longe do olho, o mais novo Pokémon de Hunter avançou contra o Tyrogue caído. Afobado demais, porém. Quando estava prestes a atirar-se sobre ele, um preciso chute na base de um de seus joelhos fê-lo dobrar as pernas perigosamente para a frente. O Tyrogue de Kristen, ainda caído, rodou o corpo habilmente sob ele, atochando seu cotovelo com força no meio do rosto do oponente e agarrando, em seguida, seu braço esquerdo e caindo de costas com ele seguro entre os próprios braços.
Num movimento muito rápido, o Tyrogue de Kristen estava deitado de costas, apesar da expressão de dor. Trazia as duas pernas envolvidas no braço que agarrava com firmeza com as mãos e que se torcia cada vez mais perigosamente às costas do oponente, deitado desconfortavelmente sobre o outro ombro, com o rosto colado no chão, riscando o cimento de vermelho.
- Droga! – gritou Hunter – O que está fazendo, Tyrogue? Como pôde cair nisso?
- Isso, seu estúpido, é o que acontece quando manda um lutador despreparado para uma batalha contra alguém preparado. Ele é pego em armadilhas simples. – retrucou Kristen friamente – Agora desista, antes que ele se machuque.
- Eu não vou desistir! Ele pode agüentar!
- Seu idiota! Ele vai quebrar o braço!
Mas vários segundos se passaram sem que a situação se alterasse. Kristen, como lutador experiente que era, notou rapidamente o problema e sentiu um princípio de pânico crescer na boca de seu estômago.
A posição era extremamente vantajosa para a alavanca de força de seu Tyrogue, que ainda possuía o apoio de ambas as mãos e pernas e um oponente sem nenhum dos membros superiores firmes para fazer tração inversa. O público e o próprio Hunter também entendiam o suficiente para saber que ele poderia ter fraturado ou ao menos deslocado aquele braço sem muitas dificuldades, mas limitava-se a mantê-lo preso com força, tentando ignorar as próprias dores.
- Então quer dizer... que ele não tem coragem, não é? – perguntou Hunter, com um sorriso maldoso.
“Essa não... não posso ordenar que ele quebre friamente o braço do outro Tyrogue por causa da irresponsabilidade do treinador. Mas se ele gastar energia demais ali, vai afrouxar e vai acabar perdendo...”
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O pequeno Kristen atravessou o cômodo escuro timidamente, coçando o curativo sobre o supercílio esquerdo de forma compulsiva. Bateu na porta de forma relutante e esperou até que uma voz grave o ordenasse a entrar.
Ficou feliz ao ver o pai confortavelmente recostado em sua poltrona, trajando seu kimono formal branco e parecendo bastante cansado. Mantinha, inclusive, os olhos fechados até Kristen se aproximar e se ajoelhar no tapete diante dele, fazendo a reverência.
Bruno abriu seus olhos e focou no filho, ordenando que ele levantasse. Após um longo abraço, Kristen tornou a ficar de joelhos para a conversa.
- Como foi a viagem, papai?
- Proveitosa. Revi bons amigos... você, como está? Soube que perdeu uma luta ontem...
O tom de Bruno não era severo nem repreensivo, mas Kristen abaixou a cabeça. A vergonha do fracasso de um discípulo era universal, pelo menos aos bons discípulos.
- Sim, senhor. Me desculpe por isso.
- Ora, filho, não estou desapontado por você ter perdido. Eu já não lhe disse que a derrota é um aprendizado importante?
- Sim, senhor. – respondeu Kristen humildemente, ainda cabisbaixo.
- Então você deve tirar o seu aprendizado. – disse Bruno bondosamente — Por exemplo, soube que manteve o rapaz imobilizado por mais de um minuto.
- Sim, senhor, ele... ele não queria bater.
- Hum... isso é uma decisão delicada, filho. Talvez delicada demais para um menino de dez anos.
- Mas ele tinha treze.
- Estava me referindo a você mesmo, filho.
- Como assim? – perguntou, tornando a erguer a cabeça, com a testa franzida de dúvida para o pai.
- Oras... se a imobilização foi perfeita, ele ia se machucar seriamente se você persistisse, certo?
- Sim...
- E é por isso que nesse momento seguramos a força e damos ao adversário a chance de admitir a derrota pra que ninguém se machuque sem necessidade. Está me acompanhando?
- Sim, senhor.
- Mas o que fazer se ele não desiste?
- Eu... não sei...
Bruno se levantou, mantendo as mãos atrás das costas de forma militar, a despeito do sorriso bondoso que carregava.
- Você continua forçando... em algum momento a dor será insuportável. Se ele tiver coragem e sangue frio suficiente para resistir, infelizmente vai quebrar o braço.
- Mas isso não está certo! – Kristen se levantou num rompante, chocado – Eu não posso machucá-lo só pra ganhar!
Bruno bem tentou, mas foi impossível esconder o orgulho que sentia pela atitude do filho. Naquela idade, a arte marcial poderia ser um utensílio perigoso, mas Kristen mostrava-se mais responsável que muitos adultos. Apenas precisava amadurecer e entender as exceções.
- Não é a vitória que importa, filho. Duas coisas são importantíssimas a um artista marcial: ter humildade e saber os próprios limites.
- Mas o senhor já me disse isso antes, o que tem a ver com machucar os outros?
- Não é sobre você, filho. Se a imobilização foi perfeita e o rapaz não bateu, é porque se recusa a aceitar uma derrota... ou porque ainda não reconhece que alcançou seu limite.
Bruno ficou ainda mais feliz ao contemplar a expressão de compreensão no rosto do jovem filho, constatando pela primeira vez que ele seria um sucessor melhor do que poderia supor nos seus sonhos. Decidiu ensinar-lhe a segunda parte:
- Isso, meu filho... se você só tiver como finalizá-lo dessa forma. Se você treinar bastante e ficar bom nas imobilizações, existe um outro jeito...
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- Tyrogue... gire por baixo e mude a chave.
- O que? – perguntou Hunter.
- Não podemos quebrar o braço dele... mas podemos fazê-lo dormir como um bebê.
Hunter não entendeu os jargões marciais, mas a segurança na voz de Kristen lhe deu calafrios mesmo assim. Tyrogue entendeu de imediato o que Kristen queria dizer: executá-lo era mais difícil. Imobilizações não eram realmente sua especialidade; apesar de treiná-las pelo menos três vezes por semana com Kristen, faltava um modelo Pokémon do tamanho dele que pudesse lhe dar melhores noções de espaço. Só encaixara aquela chave de forma óbvia pela deficiência técnica do oponente.
Apoiando o calcanhar direito sobre a face voltada para cima do oponente sem a menor delicadeza, Tyrogue lutava para enfiar a outra perna por baixo do tronco do mesmo, fazendo um verdadeiro malabarismo. O público começava a vaiar a luta parada, mas os quatro diretamente envolvidos não davam a mínima.
A cansativa batalha de reservas de energias terminou a favor do Pokémon de Kristen, ajudado por sua posição privilegiada. Após passar as pernas pelos flancos, Tyrogue soltou o braço já dormente do oponente e agarrou-se à cabeça dele. Enquanto os dois pés se enganchavam na frente do abdômen, uma das mãos agarrou o queixo para cima sem cerimônias e o outro braço apertou-se contra seu pescoço.
- Não! Não permita, Tyrogue! – gritou Hunter, em desespero.
Desta vez, sem risco de machucar o oponente, que batia as duas mãos em desespero ao redor do corpo, o Tyrogue de Kristen apertou com força até o mesmo dobrar-se inerte para a frente. Com alguma dificuldade, Tyrogue saiu de onde estava, alongando os braços para a frente e tentando disfarçar a dor que ainda sentia no púbis.
O público levou alguns segundos para perceber que havia terminado. Só deram os gritos comemorativos – meio sem entusiasmo – quando Kristen se ajoelhou ao lado do Tyrogue desacordado para examiná-lo.
Logo Kristen, Hunter e os Tyrogues tinham um pouco de paz enquanto os perdedores saíam frustrados e os vencedores se aglomeravam em volta de Hirata para reclamar seus prêmios.
- Por que não ordenou que ele quebrasse o braço do meu Tyrogue? – perguntou Hunter grosseiramente, enquanto Kristen pressionava a própria manga contra o supercílio cortado.
- É o que eu faria se fosse um humano. Mas ele não tinha poder para desistir sozinho, essa decisão caberia a você.
Hunter se ajoelhou ao lado dos dois e estendeu a mão para o próprio Pokémon, mas recebeu um tapa enérgico.
- Você nunca lutou fora do videogame, não é? Meu Tyrogue me respeita porque eu passo pelas dificuldades com ele, em conjunto. Se você começa a exigir de seus alunos sacrifícios que nem você seria capaz de realizar... eles deixam de te respeitar. Precisa tomar cuidado com isso.
Hunter ouvia de cabeça baixa. Kristen se levantou, erguendo o Tyrogue desacordado nos braços.
- Você perdeu porque trata os Pokémon como heróis de RPG. Você errou de forma irreparável com seu Natu. Mas espero que possa consertar... espero que saiba valorizar o que esse Tyrogue passou por você enquanto estava com o braço preso ali.
- Kristen!
Hirata vinha mancando na direção dos dois. Kristen espiou e a roda de Ryla – bem menor que a dele, mas suficiente para ocultar sua clareira – ainda se mantinha barulhenta e ativa.
- Que tal passar um mês aqui? Salário fixo garantido!
- Nada feito, Hirata-san. – respondeu Kristen com um sorriso – Eu tenho meus compromissos também. Mas obrigado pela oportunidade, foi um aprendizado valioso.
- Hum... se passar na cidade de novo, não esqueça de vir falar comigo.
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- Nem acredito! Nunca vi tantas juntas de uma vez só!
Apesar de andar curvada pelo peso da bolsa de livros a tiracolo, Ryla só tinha olhos para o montante de notas que contava e recontava alegremente diante de Kristen, que sorria como que olhando para uma criança em posse de uma porção de doces.
Ambos estavam cansados e carregavam bagagem abusivamente maior do que o normal. Ryla finalmente guardou as notas com muito carinho no interior do sutiã quando atravessaram as portas do shopping para a noite.
- Onde vamos dormir hoje, Kris?
- Hãn...
Kristen esquadrinhou tudo que estava ao alcance de sua vista, procurando um bom ponto para acampar e aproveitar aquele clima raro e agradável de vento morno. Mas as lembranças das pessoas que encontraram nos andares superiores do shopping foram passando por sua mente e cada canto entre árvores tornava-se uma armadilha sob seus olhos.
- Hã, Ryla-chan... o que acha de ficarmos num hotel hoje?
- Tudo bem. – respondeu ela prontamente, para surpresa de Kristen – Mas eu pago. – acrescentou com um sorriso propositalmente maldoso.
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Dentro do único quarto disponível, Kristen depositou a bagagem de mão sobre a cama de casal e descarregou a mochila sobre o chão a um canto sem cerimônia. Destacou o cinto de Pokébolas e colocou-o também sobre a cama, pensando em liberar Tyrogue mais uma vez para comer antes de ir tomar banho. Ryla já se desfizera de tudo facilmente e abria os armários, em busca das toalhas.
- Ryla-chan, já vai tomar banho?
- Preciso de um antes de comer. Estou com cheiro de apostadores alcoólatras.
- Hehe. Me faça um favor, sim? Limpe o ovo...
Logo Ryla entrou no banheiro com uma toalha e uma muda de roupas de dormir sobre os ombros e a bolsa do ovo na outra mão. Kristen sentou-se na cama com um dos livros recém-comprados aberto sobre as pernas cruzadas enquanto Tyrogue comia uma tigela de ração a um canto. Combinaram que alimentaria os outros Pokémon juntos quando terminassem os banhos.
- AAAAAAAAAAAAAARRRRRRRRRRRRRRRRRRR!
Derrubando mais bolsas do que achou que havia em cima da cama, Kristen atirou todo o peso contra a porta do banheiro. Esta, porém, estava destrancada, e ele deslizou pelo chão úmido, quase se esborrachando contra a pia. Praguejando contra o hematoma recém-adquirido na canela, ele se apoiou na privada para ficar de pé.
Uma camada densa de vapor d’água cobria todo o banheiro, irritando as narinas e os olhos de Kristen e tornando o vidro fosco que separava o chuveiro do resto do banheiro ainda mais vedado à vista externa.
- Ryla-chan? O que houve? Está tudo bem?
- Kris... – gaguejou ela – Eu… eu acho que quebrei ele!
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