Pokémon - Reconquest
15 Capítulo 13: Originado
Notas iniciais
Não foi o barulho de centenas de asas lutando contra o vento que acordou Lilly. A gorda tratadora de rosto rosado trajando um ridículo pijama com estampas de Snorlax tinha o sono bastante pesado, mas, como uma mãe, era muito sensível aos ruídos de seus tutelados.
A despeito dos interesses puramente comerciais da Liga, o pessoal contratado para trabalhar naqueles centros de criação – tanto médicos quanto tratadores – eram, em grande maioria, amantes sinceros de Pokémon. Indignavam-se com a forma como eles eram tratados midiaticamente, mas tinham plena consciência de que pessoas como eles eram indispensáveis lá dentro para lhes conferir um pouco de decência no tratamento, mesmo que para isso tivessem de se sujeitar a fazer parte daquele sistema podre e maldito.
Lilly sentia uma melancólica tristeza acompanhá-la enquanto caminhava na direção do cômodo dos recém-nascidos doentes. Sabia que o choro vinha do problemático Charmander que certamente seria alvo de abandono em breve.
Por questões de normas internas, a Liga não realizava exames genéticos para determinar os DVs de seus Pokémon iniciais nascidos em cativeiro, mantendo a aleatoriedade da escolha dos treinadores, mas aqueles que nasciam com uma série de doenças – todas listadas displicentemente numa folha pregada ao mural da sala para onde ela se dirigia – não podiam fazer parte da seleção. Quando passavam pelo período de desmame, simplesmente eram soltos à própria sorte na natureza.
Aquela semana, Lilly e os demais tratadores estavam tendo problemas com um Charmander com complicações respiratórias tão sérias que a própria mãe o rejeitara. Pokémon que colocavam vários ovos de uma só vez nem sempre tinham condições de cuidar de todos os filhotes na natureza, de modo que o(s) mais fraco(s) às vezes eram desprezados ou até comidos vivos, ainda recém-nascidos. Mas mesmo em cativeiro as espécies quase sempre conservavam essa memória genética e não havia santo que fizesse a mamãe Charizard alimentar aquele pobre dragãozinho nem uma vez sequer.
Sem acender as luzes pelo caminho, pois já conhecia todo o prédio como a palma de suas mãos, Lilly abriu a porta com carinho e reconheceu o vulto que se retorcia entre os lençóis no último entre os oito leitos ocupados, perdido entre acessos de tosse e um choro descontrolado.
Com baixos sibilos tranqüilizantes, ela se aproximou, olhando-o sem conseguir conter as lágrimas ao pensar que ele não dispunha de carinho nem da própria mãe. Sua casa vivia atulhada de Pokémon que seriam abandonados, apesar de ser contra o regulamento, o que lhe rendera diversos momentos em que tivera de se explicar aos superiores – complacentes por seu bom funcionalismo. Sua vizinhança não era particularmente composta por pessoas boas e pacientes que aturavam choro de Pokémon sem denunciá-la e no momento ela não tinha dinheiro para se mudar para um lugar tranqüilo no meio do mato, como queria.
Acariciou o Charmander, procurando acalmá-lo, enquanto olhava ao redor, buscando o borrifador que o salvaria da crise e deixaria os dois dormirem. Mas um pequeno destacamento luminoso na janela a distraiu.
Deixando o Charmander por um instante, ela contornou habilmente a cama e as aparelhagens, sem precisar olhar para elas. Sua altura não acompanhava sua largura e ela teve de ficar na ponta dos pés para enxergar direito a janela.
O belíssimo e aterrador borrão de chamas foi a última coisa que viu na vida. Os gritos simultâneos de humanos e Pokémon encheram todo o local e o terror daquela noite seria lembrado ainda por muitos anos, sendo conhecido nos livros como o primeiro ataque terrorista Pokémon bem sucedido da história da humanidade.
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- Ele deve estar nascendo!
Ao receber o ovo pelando em suas mãos, foi Kristen quem quase derrubou-o. Dividindo-o alternadamente entre as mãos, ele correu para fora do banheiro, sem saber por que milagre não se estatelou no chão. Derrapando diante da cama ladeada de mercadorias, ele depositou o ovo sobre a pilha fofa de roupas de cama e só então, livre do vapor do banheiro, pôde observá-lo direito.
Uma profunda rachadura vergava metade da extensão do ovo. Kristen sacudia as mãos, amaldiçoando a temperatura exagerada do banho de Ryla, que vinha logo atrás dele, parecendo ainda se sentir culpada, não compreendendo toda a situação.
- O que fazemos? O que fazemos?
Kristen parecia em pânico. Andou até a própria bolsa no chão, mas logo refez o caminho até a mesa de cabeceira, ainda vazia. Dirigiu-se sem razão ao banheiro, mas mudou de idéia no meio do caminho e voltou para o ovo. Tanto ele quanto Ryla soltaram um grito desesperado e ergueram os braços quando outra rachadura transversal à primeira estalou. Tyrogue aproximara-se, mas quando finalmente entendeu a situação, parecia imensamente mais calmo que os dois.
- Essa não! Vai nascer! O que fazemos?
- O seu livro! – gritou Ryla num lampejo de bom senso.
Kristen atirou-se de barriga para baixo no chão, abrindo o zíper da própria mochila com tanta força que arrebentou-o, mas nem pareceu se importar. Atrapalhando-se com o conteúdo, atirou para fora ração, roupas e a manopla que havia comprado, que só coubera ali justamente pela saída do ovo. Finalmente encontrou o livro e quase rasgou a capa ao folheá-lo compulsivamente, procurando a página do Lapras sem raciocinar direito.
Somente quando a terceira rachadura surgiu, esta longe das primeiras duas, Ryla notou que Tyrogue apontava para ela, mudo ao lado da cama. Então ela se deu conta de que estava parada de pé, completamente nua, no meio do quarto. Sem raciocinar, retrocedeu e entrou no banheiro, batendo a porta com um estrondo desnecessário e se postando sobre ela de costas, como se um exército inimigo inteiro a estivesse forçando do outro lado.
Seu peito arfava como se tivesse corrido por vários quilômetros seguidos e ela pôde notar a toalha atirada no chão, que deixara cair no desespero de pensar que havia quebrado o ovo. A única coisa que a consolava era a certeza de que Kristen obviamente não havia reparado, ou teria tido a decência de avisá-la para se vestir, mas mesmo essa consciência não era suficiente para conter o suor frio.
Foi arrancada de seus devaneios pelas nervosas batidas na porta:
- Ryla, o que está fazendo? Preciso de ajuda! Traz um pouco dessa água pelando que você usa pra tomar banho!
De volta à sanidade, ela gritou algo em concordância e olhou ao redor. Evidentemente não havia baldes nem nada do tipo num quarto de hotel. O vapor ainda passeava pelo banheiro, já que haviam largado o chuveiro aberto. Ela agarrou a toalha úmida e amarrou-a firmemente ao redor do corpo até a altura dos seios, tentando respirar com um pouco mais de calma.
Depois de pensar por uns segundos, retirou todo o conteúdo do minúsculo pote de produtos higiênicos. Largando sachês de sabonete, secador de cabelo e seis vidros de xampu artesanal dentro da pia, ela encheu o pote com água quente e fechou o chuveiro. Era pequeno, mas tinha que servir.
Ao sair do banheiro, ela viu Kristen em sérios apuros. Ele tinha as duas mãos bastante trêmulas postadas ao lado do ovo, que já estava sem vários pedaços, como se quisesse aparar algo que fosse cair. Alguma coisa indistinguível se movia dentro dos pedaços retorcidos do ovo e ela quase pisou no livro aberto de onde ele tirara as apressadas instruções.
- Aqui diz que o bebê de filhote aquático precisa ter contato com água quente e, em seguida, sentir a água esfriar ao redor do corpo! Me dê o balde!
Quando se virou, porém, para pegar a água, pareceu entrar no mais profundo pânico ao ver o pequeno pote no qual ele mal poderia mergulhar as duas mãos juntas.
- Só isso? – sua voz saiu num fio desesperado.
- O que quer que eu faça? Que eu arranque a porta do armário e construa um balde? Foi o melhor que deu pra arrumar em dois minutos! – respondeu Ryla, indignada.
A breve discussão foi interrompida por um peculiar ruído de esmagamento que encheu o cabelo de Kristen de estilhaços de cálcio colorido que pareciam ter sido mergulhados em algo pastoso.
Quando ambos se viraram, um pequeno Lapras de trinta centímetros os encarava, parecendo ter sérios problemas para se equilibrar sobre o lado certo do casco. Ele estava coberto por um líquido amarelado que Kristen podia jurar que era gema de ovo comum, embora estivesse completamente errado.
- Ele... está bem? – perguntou Ryla, com a boca aberta.
Mas Kristen estava simplesmente maravilhado. Esticou um dos dedos trêmulos para o seu mais novo Pokémon, que não se retraiu. Sentindo que podia ir adiante, tocou-lhe a cabeça com um dos dedos.
Era pegajoso, mas Kristen adorou o contato. O Lapras bebê lambeu-lhe a mão com uma língua áspera e destreinada.
- Seja bem-vindo, Lapras!
- Hey, não devíamos lavá-lo com água quente? Quem é que estava dando chilique? – perguntou Ryla, erguendo o pote de água.
Transportando o Lapras com lençol e tudo, ambos o colocaram sobre a pia, onde Ryla aplicava pequenas quantidades de água quente sobre o bicho e Kristen esfregava até sentir a substância do ovo se soltar da pele dele por completo.
- Droga, se eu soubesse, podíamos ter pego um quarto com banheira! – lamentou Kristen – Ia ser muito mais fácil.
- Se soubéssemos, teríamos ficado no Centro Pokémon, isso sim. Não sabe o medo que estou de estar fazendo besteira.
Após terminarem o desajeitado banho, Kristen suspendeu o pequeno Pokémon, apoiando-o sobre as duas mãos. Pesado para seu tamanho, o Lapras se aninhou entre os dedos dele e abriu a boca, soltando pequenos lamentos nada comedidos.
- Acho que está com fome. – disse Ryla – O livro diz o que ele tem que comer?
- Diz sim. – respondeu Kristen – Existe um leite especial para cada tipo de recém-nascido sem a mãe. Eu comprei o de água quando recebi o ovo, mas já deve ter passado da validade. Espere aqui, vou na rua ver se arrumo uma caixa.
- Hey, tenha cuidado na rua! – disse Ryla para o jovem que já batia a porta do quarto atrás de si, apressado como um fugitivo, logo após colocar o Lapras nos braços dela – Será possível que ele esteja sempre ligado no 220? AI!
Ela retirou o dedo dos dentes de Lapras, amargurada apenas por uns instantes. Ergueu o Pokémon com as duas mãos até a altura dos próprios olhos.
- Mas que coisa. Eu dei banho em você, devia ter um pouco mais de gratidão! E pensar que fiquei pelada na frente de outro homem por sua causa.
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O sol que acabava de baixar sua presença sobre o cume da montanha distante tinha sua beleza ofuscada pela fumaça negra que subia e pelo clima de morte em meio à poeira de concreto e à carne queimada. O Comandante Baromy não podia acreditar que o imponente complexo de quatro prédios estivesse reduzido a um imenso turbilhão de cimento retorcido.
Ainda enquanto olhava, com a expressão perplexa e punhos cerrados, um trio do Corpo de Bombeiros deixou os escombros, afastando madeira e poeira e carregando uma padiola que continha um saco preto com o interior totalmente preenchido. Carregaram-no até uma fileira de sacos idênticos no chão, depositando-o sem muitas cerimônias em uma das extremidades e retornando aos escombros.
Uma jovem se aproximava, parecendo não ser uma boa companhia naquele momento. De aparência sempre impecável, Lucy agora trazia os fartos cabelos ruivos despenteados e sem vida. Havia duas enormes olheiras ofuscando a beleza dos olhos verdes. O blusão de mangas longas, preto e simples sobre o qual ela colava a prancheta estava amassado e manchado. Seu sorriso também fora substituído por uma carranca melancólica e um olhar objetivo.
- Agente Lucy, ainda não tivemos a oportunidade de nos falar desde que cheguei. Lamento por tirá-la da cama tão cedo...
- Eu não estava dormindo, chefe. – cortou a policial secamente – O senhor deseja o relatório?
- Por favor. Um rapaz estava comentando que não houve sobreviventes.
- Até agora localizaram vinte e três corpos dos vinte e seis funcionários que estavam no local no momento do acidente. Por sorte foi a esta hora, pois costumam transitar mais de setenta pessoas durante o dia. Havia cinco médicos, doze tratadores e o restante eram os funcionários básicos de plantão... os dois vigilantes, faxineiros, técnico de equipamentos médicos...
- Como sabem exatamente que todos estavam aí? Alguém pode ter faltado ao trabalho... – insinuou Baromy, esperançoso.
- Receio que não, senhor. Por acaso, a máquina de ponto saiu intacta da confusão... se algum funcionário realmente faltou, terá de explicar como sua entrada foi registrada. Embora eu acredite que um problema jurídico como esse seja melhor do que ter estado presente na hora...
- Tsc... Já foi confirmado que era realmente a FLAK?
- Sim, senhor. Uma câmera de segurança do Centro Pokémon próximo captou algumas imagens da fuga. Pela hora foi difícil captar os detalhes dos humanos, já que estavam usando Pokémon voadores enormes... mas um bom técnico de informática e alguns softwares avançados limparam a imagem o suficiente para detectar traços da sigla nas roupas de alguns dos homens.
- Desgraçados...
- E senhor... não sei quem lhe deu a informação, mas estão equivocados. Houve uma sobrevivente sim, embora em estado grave.
Comandante Baromy arregalou os dois olhos, como se tivesse ouvido Lucy dizer que havia se encontrado pessoalmente com Deus.
- Como?
- Uma mulher praticamente irreconhecível por causa das queimaduras. Ainda não tinha sido identificada quando falei com o hospital. Disseram que iam se preocupar com a identificação depois de tratá-la e prometeram me avisar assim que ela saísse da cirurgia. A essa altura – consultou o relógio de pulso rapidamente – já está indo para a terceira hora de operação. Ela estava no cômodo que perdeu o telhado, mas manteve as paredes de pé.
- A UTI...
- Sim. Sabemos com certeza que o líder do ataque montava um Charizard negro, provavelmente o mesmo que esteve envolvido no... incidente em Violet.
- Sim, eu ouvi dizer. – respondeu o comandante cautelosamente, reparando a súbita expressão de dor na subordinada.
- Pois trabalhamos com a hipótese de que tenha sido atingida diretamente pelas chamas dele... é possível que algum dos integrantes tenha entrado lá... ela pode ter ficado cara a cara com o líder, como Kristen Jounochi ficou.
- Por que ele desmontaria do Charizard? – perguntou Baromy, sinceramente curioso.
- Temos certeza de que o objetivo deles não era simplesmente destruir o local. Queriam libertar os Pokémon.
Novamente Baromy parecia estar ouvindo sua assistente dizendo algo sobrenatural com um tom científico.
- É uma teoria ousada. Sei que praticamente todos os Pokémon fugiram para as florestas adjacentes, mas afirmar que este tenha sido o objetivo do ataque... Não acha complexo demais supor isso, agente Lucy?
- Não, senhor. Pelo pouco que Kristen nos contou sobre a ideologia que ouviu aquele dia, eles acreditam que os Pokémon são superiores e que não devem ser submissos aos humanos.
- Mas Pokémon também morreram aqui hoje!
- Acidentalmente sim. Eles não me parecem muito ponderados. – Lucy deu de ombros — Devem apenas acreditar que precisam quebrar uns ovos para fazer omelete. Se observar o mapa dos ataques, vai perceber que eles só atacaram pesadamente as salas dos funcionários. Os locais com presença de Pokémon foram superficialmente atacados a princípio. E depois sofreram depredação. Ou seja, eles claramente estavam dando tempo aos Pokémon para fugir.
- Certo, tenho de admitir que faz sentido. – disse Baromy, coçando sua barba de vários dias – Mas por que ele entraria na UTI?
- Bom... conversamos por telefone com um médico que não estava de plantão no momento do incidente e ele afirmou categoricamente que nenhum dos Pokémon que estavam na UTI seria capaz de chegar sequer à porta de saída sozinho... sendo que nenhum cadáver foi encontrado na UTI.
- Mas agente Lucy, tivemos provas cabais de que eles executaram sumariamente alguns dos outros humanos... depois que já estavam feridos ou rendidos, sofreram novos ataques. A perícia preliminar já concluiu isso. Por que então deixaram viva a mulher da UTI?
- Senhor... – Lucy hesitou por um instante antes de aplicar aquelas palavras — Se o senhor vir o estado em que ela ficou, vai concordar comigo que poucas coisas se parecem mais com um cadáver. O paramédico dos bombeiros que a resgatou ganhou uma bronca do comandante, pois ela está tão desfigurada que ele começou a ensacá-la sem nem verificar os sinais vitais... só percebeu que estava viva quando ela acordou e começou a berrar de dor.
Baromy apoiou o queixo numa das mãos, bastante pensativo. Tudo que Lucy dizia construía uma teoria deveras ousada, mas ao mesmo tempo fazia um tremendo sentido. Sabia que Lucy, tanto quanto ele, levava aquele assunto de forma mais parcial do que deveriam fazer enquanto policiais, mas não havia sentido em inventar aquela ideologia distorcida. Ela realmente parecia gritar diante da cara deles sobre a índole subversiva dos terroristas.
- Eu terei de desenvolver melhor essa idéia, agente Lucy. Mas mesmo que ela se prove errada, admito que foi muito perspicaz da sua parte. Talvez eu mesmo não tivesse notado os sinais.
- O senhor não precisa agradecer, comandante. É uma honra pra mim ajudar a desvendar esse caso.
Baromy fitou-a paternalmente com ar grave. Sabia que não era honra a palavra que ela desejava usar. Tampouco seria vingança, mas era algo bem próximo. Um bom policial passava sua vida tentando aplicar um senso de justiça à sociedade e, portanto, sempre achava que sua vida seria povoada de moralidade. Era como os grandes técnicos de fábrica que achavam que nunca iam se queimar, pois trabalhavam com o fogo todos os dias e já haviam se habituado.
- Você está bem, agente Lucy?
A pergunta quebrou completamente a fria máscara defensiva de Lucy. Ela abaixou a cabeça, como que repentinamente envergonhada da própria aparência desleixada, abraçando a prancheta com mais força junto do peito, como se pudesse se proteger dessa forma.
- Sinceramente não sei onde quer chegar com essa pergunta, Comandante.
O comandante se aproximou e tocou-a no antebraço esquerdo de leve, encarando-a com ternura, pronto a dar-lhe um abraço. Ao menor toque, porém, Lucy recolheu o braço e afastou-se dele um passo e meio como se tivesse se queimado, encarando Baromy como se ele apontasse uma arma para ela. Ele, por sua vez, não sabia o que dizer diante da injustificada expressão de pavor.
- Eu... sinto muito, eu não queria...
Sem dizer nada, Lucy deu-lhe as costas e se afastou quase correndo, incapaz de esconder as lágrimas que surgiam. Tomado pelo momento de pânico, Baromy achou, num primeiro instante, que lhe causara algum tipo de desconforto emocional com toda aquela aproximação, mas logo se deu conta de que isso não fazia o menor sentido. Aquele incômodo era físico e ele sentia a preocupação crescer dentro de si como um Pokémon em evolução.
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Após três longos dias de caminhada, Ryla e Kristen finalmente se viam na metade da Rota 30, à beira da floresta e diante da via expressa que conectava a estação de trem mais próxima à fronteira com Kanto. As bagagens pesavam e o próprio Tyrogue parecia já cansado de andar.
- E agora, Kris-kun? Já está escuro, vamos parar pra acampar?
- Não... eu realmente preciso estar lá até amanhã...
Kristen encarou a estrada por uns instantes, bastante pensativo. Se dessem a volta, ele se atrasaria com certeza, já que Ryla não agüentaria vencer os últimos quilômetros em poucas horas. Se estivesse sozinho, poderia fazê-lo, apesar do cansaço. Por outro lado, não era permitido transitar pela estrada e a floresta não era segura àquela hora, o que significava que precisava recorrer a um sujo plano B.
Olhando para trás, via a grande estação de trem ressaltada na junção da Rota 30 com a Rodovia dos Lickitungs, assim batizadas por um episódio no qual os linguarudos atrapalharam as obras, carcomendo trechos inteiros da mesma após terem sua colônia perturbada no desmatamento.
Diante da estação, quatro carros velhos e brancos com faixas vermelhas estavam enfileirados e dois motoristas fumavam um cigarro e conversavam, apoiados no primeiro. Ele sempre preferia caminhar a utilizar esses recursos, mas era uma emergência...
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Sobre a televisão, um velho aparelho multi-funcional que permitia jogar videogames e assistir a filmes em mídias diversas trazia no mostrador quatro zeros vermelhos que piscavam, divididos aos pares por dois pontos gramaticais. Sequer o pique de luz que assolou toda a região fizera Lucy se levantar de sua incômoda posição, com as costas arqueadas contra a parede ao lado da privada.
Os olhos dela estavam vermelhos e inchados, o chão sujo de vômito seco de vários dias e a pia recheada de marcas de sangue fresco e escuro. De fato ela não estivera dormindo quando o incidente ocorreu no centro de tratamento. Não dormia mais que algumas horas seguidas desde o problema em Violet e não sabia quando voltaria a dormir. Tudo que podia fazer para aliviar sua frustração estava sendo feito naquele exato instante.
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As passadas lentas de ambos denunciavam o cansaço sincero que sentiam. Kristen arrumou um jeito de pendurar as alças da bagagem de Ryla em suas costas para livrá-la do peso e ela estava com as juntas tão doloridas que nem sequer conseguiu protestar. Kristen optara por recolher Tyrogue à Pokébola quando este ameaçou enjoar no carro.
Os calçados de ambos amassavam as folhas à beira de um rio, silencioso àquela hora, de águas bonitas mesmo no escuro. Ryla respirava com muita vontade, como se quisesse armazenar aquele ar puro para quando tivessem de retornar às malditas cidades grandes.
Após cerca de quinze minutos caminhando, ela entendeu por que o táxi não poderia levá-los até ali e quase gritou para comemorar quando avistaram o primeiro contorno de construções. Não deixou de reparar no sorriso radiante que Kristen trazia.
Primeiro uma série de casas de tijolo simples, pintada em cores suaves sem muito padrão, todas afastadas vários metros prudenciais do rio. No meio delas, um edifício com três andares com a fachada caprichosamente decorada com imagens de balas embrulhadas e grandes pirulitos de chocolate, no qual se lia “Kayla’s Shouten”. Mas o olhar de Kristen se fixava na maior das construções, do outro lado do rio.
Com o conhecimento profundo de quem havia sido criado por ali desde sempre, Kristen achou logo um caminho onde o rio estava tão raso que podia atravessá-lo sem molhar mais do que as canelas e Ryla nem achou desagradável, apesar da água no tênis. A cada segundo que passavam, aumentava seu desejo de tirar longas férias por ali, estirada numa rede com uma pilha de livros ao lado e mais nada nem ninguém. Ninguém exceto Kristen, claro.
- Lar, doce, lar... – entoou Kristen, parecendo um menino que acabava de abrir seu presente de natal.
Ele literalmente correu os últimos passos, portanto Ryla só alcançou-o vários minutos mais tarde. Sob a fraquíssima iluminação de uns dois postes de rua com lâmpadas esverdeadas, ela foi capaz de enxergar um imenso letreiro colorido que reunia uma coleção invejável de Pokémon lutadores muito bem desenhados. Bem no meio de todos eles, a inconfundível sombra de um Hitmonlee cruzava um dos pés no ar com o pé de uma sombra humana, ambas projetadas em chutes perfeitos. As letras AMP estilizadas encimavam essa cena.
As portas duplas eram imensas e quando ela alcançou Kristen, ele vasculhava dentro da bolsa entulhada de coisas. Ela ia abrir a boca para perguntar pelo quê ele procurava quando ele apanhou um estojo simples de plástico, abrindo-o mecanicamente e retirando de dentro dele uma grotesca chave de ferro.
Levantou-se satisfeito, espanando a grama dos joelhos e, em seguida, inserindo a chave na fechadura enferrujada. Ele empurrou as portas com um incômodo rangido e sorriu para Ryla, apanhando as bolsas e entrando sem muitas cerimônias, acenando com a cabeça para ser seguido.
Ryla sentiu-se num corredor escolar, embora muito mais bem tratado do que qualquer outro que tivesse visitado em sua vida. Viu um grande grupo de armários cinzentos à esquerda, a maioria fechados com cadeado. Havia bebedouros de chão espalhados por toda a extensão do corredor e pela menos meia dúzia de portas.
Ela seguiu Kristen, que andava de forma confiante, evidentemente tendo um destino fixo em mente. Conforme se aproximaram da porta que ele visava, ela ouvia uma música baixinha, parecendo uma espécie de distorção de bateria e guitarra.
Quando Kristen abriu a porta, foi inevitável levar as mãos aos ouvidos e fazer careta de incômodo. Ela se esgueirou logo em seguida a ele, que fechou a porta assim que ela passou, ainda sorrindo e parecendo não se incomodar com a música.
Com dois terços das imensas luzes de teto apagadas e nenhum ventilador funcionando, o imenso dojan parecia um grande galpão abandonado. Aparelhos de musculação e caixas de material guardados a um canto por causa do horário projetavam sombras que pareceriam pavorosas a mentes crédulas.
Mas a figura mais chamativa da cena era certamente o vulto alto e extremamente corpulento que se movimentava ao redor de um grande saco de pancada pendurado solitariamente no teto. Careca, de peito nu e calçando luvas negras nas quais Ryla tinha certeza que poderia passar a perna inteira até a coxa, ele movimentava-se ao redor de seu alvo na única parte iluminada do local como se este fosse um oponente humano real.
Ryla notou, impressionada, que estavam imediatamente ao lado do aparelho e das caixas de som berrantes, mas ainda assim era possível ouvir o ruído seco dos punhos do homem agredindo a espuma.
Perguntava-se se Kristen ficaria apenas parado olhando com aquele sorriso extremamente satisfeito ou se interromperiam o exótico treino presenciado quando um brilho avermelhado e bastante chamativo irrompeu de um dos pulsos do homem. Ela supôs que o relógio também vibrasse, pois ele imediatamente parou de golpear e checou o relógio, apertando alguns botões e se dirigindo até uma bancada de espuma, já fazendo menção de se atirar sobre ela para descansar quando Kristen girou o botão do volume até o zero.
Adolf imediatamente ergueu a guarda e olhou desconfiadíssimo para a porta, mas quando reconheceu a silhueta de Kristen, deixou cair os braços e abriu um sorriso que fez Ryla perder qualquer temor que pudesse ter sentido. Ele agora parecia um grande tiozão gordo e feliz, a despeito de estar vestido como lutador e de estar moendo o saco de pancadas com uma força tal que ela desconfiava que poucos ossos sobreviveriam.
Ele e Kristen andaram na direção um do outro e abraçaram-se ternamente, trocando tapinhas nas costas. Ryla seguiu seu companheiro de viagem timidamente.
- Hey, cara... treinando a essa hora da noite? Parece que não assumiu só o meu cargo...
- Pois é... depois que assumi as turmas, entendi por que você ficava até mais tarde pra treinar sozinho. E a moça? – perguntou Adolf, olhando com um sorriso ainda maior para Ryla.
- Oh, desculpe... Ryla Mazoku. Conheci por aí, está viajando comigo.
Ryla ainda estava no processo de estender a mão quando Adolf tirou-a do chão com um abraço que estalou-lhe as costelas e a coluna, mas que, apesar disso, era altamente caloroso.
- Haha... finalmente o jovem mestre arranjou uma namorada. – caçoou Adolf, dando em Kristen um soco de leve no braço após soltar Ryla, que tinha medo de ter alguns ossos fora de lugar.
- Não, não... não temos nada demais, somos só amigos! – apressou-se em explicar Kristen.
- Sei sei... – riu Adolf
- Como estão as coisas? E os alunos?
- Todos ótimos... a mãe do Duckens esteve aqui estes dias chorando de emoção... o moleque realmente fez progressos com a asma nas últimas consultas. – Adolf parecia estar discursando sobre a solução para a paz mundial de tanto que seus olhos brilhavam ao falar – Ela disse que tentou natação, homeopatia, medicamentos mais pesados... nada resolvia. Mas agora que ele treina com a gente começou a ter melhoras.
- Isso é ótimo. – sorriu Kristen, compartilhando da satisfação do amigo – Ele é um bom moleque, não merecia passar por tudo isso. Por sorte ele tem uma ótima mãe.
- Pois é... ela disse que se acusassem você de mais algum assassinato absurdo como aquele, ia pessoalmente até a delegacia atirar pedras nos policiais, haha.
Ao mesmo tempo em que se sentia uma intrusa na familiaridade e descontraída amizade dos dois, Ryla adorava estar ali. Gerava um clima gostoso de sentimentos bons e sinceros ouvi-los falar daquela forma natural.
Ela sempre acreditara que toda a humanidade era horrível. Depois começou a acreditar que Kristen era uma raríssima exceção. Agora estava lendo um dos vários livros que haviam comprado, um romance escrito por um psicólogo, no qual o protagonista concluía já no início que as pessoas tinham o hábito de assumir a realidade em volta delas como realidade absoluta do resto do mundo. A realidade ao redor de Ryla antes de conhecer Kristen por acaso naquela noite não era digna de ser considerada universal e ela começava a acreditar nisso, enfim.
- Mas então, cara, fiquei preocupado... – disse Adolf após várias frases perdidas por Ryla em seus devaneios — Ainda bem que veio direto pra cá, pois estávamos todos apreensivos, preocupados de que pudesse resolver dar uma passada em Cherrygrove antes de prosseguir viagem.
- Decidimos vir pra cá primeiro por causa da linha reta. Passaremos por Cherrygrove depois, a caminho de Azalea... mas qual seria o problema de ir por lá?
- Você não sabe sobre o atentado? – perguntou Adolf, agora bastante sério.
- Atentado? Do que está falando, Adolf?
Adolf suspirou longamente e silenciou mecanicamente o relógio que começava a apitar, anunciando que ele tinha mais um round contra o saco de pancada. Havia assuntos mais urgentes.
Andando até a parede, ele apanhou com uma das mãos um banco de madeira para seis pessoas como se fosse de isopor, colocando-o próximo a Kristen e Ryla e sentando-se num dos cantos, retirando lentamente as luvas e bandagens.
- Você realmente devia começar a assistir mais televisão, Kristen...
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