Pokémon - Reconquest

13 Capítulo 11: Bagagens


Notas iniciais
Boa leitura, senhores.

A pequena área gramada imediatamente atrás do ginásio de Violet City agradava bastante a Kristen. A propriedade adquirida pela Liga para a construção do ginásio cobria também um grande espaço ao redor do mesmo, que Falkner mantinha em programa de preservação ambiental, mas sem gradeá-lo ou murá-lo como um parque, de modo a conservar seu aspecto selvagem. Não era suficiente para barrar os ruídos da região urbana ao lado, mas bastava para mantê-los desimportantes.

Tyrogue aquecia-se para o treinamento, reservado a um canto junto duma árvore, enquanto Kristen alongava-se demoradamente. Ponye, Cyndaquil e Eevee corriam livres de um lado para o outro e Ryla sentava-se recostada à barraca, com um enorme livro velho apoiado sobre as pernas cruzadas. Todos pareciam incrivelmente felizes.

Internamente, Kristen tinha consciência de que, caso andassem à solta pela cidade, seriam parados a cada quadra para que ele ouvisse elogios e até desse autógrafos e tirasse fotos. Como tudo que ele mais queria naquele momento era recuperar a forma física em paz para prosseguirem viagem, resolvera se esconder justamente ali, debaixo do nariz de todo mundo.

Já estava havia quase meia hora suspenso sobre as pernas abertas na mesma posição. Logo nos primeiros minutos a dor o deixara e agora ele podia sentir claramente os músculos se adaptando aos poucos à nova flexibilidade exigida.

A vista para realizar esse tipo de exercício não poderia ser melhor. Pouco menos de dez metros os separavam de um lago particularmente grande, cuja margem oposta abrigava uma gigantesca torre onde se aglomeravam diversas pessoas na entrada. A ponte de acesso estava do outro lado do ginásio e Kristen ainda pensava seriamente se iria até lá ou não.

Interrompido em seus devaneios pela chegada de Tyrogue, que parara a alguns metros com deferência e disposição, Kristen recolheu as pernas devagar, ficando de pé e chutando o ar de leve para testar a nova aderência muscular.

- Está bem, amigão... vamos fazer algo um pouco diferente hoje.

Ryla dobrou seu livro e bocejou firmemente, espreguiçando-se sem nenhuma preocupação. Pela primeira vez na vida, podia afirmar sem ressalvas que estava feliz. Sentia-se protegida, querida. E o principal: tinha liberdade para fazer o que desejasse. Em sua casa não poderia estar sentada numa paisagem linda como aquela lendo tranqüilamente no meio da tarde, mas Kristen não só não se importava como não a incomodava, concentrado que estava nos próprios afazeres.

Abrindo a barraca atrás de si, depositou com cuidado o velho livro sobre o colchonete ainda armado e levantou devagar, considerando pela enésima vez pedir treinamento a Kristen para dar um jeito naquelas terríveis dores nas costas que ela não achou que teria antes dos sessenta anos.

Os três Pokémon corriam livremente sobre o gramado, divertindo-se verdadeiramente como filhotes que eram. Mas o que realmente chamava atenção era a enorme figura de Kristen com água até a barriga e seu Tyrogue boiando ao seu lado.

- Muito bem, amigão... você pegou rápido essa parte. Agora vamos ver se você consegue se mexer dentro d’água também...

Ryla observava à distância enquanto Kristen ensinava a Tyrogue os movimentos para bater os braços e pernas e se deslocar sem dificuldades. Inacreditavelmente, Tyrogue parecia ter facilidade com a natação, pois não demorou mais do que algumas tentativas para conseguir sincronizar os membros.

- Ok... vamos tentar um exercício então. Vem comigo!

Ela não pôde deixar de se sentir surpresa com o fôlego de Kristen mesmo na água quando ele desatou a bater os braços freneticamente, movendo-se com muita velocidade. Sua estatura também favorecia e ele cobria grandes distâncias rapidamente, logo alcançando o meio da ponte que separava a parte urbana da torre. Tyrogue seguia debilmente atrás dele.

Ele parou, virando-se e respirando fundo para recuperar o fôlego enquanto Tyrogue ainda vinha em sua direção. Ele mergulhou novamente o tronco e a cabeça na água, fazendo o caminho de volta e passando por seu Pokémon, que logo chegou ao nicho onde ele estivera antes.

Kristen parou perto da margem, onde os outros três Pokémon haviam parado para assistir junto de Ryla, enquanto Tyrogue vencia com muito esforço a distância que faltava.

- Excelente, amigão! Se continuar assim, logo seu fôlego vai estar ótimo!

Com as palavras mágicas ditas por Kristen, Tyrogue imediatamente assumiu uma velocidade ainda maior de natação, espalhando água para todos os lados. Todos aguardavam ansiosamente o retorno dele como se fosse um atleta olímpico, quando repentinamente ele saltou para fora da água como se tivesse sido expelido por uma baleia.

- Tyrogue? – perguntou Kristen, surpreso, enquanto ele tornava a cair espalhafatosamente na água.

Um chifre branco reluzia para fora da água e logo um elegante peixe branco e rosa com barbatanas espaçosas apareceu por baixo dele.

- Essa não. – gemeu Ryla — Parece que vocês atrapalharam o sono de alguém...

Goldeen novamente mergulhou o rosto na água e nadou na direção de Tyrogue apenas com o chifre para fora. Este, por sua vez, percebendo o enorme perigo, desatou a se debater na direção da margem.

Apesar do desespero, não poderia superar um peixe na água. Levou outras duas dolorosas chifradas antes de alcançar o braço de Kristen, mas ainda ia levar um terceiro golpe antes de se ver salvo em terra firme, porém o avanço de Goldeen parou.

Kristen puxou Tyrogue com força pelo braço e ambos esperaram em terra apreensivos, acompanhados por Ryla e pelos demais Pokémon, até que um vulto azul foi ejetado da água como Tyrogue havia sido, rolando pela grama a alguns metros de distância dele.

O pequeno girino levantou-se e, mesmo com sua expressão limitada ao olhar, era fácil identificar a fúria seca em seu rosto. Sobre o redemoinho que tomava a maior parte da frente do corpo sem braços, havia um pequeno orifício rosado que Kristen achava ser um nariz, até que ele inspirou profundamente e liberou por ali um jato de bolhas em alta pressão na direção de Goldeen, que mergulhou e evitou sem problemas a técnica.

Kristen estava boquiaberto diante da pequena confusão que haviam causado involuntariamente entre os dois Pokémon selvagens.

- Isso é um...

- POLIWAG!

O grito de Ryla estava recheado de alegria e ela se adiantou sem delongas, colocando-se entre o girino e a água na qual ele parecia estar prestes a pular.

- Venha, Eevee!

A pequena raposa avançou obediente pelas costas de Poliwag, que disparou na direção dela um novo jato de bolhas. Ela se desviou com um rápido movimento lateral que surpreendeu até Kristen, atingindo-o em cheio em seu redemoinho no meio da barriga, precipitando-o na direção da água.

Ryla atirou a Pokébola que já trazia em mãos com uma mira certeira e a esfera engoliu o alvo, afundando com ele no lago. Seguiu-se um silêncio profundo, no qual todos encaravam a água embasbacados como se esperassem que a Pokébola emergisse flutuando até a mão da dona.

- Erm... acho que ele voltaria se tivesse falhado, não? – perguntou Kristen.

- Sim. Parece que capturou.

- Bom... então por que não vai verificar?

- Eu... – começou Ryla, cheia de vergonha – É que eu não sei nadar...

- Mas isso é insanidade, Coronel!

O jovem parou de repente no corredor escuro. À frente dele, o homem que ainda sentia dores no pescoço continuou a caminhar sem se abalar, ajustando a máscara sobre os cabelos azuis.

- Insanidade ou não, ordens são ordens.

- Mas o general não pode tomar esse tipo de decisão assim, sozinho! – respondeu o outro, indignado, seguindo o Coronel com visível nervosismo — Isso pode comprometer a posição da FLAK se algo sair errado!

- Deixa de ser tolo, é claro que não foi o General. A ordem veio de cima.

O outro jovem parou de andar novamente, mas desta vez o Coronel o imitou, fitando-o por cima do ombro.

- Não acredito... todas as ordens dele sempre foram tão sensatas. Por que uma dessas agora....?!

O Coronel agarrou-o pelo colarinho com as duas mãos, empurrando-o de forma truculenta contra os azulejos da parede e aproximando seu rosto do dele de maneira absolutamente apavorante.

- Está passando dos limites, recruta. Não questionamos ordens dele. Como acha que cheguei a coronel? Hã? Depois de décadas de imundície eu consegui me redimir através dele. Não temos o direito de questioná-lo, ele sabe muito mais do que nós sobre todo o escopo da situação! Mesmo na minha patente, não tenho informações suficientes para questionar nada que ele diga, que dirá um moleque com cheiro de fraldas feito você!

O Coronel soltou o recruta, que caiu de gatas arfando no chão, muito mais pelo medo que pela falta de ar fisiológica. Olhou-o com desprezo antes de continuar:

- Além do mais, é tudo culpa minha. Estraguei tudo no recrutamento de Kristen. Vínhamos sendo bem sucedidos em todas as nossas pequenas empreitadas, o suficiente para reunir recursos, mas não para chamar atenção. Na hora de finalmente fazermos nosso primeiro grande movimento e mostrar nossa presença ao mundo, eu falhei.

O recruta se levantara, embora ainda mantivesse a cabeça baixa, temeroso demais para encarar o superior.

- Temos a necessidade de causar um estrago notável para que nosso nome seja respeitado. Mas nesse momento não podemos aparecer em público em nenhuma das cidades satélite. Atacar o centro de criação dos iniciais é a medida mais inteligente no momento, então mesmo que tentássemos questionar as ordens, estaríamos errados, isso até eu posso perceber. Estou sendo claro?

O recruta acenou frouxamente em concordância.

- Ótimo. Então vá para sua base e se prepare. Se não estiver aqui no horário combinado equipado e disposto, será considerado traidor e caçado como um. Entendido?

- Sim, senhor! – respondeu o recruta com a voz trêmula.

- Ótimo. Não há lugar para covardes na Frente de Liberação. – disse o outro à guisa de despedida, seguindo até o final do corredor.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Ryla ainda trazia nas mãos a Pokébola recém-usada, tão feliz ao encará-la que parecia ser capaz de ver através do metal e enxergar seu novo Pokémon descansando tranqüilamente.

Kristen seguia pela ponte ao seu lado, igualmente contente, as mãos nas alças da mochila e Tyrogue ao lado. Graças ao enorme trânsito de treinadores àquela hora – já próxima ao almoço -, ele não havia sido reconhecido ainda nenhuma vez.

Sob a marquise da torre, esta parecia ainda maior, de certa forma até intimidante quando se olhava daquela forma oblíqua. Um gigantesco Bellsprout esculpido em mármore os encarava sob o letreiro “SPROUT TOWER”, que à noite brilharia em vários tons de verde.

Enquanto se debatiam para se livrar da aglomeração – bastante jovem – de pessoas na entrada, Kristen logo teve seu primeiro desapontamento: várias placas afixadas ao redor das portas eletrônicas alertavam que era proibido transitar com Pokémon dentro da torre, exceto nos andares de batalha e de comércio específico ou dentro de lojas que permitissem.

Recolhendo seu Tyrogue à Pokébola, ele e Ryla entraram, sentindo o frescor artificial substituindo a agradável brisa floral. Uma porção de lojas coloridas feriram as vistas de ambos, adaptadas ao verde e cinza da cidade. Logo em frente às portas, uma enorme placa vermelha com chamativas letras brancas dava a disposição do prédio:

1º PISO – COMÉRCIO GERAL

2º PISO – PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO

3º PISO – COMÉRCIO GERAL

4º PISO – COMÉRCIO POKÉMON

5º PISO – ARENAS DE BATALHA

Nem Kristen nem Ryla tinham idéia do que queria dizer a maioria das coisas indicadas no letreiro, então resolveram explorar tudo. Logo descobriram que comércio geral era justamente o que mais precisavam no momento.

Kristen renovou seu estoque de roupas e de ração. Também comprou uma bolsa de mão acolchoada e aquecida para carregar o ovo e uma pequena manopla dobrável de espuma que seria útil ao treinamento de Tyrogue.

Apesar dos protestos de Ryla, comprou-lhe meia dúzia de roupas, uma barraca e uma mochila nova, quase do tamanho da dele. Ela ficou trinta minutos tentando puxá-lo para fora da loja e convencê-lo, cheia de vergonha, de que não precisava de barraca alguma, até que ele fingiu desistir e afirmou que tinha interesse num pequeno estojo da vitrine, saindo em seguida com a barraca na mão e um sorriso divertido.

- Seu idiota, eu falei que não precisava!

A expressão ruborizada dela não durou muito. Ela parou e seu queixo caiu diante da vitrine seguinte. Kristen reparou que os olhos dela brilhavam pouco antes d’ela correr e encostar as duas mãos e o rosto no vidro como uma criança.

Em todos os tamanhos, cores e tipos de papel, a vitrine estava abarrotada com os mais belos livros que Ryla já vira em toda sua vida. Empurrando a porta de vidro sem delicadeza, ela viu estantes do teto ao solo entupidas de livros espremidos em seções, com etiquetas indicando temas, ordens alfabéticas, por autores, pilhas só com lançamentos e com os mais vendidos, grandes edições encadernadas, livros gigantes para colecionadores, um pequeno espaço com pufe e cafeteiras para leitores de loja...

Subitamente arrancada de seus devaneios pelo perfume de Kristen, a realidade atingiu-a como um soco no estômago e ela sentiu uma profunda vontade de chorar. Kristen notou que ela abaixou a cabeça tristemente. Ele esteve a ponto de perguntar o que havia de errado, mas as lágrimas que rolaram conversaram com ele.

Abraçou-a pelos ombros sem dizer nada. Ela encostou a cabeça no peito dele e o vendedor que se adiantava para os dois ficou parado no mesmo lugar, sem saber o que fazer.

- Não podemos carregar uma biblioteca conosco – sussurrou ele no ouvido dela -, mas acho que cabem uns sete ou oito numa bagagem de mão.

- Não, Kris. – disse ela, desvencilhando-se dele e controlando as lágrimas – Não posso ficar aceitando seus presentes assim. Olha, nos conhecemos nem tem um mês e você está me sustentando. Paga minha comida, minhas roupas... não posso ficar aceitando mais presentes.

Sem dizer nada, Kristen se desvencilhou e se afastou dela. Fez uma série de perguntas ao vendedor sobre os preços. Ryla abaixou novamente a cabeça, culpada por não se sentir incomodada e orgulhosa como deveria.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Sentados diante de uma lanchonete colorida, Kristen beliscava um enorme prato de frutos do mar com salada enquanto Ryla devorava seu hambúrguer de forma bastante masculina, tentando não pensar na enorme sacola com uma dúzia de livros sob a mesa junto ao restante da bagagem.

- Não sei como fazem pra cozinhar os peixes desse jeito. – disse Kristen, que adorava cozinhar – Por mais que eu tente fazer, o gosto nunca fica igual.

Ryla observou-o de relance comer e beber comportadamente, sentindo uma repentina vergonha e passando a mastigar mais devagar. Com as mandíbulas trabalhando menos, um pensamento perpassou-lhe a mente:

- Kris... vamos pra Azalea agora?

- Ah...

Kristen limpou o canto da boca com o guardanapo com uma expressão pensativa, como se escolhesse as palavras.

- Desculpe, tinha esquecido de dizer, Ryla-chan. Eu preciso passar em casa uma última vez antes de seguirmos viagem. É realmente importante, desculpe.

- Não entendi... – respondeu Ryla com a testa franzida.

- Bom... se você quiser seguir a jornada, não me incomodo. Mas eu preciso passar em New Bark antes de...

- O que está dizendo? – perguntou Ryla, como se não acreditasse no que ouvia – Claro que eu vou com você. Está querendo me dispensar?

- Não, não... – Kristen sorriu aliviado, encostando os hashis sobre o prato vazio – Bom, a vantagem é que não precisaremos refazer esse caminho, podemos seguir de lá para Cherrygrove e de lá ir direto pra Azalea.

- Sem problemas pra mim. Mas o que tem de tão importante pra fazer lá?

Dez minutos mais tarde, a conta paga, ambos subiram mais um lance de escadas, Kristen com uma bolsa extra de bagagem em cada mão. No andar seguinte encontraram algo idêntico ao primeiro: livrarias, lojas de roupa, comida... mas Kristen notou que quase não havia lojas para humanos. A maioria dos produtos era para Pokémon, logo ele se pegou perguntando o que queria dizer então Comércio Pokémon.

Alcançando as escadas, um homem de terno e barba feita interpelou-os educadamente:

- Bom dia. Para acessar os andares seguintes, os senhores precisam mostrar sua identificação como treinadores ou como pesquisadores. Ah, uma licença especial da Elite Four também serve!

Ainda confuso, Kristen pousou no chão as bolsas e retirou a identificação da mochila, mostrando-a ao homem, que a aprovou e sorriu para ele, analisando a de Ryla.

- Ahn... o senhor pode explicar exatamente o que encontramos nos andares acima?

- Então você não sabe, Kristen?

Os dois viraram o rosto para ver um rapaz baixo com o rosto enfiado num minigame portátil.

- Dark Hunter? – perguntou Kristen, meio hesitante.

- Sim. – respondeu o rapaz, desligando o jogo e guardando-o no bolso – Não achou que eu esqueceria do nosso desafio, não é?

- Me desculpe. – disse Kristen, sinceramente envergonhado – Eu me esqueci completamente. Passei um tempo no hospital e também...

- Eu sei de tudo, não se preocupe. Eu já podia ter chegado até Goldenrod tranqüilamente, mas esperei pacientemente pela oportunidade de enfrentá-lo. Mas não posso reclamar, o destino foi generoso comigo. – disse ele, mostrando uma Pokébola e o primeiro sorriso diante de Kristen e Ryla.

- Então fez uma captura? Meus parabéns.

- Algo assim. Por acaso não conhece os andares superiores da Sprout Tower, Kristen?

- Não tenho idéia do que sejam.

- Vou resumir pra você então: no quarto, você pode trocar ou vender seus Pokémon com outros treinadores.

- O QUE?

- Sim... eu já estava há uns dias achando que tinha feito mau negócio ao pegar aquele Natu. Por sorte, encontrei um treinador louco pra ter um e fiz uma boa troca, acho.

Kristen crispou os lábios, sem conseguir esconder o repúdio a esse tipo de tratamento dispensado aos Pokémon, como se fossem mercadorias.

- Mas o quinto andar é onde nos encontraremos, Kristen. Siga-me.

O jovem que se denominava Dark Hunter passou decidido por eles e mostrou a identificação para o homem, que abriu passagem na escada rolante. Ryla e Kristen o seguiram, ela meio apreensiva e ele começando a se sentir enfurecido.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

A mesa retangular tinha mais de dois metros de uma cabeceira à outra, mas era impossível distinguir a cor de seu tampo, dado o rio de papéis que se amontoava sobre ele. Desenhos que se completavam com várias folhas, anotações em diferentes alfabetos, fotos de pessoas e de lugares tiradas por satélite e algumas folhas de jornal se misturavam numa enorme poluição visual que só o criador da bagunça seria capaz de entender.

O vulto sentado numa das extremidades estava totalmente coberto por roupas negras e parecia examinar alguns papéis mais próximos com atenção, mesmo que a escuridão fosse quase total no recinto.

- Acho que os objetivos ainda não ficaram totalmente claros para mim, chefe.

A voz era nasalada e não parecia humana. Vinha de algum lugar nas sombras, onde era impossível distinguir qualquer contorno de qualquer coisa.

- Acho que fui claro o suficiente, mais de uma vez. – respondeu o examinador de papéis, impaciente.

- Me desculpe pela minha ignorância, chefe. Mas eu simplesmente não consigo ver como isso vai elevar o nome da Frente de Liberação.

- Não se engane. Toda essa história de levar adiante nosso nome é apenas uma balela para os subalternos. É ruim admitir, mas preciso deles.

- Acho que novamente não compreendi bem o que queria dizer, chefe. – disse a voz oculta, bastante tensa.

- Eu sei que não entendeu. Essa idéia libertária de que as coisas ainda têm jeito... é um otimismo utópico demais até para mim.

Com um estranho brilho roxo ao seu redor, uma folha distante deslizou sobre as outras até a frente dele. Ela tinha impressa algo que parecia uma planta resumida de um edifício com vários andares.

- A verdade é que a humanidade não possui solução. Milênios atrás, eles se destruíram. Quase nada restou e eles conseguiram se restabelecer. Era de se imaginar que aprendessem com seus erros... e aprenderam, durante muito tempo. Mas de uns tempos pra cá tornaram a cometer os mesmos erros estúpidos. Erros piores, eu diria...

Outra folha deslizou sobre a que ele analisava, esta trazendo um extenso artigo de jornal recortado, encimado pela foto de um grande dirigível.

- Os humanos que me servem precisam acreditar que estão tentando restaurar a humanidade. E realmente acredito que tenham boas intenções. Mas a verdade é que o homem é podre em essência. Esses homens a meu serviço viverão em paz durante algum tempo caso conquistemos vitória, mas será questão de tempo até que tornem a pecar por injustiça e opressão.

Algo que parecia uma lufada de ar expulsou todas as folhas da mesa de uma só vez, mas elas se empilharam comportadamente no chão.

- È claro que esses nossos atentados irão despertar a ira dos governos, você não está errado em suas previsões. Está errado em supor que não é justamente essa a minha intenção.

- Mas nesse caso nossa organização será facilmente desmantelada! Se o objetivo é grandioso como o senhor diz, temo que seremos desbaratados antes de alcançá-lo!

- Está novamente enganado. A humanidade quase foi destruída uma vez por poderes que não podia controlar... como os meus. Qualquer uma dessas duas coisas poderia chegar bem perto de levar a humanidade à bancarrota. Já imaginou o que as duas coisas poderiam fazer juntas?

Direto na madeira, estava desenhado um gigantesco e complexo mecanismo. Podia ser uma máquina ou algum tipo de microchip detalhado, era impossível definir com certeza sem ler as letras garranchadas em cima do desenho: PROGRAMA NUCLEAR GLOBAL.

- Eu farei com que eles abram as portas do inferno, como abriram no antropoceno. Com meus poderes, posso preservar o material genético de todos os Pokémon e nós reestabeleceremos um planeta sem essa praga bípede. Muito em breve, nós testemunharemos o fim da raça humana. Estou certo em supor que você está comigo?

Um pequeno vulto quadrúpede saltou do sofá escondido onde se encontrava e caminhou artriticamente na direção da mesa. Um lampejo dourado em sua testa era visível mesmo naquela escuridão.

- Estou velho, mas ainda posso fazer algo de útil antes de descansar de vez. Não tenha dúvidas de que o Meowth não irá decepcioná-lo nunca, chefe!

Notas finais
Um pequeno recado em off: se tiverem oportunidade de ir às ruas se juntar aos protestos, não deixem de ir. Esse é um momento importante e o país precisa de nós, em número e em determinação. Forte abraço.