Pokémon - Reconquest

24 Capítulo 22: Superior


Notas iniciais
Boa leitura.

– Cyndaquil, você está me assustando! – disse Ryla, se aproximando devagar dele, transbordando pânico – Por favor, me diz o que há está havendo?

– Tenha calma, gente... – disse Kron, se aproximando com os outros Pokémon.

As chamas de Cyndaquil se ergueram involuntariamente, mais poderosas do que antes. Ele gemeu de dor e Ryla levou as mãos ao rosto, preocupada. Inesperadamente, Cyndaquil começou a brilhar num dourado poderoso, exceto na parte onde ardiam as labaredas.

– Ele só está evoluindo. Vocês não precisam ficar tão preocupados. – disse Kron, achando graça da situação.

A massa que parecia feita de luz ficou disforme por um instante e as chamas se espalharam por ela, dividindo-se em duas brasas afastadas entre si por alguns palmos. Quando o brilho cessou, dois olhos rubros e sérios encaravam os demais. O focinho dele diminuíra bastante de tamanho, além de se alinhar com o resto do rosto. Duas orelhas pontiagudas e rosadas haviam brotado do topo de sua cabeça e suas patas dianteiras haviam se alongado, embora ainda pendessem para frente, curtas demais para serem articuladas com perfeição. Havia um monte de chamas vivas em sua nuca e outro na sua região lombar.

– Cyndaquil! Como você está lindo!

Abrindo um gigantesco e espontâneo sorriso, Ryla esteve prestes a abraçar seu novo velho companheiro, mas lembrou-se no último instante do calor absurdo e das chamas.

– Ah... er...

– Ele agora é um Quilava, não mais um Cyndaquil. – disse Kron, olhando para as chamas de Quilava com uma pontada infantil de inveja.

– Verdade. – concordou Ryla, radiante – Está bem mais bonito com os olhos abertos. Mas não precisa ser tão sério também.

Quilava se curvou um pouco. Com a pata esquerda, ele coçou atrás da orelha várias vezes, continuando a atrair olhares. Quando ergueu a cabeça mais uma vez, levantou as orelhas e farejou o ar, alheio às pessoas.

Repentinamente, como se tivesse se dado conta naquele instante de que estava se esquecendo de algo importante, ele estreitou os olhos com ar de concentração e as chamas sumiram, deixando à vista os orifícios rubros e sensíveis onde antes ardiam as labaredas.

– Eu estou tão orgulhosa de você! – exclamou Ryla, sem se conter mais em apertá-lo forte nos braços – Está tão forte... e bonito!

Quilava grunhiu, satisfeito com o carinho da dona. Os demais Pokémon se aproximaram e trocaram cumprimentos com Quilava, enquanto Kristen se sentara de pernas no chão com um grande sorriso e começara a esvaziar a própria mochila.

Kron observou com bastante curiosidade enquanto Kristen estendia sobre a grama um grande pano branco e vasilhas variadas. Sentiu o cheiro agradável de comida bem armazenada e, ruborizado, meteu a mão dentro da própria mochila, lembrando-se da aposta.

Kristen aceitou de bom grado a saca caseira de doces, reservando um canto na toalha para ela. Kron balbuciava, procurando um meio de se despedir, quando notou que Ryla se aproximava dele e de Kristen, carregando Eevee nos braços e Poliwag agarrado a um de seus ombros.

– Então, acho que eu vou indo. – gaguejou Kron, sem graça – Foi um prazer e tudo mais. Obrigado pela batalha...

– Deixa disso. – disse Kristen quando ele já virava de costas e ensaiava começar a andar – Senta aí e come com a gente.

Em poucos minutos, os três estavam reunidos em volta da toalha sob a sombra de Lapras, devorando frutas, doces e pedaços de peixe empanado, aquecidos pela fogueira acesa pelo Quilava recém evoluído.

Na periferia do grupo, os Pokémon se dividiam em pares e se alimentavam em tigelas com a ração servida por Kristen direto da grande saca que ocupava todo o fundo de sua mochila.

– Então, qual a próxima parada de vocês? – perguntava Kron de boca cheia, já enturmado.

– Seguindo pra Union Cave. Vamos pro ginásio de Azalea. Você não?

– Na verdade, vocês estão meio invertidos. – disse Kron, bebendo um longo gole do chá de Sunflora na garrafa de Kristen.

– Como assim? – indagou Ryla.

– Não é comum usar essa mata para ir de Cherrygrove direto para Azalea. – continuou ele, limpando o molho do canto da boca com a língua – As pessoas costumam subir pela 30 até Violet e depois descer pela 31. Normalmente só costumam cortar caminho por aqui pra fazer o caminho contrário, quando precisam voltar pra Cherrygrove por algum motivo.

– Faz sentido. E você? – perguntou Kristen, tentando esconder a inquietação com os péssimos modos de Kron.

– Eu sou de Azalea. – comentou ele e os outros notaram que novamente parecia envergonhado – Levei uma surra no ginásio de lá e decidi começar do começo e ir até os laboratórios ver os preços de um Pokémon forte de outro tipo. Andei treinando minha Chikorita na Union Cave e troquei esse Phanpy num Sandshrew e num Rattata que eu tinha capturado.

Kron interrompeu o que dizia para uma longa golada de chá. Kristen se mexeu incomodado à menção tão natural das trocas de Pokémon, mas apenas Ryla reparou. Ele secou a boca com o dorso da mão e recomeçou a falar:

– Daí eu perguntei o motivo de ele querer dois Pokémon tão comuns em troca de um Pokémon que nem era da região. Ele me disse, assim, meio arrogante, como se eu não soubesse das coisas, que quantidade era melhor que qualidade pra fazer trocas em Violet. Eu realmente não sabia de nada, então ele me explicou sobre o posto de trocas da Sprout Tower e eu decidi que valia mais a pena gastar dinheiro em Pokébolas e tentar fazer umas trocas inteligentes do que gastar uma fortuna que eu ia ter que suar pra conseguir num Pokémon manipulado.

– Você não devia fazer isso. – censurou Kristen, incapaz de se conter mais.

– Pra você é fácil falar, você é bilionário. – resmungou Kron, mastigando – Se quiser pode ir lá e comprar o laboratório inteiro, então pra você é melhor comprar que trocar.

– Você não entendeu. Você não devia fazer comércio com os Pokémon.

– Mas por que não?

Kron parecia simplesmente chocado com a reação de Kristen a um comportamento tão natural a praticamente todos os treinadores. Kristen comeu por alguns segundos, certamente pesando as palavras com as quais iria argumentar.

– Você hoje perdeu por causa disso. – concluiu, enfim.

– Como assim? – perguntou Kron, na defensiva – Eu quase ganhei dela mesmo com a desvantagem. Meu Bayleef evoluiu há pouco tempo e o Cyndaquil dela estava prestes a evoluir. O nível deles está bem próximo e ela tinha a vantagem elemental!

– Nada disso importa. – disse Kristen, simplesmente, fechando o próprio pote – Ele estava se saindo muito bem. Até onde eu estudei sobre os iniciais, Bayleef é bem resistente e podia suportar aquele golpe se tivesse força de vontade. Mas pra isso ela precisa confiar no treinador. Se você a treinasse e tratasse como sua amiga ao invés de usá-la como instrumento de batalha, ela teria se superado e se esforçado pra virar a mesa... como o Cyndaquil fez.

Kron simplesmente não tinha como contra-argumentar. A princípio ficou pensando em que fábula moralista Kristen havia sido educado, mas logo seus olhos bateram em Ponyta e Quilava, dividindo alternadamente o espaço na tigela pequena demais para os dois. Em seguida, viu Poliwag atirando amigavelmente algumas bolhas nos hematomas de Eevee, o pote de ambos já vazio. Viu Tyrogue recostado em Lapras levando a comida à boca dela, grande demais para abaixar até o pote, e sentiu-se muito idiota. Seus Pokémon quase não falavam entre si nem sequer gostavam muito de ficar ao ar livre fora de batalhas.

– Eu... você tem razão. – admitiu Kron, empurrando a fruta açucarada de novo para o pote, repentinamente sem apetite – Acho que vou acampar mais uns dias aqui e ver se faço algumas capturas e tento investir mais nelas.

– Melhor assim. – disse Kristen, satisfeito.

– Nesse caso, eu acho que vou começar agora. – disse Kron, se levantando, decidido – Vou ver se acho alguns de hábito noturno, posso deixar a mochila por aqui?

Já haviam se passado mais de dez minutos desde a partida de Kron quando Tyrogue cutucou Kristen para lhe passar a tigela vazia. Levantou-se, se espreguiçando, enquanto o Lapras bocejava longamente e Poliwag e Eevee já começavam a se aninhar no chão.

Para surpresa de Tyrogue, Kristen encheu e lhe devolveu sua tigela, passando, em seguida, o pote de ração para Ryla encher a tigela dos Pokémon de fogo pela terceira vez.

– Eu sei que já estão satisfeitos. – disse Kristen, sorrindo para o olhar confuso de Tyrogue – Mas agora que Kron foi dar uma volta, temos mais um amigo pra comer conosco.

Kristen encostou uma Pokébola no chão e uma forma felina enrugada e encolhida surgiu na grama.

Ninguém conteve a surpresa. Tyrogue se limitou a franzir as sobrancelhas, mas Quilava rosnou e se retesou nas patas de trás. Poliwag permaneceu ferrado no sono mesmo quando Eevee despertou e levantou a cabeça uns centímetros, tentando entender o que acontecia. Ryla deixou cair o queixo, aparentemente sem ter o que dizer.

– Que lugar é esse? – perguntou Meowth do chão.

Ele estava deitado de lado. Movia apenas os lábios, os bigodes e os olhos freneticamente, o que lhe dava a aparência medonha de uma boneca possuída.

– Perto de Cherrygrove ainda. – disse Kristen, ajeitando-o sentado de costas, apoiado na sonolenta Lapras, que não protestou – Joy-sama disse que não tinha muito que fazer, exceto te deixar confortável. Achei que vir conosco e respirar ar puro poderia ser bom pra você.

Meowth correu os olhos de Kristen para o resto do grupo que o encarava.

– Devia ter me deixado lá. – disse grosseiramente – Obviamente vocês estão incomodados com a minha presença. Eu também não estou com muita vontade de viver nesse estado.

– Esquece isso. – disse Kristen mergulhando a mão no pote de ração que Tyrogue ainda segurava – Deve estar com fome. Aqui, tome.

Meowth fechou os lábios decididamente e virou o rosto, recusando a comida ofertada por Kristen. Acenando com a cabeça do jeito que conseguia, ele apontou para Tyrogue. A expressão dele guardava um quê de rancor, mas parecia calmo e limpo de qualquer raiva.

– Talvez você devesse simplesmente deixar o seu Tyrogue terminar o serviço. Um outro chute daquele pode me fazer descansar em paz de uma vez, não?

– Deixa disso. – suspirou Kristen, cansado – Não queremos te torturar. Só estou tentando...

Os dois pararam de discutir quando o bracinho cinza surgiu entre eles, estendendo um bocado de ração na direção da boca de Meowth. Ambos se voltaram para Tyrogue e este não fizera esforços para esconder o rancor que sentia de Meowth, porém estava estendendo o braço de pura boa vontade; não havia qualquer traço de obrigação ou repugnância em seu rosto.

Os olhos de Meowth cruzaram com os dele e ele pôde notar o risco negro na córnea do pequeno lutador. Sentiu-se ainda mais vazio do que antes. Kristen sorria com muita sinceridade.

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– Mas afinal, o que diabos aconteceu?

A pergunta irritada do jovem delegado despertou apenas trocas constrangidas de olhares entre os dois agentes fardados.

– Tsc.

Dez minutos de perguntas não haviam lhe rendido mais do que “estamos fazendo o possível para descobrir, senhor”. No fundo, o Delegado Crown sabia que não era responsabilidade daqueles dois agentes, mas não entrava na cabeça dele como um assassino perigoso atado de metal pelos pés e pelas mãos havia conseguido fugir, matando dois vigias e levando um delegado a estado de coma, não sem esquecer de levar consigo registros das câmeras e de processos internos.

Dando as costas aos agentes, ele abriu a porta e adentrou o quarto. Fechou-a devagar, apesar da raiva que sentia, e contemplou pela enésima vez o corpo de Baromy sobre a cama, com a aparelhagem de monitoramento apitando e um grosso curativo no pescoço. Olhava-o como se observá-lo indefinidamente pudesse lhe dar alguma resposta.

“O que aconteceu, meu amigo? Como deixou um prisioneiro tão importante escapar?”

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Após uma longa noite de sono em meio a uma agradável garoa e uma manhã de treinos sobre a grama molhada, Kristen e Ryla se despediram de Kron, que pretendia se enfurnar mais na mata e fazer algumas capturas. Os dois seguiram para o leste ladeados por Tyrogue, apreciando o reflexo do sol nas folhas salpicadas de água e o cheiro de mata molhada.

Meowth ia confortavelmente acomodado numa bolsa ao ombro de Kristen, apenas com a cabeça para fora, pois havia pedido encarecidamente para não ficar mais enfurnado na Pokébola, mas ia calado e apático por todo o caminho. O terreno descia discretamente conforme avançavam entre as árvores, mais próximas umas das outras nesse trecho da floresta que no restante dela.

Mais uma vez, Kristen constatou, com tristeza, que a maioria dos Pokémon procurava se esconder sempre que percebiam a mais discreta presença humana, de modo que apareciam apenas aos vultos em momentos esporádicos.

Apesar de não querer admitir nem para si mesmo, Kristen estava ansioso por uma captura. Não sabia explicar o motivo, mas havia tomado gosto pelo ato de capturar os Pokémon, conquistar a confiança deles e fazê-los lutar ao lado dele. A vida inteira fora para os Pokémon um professor e colega de treino e agora recebia com prazer a sensação de ser um treinador Pokémon, como o próprio Ash Ketchum.

Viram Rattatas, Sentrets e Pidgeys beliscando esporadicamente algumas plantas no chão, mas estes fugiam muito antes que pudessem se aproximar ou enviar algum Pokémon para a batalha. Kristen chegou a colocar a mão sobre uma Pokébola da cintura quando um carrancudo Spearow passou voando à direita deles carregando um Caterpie entre as garras ensanguentadas.

Ele relaxou, porém, quando viu que ele ganhava altitude até alcançar um dos galhos mais altos de uma árvore próxima. Havia um grande e majestoso Fearow pousado confortavelmente sobre a junção do galho com o tronco, com as asas repousadas sobre um ninho no qual meia dúzia de minúsculos Spearows gania baixinho, já sentindo o cheiro da comida. Ele sentiu-se cheio de paz, inexplicavelmente.

– Olha, Kris! – disse Ryla, puxando-o pelo braço.

Kristen se virou para dizer que já havia visto a mamãe Spearow caçando para a ninhada, mas se calou ao ver que ela apontava para outra coisa igualmente agradável de se contemplar.

A algumas árvores de distância, uma fileira interminável de Mankeys pulava ordenadamente de uma árvore para a outra através dos galhos. Todos agiam de forma coordenada, como num balé símio, e já haviam passado pelo menos quinze Mankeys, mas eles continuavam a surgir por um lado e desaparecer pelo outro.

– O que está fazendo?

Kristen não respondeu, concentrado que estava em sua tarefa. Ele se adiantara, sacando a Pokébola de Ponyta, ciente de que apenas ela poderia atingir um deles àquela distância para provocar uma batalha.

Tinha especial fascínio por Mankeys, já que Primeapes eram de longe os Pokémon lutadores mais temperamentais e orgulhosos e, conseqüentemente, os mais difíceis de se treinar e disciplinar. Seu pai sempre costumava dizer que Kristen tinha um talento especial para lidar com eles.

– Kristen Jounochi!

A voz estridente funcionou como um tiro de revólver. Os Mankeys, que se moviam com graça e ordem, imediatamente se misturaram em desespero por entre as copas das árvores e arbustos, sumindo praticamente sem rastros em questão de segundos.

Kristen se virou e viu um garoto mais ou menos da mesma idade que ele, embora bem mais baixo e magro. Possuía grandes cabelos negros e rebeldes presos num rabo-de-cavalo mal feito, atado com uma presilha de Pokébola. Tinha grandes olheiras cinzentas sob um olhar decidido e completava a aparência com uma grande jaqueta azul surrada, calças e botas de caminhada. Carregava uma Pokébola comum na mão direita.

– Pois não? – cumprimentou Kristen, com um sorriso amarelo.

– Então era verdade. – ele tinha a voz arrogante e irritada, porém falava de forma reverente – Não era boato, afinal. Ouvi dizer que estava por aqui, rumando para Azalea e voltei correndo pra ver se te alcançava. Foi difícil achar você, quase desisti umas duas vezes. Mas estou satisfeito de ter conseguido.

– E por que estava me procurando?

– Não é óbvio? – perguntou ele sorrindo e erguendo a Pokébola – Eu quero uma batalha. Me chamo Ray. Te vi lutar no ginásio de Violet e estou louco pra lutar contigo desde então.

Kristen fitou-o, avaliando-o por um instante. Não tinha interesse em desafios desnecessários, especialmente dentro de matas fechadas que pretendia atravessar com seus Pokémon em bom estado. Mas havia algo de muito diferente na postura e no olhar de Ray. Ele falava e gesticulava com segurança, parecia determinado e tinha jeito de quem não iria aceitar “não” como resposta. Além disso, Kristen já estava prestes a deixar a mata e seria arrogância dele recusar uma luta como aquela. Sabia que estava diante de um treinador sério. Tyrogue pareceu notar o mesmo, pois chocou os punhos ao lado de Kristen, estalando os dedos de forma excitada.

– E por que não? – disse Kristen, preparando-se para soltar Ponye – Quantos Pokémon?

– Quantos você quiser. – respondeu Ray secamente, sorrindo de forma orgulhosa por ter seu desafio aceito – Antes precisamos definir nossas apostas.

Ray tirou do bolso com a mão livre um grosso maço de notas dobradas e vedadas por um elástico.

– Eu sei que sua conta bancária é bem gorda, então não preciso ficar fazendo as apostas de migalhas que faço com os outros. Dois mil está bom?

– Não gosto de apostar dinheiro.

– Vai precisar mudar esse conceito. Diferente de você, os outros treinadores precisam faturar pra financiar a jornada. Não é justo se recusar a colocar seu dinheiro em jogo.

Era um ótimo argumento e Kristen não tinha como negar isso.

– Muito bem, tem razão. – cedeu – Te dou mil e duzentos se ganhar de mim, é só o que tenho em dinheiro aqui comigo... Mas se eu ganhar, não quero seu dinheiro.

– Nem pensar. – retrucou Ray, guardando o maço de notas novamente no bolso – Uma aposta de um lado só não tem graça nenhuma. Quero que você lute motivado, da mesma forma que lutou contra Falkner.

– Eu tenho outras motivações, não se preocupe. – respondeu Kristen, incomodado.

– O prendedor...

Os dois se voltaram ao mesmo tempo para Ryla, que enrubesceu.

– O prendedor dele... é bonito. Eu estou pensando em deixar o cabelo crescer.

– Taí, eu gosto de cabelos grandes. – disse Kristen, voltando a sorrir – Se eu ganhar, você me dá o prendedor.

Em resposta, Ray passou a mão nos cabelos e arrancou o prendedor, soltando os cabelos e prendendo-o ao pulso da Pokébola.

– Três Pokémon então? – perguntou Kristen, passando a bolsa do Meowth para Ryla e colocando a mochila na grama.

– Por mim tudo bem.

– Descanse por enquanto, Tyrogue.

Ambos atiraram suas Pokébolas ao mesmo tempo e Ponye surgiu diante de um gafanhoto verde da altura de Ryla com perigosas lâminas no lugar das patas dianteiras.

– Um Scyther... – comentou Kristen para ninguém em especial – Não pode com os ataques de fogo da Ponye!

Captando o sentido das palavras de Kristen, Ponye abriu a boca e cuspiu um jorro de brasas em seqüência na direção de Scyther. Ryla ficou boquiaberta ao ver como as brasas dela pareciam bem mais firmes do que na última vez que as havia visto. Ray correu para um dos lados bem na hora, pois as chamas atravessaram Scyther e salpicaram a grama ao redor.

Kristen e Ponye não acreditavam no que viam. Onde antes estava Scyther, havia duas imagens borradas do mesmo lado a lado.

– Mas que...?!

– Use sua velocidade, Scyther. – ordenou Ray, lateralmente.

As duas imagens desapareceram e um borrão impressionante se moveu na direção de Ponye, surpreendendo Kristen. Ponye atirou mais uma série de brasas, mas elas simplesmente atingiram árvores e arbustos. Scyther havia desaparecido.

– Ponye, atrás de você!

O alerta de Kristen foi tardio. Scyther estava agachado atrás de Ponye, com os olhos focados e as pinças cruzadas diante do corpo. Descruzou-as de uma só vez e as duas lâminas brilharam de vermelho. Ponye caiu ganindo de dor no chão quando o imenso xis em seu dorso começou a escorrer sangue.

Um jorro vermelho de luz retornou-a à Pokébola e Kristen ficou parado trocando olhares com Scyther por um instante enquanto o Poliwag de Ryla apagava os pequenos focos de incêndio gerados por Ponye.

“Eu tinha a vantagem, mas não adiantou de nada.” Pensou Kristen. “Nem conseguimos encostar nele. Aquela velocidade é absurda.”

– O que foi, Kristen? Não vai lançar o próximo? – apressou-o Ray.

Kristen trocou um breve olhar com Tyrogue, que assentiu com a cabeça, ansioso pelo desafio de enfrentar aquele Scyther. Porém, Kristen balançou a cabeça e lançou a Pokébola de Lapras, que já havia ultrapassado Ryla em altura.

“Lapras tem uma defesa forte, com aquele casco. Ele não deve conseguir nocauteá-la num golpe só, então ela pode contra-atacar quando ele vier.”

– Que surpresa, eu não sabia desse. Isso significa que já passou pela Union Cave, diferente do que andam dizendo por aí. Scyther, a dança de espadas será necessária agora.

Scyther esfregou uma lâmina na outra lentamente, produzindo algumas faíscas. Pela primeira vez, Kristen notou que ele tinha uma expressão curiosa, algo que não sabia definir se era tédio ou aborrecimento.

– Scyther, eu mandei usar a dança de espadas! – ralhou Ray, impaciente.

Curvando um pouco o corpo, Scyther girou as lâminas ao redor do corpo de forma ritmada. Kristen não sabia dizer se era apenas impressão, mas as lâminas dele pareciam brilhar mais intensamente conforme ele fazia isso.

– Lapras, atire água nele!

Lapras abriu a boca com um longo grito de alegria, parecendo bastante empolgada por sua primeira batalha de verdade. Um lento e discreto jato d’água foi disparado e Scyther nem se deu ao trabalho de usar seu truque de imagens, desviando apenas manualmente e correndo em zigue-zague na direção de Lapras.

Desde o início, Kristen já sabia que não iria atingi-lo à distância. Se Ponye não pudera fazê-lo, tampouco Lapras conseguiria. A intenção era justamente forçá-lo a se mover na direção de Lapras, se aproximar da armadilha.

– Agora, Lapras, atinja ele com o casco quando ele te alcançar!

Quando Scyther estava ao alcance, ainda ocupado em se desviar da água incessante, Lapras cancelou seu jato e girou o corpo, se projetando e girando para acertá-lo com a parte rígida e pontiaguda de suas costas.

Superando qualquer expectativa, Scyther aparou o golpe com uma das lâminas, desviando-o sem problemas apesar da diferença de peso entre os dois Pokémon. Quando Lapras havia girado o suficiente para ficar com a gastroderme exposta, ele atingiu-a com força usando a outra lâmina e fazendo um corte bem mais profundo que os de Ponye.

Lapras caiu de lado chorando e Kristen retornou-a, com a expressão séria.

– Como pode bater mais forte nela, se ela é mais resistente?

– Você é um cara motivado, Kristen, mas ainda tem muito que aprender. – respondeu Ray de forma arrogante – Lance sua última aposta.

Sem esperar ser chamado, Tyrogue deu alguns passos para dentro da área de batalha, armando a guarda diante do rosto com chamas nos olhos.

– Observe bem, Tyrogue, ele é rápido. Fique atento e tente contra-atacar.

Apesar do aceno positivo confiante de Tyrogue, o que se passou no minuto seguinte foi um verdadeiro massacre. Poucos movimentos depois, ele jazia no chão esfregando um corte na perna e outro no braço do lado direito, tentando ignorar o feio ferimento causado também na barriga.

Perseverante como sempre, levantou-se uma quarta vez, mas seus movimentos estavam bem mais lentos que antes pela perda de sangue e pela dor. Ele estava perfeitamente treinado para impactos, mas não para a dor viva de um corte exposto daquela profundidade.

– Ele é realmente tão durão quanto pareceu na TV. – anunciou Ray, sorrindo de forma triunfante – Mas agora acabou. Scyther, finalize logo isso.

Scyther ficou parado, olhando Tyrogue arfar e lutar para se manter de pé sob o olhar analítico e preocupado de Kristen.

– O que está fazendo? – se irritou Ray – Eu mandei acabar logo com isso! Eu não paguei uma fortuna num Pokémon Top pra você me desobedecer desse jeito!

Uma lâmpada se acendeu na mente de Kristen. Scyther estendeu uma das patas laminadas para o lado, parecendo enojado. Resmungou algo na própria linguagem pra Tyrogue, que tentou, em vão, erguer a cabeça para se defender.

– Chega!

Gritou Kristen quando Scyther estava prestes a desferir o golpe de misericórdia.

– Está desistindo? – perguntou Ray, parecendo surpreso – Logo você?

Tyrogue desabara no chão. As lágrimas dele não eram apenas de dor. Kristen e Ryla se aproximaram dele.

– Não há sentido em continuar. – disse Kristen, ajudando Tyrogue a se sentar – A superioridade é clara. Vale a pena ficar de pé e correr riscos quando se tem condições de vencer ou quando não se tem nada a perder. Não tem porquê ficar de pé apenas para ser golpeado uma última vez.

– É justo. – concluiu Ray, embora ainda parecesse incomodado.

– Aqui. – disse Kristen, atirando a carteira na direção de Ray – Pegue o valor que apostamos e me devolva ela, preciso dos documentos. Está tudo bem, Tyrogue. – acrescentou, vendo que ele parecia bastante cabisbaixo – Não é como da vez do Totodile, que você tinha condições de vencer. O Scyther simplesmente é mais forte do que você. Precisamos aceitar que existem oponentes superiores. Prometo que vamos treinar ainda mais forte daqui pra frente, combinado?

À menção da promessa de Kristen, Tyrogue ergueu a cabeça, voltando a assumir a expressão determinada de sempre. Kristen ergueu as mãos a tempo de aparar a carteira de volta. Ray guardava o dinheiro no bolso e retirava do pulso o prendedor de Pokébola.

– Aqui, menina. – ele atirou o prendedor para Ryla, que tentou apará-lo, mas deixou-o cair na grama – Eu tenho uns quatro desse, pode ficar com ele. Vamos, Scyther.

Scyther e Kristen mantinham os olhos fixos um nos olhos do outro.

– Scyther! Eu não vou chamar outra vez.

Scyther abandonou seu posto lentamente, dando as costas a Kristen e caminhando até Ray, que já se afastava a passos curtos. Scyther deu uma última olhada por cima do ombro e Kristen notou uma segunda vez aquela mesma expressão indecifrável de antes.

– Ryla-chan, sabe onde estão os curativos na minha mochila, não sabe? – perguntou Kristen, ficando de pé.

– Sei sim.

– Limpe e amarre esses cortes do Tyrogue pra mim. Eu já volto.

Sem dar chance para a resposta de Ryla, Kristen correu indiscriminadamente à trilha pela qual Scyther e Ray haviam acabado de sumir. Apenas poucos passos grama adentro foram suficientes para divisar as costas dos dois, andando lado a lado. Reduzindo o passo, Kristen procurava entender o monólogo que Ray destilava para Scyther e, ao mesmo tempo, não revelar sua posição.

– ...e eu já falei um milhão de vezes que você precisa parar com isso. Não pode me desmoralizar assim na frente dos outros, o que está pensando? Eu paguei uma fortuna pesada pra você ser forte assim. Ou por acaso queria ser fraco como os outros Pokémon? Você devia ser mais grato, sabia?

– Ray. – chamou Kristen, incapaz de se conter mais.

Ambos, treinador e Pokémon, se viraram ao mesmo tempo. Ambos estavam igualmente irritados e Ray fechou ainda mais a cara quando viu quem o chamava.

– O que é? – disse Ray de forma grosseira e irritadiça – Não vou te dar uma revanche. Você não é tão bom quanto parecia.

– Não vim te pedir revanche. Não quero lutar de novo com você.

– Muito sensato. – respondeu Ray, já se virando para ir embora – Vamos embora, Scyther. Scyther, eu disse pra irmos embora!

Novamente, Scyther estava parado, encarando Kristen com aquela expressão estranha e ignorando solenemente seu treinador. Mas, desta vez, Kristen ignorava-o e olhava direto para Ray.

– Não quero lutar de novo com você porque me enganei. – anunciou Kristen, tranqüilamente – Quando iniciamos o combate, eu me senti feliz, achei que você fosse um bom treinador. Mas já vi que não. Tudo que fez foi pagar por um Pokémon geneticamente forte, usá-lo como arma de combate e achar que isso faz de você um bom treinador.

– Muito esclarecedor, vindo de alguém que teve os três Pokémon derrotados sem nem conseguir encostar no meu “Pokémon geneticamente forte”. – debochou Ray – Não achei que logo você fosse um mau perdedor.

– Não me importo de ser derrotado. – respondeu Kristen – Caso contrário, eu não sustentaria um título mundial por tanto tempo. Não sou eu que não sei perder, é você que não sabe vencer.

Ray desistiu de retrucar quando Kristen se virou para ir embora.

– Devia ter mais respeito pelo seu Pokémon. – disse ele por cima do ombro – Ele não pediu pra nascer dessa forma. Você não pode jogar na cara dele que o montou para servir aos seus propósitos e ainda esperar que ele seja grato por isso. Pokémon precisam de mais do que vitórias pra se sentirem bem.

Antes que Ray pudesse pensar numa boa resposta, Kristen tornou a sumir entre as folhas, caminhando de volta para seus Pokémon e para Ryla. Ray ficou alguns segundos encarando o vazio deixado por ele, até que aceitou o fato de que não conseguiria extrair nada de suas palavras e deu um muxoxo conformado.

– Idiota. Vamos, Scyther, ainda temos o que fazer aqui antes de sair da mata.

Como Scyther continuava a ignorar Ray, mantendo-se de costas para ele e encarando o espaço por onde Kristen saíra, o mesmo puxou do cinto uma Pokébola e bufou, furioso.

– Você está impossível hoje, que merda. Entre aqui, mais tarde conversamos.

Para surpresa de Ray, um risco laminado cortou o ar na direção dele. Assustado, ele deixou cair a Pokébola, abriu os braços e caiu sentado no chão. Sua Pokébola vazia jazia caída na grama, riscada na parte vermelha de sua resistente lataria.

– O que pensa que está fazendo, Scyther? Você acaba de passar dos limites! – berrou Ray, com o lábio tremendo de fúria. – Entre já nessa Pokébola, antes que eu me...

Ray somente se calou quando uma das lâminas de Scyther abriu um corte no solo entre as pernas dele. Com chamas nos olhos, Scyther encarou-o com fixidez, mantendo as duas lâminas preparadas e abertas ao lado do corpo.

Recuou três passos bem devagar, bufando algo em sua própria linguagem e logo deu as costas a ele e correu na mesma direção que Kristen.

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– Pronto, garotão. Agora entre aqui... tem um Centro logo mais, ali na Rota, antes de chegarmos na caverna.

Kristen virou-se para as árvores quando o farfalhar da grama chegou aos seus ouvidos. Scyther encontrou-o agachado, segurando uma Pokébola diante de um Tyrogue sentado e cheio de esparadrapos. Ryla já havia recolhido todos os seus Pokémon e terminava de empacotar os curativos na mochila de Kristen, mas também parou quando notou a distração de Kristen.

– Scyther? – perguntou Kristen chocado, ficando de pé – O que está fazendo aqui? Onde está Ray? Aconteceu alguma coisa? Precisa de ajuda?

Em resposta, Scyther apontou-lhe uma das lâminas e algaraviou sem parar naquela linguagem incompreensível a humanos. Ryla notou que Tyrogue estava boquiaberto, praticamente bebendo cada “palavra” do que ele dizia.

– Desculpe, mas eu não...

– Ele disse que quer ir com você.

Todos se voltaram surpresos para a bagagem largada no chão. Haviam simplesmente se esquecido de Meowth, jogado como um boneco numa bolsa, de costas para os demais.

– Como? Eu não...

– Ele disse que abandonou o treinador dele. – cortou Meowth impessoalmente – Disse que quer seguir em jornada com você.

Kristen finalmente compreendeu. Respirou fundo e tornou a encarar Scyther. Viu a determinação em seus olhos e sentiu-se mal por ter ido repreender Ray. Sabia que ele precisava ouvir aquelas coisas. Tinha esperança de fazer algum bem a Scyther ao dizer-lhe aquilo, mas não pretendia humilhá-lo dessa forma.

– Não posso tomá-lo do seu treinador, Scyther. Talvez você devesse tentar ajeitar as coisas com ele.

Scyther recomeçou seu falatório, dessa vez de forma mais apressada e desesperada. Kristen se virou para Meowth, ansioso por entender o que se passava.

– Ele disse que não tem mais intenção de ficar com o antigo treinador dele. – disse Meowth, falando ao mesmo tempo que Scyther – Está dizendo agora que... que nunca quis lutar. Desde que nasceu, sempre disseram a ele que ele era forte e ele sempre foi pressionado a vencer e a ser o melhor e tudo que recebia como prêmio era um retorno frio pra Pokébola e ordens cada vez mais autoritárias. Disse que viu seus Pokémon, a maneira como eles têm orgulho de lutar por você... e principalmente, a maneira como você os trata quando a batalha termina. Disse que, pela primeira vez, sentiu que valeria a pena lutar por alguém.

Scyther já havia terminado de falar pouco antes de Meowth terminar sua tradução praticamente simultânea. Ele carregava novamente aquela expressão curiosa e Kristen finalmente entendeu o que havia por trás daquela determinação: era uma súplica. Ele implorava por alguma coisa.

– Acho que... eu não tenho o direito de lhe negar isso. – disse Kristen, sem saber bem como agir – Não gosto da idéia de tomar o Pokémon de outra pessoa, mas você veio por livre e espontânea vontade. Se você está mesmo tão decidido... só posso dizer: bem-vindo ao grupo.

Kristen lançou mecanicamente a Pokébola que segurava na direção de Scyther e, pela primeira vez desde que haviam se conhecido, pôde notar alguma alegria na expressão dele.