Pokémon - Reconquest
25 Capítulo 23: Arrependimento
Notas iniciais
– Como assim “ele não está”?
A voz furiosa de James ecoou pelo quarto como um trovão. Seu aspecto ainda era preocupante, mas estava consideravelmente melhor do que estivera durante os dias anteriores. Seu rosto começava a desinchar em alguns pontos e os hematomas deixavam de ser roxos para se tornar amarelados. Um dos braços estava engessado até a clavícula, mas o outro estava livre, embora contasse com curativos em toda sua extensão.
O jovem recruta diante dele tinha a expressão temerosa. Torcia as mãos às costas e tentava não expressar o pavor que sentia na presença do Coronel.
– Ele simplesmente não está na sala dele, senhor. – respondeu o recruta de forma hesitante – Um dos guardas pessoais está na porta e disse que ele ordenou categoricamente que ninguém deveria entrar lá na ausência dele.
– Mas ele marcou uma reunião comigo! – esbravejou James, socando a mesa com a mão boa – Onde diabos ele pode estar?
– Senhor... – hesitou novamente o recruta, engolindo em seco e baixando a voz até quase um sussurro – Alguns boatos pelos corredores estão dizendo que ele está aqui. Não sei até que ponto é verdade e até que ponto é mera especulação, mas estão dizendo por aí que o Almirante apareceu de surpresa.
James ficou parado de boca aberta por vários segundos, tentando identificar qualquer traço na expressão do recruta que denunciasse uma brincadeira de mau gosto, mas encontrou apenas rubor e medo.
Sem dizer mais nada, ele se levantou, empurrou o recruta para o lado e manquejou pelo corredor, batendo a porta atrás de si.
“Depois de tudo que fiz...” Perdia-se furioso em seus pensamentos o Coronel James, enquanto ignorava os colegas que cruzavam por ele nos corredores da FLAK.
Desde que James retornara, os discursos romantizados do General sobre a importância da lealdade dele para com a Frente de Liberação haviam se mostrado cada vez mais falsos e vazios.
Era compreensível manter um homem ferido fora de missões, mas James não era mais chamado para reuniões às quais vários colegas de patentes mais baixas estavam presentes. Quando confrontava estes, todos eram evasivos e diziam não ter ideia de que ele já estava liberado pelo médico para ir freqüentar as reuniões de cúpula.
Todas as vezes que James tentara entrar em contato com o General e sanar pessoalmente seus desgostos haviam sido em vão. Ele estava sempre ocupado, sempre havia imprevistos que desmarcavam reuniões e desculpas providenciais para não poder atendê-lo, apesar de estar quase sempre em sua sala.
Até mesmo quando tentara visitar seu amigo Charizard no velho galpão médico, ele fora informado que o mesmo estava proibido de receber pessoas, em virtude de um treinamento, sendo que James ouvira conversas a respeito de outros membros que o haviam visitado.
Ganhando o corredor que levava à sala pessoal do General, era impossível para James não sentir uma perigosa excitação se misturando ao seu ódio, sentimento sempre comum antes de entrar em ação.
– Boa tarde, Sargento.
O brutamontes relaxado à porta de madeira maciça imediatamente se aprumou e curvou-se ligeiramente em reverência a James.
– Às ordens, Coronel.
– Sabe me informar se o General está presente? – perguntou James como se nada soubesse, mais uma vez demonstrando suas excelentes habilidades como mentiroso.
– Não, senhor. – respondeu o Sargento de pronto – Ele não está presente e pediu que mantivéssemos a área isolada.
– Entendo. – respondeu James, deixando escapar apenas um leve ar de decepção – Nesse caso, acho que vou andando... ai!
James se virara de costas para ir embora quando subitamente se curvou, apoiando a mão sobre o quadril como se sentisse uma dor insuportável.
– O senhor está...?
Quando se aproximou preocupado, o Sargento recebeu um soco certeiro na traquéia, que o fez levar as duas mãos à garganta, sentindo a voz falhar. Quando o gesso o atingiu na têmpora, ele desabou no chão pesadamente, já desacordado.
James se abaixou ao lado dele, ignorando as dores musculares, e pressionou-lhe um ponto ao lado do pescoço. Imediatamente, o homem desmaiado voltou a respirar com tranqüilidade.
“Fácil demais.”
Colando o ouvido à porta, James sentiu o coração parar por um instante. Não havia som algum; até mesmo a presença sonora constante do velho relógio de estimação do General havia simplesmente desaparecido.
Isso só podia significar uma coisa. Todas as vezes que o Almirante aparecia para se reunir com o General em sua sala, todo e qualquer som no recinto ficava retido lá dentro, bloqueado por uma acústica perfeita, quase mágica.
Nenhum membro da FLAK que não o próprio General já havia estado no mesmo ambiente que o Almirante. Ninguém havia ouvido sua voz ou sequer o havia visto de relance.
A imagem de Ash Ketchum por trás dele era um mito de culto clássico para mover os seguidores da FLAK como fanáticos para suas missões suicidas. James estava longe de ser um tolo crédulo.
As lideranças de um movimento extremista como a FLAK eram sempre pessoas cientes desse fanatismo, pessoas que acreditavam naqueles ideais, mas tinham consciência de que precisavam das mentiras e da manipulação para convencer outras pessoas a ajudá-las em seu objetivo. Mas agora ele ia descobrir a verdade.
Enfiando a mão boa no bolso interno da roupa preta da FLAK, junto ao coração, James retirou um grampo fino de metal. Guardava-o como um amuleto desde que lhe salvara a vida na delegacia. Deteve os olhos por um instante na unha destroçada no dedo mindinho da mão engessada.
Com a mão tremendo a poucos centímetros da maçaneta, James hesitou por um breve instante. Mas um discreto olhar por cima do ombro para o vigilante caído lhe deu a certeza de que já havia ido longe demais para retroceder.
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– Tudo ok. Novas capturas devidamente registradas e Pokémon restaurados. Aqui estão.
A jovem enfermeira sonolenta e desanimada de seios fartos e jaleco amassado colocou as duas bandejas sobre a mesa e Ryla e Kristen rechearam seus cintos com as Pokébolas novamente, agradecendo e saindo.
A brisa fresca da chuva recente chegou como um bom presente de fim de tarde às narinas dos dois. Kristen já alocara Meowth, acompanhado de sua tosse melancólica, na bolsa de ombro que se tornara sua moradia. Tyrogue andava entre Kristen e Ryla, girando os braços num animado alongamento.
– A chuva já parou, podemos descer a rota pelas docas de pesca e chegamos à Union Cave já já. – disse Ryla, absurdamente feliz.
– Sim, esse é o melhor clima possível pra caminhar.
Apesar da resposta aparentemente entusiasmada de Kristen, Ryla rapidamente notou que ele estava novamente distraído com alguma coisa. O Centro Pokémon localizava-se à beira de uma estrada inclinada de mão dupla na qual raramente passava algum veículo.
Dali era possível ver os contornos da Union Cave na descida da estrada, obscurecidos pelas nuvens negras que ainda pairavam ameaçadoramente sobre eles. Às costas deles, havia a bela visão das ondas quebrando na praia, vazia naquele tempo. O céu estava tão pesado que tornava quase impossível acreditar que a chuva havia realmente parado.
Apesar de todas as impressionantes visões naturais proporcionadas por aquela mixórdia de urbano e campal, o olhar de Kristen estava fixo no outro lado da estrada, onde enormes portões de ferro encimados por um letreiro indicavam a entrada do Cemitério de Azalea Town.
– Kris, você está bem? – perguntou Ryla, enquanto Tyrogue esticava os músculos em ângulos quase inacreditáveis.
– Estou sim. – respondeu Kristen de imediato, ainda distante – Apenas... foi aqui que tudo começou.
Ryla evidentemente não entendeu ao certo o que ele quis dizer, mas havia aprendido a apreciar quieta no seu canto os silêncios nostálgicos de Kristen. Aprendera a aceitar que esses momentos tão freqüentes eram parte da personalidade dele, que ele gostava deles, por mais tristeza que pudesse transparecer enquanto os vivenciava.
Passados um ou dois minutos catatônicos, Kristen suspirou, deixando transparecer um sorriso tristonho e acomodou melhor a bagagem nas costas para continuar a caminhada.
– Esperem. Não vamos entrar no cemitério?
A fala asmática de Meowth surpreendeu aos três. Kristen imediatamente pegou a bolsa e segurou-a com a mão à frente do corpo, reparando de verdade nele pela primeira vez desde que haviam alcançado o Centro Pokémon.
A despeito da paralisia total e dos demais problemas de saúde encontrados, além da velhice inegável, Meowth parecera todo o tempo apenas um gato velho e resmungão. Somente agora parecia realmente doente.
Ele se recusara categoricamente a entrar na Pokébola mesmo durante a chuva e a cobertura improvisada por uma das blusas de Kristen não fora suficiente para livrá-lo da água. A jovem Joy tinha absoluta certeza da pneumonia de Meowth, mas ele recusara os exames que exigiriam anestésicos, no que também fora respeitado por Kristen.
Agora parecia dez anos mais velho do que no dia anterior.
– Tem algo que deseja fazer por lá? – perguntou Kristen serenamente; no fundo, já sabia a resposta.
Ryla viu algo além de tristeza nos olhos de Meowth enquanto ele tossia com força. Ela notou todo o vazio no fundo dos olhos dele e percebeu que não o via mais como um inimigo, como um estranho. Estranhamente, ela o aceitava como parte do grupo, mesmo sabendo que ele só estava junto deles pela incapacidade de se mover sozinho.
– Eu... queria... visitá-la uma última vez. – respondeu Meowth entre acessos de tosse incontroláveis.
– Eu entendo.
Sem comunicar nada a Ryla, Kristen olhou para os dois lados da estrada e, não notando carros em nenhuma das direções, atravessou-a, seguido de perto pela amiga e por Tyrogue.
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Passou por dois ou três soldados que prestavam continências nervosas a ele. Pausas esporádicas durante o dia para tomar água ou café, ir ao banheiro ou simplesmente esticar as pernas para relaxar eram absolutamente comuns e até estimuladas pelo Delegado Baromy, mas ele sempre achara engraçado como todo subordinado pego num desses momentos de descontração agia como se tivesse sido surpreendido fazendo besteira.
Mas, naquele dia, ele não estava pensando nisso.
Ninguém lançou olhares ou fez perguntas a respeito da mesa de rodinhas coberta por um lençol branco que ele empurrava pelos corredores. Era de conhecimento geral que o Delegado Baromy tinha o hábito obsessivo-compulsivo de modificar os móveis de lugar quando estava lidando com situações de grave estresse, então era comum vê-lo carregando mesas ou armários de um lado para o outro na delegacia, cigarro no canto da boca e poucas paradas em uma ou outra máquina para tomar um gole de café. Todos estavam acostumados e ninguém nem lhe oferecia mais ajuda com o peso.
Naquele dia, o ato de arrastar aquela maca não tinha nada ver com suas manias, mas ele estava agradecido por poder disfarçar dessa forma.
Quando chegou à porta da sala de interrogatório e estendeu a mão para o painel, quem passasse por fora jamais imaginaria o que ele planejava, tamanha sua frieza ao desligar a câmera interna da sala, ato que era proibido e duramente punido por lei federal em qualquer recinto de interrogatório policial ou militar.
James não levantou a cabeça quando Baromy entrou carregando a maca e fechou a porta atrás de si sem fazer barulho. A frieza no olhar dele era tanta que até mesmo o decidido James sentiu algo ruim preso na garganta, uma ligeira e natural demonstração de medo. Baromy parou o carrinho ao lado dele.
Quando o lençol foi retirado, James precisou apenas de alguns segundos para processar que seu medo tinha fundamento. Imediatamente seus olhos se guiaram para a câmera, na qual o pequeno ponto de luz vermelha havia se extinguido. Diferente do que se esperaria, ele ficou contente. Ao invés de pensar no duro castigo que estava prestes a sofrer, ele forçou a própria lucidez sob o pensamento de que aquilo era uma chance de escapar.
– Você já sabe como funciona a acústica daqui. – disse Baromy tão friamente quanto diria se estivesse comentando sobre o clima – Se você gritar, por mais alto que seja, ninguém virá. Só irá me deixar com mais raiva.
Baromy passava os dedos quase obscenamente pelos instrumentos metálicos dentro da pasta de couro aberta. Facas, tesouras de jardim, alicates e pás de condução elétrica se misturavam. Ao lado da pasta havia um ferro de passar roupa portátil, uma toalha branca limpa e um balde cheio de água com um copo plástico mergulhado em seu interior.
– Você vai me contar tudo que sabe sobre a FLAK. Quero nomes, endereços, planos, Pokémon envolvidos, atentados menores sobre os quais não sabemos, detalhes de tudo. Comece a falar agora.
– Não vai arrancar nada de mim. – desafiou James – Está violando uma lei federal. Eu sou um homem morto e você vai arruinar uma vida e uma carreira brilhantes por minha causa? Acho que não. Acho que está blefando.
A cabeça de James girou para o lado quando ele foi atingido no supercílio por um pesado alicate. O sangue escorria quente pela lateral do rosto dele.
– Eu não tenho família. – entoou Baromy com a voz de quem era capaz de matar – Estou me lixando para a minha carreira. Eu posso passar feliz o resto dos meus dias na prisão, contanto que eu resolva isso.
– Pois vai pra prisão por nada, porque eu não vou te contar coisa alguma.
Um soco violento arrebentou o pau do nariz de James e o atirou no chão. Ele sentia o incômodo contato das costas e nádegas com a cadeira num péssimo ângulo, as pesadas correntes ferindo seus membros e o próprio sangue lhe afogando. Definitivamente já tivera momentos melhores, mas estava usando cada fibra que tinha de auto-controle para se manter lúcido. “Você vai fazer dessa adversidade uma dádiva. Vai conseguir fugir, agüente firme.” Forçava-se a pensar.
– Pois então, pelo menos o Dan estará vingado.
Baromy empurrou-o de lado com o pé e agachou-se ao lado dele. Com uma tesoura de aspecto afiado suficiente para cortar um galho de árvore de uma só vez, ele abriu um rasgo na blusa de James sem delicadeza alguma, puxando-a de uma só vez e deixando-o de peito nu.
– Eu não vou fazer pausas para perguntas. Apenas vou me manter concentrado no que estou fazendo. Se quiser que isto pare, basta começar a falar. Se disser algo interessante, pode ser que eu pare pra prestar atenção.
James gritou quando Baromy enfiou a ponta da tesoura em suas costas a seco e puxou-a para baixo.
Durante toda a hora seguinte, James havia gritado em vão. Gritos de dor, de desespero e até mesmo gritos de genuíno fraquejo. Mas, em momento algum, fraquejara o suficiente para dizer uma palavra sequer que fizesse sentido.
Baromy descansou de lado o ferro de passar com a bateria já no fim, encarando ofegante a massa ensangüentada, queimada e humilhada ao seu lado. O pânico começava a tomar conta dele.
Iniciara tudo aquilo ciente de que entraria naquela sala como um delegado condecorado e sairia dali como um criminoso. Sabia que seria lembrado para sempre não como um policial, mas sim como um homem que violara brutalmente os direitos humanos. Mas não estava preparado para sair dali de mãos vazias. Tivera tanta certeza de que James falaria, mais cedo ou mais tarde, que não pensara no que fazer caso o interrogatório falhasse.
Tentando desesperadamente bolar um plano, Baromy ajeitou as pernas em volta da maca e, remexendo na parte de baixo dela, encontrou gazes e ataduras, além de borrifadores de álcool. Era um bom começo.
Enquanto remexia ali, não notou o discreto movimento de mãos que libertou James. Quando se virou e pegou-o pela altura dos ombros, empapando a própria camisa de sangue, Baromy teve a maior surpresa de sua vida. A caneta dependurada no bolso externo de sua camisa foi arrancada e habilmente cravada na lateral de seu pescoço em movimentos tão rápidos e precisos que nem pareciam os de um moribundo.
– Baromy! BAROMY! ACALME-SE, HOMEM!
O próprio Delegado Crown, um enfermeiro e o agente comum que estavam presentes não eram capazes de segurar a fúria de Baromy, que se debatia como se estivesse em chamas, proferindo palavras de ódio incompreensíveis.
Quando finalmente conseguiram imobilizá-lo na cama, o sangue escorria por entre o curativo em seu pescoço e nos pontos onde antes estavam as agulhas em seu braço esquerdo. Ele estava ofegante e queimava em febre. Crown e o agente raso o seguravam firmemente na cama enquanto o enfermeiro abria as gavetas loucamente em busca de um tranqüilizante.
– Aquele maldito... quem pegou ele? Diga-me que agarraram ele! – esbravejava Baromy.
Crown não tinha a menor intenção de responder nada, mas foi poupado de mais questionamentos quando o enfermeiro espetou uma agulha grossa na coxa de Baromy e este cerrou as pálpebras quase imediatamente.
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– É logo ali...
Kristen sentiu um peso no coração quando notou onde estavam pisando. No setor mais afastado da entrada do cemitério, de onde já não era mais possível ouvir as ondas quebrando na praia, havia um terreno arenoso enorme, lotado por cruzes quebradas dispostas irregularmente por todo o local.
A ala dos indigentes.
– Onde ela está, Meowth? – perguntou Kristen, mas logo se arrependeu.
– Eu... eu não consigo lembrar... eu não consigo lembrar onde colocamos...
Pela primeira vez desde que o havia conhecido, Kristen estava vendo Meowth expressar fortemente alguma emoção. Ele parecia desesperado para encontrar o túmulo e não parava de murmurar nem mesmo quando a tosse atacava. Gotas discretas recomeçaram a cair do céu.
– Ali! Graças a Deus, ali está!
Meowth apontava a direção com os olhos. Todos andaram até uma região totalmente idêntica às outras, onde as inscrições das cruzes coloridas já se haviam apagado com o tempo.
– Qual delas? – indagou Ryla.
– A roxa. Sempre foi a cor favorita dela...
Meowth teve um acesso mais prolongado de tosse e Kristen notou, muito preocupado, a saliva rubra que brotava no canto de sua boca enrugada.
– Tem tantas roxas. – disse Ryla, olhando ao redor – Como sabe que é essa?
– Veneno... de Arbok. – respondeu Meowth, cuspindo sangue no chão – Foi assim que marcamos. Eu farejaria isso a qualquer distância, mesmo que meu nariz fosse trinta anos mais velho.
O silêncio prevaleceu durante o minuto seguinte, interrompido apenas pela tosse insistente e sanguinolenta de Meowth.
– Kristen... me ponha no chão.
– Aqui é terra batida, está uma sujeira só, você...
– Por favor, Kristen. Eu lhe imploro...
Não fazia o menor sentido. Kristen chegou a se perguntar se ele havia alcançado a insanidade total, mas, ao mesmo tempo, sabia que, para Meowth estar ensacando seu orgulho daquela forma, era realmente importante para ele que Kristen atendesse seu pedido, por mais extravagante que pudesse parecer.
Sob um olhar silencioso de protesto de Ryla, Kristen apoiou-se num dos joelhos sobre a lama que começava a se formar e retirou Meowth da bolsa, depositando-o gentilmente com o lado do rosto próximo à cruz. Dada sua posição, sua tosse piorara e ele agora babava sangue direto no lamaçal.
– Eu preciso... me desculpar.
– Você não precisa fazer nada. – respondeu Kristen, penalizado.
– Me escute, por favor... não tenho muito tempo.
Ryla passou o dorso da mão no canto dos olhos, esquecendo-se de que era inútil limpar as lágrimas no meio de uma chuva. Sabia que não era a melhor hora para comentar, mas não era a primeira vez que visitava aquele setor daquele cemitério.
– Eu e James... achávamos que estávamos fazendo tudo isso por ela. – discursava Meowth febrilmente, tossindo sangue a intervalos de segundos – Agora vejo que, no fundo... estivemos fazendo tudo que fizemos por nós mesmos. Estávamos com raiva. Sempre fomos só nós três. Sempre fizemos tudo juntos e de repente tivemos um de nós arrancado de forma tão cruel da nossa equipe. Nós não soubemos lidar com isso.
Ryla deu as costas a eles e levou as duas mãos ao rosto, agora chorando copiosamente. Tyrogue permanecia impassível, apenas reparando com o canto dos olhos que ela tremia incontrolavelmente.
– Me desculpe...
– Está tudo bem. – perdoou-o Kristen, desconfortável – Vocês fizeram escolhas erradas, mas meu pai sempre disse que pessoas de boa essência sempre se arrependem, mesmo que seja quando ninguém mais acredite que isso é possível. Acho que isso também vale pra Pokémon.
– Esses últimos dias com vocês... eu me senti de novo entre amigos. Senti uma fração do que sentia ao lado deles. Eu preciso...
A última palavra não saiu. Em vez disso, desceu do pulmão de Meowth um jorro de muco e sangue que empapou toda a lama ao redor de sua cabeça enquanto a chuva começava a ficar mais forte.
– O nosso... lema.
Ryla criara coragem para tornar a encará-lo, mas sentia que seu peito ia explodir de dor. Não sabia explicar porque se sentia tão desolada.
– Desde que ela se foi, nós nunca mais...
Tyrogue apertou os olhos, lutando contra as lágrimas. Havia prometido para si mesmo não chorar mais desde a derrota para Totodile.
– Pra proteger... o mundo da devastação.
Um clarão tomou o céu e o rugido de um trovão produziu calafrios em Ryla, que se encolheu sob as roupas largas.
– Pra unir todos os povos... de nossa nação.
A chuva apertara, mas Meowth chorava tão intensamente que era possível distinguir as lágrimas da água da chuva. Mesmo assim, ele mantinha um sorriso doentio no rosto enquanto falava.
– Pra denunciar os males da verdade e do amor...
Ryla e Kristen se entreolharam por um breve instante. Qualquer pessoa da geração deles conhecia de cor o lema da extinta Equipe Rocket, mas certamente nenhum dos dois imaginara ouvi-lo entoado por um autêntico membro, muito menos numa situação como aquela.
– Para estender nosso poder...
O emocionante monólogo febril de Meowth foi interrompido por um acesso de vômito. Ele tossia e cuspia e o sangue fazia parecer por longos segundos que não ia acabar. Kristen apertou os punhos com força, tentando, em vão, controlar a tremedeira que se apossara deles.
– Equipe Rocket decolando...
Novo acesso de tosse. Quase um minuto inteiro se passou e Meowth parecia que não ia desengasgar, mas Kristen sabia que o ofenderia se chegasse perto dele e tentasse socorrê-lo. Entretanto, havia algo que ele se sentia na obrigação de fazer:
– Equipe Rocket decolando na velocidade da luz.
Meowth achou que seu coração ia parar quando Kristen entoou um dos famosos versos prediletos de seus melhores amigos. Ele estava ajudando-o a completar sua missão.
– Rendam-se agora ou preparem-se pra lutar.
Ryla completou o lema com a voz embargada e quase incompreensível. Meowth sentia as vistas turvas e a mente entrando e saindo de sintonia como um velho rádio.
– Miau... – conseguiu dizer com um fiapo de voz.
Kristen, Ryla e Tyrogue esperaram pacientemente. A chuva agora se tornara um temporal e os castigava duramente, mas nenhum deles se importava. Ninguém parecia querer aceitar que a figura inerte agora era apenas parte do solo, tão importante ao ambiente quanto um monte de estrume.
Sem tosse. Nenhum pedido de desculpas ou frase debochada. Nenhum miado. Nada.
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