Poderosas

2 Decisão


Notas iniciais
Yooo... Olá, pessoal! o/ Aqui mais um capítulo (tecnicamente não é mais um, porque o último foi um prólogo, então esse é o primeiro). Saiu cedo, mas não pretendo fazer isso sempre. No minimo eu vou separar cada novo capitulo com um período de uma semana de diferença (ou mais né). Explico o porquê desse capítulo sair hoje lá embaixo... Só isso mesmo, boa leitura! ^-^

Bem, a sequência de eventos daquele dia se alternaram rapidamente, até mesmo pra mim (e olha que eu tenho super-velocidade). E cada uma delas foi pior que a última.

Eu e o tal oficial fomos até a cafeteria mais próxima, discutir sobre o porquê dele estar ali. O bairro do Jeremy – mais conhecido como peladão da banheira – era em um lugar bem localizado, em um bom território de Las Vegas. Não foi difícil encontrar um daqueles cafés “finos” que tentam imitar os franceses, com mesas ao ar livre e tudo mais. Fomos de carro até lá, e o cara não soltou uma única palavra. Ele parecia nervoso, meio tenso, então imaginei que ele soubesse sobre o lance dos super-poderes. Carregava junto a ele uma maleta, daquelas de aço inoxidável, o que tinha dentro eu não sei. Claro que podia olhar, nada me impedia. Mas não fiz, achei melhor deixar quieto por enquanto, e primeiro ouvir o que ele tinha a falar. Eu só permaneci em silêncio, guardando as perguntas pra quando chegássemos ao café.

Sentia como se o trajeto fosse bem mais longo do que realmente era, e milhares de coisas passavam pela minha cabeça. A primeira era, obviamente, o Professor. O que poderia ter acontecido de tão ruim com ele que as meninas sentiram a necessidade de me procurar? E pior, de me pedirem para voltar? E Townsville era a segunda coisa na minha lista. Depois de todos esses anos... Depois de tudo que aconteceu... Voltar pra lá? Como elas podiam me pedir algo assim? E rever as meninas... Isso não era uma ideia que me agradava nem um pouco...

Nós finalmente chegamos no café, ele pediu um expresso extra forte, e eu pedi um grande prato de panquecas. Ele colocou a maleta junto as pernas, embaixo da mesa. Eu não sentia fome rápido se não usasse meus poderes, mas todo aquele show com a “visão raio-X” me criou uma necessidade de comer novamente. Eu já fui melhor nisso, mas perdi o costume, não fazia algo assim a anos! Quanto a minha ressaca... Ela já deveria ter passado a essa hora, então o que eu estava sentindo agora só podia ser outro tipo de dor de cabeça...

Nos acomodamos em uma mesa do lado de fora. Cara esperto, quis ficar ao aberto, cheio de testemunhas. Não podia usar meus poderes ali... Por mais descuidada que eu poderia parecer devido ao “incidente” que foi a noite passada, eu não era de ficar exibindo me exibindo por ai... Pensar nisso cultivou uma nova ideia na minha cabeça. E se isso tudo fosse uma armadilha? E se esse cara não estivesse falando a verdade? “Faça ela vir. A qualquer custo”, foi isso que aquela mulher no telefone disse. E se tudo isso por um plano para me trazer aqui, exposta, sem super-habilidades, sem nada. Eu não tinha me tocado até agora, mas aquele cara me tinha na palma da mão.

E ele sabia disso. Todo aquele nervosíssimo no carro, ele sumiu completamente do seu rosto. Ele parecia totalmente calmo e relaxado. Eu entendo a ideia de ele me trazer aqui, em local público, para sua segurança. Mas ele estava calmo demais. Como se ele soubesse o que estar ali significava. Pra ele não era só uma ideia, e sim uma garantia.

Merda! Eu caí na rede direitinho! E ele me olhava como uma criança olha pra um peixe dourado dentro de um aquário.

— Então... O que você quer? – Pergunto, quebrando o silêncio. Estou feliz de ter terminado as panquecas antes de qualquer coisa. Porque se fosse agora, eu perderia a fome, e eu precisava daquela energia de volta. Mas por outro lado, agora meu estômago estava embrulhado...

O cara retira seus os óculos escuros, revelando belos olhos azuis por baixo.

— Eu sei o que você está pensando... Mas eu não estou aqui para te fazer mal algum... – Por mais que eu odeie admitir, seus olhos transmitiam uma sinceridade alarmante. Quase me deu vontade de baixar a guarda, mas não sou tão estupida assim.

— Sério? Porque não é isso que parece. Você, um completo estranho com um distintivo, aparece na porta de um peguete qualquer procurando por mim... Citando meu nome... Dizendo que minhas irmãs estão me procurando porque o Professor está com problemas – Tomo um segundo para respirar – Sabe a única coisa que eu consigo tirar disso? Que você estava me seguindo! Ou seja, você não só me achou, como também me espionou...

Eu não queria parecer tão grossa, mas é meu jeito. E ao meu ver, o babaca mereceu. Ele ficou completamente mudo, e eu vi algo que me deixou surpresa. Ele parecia envergonhado, eu vi nos seus olhos.

— Você não se lembra de mim? – Ele pergunta, tomando mais um gole do seu café. Evitando contato visual.

— Deveria?

— Não, acho que não... – Diz ele, olhando nos meus olhos – Mas eu me lembro de você, Docinho...

— Já disse para não me chamar por esse nome...

— Meu nome é Mike... Mike Believe...

Mike Believe? Quem diabos era Mike? Eu conhecia esse cara? Espera um pouco...

— Mike? Você é o Mike? O Mike da Pokey Oaks? O Mike que...

— ... O Mike que criou um amigo imaginário do mal quando criança. Sim, sou eu – Ele diz, soando constrangido.

Ok, eu não estava esperando por isso. Era um pouco engraçado, quase me deu vontade de rir, mas ainda não me sentia à vontade, ao menos, não completamente... Mas isso não me impediu de sorrir um pouquinho. Estar ali naquela mesa com Mike era quase nostálgico. Um bom nostálgico, e eu nem sabia que era possível de isso acontecer, sendo ele uma lembrança de Townsville... Mas ainda precisava de respostas.

— Olha como o mundo dá voltas... Agora você é um oficial da lei, não é?

— Sim... Detetive. Trabalho no Departamento de Polícia de Townsville. Mas estou de férias. Nada disso é sério, para falar a verdade. O terno, o distintivo, o café... Foi tudo ideia da sua irmã... Eu deveria me “transformar” para você achar que eu era alguém do alto escalão. FBI ou CIA, algo do tipo. Ela disse que isso iria te deixar curiosa o bastante para falar comigo... Pra ser sincero, isso tudo é um grande favor. Estou atrás de você e da sua irmã a meses...

— Espera o quê? O que você acabou de dizer?

— O quê?

— Você disse: “você e sua irmã”? Foi isso que você disse?

— Sim... – Mike pega a sua maleta do chão e a coloca no seu colo. Ele a abre e tira um documento de dentro – Sua irmã... A Florzinha... Ela estava em Washington. – Diz ele, estendendo uma pasta para mim. Eu a pego, e fico a segurando em minhas mãos... Eu não queria ver, não queria saber e nem me envolver naquilo... Mas a curiosidade bateu mais forte, e eu abri os documentos.

Podia se dizer que era um número considerável de folhas, tendo em conta que elas se dirigiam a somente uma pessoa. Era um mar de informações, havia as notas dela de Pokey Oaks, do primário, do ensino médio... Da faculdade.

— Faculdade de Direito de Washington? Ela estudou Direito? – Eu digo, expressando excessivamente a minha surpresa pela descoberta.

— É... Espera, você não sabia? – Mike pareceu surpreso também.

Eu olho para os papéis por um tempo. Havia muitas fotos da Florzinha (ou seja lá qual é o novo nome dela), e aquilo... Me afetou. Não consigo acreditar, não consigo entender como ela pode sair de casa, depois de tudo que aconteceu... Quer dizer, eu o fiz, mas ela deixou o Professor e a Lindinha sozinhos, e....

— Espera um pouco – Sussurro. Na verdade, eu só estava pensando alto – Quer dizer que a Lindinha está sozinha em Townsville... – Eu me viro para Mike – Quer dizer que a Lindinha te mandou aqui...

— Sim... Ela tomou conta da empresa do Professor Utonium depois que vocês duas... – Ele simplesmente para de falar, como se estivesse repensando suas palavras. Para um detetive, ele era uma pessoa bem fácil de ler, ou vai ver ele me deixava lê-lo de propósito – Depois que vocês duas saíram de casa...

Tudo aquilo... Era tanta coisa para engolir de uma vez... Eu não consigo organizar meus pensamentos...

— E... O Professor? O que aconteceu com o Professor? – Eu pergunto. Independente de todas as merdas que acabaram de cair na minha cabeça só nessa manhã, nenhuma delas importa de verdade se eu não souber o que aconteceu com o Professor.

Mike abaixou a cabeça, tentando evitar olhar diretamente pra mim, como se estivesse se segurando para falar algo... Ou reunindo coragem para falar.

Então ele pousou seus cotovelos na mesa, e me olhou fundo nos olhos. Foi naquele momento que eu entendi que a situação era grave. Muito grave.

— O Professor está doente. Muito doente. Eu só sei até ai, Lindy não divulgou mais nada sobre isso pra mídia ou pra mim. Mas ela me mandou te dizer, caso você me questionasse sobre isso, que ele está mal....

— Mike – Eu interrompo, estava cansada desse jogo. Eu só queria respostas – O quão mal ele está...?

— Ele está por um fio, Darcy. O homem não tem muito tempo... Por isso que ela me mandou procurar vocês. Ele que pediu, queria se despedir...

“Ele está mal....”

“Não tem muito tempo...”

“Queria se despedir...”

Aquelas palavras ecoavam na minha cabeça, como um sussurro, sem parar. Quicando dentro da minha cabeça. Atravessando cada neurônio em meu cérebro... Eu queria chorar, mas não ia fazer isso na frente de Mike. Não queria fazer isso na frente de ninguém...

— Se... – Eu me dou um segundo para respirar, porque se não, ia começar a soluçar. Não queria parecer uma idiota – Se a Lindinha quer que eu volte para Townsville para vê-lo morrer... Eu não vou fazer isso...

— Como assim?! – Mike levanta a voz, se levantando da sua cadeira – Ele é seu pai, não é? Sua família! Não tem nada a ver com a Lindinha... Foi um pedido dele... Do homem que te criou. Você vai simplesmente ficar ai, afogando as magoas na próxima foda de uma noite? Vai realmente fazer isso com ele?

Aquilo me assustou. Não esperava isso dele.

— Isso é o Detetive seguindo as ordens falando? Ela mandou você me trazer, não importa o quê, não foi?

Mike respira fundo, e se senta novamente. Independentemente de qualquer coisa, de todos os olhares profundos que ele havia me dado hoje, esse era o que eu pude ver que era completamente verdadeiro... Era um olhar de decepção...

— Você sempre foi a mais gentil das três, não é? – Diz ele, sarcasticamente.

— Foda-se você, Mike – A minha vontade foi de pegá-lo pelo braço e lançado quinze metros no ar, dali mesmo – Estou pouco me fodendo pra o que você acha de mim...

— Olha, se é nisso que você acredita, eu não estou nem ai... Não estou aqui para te obrigar a nada. Fiz o que sua irmã me pediu, te achei. Já falei com a Florzinha antes de você. Ela pediu um tempo para se organizar, mas disse que iria... Só vai faltar você lá... – Ele tira algo do bolso do paletó, e deixa em cima da mesa – Uma passagem de avião. Não é tarde para mudar de ideia... Pense bem nisso. Deixaria ele feliz, o Professor merece isso...

Mike se levanta da cadeira e pega a pasta sobre a Florzinha, guardando tudo dentro da maleta. Então pega os seus óculos da mesa e os coloca – Eu estou indo... Meu voo para casa sai em meia hora, mas o dessa passagem sai em quatro horas, tempo o bastante para repensar o assunto e arrumar suas coisas... Não precisa se preocupar, eu pago a conta na saída.

Mike se vira e vai embora. Ele fala com uma garçonete sobre a conta antes de sair do café, e logo o vejo entrando no seu carro e dirigindo para longe, até virar somente um pontinho no horizonte.

A passagem estava em cima da mesa, me encarando. Eu podia ler “Townsville” nela. Era apavorante, eu queria simplesmente incendiá-la com meus olhos... Mas eles estavam muito ocupados com todas as lagrimas. Eu era uma idiota. Mike também era um idiota. Lindinha também era uma idiota... Odeio isso, odeio chorar, principalmente em público. Odeio o fato de ter de voltar para aquele inferno. Odeio ter que reencontrar as meninas, e ser forçada a enfrentar aquele olhar de decepção que elas me dariam. Como o que Mike me deu. Odeio o Mike, pelo menos, nesse exato momento, eu odeio muito o Mike. E odeio que o Professor esteja morrendo...

Mas não vou me dar o luxo de me odiar ainda mais por não está lá por ele...

Merda! – Eu sussurro. E pego as passagens.

Vinte minutos depois, já estou no apartamento que eu aluguei na cidade, pronta para afundar um bando de roupas na minha mala de viagem. Como era difícil arrumar um bom apartamento em Las Vegas por um preço acessível, e eu não tinha grana suficiente para me hospedar em um hotel já que não fazia a mínima ideia de quanto tempo eu passaria aqui, tudo que eu pude arranjar foi esse quarto decrépito em um prédio caindo aos pedaços, na área pobre da cidade. E incrível o que a quantia certa de dinheiro no lugar errado pode fazer. Eles nem pediram documentos, referências ou qualquer tipo de informação pessoal. Eu só tinha que pagar semanalmente, invés de mensalmente, e manter o bico calado sobre o lugar. E possivelmente nem devo ter que avisar ninguém que estou prestes a sair...

Ligo a luz do quarto, que treme um pouco até se manter instável. Só havia uma única lâmpada para iluminar o quarto inteiro, que se pendurava por um fio bem no meio do cômodo. Falando nisso, só havia um cômodo. Cozinha, quarto e sala, eram todas no mesmo lugar.

Eu vou até a cama, que ficava encostada na parede que ficava de frente pra porta, e a levanto, puxando minha velha mala debaixo dela. A deixo no chão e começo a recolher todas as minhas roupas que estavam jogadas por ai. Não me importava nem um pouco com a aparência daquele lugar, para falar a verdade. Eu só precisava de um lugar para dormir à noite e guardar minhas coisas. Só estava aliviada de minha mala ainda estar onde eu havia deixado...

Calcinhas, blusas, shorts, calças... Tudo dentro da mala em menos de um minuto. Vantagens da super-velocidade. As pessoas acham que ter super-poderes deve ser fácil, mas aquilo definitivamente era (e sempre foi) difícil. Não é um mundo em câmera lenta como as séries de TV mostram. Tudo corre rapidamente, e é sobre concentração e foco (a maioria das coisas eram sobre isso, na verdade). Não é só os poderes, é preciso uma coordenação motora sobre-humana também para não ir de cara em uma parede sempre que tentasse dar um passo.

E foi assim, como um passe de mágica. Mala arrumada, e ainda fiz questão de arrumar o quarto para o próximo otário que alugasse o lugar. Tudo pronto, agora era só ir para o aeroporto e passar três horas e meia de uma espera torturante para voltar ao lugar que eu mais odiava na Terra...

Me jogo na cama, os olhos encharcados de lágrimas. Mas sem derramar nenhuma. Deus... O que eu estou fazendo?

Fico deitada e puxo o travesseiro para perto de mim, o encaixando entre minhas pernas, me agarrando a ele. Querendo chorar, mas simplesmente incapacitada disso... E o pior é que eu sabia o porquê. No fundo, eu tinha a consciência que aquilo era sim o certo a se fazer. Mas quando o sangue esfriou, e o mundo deixou de se mover rapidamente, tudo ficou tão real... Eu não ia conseguir, tinha muito medo...

Penso no Professor, e penso nas meninas. Perder os últimos momentos dele, e abandona-las para lidarem com a dor sozinhas de novo... Não podia fazer isso.

Me levanto devagar, e fico sentada na cama. Um pouco mais, só um pouquinho mais de coragem, e eu conseguiria... Então tiro a nossa foto do bolso.

Ela estava velha, suas pontas já estavam gastas, mas a imagem ainda era bem nítida. Me lembro muito bem de quando ela havia sido tirada. Nós três tínhamos voltado de um chamado de emergência qualquer, um roubo de banco ou algo assim, e o Professor nos chamou para o jardim, dizendo que tinha uma surpresa esperando lá fora. Era uma câmera, bem em frente de casa. Nos reunimos e tiramos a foto... Florzinha no meio, como sempre, e Lindinha no ombro do Professor, e eu à direita, disfarçando um sorriso. “Sempre a mais durona, não é, Docinho?”, foi o que o Professor disse quando viu aquilo... Nunca compreendi totalmente o porquê de carregar essa foto. Sempre achei que fosse um jeito de me mutilar mentalmente, mas talvez eu a estivesse guardando para um momento como esse... Um empurrão, talvez fosse isso que aquela foto era.

Uma lagrima finalmente cai. Em cima da foto.

Me levanto e pego minhas coisas para nunca mais voltar. Estava voltando para Townsville...

Notas finais
Então, esse foi o capítulo! Espero que tenham gostado! Eu sempre reviso antes de postar, mas sempre a chances de uma falha passar despercebida -_- Não demorou pra sair esse capítulo porque, tipo, não achei legal deixar minha querida fic com um somente um prólogo por uma semana *-* E também meio que achei esse capítulo uma "continuação" do prólogo. Quer dizer, ele revelou bastante sobre o rumo que a história tá levando, e apresentou um personagem, e mandou a "protagonista" pra uma viagem... Mas como ele continuou exatamente de onde o prólogo parou, eu senti essa coisa sobre "continuação"... Pode parecer meio doido da minha parte, mas é porque é doido --' Só isso mesmo, obrigado pela atenção e por ler a fic até aqui! ^-^