Poderosas
5 A Lei
Notas iniciais
Na minha infância, eu costumava listar as pessoas que me importavam nos momentos que eu precisasse de forças. Inocência juvenil, naquela época isso funcionava. Pensar em todas as pessoas que eu queria proteger me impulsionava a fazer mais. Me dava proposito, direção. Essa lista era composta por: Minhas duas irmãs, as quais abandonei. Meu pai, que está morrendo. Bellum, meu exemplo na infância, que acabou de “tentar me matar”. E todo o povo de Townsville, dá qual uma boa parte odeia as Meninas Super-Poderosas.
Sim, inocência infantil. Ah, como eu sinto sua falta...
Me sento no caríssimo estofado de couro da limusine (e como eu sabia que era caro? Fácil. Dois motivos: 1 – Era a Bellum, e 2 — Só de sentar era possível notar que ele era, de fato, muito caro). Minhas roupas estavam estraçalhadas, fiapos se segurando por pouco umas com as outras, estava totalmente suja de poeira dos pés à cabeça, além do rosto suado e do meu sutiã, que ainda estava quebrado.
O interior do carro era muito melhor que muitos apês que eu aluguei durante os anos. Uma poltrona gigantesca cobria a limusine em um semicírculo, e pendurada no teto havia uma TV de tela-plana. De frente para mim havia uma mesa que saia do chão com duas taças de água em cima. Bellum estava ali, imponente, sentada ao meu lado. Me olhando de cima a baixo com um olhar de interesse. A limusine era iluminada por um serie de lâmpadas amarelas que se mantinham entre os cantos do carro, que ao bater no rosto de Bellum dava um efeito de dourado em sua pele, quase como uma estátua. A poltrona era de couro branco, assim como a mesa e o fôrro, o que estava me dando um certo enjoo. Mas não tinha certeza se era por conta aquele cenário plano e seco, ou por ter de olhar na cara da mulher que me quis morta a um minuto atrás.
Mas o que realmente estava me deixando puta era o fato de eu não estar tão zangada com a maldita Bellum. Poderia ser o fato de que eu realmente não via essa tentativa de assassinato como um verdadeira ameaça, ou talvez fosse porque a própria Bellum não estava vendo dessa forma também. Ela era mais esperta que isso. Tinha algo que me estava me dando uma coceira na nuca, do tipo que faz você querer coçar até atingir o cérebro para para-la. Segundas intenções. O ruim de estar perto da Bellum é que nada era tão simples, e cada movimento que ela dava tinha uma razão especial...
— Então... Somente eu que estou sentindo um clima tenso no ar? – Diz Bellum, em um ar zombador – Isso é um pouco constrangedor, não é?
Apesar de tudo, ela possuía um sorriso no rosto. Um sorriso orgulhoso e irritante. Do tipo que você sente vontade de arrancar do rosto da pessoa.
— Não tem whisky nessa coisa? Conhaque talvez? Algumas dessas bebidas de rico. – Pergunto.
Bellum aperta um botão de um painel no braço do seu lado da poltrona, e aquela taça de água desce em um buraco na mesa e em seu lugar surge um copo de whisky com gelo. O sorriso de Bellum se intensificado após aquele truque barato, e ela me aponta a nova bebida como se convidasse para me servir.
— Não tem puro?
— Claro — Ela aperta dois botões dessa vez, e o whisky com gelo é engolido pelo buraco assim como foi o copo de água, e em seu lugar se projeta um novo copo de whisky, sem gelo dessa vez – Vai querer a garrafa também?
Ela aperta outro botão, e mais um buraco se abre, dessa vez ao lado do copo, e dele se eleva uma garrafa de whisky, do tipo “extremamente caro”. O meu tipo de whisky, por mais que me irritasse dizer isso. Eu dou um gole, e o sinto queimar pela minha garganta.
— Como o álcool te afeta, Darcy? Estou curiosa...
Olho para ela com ódio. O fato dela ousar falar meu nome me aborrece, mas ao menos ela não me chamou de “Docinho”.
— Não me afeta tanto quanto eu gostaria... – Eu respondo, dando mais um gole – Mas eu compenso isso com a quantidade.
— Interessante.
— Você acha? Oh, espera... Acabei de lembrar... Não dou a mínima pra você.
Bellum solta um risinho do meu comentário, como se fossemos amiguinhas brincando de ofender uma a outra. A cada segundo, meu ódio por aquela mulher crescia cada vez mais, lenta e constantemente.
— Darcy, Darcy... Previsível e cabeça-quente como sempre... – Diz ela, com um sorriso zombador.
Quem aqui é previsível?! Eu ia esmagar a cabeça daquela mulher. Nós começamos uma batalha naquele momento. Não física, mas sim mental. Os olhos delas irradiavam determinação, enquanto os meus eram ódio puro, e assim nós lutávamos por uma falsa sensação de superioridade ali. Era inútil, mas eu não ia perder. Não sou só cabeça-quente, também sou cabeça-dura.
— Vamos parar com esses joguinhos infantis, querida. – Diz Bellum, revirando o olhar. Eu não ia discutir com ela sobre esse assunto. Estava cansada de ser marionete ali, na minha primeira hora na minha cidade natal que tanto não queria voltar – O motivo de você estar aqui é muito simples. Mas primeiro, tenho uma pergunta muito importante para fazer... Daqueles homens lá fora, quantos deles irão morrer?
— Que tipo de pergunta idiota é essa?
— Você entendeu a pergunta. Quero saber quantos daqueles policiais não vão poder mais ver suas famílias por sua causa.
— Não brinque comigo, Bellum – Eu disse, perdendo o resto de paciência que me restava. Eu avanço até ela em super-velocidade, e quanto mais chego perto, melhor posso ver o contorno do seu rosto. Aquela curiosidade infantil há anos atrás sobre aquele rosto misterioso e indecifrável. É quase cômico pensar que tanto mudou, mas aquele mistério ainda vive. Eu posso vê-la claramente agora, mas mesmo assim parece que estou encarando uma máscara. Não sei o que se passa dentro da mente daquela pessoa sentada ao meu lado. Mas eu sei de uma coisa. Eu estava com vontade socar aquele “rosto misterioso” até a máscara cair – Não brinque comigo.
— Responda a minha pergunta, Darcy. Ou prefere que eu fale? – Bellum estava a alguns centímetros do meu rosto. Seus olhos irradiavam uma explosão de sentimentos, e eu estava no meio da queda dos estilhaços. Como uma pessoa tão frágil como ela perto de alguém como eu pode me deixar tão à mercê? Ela não tremia, nem sequer franzia o rosto. Mesmo com toda minha raiva, ela me intimidava.
Eu não sabia mais o que ela queria de mim. Mas eu sabia de uma coisa.
— Ninguém vai morrer.
— Tem certeza? – Ela questiona, encostando suas costas na poltrona.
— Sim. Não entraria nesse carro se não tivesse. Dois deles... Tinham seus pulmões perfurados. Precisavam de atenção medica para ontem. Eu ia ajuda-los... Mas você abriu a porta, e eu entrei. Porque conheço você, Bellum. Para alguém que tentou me assassinar agora a pouco, eu sei que seus valores são fortes. Você não deixaria qualquer um morrer do lado de fora do seu carro...
E também não tentaria eliminar alguém sem motivo. Era essa a parte que mais me doía. Eu estava com ódio de Bellum, mas o que realmente me machucou não foram as balas, foi o que elas representam. Eu era uma ameaça. E mesmo sabendo que Bellum não tentou realmente me matar, eu sei o que eu era aos seus olhos agora.
Mas seus olhos relaxam por agora. E eu estava segurando lagrimas, não nos olhos, mas vindas de dentro do meu peito. Bellum estava com um brilho nos olhos e um sorriso no rosto.
— Gostei da sua resposta... Agora deixe-me dizer o porquê de você estar aqui – Bellum bate na janela que separa a parte de trás da limusine da cabine do motorista, e ela abre. De dentro sai uma mão segurando um aparelho semelhante a um celular, só que sem tela. Bellum coloca o objeto na ponta da mesinha a nossa frente, e aperta um botão no painel do seu lado (o mesmo que me serviu a bebida) – Tecnologia Utonium. Você vai adorar.
Então, uma imagem é projetada no ar, em cima de toda a superfície da mesa. Um holograma, em um cor azul-turquesa bem forte. As luzes da limusine se apagam em resposta as imagens, e o carro fica iluminado somente por azul, deixando-nos com a aparência de dois Avatars. O holograma estava cheio de imagens de satélite, câmeras de trânsito, perfis de diversas pessoas. Números, nomes, mais números, mais nomes. Uma das imagens era interessante, era um gráfico bem grande, com um mapa da cidade ao lado, e um grande ponto vermelho que piscava feito um radar que diminuía a cada piscada. Havia escritas no topo dizendo: “TOWNSVILLE: NIVEL DE ELEMENTO ‘X’ NO AR (ULTIMA HORA)”.
— Mas que porra é essa? – Eu disse, sem tirar os olhos de todos aqueles arquivos e dados – O que é tudo isso?
— Isso, Srta. Darcy, é a Lei dos Poderosos em todo o seu vigor...
— A Lei do quê?
Bellum levanta suas mãos em direção ao holograma, e controlando-o remotamente por algum tipo de sensor de movimentos, começa a vasculhar arquivos naquele meio de informações. Eu observo tudo, sem compreender o que ela procurava. No meio dos arquivos, havia um que se destacava, porque em sua maioria os documentos eram exibidos em um azul da cor do holograma, enquanto esse era completamente preto. Bellum amplia tal arquivo, e o vira para mim. Nele estava escrito em grande fonte: “LEI DOS PODEROSOS”
— Basicamente, nós possuímos a permissão do governo dos Estados Unidos da América de vigiarmos 24 horas por dia os seres superpoderosos que residem nessa cidade... Com alguns limites, é claro.
Eu “pego” o arquivo nas mãos e começo a ler. Resumidamente, ele permitia a vigilância completa e total de seres com poderes especiais em estado de emergência. Estado esse que só podia ser decretado pelo prefeito da cidade com justificava plausível. Se não for o caso, a vigilância só pode ser feita dentro dos parâmetros legais de privacidade.
— Que merda é essa? – Eu digo, afastando os arquivos pra longe de mim – Somos animais de zoológico agora para vocês?
— Ah, por favor, Darcy. Não seja tão dramática. Que tipo de reação você esperava que tivéssemos após o “incidente”? – Bellum se aproxima de mim – Você trouxe isso para si mesma.
— Não diga isso. Nunca mais fale sobre aquele dia perto de mim.
— Pare. Pare já. Você ainda não entendeu? Não existem mais ameaças vindas de você. Na minha cidade, você não é mais do que uma pessoa normal. E você vai agir como tal, entendeu?
Entendi. Sim, agora eu entendi.
— Foi para isso que você me trouxe aqui. Para me ameaçar... – Meu ódio foi elevado a decima potência agora. Eu queria simplesmente... Explodir!
— Não. Eu te trouxe aqui para dar um aviso. Eu estou te observando, Darcy. A cada segundo do seu dia. Você terá o direito de privacidade igual todos os outros, telefone, internet, e-mail, cartas, o que for. Seus passos não serão marcados também, não em circunstâncias normais pelo menos, então melhor você ser boazinha. Mas nós aprendemos, evoluímos, crescemos, e estamos preparados para você... Está vendo aquele gráfico ali? – Ela aponta para aquele mesmo gráfico enorme que eu estava observando antes. O do elemento X. – Nós descobrimos que o uso de seus poderes em grande quantidade exala traços de elemento X no ar. Isso significa que super-velocidade está fora de questão. Voar também. Levite dois palmos no ar e nós estaremos lá batendo a sua porta para te prender...
— Que piada. Eu acabei com todos seus soldados lá fora. O que você tem na manga que teria uma mínima chance de me parar?
Bellum ri. Não uma gargalhada, mas um risinho agudo que sai como um sussurro, que não havia intenção nenhuma de ser ouvido. Mas eu ouvi, e odiei. Só que houve algo além disso... Eu temi aquilo. Porque, de algum jeito, ela tinha algo planejado para mim. E um poder desses nas mãos de alguém como a Bellum... Era perturbador.
— Aquilo foi um teste, querida.
— Teste para quê?
— Para ver se você ainda é a pessoa que eu esperava que você fosse – Ela diz, suavemente. Mas tinha algo a mais. Era quase como um alivio da parte dela. Como se ela tivesse se confessado para mim – E você me deixou muito feliz por passar no teste.
— Um teste? Sério? Você colocou a vida daquelas pessoas me perigo para me testar?
— Eu não coloquei ninguém em perigo. Pelo contrário, eu acreditei em você. E aqueles soldados foram voluntários.
— Eu não ligo para o que você pensa.
— Sei que não. E sei que não existe lei para parar essa sua atitude arrogante. Mas agora é só isso, uma atitude arrogante. Não existe poderes nessa cidade, entendido? Eu estou botando minha confiança em você. Um favor para o professor... Mas se você fizer algo que eu considere ameaçador a essa cidade e seu povo, eu irei te destruir.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Bellum parecia agitada com aquela ameaça, mas não pelos motivos óbvios. Ela não estava com medo de mim. Parecia mais que ela estava com raiva de si mesma por ter que estar ali, naquele lugar, falando aquelas coisas... Já eu estava envergonhada.
— Desculpe, Darcy... Só que você é uma ameaça oficial a essa cidade. E nunca vamos esquecer o que você fez naquele dia. Nem eu, nem o povo de Townsville. O que você fez a todos nós. As suas irmãs. Seu pai. Os meninos. A mim. Ao prefei...
— Pare, só pare... – Eu digo, engolindo o choro. Doía demais. Simplesmente doía — Não preciso de favores vindos de você. E não mencione o nome do professor nessa conversa. Muito menos do prefeito...
Eu estava muito despedaçada para continuar zangada. De repente, uma onda de exaustão se apoderou de mim. Meu corpo estava doendo, e minha cabeça estava... Confusa. Eu só queria ir pra casa.
— Eu sei que você é uma boa pessoa, Darcy. Mas existe mal em cada um de nós. E pessoas como você faz com que pessoas como nós tenhamos muito a perder se esse mal vir à tona.
Sim... A pior parte é saber que no fundo, Bellum está absolutamente certa. E o mal em mim parece ser maior que a maioria. E minha conta está no vermelho com ela, com essa cidade, com minhas irmãs e com todas as pessoas ao meu redor. E isso simplesmente... Acaba comigo. Eu estou a menos de um dia em Townsville e já quero fugir de novo.
— Eu vou embora – Digo, voltando em direção a porta.
— Você merece isso. Deve estar exausta.
Ela está certa. E eu não quero mais ouvir Bellum falando coisas verdadeiras sobre mim.
Então eu abro a porta. E antes de sair, eu digo:
— Bellum... Eu sou boa?
— Espero que sim.
— Ok.
Então saio do carro.
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