PoV 2004

2 Capítulo II


Eu fiquei hesitante por uns segundos, mas acabei aceitando a oferta do homem de meia-idade. Disse pra ele que não queria atrapalhar, mas ele muito gentil acabou permitindo a minha entrada fazendo o maior gosto da minha presença.



​— Que atrapalhar o quê, minha filha! A tempestade só tá começando. Você quer um pouco do chá que acabei de fazer? — pergunta ele, com um leve sorriso.


— Ah, claro. Do que é? — pergunto.


— De hortelã. Me ajuda a dormir.


— É, pode ser. Um pouco.


— Essa época é a época das chuvas fortes. Você olha para fora o clima está todo limpo e aí quando vai ver está uma chuva daquelas. Mas isso graças às inúmeras árvores. Essas plantinhas tão queridas chamam fartura e prosperidade. Nunca queira passar por uma seca, viu, filha? É uma das coisas mais terríveis de se passar. Falo isso por experiência própria no Ceará.


— O senhor é de lá? — pergunto enquanto vou adentrando sua residência. Dei dois passos para dentro, pisando com cuidado no tapete de crochê para não molhar o chão de madeira polida. A sala parece uma cápsula do tempo intacta: o sofá de corino marrom cobrindo quase toda a parede, um móbile de fitas no teto, o ventilador de teto girando devagar e aquela TV de tubo pesada, de 29 polegadas, emitindo uma luz azulada enquanto a voz do Pedro Bial preenchia o ambiente.


— Eu sou o Mário. Mora aqui por perto? Nunca te vi no bairro — diz ele, me entregando a caneca de alumínio. O chá está forte, bem doce, exatamente como minha avó fazia.


— É verdade. Eu sou de longe. Bem longe. Ganhei uma viagem pra passar algum tempo por aqui na cidade. Mas a chuva me pegou de surpresa.


​— Sei como é. Essa chuva de domingo à noite sempre pega todo mundo desprevenido.


— É sempre assim — eu digo — O senhor conhece a família Campos? O senhor Abel, a dona Marcília? Eu estava indo em direção à casa deles quando apareceu a chuva.


— A família Campos? Sim, eu conheço o senhor Abel, mas a minha mulher que é mais amiga da Marcília. Eles são gente boa. O Juninho, filho deles, é bem sapeca.


— É. Ele sempre foi mesmo — digo em um tom baixo mas o suficiente pra arrancar do seu Mário uma pergunta com ar de estranheza e desconfiança.


— Você quer que eu te leve lá? Eu tenho um guarda-chuva. Se você estiver com muita pressa…


— Não, não precisa. Até acho que vou voltar amanhã, ou sei lá. Daqui a pouco eu peço um Uber e volto pra casa. Meu namorado vai sentir minha falta e eu preciso voltar antes que ele sinta minha falta.


— Sua falta? Me desculpe, o que seria um Uber? — ele pergunta sem entender.


— É um carro de aplicativo pra me levar pra casa. Er… um táxi.


— Você é bem corajosa de ficar saindo de casa assim à noite, sozinha. Ainda mais pelo que tá acontecendo.


— E o que é que tá acontecendo? — pergunto e ele, o senhor Mário, imediatamente aponta para a TV pra mostrar um noticiário no Fantástico sobre um caso que está sendo bem comentado na cidade.



A vinheta do Fantástico toca mudando pra uma sonoridade mais séria e alarmante ecoando na TV de tubo, seguindo direto para a bancada com a Glória Maria com seus figurinos bem anos 2000.




— “Uma tragédia cheia de enigmas e pontos cegos choca a cidade de São Paulo neste fim de semana e mobiliza o Departamento de Homicídios.

O publicitário Luiz Carlos Rugai, de 52 anos, e sua esposa, Alessandra Troitino, foram mortos a tiros na noite de quinta-feira dentro da própria casa, no nobre bairro do Pacaembu. Mas o que parecia ser um assalto violento rápido tomou contornos muito mais sombrios e complexos. A polícia trabalha com uma linha de investigação principal, mas contradições no local do crime deixaram os peritos perplexos. Nossa equipe teve acesso exclusivo às imagens e aos primeiros depoimentos. Veja na reportagem de Valmir Salaro.”



Valmir Salaro: — As viaturas da Polícia Militar com luzes piscando aparecem na fachada de uma grande casa no Pacaembu. Chuva fina caindo sobre o cordão do isolamento policial. Era por volta das vinte e uma horas quando vizinhos ouviram uma sequência de disparos vindos do casarão na Rua Amália de Noronha. Inicialmente, a suspeita recaiu sobre o filho mais velho de Luiz Carlos, o jovem bacharel em direito Larmartine Rugai, que mantinha uma relação conturbada com o pai devido a frequentes discussões financeiras na produtora da família.


Uma imagem de um imóvel em ângulo fechado aparece focando na porta de entrada sem sinais de arrombamento.


— No entanto, à medida que a perícia avançava pela madrugada, o cenário começou a se complicar. Diferente do que se esperava, as trancas das portas estavam intactas e nenhuma arma foi encontrada na cena. Mas o detalhe que intriga os investigadores está no segundo andar da residência. Luiz Carlos Rugai foi atingido no corredor principal, enquanto Alessandra foi alvejada na sala de TV. Porém, a perícia balística identificou projéteis de duas armas de calibres completamente diferentes — uma pistola 380 e um revólver calibre 38. A análise dos ângulos de tiro aponta para dois atiradores distintos agindo em perfeita sincronia dentro do imóvel.



A imagem corta para um perito da Polícia Civil, de jaleco e luvas, prestando depoimento com a voz levemente distorcida.


Perito: — “O intervalo entre os disparos das duas armas foi de milissegundos. Não há como uma única pessoa ter disparado ambas. Além disso, encontramos no chão do escritório um envelope de papel pardo lacrado, contendo chaves de um endereço desconhecido e um bilhete datografado com apenas uma frase: 'O tempo não apaga dívidas'. Isso muda completamente a dinâmica de uma briga familiar isolada."


Valmir: “Larmartine Rugai prestou depoimento durante toda a tarde de ontem. Ele nega veementemente qualquer participação no crime e apresentou um álibi confirmado por testemunhas de que estava a quilômetros do local no momento dos tiros. No entanto, a polícia ainda busca responder: quem eram os dois homens que entraram na casa sem forçar a entrada? E qual era o real significado do envelope deixado ao lado do corpo da vítima?”



Depois que a reportagem termina, volta para o estúdio focando no rosto do apresentador Pedro Bial. Ele não mudou tanto assim comparado ao que está agora. Só tinha apresentado duas edições do Big Brother.


Pedro Bial: — “O caso segue sob sigilo de justiça. A polícia não descarta a hipótese de uma execução encomendada ou a participação de um segundo familiar na cena do crime. Acompanharemos os desdobramentos ao longo da semana.”



— Que coisa medonha… — Seu Mário balançou a cabeça, dando um gole demorado no café e mantendo os olhos fixos na imagem da fachada da casa no Pacaembu — Dois atiradores? Esse mundo tá perdido mesmo. Nem dentro de casa, num bairro rico daqueles, a pessoa tem paz.


— Ah, o senhor vai ver muita coisa. Dizem que tudo melhora com o passar dos anos, mas pelo o que vi só fez piorar. O senhor ainda vai ver muita coisa — eu disse bem reflexiva por uns segundos, pondo minha mente no futuro outra vez.


Ajeitei a caneca entre as mãos, sentindo o calor do alumínio contrastar com o ar frio que vem do telhado. Ouvir aquela notícia na voz grave do repórter, vinda direto de uma TV de tubo com aquela imagem levemente estática, trouxe um choque estranho. Em 2026 eu não conhecia sobre esse crime, nunca tinha ouvido falar sobre ele. Eu ainda não era nem nascida.


— O senhor acha que pode ter sido o filho mesmo? — pergunto.


​— Ah, minha filha, pra mim tem caroço nesse angu — Seu Mário respondeu, inclinando-se para a frente e apoiando os cotovelos nos joelhos — Esse negócio de briga de pai e filho a polícia usa logo de cara porque é o mais fácil de explicar. Mas dois atiradores com armas diferentes e em sincronia? Isso tem cara de acerto de contas de gente graúda. Esse negócio de "o tempo não apaga dívidas" dá até arrepio na espinha.


— Isso é verdade — digo quando percebo uma sonoridade diferente ecoando de fora.


A chuva lá fora começa a diminuir de intensidade, virando uma garoa fina que batia nas folhas das árvores da Rua Sampa. Essa parecia a hora perfeita de deixar a casa do senhor Mário. De primeira tento arranjar a desculpa e digo que meu Uber… quer dizer, meu táxi, está esperando ali fora, atrás de uma das casas vizinhas.


— Mas como é que você sabe que tem alguém te esperando? Eu nem vi você ligar pelo telefone — ele diz um pouco desconfiado.


— Ah, me desculpe, senhor Mário. Eu agradeço pela gentileza do senhor ter me acolhido na sua casa, mas eu preciso ir. Eu preciso ir mesmo.



Seu Mário me olha com um certo espanto em seus olhos, sem entender a situação. Escuto um apitar ao longe e já compreendo que era a minha chamada.



— Qualquer dia eu posso voltar com mais calma. A propósito, meu nome é Marcela.


— Leve pelo menos um guarda-chuva. Acho que guardei por aqui.


Quando ele disse isso, ao se virar eu já passo imediatamente pela porta antes que ele me visse desaparecer. O cheiro de umidade e terra molhada inundou meus pulmões quando empurrei a porta de folha dupla. Lançando um último olhar para aquela sala aconchegante, para a TV de tubo que agora exibia comerciais com telas de resolução baixa e jingles antigos, com a incerteza de que teria chance de voltar ali de novo.


A chuva havia virado apenas uma névoa fina, mas o chão brilha sob os feixes amarelados dos postes antigos. Caminho apressada pelo meio da calçada, desviando das poças rasas. A Rua Sampa completamente silenciosa.

Me afastando até encontrar o lugar certo por onde cheguei, espero que aquele espaço de teletransporte apareça pra me levar de volta de onde parei.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.